31 maio 2010
encantamento
Um daqueles dias em que tenho pena de Portugal estar tão longe, e de não poder partilhar estes momentos especiais com os amigos portugueses.
De manhã, o Lang Lang deu uma aula de piano para 100 pessoas. No palco da Filarmonia havia dois pianos de cauda e 49 pianos eléctricos, para "thousand fingers" tocarem uma peça de Schubert a quatro mãos. Cem alunos, dos cinco aos setenta anos.
O homem que entrou na sala, no meio de grande aplauso, surpreendeu-me: a cabeça demasiado grande para o corpo franzino, o cabelo espetado em estilo ouriço, a cara muito larga. Sapatos com reflexos metálicos, jeans. Que aspecto esquisito, pensei eu.
Mal começou a aula, esqueci todas essas incompatibilidades com os meus preconceitos.
Foram duas horas de boa disposição e beleza: Lang Lang a tocar com uma mão e a entoar a música com a outra, ou a andar de um lado para o outro explicando com o ritmo das passadas o que queria e não queria, ou a explicar que determinada frase devia soar como "um cão com febre"...
A meio da aula, uma surpresa para o pianista: passaram parte deste filme, que ele contou ter sido um dos seus preferidos quando era uma criança a começar a tocar piano, e que ainda hoje o considera muito inspirador.
E era vê-lo a tocar a quatro mãos com Tom, a rir, a fazer figura de criança outra vez.
No fim, houve votação: quem prefere o Jerry? Quem prefere o Tom?
Lang Lang prefere Tom, porque o Jerry faz batota. Hehehe, já temos uma coisa em comum.
A conversa continuou:
"Como é que conseguiu tornar-se famoso?", perguntou uma das alunas, por sinal muçulmana (não é que seja importante, mas foi bonito ver entre os pianistas uma miúda com o cabelo coberto por um belíssimo véu).
Lang Lang gagueja, a apresentadora vem em seu auxílio: "Porque é um pianista genial".
"Obrigado, obrigado por dizer isso. Não tenho sempre a certeza de que seja verdade." - e acrescenta, com um sorriso maroto: "Trabalhei muito. E um dia chamaram-me para substituir alguém que estava com febre. É esse o segredo para se tornar famoso: trabalhar arduamente, e esperar que alguém adoeça."
"E é, ou quer ser, um dos melhores pianistas do mundo?", pergunta outra adolescente.
"Quero ser o melhor possível de mim próprio. É esse o meu objectivo."
A conversa continua. Lang Lang fala do trabalho diário, aconselha os alunos a duplicarem o tempo de estudo ("se estudam 30 minutos por dia, passem a estudar uma hora; se estudam uma hora, passem para duas"), fala do horror das escalas e dos arpejos, de que ele não gostava nada e que os vizinhos pura e simplesmente odiavam (a sala solta mais uma vez uma gargalhada). E conta como trabalha, como se informa sobre a peça que está a estudar, e a imagina e recria. Fala longamente sobre a respiração da música, da necessidade de cantar a peça enquanto se toca, de respeitar as frases que pedem para inspirar e expirar profundamente, os momentos em que há que suster a respiração.
Vindo de um chinês, não admira: uma aula de yoga para pianos.
À tarde, é a vez de dois dos melhores alunos de escolas de música berlinenses. Uma educação do ouvido e do gosto. O aluno toca, e Lang Lang dança ao lado dele, para melhor exprimir o que quer. Ou toca ele próprio aquela frase (aaaahhhhhhh...). Ou diz: "nesta sequência, parecia que tinha uns copitos a mais".
Saí da Filarmonia com um sorriso de encantamento, que não havia maneira de passar.
aquele querido mês de Agosto
Como na sexta-feira passada: tive o gosto de ver "aquele querido mês de Agosto" pela mão do Miguel Gomes ("Migüel Gomésch", dizem os alemães).
Belo filme, bem melhor do que as cadeiras da sala, no Museu do Cinema.
Mas a sensação da noite, melhor ainda que aquela surpresa de filme, foi o Migüel Gomésch: simples, brincalhão, honesto, sem peneiras nem pedestais.
***
Uma amiga já me mandou a canção que dá nome ao filme, com a incumbência de a aprender de cor para fazermos um arraial. No próximo "Karneval de Kulturen" vai ser um sucesso!
29 maio 2010
vidas de PIGS
E já que estou em maré de dar conselhos: também haviam dar mais ouvidos ao que dizem os católicos (hehehehe), esses intrometidos fundamentalistas, que em vez de se bastarem com a missinha dominical gostam é de meter o bedelho na nossa vida. Por exemplo, estas considerações que encontrei no Ouvido do Vento:
Sobre o Programa de estabilidade e crescimento (PEC)
Posição do Grupo de Trabalho «Economia e Sociedade»
da Comissão Nacional Justiça e Paz
1. Considerando a importância de que se reveste o Programa de estabilidade e
crescimento (PEC) recentemente apresentado pelo Governo à Comissão
Europeia, o Grupo de trabalho «Economia e Sociedade» (GTES) da Comissão
Nacional Justiça e Paz (CNJP) considera seu dever e responsabilidade
manifestar a sua opinião sobre as orientações de política financeira, económica
e social constantes desse documento, em virtude das implicações que as
mesmas poderão ter na vida pessoal e colectiva dos portugueses, nos
próximos anos. Movem-nos preocupações pela construção de uma sociedade
mais justa, mais inclusiva, mais solidária e onde seja possível um verdadeiro
desenvolvimento humano.
2. Dada a situação financeira do País, e o modo como ela é apreciada pelo
mercado internacional e pelas instâncias comunitárias, mais cedo ou mais
tarde, haveria de surgir a necessidade de um programa de equilíbrio das
contas públicas e de contenção do endividamento dos portugueses, para dar
segurança aos credores, permitir o acesso ao crédito no mercado internacional
e conter o respectivo custo. Por isso, não subestimamos o esforço feito pelo
Governo para apresentar um programa de ajustamento credível, com recurso a
corte na despesa pública e aumento das receitas do Estado.
Esse esforço deveria ser acompanhado por uma activa procura de consenso
entre os partidos na aplicação de medidas incluídas, ou a incluir, no PEC,
manifestando a seriedade com que encaram a situação do país.
3. Ainda assim, o GTES quer expressar, desde já, as suas preocupações
quanto às possíveis consequências negativas que poderão decorrer da
respectiva execução, se, entretanto, não forem seguidos outros rumos e
tomadas outras medidas directamente votadas ao desenvolvimento sócioeconómico,
à contenção do desemprego, à correcção das desigualdades nas
suas várias vertentes e à erradicação da pobreza, que continua a atingir parte
significativa da população portuguesa.
4. Reconhecemos que é delicada a situação em que o nosso País se encontra
face aos mercados financeiros, nomeadamente no que respeita ao nível de
défice público, recentemente agravado pela necessidade de fazer face aos
efeitos da crise mundial; ao endividamento público e privado já alcançado e
correspondentes encargos com a dívida externa. Sabemos, também, como, no
actual contexto de liberalização do mercado financeiro, os credores adquiriram
e conservam tal poder que os torna particularmente exigentes em matéria de
garantias e de custo do dinheiro.
Em nosso entender, porém, o PEC sendo um esforço do Governo português
para ir ao encontro dessas exigências de credibilidade externa, não deve
esconder ou ignorar os verdadeiros problemas estruturais de um País que
enfrenta um processo de reestruturação acelerada do seu processo produtivo,
num contexto de globalização e financeirização crescentes e de crise mundial
por superar. Assim sendo, o problema português de conseguir o equilíbrio
financeiro não é uma situação singular que apenas diga respeito aos
portugueses, antes está correlacionada com o ambiente externo.
