27 setembro 2012

aquilo a que temos direito

A propósito do parecer do Conselho Nacional de Ética, que me parece estar ainda bastante longe de propor a eutanásia dos "degenerados" (ao contrário do que a recente tsunami de indignação afirma), fui consultar alguns quadros no site PORDATA.

Fazendo as contas muito em cima do joelho:

- Em 2011, o SNS representava 33% do orçamento geral do Estado. Em 2000, era 21%.
- Entre 2000 e 2010, a despesa estatal para saúde, por habitante, aumentou 23% (a preços constantes)
- Em 10 anos (de 2000 a 2010) o peso da saúde no orçamento do Estado subiu de 4,3 para 5,7% do PIB.

Espero que não me chamem Mengele se perguntar:
- Porque é que o SNS está a levar uma parcela cada vez maior do orçamento de Estado?
- Os descontos salariais para o SNS são suficientes para assegurar o pagamento destas despesas, ou o Estado tem de ir buscar a mais algum lado um montante em falta?

Pode ser que haja ainda muitos abusos para corrigir, mas é inegável que o fantástico nível de cuidados medicinais que são tecnica e cientificamente possíveis no nosso tempo têm o seu custo, e que este tem vindo a crescer. E não se trata apenas de Portugal: todos os países são obrigados a tomar decisões extremamente difíceis no que diz respeito aos cuidados garantidos pelo SNS.  
Tenho visto que na Alemanha o leque de cuidados prestados está cada vez mais fechado, enquanto os descontos respectivos no salário estão a aumentar. Foi até criado um desconto novo, para pagar os cuidados continuados na velhice.

Estas coisas não são simples. Nada simples. E mais vale não complicar a discussão com sobressaltos ideológicos que não levam a lado nenhum.
O problema é que a medicina evoluiu para um patamar de possibilidades que nenhuma sociedade consegue pagar, e não sabemos como traçar a fronteira entre o que é possível e o que deve ser considerado o direito inalienável de cada um.

happening

A propósito deste post da Rita (vão ler, vão ler) e da famosa fotografia da miúda gira abraçada a um polícia giro, ocorre-me que os nossos jovens nascidos e criados ali para os lados do facebook e da reality tv se entendem um pouco como um cartaz, um happening de si próprios.

Não me apetece decidir se está bem ou mal. Sei apenas que as nossas críticas à miúda que abraçou o soldado se baseiam em valores e referências que talvez sejam os da nossa geração cota, mas não são os dela. Estamos a fazer projecção e exigência anacrónica.

Vá, não compliquem, relaxem numa boa, fiquem cool e saboreiem a beleza do momento.
Era mesmo só isto:



(Ainda a propósito das críticas, gostei muito de um comentário no post da Rita: "A sorte foi nunca terem esmiuçado a intelectual que resolveu oferecer cravos aos soldados... se fosse hoje em dia estava lixada.")

estava eu para contar...

Estava eu para contar do casamento da nossa amiga, que foi diferente de todos os outros


***  na realidade, todos os casamentos alemães são completamente diferentes,
porque o mais importante é o que acontece na festa: uma série de sketches, canções com letras inventadas e outros divertimentos organizados pelos amigos dos noivos. 
Neste casamento, no sul da Alemanha, havia um grupo de amigos que sabiam danças do folclore da Renânia-Palatinado, de modo que passámos boa parte da tarde em bailes de roda, de inspiração palaciana: "vira para cá, vira para lá, adiante e troca o par". À hora do jantar, já me tinha rido com mais de metade dos convidados, já tinha tropeçado em pelo menos um quarto deles, e dado encontrões a outros tantos...
Também teve um momento delicioso, quando as netas da noiva (sim, parece que afinal a vida não começa aos quarenta - insiste em reinventar-se a qualquer idade)
prepararam para os noivos uma dança das cadeiras que nos encheu de riso e ternura: 
adultas todas apericaltadas a saltar para ficar com o último lugar disponível, e as gémeas de cinco anos furiosas a acusar: "fizeste batota! fizeste batota!"
Também gostei muito da própria cerimónia do casamento. Simples e festiva - e com um discurso feito de sabedoria e sensatez. 
Parece-me que vou ter de mudar de opinião sobre celebrações de casamentos civis: 
afinal também é possível fazê-los com muita dignidade!  ***


ia contar, mas optei por ficar longe do computador e saborear o fim-de-semana tão especial, os encontros com amigos de há um quarto de século - mergulhar no carinho e na profunda confiança destes que sabemos companheiros da nossa vida.

Logo a seguir a vida real pregou-me as rasteiras do costume (sempre a correr atrás do atraso), e daí a nada havia ainda mais a acrescentar: o concerto do Barenboim com a Saatskapelle Berlin.



***  ah! aquele Kol Nidrei de Bruch tocado com tanta poesia e sensibilidade pela Alisa Weilerstein! E o concerto para violoncelo e orquestra de Carter (a Alisa Weilerstein, a Alisa Weilerstein!), de que me senti tentada a gostar. Já a nona sinfonia de Bruckner foi um sarilho, porque me fez pensar na Filarmónica, a quem já ouvi esta peça duas vezes, no princípio deste ano. Ah, os contrabaixos da Filarmónica: quem os ouve uma vez, não esquece a diferença. Por muito boas que as outras orquestras sejam.  *** 

Estava eu a pensar como falar de tudo isto, e meteu-se o fim-de-semana e o Outono em Berlim. A luz do Outono e o mercado de sábado, com as barraquinhas de variadíssimos cogumelos e de saladas de flores e ervas.


Fotografei a salada, que ficou óptima, com alguns tomates muito aromáticos e um molho leve, de balsâmico suave, iogurte natural e sal de ervas:



E mais uma coisa e mais outra, e estava para publicar aqui alguns dos postais da exposição dos expressionistas,


por exemplo este do Max Pechstein na praia com a mulher e o filho, até parecia as nossas férias de Verão com o Matthias, a Christina em Berlim a preparar a viagem para a Bolívia e o pobre do rapaz a aturar sozinho os cotas em férias, "finalmente Verão!" diz no postal, e falta o balão para o rapaz: "nunca mais acabam as malditas férias..."


e este também, estas poucas-vergonhices que se mandavam pelos correios alemães, assim sem envelope nem nada, há mais de cem anos


*** (o facebook chegou demasiado tarde ao nosso mundo, perdeu-se um século de moralidade, estava-se mesmo a ver que um século que começou assim despautado só podia dar o resultado que deu...)  ***

Estava também para contar da "feira da ladra" junto ao Karaoke de domingo no Mauerpark

*** e de como é estranho ver todas aquelas coisas usadas e pensar que provavelmente é tudo roubado (carteiras roubadas, faróis para bicicletas roubados, às tantas os únicos honestos são os chineses da fancaria) (e um homem que estava a vender cinco bicicletas usadas - seria este o mesmo que tentou vender a Ginger da Rita? Ele desviou o olhar, o homem das bicicletas, talvez tenha reconhecido um certo ar de minhota nos meus olhos, talvez esteja traumatizado, o pobrezinho)   ***

e no momento seguinte já tinha era de dizer que o concerto do almoço de terça-feira no foyer da Filarmonia foi excepcional, não apenas pela peça, a sonata para violoncelo e piano em sol menor de Rachmaninow, mas pelo violoncelista, que me fez esquecer a Alisa Weilerstein. O Nikolaus Römisch, que toca na Filarmónica, e que toca tão bem tão bem tão bem, que só me apetecia ficar aqui o resto do dia a escrever tão bem tão bem tão bem. Cheguei a pensar "mal aproveitadinho, na Filarmónica de Berlim", mas não pensei muito, porque foi um daqueles concertos onde não cabem palavras. Excepto umas poucas: para dizer que o piano da Kyoko Hosono se combinava na perfeição com o violoncelo do Nikolaus Römisch.



***  e o andante, ah!, este andante (há uma gravação muito melhor, com o Yo-Yo Ma 
e o Emanuel Ax, que na Alemanha não se pode ver):  ***





Agora estou sem saber se vos revele que a seguir a esse concerto me desgracei na caixa da Filarmonia, e que é uma sensação formidável ter na mão bilhetes onde está escrito "Barenboim Kaufmann", além dos outros todos, todas as preciosidades.
Ó vida de mil faces transbordantes: poucas horas depois o Joachim desafiou-me para irmos a Praga este fim-de-semana. Praga, ou Jonas Kaufmann acompanhado ao piano por Barenboim?
Ganhou Praga. É um sonho antigo, e afinal está aqui ao virar da porta: cinco horas de comboio, pelo preço do Alfa Porto-Lisboa.

De modo que estou aqui a pensar que ainda não escrevi todos os posts que queria, e daqui a nada vou estar outra vez a correr atrás do atraso para escrever os outros posts que quero - algo me diz que também vão ser cheios de "Ah! o não sei quê" como este.

