14 setembro 2012

manifestação de 15 de Setembro em Berlim


Em frente ao Consulado de Portugal, na Zimmerstrasse 56, das 4 às seis da tarde.

A seguir passo o texto que acompanha esta iniciativa.
Penso que é importantíssimo sairmos todos para a rua, mas "Fuck Troika!" seria a última coisa que me ocorreria escrever num cartaz mostrado em Berlim - ou noutro sítio qualquer do mundo. Continuo a pensar que o problema não é a troika, mas o governo português, que enveredou pelo caminho mais fácil de tirar aos frágeis para não incomodar os poderosos - tenho a certeza que troika nenhuma teria como negar a defesa de um princípio básico: fazem-se as reformas que for preciso, mas sem deixar que os salários desçam abaixo de um limiar X de pobreza (que na Alemanha, já agora, é de cerca de 850 euros líquidos mensais)
Incomoda-me que nesse texto os portugueses se apresentem como vítimas de um saque. Visto do lado da Alemanha, cujo Tribunal Constitucional acabou de aprovar um pacote de ajuda que pode vir a custar 2.500 euros  a cada alemão, este tipo de argumentação pode ser um tremendo tiro pela culatra. Sabem o que é que os alemães vos vão responder, nas mesas de café? "Estão a saque agora, é? Mas quando assistiram impávidos e serenos à construção desenfreada de auto-estradas, ninguém se queixou. Quando deixaram instalar internet numa escola que seria (e foi) destruída na semana seguinte, ninguém se queixou. Quando o presidente da República fez a sua mensagem de Natal em frente a três pinheiros - três! - profusamente decorados, ninguém foi para a rua gritar que o país estava a saque. Mas pronto, está bem. Se é o que querem, é o que terão: a troika vai à sua vidinha e deixa de vos saquear. Resolvam vocês os vossos problemas. Ponham vocês ordem na casa."  

Se fosse a essa manifestação (não posso ir, este sábado tenho um casamento inadiável) levaria cartazes para informar na Alemanha sobre o que se passa em Portugal: em quanto vai a taxa de desemprego, quantos euros por mês vão tirar agora a quem já ganha menos de 500 euros líquidos, etc.
E afirmaria princípios claros: esta recessão induzida é o maior inimigo do euro - as contas públicas não se podem equilibrar à custa dos pobres - o caminho não é criar pequenas Chinas no seio da UE

***

Fuck Troika! Wir wollen unser Leben!

Am Samstag 15. September 2012 werden in vielen Städten in Portugal und Spanien mehrere Tausend Menschen auf die Straßen und Plätze gehen, um gegen die zerstörerischen Sparmaßnahmen zu protestieren, die von der Troika (Europäische Kommission, Europäische Zentralbank und Internationaler Währungsfonds) diktiert werden. Sogar in Brasilien werden Solidaritätsaktionen geplant. Unter dem Motto "Que se lixem os troikistas" werden die Protestierenden in Portugal mit Töpfen und Kochlöffeln ihre Empörung lautstark kundtun. "Sie haben uns gespalten, um uns zu unterdrücken. Wir vereinen uns, um uns zu befreien. Es ist Zeit für etwas Außergewöhnliches."


The international call from Portugal:

Screw Troika! We want our lives!
15th September, 17h, Lisbon and other cities

We must do something extraordinary. We must take the streets and the squares, the open roads, the side roads, the countryside. This silence is killing us. The noise of the mainstream media echoes in the silence, replicating that silence, weaving webs of lies that numb us and kill our desire. We must do something against submission, defeat, against the stifling of ideas, against the death of our common will. We must summon once more the voices, the arms and the legs of us all, knowing our present and our future are decided on the streets. We must win over fear, this fear that has been skilfully set and spread around us, and understand, once and for all, that we have almost nothing left to lose, and that the day will soon come when we will have lost it all, because we kept to ourselves, we felt alone, we gave up.

The plunder (loan, rescue, ransom, bail out, whatever lie they chose to make us cave in) has begun, and, with it, countless ravishing policies, whereby unemployment, precariousness, poverty and social injustice will rise dramatically, most of the state's assets will be sold out, social welfare, education and health (with the national health system in its death throes) will be severed, cultural and public services will become obsolete – all in favour of people and companies that get rich with the speculation on a country's default. After one more year of austerity under external surveillance, our perspectives, the hopes of the greater part of Portugal's residents, are bleaker than ever.