5. Por isso, o GTES denuncia a presente desregulação do mercado financeiro
mundial - que cria situações muito gravosas para as pequenas economias em
dificuldade - e desejaria que, particularmente no âmbito da União Europeia, se
fizessem os indispensáveis esforços para que, com a maior brevidade, se
encontrem caminhos de uma eficiente regulação financeira do mercado
mundial.
6. Por outro lado, consideramos que a União europeia e a sua moeda única só
terão viabilidade se vier a existir, a curto prazo, uma coordenação reforçada da
política económica e financeira de todo o espaço comunitário, a qual, em nosso
entender, deve visar objectivos de desenvolvimento humano sustentável (do
ponto de vista ambiental e de coesão social). Uma tal politica deverá vincular o
Banco Central Europeu (BCE), de modo a que a política monetária da
responsabilidade desta entidade esteja efectivamente ao serviço da economia
comunitária e seus estados-membros.
7. Também não aceitamos a brandura com que as instâncias comunitárias têm
agido em relação aos offshores ou o facto insólito de o BCE não dispor de
capacidade para apoiar os países em dificuldade financeira, obrigando estes a
ter de recorrer ao crédito dos bancos privados e a suportar juros abusivos e
demais condições não raro especulativas, e, por outro lado, consentindo que os
bancos privados se refinanciem junto do BCE a taxas de juro quase nulas.
8. Merece, igualmente, denúncia e reprovação o excessivo poder adquirido por
certas agências de rating e o papel que as suas classificações têm, de facto,
nas condições de acesso ao crédito e custo do mesmo. Não se compreende
que a União Europeia não se tenha ainda dotado de uma unidade
independente de avaliação de risco financeiro ao serviço de uma governação
comunitária.
9. Portugal, como País membro da União, deve usar da sua capacidade de
intervenção para que a U.E. disponha da competência e dos meios necessários
para aperfeiçoar os seus mecanismos de governação à escala comunitária e
de influência na construção de uma forma adequada de regulação democrática
do mercado global.
10. Relativamente às medidas preconizadas no PEC, cabe chamar a atenção
para algumas das suas possíveis consequências negativas que, ao longo da
sua vigência, deverão, do nosso ponto de vista, ser corrigidas, bem como
apontar caminhos que, em nosso entender, deveriam ser seguidos.
11. Quanto aos cortes nas despesas, estão contempladas no PEC metas
aceitáveis no que se refere à contenção de gastos gerais considerados
supérfluos, maior racionalização nas aquisições de bens e, principalmente,
uma redução significativa com gastos em consultadorias em outsourcing. É
fundamental que a Administração pública procure patamares de eficiência e
eficácia, aos menores custos.
12. Já no que respeita a reduções na despesa social, é oportuno lembrar que
aquela não pode ser vista como um custo: deve antes ser considerada como
um investimento no capital humano e, bem assim, como um instrumento de
coesão social e uma condição necessária para cumprir um dever de equidade
e solidariedade, sobretudo em tempos de crise económica.
13. Com as dificuldades que se avizinham, é fundamental que o Estado não
deixe de cumprir o seu papel de protecção social, em particular no combate à
pobreza e à protecção dos desempregados. De igual forma, deve assegurar a
oferta pública de bens e serviços essenciais, com destaque para a educação e
a saúde, com adequados padrões de qualidade.
14. Quanto ao previsto congelamento dos salários na administração pública,
entendemos que se trata de uma medida injusta e com previsíveis
consequências negativas do ponto de vista da desejada sustentação da
actividade económica, pelo lado da procura. Mesmo admitindo ser necessário
reduzir o volume total das despesas com pessoal, tal redução deverá fazer-se
de modo equitativo, aproveitando para consagrar um leque salarial mais justo e
restringindo o recurso a prémios, despesas de representação e outras de que
beneficiam os gestores e os quadros técnicos superiores. Nunca à custa de
redução indiscriminada de salários, pela via do respectivo congelamento. Não
pode esquecer-se que o padrão de remunerações da Administração Pública
serve de referência ao sector privado.
15. Idêntico reparo merece a intenção do PEC quanto à diminuição do emprego
na função pública, medida, também ela perigosa, dado que há sectores da
Administração e serviços públicos onde, já hoje, existem manifestos défices de
recursos humanos. Por outro lado, não pode esquecer-se o elevado nível de
desemprego existente no País e o papel que, nestas circunstâncias, o Estado
(Administração central e Autarquias) pode desempenhar na necessária
sustentação do emprego.
16. No que toca à despesa em investimento público, dado o seu impacto em
termos de incentivo à actividade económica e na criação de emprego, entende
o GTES que importa, sobretudo, apostar numa selectividade rigorosa e
orientada por critérios de satisfação de necessidades reais e de bem comum.
O PEC prevê a desaceleração em alguns projectos de investimento público, o
que parece sensato, mas não deveria descurar os investimentos públicos
destinados à melhoria da qualidade de vida dos cidadãos ou a servirem de
incentivo à modernização e reestruturação do tecido produtivo.
17. A este propósito, cabe lembrar que as pequenas obras públicas de
desenvolvimento local se apresentam com efeitos, directos e indirectos,
relevantes do ponto de vista da utilização dos recursos humanos locais e
absorção do desemprego, além de que se traduzem, imediatamente, no bem-estar
das respectivas populações locais, servindo, por isso, objectivos de
coesão social, que não podem deixar de ser contemplados em qualquer
estratégia de ajustamento. O incentivo à expansão da economia social e
solidária deveria merecer a devida consideração.
18. No que concerne ao aumento das receitas públicas, entendemos que na
execução do PEC não deve perder-se de vista a necessidade de corrigir as
grandes desigualdades na repartição da riqueza e do rendimento existentes no
País e aproveitar esta oportunidade para proceder a uma adequada reforma do
nosso sistema fiscal e de contribuição para a Segurança Social.
19. Julgamos que, neste período de ajustamento, seria admissível o recurso a
novas fontes de receita, como, por exemplo, a constituição de um Fundo de
emergência consignado a objectivos de erradicação da pobreza ou de criação
de emprego, com base num adicional de tributação a recair sobre espectáculos
e divertimentos ou bens considerados de luxo.
20. Do mesmo modo, considera o GTES que se impõe um esforço
complementar para acelerar a cobrança de montantes elevados de impostos
em dívida assim como a tomada de medidas de prevenção da fuga
considerável de receitas fiscais através de paraísos fiscais.
21. Prevê o PEC o recurso à alienação de participações do Estado num
conjunto de empresas estratégicas. Entendemos que abdicar dessas
participações é prescindir de uma certa margem de intervenção na economia,
além de que se trata de obter receitas imediatas de uma só vez, mas
prescindindo de receitas futuras.
22. No âmbito das parcerias público-privadas, é de desejar que se procedam a
reapreciações de cada situação concreta, de molde a procurar acautelar não só
a esperada qualidade dos bens contratualizados como também a partilha
equitativa dos correspondentes riscos financeiros.
23. Reconhece o GTES que não é da sua competência debruçar-se sobre
aspectos de ordem técnica implicados no PEC e na sua execução; tão pouco
considera que deva pronunciar-se em termos análogos à das diferentes
facções partidárias ou parceiros sociais. As considerações feitas neste
documento relevam de uma concepção de economia não divorciada de uma
ética social que tem como referenciais a dignidade da pessoa humana e o bem
comum.
24. É neste horizonte, que julgamos dever alertar para que a consequência
mais negativa que poderia decorrer deste PEC é ele alimentar a ilusão de que
constitui a chave para enfrentar os nossos problemas de desenvolvimento a
médio prazo. Com efeito, o País precisa de um rumo para um desenvolvimento
sustentável, do ponto de vista ambiental e de coesão social e não é um mero
crescimento económico que o permite alcançar.