26 setembro 2012

do outro lado do espelho

Amigos russos vieram cá a casa jantar. Avisei: "vou fazer comida portuguesa!"
Eles comentaram: "Ai! Comida portuguesa!" - e eu não percebi muito bem o que queria dizer aquele "ai".
Enquanto eu terminava os preparativos para o jantar ficámos a conversar na cozinha, e o Joachim serviu-lhes tanto pão com azeite e sal de trufas a acompanhar tantos aperitivos de vinho do Porto que, quando chegámos finalmente à mesa, aposto que nem reparariam se eu lhes servisse comida chinesa da época da grande fome.
No final combinámos um jantar em casa deles. Avisaram: "vamos fazer comida russa!"
Pensei: "Ai! Comida russa!" - e de repente fez-se-me luz sobre o significado daquele "ai".

É muito triste sermos tão iguais, só que nos lados opostos do espelho...


24 setembro 2012

Carnaval, futebol... estereótipos de Brasil





Hoje o Dois Dedos de Conversa recebe visitas do Brasil - um texto da Laura Barile:



Carnaval, futebol... estereótipos de Brasil 

Começou com a corrupção. A conversa no banco da frente. Discutiam em uníssono os problemas do Brasil, com os argumentos que ouvimos sempre e algumas distorções históricas. Eram duas senhoras que o destino e a ideologia uniram num ônibus a caminho de Viracopos*. Da corrupção passaram aos sistemas políticos, numa inversão de fatos de dar orgulho ao mais conservador. “No Brasil, meu Deus, iam implantar um sistema comunista que meu Deus...” e a outra completava: “o Brasil não levantava nunca mais”, e um repeteco da primeira ecoava: “nunca mais...” Discutiram a presidenta Dilma na versão “bandida” (ladra de banco). Comentaram que a Europa tem um sistema socialista que não é, assim... comunista! E que só com muitas guerras é que se conseguiu vencer a União Soviética. Amém. Minha leitura não rendia, e mesmo depois de eu própria me render, apelando para os protetores auriculares, ainda ouvia perfeitamente a discussão, a cada comentário mais exaltada. Pensei em falar, mas a verdade é que os absurdos eram tantos, e tão bem colocados em uníssono, que não sabia o que, como, ou por onde começar a contestar. Seguiu-se um desfile de clichês: o problema do Brasil é que o povo não pensa. Não sabe pensar. É a minoria que pensa. Só querem saber de futebol e carnaval. E eu pensando comigo: se o povo só pensasse em futebol e carnaval ao menos seríamos uma nação mais alegre, mais em contato com nossas emoções e mais profundos desgostos – talvez mais democrática. O pensamento unitário é o que nos mata... Com o melhor argumento que poderia dar, interrompeu-me mais uma vez os pensamentos, dirigindo-se à companheira de viagem: “É bom conversar com alguém assim, sabe? Porque a gente pensa igual, tem as mesmas ideias. Sempre tem alguém que vem e discorda, sabe? Então não dá, por aí, para conversar sobre essas coisas com qualquer um”. Pronto. Ponto. Ganhei pontos em ficar quieta – mas não só por ela. A incapacidade crítica que ela aponta é a mesma que, com esse tipo de pensamento, reforça – à noção de uma população que não pode pensar senão o que é certo e que não pode conversar senão concordando. Isso – esse pensamento unitário – é a base de uma ditadura que controlou, perseguiu e cerceou a liberdade de expressão no Brasil por duas décadas, e é também a base do autoritarismo de esquerda que ela (por meio de trôpegos clichês) criticou. Não sabemos discutir senão tentando convencer os outros do que (achamos que) é certo... E o povo que só quer saber de futebol e carnaval... Ao contrário, é uma nação amarga e intolerante, que não sabe defender uma questão sem entrar em méritos passionais e doutrinadores. Que o povo brasileiro só pensasse em carnaval e futebol, antes fosse. Ganharia nossa humanidade.

* O Aeroporto Internacional de Viracopos fica em Campinas, cidade a aproximadamente 1h de São Paulo. As companhias oferecem ônibus para realizar esse trajeto. 


 **

A Laura Barile é uma cineasta brasileira. Escreve aqui apontamentos da vida, coisas deliciosas como esta:

Cronicazinha tragicômica: 
Sempre tenho dúvidas se ele disse “te amo” ou “tchau”. Então fico com medo de ele dizer “te amo” e eu responder “tchau!”, ou de ele dizer “tchau” e eu responder: 
— Eu também…

ou esta:

Hoje um menininho falou: “eu sou baixinho ainda. Amanhã eu vou crescer. Vou crescer até o céu.”
Acho que a gente cresce mesmo, até o céu.

sonata de outono



(texto descaradamente roubado do site do secretariado nacional da pastoral da cultura, que até me lembra - mal comparado! - um casino em Las Vegas: entra-se facilmente, e depois vai-se ficando por lá, preso de uma e outra coisa, sem se encontrar o caminho para a saída) (eh, pá, ainda só são nove da manhã de segunda-feira e já estou a fazer comparações patetas? Toca a fazer uma segunda tentativa. Descaradamente roubado do site do snpc, que lembra o parque de Muir Woods: entra-se facilmente, e depois vai-se ficando por lá, preso de uma beleza que fala cada vez mais fundo ao silêncio que fala em nós.) 





E o outono vai-se instalando. A princípio nem parece uma estação. É quase um estado de alma, este tempo assim um pouco vago, em declive delicado, com a chuva ainda rala (mesmo se em alguns dias chega por aí aos tropeções) e o vento que parece um miúdo a aprender a assobiar. Olhamos com íntima estranheza para a brevidade destes primeiros dias, dos quais já não nos lembrávamos. Nas árvores, as folhas tremeluzem, indecisas e iluminadas, transmutadas em incríveis tonalidades. Os frutos têm perfume e sabores densos, tão diferentes daqueles que se saboreiam no verão. 
Lembro-me de um poema de Miguel Torga, que gosto de pôr a tocar como uma pequena sonata de outono:

O que é bonito neste mundo e anima,
é ver que na vindima
de cada sonho
fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura que se não prova
se transfigura
numa doçura
muito mais pura
e muito mais nova

Neste arranque de outono, deixo-me demorar nas palavras: "a doçura que se não prova". Tendo o privilégio de acompanhar a vida de muitas pessoas, sei que esta não é uma questão que se possa iludir. Há um momento na nossa vida, ou há momentos nela, em que fazendo um balanço, sentimos que ficámos aquém dos nossos próprios sonhos. Há dias e estações da nossa vida em que nos sentimos mendigos de nós mesmos. Esperávamos isto e aquilo que não aconteceu.
Desejávamos uma plenitude, uma fulgurância, um clarão e o que temos é uma estreita e baça normalidade. Sentimo-nos, sem saber bem como, a viver sob tetos baixos. Há uma espécie de doçura prometida que nos escapa, que fica adiada, que começamos talvez a julgar que já não será para nós, tão inacessível nos assoma. Por vezes, este sentimento vem aos 70 ou aos 40 anos. Mas também surge aos 20 ou aos 30. Recordo aquela frase terrivelmente verdadeira de um romance autobiográfico de Marguerite Duras: «Muito cedo na minha vida foi tarde de mais». Esta difusa melancolia, este sentir que a luz que interiormente nos alumia se tornou fosca e sem alcance são experiências muito alargadas. Por isso se diz que não dependem propriamente da idade os outonos interiores que atravessamos.
Existem é modos diferentes de encarar essa experiência, que, no fundo, nos é tão intrínseca e comum. Podemos desistir simplesmente de esperar, e largamos a vida no parque de estacionamento do pragmatismo mais raso. Podemos trocar a doçura que não conseguimos, por um tipo de acidez quotidiana, uma desconfiança sistemática a que nada nem ninguém escapam, e que se vai espalhando, entre a ironia e o desalento, contaminando tudo. Ou podemos, e esse é o olhar mais necessário, perceber que «a doçura que se não prova/se transfigura numa doçura/muito mais pura/e muito mais nova».
O outono não é, portanto, o fim da história. Se o soubermos agarrar, é sim um ponto de partida avançado, que nos permite essa coisa urgente que é a "transfiguração" da vida, através de um paciente e esperançoso trabalho interior.

José Tolentino Mendonça
In Diário de Notícias - Madeira
Atualizado em 24.09.12         

23 setembro 2012

da noite ao silêncio



Boa noite.

relatório de actividades

Estou a assar uma perna de borrego. A receita dizia que era para assar durante umas 5 ou 7 horas, "mais hora menos hora não interessa" - era o que estava escrito (em alemão, mas só pode ser tradução de alguma língua mais ao sul...). Liguei o forno a 80 graus como mandavam, meti o tabuleiro lá dentro e zarpei para o karaoke no Mauerpark. Quando regressei, fui controlar o andamento do jantar. Bem... as cenouras ainda estão duras, a carne está morninha.
Desconfio que não estou a fazer borrego assado, estou simplesmente a dar uma demão de sauna ao bicho.

Se querem saber tudo: o karaoke estava jeitoso, e comemos um gözleme dos bons. Apetecia ficar por ali a pintar postais como os que vimos de manhã no museu Die Brücke: os artistas desse grupo arranjavam um cartão em branco, pintavam alguma coisa de um lado, escreviam meia dúzia de palavras do outro, e vai carta feliz voando. É uma ideia engraçada, e felizmente não se perdeu: de vez em quando, amigos pintores enviam-nos postais desses, geralmente aguarelas. A amizade inventa tantas maneiras belas de se dizer!