The austerity imposed upon us to destroy our dignity and life does not solve our problems but only stifles democracy. Those who accept to govern us under the Troika's Memorandum are giving up on the fundamental tools for our country's management, giving them away to speculators and technocrats, on the basis of an economic model favouring the survival of the fittest and the strongest, just like in the jungle, neglecting our expectations as a community, our living conditions, our dignity.

Greece, Spain, Italy, Ireland and Portugal are hostages of Troika and its financial speculation. They have lost their sovereignty and get poorer every day, as is bound to happen to all countries submitted to austerity. Against the inevitability of this compulsion to linger and die, we must do something extraordinary.

We must build alternatives, step by step, springing from motivated populations, from the citizens of those countries – Greece, Spain, Italy, Portugal, Ireland - and of each and every one brought together, acting together, fighting for their lives and uniting their voices.

If they want to bend us, force us to accept unemployment, precariousness and injustice as a lifestyle, we shall answer with the power of democracy, of liberty, of motivation. The power to fight back. We want to take the decisions of the present in our hands, so that we can build a future.

This is, therefore, a call to all men and women from diverse areas of activity and political sympathies. We appeal to everyone - individuals, groups, movements, associations, non-governmental organizations, syndicates, political structures and parties - to march together on the street on the 15th September.
They've divided us to oppress us. We will unite to free ourselves!




25.9. weitere Demo:
Athen, Berlin, Madrid gemeinsam gegen Sparpolitik!
Alexanderplatz, Weltzeituhr, 18 Uhr

13 comentários:

z. disse...

Oh moça ...concordarei com o que queira sobre a vitimização ser improducente... mas para alguém preocupada com "cultura", deixe de fora as ideias feitas de que os pobrezinhos não têm direito a ter internet nas escolas. Têm!! Ou acha que só os queques da privada é que merecem? E essa de que é destruída na semana seguinte tem que se lhe diga.
E não é pelo que os alemães pensem sobre a vida acima das possibilidades (com base na ignorância construída sobre as realidades alheias)que deixará de haver razões para indignação.
AS

Gi disse...

Eu também acho que o problema não é a troika. O memorando foi um compromisso baseado nas informações que os partidos e parceiros consultados deram à dita troika, porque esta não conhece Portugal suficientemente para ditar com que medidas se controla o défice e se reduz a dívida.
E se o caminho obviamente não é este, parece-me que ninguém sabe qual é.

Helena disse...

z.
deve ter entendido mal o que eu escrevi. Nunca me passaria pela cabeca criticar a internet nas escolas. Penso que uma das coisas boas que o Sócrates fez foi dar um computador a cada miúdo.
Estava a falar de um caso concreto: um edifício de uma escola onde foi instalada internet uma semana antes de ser destruído. Parece-me um desperdício de dinheiro e recursos ainda pior que as placas na auto-estrada a informar que daí a 8 km vai haver uma placa com informacäo do preco dos combustíveis.
Pode ser que eu näo saiba tudo o que se passa na Alemanha (é até bastante provável) mas nunca ouvi um alemäo dizer que os portugueses vivem acima das suas possibilidades. Já lhes ouvi críticas à extraordinária rede de auto-estradas desertas, é verdade.
Parece-me que näo adianta zangarmo-nos por causa de alguém ter ou näo ter dito que os portugueses vivem acima das suas possibilidades. O melhor é gastarmos a nossa energia a pensar no que é preciso fazer para Portugal poder pagar o nível de vida que considera adequado e sustentável.

Helena disse...

Gi,
isso mesmo. O caminho näo é este (este caminho é um crime, e é pena näo haver maneira de punir os governantes pelo sofrimento que estäo a provocar aos mais pobres de Portugal). Mas há algumas ideias sobre um caminho mais certo. O que näo hé é coragem política (e visäo, e ideologia) para enveredar por aí.

A. Castanho disse...



Também concordo que a "troika" é menos culpada do que este "governo", embora também seja culpada.


A "troika" foi um alibi fulcral para impingir a um País exausto de guerrilha politiqueira e jornalístico-judicial um retrocesso político sem paralelo na História da Democracia portuguesa.


Continuar a discutir a "troika" e o "governo" sem perceber esta monstruosa estratégia do grande Poder financeiro internacional - aquilo a que um velho Marxista chamaria o "grande Capital" - ancorada na atávica e beata mentalidade salazarenta dos portugueses mais ignorantes e destituídos de formação e consciência políticas - autênticas marionetas nas garras da Comunicação Social tablóide e televisiva - é passar ao lado do essencial.