25. O modelo de crescimento implícito no PEC parece sobretudo assentar nas
exportações. Ora, hoje é geralmente reconhecido que um tal modelo não é
garantia de real desenvolvimento e não assegura que sejam alcançados
objectivos, em nosso entender fundamentais, como sejam: a equitativa
repartição do emprego e do rendimento; um trabalho digno para todos; a
igualdade de oportunidades no acesso ao progresso; a prioridade da
erradicação da pobreza; a promoção da qualidade de vida dos cidadãos.
26. Como já em outras ocasiões a CNJP afirmou, insistimos em que a pobreza
não é uma fatalidade. Significa, apenas, que há necessidades básicas de uma
boa parte da população a que o mercado, nas actuais circunstâncias, não dá
resposta e, por conseguinte, a erradicação da pobreza deve ser considerada
um objectivo explícito de toda a política pública e não uma mera questão
residual ou hipotético efeito secundário de um qualquer crescimento
económico. É fácil demonstrar que pode haver elevado índice de crescimento
económico com agravamento da pobreza e da exclusão social.
27. Por outro lado, todos nós reconhecemos que há necessidades colectivas
no domínio da educação, da saúde, da segurança, da habitação, que estão por
satisfazer e cuja satisfação deve ser tida como objectivo a atingir por uma
estratégia de desenvolvimento que, para o efeito trace metas concretas, pois
estas não se alcançarão apenas com o mero crescimento económico entregue
a uma lógica do mercado sob a hegemonia dos interesses do capital financeiro
internacional.
28. Não pode, igualmente, esquecer-se que está por enfrentar o processo de
reestruturação do processo produtivo em curso e a passagem a uma economia
baseada no conhecimento. Há sinais positivos devidamente destacados no
texto do PEC, nomeadamente no domínio da expansão dos serviços e na
intensidade da componente tecnológica, mas há que traçar uma estratégia
clara de transição que permita fazer face aos custos sociais das indispensáveis
reestruturações e sua repartição equitativa.
29. Com esta sua tomada de posição, o Grupo de Trabalho «Economia e
Sociedade» da CNJP quer oferecer às comunidades cristãs e à sociedade civil
um estímulo para que reforcem o seu interesse e empenhamento na
construção de um mundo mais justo e por isso também mais feliz. Dirige-se,
igualmente, aos poderes públicos na perspectiva de um serviço de cidadania e
de responsabilidade democrática, que reclama maior empenhamento por parte
do governo e de outras entidades com participação nas instâncias comunitárias
no sentido de pugnar por uma construção europeia mais sólida e mais
respeitadora de valores éticos comuns.
O Grupo de Trabalho “Economia e sociedade”
27 Abril 2010
os gémeos, Lisboa, Berlim
Porque é que aquelas janelas estão tapadas com tijolos? Será que as casas estão simplesmente à espera de serem transformadas em terreno de construção?


Para entenderem melhor porque me horroriza tanto ver aqueles tijolos, aqui vai uma fotografia encontrada ao calhas na internet, sobre as ruas de Berlim:
28 maio 2010
maldito relativismo
Voltei ao ginásio, desta vez porque me ofereceram uma hora com um treinador pessoal.
(Como é possível ser tão ingénua?)
Começou bem, com simpáticas manobras de sedução para melhor cercar a vítima.
- E então, quais são os seus objectivos?
- Objectivos?
- Enfim, reforçar os músculos do tronco, talvez?
- Sim! Boa ideia, boa ideia.
- Então vamos lá.
Fomos.
Poupo os detalhes dos 45 minutos mais longos da minha vida.
Noutros tempos, bastaria mostrar estes meus músculos lacerados à Amnesty International, e o carrasco do ginásio ficava logo a saber como elas mordem. Mas por causa do maldito relativismo, tudo se aceita, desde que praticado por adultos livres.
***
Como se não fosse suficientemente mau, a minha filha comentou que as torturas a que fui sujeitada não passam de exercícios de aquecimento nos seus treinos de lacrosse.
Maldito relativismo infiltrado, que nem as crianças poupa!
26 maio 2010
deixa cá ver se este blogue é lido por algum berlinense...
(Rita, os teus estão cativos. Encontramo-nos às dez e meia, em frente à bilheteira da Filarmonia. Mais minuto menos minuto. Se uma portuguesa alta e morena meter conversa contigo, não sou eu. É a Maria, provavelmente desesperada para me tentar encontrar e me torcer o pescoço por causa de uns exageros que eu disse sobre a burocracia alemã.)
sol azul e céu radioso - ou talvez o seu contrário
Desta vez vou trocar as voltas ao destino: saio para a rua com o casaco comprido de fazenda. Prefiro suar de calor dentro das camisolas de gola alta, a lastimar o mau tempo neste fim de Maio.
E se na rua olharem para mim como se achassem que sou maluquinha, não me importo: eles não sabem nada. O que faz avançar o mundo são visionários como eu. Deviam era agradecer-me o sacrifício, cambada de ingratos.
Obscena
Entristece ver um projecto destes esmorecer, e dá vontade de começar logo a imaginar maneiras de casar melhor esta ideia com o mercado.
Foi você que pediu uma ideia?
Com quem se foi meter...
Devo dizer que com esse nome, e nos tempos que correm, não me espanta que tenha dificuldades.
Melhor seria que mudassem de vida: em vez de Obscena, chamem-lhe Escorreitinha, e vendam-na nos arquivos históricos do país. Sucesso garantido.
21 maio 2010
serviço público: o risco das vendas a descoberto explicado em palavras simples
O governo alemão proibiu as vendas vazias a descoberto sobre títulos da dívida pública de países da zona euro. Nem todos os países da UE aprovam esta decisão. Para que serve esta proibição?
O que são vendas vazias?
Quando precisam de fazer um empréstimo, os países vendem títulos da dívida pública, pagando juros aos detentores desses títulos. Quanto menos confiança houver no reembolso desse títulos, mais altas têm de ser as respectivas taxas de juro. E quanto mais altas as taxas de juro, mais baixa é a cotação do título, porque não há muitas pessoas interessadas em correr esse risco, ou seja, há poucos compradores. Estas variações na cotação podem proporcionar muitos ganhos a especuladores que pratiquem vendas vazias. Neste caso, eles "apostam" que os compradores estão a perder a confiança na capacidade de pagamento de um país, e que a cotação dos títulos da dívida pública deste vai continuar a descer.
Exemplo de uma venda vazia: B empresta a A uma determinada quantidade de títulos (por exemplo, Obrigações do Tesouro). Cada título tem o valor de 10 euros. Para receber o empréstimo, A pagará a B uma taxa de 1 euro por título. Uma vez na posse destes, vende-os na Bolsa, recebendo 10 euros por cada um. Ao fim de determinado período, A tem de devolver os títulos a B, e regressa à Bolsa para os comprar. Se o preço entretanto baixou para 8 euros, A tem um lucro líquido de 1 euro por cada título transacionado - sem ter investido um único cêntimo.
No caso da vendas vazias a descoberto, A nem precisa de arranjar títulos emprestados. Vende-os apostando na sorte, pois a Lei só o obriga a fornecer os títulos alguns dias após a realização do negócio. Ou seja: "apostando" que a cotação vai baixar, espera uns dias para comprar a um preço mais baixo os títulos que já vendera dias antes a um preço superior - embolsando essa diferença de cotações. O problema: se há demasiados actores a vender títulos que nem sequer detêm (vendas vazias a descoberto), pode acontecer haver muitos mais títulos à venda que os que existem de facto. E nesse caso a aposta dos especuladores resulta em cheio: a cotação dos títulos da dívida pública baixa rapidamente, provocando um grande aumento dos juros que esse país tem de pagar para conseguir empréstimos por meio da venda de títulos.
O que são credit default swaps?