O dia esteve perfeito, feito de sol e céu azul, um pouco frio. O pintor já anda por aí, acompanhado por uma luz que nos reconcilia com a vida.
O Fox vai à varanda, pára de nariz no ar: fareja, fareja.
- É o Outono, Fox.

**

Quase me esquecia do mais importante: o nosso convidado de honra (coitado, nem sabe que vai comer borrego de sauna...) traz a sobremesa da Wiener Conditorei no Roseneck. Para quem não sabe: Tarte Cavalli, uma delícia de chocolate amargo. Podem comprar à confiança: se não gostarem como eu tudo.


programa para logo à noite



Ouvir a leveza e a transparência deste Allegretto de Beethoven interpretado por Simon Rattle. E a seguir ouvir Emmanuel Pahud na suite for flute (que mais parece um divertimento for flute, mas, lá está, nunca me perguntam a opinião) de Jörg Widmann.

Se carregarem no link podem ver um curto filme do ensaio.

É em directo, no Digital Concert Hall, às 19:00 (hora de Portugal).


Nota, só para um certo leitor deste blogue: programa para domingo à noite,  mas só se valores mais altos não se alevantarem!

(foto)

22 setembro 2012

um povo a caminho...



Cá entre nós: em termos de qualidade artística, do somos livres ao acordai! como canções símbolo de um movimento popular, já fizemos um grande caminho.
Isto vai!

acordai!



(agora vou dar uma voltinha pelos noticiários alemães a ver se esta música chegou cá)

21 setembro 2012

21 de Setembro de 2012


Estou a acompanhar no facebook a manifestação em frente a Belém. Vejo a praça a encher, já me ri muito com uma das frases ("Passos, escuta, és um fdp" - dos trabalhadores dos portos, pois!), vou sabendo o que se canta, parece que a primeira vez que cantaram o Acordai! foi um bocado caótico. À décima irá melhor, tenho a certeza.

Queria estar lá. A todos os que se dão ao trabalho de verter para o facebook imagens e comentários destes momentos: obrigada!

(Adenda: acabei de ouvir um bocadinho do Acordai! - esta gente do facebook é demais. E ainda há quem diga que "amigos", no facebook, é uma forma de dizer e tal. Amigos, sim! Hoje estão a ser muito meus amigos.)

(tanta gratidão, tanta gratidão, mas esqueci-me de onde e a quem roubei aquela foto!)

plano nacional de cinema



Há tempos li uma crítica de um livro, e depois esqueci o nome do livro e o do autor (triste vida), e é pena porque me pareceu muito interessante. Conta a história de um rapaz que está a ter más notas, e o pai deixa que ele abandone a escola, com a condição de verem juntos três filmes por semana. O livro vai avançando por esse filmes, e pelo modo como o rapaz vai amadurecendo com eles.

Lembrei-me disto ao ver a lista do plano nacional de cinema. Uma espécie de wishful thinking.

(foto: daqui)

**

Afinal foi facílimo encontrar o livro. Chama-se "The Film Club: a Memoir" e é de David Gilmour. Copio as críticas do site da amazon. E vou já pôr na minha wish list. Talvez seja um bom projecto para o inverno que se aproxima a passos largos: dar instrução cinéfila ao Fox. 

From Publishers Weekly

In this poignant and witty memoir, Canadian novelist Gilmour (A Perfect Night to Go to China) grapples with his decision to allow his teenage son, Jesse, to leave school in the 10th grade provided he promises to watch three movies a week with his father. Determined not to force a formal education on his son, former film critic and television host Gilmour begins the film club with Truffaut's The 400 Blows—with Basic Instinct for dessert. There are no lectures preceding the films, no quizzes on content or form: just a father and son watching movies together. Expertly tracing the trials and tribulations of teenage crushes and heartbreak, Gilmour explores not only his choice of films but also Jesse's struggles with his girlfriends and burgeoning music career. There are units on everything from undiscovered talent (Audrey Hepburn's Oscar-winning debut in Roman Holiday) to stillness, exemplified by Gary Cooper's ability in High Noon to steal a scene without moving a muscle. Gilmour expertly tackles the nostalgia not only of film but also that of parents, watching as their children grow and develop separate lives. With his unique blend of film history and personal memoir, Gilmour's latest offering will deservedly win him new American fans. (May)
Copyright © Reed Business Information, a division of Reed Elsevier Inc. All rights reserved.

From Booklist

In this sensitive memoir, Canadian film critic and novelist Gilmour tells of the bargain he struck with his son, 15-year-old Jesse, who was unhappy at school. Gilmour would allow Jesse to drop out if he would agree to watch three movies a week with his dad. Over the next three years, the two would wrangle over movies that the elder Gilmour thought his son would love but didn’t (A Hard Day’s Night) and experience the irrational thrills of “guilty pleasures” (Showgirls). More important, they edged slantwise, in typical male fashion, into more personal discussions of  big topics, such as sexual jealousy (Last Tango in Paris) and alcoholism (Volcano: An Inquiry into the Life and Death of Malcolm Lowry). At the same time, Jesse dealt with serious heartbreak, while his father struggled to find steady work and worried incessantly over whether he had made the right decision in allowing his son to drop out of school. Both for its smart, engaging movie talk and for its touching depiction of a father-son relationship, The Film Club gets two thumbs way up. --Joanne Wilkinson

dança e movimento, 15ª edição


A aldeia global é uma grande frustração: o mundo ficou suficientemente perto para sabermos uns dos outros, demasiado longe para estarmos realmente uns com os outros. E como gostaria de estar por estes dias em Ilhabela!

No próximo domingo, por exemplo:


(fotos tiradas do site do pés no chão)

Acordai!







O convite que recebi para o "Acordai!" vinha acompanhado pelo texto seguinte, da autoria de Ana Maria Pinto, a mulher que iniciou este movimento:

Vivi 7 anos em Berlim. Aprendi muito, a bem e a mal, sendo esta a minha mais importante lição: sou do mundo, mas pertenço à terra onde nasci. Sinto hoje o meu coração pulsar mais lúcido e mais convicto de que sou artista porque a Arte é o mesmo que Consciência e Evolução. E é como artista que me recuso emigrar, levantando a voz bem afinada contra quem me quer obrigar à subtração! Se um cantor alemão tem direito a trabalhar e a viver na terra onde nasceu, também eu vou lutar por esse direito! E é já amanhã!

Neste momento, o coro já vai em mais de seiscentas pessoas. Penso que o "Acordai!", com poema do José Gomes Ferreira e música de Fernando Lopes-Graça, vai ecoar por toda a Europa.
Nem sei como dizer o orgulho - e sobretudo a admiração - que sinto por estes artistas de Portugal.  



20 setembro 2012

delicadeza



Andava há que tempos para contar sobre o concerto do Leonard Cohen na Waldbühne. Quem quiser saber tudo, tudo, tudo, pode ir ler na Berlinda.

Quem só tiver tempo para o essencial, digo eu aqui, numa palavra: delicadeza.
Sinto-me sortuda por ter conseguido ver um concerto deste homem antes de morrer. Antes de morrer eu, claro - que ele, por este andar, continuará imortal.

18 setembro 2012

"se quisesse trabalhar para chulos tinha ido para puta"



(frases encontradas no mural de um amigo, no facebook)

Alguns "ditos" do 15 Setembro lidos na manifestação nos mais diversos locais:

eu não vivo acima das minhas possibilidades
as minhas possibilidades é que foram roubadas

o pior inimigo de um governo é um povo culto

vim sozinho, os meus amigos emigraram

em Portugal não falta dinheiro, sobram ladrões

o Povo adverte que o Governo prejudica o país

não somos filhos da democracia, somos pais da próxima revolução

a poesia está na rua

só falta os mortos serem roubados pelo estado

eles têm um pacto de não agressão
nós temos o nosso, de luta

eles decidem, nós penamos

eu mereço um futuro

devolvam-nos o nosso futuro

damos Passos pró abismo

estamos a dar Passos para trás

estamos a poucos Passos de ficar sem nada e só encontrar Portas fechadas

contra os ladrões marchar, marchar

tenho fome no estômago e sede de justiça na alma

não há pão para tanto chouriço

juntos podemos acender holofotes, iluminar túneis

com este governo ter emprego, ter casa, ter filhos ...
só se for no SIMS

eu queria ter um irmão, o meu país não deixou!!!

não hipotequem as nossas vidas para pagar o vosso desgoverno

não me expulsem do meu país

não quero Portugal governado por quem me quer ver a milhas

da minha casa ao trabalho são 1321 Km

quando todos emigrarmos a quem vão cobrar impostos?

hoje estou calmo, amanhã não sei

estamos fartos de xarope

já se votava outra vez

queremos sangue novo

com o governo a meter água nem com bóias o povo lá vai

o governo é como o meu marido
não sabe o caminho mas não pára para perguntar

um povo de cordeiros terá sempre um governo de lobos

quem cala não sente

no dia em que o povo acordar
os governantes não conseguirão dormir

acabou a crise! agora começa a miséria

hoje é o último dia deste desgoverno

se quisesse trabalhar para chulos tinha ido para puta

Cavaco cultiva tomates
no Farmville estão a fazer-te falta

Gaspar, o teu mal é sonho

Coelho volta para a toca

Coelho?
nem na sopinha!