Estamos a caminho do 24 de Abril económico, social, mental e cultural, sob o manto diáfano do 25 de Abril formal e institucional. Esta é que é a verdadeira FRAUDE MORAL da atualidade portuguesa.

Helena disse...

"Estamos a caminho do 24 de Abril económico, social, mental e cultural, sob o manto diáfano do 25 de Abril formal e institucional. Esta é que é a verdadeira FRAUDE MORAL da atualidade portuguesa."
Isso mesmo.
Até parece que aquela gracinha da suspensão da Democracia durante seis meses afinal foi posta em causa, e por mais tempo.
Mas (insisto...) começa a ser tempo de olhar para os nossos inimigos internos, em vez de achar que a culpa é da troika, da Merkel, e já agora do grande capital. Não somos apenas vítimas, temos sido cúmplices passivos. A começar pela taxa de abstenção: se eles são todos iguais, não vale a pena ir votar. Mas entrar nos partidos, tentar mudar as coisas por dentro, criar associações de controle das actividades do governo, etc. - isso não, claro. Alguém que venha e resolva.

A. Castanho disse...



Espera, Helena, não mistures os assuntos dessa maneira!


Como é que podes assim tão ligeiramente falar de "inimigos internos"? Queres dizer que a culpa da situação portuguesa é mais dos abstencionistas do que dos banqueiros agiotas, dos governantes facínoras e dos eurocratas irresponsáveis e incompetentes? É mesmo isto que pretendes pôr num mesmo plano?!


Nesse caso, lamento, mas os que se manifestaram no Sábado é que deveriam então ser apontados na rua como os grandes culpados, em vez da "troika", da Merkel e do "grande Capital": a esmagadora maioria dos que saíram à rua no Sábado são, muito provávelmente, ABSTENCIONISTAS MILITANTES HÁ ANOS!


Tirando os velhos "camaradas" e os novos "bloquistas", claro. Mas esses têm o peso eleitoral que têm, certo? Ou queres que valham mais do que o real número de votos que consecutivamente obtêm há mais de trinta e sete anos?

Helena disse...

Ó A. Castanho,
por acaso não queria dizer, mas olha que me deste uma boa ideia. Não afirmarei que a culpa é mais dos portugueses abstencionistas que dos banqueiros agiotas, mas digo que a culpa desta situação também é de quem assiste calado e mudo a situações de corrupção que vão desde comprar coisas sem factura a declarar vendas de imóveis por preços muito inferiores ao realmente pago, passando por permutas de casas de férias (achas que se o Cavaco fosse presidente da Alemanha ainda estava a ocupar o posto?) e outras tratantadas do género. A culpa é de quem paga uma consulta num médico privado para depois ter tratamento preferencial no SNS (porque esse médico também trabalha no hospital público, e mete os seus doentes privados à frente dos outros). A culpa é de quem vê o país a cobrir-se de auto-estradas e não vai perguntar ao governo com que dinheiro é que aquilo vai ser pago. A culpa é de quem encolhe os ombros e não vai votar porque "eles são todos iguais", em vez de entrar num partido para o mudar por dentro, de criar uma associação de controle das despesas públicas, de começar a controlar por exemplo os alvarás concedidos pelas câmaras. Sim, a culpa também é de quem cruza os braços, e acha que a culpa é toda da troika e dos agiotas.

A verdade é que no nosso país grassa a corrupção. Uma mão lava a outra, ninguém aponta o dedo a ninguém porque as telhas de vidro são enormes e generalizadas.
E mais, já que falamos em agiotas: os banqueiros que emprestam dinheiro ao Estado português a juros de agiota são muito maus, não são? Mas a que taxa de juro é que tu estarias disposto a emprestar as tuas poupanças ao governo português? Nem digo ao do Passos Coelho, digo assim: "a um governo português".

Se se fizesse um "título de salvação nacional" a taxa mínima (digamos: 1%) para os portugueses emprestarem ao Estado português o dinheiro que têm guardado, de modo a que o Estado não tenha de recorrer aos agiotas nem à troika, quantos portugueses comprariam esse título da dívida?

É isto que me chateia: os outros é que são maus, os outros é que têm culpa, os outros é que têm de resolver os nossos problemas.
Os outros são maus, os outros têm culpas - mas os nossos problemas têm de ser resolvidos por nós.

E sim, entre os que saíram à rua no sábado passado haverá muita gente que nem a 10% emprestaria o seu dinheiro ao Estado, e muita gente que foge aos impostos como pode mas não abre mão de umas feriazitas num hotel de charme, etc. Era bom que estas manifestações fossem mais que um rotundo "Não!" às políticas de austeridade, mas ajudassem a um despertar da cidadania.

A. Castanho disse...

Helena, continuas convencida de que os Povos é que são, afinal, os grandes culpados desta crise, certo??

Mas no fundo o que tu dizes então é que os manifestantes de Sábado passado estão completamente errados!

Pelo menos nos seus pressupostos...

E eu até talvez concorde, em parte, contigo e por isso mesmo é que ainda não fui a nenhuma manifestação, embora pense há muito tempo que este governo deveria, ele sim, ir para a rua, já esta semana!

Mas o nosso senhor de Belém continua parado e calado e, deste modo, não temos alternativa senão manifestar-nos, mesmo discordando de alguns dos pressupostos!

E é certamente o que eu farei já amanhã, cantando a plenos pulmões o "Acordai!" ao fim da tarde, em Belém...

Porque, como dizia em tempos a publicidade, "quem não sabe (pode...) falar, protesta assim".

Helena disse...

Errado, A. Castanho. Completamente errado.
Nunca disse que os povos "é que são os grandes culpados da crise".
O que disse é que os especuladores financeiros que dominam o mundo têm uma parte da culpa, os políticos portugueses (estes e os anteriores, claro) têm outra parte da culpa, a troika e a parte rica da Europa têm a sua parte de culpa nesta história. E o povo português, que a tudo tem assistido de braços cruzados, também tem a sua parte da culpa.
Chateia-me que só se fale da culpa dos outros - a da Merkel, a da troika, a dos mercados -, mas isso não significa que estou a tentar deitar toda a culpa para as costas do povo português. Só estou a tentar lembrar que não são só os outros.

Se estivesse em Portugal, podes ter a certeza que teria ido à manif! E até levava um cartaz (onde não diria "que se lixe a troika").

Parece-me que as pessoas acordaram, e pelos cartazes que levaram parece-me que têm uma consciência do momento histórico que não se limita ao "que se lixe a troika".

Fazes bem em cantar o Acordai - gostava de o cantar contigo aí.

A. Castanho disse...



O grande problema, Helena, é mesmo esse, a questão MORAL: o que dirias tu então, no teu cartaz, se tivesses ido à manifestação?

"ABAIXO OS ABSTENCIONISTAS!"?

"INSCREVAMO-NOS NUM PARTIDO POLÍTICO E MILITEMOS!"?

"DEIXEMOS A POBRE DA MERKEL EM PAZ E PONHAMOS A MÃO NA NOSSA CONSCIÊNCIA!"?

"OS BANQUEIROS E A «TROIKA» NÃO TÊM A CULPA TODA!"?

Ou seria outro?

Diz-me então qual, para que eu perceba até que ponto estou "errado". Para já, continuo apesar de tudo mais satisfeito por não ter ido ainda a nenhuma "manif", para assim não cometer erros, nem dizer disparates...


PS: É difícil, muito difícil, ser sintético num tema desta complexidade e atualidade. Mas sinto que, para não suscitar já reações epidérmicas, tenho que rematar este comentário com dois corolários:

1º) Podemos estar muito distantes uns dos outros hoje, em Portugal, em termos políticos, sem dúvida, mas começamos lentamente a ficar bastante sintonizados, pelo menos em termos morais e emocionais (será um princípio?...);

2º) Cantar o "ACORDAI!" nunca será um erro, nem constitui nenhum disparate: disto tenho a firme certeza!

Helena disse...

Hi, que maluquice de cartazes, esses teus!

Hoje vi um giro: "adultos ao poder".
Mas também encontrei um engraçado no blogue "na curva da estrada".
Este:
http://2.bp.blogspot.com/-W0pD9wOaigk/UFn83O7w4YI/AAAAAAAAB_U/1mz8wlQSbGQ/s1600/Manif3.JPG

Olha, ainda não me respondeste: a que taxa de juro estavas disposto a emprestar o teu dinheiro ao governo português?

A. Castanho disse...



Helena, vais desculpar-me, mas isso é tão pertinente como perguntares-me que roupa eu usaria na minha primeira viagem à Lua...


Eu não empresto dinheiro a nenhum País. Ponto.


E se o problema principal são mesmo os juros que Portugal paga, então nada feito, Helena: o melhor mesmo é desistirmos já de fazer cartazes e de ir a manifestações e de cantar canções revolucionárias: como bem sabes, tudo isso irá apenas AUMENTÁ-LOS!