Uma outra possibilidade de especulação é oferecida pelos seguros de falta de pagamento de dívidas, conhecidos por credit default swaps (CDS). Trata-se de seguros que permitem aos detentores de títulos da dívida pública garantir o reembolso do seu investimento caso o país não esteja em condições de pagar. Contudo, os especuladores podem comprar os CDS mesmo sem serem detentores dos títulos que estes pretendem segurar. Eles "apostam" que os detentores dos títulos vão perder a confiança naquele activo, e quererão fazer um seguro. Quantos mais CDS forem comprados, mais alto será o seu preço, pelo que os especuladores os poderão vender a um preço superior ao que pagaram. O problema: quanto mais caros os CDS, mais os investidores temem que o país não possa pagar o capital em dívida. O que faz com que as taxas de juro desses títulos disparem.
O que foi proibido?
Só detentores de títulos da dívida pública da Eurozona estão autorizados a comprar os respectivos CDS. A venda vazia a descoberto é proibida para esses títulos e também para acções de dez grandes institutos financeiros alemães (entre os quais o Deutsche Bank, o Commerzbank e a Bolsa Alemã). Relativamente a estes últimos, pretende-se evitar que os especuladores apostem contra a cotação das acções destes institutos, desestabilizando o sistema financeiro. Por enquanto não há uma lei, apenas uma medida de precaução tendo em conta a situação actual no mercado. As proibições são válidas até Março de 2011.
Alguns apontamentos:
Há quem aprove, há quem discorde. Uns dizem que é um sinal importante para os especuladores, outros temem que seja um sinal negativo para os investidores. Por outro lado, a maior parte desses negócios com títulos da dívida pública não são feitos na Bolsa, mas "over the counter", o que torna o controlo muito mais difícil.
como já faz algum tempo que não me ocorre uma ideia muito brilhante e muito populista, que me dizem desta:
Por exemplo:
- quem ganhar acima de 4, 6, 10 salários mínimos, paga sobre o excesso um imposto de 80% (com uma variante mais agradável: as chefias de uma empresa não podem ganhar mais que 10 vezes o salário mais baixo pago por essa empresa - ou então, pagam o tal imposto pelo excesso)
- o total de reforma (ou conjunto de reformas) auferida por uma pessoa não pode exceder 4, 6, 10 salários mínimos. Quem quiser mais, tem de fazer um seguro privado complementar.
Dir-me-ão agora: ai, mas os muito competentes merecem ganhar mais...
Quais muito competentes? Ocupar um cargo não é sinónimo automático de competência. A competência mede-se pelos frutos, e - perdoem-me a tirada populista - não se têm visto muitos frutos em Portugal.
Dir-me-ão também: mas vamos afastar do país aqueles que têm mais dinheiro?
Assim sem pensar muito (quando se está numa onda de demagogia, não convém fazer trabalhar os neurónios) pergunto-me quantos muito ricos ajudaram Portugal, e só me ocorre um nome: Gulbenkian.
a Igreja sempre preocupada em defender os interesses das mulheres
Vão lá ver, e depois voltem, para me darem razão nesta conclusão rápida que tirei:
- aaaaah, afinal, quando vozes da Igreja pedem aos homossexuais que reconsiderem e arrepiem caminho e casem e criem família, estão é a pensar na felicidade das mulheres!
(Está bem, está bem, reconheço que esta minha gracinha é pateta.)
(Muito pateta, aliás.)
20 maio 2010
carnaval das culturas em Berlim

Este fim de semana há festa em Kreuzberg.
Confesso que é a pior época do ano para a minha xenofobia natural: no meio daquela alegria de países, comidas e músicas, é difícil uma pessoa sentir desconfiança e rejeição em relação aos, ahem, estrangeiros.
19 maio 2010
daquela vez que fomos a LA saborear um Thanksgiving com amigos
Thanksgiving, 2001
SF - LA
A parte má: 6 horas de carro ó pra lá, 9 horas de carro ó pra cá, 200 milhas de engarrafamento quase contínuo no regresso, com direito a mistério: ao fim de 5 horas parámos 15 minutos para encher um depósito e despejar os outros, quando voltámos à estrada já não havia engarrafamento. A única explicação que tenho é que de algum modo souberam que era eu quem estava agora ao volante, deve ter sido um salve-se quem puder toda a gente a fugir da estrada.
A parte boa: adivinhem! Os amigos com quem nos encontrámos.
Resolvida a questão maniqueísta, vamos então por partes:
Não falo dos festins, que há aqui muita gente de dieta.
Mas sempre vou adiantando que todas as noites foram de festa, sempre com boas conversas e bons risos, às vezes com direito a bela sessão de massagens e escola de samba - as surpresas que LA by night nos reserva!
Também posso dizer que as nossas noites foram bem melhores que os meus dias, e que dias...
Três dias de divertimento pré-fabricado: Santa Monica Pier (só faltavam os cartazes "sorria, estamos a fazer o que podemos para o divertir"), Universal Studios (ekchon, ekchon, ekchon!), Disneyland (the merriest place on earth) (ainda hei-de ver o que é que isto significa nos dicionários. Não consegui entender, nem sequer tentando tirar pelo sentido.)
O que uma mãe não faz pelos filhos!
No Santa Monica Pier havia um músico a cantar reggae, foi a parte mais agradável da tarde: ouvir aquela música em frente ao mar, perto do pôr do sol. Também houve um momento divertido quando o Matthias tentou acertar com bolas de ténis nos bonecos de uma barraca e as bolas pareciam enfeitiçadas, voavam em todas as direcções menos na dos bonecos, juntou-se um grupinho de gente a rir da falta de jeito, se eu fosse esperta tinha levado um chapéu para a Christina passar no fim do show.
Dos Universal Studios é melhor nem falar, raramente vi tanta action tão despropositada. Assistimos a uma sessão dos Blues Brothers, é sempre engraçado ouvir aquela música. Só que eles faziam questão que os meus filhos se levantassem e dançassem e abanassem os braços acima da cabeça, o que eles se recusavam a fazer. De modo que os Blues Brothers lá do palco faziam caretas para nós, e nós fazíamos caretas para eles, eu mais ainda que o Matthias, vão lá chatear o tio deles com a mania de arrebanhar a audiência em dinâmicas instantâneas de massas. Depois demos a voltinha dos pavilhões e essa sim, foi interessante para mim, embora os miúdos tenham tido algum medo por causa dos efeitos especiais. O que uns filhos não fazem pelas mães.
A maior desilusão foi a Disneyland, eu juro que pensava encontrar aquele palácio lindo da publicidade nos livros do tio Patinhas, e sai-me uma casinha de tamanho barn. Vão passear, seus engana crianças.
Caí na asneira de levar os miúdos aos bobsleds do Matterhorn, ainda o carro não tinha começado a ser içado já eu estava arrependida. Ao primeiro sacão agarrei-os bem, comecei a repetir "não nos vai acontecer nada, não se preocupem", fechei os olhos e continuei a repetir "não nos vai acontecer nada!" - só não comecei a rezar porque já sei que não resulta, mas pouco faltou. Quando saímos, a Christina contou toda calma que tinha visto bichos muito engraçados, uns verdes e outros azuis.
A meio do dia começou a chover torrencialmente. Em desespero de causa fomos para o Tiki room. À entrada eu perguntei o que era e o funcionário respondeu "flores e pássaros cantores" e eu, parva, "verdadeiros?", e a Christina sussurrando embaraçada "que pergunta, mãe!" e o funcionário "estão à sua frente".
À minha frente havia bonecada, pássaros e flores pendurados, atrás de mim a chuva torrencial, venha o diabo e escolha, entrámos. Daí a nada estava a olhar boquiaberta para manganões com idade para serem meu pais, todos eles balançando nas cadeiras e cantando uma canção supostamente oriunda das ilhas dos mares do sul, em coro com a bonecada, os tais pássaros e as flores. Muito divertido, quase chorei de desconsolo.