16 setembro 2012

15 de Setembro


Obrigada a quem saiu para a rua com os cartazes da sua fúria.
Obrigada a quem criou um blogue com imagens do 15 de Setembro de 2012 e a quem enviou as fotos.

Vivam os portugueses!






(as fotos foram tiradas do blogue O QUE DIZ A RUA)

Adenda: quanto mais imagens das manifs vejo, mais me lembro daquele extraordinário primeiro primeiro de Maio. Talvez tenha chegado a hora de algo comecar a acontecer em Portugal. Algo que se escreve com o D de dignidade (como no cartaz), o D de diferente, o D de devir.

14 setembro 2012

eh, pá, já ando há dois ou três dias sem falar da Filarmonia...

A ver se corrijo isso antes que os clientes comecem a desconfiar que a casa ardeu.



Ontem fui a um dos concertos da Musikfest - a Rundfunk-Sinfonieorchester Berlin com o seu Marek Janowski. A peça forte era o concerto nº3 para piano, de Rachmaninov. Antes disso tivemos de aturar quarenta minutos de Henze, mas valeu a pena (e como me lembrei de uma horrorosa sopa de tomate que me obrigaram a comer uma vez em miúda, num restaurante alentejano a caminho do Algarve, antes de me servirem um inesquecível bacalhau à Brás).
O pianista, um garboso rapaz chamado Nikolai Lugansky, tocou furiosamente. Eu sou mais Grimaud, mas dizem que ele é um expoente máximo da escola de pianistas russos, comparam-no ao seu grande ídolo, Rachmaninov, e portanto no fim do concerto, quando o público se levantou para aplaudir arrebatadamente, eu aplaudi também com entusiasmo, não vá dar-se o caso de hoje para a amanhã ele se tornar o Pizarro russo e eu ficar com a cara do único magala que ia a desfilar com o passo certo.

Os Lunchkonzerte no foyer da Filarmonia já recomeçaram. Estive lá na terça, e foi excelente: Wies de Boevé no contrabaixo, Tomoko Takahashi no piano, peças de Haydn, Beethoven e Glière.
De Beethoven, tocaram as "12 variações sobre Ein Mädchen oder Weibchen".

Tema original:


Variações:


A última peça foi de Reinhold Glière - que eu nem conhecia. Quatro peças para contrabaixo e piano, op. 9 / op. 32 (1900/1908). Gostei muito - embora às vezes se aproximasse ligeiramente do género filme, que ultimamente me anda a enervar porque a Klassik Radio Berlin agora deu-lhe para aí, e uma vez ou duas tem graça, mas por sistema dá fastio, e se me lembro que daqui a nada vão começar com a música de advento fico tomada de um cansaço que nem vos digo.



Então era isto.

manifestação de 15 de Setembro em Berlim


Em frente ao Consulado de Portugal, na Zimmerstrasse 56, das 4 às seis da tarde.

A seguir passo o texto que acompanha esta iniciativa.
Penso que é importantíssimo sairmos todos para a rua, mas "Fuck Troika!" seria a última coisa que me ocorreria escrever num cartaz mostrado em Berlim - ou noutro sítio qualquer do mundo. Continuo a pensar que o problema não é a troika, mas o governo português, que enveredou pelo caminho mais fácil de tirar aos frágeis para não incomodar os poderosos - tenho a certeza que troika nenhuma teria como negar a defesa de um princípio básico: fazem-se as reformas que for preciso, mas sem deixar que os salários desçam abaixo de um limiar X de pobreza (que na Alemanha, já agora, é de cerca de 850 euros líquidos mensais)
Incomoda-me que nesse texto os portugueses se apresentem como vítimas de um saque. Visto do lado da Alemanha, cujo Tribunal Constitucional acabou de aprovar um pacote de ajuda que pode vir a custar 2.500 euros  a cada alemão, este tipo de argumentação pode ser um tremendo tiro pela culatra. Sabem o que é que os alemães vos vão responder, nas mesas de café? "Estão a saque agora, é? Mas quando assistiram impávidos e serenos à construção desenfreada de auto-estradas, ninguém se queixou. Quando deixaram instalar internet numa escola que seria (e foi) destruída na semana seguinte, ninguém se queixou. Quando o presidente da República fez a sua mensagem de Natal em frente a três pinheiros - três! - profusamente decorados, ninguém foi para a rua gritar que o país estava a saque. Mas pronto, está bem. Se é o que querem, é o que terão: a troika vai à sua vidinha e deixa de vos saquear. Resolvam vocês os vossos problemas. Ponham vocês ordem na casa."  

Se fosse a essa manifestação (não posso ir, este sábado tenho um casamento inadiável) levaria cartazes para informar na Alemanha sobre o que se passa em Portugal: em quanto vai a taxa de desemprego, quantos euros por mês vão tirar agora a quem já ganha menos de 500 euros líquidos, etc.
E afirmaria princípios claros: esta recessão induzida é o maior inimigo do euro - as contas públicas não se podem equilibrar à custa dos pobres - o caminho não é criar pequenas Chinas no seio da UE

***

Fuck Troika! Wir wollen unser Leben!

Am Samstag 15. September 2012 werden in vielen Städten in Portugal und Spanien mehrere Tausend Menschen auf die Straßen und Plätze gehen, um gegen die zerstörerischen Sparmaßnahmen zu protestieren, die von der Troika (Europäische Kommission, Europäische Zentralbank und Internationaler Währungsfonds) diktiert werden. Sogar in Brasilien werden Solidaritätsaktionen geplant. Unter dem Motto "Que se lixem os troikistas" werden die Protestierenden in Portugal mit Töpfen und Kochlöffeln ihre Empörung lautstark kundtun. "Sie haben uns gespalten, um uns zu unterdrücken. Wir vereinen uns, um uns zu befreien. Es ist Zeit für etwas Außergewöhnliches."


The international call from Portugal:

Screw Troika! We want our lives!
15th September, 17h, Lisbon and other cities

We must do something extraordinary. We must take the streets and the squares, the open roads, the side roads, the countryside. This silence is killing us. The noise of the mainstream media echoes in the silence, replicating that silence, weaving webs of lies that numb us and kill our desire. We must do something against submission, defeat, against the stifling of ideas, against the death of our common will. We must summon once more the voices, the arms and the legs of us all, knowing our present and our future are decided on the streets. We must win over fear, this fear that has been skilfully set and spread around us, and understand, once and for all, that we have almost nothing left to lose, and that the day will soon come when we will have lost it all, because we kept to ourselves, we felt alone, we gave up.

The plunder (loan, rescue, ransom, bail out, whatever lie they chose to make us cave in) has begun, and, with it, countless ravishing policies, whereby unemployment, precariousness, poverty and social injustice will rise dramatically, most of the state's assets will be sold out, social welfare, education and health (with the national health system in its death throes) will be severed, cultural and public services will become obsolete – all in favour of people and companies that get rich with the speculation on a country's default. After one more year of austerity under external surveillance, our perspectives, the hopes of the greater part of Portugal's residents, are bleaker than ever.

The austerity imposed upon us to destroy our dignity and life does not solve our problems but only stifles democracy. Those who accept to govern us under the Troika's Memorandum are giving up on the fundamental tools for our country's management, giving them away to speculators and technocrats, on the basis of an economic model favouring the survival of the fittest and the strongest, just like in the jungle, neglecting our expectations as a community, our living conditions, our dignity.

Greece, Spain, Italy, Ireland and Portugal are hostages of Troika and its financial speculation. They have lost their sovereignty and get poorer every day, as is bound to happen to all countries submitted to austerity. Against the inevitability of this compulsion to linger and die, we must do something extraordinary.

We must build alternatives, step by step, springing from motivated populations, from the citizens of those countries – Greece, Spain, Italy, Portugal, Ireland - and of each and every one brought together, acting together, fighting for their lives and uniting their voices.

If they want to bend us, force us to accept unemployment, precariousness and injustice as a lifestyle, we shall answer with the power of democracy, of liberty, of motivation. The power to fight back. We want to take the decisions of the present in our hands, so that we can build a future.

This is, therefore, a call to all men and women from diverse areas of activity and political sympathies. We appeal to everyone - individuals, groups, movements, associations, non-governmental organizations, syndicates, political structures and parties - to march together on the street on the 15th September.
They've divided us to oppress us. We will unite to free ourselves!




25.9. weitere Demo:
Athen, Berlin, Madrid gemeinsam gegen Sparpolitik!
Alexanderplatz, Weltzeituhr, 18 Uhr

13 setembro 2012

depois de mim virá...


Abro o facebook e vejo que a Manuela Ferreira Leite se tornou repentinamente numa bandeira da mesma esquerda que até há bem pouco tempo a ridicularizava sem dó nem piedade, e muitas vezes sem razão.
Assim no meio do ruído, até me desoriento: isto parece mais uma montanha-russa de palhaços que um debate sobre o presente e o futuro do país.