Saímos do Tiki room e tentámos chegar à ilha dos piratas, mas estava tudo fechado por causa da chuva que entretanto tinha transformado as ruas em rios. Em alguns pontos a água tinha quase meio metro de profundidade. Ainda passei alguns sítios com os filhos ao dependuro para não molharem os sapatos, mas não adiantou. Em pouco tempo estavam encharcados até à barriga. Nas esplanadas dos restaurantes os empregados tentavam varrer a água, foi a primeira vez que vi o Sísifo de capa da chuva. Dos altifalantes saía música muito merry, as pessoas atravessavam as ruas inundadas com um ar infeliz e desorientado, se a Disney quisesse rir de si própria não poderia ter feito melhor. Desistimos, fui pedir um reembolso dos bilhetes porque não há direito de fazerem ruas sem fazerem escoadouros de água, nem precisei de argumentar, eles estavam a dar bilhetes novos sem discutir. Hehehe, é bem verdade que quem não chora não mama.
Entretanto a chuva abrandou, dos altifalantes saía "you've got a friend in me" e nós começámos a cantar, dançando como patos, pés nos charcos, platsch platsch dentro dos sapatos. Voltamos para LA sem sapatos nem calças, só foi chato quando tive de meter gasolina, improvisei como pude uma saia com o meu casaco, mas não fui presa por ofensa à ordem pública.
Resumindo e concluindo: LA está para mim como Sodoma para o profeta, o que a salva é a meia dúzia de justos que lá vive e por esses até era capaz de me mudar para lá!
a propósito do portunhol do Sócrates
(E eu aqui a pensar porque é que os portugueses fazem questão se se envergonhar do Sócrates, quer tenha ele cão quer não tenha)
alvíssaras! alvíssaras! consertaram-me boa parte do outlook
Aconteceu no meu outlook: o ficheiro pst foi crescendo crescendo crescendo, passou os 2 GB e, quando um amigo me mandou as gracinhas habituais à sexta, tornou-se um buraco negro. Estava lá tudo, não se via nada.
Ontem passou por cá um anjo salvador chamado Horst, que tentou por aqui e por ali, e tentou de novo e retentou, e no fim disse-me assim: "estas pastas todas são muito esquisitas..."
Eram elas! Os e-mails dos últimos sete anos, provavelmente todos (ainda não tive tempo de verificar um a um) excepto os que estavam na pasta de entrada.
Santo Horst. Genial Horst. O Einstein, o Hawking, o Schwarzschild e todos os outros vão ter de refazer as suas teorias, porque foram ontem refutadas pelo Horst em três horitas de trabalho.
Agora estou a arrumar e a apagar, já se sabe como é depois da casa arrombada.
E encontrei esta gracinha (que provavelmente já contei aqui, mas paciência):
Conversa ao jantar:
Christina: Mãe, viste o postal na casa de banho de Barbara, onde se lia "adoro ser mulher, posso chorar quando me apetece, vestir roupa bonita e, em caso de naufrágio, sou a primeira a saltar para o salva-vidas"?
Eu: Vi.
Matthias: Porquê?! Porque é que as mulheres se salvam primeiro?
Christina: Porque é assim, e pronto.
Eu: Então, Matthias, como é que te sentias se, em caso de naufrágio, saltasses logo para o salva-vidas e deixasses a tua mulher e os teus filhos para trás?
Matthias, ainda mais zangado: E como é que a minha mulher se sentia se se salvasse e me deixasse para trás?
Christina, já a pensar noutra coisa qualquer: Melhor seria um casal de lésbicas, salvava-se marido e mulher, a bem dizer.
(cá para nós: quanto mais penso no caso, mais me parece que o Matthias, nos seus seis anos, estava cheio de razão)
18 maio 2010
Calamity Jane
Continuo perseguida pelo meu destino: ontem acrescentei um blogue à minha lista de passeios, hoje esse blogue acabou.
Ai.
pequeno truque para escrever à maneira de Oitocentos
A solução acaba por ser simples: imagina-se como é que um polícia escreveria um relatório.
Desde que um irmão meu foi multado por "ir com acompanhante a conduzir o veículo abraçado ao mesmo", nunca mais tive dificuldades para escrever a parecer difícil e arrebicado.
(espero que o Fernando Campos não leia isto)
(e aquele editor que estava para me encomendar a tradução do Fausto também não)
(e os senhores da GNR e da PSP também não)
(pelo sim pelo não, sempre era mais avisado ir já tratar de me naturalizar alemã)
17 maio 2010
morder a mão que nos dá de comer
"Por aquela época, o duque começou a acalentar a ideia de criar junto ao seu palácio Solitude um centro de formação para os filhos dos oficiais e soldados, e pediu aos professores referências sobre o talento e as qualidades de trabalho do alunos. Entre os escolhidos estava também o meu irmão, pelo que foi o meu pai chamado à presença do duque, tendo-lhe este revelado as suas intenções e sugerido que enviasse o filho para aquela escola.
Ao que o pai retorquiu que desde muito novo o filho revelara inclinação para o sacerdócio, com o que ele, pai, concordava, e caso lhe fosse possível naquele instituto continuar e aprofundar esses estudos, a aceitação do filho na dita escola seria para ele uma benção.
Em resposta, o duque afirmou que essa possibilidade não estava prevista, mas que o seu filho poderia escolher outra ciência. Ao que se seguiu uma longa pausa - o meu irmão não queria estudar ciências, o pai também não, mas o duque exigia uma resposta, e após muita resistência acabou por escolher a Matemática, em relação à qual não sentia a mínima atracção, e apenas por consideração ao pai (que estava directamente às ordens do duque, como oficial, e temia enfurecê-lo) cedeu e se entregou a esta ciência com toda a força do seu espírito, tal como lhe era habitual."
A 16 de janeiro de 1773, Friedrich Schiller entrou na Hohe Carlsschule de Solitude.
(...)
A sua entrada nesta escola (...), inevitável para a família, teve tanto de benção como de maldição. Benção, porque a família não tinha qualquer espécie de despesas com ensino, alimentação e vestuário do filho, além de estar numa escola com professores de excelente fama. Maldição, porque se dissipou o sonho que toda a família acalentava de ver um dia Friedrich clérigo, pois que o rapaz foi afastado do seio familiar e lhe foi criada uma situação de dependência para toda a vida, de se "entregar inteiramente ao serviço da Casa Ducal de Wurttemberg, e apenas mediante indulgente autorização desta se poder retirar". A recusa de corresponder ao desejo do duque, de fazer ingressar neste instituto elitário um aluno tão dotado, teria tido como inultrapassável consequência para Johann Caspar Schiller e a sua família a perda das boas graças do duque. Por isso, havia que sujeitar-se.
(do livro "Schillers Schwester Christophine", de Annette Seemann)
***
A partir desta descrição, a expressão "morder a mão que nos dá de comer" muda inteiramente de sentido.
pesada herança


No documentário Hitler's Children conta-se que a sobrinha-neta de Göring decidiu esterilizar-se para não dar origem a novos monstros na família: não queria "produzir mais Görings". O seu irmão seguiu-lhe o exemplo.
Ela conta, com tristeza e susto, que o espelho não lhe mostra apenas a sua imagem, mas simultaneamente a de um terrível assassino: os mesmos olhos, as mesmas maçãs do rosto, o mesmo perfil do tio-avô. Uma imagem que lhe é insuportável.
Eu vejo, e pasmo: depois de tantas décadas, aquelas malfadadas teorias de raça, fisionomia e carácter estão ainda de tal modo inculcadas numa pessoa, que esta prefere impedir-se de ter filhos a transmitir esse "mal genético" às futuras gerações.
(fotos tiradas deste site)
16 maio 2010
Sophia e Jorge de Sena
E também pelo modo como Sophia fala das viagens que faz.