12 setembro 2012

não é por aí, pessoal!



Tenham paciência, pá, mas estas coisas são manipulações do mais barato que há.

A troika veio porque o Estado português estava a meia dúzia de semanas de não poder pagar os salários dos médicos, professores, etc. nem as reformas, nem nada - já não se lembram?
Se nessa altura alguém emprestava dinheiro a Portugal, era por juros muitíssimo mais altos que estes negociados com a troika.
Sem a troika, não estávamos em depressão, tínhamos mergulhado instantaneamente no caos total. Se aceitámos a troika, foi porque não havia outra saída.
Não venham agora com filmezinhos simplistas tentar iludir-nos que estaríamos agora muito melhor se a troika não tivesse vindo.

Que tal fazer um esforço para separar o bebé da água do banho?

este é o momento

Continuando o tema do post anterior:

Parece que estamos quase todos de acordo que é preciso salvar o euro. O que é importante agora debater, a nível europeu, são os custos sociais dessa operação e os limites abaixo dos quais nenhum país pode descer. E fazê-lo num diálogo sem preconceitos (especialmente sem preconceitos contra os alemães - tenho a certeza que o povo alemão seria o primeiro a indignar-se e a criticar os sacrifícios impostos aos mais pobres dos portugueses: a descida brutal dos salários mais baixos, o corte dos abonos de família - entre outros exemplos. E sem desconfianças infantis "o que a Alemanha quer é comer-nos as papas na cabeça" - caramba, o que nos faz desconfiar assim à partida do bom-senso e da capacidade de negociação dos nossos governantes? Aaaah, desculpem, não perguntei nada, esqueçam).

Mais ainda: é cada vez mais importante desenhar um modelo de crescimento económico para a União Europeia como um todo, e articular as políticas financeiras e fiscais. Só a união - a verdadeira união - faz a força. Ou isso, ou continuaremos nos nacionalismos e no salve-se quem puder.

Mas voltemos ao Portugal de Setembro de 2012, e a um pormenor fundamental: não foi a Angela Merkel que disse para baixar os salários. A Angela Merkel simplesmente insiste que os países têm de equilibrar as suas contas. Foi o Pedro Passos Coelho que optou por espoliar os pobres em vez de se dar ao trabalho de (vou citar, de um comentário lido noutro blogue) acabar "com as cunhas, as PPP, os Institutos Públicos, as Fundações, as viaturas, os cartões de crédito e mordomias afins, os gestores e consultores pagos a peso de ouro, as despesas desmedidas da Presidência e da Assembleia da República, a fuga aos impostos, a protecção aos mais ricos e aos lobbies instituídos. Prendam quem prevarica e vão ver quantos milhões se poupam por ano. Talvez até dê para não aumentar a taxa da Segurança Social..."

Há que deixar a Angela Merkel em paz. Isto não está para bodes expiatórios - outro sofá do nosso descontentamento. Este é o momento de identificar os verdadeiros responsáveis da miséria e exigir-lhes responsabilidades. O nosso primeiro-ministro que não venha com a desculpa de "foi a mamã que mandou". Ele já é maior e vacinado, e foi a ele que o povo português deu o seu voto: é o primeiro-ministro dos portugueses quem tem de responder pelas decisões que toma. É ao nosso primeiro-ministro que exigimos princípios de equidade, justiça e transparência na escolha das medidas necessárias à recuperação do país, e a competência para desenhar com os parceiros europeus um rumo comum para a União Europeia.

enquanto isso, na Alemanha...



Continua a fazer-me imensa confusão o que se diz em Portugal sobre o que se diz na Alemanha. Nada como a fantasia, o preconceito e a projecção psicológica para ocupar os espaços mantidos vazios pela ignorância.

Por estes dias, em que o Tribunal Constitucional deliberou sobre a entrada da Alemanha no Pacto do Euro (lembro que antes do Verão deu um valente puxão de orelhas à Angela Merkel por andar a tomar decisões sobre como salvar o euro à revelia do normal funcionamento democrático alemão - e estava capaz de apostar com quem quiser que o normal funcionamento democrático alemão não teria resultados menos drásticos para os países do sul, muito pelo contrário), por estes dias, dizia, a revista Stern tem andado numa extraordinária campanha a favor do euro.
Sobre a revista da semana passada já escrevi aqui.
Hoje dou-me de novo ao trabalho de traduzir (rapidamente, já se sabe) um artigo de opinião de Hans-Ulrich Jörges, da edição de 6 de Setembro.


Nota prévia: Konrad Lorenz escreveu "quando a bandeira adeja, a razão vai para a trompeta", referindo-se à ligação entre ideias nacionalistas e marchas militares. Há quem pense noutra "trompeta" quando se fala em "ter a razão na trompeta". Dado que neste texto nem sempre é claro a que trompeta é que o autor se refere, limitei-me a traduzir a palavra literalmente. Interprete o leitor como melhor aprouver à sua razão.


A razão na trompeta

A arrogância em relação ao euro tornou-se uma obstinação dos alemães. Começa a ser tempo de nos despedirmos dos ERROS e das ILUSÕES, tempo de perceber que só temos a ganhar com a Europa

Hans-Ulrich Jörges, Stern 6.9.2012

É insuportável. A burrice do orgulho nacionalista patente no barulho que envia a nossa razão para a trompeta. As tiradas depreciativas sobre os países do sul, recortadas como confetti para os títulos dos jornais - o sul que aprecia a sesta e só quer o nosso rico dinheiro. O clamor do jornal Frankfurter Allgemeine contra a inflação, que um banqueiro com passaporte falso e genes monetários de romano decadente vai lançar sobre nós. Estamos mergulhados na miséria do euro. A autocompaixão e a fúria tentam apoderar-se da alma alemã.
E que tal se tentássemos tirar a nossa razão da trompeta? Se começássemos a aceitar a Europa e a sua moeda frágil - defendê-la com tudo o que temos, com todos os que estão connosco, e contra todos os que a querem destruir? Se nos despedíssemos do nosso auto centrismo, dos erros e das ilusões que transportamos connosco vindos da era das paixões nacionais, quando o marco alemão funcionava para os alemães como substituto do patriotismo traído?
Começa com a ilusão de sermos os mestres e o modelo da Europa. Sim, foram os alemães que, no início do euro, impuseram aos outros países severos critérios de estabilidade. Mas também fomos nós os primeiros a dar o exemplo, no tempo do chanceler Gerhard Schröder, do impune desrespeito dessas regras. Espalhámos o veneno da dívida pública desordenada, do qual provaram os gregos, e não só. Hoje impomos à Europa poupanças públicas que estrangulam os países, mas nós próprios não poupamos um único cêntimo. Gastamos a rodos, alimentados por generosas fontes fiscais. Se tivéssemos de poupar como os espanhóis, a nossa cómoda partidocracia rebentava.
Além disso, acreditamos que, por termos a economia mais poderosa do continente, nada de importante deve ser decidido à nossa revelia. Por termos as bolsas mais recheadas, concedemo-nos um poder de veto. O que é insustentável. Os outros podem organizar maiorias contra nós - temos de suportar isso.
E temos de ter a superioridade de sermos capazes de reconhecer que os outros podem ter razão. No Banco Central Europeu isso já aconteceu. O presidente do Banco Central Alemão, Jens Weidmann - isolado no conselho do BCE, com apenas um voto, tal como o colega de Malta - agita-se contra a compra de títulos da dívida de Estados em dificuldade, para baixar a pressão dos seus juros. Se fosse ele a mandar, o euro já não existia. Que sorte termos o italiano Mario Draghi à frente do BCE! Defendeu o euro dos ataques de especuladores anglo-americanos, de forma enérgica e criativa. O que é um óptimo motivo para repensarmos os nossos preconceitos sobre os dirigentes que há no Sul.
É também motivo para enterrarmos o mito do Banco Central Alemão. O banco central de uma região cuja moeda está em crise não se pode restringir à luta contra a inflação. Porque, primeiro: apesar da gritaria, nada indica que haja inflação - a desvalorização monetária na Alemanha anda pelos 2%. Segundo: no passado, o Banco Central Alemão também agiu de forma política. Em 1992 e 1993 injectou milhares de milhões para defender o sistema monetário europeu contra ataques especulativos. O então ministro das Finanças, Theo Weigel, recorda que num intervalo de quatro semanas foram entregues em segredo 90 mil milhões de marcos à França, para estabilizar o franco. Desde a crise financeira de 2008, o Banco Central americano já comprou a Washington títulos no valor de mais de 2,3 biliões de dólares.
Podemos, ou melhor, devemos ajudar a suportar as dívidas dos nossos parceiros? Os tratados europeus proíbem-no, mas já o fazemos há muito. Os pacotes de salvação para a Grécia, Espanha, Portugal e Irlanda não são outra coisa. Tal como as compras de títulos pelo Banco Central Europeu, cujo risco é partilhado por todos. O que está correcto. Se formos capazes de quebrar o ciclo de endividamento e de controlar melhor as finanças europeias, podemos até aceitar os Eurobonds (títulos de reembolso da dívida) e mesmo uma isenção da dívida. Nesse caso, sim.
O nosso grande erro consiste em pensar que podemos invadir o mundo inteiro com as nossas exportações, com salários baixos e uma cotação do euro favorável, sem ajudar os europeus que compram os nossos carros e as nossas máquinas. Temos o maior interesse em manter a liquidez dos nossos clientes. O regresso ao marco provocaria uma valorização de cerca de 40% - colapso nas exportações, desemprego de milhões. Os nossos empréstimos de auxílio também estariam perdidos. O marco ficaria mais caro, e tornar-se-ia o nosso castigo.
O euro foi um projecto político, e foi a condição imposta aos alemães para autorizar a reunificação da Alemanha. Hoje é também uma garantia da economia, base do nosso bem-estar. Com a Grécia. A seguir, com a Polónia. E um ano destes com a Turquia de economia emergente.    