Se tivesse o material disponível, era isto que faria: um guia de viagens pela pena de escritores portugueses. (Pensando bem, esta ideia já a teve o Instituto Português de Turismo, ou instituição semelhante, há mais de vinte anos. Vou procurar o meu exemplar, há-de estar para os lados daquele Neruda que tenho de devolver ao Chico Buarque.)
E um dia farei isto: uma viagem à Grécia, guiada pelo poemas de Sophia.
15 maio 2010
agarrem-me, que estou a ver que hoje não vou fazer mais nada
Aqui.
Vão lá depressa, neste preciso momento está imperdível - sobre o Sistema Nacional de Doença.
Adenda: Desisto. Está mais tempo off air que on air. Depois hei-de ver se consigo o vídeo do Joaquim Casado. E o de Simão Rubim.
o riso é a minha perdição
Saí do supermercado com os braços carregados de já agoras, mas sem saco ("são só uns metros até ao carro, não é preciso, obrigada"), dirigi-me ao parque de estacionamento e...
...estava fechado. Por engano, estacionara o carro no parque subterrâneo de um prédio, agora fechado por um portão de grades, em vez de o fazer no parking do supermercado, sempre aberto.
No dia seguinte, durante o pequeno-almoço, contei a história aos meus filhos.
- E que fizeste, mãe?, perguntaram eles, um bocadinho horrorizados.
- Desatei a rir. Era uma cena muito engraçada: eu com os braços feitos cesto cheio de compras, e o carro do outro lado das grades a dizer-me adeuzinho.
II. O Matthias foi passar a tarde com um amigo muito maluco que ele tem (acho que agora se diz "muito criativo", mas teria de ir verificar) e regressou com uma história mirabolante. Tinham começado por jogar uma mistura de futebol e basketball (chutar bolas para dentro de um contentor de papel), depois o Matthias foi para dentro do contentor para ser mais fácil apanhar as bolas quando caíam lá dentro, e daí a nada a brincadeira mudou: o Matthias fechava a tampa, e quando passava alguém ele levantava-a um pouco, fazia cara de parvo e dizia "olááááá".
Claro que o amigo quis participar na gracinha, saltou para dentro do contentor, e então eram dois a levantar um pouco a tampa, a fazer cara de parvo e a dizer "olááá".
Imagino a cara dos transeuntes...
Às tantas o amigo mexeu-se descuidadamente, e o contentor caiu muito devagarinho para trás, deixando-os sentados em cima da tampa, enquanto uma confusão de folhas de papel chovia sobre eles.
- E que fizeram?, perguntei eu, transtornada.
- Desatámos a rir, mãe. Foi tão engraçado!
Depois de muito rirem, tentaram virar de novo o contentor. Mas com tão pouco jeito que acabaram por virá-lo para o lado errado, e ali ficaram, mais fechados que nunca, a rir à gargalhada.
Daí a uns minutos passou alguém que os libertou e lhes deu um valente raspanete (abençoado controle social).
Eu ralhei, fartei-me de ralhar. Que porcaria, brincar num contentor de lixo ("era de papel, e estava vazio, mãe, não percebes nada!"), e que susto, já estava a ver a notícia nos jornais: foram encontrados dois rapazinhos mortos de calor, sufocados dentro de um contentor (embora eu própria tenha de reconhecer que no inverno berlinense é difícil alguém morrer de calor). O Matthias encolheu os ombros: "não tens nenhum sentido de humor".
Quando o pai chegou a casa contámos o episódio. Eu esperava que ele advertisse o filho para os riscos que correra, mas ele:
- Da próxima vez pintem um braço de esbranquiçado, e deixem-no pendurado de fora do contentor como se fosse um cadáver...
14 maio 2010
mais inimigos
Eu também os tenho: os cameramen que filmaram a missa.
Malandros! Não podiam parar mais um bocadinho nas caras do coro, nas dos padres, nas da assistência, a ver se eu reconhecia alguém?
A cara do Papa já eu conheço, não é preciso insistir sempre no mesmo.
Ninguém faz as coisas como deve ser, e depois queixam-se que o país está como está.
o inimigo do Papa
Um agente de maus fígados: que lhe incluiu um "saboreará" no texto da homilia.
Ora, isto é uma maldade que não se faz. E muito menos a um alemão de 80 anos.
13 maio 2010
o milagre de Fátima
O Ratzinger que se cuide, ainda acaba santo.
às seis da manhã, hoje, em Tegel
Hoje levei-o a Tegel
(aquele aeroporto, pasmem, onde se deixa o carro a dez metros do balcão do check in, e daí ao avião são uns trinta metros) (quem quiser vir apreciar este milagre que se despache, porque tencionam fechá-lo em dois ou três anos) (triste vida)
e a mala tinha 25 quilos. Ele explicou: medicamentos e material de cirurgia para uma caravana de médicos nos confins de Marrocos - mas a senhora não se deixou demover. Que tinha de tirar uns dois ou três quilos. E nós toca de abrir a mala ali à frente de todos, e o Joachim toca de escolher os medicamentos eventualmente menos necessários, e mais os lápis coloridos que levava para os miúdos, e toca de meter na mala coisas leves que iam na bagagem da mão para ganhar nesta espaço para coisas mais pesadas (não contem este ardil a ninguém dos aeroportos, sff), e eu a pôr os medicamentos e os lápis em cima do balcão como quem não quer a coisa, a ver se a senhora se demovia. Demoveu: "sabe que pode levar duas malas de vinte quilos cada uma?" "não, não fazia ideia!" "vou-lhe dar uns sacos, e passa algumas coisas para lá, para poder levar tudo."
E toca de abrir a mala de novo, e passar para os sacos transparentes as coisas que em princípio não suscitariam muita cobiça, e toca de rearrumar a mala ali no chão à frente de todos, e de fechar o saco...
Um embaraço, mas nada que se compare com a figura que fizeram as nossas malas quando fomos morar para os EUA: para poder levar o mais possível, sem perder com as malas algum do precioso peso disponível, meti as coisas em sacos da IKEA. Saco cheio, pegas atadas, segundo saco sobre este, de cabeça para baixo, pegas atadas, terceiro saco para dar estabilidade à coisa, pegas atadas. Em vez de vários quilos de malas, uns gramitas. Hehehe. O Joachim é que ia pelo aeroporto a fazer de conta que não nos conhecia, enquanto eu empurrava o carrinho onde iam aqueles estranhos pacotões azuis.
Mas eu às vezes não sou rancorosa e por isso hoje ajudei-o a passar pequenas embalagens de lápis de cores de um lado para o outro, no meio do aeroporto.
E agora é esperar até que ele telefone e diga "a mala, o saco transparente e eu chegámos sem problemas".
E agora, se querem saber o truque de Tegel, é assim:

Os carros que vão para o terminal A passam por um túnel para aceder ao centro do anel. Do lado de dentro estão os carros, do lado de fora os aviões. Entre ambos, umas escassas dezenas de metros. Porque é que não fazem todos os aeroportos assim?
E por falar em corredores...
É muito estranho ver um tumor assim agarrado a paredes do cinquecento.
(Será que no entretanto em vez de cinquecento se diz topolino?)
e por falar em milagres...
Porque o Papa é alemão. Hehehehe.
12 maio 2010
espelhos
Confesso que não me dá jeito ver à esquerda a mesma intolerância e o mesmo fundamentalismo cego que vejo à direita.
Arrojas e Césares das Neves também do "meu" lado?!
Que tristeza.
Vamos com calma, que há lugar para todos.
Porque é que não são capazes de simplesmente tolerar a diferença?
Porque é que estão tão nervosos e fazem questão de negar este gosto a tantos portugueses?
Porque é que a Igreja Católica os incomoda tanto? No plano concreto das realizações, são estes os factos: recentemente, e apesar das posições morais que a Igreja tem todo o direito de ter e enunciar, este país de católicos aceitou - entre outros - a interrupção voluntária da gravidez e o casamento de casais do mesmo sexo, sem que se tenha sequer esboçado um início de grandes convulsões sociais.
A queixa do incómodo que a visita provoca no trânsito é a mais ridícula de todas.
Pobre provincianismo. Venham a Berlim ver como é que é conviver com visitas de Estado quase a ritmo diário.
É uma maçada? Pois é, e direi mesmo mais: quando calha de serem políticos americanos ou israelitas, é uma autêntica Massada!
Mas nunca ouvi ninguém lamentar-se que "ai que chatice, queria ir tomar um cafézinho ao outro lado da rua e está aqui a visita deste chato a trocar-me as voltas, porque raio não fica ele na terra dele?"
É óbvio que todos têm o direito de dizer o que pensam.
Mas rio-me só de imaginar a reacção de certos blogues portugueses se alguém publicasse, a propósito de uma gay pride parade (por exemplo), comentários semelhantes aos que eles próprios publicam a propósito da vinda do Papa.
Façam a experiência, é muito divertido: nesses posts de protesto, onde estiver "visita do Papa" ponham "gay pride parade", e onde estiver "católicos" ponham "homossexuais". Mas também podem trocar para "manifestação dos professores" e "professores", ou "festejos no fim do campeonato de futebol" e "benfiquistas", etc.
Espelhos.
11 maio 2010
Zerrung
e passa a correr para a máquina seguinte
umdoistrêsquatrocincoseisseteoitonovedezonzedozetrezecatorzequinzedezasseisdezassetedezoitodezanovevinte
e passa a correr para a outra
umdoistrêsquatrocincoseisseteoitonovedezonzedozetrezecatorzequinzedezasseisdezassetedezoitodezanovevinte
e para a outra
umdoistrêsquatrocincoseisseteoitonovedezonzedozetrezecatorzequinzedezasseisdezassetedezoitodezanovevinte
e na última, que era uma de usar os braços para levantar pesos (25 kg), cheguei ao quinzedezasseisdezassetedezoito e não deu mais.
Tomei o duche, fui à minha vidinha, e comecei a sentir uma dor estranha entre as costelas, sempre que respirava. Se fosse na hidroginástica, onde só se respira de 5 em 5 minutos, bem ia, mas com a frequência aquela dor começou a incomodar.
Diagnóstico: Zerrung. Ah, então está bem.
Ando há quatro dias com uma Zerrung, e hoje resolvi ir ao dicionário ver o que é.
Distensão, dizem eles. Distensão!?
Ai, não me digam que em português é grave!?
***
Outro dia conto de como foi o parto da Christina, e de como o meu corpo não entendia o que a parteira queria dizer. "Ziehen Sie", dizia ela, e o meu corpo feito taralhouco mouco.
Proposta para melhorar os serviços hospitalares: aulas de línguas estrangeiras para as parteiras.
10 maio 2010
em Berlim, há 65 anos...
exposições em Berlim, ou: ai que stress cultural
Berlim ocidental, essa ilha orgulhosamente resistente do lado de lá da cortina de ferro, desatou a construir o que lhe faltava: universidades (por exemplo aquela onde fizeram a biblioteca de Norman Foster), salas de concertos, museus.
Depois da queda da muro, a cidade ficou com todo o equipamento cultural e recreativo em duplicado, ou até mais.
Dizem que são quase 200 museus (contando também os de Potsdam, que são um absoluto must), ai que stress cultural.
Ontem fomos a um dos menos conhecidos, e ficámos embasbacados: como é possível estarmos há quase três anos em Berlim e não termos visto ainda a colecção Scharf-Gerstenberg?
Até 15 de Agosto tem a exposição "double sexus", com obras de Louise Bourgeois e Hans Bellmer. Recomendo, e de preferência com visita guiada.

Esta peça, de Louise Bourgeois, é usada no cartaz da exposição (foto tirada daqui). O que mais me fascinou - para além dos objectos, claro - foi a semelhança de temas e sensibilidades criativas destes dois artistas que praticamente se desconheciam.
Será que já disse hoje "ai que stress"?
Pois é: vista essa exposição, fomos obrigados a decidir entre passar para as salas da colecção permanente desse museu (pintura surrealista), atravessar a rua e ir ao Berggruen ver Picassos e Klees numa atmosfera muito sossegada, ou ir à Neue Nationalgalerie ver a exposição "tempos modernos" (sim, com o filme do Charlot), sobre pintura de 1900 a 1945.
Decidimo-nos por esta, que está excelente, e pede mais de quatro horas para ser bem vista.
As salas estão divididas por temas, em grande parte ligados à história (o choque da primeira guerra mundial, a técnica, as praias, etc.).
Por vezes aparece uma fotografia de um quadro que devia estar ali, e não está porque foi levado pelos russos no fim da guerra. Aliás: em muitos museus berlinenses são exibidas fotografias ou cópias de peças que foram roubadas.
(Agora podem dizer: ah, sim, mas os alemães também...
Sim, os alemães também, e de muitas maneiras. Contudo, parece-me saudável dar visibilidade a esses episódios, independentemente dos autores.)
Na exposição também há fotografias de quadros que foram confiscados no período nazi, por serem considerados "arte degenerada". O mais curioso é que os nazis decidiam o que era "arte degenerada" e confiscava as peças, e depois alguns dos maiores do regime apropriavam-se das que mais lhes agradavam. Alguns desses quadros proibidos salvaram-se assim, outros desapareceram já no fim da guerra.
Na sala dedicada ao cubismo havia dois quadros de Picasso. Uma família de turistas espanhóis, com filhos pequenos, entrou na sala e foi direita ao conterrâneo. "Mira, Picasso!" - chamou a mãe. E a filha, talvez cinco anitos, olhava perplexa para aqueles bocados de mulher e violino repartidos ao calhas por um quadriculado, e repetia "Picasso... Picasso..." como um mantra.
Um dia destes hei-de-me lembrar de escrever um livro de conselhos para pais, "como fazer com que os seus filhos fujam de tudo o que parece cultura". É muito fácil. Mas desconfio que não se vai tornar um best-seller, porque os pais já sabem fazer isso tudo muito bem.
percalços de viajante
Bem diz o povo: de Espanha, nem bom vento nem bom viajamento.
08 maio 2010
já não há respeitinho
(Agora é que o Miguel Marujo nunca mais fala comigo)
com o coração nas mãos
Levei-o ao estádio olímpico, e daí a nada estava-me a ligar: que tinha arranjado um bilhete, mas tinha de ser muito discreto porque estava no bloco dos fãs do Hertha.
Aimeudeus, estou aqui com o coração nas mãos.
Que eu bem sei como ele é. Como daquela vez em que estava a ver um jogo de futebol em Portugal, lá no café da aldeia, e era o único que saltava quando a equipa dele fazia uma boa jogada. Os homens miravam-no como se estivessem a ver um marciano, ele fazia de conta que não estava ali, e para comemorar os golos alemães mandava servir cerveja a todos. De modo que a partir do terceiro golo, mais passe menos passe, ficou com boa fama na terra. Que até o filho da vizinha veio para casa comentar que "o médico alemão afinal é porreiro".
Pois é, é, Tomé. Felizes os que acreditam sem beber.
(Espero que o Bayern hoje não meta muitos golos, que naquele estádio a cerveja é cara.)
04 maio 2010
hoje andei a passear dentro do cérebro de Norman Foster...

As que eu fiz - e aqui vos confesso um segredo: aquilo é um espaço tão fantástico, que até de olhos fechados se fazem boas fotografias - foram estas:

Corte transversal do cérebro, e é para que se saiba que não estou a inventar nada.



Agora: apreciem-me bem este ambiente de trabalho, reparem na posição em que aquela moça estuda para os exames. Chegou a minha vez de be afraid, be very afraid: é esta gente que me vai pagar a reforma?Vou já fazer um seguro suplementar...