***

Traduzi. Não concordo com tudo. Sobre certos pontos poderia argumentar de outra maneira. Mas dá uma ideia do que anda a ser debatido na Alemanha. Convinha que nos outros países se levantassem vozes para se unir a esta (e para a completar, e para se contrapor a ela no que for necessário).


aos curiosos que vêm do Boas Intenções em busca de um chorrilho prometido

(Rita, um dia destes hádesver)

O chorrilho não é aqui, é no Sinusite Crónica, pela pena do Vasco Mendonça.
Podem ir, à confiança, garanto que não sairão decepcionados.

Só trocaria uma coisa: em vez de filho-da-puta, escreveria bate-na-avó.
Porque nós não temos culpa de quem nos pôs no mundo, mas somos responsáveis pelos nossos actos. Quero lá saber quem era a mãe destes energúmenos - o que é grave é que eles não têm vergonha de tirar aos mais frágeis e dependentes da nossa sociedade. Batem na avó paralítica, os poltrões, e andam convencidos que são estóicos.

A verdade, Rita, é que chegámos a um ponto em que os palavrões não se adequam. Os palavrões servem como escape para a zanga, aliviam. São uma forma de sofá.
Este é o momento de procurar as palavras exactas para recusar a ignomínia, em vez dos palavrões que nos permitem continuar a aguentar apesar de tudo.






Os locais para a manifestação do próximo sábado estão listados nesta página.

***

Para memória futura, copio para aqui o post do Vasco Mendonça:


Terça-feira, 11 de Setembro de 2012
Aqui que ninguém nos ouve
Acabei de ouvir Miguel Relvas dizer, com o seu já habitual ar de sabujo, que o apoio aos mais desfavorecidos é uma preocupação permanente deste Governo. Perante a impossibilidade de ser ouvido por esta gente, perante esta espécie de surdez desprovida de qualquer noção de civilidade no serviço prestado ao país, vou escrever como se eles não nos estivessem a ouvir.

Que país é este que aceita que um bando de filhos da puta confisque impunemente o resultado do trabalho de milhões de pessoas? Quão insensível é preciso um bando de filhos da puta ser para anunciar ao país uma redução do salário mínimo? Eu sei que muita gente sente já ter assistido a isto antes, mas este não é um bando de filhos da puta qualquer. É uma espécie refinada de filho da puta, tão perigosa pela sua ignorância quanto pela capacidade inesgotável de mandar um país inteiro para o caralho que o foda. Bem sei que é um bando de filhos da puta com maioria absoluta. Infelizmente, demasiados eleitores desconheciam, à data das eleições, que estavam a mandatar um bando de filhos da puta com tão especial vocação para foder o mexilhão. Quiseram acreditar que este não era um bando de filhos da puta. Infelizmente, jamais imaginaram que este viesse a tornar-se o maior bando de filhos da puta que o país já viu no poder, e a mais séria ameaça ao modo de vida de todos os que diplomaticamente têm aceitado a pior forma de governo, salvo todas as outras.

Está ali um bandalho dum funcionário descansado na televisão a dizer-me que as empresas são locais de cooperação entre patrões, empregados e a cona da mãe dele. Amigo: locais de cooperação o caralho que ta foda. Este pulha dum cabrão, que nunca trabalhou numa puta duma empresa na vida, assim como a maioria destes inefáveis cabrões, que eu podia alegar não terem outro nome, não fosse o facto de já os ter apresentado como filhos da puta, mas dizia eu, este filho da puta, bandalho e pulha dum cabrão, sobejamente merecedor de todos os insultos que me forem ocorrendo, diz-me que a empresa é um local de cooperação. As empresas, cabrão desumano, são locais onde as pessoas convivem de forma mais ou menos saudável com um modo de vida/ocupação de tempo que, de forma mais ou menos saudável, aceitam ao longo de parte das suas vidas. Então explica-me lá, ó javali cagado pela arca, em que é que uma empresa é um local de cooperação, e não uma desesperada forma de prisão, quando um bando de filhos da puta destrói qualquer possibilidade de as pessoas terem uma remota esperança de construir algo edificante a que possam chamar vida, esperar que esta subsista, se mantenha e evolua positivamente sem a ajuda, mas especialmente sem a constante sabotagem, de um bando de filhos da puta. Se o referido bando de filhos da puta nos estivesse a ouvir, ouvir-se-ia por esta altura um deles dizer, de forma inacreditavelmente ponderada, dotado da mais fina filha-da-putice - que este bando de filhos da puta confunde com elevação, humanidade, sentido de estado e afins – diria que eu, e vocês todos, passámos estes anos todos a viver acima das possibilidades.

Mas quais anos, meu filho da puta? E quais possibilidades? Trabalho que nem um cão há 6 anos, a tempo inteiro mais as horas todas que não me pagaram, e o número de reduções salariais que tive, impostas por este bando de filhos da puta, é já próximo do número de empregos que tive na minha ainda curta carreira. Comprei um carro em segunda mão, uma mota para poupar no que não podia gastar com o carro, e vou jantar fora e ao cinema. Comprei uns discos, uns livros, fiz meia dúzia de viagens baratas, comprei uns móveis do Ikea e, durante o processo, paguei uma renda e uma catrefada de impostos. Vá lá, tentei ser feliz sem pedir ajuda a ninguém nem ir preso. Aceitei o mais serenamente que pude as regras do jogo, isto é, trabalho, trabalho e trabalho para usufruir do resto e conservar, em doses iguais, a saúde mental e a ambição, a primeira das quais começa a desvanecer-se, como se lê. E, no final de uma semana de 60 horas de trabalho que aceitei de bom grado por considerar justa e saudável a "relação de cooperação" mantida com quem me paga, ligo a rádio e é-me anunciada, por um filho da puta de currículo construído a favores, é-me anunciada a ideia peregrina com que este bando de filhos da puta, sem critério nem humanidade, resolveu premiar um país inteiro, que na sua maioria vive em muito piores condições do que eu.

Reduzir o salário mínimo? Aumentar ainda mais a precariedade de quem trabalha a recibos verdes? Transferir uma soma obscena de dinheiro dos trabalhadores para as empresas num país com clivagens sociais e económicas absolutamente trágicas, numa esperança infundada de que isso promova emprego? Isto já não cabe na cabeça de ninguém, e há um bom motivo para existir hoje uma impensável maioria que vai de António Nogueira Leite a Bagão Félix, passando pelos 4 sem abrigo que contei de casa até ao trabalho, mais as lojas falidas. Não é simbolismo nem retórica nem injustiça poética: isto é a vida, conforme ditada por um bando de filhos da puta, a abater-se sobre um país inteiro, dia após dia, cêntimo após cêntimo, impossibilidade após impossibilidade. Haverá um pingo de decência nestas cabeças? Milhões de vozes manifestam em uníssono a vontade literal de esganar estes filhos da puta, ao mesmo tempo que consideram, infelizes, a hipótese de fugir do seu próprio país, e estes filhos da puta aparentam não sentir nada. Foda-se, reduzir o salário mínimo. Há gente que merece o pior de nós. E é assustador que aí se inclua o Governo do meu país.




11 setembro 2012

11 de Setembro de 2001

Ao ver as imagens das torres a cair, e das pessoas a cair das torres, não posso deixar de lembrar outro crime que aconteceu nesse 11 de Setembro de 2001: o modo implacável como as televisões americanas tentaram passar dos palestinianos a pior imagem possível.



Nesse dia, vi este filme dezenas de vezes, sempre a seguir a imagens das pessoas que se atiravam das torres.
De nada valeram as dezenas de comunicados de grupos islâmicos e de políticos palestinianos a condenar aquele ataque. De pouco valeram as explicações sobre o contexto em que aquela imagem foi fabricada. Como se condicionados por um toque de campainha, é esta a sequência que o dia deixou gravada nas cabeças de muitos: pessoas naquele horroroso cair, um grupo de palestinianos a aplaudir.

Lembrarei também o seu oposto, um sinal de decência extrema no interior do inferno: os irmãos Naudet estavam a filmar nessa manhã com bombeiros em Manhattan, a poucos quarteirões do WTC. Após o primeiro ataque, correram para o local, e chegaram a filmar no interior de uma das torres. No documentário 9/11 ouve-se com bastante frequência, vindo da rua, um certo tipo de estrondo. Eram os que caíam. Eles fizeram a escolha do pudor: não alimentaram as câmaras com essas imagens da tragédia.

pensando bem, o nosso Pedro é mais que um pai para nós



(E aquela coda sobre o nariz do Markl? Humor do melhor!)

dedicação


Provavelmente já todos conhecem esta fotografia e a história por trás dela - o cão velhinho e doente, o dono que o leva para a água para lhe aliviar as dores. Schoep and John.

O Fox só entrou na nossa vida há cerca de mês e meio, e já é parte indispensável de nós.

Vejo esta fotografia e nem quero pensar como vai ser quando o Fox ficar velhinho e partir (daqui a muitos, muitos anos, claro - dizem que os portugiesischer Rafairoh têm sete vidas).

10 setembro 2012

carta de Eugénio Lisboa ao primeiro-ministro

Encontrei esta carta, do escritor e ensaísta Eugénio Lisboa, no blogue Da Literatura.
Gostei tanto dela, que a copio para aqui, juntamente com a nota biográfica que é da autoria do Eduardo Pitta - a quem agradeço a partilha.


CARTA AO PRIMEIRO-MINISTRO DE PORTUGAL

Exmo. Senhor Primeiro Ministro

Hesitei muito em dirigir-lhe estas palavras, que mais não dão do que uma pálida ideia da onda de indignação que varre o país, de norte a sul, e de leste a oeste. Além do mais, não é meu costume nem vocação escrever coisas de cariz político, mais me inclinando para o pelouro cultural. Mas há momentos em que, mesmo que não vamos nós ao encontro da política, vem ela, irresistivelmente, ao nosso encontro. E, então, não há que fugir-lhe.

Para ser inteiramente franco, escrevo-lhe, não tanto por acreditar que vá ter em V. Exa. qualquer efeito — todo o vosso comportamento, neste primeiro ano de governo, traindo, inescrupulosamente, todas as promessas feitas em campanha eleitoral, não convida à esperança numa reviravolta! — mas, antes, para ficar de bem com a minha consciência. Tenho 82 anos e pouco me restará de vida, o que significa que, a mim, já pouco mal poderá infligir V. Exa. e o algum que me inflija será sempre de curta duração. É aquilo a que costumo chamar “as vantagens do túmulo” ou, se preferir, a coragem que dá a proximidade do túmulo. Tanto o que me dê como o que me tire será sempre de curta duração. Não será, pois, de mim que falo, mesmo quando use, na frase, o “odioso eu”, a que aludia Pascal.

Mas tenho, como disse, 82 anos e, portanto, uma alongada e bem vivida experiência da velhice — a minha e da dos meus amigos e familiares. A velhice é um pouco — ou é muito – a experiência de uma contínua e ininterrupta perda de poderes. “Desistir é a derradeira tragédia”, disse um escritor pouco conhecido. Desistir é aquilo que vão fazendo, sem cessar, os que envelhecem. Desistir, palavra horrível. Estamos no verão, no momento em que escrevo isto, e acorrem-me as palavras tremendas de um grande poeta inglês do século XX (Eliot): “Um velho, num mês de secura”... A velhice, encarquilhando-se, no meio da desolação e da secura. É para isto que servem os poetas: para encontrarem, em poucas palavras, a medalha eficaz e definitiva para uma situação, uma visão, uma emoção ou uma ideia.

A velhice, Senhor Primeiro Ministro, é, com as dores que arrasta — as físicas, as emotivas e as morais — um período bem difícil de atravessar. Já alguém a definiu como o departamento dos doentes externos do Purgatório. E uma grande contista da Nova Zelândia, que dava pelo nome de Katherine Mansfield, com a afinada sensibilidade e sabedoria da vida, de que V. Exa. e o seu governo parecem ter défice, observou, num dos contos singulares do seu belíssimo livro intitulado The Garden Party: “O velho Sr. Neave achava-se demasiado velho para a primavera.” Ser velho é também isto: acharmos que a primavera já não é para nós, que não temos direito a ela, que estamos a mais, dentro dela... Já foi nossa, já, de certo modo, nos definiu. Hoje, não. Hoje, sentimos que já não interessamos, que, até, incomodamos. Todo o discurso político de V. Exas., os do governo, todas as vossas decisões apontam na mesma direcção: mandar-nos para o cimo da montanha, embrulhados em metade de uma velha manta, à espera de que o urso lendário (ou o frio) venha tomar conta de nós. Cortam-nos tudo, o conforto, o direito de nos sentirmos, não digo amados (seria muito), mas, de algum modo, utilizáveis: sempre temos umas pitadas de sabedoria caseira a propiciar aos mais estouvados e impulsivos da nova casta que nos assola. Mas não. Pessoas, como eu, estiveram, até depois dos 65 anos, sem gastar um tostão ao Estado, com a sua saúde ou com a falta dela. Sempre, no entanto, descontando uma fatia pesada do seu salário, para uma ADSE, que talvez nos fosse útil, num período de necessidade, que se foi desejando longínquo. Chegado, já sobre o tarde, o momento de alguma necessidade, tudo nos é retirado, sem uma atenção, pequena que fosse, ao contrato anteriormente firmado. É quando mais necessitamos, para lutar contra a doença, contra a dor e contra o isolamento gradativamente crescente, que nos constituímos em alvo favorito do tiroteio fiscal: subsídios (que não passavam de uma forma de disfarçar a incompetência salarial), comparticipações nos custos da saúde, actualizações salariais — tudo pela borda fora. Incluindo, também, esse papel embaraçoso que é a Constituição, particularmente odiada por estes novos fundibulários. O que é preciso é salvar os ricos, os bancos, que andaram a brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubarões, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que dá o que não é dele e paga o que diz não ter, para que eles enriqueçam mais, passando a fruir o que também não é deles, porque até é nosso.

Já alguém, aludindo à mesma falta de sensibilidade de que V. Exa. dá provas, em relação à velhice e aos seus poderes decrescentes e mal apoiados, sugeriu, com humor ferino, que se atirassem os velhos e os reformados para asilos desguarnecidos, situados, de preferência, em andares altos de prédios muito altos: de um 14º andar, explicava, a desolação que se comtempla até passa por paisagem. V. Exa. e os do seu governo exibem uma sensibilidade muito, mas mesmo muito, neste gosto. V. Exas. transformam a velhice num crime punível pela medida grande. As políticas radicais de V. Exa, e do seu robôtico Ministro das Finanças — sim, porque a Troika informou que as políticas são vossas e não deles... — têm levado a isto: a uma total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página.

Falei da velhice porque é o pelouro que, de momento, tenho mais à mão. Mas o sofrimento devastador, que o fundamentalismo ideológico de V. Exa. está desencadear pelo país fora, afecta muito mais do que a fatia dos velhos e reformados. Jovens sem emprego e sem futuro à vista, homens e mulheres de todas as idades e de todos os caminhos da vida — tudo é queimado no altar ideológico onde arde a chama de um dogma cego à fria realidade dos factos e dos resultados. Dizia Joan Ruddock não acreditar que radicalismo e bom senso fossem incompatíveis. V. Exa. e o seu governo provam que o são: não há forma de conviverem pacificamente. Nisto, estou muito de acordo com a sensatez do antigo ministro conservador inglês, Francis Pym, que teve a ousadia de avisar a Primeira Ministra Margaret Thatcher (uma expoente do extremismo neoliberal), nestes termos: “Extremismo e conservantismo são termos contraditórios”. Pym pagou, é claro, a factura: se a memória me não engana, foi o primeiro membro do primeiro governo de Thatcher a ser despedido, sem apelo nem agravo. A “conservadora” Margaret Thatcher — como o “conservador” Passos Coelho — quis misturar água com azeite, isto é, conservantismo e extremismo. Claro que não dá.

Alguém observava que os americanos ficavam muito admirados quando se sabiam odiados. É possível que, no governo e no partido a que V. Exa. preside, a maior parte dos seus constituintes não se aperceba bem (ou, apercebendo-se, não compreenda), de que lavra, no país, um grande incêndio de ressentimento e ódio. Darei a V. Exa. — e com isto termino — uma pista para um bom entendimento do que se está a passar. Atribuíram-se ao Papa Gregório VII estas palavras: “Eu amei a justiça e odiei a iniquidade: por isso, morro no exílio.” Uma grande parte da população portuguesa, hoje, sente-se exilada no seu próprio país, pelo delito de pedir mais justiça e mais equidade. Tanto uma como outra se fazem, cada dia, mais invisíveis. Há nisto, é claro, um perigo.


De V. Exa., atentamente,

Eugénio Lisboa

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O autor foi presidente da Comissão Nacional da UNESCO / conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Londres entre 1978-1995 / professor catedrático especial de Estudos Portugueses na Universidade de Nottingham / professor catedrático visitante da Universidade de Aveiro / e coordenador do ensino da língua portuguesa na Suécia. É Doutor Honoris Causa pelas universidades de Nottingham e Aveiro. A Câmara de Cascais outorgou-lhe a medalha de Mérito Cultural.

Em Moçambique foi sucessivamente administrador e director das petrolíferas SONAPMOC, SONAREP e TOTAL.



este país tem gente que é uma maravilha, nós é que andamos distraídos e muito ocupados a dizer mal



Vejam este post no Imagens com Texto: calçada portuguesa.
Nem sei se ria com a graça da coisa, se chore de ternura por este sinal de alguém que foi assim capaz de juntar inteligência e humor a uma arte tradicional.

(a foto foi tirada desse post, como é óbvio)

09 setembro 2012

Jaqueline du Pré e Daniel Barenboim

Jaqueline du Pré e Daniel Barenboim - e mais não digo. Mas vejam. Vejam.

portugiesischer Rafairoh

"Qual é a raça do cão?" é a pergunta que todos nos fazem.
Combinámos - no meio de muita gargalhada - inventar uma raça de nome sonante: "portugiesischer Rafairoh". Mas acabamos por dizer sempre o que é: Mischling, mistura.
"Mistura de que raças?" é a segunda pergunta que nos fazem.
(Como se dirá "filho de pai incógnito" em alemão?)

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Na viagem do Fox para a Alemanha, um casal jovem muito simpático veio falar connosco num aeroporto. Fizeram-lhe muitas festinhas, perguntaram o nome - enfim, o costume. E pediram autorizaçao para fazer uma fotografia.
"Sim", concedi eu, "desde que não apareça depois na internet em sites de cachorrinhos nus..."
Eles riram-se: "Como é que adivinhou tão depressa as nossas intenções?"

Depois fizeram uma pergunta que ainda agora me dói: "Estão a salvar este cão de Portugal?"
Contaram que eles próprios queriam salvar um que tinha sido abandonado e não tinha ninguém que olhasse por ele, mas era grande demais, ia ser muito complicado para o poderem trazer no avião.

Bem sei o que se faz com muitos cães no meu país - e não é só o abandono, é também tê-los uma vida inteira presos a uma corrente, com meia dúzia de metros quadrados por habitat -, mas custa ouvir estrangeiros falarem assim em operações de salvamento dos cães de um país. Como se o meu Portugal fosse um país de bárbaros e atrozes barbaridades.
"Como se fosse", diz ela...

08 setembro 2012

continuando a falar de coisas importantes...


O Fox foi hoje pela primeira vez à escola de cães.
Fartou-se de brincar com outros cães (estava tão feliz!), enquanto o Matthias ouvia atentamente as instruções que eram dadas. Quer-me parecer que quem vai à escola somos nós...


Já conseguimos que ele percebesse que a varanda é que é, mas ainda não sabe para que serve o jornal.
E muito menos para que serve a rua - o bicho encasquetou que a rua não é para essas porcarias. É capaz de aguentar enrascadinho um passeio de uma ou duas horas pela rua e pelos parques, e depois chega a casa e dispara como um raio em direcção ao seu tapete preferido...
Havemos de o interessar pelos media, digamos assim, e havemos de levar os media para a rua para que ele perceba que afinal ali é que é (como nos aconselharam num comentário num post anterior) (que seria de mim sem os comentadores deste blogue?).

(eh, lá, acabei de inventar uma metáfora provocadora: o jornal como transportador de - bem... digamos... - deixem lá)

roteiro de Berlim segundo Gonçalo M. Tavares

Caso não tenham mais nada que fazer, e vos esteja a dar um ataque de cusquice, vão à Berlinda.org ver o Gonçalo M. Tavares a concordar comigo, hehehe. Eu bem digo que o céu é o limite - mas às vezes desconfio que já o estou a ver pelo lado de cima...

Também podem ir sem ser por cusquice nem nada: diz coisas muito engraçadas sobre o Carlos Bica e o Norberto Lobo, e sobre um caso literal de fast food no bairro turco e árabe da cidade.

(Se me deixassem mandar, e se eu falasse sueco...)

estou aqui a pensar se isto dava uma parábola...



(Foi o meu filho que me mostrou este filme. Achei graça, mas fui ver os outros do Rémi Gaillard e pareceu-me parvo: um tipo que faz humor a chatear as pessoas. Depois cheguei ao filme em que ele se mete no meio da equipa vencedora da taça de França de 2002, cumprimenta o presidente, posa para os jornalistas, dá autógrafos aos fãs - e ninguém nota que ele não é jogador dessa equipa. Provavelmente também dava uma parábola, mas hoje tenho os neurónios constipados. Os neurónios e não só - aquele concerto do Leonard Cohen deu cabo de mim!)

medidas de poupança e alterações estruturais - Portugal visto a partir da Alemanha

O que se segue não é propriamente novidade para os portugueses, mas traduzo só para informar como é que ontem se falou de Portugal no noticiário do primeiro canal alemão (aqui, em alemão) (tradução apressada e com alguns cortes):

Novas medidas para o saneamento das contas públicas

Portugal anuncia mais medidas de poupança

O primeiro-ministro português, Passos Coelho, anunciou aos seus compatriotas novas medidas de poupança para o saneamento das finanças do Estado. Uma delas será o aumento das contribuições dos trabalhadores para a Segurança Social de 11 para 18% em 2013. Em troca, os empregadores vêem o peso das suas contribuições reduzido de 23,75 para 18%, para criarem novos postos de trabalho. Além disso, mantém-se em 2013 o corte dos 13º e 14º mês nas reformas do sector privado e público.

Prevêem-se receitas menores na área dos impostos

A crise financeira em que Portugal caiu em 2011 ainda não está ultrapassada, avisou Coelho. A economia portuguesa continua em recessão. O governo de Lisboa conta para este ano com uma redução de 3,3% da Economia. O ministério das Finanças prevê uma descida das receitas de impostos de cerca de dois mil milhões de euros. As contas públicas estão sobrecarregadas, entre outros, com uma taxa de desemprego record de 15,7%.

A troika analisa o programa de poupança

Este ano, o governo aponta para um défice de 4,5%; analistas dizem que será superior a 5%. Representantes dos credores internacionais da UE, FMI e BCE estão a analisar o progresso do programa de poupança. Está em causa a entrega de 4,3 mil milhões de euros, que é a próxima tranche do pacote de ajuda a Portugal, no valor total de 78 mil milhões de euros. Até agora, Portugal já recebeu 57,1 mil milhões de euros. Em 2011, Lisboa conseguiu um défice orçamental de 4,2%, o que foi muito além dos objectivos do programa de poupança.

O parceiro da coligação rejeita o aumento de impostos e contribuições

As nova medidas de poupança colocam Coelho mais uma vez sob pressão. O CDS, seu parceiro da coligação, pronunciou-se contra o aumento dos impostos e das contribuições. Do mesmo modo, o partido mais importante da oposição, o PS, não está disposto a aceitar o aumento da carga fiscal dos portugueses.

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Entrevista com Claus Friedrich Laaser, do Institut für Weltwirtschaft na Universidade de Kiel:
(aqui, em alemão).

"Portugal não deve apenas poupar"

Quais são as probabilidades de Portugal conseguir recuperar a sua economia apesar das medidas de poupança? Boas, diz Claus Friedrich Laaser. O país tem uma base industrial melhor que a grega. No entanto, é necessário haver uma mudança de estrutura, para se tornar concorrencial.

tagesschau.de: Portugal tem mais hipóteses de sair da crise que a Grécia?

Claus Friedrich Laaser: Sim, penso que Portugal tem mais hipóteses. Portugal não tem de começar por definir uma nova filosofia de crescimento. Lembremos apenas a fase logo após a entrada na comunidade europeia, em 1986. Nessa altura, Portugal conseguiu atrair investimentos directos do estrangeiro com uma relativa rapidez, baseado nos baixos custos salariais e numa boa produtividade ligada aos salários. Toda a Europa ocidental deslocou para Portugal as produções mais baseadas no trabalho. A consequência foi que Portugal conseguiu desenvolver-se mais do que outros países.

tagesschau.de: Quais são os pontos positivos de Portugal?

Laaser: Portugal tem uma base industrial mais alargada que a da Grécia. As empresas em Portugal estão em melhor posição, porque estão integradas em redes de produção internacionais. Outros dois pontos a favor de Portugal: o relativo consenso alargado, que ainda existe na população, de que é preciso mudar alguma coisa, que é preciso fazer reformas. E serviços públicos nos quais se pode confiar, que estão em condições de executar as decisões políticas. Tudo isto são pontos a favor de Portugal.

tagesschau.de: Quais são os motivos da crise, e que soluções existem?

Laaser: Portugal não deve limitar-se a poupar. A poupança não pode ser evitada. Mas, por outro lado, não se pode esquecer que estamos perante uma crise estrutural. Portugal não conseguiu iniciar uma mudança estrutural quando começou a ter novos concorrentes para o seu modelo económico tradicional, com a abertura europeia aos países da Europa central e oriental: repentinamente havia outros países onde os salários eram baixos e a produtividade alta. A partir daí, os investimentos deixaram de ir para Portugal. A isto veio juntar-se a globalização, apareceu um número cada vez maior de países em vias de desenvolvimento que atraíam os investimentos produtivos. Contudo, Portugal continuou fiel ao seu velho modelo económico. Continua a ter um predomínio de indústrias baseadas em trabalho intensivo, não fez uma mudança estrutural. Por esse motivo, uma parte do programa português consiste em mudar alguma coisa e atingir esta mudança estrutural.