03 maio 2010
Schostakowitsch, Wei Lu, e eu
Na terça-feira passada estavam a tocar Haydn e Schostakowitsch. O programa louvava o violinista, Wei Lu, um génio descoberto por Anne-Sophie Mutter, aluno de tudo o que é sumidade violinística do nosso tempo.
Mas ia tocar Schostakowitsch, e eu, que não tenho nada contra russos, resolvi (não sei porquê) que depois do Haydn ia à minha vida.
Bem: não fui. Wei Lu tocava Schostakowitsch como se fosse música. Ou melhor: mostrou-me que Schostakowitsch (é claro que estou a escrever o nome com cut&paste, escusam de ficar admirados por eu já ter acertado cinco vezes seguidas) faz coisas muito boas.
Estava convencida (não sei porquê) que ele fazia daquelas coisas que nunca se sabe se a orquestra já começou ou se ainda está a afinar os instrumentos. Nada disso: começa assim, nota-se logo a rrrussische Seele, a alma rrrussa.
Moral da história: da próxima vez que quiser decidir em que parte do concerto abandono a sala, devo consultar primeiro o youtube, grande desfazedor de preconceitos (é ele, e o Wei Lu).
hidroginástica em alemão
Os sobreviventes obedecem.
ontem em Berlim
(Para quem não entende alemão: o condutor do carro que não conseguia avançar começou a reclamar que as lojas estavam todas fechadas, e aqueles manifestantes não o deixavam passar para ir comprar comida - as frases dele incluiam vários adjectivos fortes, mas não adiantam muito ao relato...)
E aqui outra reportagem sobre a marcha dos neonazis, onde se vêem polícias a levantar Wolfgang Thierse, o vice-presidente do Parlamento.
Dado que a manifestação foi autorizada, o dever da Polícia era proteger os seus participantes e abrir-lhes caminho. Para o que recorreram ao uso da força, e nem sempre com tanta suavidade como com o Thierse.
Uma das contramanifestantes protesta perante a câmara: "proteger uma coisa destas já não tem a ver com Democracia".
E é, de facto, a grande questão: até onde levamos o lema "não concordo com o que dizes, mas estaria disposto a morrer para que tu o possas dizer"?
E até que ponto estamos dispostos a cumprir as regras do nosso Estado de Direito?
Thierse vai ter agora problemas porque a sua infracção feriu um direito constitucional e tornou ainda mais difícil e arriscado o trabalho dos polícias (que certamente não estariam de bom grado a proteger aquele grupo).
E os polícias? Deviam ter metido atestado médico, deviam ter invocado objecção de consciência?
01 maio 2010
notícias ao fim da tarde
O que se passou hoje em Berlim (relato em grande parte recolhido no site de um jornal diário berlinense):
- Há sete mil polícias nas ruas, muitos deles vindos de outras regiões da Alemanha.
- Parece que em Kreuzberg a noite passada foi relativamente calma (ao contrário do que aconteceu em Hamburgo). Não encontro notícias de pelejas graves ou carros incendiados.
- Nesse bairro está agora a decorrer uma festa popular, Myfest, para criar uma alternativa alegre e familiar ao festival de violência que se costuma realizar neste dia.
- No Ku'damm passaram 250 neonazis (era o grupo que eu vi), que avançaram pela avenida em passo de corrida e gritando palavras de ordem - uma manifestação não autorizada. Foram parados pela Polícia. Alguns agrediram os agentes, cujos colegas conseguiram filmar essas cenas. Foram identificados (apesar de terem começado por alegar que se tinham enganado no comboio, eram todos de Berlim - o que indica que a acção tinha sido planeada), detidos e levados em carrinhas para um ponto de concentração.
- Os habitantes de Prenzlauer Berg, o bairro onde foi permitida uma manifestação de extrema-direita, puseram cartazes às janelas e frases de protesto escritas a giz nas ruas ("esta merda castanha dá vómitos" ou "façam como o vosso Führer, matem-se"). Por volta do meio-dia o bairro estava cercado e controlado por polícias. O contexto jurídico é claro: a manifestação foi autorizada, as contramanifestações não foram. Quem vier para a rua manifestar-se em grupo contra este cortejo está a incorrer numa infracção. As pessoas sabem, mas entendem ser um dever cívico impedir o desfile. A Polícia tem de permitir que os neonazis façam o percurso indicado sem que haja obstáculos nem actos de violência.
Dez mil contramanifestantes juntaram-se nas ruas para impedir o desfile . A Polícia contava com três mil neonazis, e só apareceram uns quinhentos.
Entre os contramanifestantes contavam-se vários políticos importantes e altos representantes das Igrejas.
Quando, por volta das duas da tarde, se deu início à manifestação com um discurso sobre a reconquista (a expulsão dos invasores muçulmanos), os habitantes das casas mais próximas abafaram o som com um chinfrim de bater de tachos e música reggae aos berros.
O cortejo pôs-se em marcha, o que diziam era abafado pela barulheira infernal que vinha das casas ao longo da rua. Aqui e ali, grupos de pessoas sentavam-se no chão para impedir o avanço do cortejo. A Polícia desfazia imediatamente os bloqueios, recorrendo ao uso da força para levar os manifestantes para outro local.
Desconfio que Sísifo é o middle name destes polícias:
Um grupo de políticos importantes, entre os quais o vice-presidente do Parlamento Federal, Wolfgang Thierse, começou a marchar à frente dos neonazis, exibindo cartazes onde se lia "Berlim contra os nazis".
De alguns telhados começaram a atirar pedras contra os manifestantes.
Elementos da Polícia instaram o grupo de Wolfgang Thierse a retirar-se da frente do cortejo. Em resposta, eles sentaram-se no chão. O responsável policial exigiu que abandonassem o local, "no interesse da realização pacífica desta manifestação", mas eles permaneceram sentados. Os jornalistas cercaram a cena.
Ao fim de dez minutos, Wolfgang Thierse (na foto abaixo, de barba, à direita dos cartazes), foi afastado por meio de alguma força, e protestou afirmando que é um direito dos cidadãos defender as ruas de tal abuso. Já no passeio, comentou que "os polícias cumprem o seu dever de polícia, e nós cumprimos o nosso dever de cidadãos". A Polícia fez saber que ele, juntamente com outros políticos e cidadãos (trinta, no total), se tinham afastado voluntariamente do local, pelo que não seriam sujeitos a qualquer punição.

Imagino a cena: uma mão-cheia de pessoas sentadas no chão, à frente de centenas de neo-nazis irados (talvez ainda mais assustadores que os que no Ku'damm me encheram de medo, mesmo à distância de cinquenta metros). A Polícia pressiona-os para abandonarem o local, e eles permanecem. Grandes!
O cortejo não conseguiu avançar muito mais. Dos telhados das casas continuavam a chover pedras. Os neonazis viram-se obrigados a retirar, seguidos por gritos de júbilo ("auf Wiedersehen! auf Wiedersehen!") dos habitantes do bairro, nas varandas das suas casas.
- Por sua vez, num fórum chamado "open speech", aparece um neonazi a protestar também: que Thierse, esse fascista de esquerda, mais uma vez mostrou como é o seu entendimento da Democracia, e como ignora as regras de um Estado de Direito. Que participou no bloqueio de uma manifestação autorizada, incorrendo em vários delitos, que o nosso já tão violado Estado de Direito mais uma vez deixará amavelmente passar em claro, já que não se arranja nenhum procurador da República disposto a tomar conta do caso.
E vá de citar alguns artigos do Código do Processo Penal, e vá de concluir: o Estado de Direito oferece os instrumentos suficientes para enfrentar estas infracções, mas nesta República das Bananas não há ninguém que os queira usar de forma consequente.
Uma coisa é certa: estes rapazes sabem bem usar o discurso democrático para os seus fins.
Mas depois termina o post com este cartaz, e lá se vai a ilusão democrática:

