Decididamente, há países que não aprendem com os erros dos outros...
Agora que a blogosfera portuguesa já decidiu que proibir piercings e tatuagens é um intolerável ataque à liberdade e uma intromissão na esfera privada das pessoas, vem uma comissão parlamentar alemã discutir o mesmo assunto.
Começou por ser uma discussão sobre os limites das operações de estética em menores de 18 anos, e o controle das condições em que estas podem ser realizadas. Fazendo eco da preocupação manifestada por alguns grupos, os deputados chamaram a atenção para a necessidade de um debate alargado sobre:
- a realização de operações em menores apesar de não terem justificação médica;
- o alastrar de institutos cirúrgicos de beleza, de qualidade mais que duvidosa;
- a pressão exercida sobre os jovens para sobrevalorizarem a estética corporal e se sujeitarem a intervenções de risco;
- as consequências: muitas vezes danos graves e até irreversíveis para a saúde.
A Ordem dos Médicos não põe em causa, à partida, a prática de operações estéticas em menores, e dá o exemplo da operação para corrigir "orelhas de abano". No entanto, vinca a necessidade de os pacientes poderem escolher com segurança os médicos que estão qualificados para realizar essas intervenções.
Pode-se sempre alegar que estão a lutar pelos seus interesses, e pode-se sempre responder que quando se corre o risco de apanhar uma doença infecciosa ou de perder o controle de um músculo ou a sensibilidade de um nervo, convém não deixar os adolescentes entregues à publicidade na Bravo.
(Traduzido para português, dá outro mote querido dos blogues: ai que lá vêm outra vez os fascistas da ASAE!)
A Associação de Pediatras aproveitou o debate para pedir a proibição absoluta de piercings e tatuagens em menores.
Afirmam que em quase 20% dos casos há complicações para a saúde. Informam que há um número crescente de pais que vêm ao consultório do pediatra pedir que o médico "apague" uma tatuagem da pele dos filhos. Consideram inaceitável que a saúde dos jovens seja sujeita a riscos por uma questão de moda ou de pressão do grupo. E chamam irresponsáveis aos pais que põem um piercing no nariz de crianças com menos de 3 anos, ou furam as orelhas de crianças de meses.
(Chegados aqui, alto e pára o baile: se a lei passar, teremos de pedir uma excepção tipo "respeito pela sharia portuguesa" para proteger a identidade cultural dos nossos emigrantes...)
Curiosa, fui finalmente ler a notícia no Público sobre a proposta de lei que estava a ser preparada em Portugal.
Pelo que entendi, aquilo não é bem uma lei, é mais um regulamento de saúde pública.
Claro como água: definição de um "quadro de referência de qualidade", que constituirá "factor de protecção dos consumidores e de informação dos profissionais", e que "seja proporcionador de mais segurança" para consumidores e profissionais.
- Tipo de materiais e de instrumentos a usar: elementar.
- Partes do corpo que devem ser poupadas, dado o elevado risco de lesão e infecção: óbvio.
- Uso de agulhas descartáveis: mas será preciso explicar isto?!
- Obrigação de informar o consumidor, "previamente e por escrito", sobre todos os procedimentos, natureza dos produtos a cujo contacto será submetido temporária ou permanentemente e possíveis consequências da realização de uma tatuagem ou colocação de “piercings”, "dando-lhe oportunidade para que possa reflectir acerca do assunto": é o que (pelo menos na Alemanha) se faz antes de qualquer intervenção cirúrgica, mesmo que seja absolutamente necessária.
O que é que deu aos blogues portugueses para desatarem a chamar ridículo, fascista e totalitário ao PS, em vez de discutirem a proposta a sério?
Porque não aproveitaram o espaço mediático para debater os muitos aspectos da questão?
Gostaria de ter lido informações dos médicos, em especial alergologistas e pediatras, sobre as implicações para a saúde, ou um debate entre filósofos e juristas sobre as questões da responsabilidade dos pais e da liberdade para a automutilação.
Adoraria a discussão com os neo-ultra-liberais, quando viessem com a proposta de que os custos dos problemas de saúde causados por este tipo de intervenção não deveriam ser suportados pelo SNS.
Mas não, nada de complicar e aprofundar o que pode se pode facilmente prestar a aproveitamentos demagógicos.
Basta dizer isto: o PS está numa deriva totalitária. Pim.
***
Ah, o pomo de todas as discórdias: a liberdade de fazer um piercing na língua. E porque diabo se intromete o Estado nisso?
Que mania insuportável! É isso, é a obsessão em retirar do mercado produtos que nós gostamos de consumir (alegam que são cancerígenos - olha o disparate! se apanhar cancro, o problema é meu!), é uma espécie de sadismo burocrático que proíbe o meu marido de operar conhecidos na nossa mesa da cozinha (podíamos ganhar umas boas coroas, e os amigos agradecem não ter de esperar pela sua vez nos hospitais, e afinal de contas nos hospitais há muitas mais bactérias que na minha casa, e são bem mais perigosas).
Maldito Estado totalitário, que parece que não tem mais problemas senão meter-se na nossa vida privada e coarctar-nos a liberdade.
Ah, e já me ia esquecendo do mais importante: nada como ir ler jornais brasileiros para saber o que se passa na Europa, e se dar conta que por trás disto tudo está... tãtãtãtãããã... Bruxelas.
29 abril 2008
27 abril 2008
só porque gosto
24 abril 2008
pareço adolescente

Já ouvi esta música hoje praí umas vinte vezes. E a minha família concorda comigo - nem ao Caetano (nem ao "A Bossa de Caetano") dão tantos elogios.
A globalização isto, a globalização aquilo, toda a gente a falar da globalização, mas quando uma pessoa precisa dela, nicles. Onde é que se pode comprar este CD?
"Ode Descontínua e Remota Para Flauta e Oboé"
(Poemas de Hilda Hilst musicados por Zeca Baleiro)
oh vós que sois vocês
Quando traduzi o texto do post de 15 de Abril, estaquei durante semanas no pronome pessoal.
"Meus filhos, vós" ou "meus filhos, vocês"?
É verdade que "no tempo das schtetl e dos progroms" ninguém dizia "meus filhos, vocês".
Mas... aquela parte do "vós tendes a vossa própria vida" - embora gramaticalmente correcta, deixou-me os ouvidos a doer.
Como é que se fala hoje em dia? Que mãe se dirige aos filhos dizendo "vós", usando o verbo na segunda pessoa do plural?
E como funciona o "vocês", que tanto aceita o "-vos" e o "vosso" como o "lhes"?
É curioso assistir a esta evolução da língua.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, viram-se os pronomes, destrata-se a sintaxe.
Pensando bem, é doloroso aperceber-me que começo a ser um museu itinerante da língua portuguesa.
Na minha terra já ninguém fala assim - e até eu começo a ter dúvidas...
***
Por este andar, ainda chegamos ao Brasil: onde se fala uma língua, e se escreve outra.
"Meus filhos, vós" ou "meus filhos, vocês"?
É verdade que "no tempo das schtetl e dos progroms" ninguém dizia "meus filhos, vocês".
Mas... aquela parte do "vós tendes a vossa própria vida" - embora gramaticalmente correcta, deixou-me os ouvidos a doer.
Como é que se fala hoje em dia? Que mãe se dirige aos filhos dizendo "vós", usando o verbo na segunda pessoa do plural?
E como funciona o "vocês", que tanto aceita o "-vos" e o "vosso" como o "lhes"?
É curioso assistir a esta evolução da língua.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, viram-se os pronomes, destrata-se a sintaxe.
Pensando bem, é doloroso aperceber-me que começo a ser um museu itinerante da língua portuguesa.
Na minha terra já ninguém fala assim - e até eu começo a ter dúvidas...
***
Por este andar, ainda chegamos ao Brasil: onde se fala uma língua, e se escreve outra.
22 abril 2008
O realismo dos contrastes
Li um dia destes que vivemos tempos de caos ético. Como todas as outras, esta é uma verdade relativa. Todos os tempos foram feitos de luzes e de sombras. Não resisto a transcrever um texto que ilustra bem este binómio:
Los campos de concentración nacieron en Africa. Los ingleses iniciaron el experimento, y los alemanes lo desarrollaron. Después Hermann Göring aplicó, en Alemania, el modelo que su papá había ensayado, en 1904, en Namibia. Los maestros de Joseph Mengele habían estudiado, en el campo de concentración de Namibia, la anatomía de las razas inferiores. Los cobayos eran todos negros.
En 1936, el Comité Olímpico Internacional no toleraba insolencias. En las Olimpíadas de 1936, organizadas por Hitler, la selección de fútbol de Perú derrotó 4 a 2 a la selección de Austria, el país natal del Führer. El Comité Olímpico anuló el partido.
A Hitler no le faltaron amigos. La Rockefeller Foundation financió investigaciones raciales y racistas de la medicina nazi. La Coca-Cola inventó la Fanta, en plena guerra, para el mercado alemán.
La IBM hizo posible la identificación y clasificación de los judíos, y ésa fue la primera hazaña en gran escala del sistema de tarjetas perforadas.
En 1953, estalló la protesta obrera en la Alemania comunista. Los trabajadores se lanzaron a las calles y los tanques soviéticos se ocuparon de callarles la boca. Entonces BertoltBrecht propuso: ¿No sería más fácil que el gobierno disuelva al pueblo y elija otro?
Operaciones de marketing. La opinión pública es el target. Las guerras se venden mintiendo, como se venden los autos. En 1964, los Estados Unidos invadieron Vietnam, porque Vietnam había atacado dos buques de los Estados Unidos en el golfo de Tonkin. Cuando ya la guerra había destripado a una multitud de vietnamitas, el ministro de Defensa, Robert McNamara, reconoció que el ataque de Tonkin no había existido. Cuarenta años después, la historia se repitió en Irak.
Miles de años antes de que la invasión norteamericana llevara la civilización a Irak, en esa tierra bárbara había nacido el primer poema de amor de la historia universal. En lenguasumeria, escrito en el barro, el poema narró el encuentro de una diosa y un pastor. Inanna, la diosa, amó esa noche como si fuera mortal. Dumuzi, el pastor, fue inmortal mientras duró esa noche.
Paradojas andantes, paradojas estimulantes: El Aleijadinho, el hombre más feo del Brasil, creó las más hermosas esculturas de la era colonial americana. El libro de viajes de Marco Polo, aventura de la libertad, fue escrito en la cárcel de Génova. Don Quijote de La Mancha, otra aventura de la libertad, nació en la cárcel de Sevilla. Fueron nietos de esclavos los negros que generaron el jazz, la más libre de las músicas. Uno de los mejores guitarristas de jazz, el gitano Django Reinhardt, tenía no más que dos dedos en su mano izquierda. No tenía manos Grimod de la Reynière, el gran maestro de la cocina francesa. Con garfios escribía, cocinaba y comía.
Que o reino das sombras não nos afunde no fatalismo. E que os gestos criadores de esperança desdigam as teorias do desconserto do mundo.
Manuel António
15 abril 2008
Kaddisch Antes da Madrugada
Do livro de Michel Friedmann, "Kaddisch vor dem Morgengrau":
Numa pequena aldeia da Polónia, no tempo dos pogroms e dos schtetl, dirigiu-se um alfaiate ao rabino.
A sua mulher estava a morrer. Tinha-lhe dado sete filhos, tinha sido uma companheira maravilhosa, tratara sempre bem da casa e criara as crianças com muito amor. Estes, já adultos e eles próprios pais, encontravam-se junto à cama da moribunda e imploravam-lhe que não morresse. Diziam-lhe que ainda precisavam dela e que sem ela não conseguiam viver, pediam-lhe que lhes oferecesse ainda algum tempo de vida antes de morrer e subir aos céus. Perante estes lamentos e pedidos, a mãe chorava amargamente e martirizava-se para permanecer viva e não os abandonar ainda. O alfaiate estava desesperado, porque amava a sua mulher, e não suportava assistir ao seu sofrimento. Sabia que a sua mulher iria morrer, e nem o pranto nem as orações o poderiam evitar. Contudo, sabia que ela não podia morrer em paz enquanto não tivesse dado uma resposta às queixas dos filhos. Por isso viera falar com o rabino e lhe pedira um conselho: que devia a mãe dizer aos filhos, como os poderia convencer?
O rabino não precisou de reflectir longamente. Conhecia a dor dos filhos, que também por ele passara. Por outro lado, sabia como é difícil para os pais deixarem os filhos sozinhos neste mundo. E assim aconselhou o alfaiate:
- Diz à tua mulher que lhes deve explicar o seguinte:
Queridos filhos, até na véspera da vossa própria morte me direis que precisais de mim, que sem mim não quereis viver, não conseguireis viver. Mas vós tendes a vossa própria vida. Sede pessoas completas, que fazem o seu próprio percurso. Tudo o que eu vos podia ensinar, todo o amor que eu vos podia dar, está em vós. Eu cumpri a minha vida, vi-vos crescer para vos tornardes pessoas autónomas. Agora é a vossa vez de voar. Eu não passo de uma pedra que vos impediria de o fazer. Voai, filhos, voai para a vida, e deixai-me voar para a eternidade.
Numa pequena aldeia da Polónia, no tempo dos pogroms e dos schtetl, dirigiu-se um alfaiate ao rabino.
A sua mulher estava a morrer. Tinha-lhe dado sete filhos, tinha sido uma companheira maravilhosa, tratara sempre bem da casa e criara as crianças com muito amor. Estes, já adultos e eles próprios pais, encontravam-se junto à cama da moribunda e imploravam-lhe que não morresse. Diziam-lhe que ainda precisavam dela e que sem ela não conseguiam viver, pediam-lhe que lhes oferecesse ainda algum tempo de vida antes de morrer e subir aos céus. Perante estes lamentos e pedidos, a mãe chorava amargamente e martirizava-se para permanecer viva e não os abandonar ainda. O alfaiate estava desesperado, porque amava a sua mulher, e não suportava assistir ao seu sofrimento. Sabia que a sua mulher iria morrer, e nem o pranto nem as orações o poderiam evitar. Contudo, sabia que ela não podia morrer em paz enquanto não tivesse dado uma resposta às queixas dos filhos. Por isso viera falar com o rabino e lhe pedira um conselho: que devia a mãe dizer aos filhos, como os poderia convencer?
O rabino não precisou de reflectir longamente. Conhecia a dor dos filhos, que também por ele passara. Por outro lado, sabia como é difícil para os pais deixarem os filhos sozinhos neste mundo. E assim aconselhou o alfaiate:
- Diz à tua mulher que lhes deve explicar o seguinte:
Queridos filhos, até na véspera da vossa própria morte me direis que precisais de mim, que sem mim não quereis viver, não conseguireis viver. Mas vós tendes a vossa própria vida. Sede pessoas completas, que fazem o seu próprio percurso. Tudo o que eu vos podia ensinar, todo o amor que eu vos podia dar, está em vós. Eu cumpri a minha vida, vi-vos crescer para vos tornardes pessoas autónomas. Agora é a vossa vez de voar. Eu não passo de uma pedra que vos impediria de o fazer. Voai, filhos, voai para a vida, e deixai-me voar para a eternidade.
da mesa para o tanque
No Verão da minha infância, quando passava temporadas na aldeia da minha avó, gostava de ir para o tanque público dar uns mergulhos com a miudagem que vivia pelas vizinhanças.
Era uma festa: as mulheres ao longo do tanque, às vezes uma dúzia delas, os braços vigorosos a esfregar a roupa com sabão, a batê-la na pedra, e a aproveitar a companhia das outras para lavar toda a roupa suja da aldeia, em alegre algazarra.
Belas tardes.
Mas uma pessoa cresce e amadurece, e dá-se conta que não faz muito sentido andar a chafurdar na porcaria alheia.
***
Contou-me uma amiga que lhe deram uma mesa antiga, que tinha pertencido ao seu bisavô, um historiador famoso.
Deram-lha, com estes votos: "que a esta mesa se mantenha o nível a que ela está habituada".
***
Tenho um grande orgulho na caixa de comentários deste blogue. Tem sido, ao longo de mais de quatro anos, a minha "mesa do historiador" - o local onde acontecem conversas com muita qualidade.
Contudo, ultimamente têm aparecido uns comentários a puxar para o tanque.
Por esse motivo, os comentários passaram a ser moderados.
Que me desculpem os amigos.
Era uma festa: as mulheres ao longo do tanque, às vezes uma dúzia delas, os braços vigorosos a esfregar a roupa com sabão, a batê-la na pedra, e a aproveitar a companhia das outras para lavar toda a roupa suja da aldeia, em alegre algazarra.
Belas tardes.
Mas uma pessoa cresce e amadurece, e dá-se conta que não faz muito sentido andar a chafurdar na porcaria alheia.
***
Contou-me uma amiga que lhe deram uma mesa antiga, que tinha pertencido ao seu bisavô, um historiador famoso.
Deram-lha, com estes votos: "que a esta mesa se mantenha o nível a que ela está habituada".
***
Tenho um grande orgulho na caixa de comentários deste blogue. Tem sido, ao longo de mais de quatro anos, a minha "mesa do historiador" - o local onde acontecem conversas com muita qualidade.
Contudo, ultimamente têm aparecido uns comentários a puxar para o tanque.
Por esse motivo, os comentários passaram a ser moderados.
Que me desculpem os amigos.
11 abril 2008
um post sobre futebol e miúdas

Uma televisão privada alemã tem um programa onde a Heidi Klum aparece a escolher e a ensinar eventuais futuras supermodelos. As miúdas concorrem, expõem-se de uma maneira insuportável (de onde se prova que eu vejo pouca televisão privada, porque se visse mais dizia agora "expõem-se da maneira habitual"), são permanentemente devassadas pelas câmaras de televisão que as filmam a chorar, a rir, a experimentar passos em bikini, a olhar de esguelha para as outras concorrentes, a serem vítimas de uma radical mudança de visual, e etc.
Ontem, no intervalo do jogo de futebol mais incrível dos últimos anos, vi (filha adolescente oblige) uns minutos desse lixo. Deixaram as futuras estrelas ir a uma festa social, mas lançaram-lhes no encalço uma jornalista que as entrevistava com perguntas parvas, do género: que roupa interior é que tinham, e como é que iam de relações sexuais, e se tinham algum incidente embaraçoso para contar.
O programa mostrava as respostas (mas apenas aquelas de que as miúdas se vão envergonhar mais, claro), e os comentários dos "professores" ao ver o vídeo: "não deviam abrir assim o jogo", "eh, lá, isto é muito privado!", "que ingénuas!", coisas assim.
O programa vive todo de expor as pessoas muito para lá do limite do respeito por si próprias. Os organizadores jogam permanentemente com isso. Mas depois vêm cheios de sabedoria comentar que elas não sabem distinguir o público do privado.
Este mundo está louco, só o futebol nos salva.
O jogo de ontem, por exemplo.
(Eu estava pelos espanhóis, por causa do Felipe e por estarem a jogar com um jogador a menos e assim, mas o Matthias lembrou-me logo Olivença, e eu adoptei uma atitude de neutralidade)
10 abril 2008
09 abril 2008
estes alunos diabólicos
Mais dois episódios da escola primária Jenaplan:
Numa reunião de pais falou-se de uma aluna que tinha ataques de agressividade e começava a atirar cadeiras pelo ar. Um dos pais insistia que era preciso tirá-la daquela escola e pô-la noutra, para crianças "especiais". Vincava que era preciso tomar urgentemente uma atitude, antes que uma cadeira acertasse na cabeça de outra criança.
A professora começou a falar como se estivesse apenas a pensar em voz alta: por causa dessa aluna fizemos uma reunião com todo o pessoal que trabalha na escola... durante duas horas perguntamo-nos em que contextos tinham surgido as crises... porque é que ela faz isso? o que devemos fazer para evitar situações em que ela fica agressiva? combinámos que não a podemos deixar sozinha em momento algum e que temos de estar atentos para evitar as situações em que ela é provocada pelos outros.
Até me esqueci das consequências de uma cadeira na cabeça do meu filho. Só pensei: abençoados professores que tentam ir ao fundo das questões em vez aproveitarem a oportunidade para se verem livres dos problemas.
Numa das semanas de projecto fiquei responsável por fazer um poster com os alunos. Durante esses dias tive oportunidade de conversar com uma das alunas mais problemáticas da escola. Enquanto íamos pintando, ela contava: que vivia só com a mãe, que esta trabalhava num restaurante, que às vezes ela comia no restaurante mas a dona não gostava, e ralhava com a mãe mesmo à frente da criança. E que no restaurante anterior ainda tinha sido pior.
***
Ouvi de uma professora de liceu, com experiência internacional e em várias regiões da Alemanha, que só no Leste deste país assistiu ao extraordinário fenómeno de olhar para os alunos enquadrando-os num contexto familiar mais ou menos público.
Reuniões de notas em que um professor comenta que um aluno está a baixar o rendimento e logo vêm outros colegas contar que a avó dele está no hospital, e que o cão morreu, etc.
Lembro-me também muitas vezes do que a directora do liceu dos meus filhos me respondeu, quando eu comentei que iam entrar quatro miúdos muito especiais para essa escola: "Só quatro? Setenta! Todos os alunos desta escola são miúdos muito especiais!"
Quando a escola olha assim para os seus alunos, é mais difícil entrar numa dinâmica de diabolização.
Numa reunião de pais falou-se de uma aluna que tinha ataques de agressividade e começava a atirar cadeiras pelo ar. Um dos pais insistia que era preciso tirá-la daquela escola e pô-la noutra, para crianças "especiais". Vincava que era preciso tomar urgentemente uma atitude, antes que uma cadeira acertasse na cabeça de outra criança.
A professora começou a falar como se estivesse apenas a pensar em voz alta: por causa dessa aluna fizemos uma reunião com todo o pessoal que trabalha na escola... durante duas horas perguntamo-nos em que contextos tinham surgido as crises... porque é que ela faz isso? o que devemos fazer para evitar situações em que ela fica agressiva? combinámos que não a podemos deixar sozinha em momento algum e que temos de estar atentos para evitar as situações em que ela é provocada pelos outros.
Até me esqueci das consequências de uma cadeira na cabeça do meu filho. Só pensei: abençoados professores que tentam ir ao fundo das questões em vez aproveitarem a oportunidade para se verem livres dos problemas.
Numa das semanas de projecto fiquei responsável por fazer um poster com os alunos. Durante esses dias tive oportunidade de conversar com uma das alunas mais problemáticas da escola. Enquanto íamos pintando, ela contava: que vivia só com a mãe, que esta trabalhava num restaurante, que às vezes ela comia no restaurante mas a dona não gostava, e ralhava com a mãe mesmo à frente da criança. E que no restaurante anterior ainda tinha sido pior.
***
Ouvi de uma professora de liceu, com experiência internacional e em várias regiões da Alemanha, que só no Leste deste país assistiu ao extraordinário fenómeno de olhar para os alunos enquadrando-os num contexto familiar mais ou menos público.
Reuniões de notas em que um professor comenta que um aluno está a baixar o rendimento e logo vêm outros colegas contar que a avó dele está no hospital, e que o cão morreu, etc.
Lembro-me também muitas vezes do que a directora do liceu dos meus filhos me respondeu, quando eu comentei que iam entrar quatro miúdos muito especiais para essa escola: "Só quatro? Setenta! Todos os alunos desta escola são miúdos muito especiais!"
Quando a escola olha assim para os seus alunos, é mais difícil entrar numa dinâmica de diabolização.
04 abril 2008
histórias de telemóveis na escola
O telefone da Christina tocou numa aula. A professora disse "primeiro aviso", e continuou a dar a matéria.
À segunda vez o telemóvel é apreendido.
O problema, explicou a professora numa reunião de pais, é que dá muito trabalho confiscar o telemóvel à primeira vez. Foi o que começaram por fazer: o telemóvel ia para a directora, e esta chamava os pais. Às tantas, apercebeu-se que não fazia mais nada senão conversas sobre telemóveis. Por isso, começaram a dar uma segunda oportunidade.
No entanto, é proibido (parece que é outra vez por culpa da Constituição Alemã...) revistar os bolsos ou os sacos dos alunos. Se o telefone tocar dentro de um saco, o professor não tem como confiscar o telefone. A professora explicou-nos - como se nós não soubéssemos... - que é impossível trabalhar com telemóveis a tocar e a apitar sms, e passou a bola para o lado dos pais. Que sabem perfeitamente que ter os filhos naquela escola é um prémio que tem de ser reconquistado no dia-a-dia.
***
O telemóvel da Christina tocou numa aula. Metade da turma fingiu imediatamente um ataque de tosse.
(OK, OK, já percebi, não precisam de dizer mais nada: o telemóvel da Christina tem de ficar em casa, porque está visto que ela não se lembra sempre de o desligar quando chega à escola)
***
Na reunião de pais da turma do Matthias, para tomar algumas decisões sobre a semana do passeio de turma, combinámos que nenhum aluno levaria para essa semana nem telemóvel nem gameboy. Eles precisam de brincar e falar uns com os outros, aprender a interagir, em vez de se isolarem, entregues aos joguinhos electrónicos.
Mas combinamos que podem levar máquina fotográfica.
E aí um pai perguntou: e se a máquina fotográfica está no telemóvel?...
*******
Com telemóveis posso eu.
Quando, em Setembro, andei por Berlim à procura de escolas para os miúdos, estive numa onde me deram um regulamento interno com regras assim:
- na escola fala-se alemão
- os alunos têm de chegar pontualmente à sala
- os alunos devem trazer de casa um pequeno-almoço saudável
- é proibido trazer qualquer tipo de armas para a escola
E aí pensei: não queria ser professora de alunos a quem é preciso ensinar coisas tão básicas.
Ah, mas atenção: não há rapazes maus. Dei-me conta disso no dia em que descobri que o Matthias ia sair para a escola com a sua navalha de talhar madeira, e me explicou que era para se defender de uns rapazes no recreio. O nosso Matthias, o aluno querido de todos os professores, aos seis anos, numa fantástica escola Jenaplan.
À segunda vez o telemóvel é apreendido.
O problema, explicou a professora numa reunião de pais, é que dá muito trabalho confiscar o telemóvel à primeira vez. Foi o que começaram por fazer: o telemóvel ia para a directora, e esta chamava os pais. Às tantas, apercebeu-se que não fazia mais nada senão conversas sobre telemóveis. Por isso, começaram a dar uma segunda oportunidade.
No entanto, é proibido (parece que é outra vez por culpa da Constituição Alemã...) revistar os bolsos ou os sacos dos alunos. Se o telefone tocar dentro de um saco, o professor não tem como confiscar o telefone. A professora explicou-nos - como se nós não soubéssemos... - que é impossível trabalhar com telemóveis a tocar e a apitar sms, e passou a bola para o lado dos pais. Que sabem perfeitamente que ter os filhos naquela escola é um prémio que tem de ser reconquistado no dia-a-dia.
***
O telemóvel da Christina tocou numa aula. Metade da turma fingiu imediatamente um ataque de tosse.
(OK, OK, já percebi, não precisam de dizer mais nada: o telemóvel da Christina tem de ficar em casa, porque está visto que ela não se lembra sempre de o desligar quando chega à escola)
***
Na reunião de pais da turma do Matthias, para tomar algumas decisões sobre a semana do passeio de turma, combinámos que nenhum aluno levaria para essa semana nem telemóvel nem gameboy. Eles precisam de brincar e falar uns com os outros, aprender a interagir, em vez de se isolarem, entregues aos joguinhos electrónicos.
Mas combinamos que podem levar máquina fotográfica.
E aí um pai perguntou: e se a máquina fotográfica está no telemóvel?...
*******
Com telemóveis posso eu.
Quando, em Setembro, andei por Berlim à procura de escolas para os miúdos, estive numa onde me deram um regulamento interno com regras assim:
- na escola fala-se alemão
- os alunos têm de chegar pontualmente à sala
- os alunos devem trazer de casa um pequeno-almoço saudável
- é proibido trazer qualquer tipo de armas para a escola
E aí pensei: não queria ser professora de alunos a quem é preciso ensinar coisas tão básicas.
Ah, mas atenção: não há rapazes maus. Dei-me conta disso no dia em que descobri que o Matthias ia sair para a escola com a sua navalha de talhar madeira, e me explicou que era para se defender de uns rapazes no recreio. O nosso Matthias, o aluno querido de todos os professores, aos seis anos, numa fantástica escola Jenaplan.
um caso de internet e vários olhares sobre o respeitinho nas escolas
A Christina chegou a casa muito aflita: "vão expulsar um aluno da minha escola, porque andou na internet usando o nome de um professor."
Dias mais tarde, chegou a casa ainda mais aflita: "vão expulsar metade dos alunos do meu ano, porque criaram na internet um chat room para dizer mal da professora de francês."
A escola dela é privada, católica, e tem sempre muitos mais interessados do que vagas. De modo que escolhe os alunos (isto é, as famílias) a dedo, e está à vontade para recusar os que não dão provas de uma determinada estatura moral.
Fiquei incomodada com esta maneira de resolver os problemas, e de transmitir aos alunos - num ambiente cristão! - essa ideia primária de crime e castigo, e que quem tem a faca e o queijo na mão não é obrigado a explicar e a dialogar com os que erraram.
E tive muitas saudades das escolas de Weimar, onde os professores defendiam os alunos contra os próprios pais (lembro-me de uma reunião em que estes pediam mais disciplina e mão mais forte, e os professores sorriam e diziam "eles não são tão maus como os pais pensam").
Fui falar com a directora de turma da Christina, que ficou muito surpreendida com a versão dada pelos alunos.
Informou-me que em momento algum a escola pensou expulsar alunos.
O que foi feito:
- O aluno que andou a fazer de professor foi mudado para outra turma;
- Os alunos do grupo "Anti-Schmidt" foram "convidados" a participar num colóquio organizado pela empresa que mantém o site, justamente para discutir como se fala com as pessoas e sobre terceiros na internet;
- Os professores explicaram às turmas que uma coisa é sair da aula e dizer "a Frau Schmidt é uma esta e uma aquela", e outra coisa é escrevê-lo. E perguntaram aos alunos como é que eles se sentiriam se lessem na internet o que um grupo qualquer andava a escrever sobre eles.
Tudo bem. Enfim, mais ou menos bem: porque é que os alunos se lembraram logo do perigo de expulsão? E como é andar numa escola onde, mesmo que os professores não digam nada, os alunos sentem esta espada de Dâmocles sobre a cabeça?
Contei o episódio a uma amiga que é professora num liceu de Weimar. Ela riu-se, disse que na escola dela aconteceu exactamente o mesmo: os alunos fizeram um chat room para dizer mal de um professor. Quando se descobriu, os professores ficaram em estado de choque, fartaram-se de falar sobre isso, e resolveram convidar o pai de um dos alunos, um juiz, para discutirem os aspectos jurídicos da questão.
O juiz: "Quando andavam na escola, nunca escreveram na porta do quarto de banho que a professora fulana é uma chata? Os nossos filhos fazem o mesmo que os pais deles já fizeram, mas recorrem a outros meios. E isto faz parte do ofício do professor - quem não aguenta que falem assim mal dele, devia procurar outra profissão."
Conclusão rápida: os chat rooms são a nova casa de banho das escolas.
Contei o episódio a amigos americanos. Ela é professora numa escola Montessori, ele é director de uma escola de adultos. Quando falei do grupo "anti-Schmidt", comentaram: "mas isso é fundamental para uma escola! receber feedback dos alunos sobre o desempenho dos professores!"
Pois, vêm com estas modernices, e depois queixam-se que são alvos de antiamericanismo primário...
;-)
Dias mais tarde, chegou a casa ainda mais aflita: "vão expulsar metade dos alunos do meu ano, porque criaram na internet um chat room para dizer mal da professora de francês."
A escola dela é privada, católica, e tem sempre muitos mais interessados do que vagas. De modo que escolhe os alunos (isto é, as famílias) a dedo, e está à vontade para recusar os que não dão provas de uma determinada estatura moral.
Fiquei incomodada com esta maneira de resolver os problemas, e de transmitir aos alunos - num ambiente cristão! - essa ideia primária de crime e castigo, e que quem tem a faca e o queijo na mão não é obrigado a explicar e a dialogar com os que erraram.
E tive muitas saudades das escolas de Weimar, onde os professores defendiam os alunos contra os próprios pais (lembro-me de uma reunião em que estes pediam mais disciplina e mão mais forte, e os professores sorriam e diziam "eles não são tão maus como os pais pensam").
Fui falar com a directora de turma da Christina, que ficou muito surpreendida com a versão dada pelos alunos.
Informou-me que em momento algum a escola pensou expulsar alunos.
O que foi feito:
- O aluno que andou a fazer de professor foi mudado para outra turma;
- Os alunos do grupo "Anti-Schmidt" foram "convidados" a participar num colóquio organizado pela empresa que mantém o site, justamente para discutir como se fala com as pessoas e sobre terceiros na internet;
- Os professores explicaram às turmas que uma coisa é sair da aula e dizer "a Frau Schmidt é uma esta e uma aquela", e outra coisa é escrevê-lo. E perguntaram aos alunos como é que eles se sentiriam se lessem na internet o que um grupo qualquer andava a escrever sobre eles.
Tudo bem. Enfim, mais ou menos bem: porque é que os alunos se lembraram logo do perigo de expulsão? E como é andar numa escola onde, mesmo que os professores não digam nada, os alunos sentem esta espada de Dâmocles sobre a cabeça?
Contei o episódio a uma amiga que é professora num liceu de Weimar. Ela riu-se, disse que na escola dela aconteceu exactamente o mesmo: os alunos fizeram um chat room para dizer mal de um professor. Quando se descobriu, os professores ficaram em estado de choque, fartaram-se de falar sobre isso, e resolveram convidar o pai de um dos alunos, um juiz, para discutirem os aspectos jurídicos da questão.
O juiz: "Quando andavam na escola, nunca escreveram na porta do quarto de banho que a professora fulana é uma chata? Os nossos filhos fazem o mesmo que os pais deles já fizeram, mas recorrem a outros meios. E isto faz parte do ofício do professor - quem não aguenta que falem assim mal dele, devia procurar outra profissão."
Conclusão rápida: os chat rooms são a nova casa de banho das escolas.
Contei o episódio a amigos americanos. Ela é professora numa escola Montessori, ele é director de uma escola de adultos. Quando falei do grupo "anti-Schmidt", comentaram: "mas isso é fundamental para uma escola! receber feedback dos alunos sobre o desempenho dos professores!"
Pois, vêm com estas modernices, e depois queixam-se que são alvos de antiamericanismo primário...
;-)
02 abril 2008
contraditório (3)
Embora não venha muito a propósito, deixem-me dar as boas vindas ao new kid on the blog - o jj.amarante, conhecido comentador por aqui, tem agora um blog. Imagens com texto.
Foi ele quem me chamou a atenção para um texto publicado no Le Monde, que passo a transcrever.
Le droit et la différence des sexes : fait de nature ou construction sociale ?
Article publié le 22 Novembre 2007
Par Danièle Lochak
Source : LE MONDE
Taille de l'article : 944 mots
Extrait : La différenciation juridique entre hommes et femmes entérine une dualité où les catégories « naturelles » constituent l'alibi de schémas culturels. Lorsque le droit prend en compte la différence des sexes, la tentation est grande de considérer qu'il ne fait qu'entériner une réalité préexistante : les « hommes » et les « femmes », avant d'être des catégories juridiques, sont des catégories biologiques, et donc « naturelles ». Mais ce n'est pas parce que les hommes et les femmes existent comme catégories biologiques ou anthropologiques qu'ils doivent nécessairement exister comme catégories juridiques.
Le droit et la différence des sexes : fait de nature ou construction sociale ?
par Danièle Lochak
Lorsque le droit prend en compte la différence des sexes, la tentation est grande de considérer qu'il ne fait qu'entériner une réalité préexistante : les "hommes" et les "femmes", avant d'être des catégories juridiques, sont des catégories biologiques, et donc "naturelles". Mais ce n'est pas parce que les hommes et les femmes existent comme catégories biologiques ou anthropologiques qu'ils doivent nécessairement exister comme catégories juridiques. Et c'est bien le droit et non la nature qui, en divisant les sujets de droit en "hommes" et "femmes", institutionnalise la différence des sexes et décide de faire de cette différence une donnée pertinente pour régler certaines situations.
Si la référence à la dualité des sexes peut donner l'impression qu'on est dans le registre de la nature, on s'aperçoit vite que cette dualité n'est pas aussi "naturelle" qu'elle paraît, au point que la nature pourrait bien être ici l'alibi d'une distinction enracinée dans des schémas culturels. Lorsque le droit assigne aux individus une identité sexuée - homme ou femme -, lorsqu'il ne veut reconnaître comme couple que celui formé par un homme et une femme, il ne fait en apparence qu'entériner une donnée biologique incontestable. Mais il contribue lui-même, ce faisant, à fonder "en nature" ce qui n'est en réalité que "(re)construction sociale".
Une première manifestation de ce constat est la résistance du droit à prendre en compte les situations qui ne s'inscrivent pas dans le schéma de la distinction dichotomique des sexes masculin et féminin. Chaque individu, à la naissance, doit être déclaré comme étant soit de sexe masculin, soit de sexe féminin, et cette donnée fait partie de son état civil. Cette alternative binaire n'est pourtant pas aussi naturelle qu'elle en a l'air, puisqu'elle ignore les cas d'intersexualité et elle rend particulièrement délicate la gestion des situations de transsexualisme.
L'intersexuation est une variation de l'espèce humaine moins rare qu'on ne le croit, mais que tend à néantiser la division des sexes en deux catégories officielles, laquelle a en réalité au moins autant à voir avec la "culture" qu'avec la "nature". Or cette dualité est loin d'être anodine, puisque, pour se conformer à l'injonction de la société entérinée par le droit, la médecine est amenée à modifier le sexe des nouveau-nés visiblement intersexués et à proposer des traitements aux intersexués afin qu'ils ressemblent le plus possible à l'une des deux catégories de sexes officielles. On pourrait dire qu'ici la nature est contrainte de se plier à la culture, qui impose qu'il y ait deux sexes sur un mode alternatif.
La demande des transsexuels tendant à obtenir la modification de leur état civil s'est, elle aussi, heurtée pendant longtemps à la résistance des tribunaux, qui leur ont opposé différents arguments comme l'indisponibilité de l'état des personnes, l'ordre public et les bonnes moeurs ou encore le fait que le transsexualisme ne peut s'analyser en un véritable changement de sexe. Mais la Cour européenne des droits de l'homme, qui avait très tôt jugé que le refus de modification de l'état civil portait atteinte au droit au respect de la vie privée en empêchant les transsexuels de mener une vie sociale et professionnelle normale, a estimé, dans un arrêt de 2002, que cette interdiction était également critiquable au regard de la notion d'autonomie personnelle, qui inclut le droit pour chacun d'établir les détails de son identité d'être humain.
Cette difficulté du droit et des juges à reconnaître des situations qui ne s'inscrivent pas dans le schéma binaire de la différence des sexes se retrouve lorsqu'ils sont confrontés à la question des couples de même sexe. En dépit des réformes successives qui ont supprimé la dissymétrie des rapports au sein du couple, de sorte que le code civil ne fait plus référence qu'aux "époux" et non plus, de façon sexuée, au mari et à la femme, en dépit des évolutions législatives qui ont reconnu l'existence du couple formé par deux personnes de même sexe (pacs ou concubinage), cette évidence "naturelle" selon laquelle le mariage ne peut unir qu'un homme et une femme est difficile à remettre en cause.
La référence constante à la nature - qu'il s'agisse de la nature biologique ou de la "nature des choses", qui est le nom qu'on donne à l'ordre social tel qu'il a été figé par la tradition - reflète le caractère ouvertement conservateur de la plupart des arguments invoqués pour récuser toute possibilité d'ouvrir le mariage aux couples de même sexe.
Mais on a aussi invoqué - par exemple la sociologue Irène Théry - le risque, en manipulant le droit, de toucher à des distinctions anthropologiques majeures, dont fait partie la différenciation des êtres humains en deux genres, alors que ces distinctions dessineraient un ordre symbolique indispensable aussi bien à la société qu'aux individus. Se référer à l'anthropologie est une façon d'indiquer qu'on entend se situer du côté de la culture et non de la nature. Mais lorsque la démonstration se poursuit en invitant à "reconnaître la finitude de chaque sexe qui a besoin de l'autre pour que l'humanité vive et se reproduise", lorsqu'on fait valoir que, même si un couple n'a pas de relations sexuelles, même s'il n'a pas d'enfants, "il n'en demeure pas moins qu'au plan symbolique la dimension de la filiation lui demeure ouverte", on a le sentiment que les contraintes biologiques affleurent sous les contraintes anthropologiques, au point que la culture devient ici l'alibi de la nature.
Les audaces récentes de la Cour européenne sur la question du transsexualisme, le fait que la Charte européenne des droits fondamentaux garantisse le droit de se marier et le droit de fonder une famille sans faire référence à l'homme et à la femme, ou encore que des législations nationales de plus en plus nombreuses reconnaissent le droit au mariage et à la parenté à tous les couples, inclinent à penser qu'une évolution irréversible est en marche et qu'un jour - qui sait ? - les normes juridiques seront radicalement indifférentes au sexe.
Danièle Lochak est juriste.
Article paru dans l'édition du 22.11.07.
Foi ele quem me chamou a atenção para um texto publicado no Le Monde, que passo a transcrever.
Le droit et la différence des sexes : fait de nature ou construction sociale ?
Article publié le 22 Novembre 2007
Par Danièle Lochak
Source : LE MONDE
Taille de l'article : 944 mots
Extrait : La différenciation juridique entre hommes et femmes entérine une dualité où les catégories « naturelles » constituent l'alibi de schémas culturels. Lorsque le droit prend en compte la différence des sexes, la tentation est grande de considérer qu'il ne fait qu'entériner une réalité préexistante : les « hommes » et les « femmes », avant d'être des catégories juridiques, sont des catégories biologiques, et donc « naturelles ». Mais ce n'est pas parce que les hommes et les femmes existent comme catégories biologiques ou anthropologiques qu'ils doivent nécessairement exister comme catégories juridiques.
Le droit et la différence des sexes : fait de nature ou construction sociale ?
par Danièle Lochak
Lorsque le droit prend en compte la différence des sexes, la tentation est grande de considérer qu'il ne fait qu'entériner une réalité préexistante : les "hommes" et les "femmes", avant d'être des catégories juridiques, sont des catégories biologiques, et donc "naturelles". Mais ce n'est pas parce que les hommes et les femmes existent comme catégories biologiques ou anthropologiques qu'ils doivent nécessairement exister comme catégories juridiques. Et c'est bien le droit et non la nature qui, en divisant les sujets de droit en "hommes" et "femmes", institutionnalise la différence des sexes et décide de faire de cette différence une donnée pertinente pour régler certaines situations.
Si la référence à la dualité des sexes peut donner l'impression qu'on est dans le registre de la nature, on s'aperçoit vite que cette dualité n'est pas aussi "naturelle" qu'elle paraît, au point que la nature pourrait bien être ici l'alibi d'une distinction enracinée dans des schémas culturels. Lorsque le droit assigne aux individus une identité sexuée - homme ou femme -, lorsqu'il ne veut reconnaître comme couple que celui formé par un homme et une femme, il ne fait en apparence qu'entériner une donnée biologique incontestable. Mais il contribue lui-même, ce faisant, à fonder "en nature" ce qui n'est en réalité que "(re)construction sociale".
Une première manifestation de ce constat est la résistance du droit à prendre en compte les situations qui ne s'inscrivent pas dans le schéma de la distinction dichotomique des sexes masculin et féminin. Chaque individu, à la naissance, doit être déclaré comme étant soit de sexe masculin, soit de sexe féminin, et cette donnée fait partie de son état civil. Cette alternative binaire n'est pourtant pas aussi naturelle qu'elle en a l'air, puisqu'elle ignore les cas d'intersexualité et elle rend particulièrement délicate la gestion des situations de transsexualisme.
L'intersexuation est une variation de l'espèce humaine moins rare qu'on ne le croit, mais que tend à néantiser la division des sexes en deux catégories officielles, laquelle a en réalité au moins autant à voir avec la "culture" qu'avec la "nature". Or cette dualité est loin d'être anodine, puisque, pour se conformer à l'injonction de la société entérinée par le droit, la médecine est amenée à modifier le sexe des nouveau-nés visiblement intersexués et à proposer des traitements aux intersexués afin qu'ils ressemblent le plus possible à l'une des deux catégories de sexes officielles. On pourrait dire qu'ici la nature est contrainte de se plier à la culture, qui impose qu'il y ait deux sexes sur un mode alternatif.
La demande des transsexuels tendant à obtenir la modification de leur état civil s'est, elle aussi, heurtée pendant longtemps à la résistance des tribunaux, qui leur ont opposé différents arguments comme l'indisponibilité de l'état des personnes, l'ordre public et les bonnes moeurs ou encore le fait que le transsexualisme ne peut s'analyser en un véritable changement de sexe. Mais la Cour européenne des droits de l'homme, qui avait très tôt jugé que le refus de modification de l'état civil portait atteinte au droit au respect de la vie privée en empêchant les transsexuels de mener une vie sociale et professionnelle normale, a estimé, dans un arrêt de 2002, que cette interdiction était également critiquable au regard de la notion d'autonomie personnelle, qui inclut le droit pour chacun d'établir les détails de son identité d'être humain.
Cette difficulté du droit et des juges à reconnaître des situations qui ne s'inscrivent pas dans le schéma binaire de la différence des sexes se retrouve lorsqu'ils sont confrontés à la question des couples de même sexe. En dépit des réformes successives qui ont supprimé la dissymétrie des rapports au sein du couple, de sorte que le code civil ne fait plus référence qu'aux "époux" et non plus, de façon sexuée, au mari et à la femme, en dépit des évolutions législatives qui ont reconnu l'existence du couple formé par deux personnes de même sexe (pacs ou concubinage), cette évidence "naturelle" selon laquelle le mariage ne peut unir qu'un homme et une femme est difficile à remettre en cause.
La référence constante à la nature - qu'il s'agisse de la nature biologique ou de la "nature des choses", qui est le nom qu'on donne à l'ordre social tel qu'il a été figé par la tradition - reflète le caractère ouvertement conservateur de la plupart des arguments invoqués pour récuser toute possibilité d'ouvrir le mariage aux couples de même sexe.
Mais on a aussi invoqué - par exemple la sociologue Irène Théry - le risque, en manipulant le droit, de toucher à des distinctions anthropologiques majeures, dont fait partie la différenciation des êtres humains en deux genres, alors que ces distinctions dessineraient un ordre symbolique indispensable aussi bien à la société qu'aux individus. Se référer à l'anthropologie est une façon d'indiquer qu'on entend se situer du côté de la culture et non de la nature. Mais lorsque la démonstration se poursuit en invitant à "reconnaître la finitude de chaque sexe qui a besoin de l'autre pour que l'humanité vive et se reproduise", lorsqu'on fait valoir que, même si un couple n'a pas de relations sexuelles, même s'il n'a pas d'enfants, "il n'en demeure pas moins qu'au plan symbolique la dimension de la filiation lui demeure ouverte", on a le sentiment que les contraintes biologiques affleurent sous les contraintes anthropologiques, au point que la culture devient ici l'alibi de la nature.
Les audaces récentes de la Cour européenne sur la question du transsexualisme, le fait que la Charte européenne des droits fondamentaux garantisse le droit de se marier et le droit de fonder une famille sans faire référence à l'homme et à la femme, ou encore que des législations nationales de plus en plus nombreuses reconnaissent le droit au mariage et à la parenté à tous les couples, inclinent à penser qu'une évolution irréversible est en marche et qu'un jour - qui sait ? - les normes juridiques seront radicalement indifférentes au sexe.
Danièle Lochak est juriste.
Article paru dans l'édition du 22.11.07.
contraditório (2)
Comentários no site queer.de (aqui, em alemão)
1. AlexTM 27.03.2008, 09:16:21 Uhr:
Não é preciso olhar para o outro lado do Atlântico para encontrar um homem transexual grávido. Isso também acontece aqui às vezes. Geralmente é por acidente, com transexuais gays.
2. madridEU 27.03.2008, 16:18:09 Uhr:
O caso já tem algo de burlesco: alguém que já foi uma mulher, que se deu conta de que estava no corpo errado, deu ao seu corpo uma aparência masculina, e acaba por decidir engravidar, dado que manteve os seus órgãos sexuais femininos.
Este par vai ser alvo de um enorme interesse dos media e de chicotadas pequeno-burguesas, vão chover sentenças hipócritas e moralistas - embora entre os "normais" já seja moda, desde há muitos anos, praticar a inseminação artificial.
3. Jay 27.03.2008, 18:40:02 Uhr:
Mas era preciso insistir na questão de que ele "já foi mulher"?
Ele nunca foi uma mulher, simplesmente tinha um corpo reconhecido como feminino.
E para MadridEU: não é "ela", é "ele"! Mesmo se vai dar à luz uma criança.
Pode parecer estranho para alguns, mas se [este] homem não pode ter filhos de outra maneira, porque não? Esperma é que não tem.
4. Chris schreibt am 27.03.2008, 20:02:12 Uhr:
@ Jay.
Eles vão ter um filho. Trata-se de uma mulher e vai continuar mulher do ponto de vista biológico, mesmo se fez uma operação de reajustamento sexual - os seus genes não se alteram. Pessoalmente, acho isto bizarro e, em parte, perverso - além disso, não está a causar danos aos filhos, se até agora tomou hormonas?!
5. madridEU 27.03.2008, 20:30:17 Uhr:
@Jay, o facto de que um homem está grávido porque nasceu com órgãos sexuais femininos pode provocar alguma confusão na escolha dos pronomes pessoais, não achas?
6. Tim-Chris 28.03.2008, 10:51:47 Uhr:
@Chris: Achas "bizarro e, em parte, perverso" que ELE se sente como um ELE, apenas porque ELE não nasceu com o sexo biológico correcto e não tem pénis e testículos biológicos? Porque ELE se aproveita daquilo que a biologia lhe deu por engano? Tens ideia de quantos homens biológicos estão agora tremendamente invejosos, e seriam capazes de dar tudo para poderem eles próprios fazer a experiência de uma gravidez? ELE, por obra de um erro biológico cometido pela natureza, tem a possibilidade de o fazer. E se isso o faz feliz, então ELE tem o maldito direito de o fazer e de o saborear.
Sinceramente, o que eu acho bizarro e absolutamente perverso é a tendência que ainda hoje existe de arrumar as pessoas em gavetas a preto e branco.
Eu sou um homem transexual, e além disso MÃE biológica de três crianças e ainda por cima homossexual. Ou seja: a perversidade absoluta in persona, ou quê?
7. Konstantin 28.03.2008, 11:19:26 Uhr:
Citação: "Eu sou um homem transexual, e além disso MÃE biológica de três crianças e ainda por cima homossexual. Ou seja: a perversidade absoluta in persona, ou quê?"
*Modo ironia: AN*
Completamente perverso, uau!
*Modo ironia: AUS*
Eu acho isto simplesmente genial! Queer-Theory na perfeição! A Judith Butler vai ficar entusiasmada!
8. DragonWarrior28.03.2008, 11:23:31 Uhr:
@ chris
Aqui está o link correcto para o artigo: www.advocate.com
Nele se lê que o bebé está a desenvolver-se muito bem...
Parece-me que com expressões como bizarro e perverso devíamos ter mais cuidado... acho que são completamente descabidas.
Por isso dou razão ao Tim-Chris.
Provavelmente eu sou um dos homens biológicos que gostariam muito de engravidar...
Mas não me é possível...
9. madridEU 28.03.2008, 11:55:16 Uhr:
Não @Tim-Chris: Perversa é a sociedade na qual nós nascemos e que nos educou. É nossa tarefa corrigir os caprichos da natureza. E se também nós, homossexuais, muitas vezes pensamos e agimos segundo o esquema habitual, isso é consequência do esforço de adaptação ao ambiente "normal", de modo a evitar a todo o custo chamar a atenção. Até num país como a Espanha, onde homossexualidade e transexualidade deixaram de ser tema, continuo a hesitar em casar com o meu companheiro de há quase 40 anos, devido justamente a essa "normalidade" à nossa volta.
10. Tim-Chris 28.03.2008, 13:20:53 Uhr:
@madridEU: Era isso mesmo que eu queria dizer quando escrevi sobre pensar em termos de gavetas a preto e branco.
Rosa von Praunheim acertou em cheio com o título do seu filme, em 1970: "Não é o homossexual que é perverso, mas a situação em que vive". Conto-me não apenas entre os homossexuais mas também entre os transexuais, pelo que ele, infelizmente, ainda hoje tem razão.
11. Kuchling 28.03.2008, 21:45:05 Uhr:
Bem, eu acho tudo isto muito extraordinário, para tentar usar uma expressão o mais possível neutra.
Se existe o desejo de ter um filho e há a possibilidade de o realizar, por mim estou de acordo.
Contudo, nunca o teria publicitado desta maneira. Penso sobretudo na criança. No artigo lê-se que ele e a mulher querem ser uma família normal. Graças ao interesse mediático, destruíram completamente essa possibilidade.
****
Li ainda algures um comentário sobre os grupos marginais, onde alguém dizia que não são eles que se atribuem a categoria de marginal, mas a sociedade que os relega para a margem.
O que é um apontamento interessante para debater a questão do interesse dos seus filhos: a própria sociedade que os acusa de dar aos filhos um contexto social complicado é aquela que, simultaneamente, cria o contexto social complicado.
****
Agora é esperar pelo fim de semana, pelos próximos Spiegel e Die Zeit - espero que tenham pedido contributos a "psis", antropólogos, sociólogos, filósofos, e por aí.
A ver se explicam mais sobre a questão da identidade - o cérebro ou os genes? -, a responsabilidade social dos "normais", os fenómenos de marginalidade e de aceitação.
E também gostaria de ouvir o discurso psicanalítico sobre o desenvolvimento de crianças nascidas num contexto como o dos filhos do Tim-Chris.
1. AlexTM 27.03.2008, 09:16:21 Uhr:
Não é preciso olhar para o outro lado do Atlântico para encontrar um homem transexual grávido. Isso também acontece aqui às vezes. Geralmente é por acidente, com transexuais gays.
2. madridEU 27.03.2008, 16:18:09 Uhr:
O caso já tem algo de burlesco: alguém que já foi uma mulher, que se deu conta de que estava no corpo errado, deu ao seu corpo uma aparência masculina, e acaba por decidir engravidar, dado que manteve os seus órgãos sexuais femininos.
Este par vai ser alvo de um enorme interesse dos media e de chicotadas pequeno-burguesas, vão chover sentenças hipócritas e moralistas - embora entre os "normais" já seja moda, desde há muitos anos, praticar a inseminação artificial.
3. Jay 27.03.2008, 18:40:02 Uhr:
Mas era preciso insistir na questão de que ele "já foi mulher"?
Ele nunca foi uma mulher, simplesmente tinha um corpo reconhecido como feminino.
E para MadridEU: não é "ela", é "ele"! Mesmo se vai dar à luz uma criança.
Pode parecer estranho para alguns, mas se [este] homem não pode ter filhos de outra maneira, porque não? Esperma é que não tem.
4. Chris schreibt am 27.03.2008, 20:02:12 Uhr:
@ Jay.
Eles vão ter um filho. Trata-se de uma mulher e vai continuar mulher do ponto de vista biológico, mesmo se fez uma operação de reajustamento sexual - os seus genes não se alteram. Pessoalmente, acho isto bizarro e, em parte, perverso - além disso, não está a causar danos aos filhos, se até agora tomou hormonas?!
5. madridEU 27.03.2008, 20:30:17 Uhr:
@Jay, o facto de que um homem está grávido porque nasceu com órgãos sexuais femininos pode provocar alguma confusão na escolha dos pronomes pessoais, não achas?
6. Tim-Chris 28.03.2008, 10:51:47 Uhr:
@Chris: Achas "bizarro e, em parte, perverso" que ELE se sente como um ELE, apenas porque ELE não nasceu com o sexo biológico correcto e não tem pénis e testículos biológicos? Porque ELE se aproveita daquilo que a biologia lhe deu por engano? Tens ideia de quantos homens biológicos estão agora tremendamente invejosos, e seriam capazes de dar tudo para poderem eles próprios fazer a experiência de uma gravidez? ELE, por obra de um erro biológico cometido pela natureza, tem a possibilidade de o fazer. E se isso o faz feliz, então ELE tem o maldito direito de o fazer e de o saborear.
Sinceramente, o que eu acho bizarro e absolutamente perverso é a tendência que ainda hoje existe de arrumar as pessoas em gavetas a preto e branco.
Eu sou um homem transexual, e além disso MÃE biológica de três crianças e ainda por cima homossexual. Ou seja: a perversidade absoluta in persona, ou quê?
7. Konstantin 28.03.2008, 11:19:26 Uhr:
Citação: "Eu sou um homem transexual, e além disso MÃE biológica de três crianças e ainda por cima homossexual. Ou seja: a perversidade absoluta in persona, ou quê?"
*Modo ironia: AN*
Completamente perverso, uau!
*Modo ironia: AUS*
Eu acho isto simplesmente genial! Queer-Theory na perfeição! A Judith Butler vai ficar entusiasmada!
8. DragonWarrior28.03.2008, 11:23:31 Uhr:
@ chris
Aqui está o link correcto para o artigo: www.advocate.com
Nele se lê que o bebé está a desenvolver-se muito bem...
Parece-me que com expressões como bizarro e perverso devíamos ter mais cuidado... acho que são completamente descabidas.
Por isso dou razão ao Tim-Chris.
Provavelmente eu sou um dos homens biológicos que gostariam muito de engravidar...
Mas não me é possível...
9. madridEU 28.03.2008, 11:55:16 Uhr:
Não @Tim-Chris: Perversa é a sociedade na qual nós nascemos e que nos educou. É nossa tarefa corrigir os caprichos da natureza. E se também nós, homossexuais, muitas vezes pensamos e agimos segundo o esquema habitual, isso é consequência do esforço de adaptação ao ambiente "normal", de modo a evitar a todo o custo chamar a atenção. Até num país como a Espanha, onde homossexualidade e transexualidade deixaram de ser tema, continuo a hesitar em casar com o meu companheiro de há quase 40 anos, devido justamente a essa "normalidade" à nossa volta.
10. Tim-Chris 28.03.2008, 13:20:53 Uhr:
@madridEU: Era isso mesmo que eu queria dizer quando escrevi sobre pensar em termos de gavetas a preto e branco.
Rosa von Praunheim acertou em cheio com o título do seu filme, em 1970: "Não é o homossexual que é perverso, mas a situação em que vive". Conto-me não apenas entre os homossexuais mas também entre os transexuais, pelo que ele, infelizmente, ainda hoje tem razão.
11. Kuchling 28.03.2008, 21:45:05 Uhr:
Bem, eu acho tudo isto muito extraordinário, para tentar usar uma expressão o mais possível neutra.
Se existe o desejo de ter um filho e há a possibilidade de o realizar, por mim estou de acordo.
Contudo, nunca o teria publicitado desta maneira. Penso sobretudo na criança. No artigo lê-se que ele e a mulher querem ser uma família normal. Graças ao interesse mediático, destruíram completamente essa possibilidade.
****
Li ainda algures um comentário sobre os grupos marginais, onde alguém dizia que não são eles que se atribuem a categoria de marginal, mas a sociedade que os relega para a margem.
O que é um apontamento interessante para debater a questão do interesse dos seus filhos: a própria sociedade que os acusa de dar aos filhos um contexto social complicado é aquela que, simultaneamente, cria o contexto social complicado.
****
Agora é esperar pelo fim de semana, pelos próximos Spiegel e Die Zeit - espero que tenham pedido contributos a "psis", antropólogos, sociólogos, filósofos, e por aí.
A ver se explicam mais sobre a questão da identidade - o cérebro ou os genes? -, a responsabilidade social dos "normais", os fenómenos de marginalidade e de aceitação.
E também gostaria de ouvir o discurso psicanalítico sobre o desenvolvimento de crianças nascidas num contexto como o dos filhos do Tim-Chris.
contraditório (1)
Sobre o caso de uma homem grávido, aqui vão os comentários ao artigo correspondente no jornal "Welt" (aqui, em alemão).
Não traduzi todos os comentários, e sublinhei os que achei mais interessantes.
Grau:
26.03.2008, 14:40 Uhr
Esta pessoa não é transexual, mas sexualmente confusa. Só assim se explica este vai e vem mulher-homem-mulher. É compreensível que os médicos se recusem a participar, se a pessoa não é capaz de decidir com segurança sobre o que quer ser. Após o nascimento quer ser de novo homem, e se resolverem mais tarde ter outro filho vai haver novo retorno?
Kim:
26.03.2008, 17:22 Uhr
Mas que comentários discriminatórios e idiotas são estes? "É contra a natureza"... com que então. Aha. E contudo, o que é contra a natureza é não aceitar que rapazes podem nascer com útero e raparigas com pénis e testículos. Seria bom para todas as crianças transexuais se isto fosse reconhecido. Às vezes penso que estamos em 1937, quando leio estas reacções. ESTE comportamento é reconhecidamente contra natura, porque nega aquilo que existe na natureza. Começa a ser tempo que os media reconheçam a sua quota-parte de responsabilidade neste assunto.
Matthew:
26.03.2008, 21:40 Uhr
Uma pessoa transexual que faz uma operação cosmética para ficar com um peito masculino, decide ser homem, e depois engravida?
Para mim, parece ser uma pessoa que está confusa quanto à sua identidade sexual.
Como é que uma pessoa pode exigir o estatuto legal de homem, e no entanto, quase por acaso, querer ficar grávida? Isto mostra claramente que "Thomas" ainda não está muito seguro sobre quem "ele" é.
Kim:
26.03.2008, 21:44 Uhr
"mas um(a) transexual que se diz ser homem"
Ele é um homem. Que nasceu com um útero (e não "que nasceu mulher").
Überschrift:
26.03.2008, 21:54 Uhr
O título deste artigo ("Sensação - um homem dos EUA está grávido" ) é uma falsidade barata.
O que há de sensacional numa doente mental, com problemas em relação ao seu corpo e à sua vida, que se deixa operar e no fim, como se esperava, continua a ter problemas com a sua vida e decide que afinal sempre quer ter uma criança?
bush:
26.03.2008, 22:01 Uhr
Do ponto de vista legal, na Alemanha a lei relativa a transexualidade é muito diferente:
Só após a remoção dos orgãos sexuais é reconhecido ao homem o estatuto legal de mulher (ou vice-versa).
A história deste artigo não seria possível na Alemanha.
Além disso, poucos sabem de experiências em primatas que têm sido, de facto, realizadas, nas quais se dão hormonas a macacos para levar o mais longe possível uma gravidez artificial extra-uterina.
O julgamento moral disto é uma outra questão. Uma pessoa pode-se irritar com tudo isto, mas não é obrigada a isso. :-)
Kim:
26.03.2008, 23:17 Uhr
A transexualidade é um facto congénito, tem a ver com o "sexo cerebral", e o cérebro é o orgão humano mais importante (enfim, para muitos dos que comentam aqui talvez não seja bem assim...). Independentemente de qualquer texto de lei, existem rapazes que nasceram com útero. Qualquer pessoa inteligente pode acompanhar este raciocínio, acho eu. Ah, mas a tal história com o cérebro... uma pessoa pode usá-lo, mas não é obrigada a isso...
eleria:
26.03.2008, 23:56 Uhr
@KIM:
É verdade que há pessoas às quais não é possível atribuir de modo claro um sexo, ou seja, têm simultaneamente orgãos sexuais masculinos e femininos. Mas estes chamam-se "intersexuais" ou "hermafroditas".
Os transexuais, pelo contrário, têm um corpo cujo sexo está claramente definido, mas identificam-se com o sexo oposto.
A transexualidade é vista como um desvio da identidade sexual e pertence à categoria das doenças psíquicas. Daí que, embora não seja muito delicado, não é completamente falso dizer "não se trata de um homem, que está grávido, mas de uma mulher que tem problemas psíquicos...".
Matthew:
27.03.2008, 11:12 Uhr
O caso é tão confuso, que procurei outras fontes. No Welt Online, por exemplo, vem: "O futuro pai, que segundo ele próprio nasceu com corpo de mulher e se submeteu a uma operação parcial de alteração do sexo,"
Além disso, "transexual" é uma pessoa cujo corpo indubitavelmente revela um sexo, mas que quer pertencer ao outro.
Deste modo, Thomas é uma mulher a quem foram retirados os seios e que recebeu injecções de hormonas, que nos EUA pode dizer "eu sou um homem", apesar de ainda ter o útero, e que agora decidiu recorrer a inseminação artificial para engravidar.
O título correcto para esta notícia seria "mulher grávida diz que é homem e fica famosa"
Ostrogoth:
27.03.2008, 14:09 Uhr
Antes de mais: eu sou um transexual. Na imagem que tenho de mim próprio não há lugar para uma gravidez. Para mim, isso não é masculino, nunca tive o desejo de engravidar. No entanto, não exijo que outros pensem como eu. Para alguns, o desejo de mudar de sexo é tão grande como o de ter um filho, e, no final de contas, uma pessoa tem de recorrer àquilo que tem à mão.
Contudo, eu acharia mais saudável se o desejo de ter um filho fosse realizado antes das medidas de reajustamento sexual. Assim se reduz o risco de que isso traga problemas à criança, dado que é indiscutível que a introdução de hormonas do sexo oposto provoca mudanças irreversíveis no corpo, e que não se pode saber à partida como é que isso pode afectar os óvulos ou o esperma.
Para além disso, eu não chegaria ao ponto de negar a Thomas Beatie a sua identidade masculina. Ele tira o melhor partido das suas condições físicas. A natureza é muito variada, e tem lugar para elementos que saem da norma. O que pode fazer com que a maioria de heterosexuais, esses que estão em sintonia com o seu sexo biológico, se sinta ameaçada.
Mona:
27.03.2008, 14:51 Uhr
Desumano!
Acho que o risco de esta criança ficar com problemas de desenvolvimento físico ou psíquico é bem superior ao de uma criança nascida de uma gravidez "normal".
O que é isto? Ou homem, ou mulher - mas não ambos. Isto chega quase a ser uma perversidade.
Isto desagrada-me, e só penso na criança. Na função de modelo dos "pais", que neste caso não tem lugar.
Bewusstsein:
27.03.2008, 17:41 Uhr
@ELERIA
Em minha opinião, caluniar pessoas transexuais chamando-lhes "doentes mentais" é uma atitude bastante arrojada, passe o eufemismo.
A Medicina não aplica aos transexuais o carimbo de doença mental. Em vez disso, é um sentimento - raro, mas natural - da pessoa que não se sente bem no seu corpo. Estas pessoas têm fantasias espontâneas nas quais experimentam os sentimentos do sexo oposto.
Na Medicina existem algumas explicações para este tema de como uma pessoa pode nascer transexual.
Pessoas com doenças mentais normalmente não conseguem confrontar-se conscientemente com as suas sensações e, em vez disso, criam para si próprias, de forma irreflectida, uma realidade regida por obstinação ou um comportamento teimoso completamente descontrolado.
E é exactamente isso o que os transexuais não fazem. Mais depressa se adaptam às circunstâncias, embora a sua auto-estima sofra com isso. Ninguém consegue imaginar a pressão exercida sobre uma pessoa transexual enquanto esta se sujeita à sociedade e se obriga a ter um comportamento correspondente ao seu sexo biológico, em vez do psíquico. E quem é que está em condições de se trair permanentemente, desde que se levanta até que se deita, por toda a sua vida? Alguém aqui consegue imaginar isso?
NÃO, claro que não. É impensável, e por isso é que estas pessoas fazem o que têm de fazer. Vivem a sua própria vida.
Kim:
28.03.2008, 08:28 Uhr
"se obriga a ter um comportamento correspondente ao seu sexo biológico, em vez do psíquico". Embora seja necessário considerar aqui que o chamado "sexo psíquico" também tem uma causa biológica, concretamente, o cérebro humano. O neurologista Dr. Manfred Spitzer diz, a propósito, "você é o seu cérebro" - motivo pelo qual é lógico afirmar que, por exemplo, homens transexuais não se sentem simplesmente homens mas SÃO homens (mesmo que tenham nascido com um útero).
Uma pessoa é o que é.
Peter:
29.03.2008, 18:32 Uhr
Aceitar e tolerar pessoas transexuais é uma coisa, em minha opinião cada pessoa tem o direito de viver a sua vida como acha correcto, sem provocar "danos" a terceiros.
Mas se uma pessoa se decide por uma alteração, devia então ir até às últimas consequências do novo papel que escolheu.
Após uma escolha destas, não devia haver regresso - pois o que hão-de responder à criança quando ela perguntar à "mãe", da qual não nasceu, onde estão as fotos da gravidez, e questões semelhantes...
..."nasceste da barriga do teu pai"...
e desse modo mandá-la para uma marginalidade social?!
Não estou contra que "este tipo" de pares tenham filhos! Uma decisão como esta não devia ser fruto de puro egoísmo, sem pensar nas possíveis consequências para a criança.
Se a sua mulher não pode engravidar, ainda há a possibilidade da adopção! Há crianças em número suficiente, que não têm família e precisam urgentemente de uma! Porque é que um homem precisa de engravidar? Porque é que as pessoas precisam sempre de brincar aos deuses?
Kim:
30.03.2008, 19:03 Uhr
@peter "se uma pessoa se decide por uma alteração" - Pois é, se a decisão dissesse respeito a uma alteração.
Pode ser, que se fale sempre nestes termos, mas eu gostaria de lhe dar alguns elementos para pensar: não há alterações sexuais. O que se pode alterar é
(a) o comportamento social (embora aqui a questão seja até que ponto é que, numa sociedade equalitária, ainda podem existir modelos de comportamento - plenos de clichés - que teriam então de ser mudados) e
(b) os orgãos do corpo (até um certo limite).
O que, do meu ponto de vista, não se altera: o sexo efectivo de uma pessoa, localizado no cérebro e traduzido no psíquico. Dado que a transexualidade é um fenómeno congénito, e ao mesmo tempo o cérebro é o orgão mais importante dos humanos, a conclusão lógica - também do ponto de vista científico - é esta: há mulheres que nascem com pénis e testículos, e homens que nascem com útero.
A partir daí, pode inferir-se isto: uma pessoa é o que é. E porque uma pessoa é o que é, não pode tomar a decisão de se tornar "transexual"; apenas pode reconhecer que o é.
A transexualidade não é um desejo (embora alguns teóricos retrógrados e pseudoreligiosos não o queiram aceitar) mas um elemento da realidade.
Negar esta realidade já é suficientemente mau. E transforma-se em discriminação e atentado contra os direitos humanos quando alguém nega a existência destas pessoas que nascem com orgãos sexuais que não correspondem à sua identidade, a declara uma "não-existência" e insinua que essas pessoas podem decidir "alterar o seu sexo". Em primeiro lugar, a pessoa não decide; em segundo lugar, não é o sexo que é alterado, mas o comportamento e o corpo são ajustados, até um determinado ponto, ao seu verdadeiro sexo. Penso que todas as pessoas têm o direito a um sexo de nascença. Não lhe parece? E se se tratar de um homem que nasceu com útero, então pura e simplesmente esse homem existe. E não precisa que alguém venha com sofismas, ou desenvolva teses religioso-fanáticas, ou algo semelhante... aceitar uma pessoa como ela É (e não como ela talvez queira ser) significa respeitá-la no seu próprio Eu. Infelizmente, há sempre pessoas que não têm este respeito - o que é, em minha opinião, uma característica que não merece propriamente o predicado "bom".
****
Moral da história: fartei-me de escrever disparates no meu post anterior sobre este assunto.
Não traduzi todos os comentários, e sublinhei os que achei mais interessantes.
Grau:
26.03.2008, 14:40 Uhr
Esta pessoa não é transexual, mas sexualmente confusa. Só assim se explica este vai e vem mulher-homem-mulher. É compreensível que os médicos se recusem a participar, se a pessoa não é capaz de decidir com segurança sobre o que quer ser. Após o nascimento quer ser de novo homem, e se resolverem mais tarde ter outro filho vai haver novo retorno?
Kim:
26.03.2008, 17:22 Uhr
Mas que comentários discriminatórios e idiotas são estes? "É contra a natureza"... com que então. Aha. E contudo, o que é contra a natureza é não aceitar que rapazes podem nascer com útero e raparigas com pénis e testículos. Seria bom para todas as crianças transexuais se isto fosse reconhecido. Às vezes penso que estamos em 1937, quando leio estas reacções. ESTE comportamento é reconhecidamente contra natura, porque nega aquilo que existe na natureza. Começa a ser tempo que os media reconheçam a sua quota-parte de responsabilidade neste assunto.
Matthew:
26.03.2008, 21:40 Uhr
Uma pessoa transexual que faz uma operação cosmética para ficar com um peito masculino, decide ser homem, e depois engravida?
Para mim, parece ser uma pessoa que está confusa quanto à sua identidade sexual.
Como é que uma pessoa pode exigir o estatuto legal de homem, e no entanto, quase por acaso, querer ficar grávida? Isto mostra claramente que "Thomas" ainda não está muito seguro sobre quem "ele" é.
Kim:
26.03.2008, 21:44 Uhr
"mas um(a) transexual que se diz ser homem"
Ele é um homem. Que nasceu com um útero (e não "que nasceu mulher").
Überschrift:
26.03.2008, 21:54 Uhr
O título deste artigo ("Sensação - um homem dos EUA está grávido" ) é uma falsidade barata.
O que há de sensacional numa doente mental, com problemas em relação ao seu corpo e à sua vida, que se deixa operar e no fim, como se esperava, continua a ter problemas com a sua vida e decide que afinal sempre quer ter uma criança?
bush:
26.03.2008, 22:01 Uhr
Do ponto de vista legal, na Alemanha a lei relativa a transexualidade é muito diferente:
Só após a remoção dos orgãos sexuais é reconhecido ao homem o estatuto legal de mulher (ou vice-versa).
A história deste artigo não seria possível na Alemanha.
Além disso, poucos sabem de experiências em primatas que têm sido, de facto, realizadas, nas quais se dão hormonas a macacos para levar o mais longe possível uma gravidez artificial extra-uterina.
O julgamento moral disto é uma outra questão. Uma pessoa pode-se irritar com tudo isto, mas não é obrigada a isso. :-)
Kim:
26.03.2008, 23:17 Uhr
A transexualidade é um facto congénito, tem a ver com o "sexo cerebral", e o cérebro é o orgão humano mais importante (enfim, para muitos dos que comentam aqui talvez não seja bem assim...). Independentemente de qualquer texto de lei, existem rapazes que nasceram com útero. Qualquer pessoa inteligente pode acompanhar este raciocínio, acho eu. Ah, mas a tal história com o cérebro... uma pessoa pode usá-lo, mas não é obrigada a isso...
eleria:
26.03.2008, 23:56 Uhr
@KIM:
É verdade que há pessoas às quais não é possível atribuir de modo claro um sexo, ou seja, têm simultaneamente orgãos sexuais masculinos e femininos. Mas estes chamam-se "intersexuais" ou "hermafroditas".
Os transexuais, pelo contrário, têm um corpo cujo sexo está claramente definido, mas identificam-se com o sexo oposto.
A transexualidade é vista como um desvio da identidade sexual e pertence à categoria das doenças psíquicas. Daí que, embora não seja muito delicado, não é completamente falso dizer "não se trata de um homem, que está grávido, mas de uma mulher que tem problemas psíquicos...".
Matthew:
27.03.2008, 11:12 Uhr
O caso é tão confuso, que procurei outras fontes. No Welt Online, por exemplo, vem: "O futuro pai, que segundo ele próprio nasceu com corpo de mulher e se submeteu a uma operação parcial de alteração do sexo,"
Além disso, "transexual" é uma pessoa cujo corpo indubitavelmente revela um sexo, mas que quer pertencer ao outro.
Deste modo, Thomas é uma mulher a quem foram retirados os seios e que recebeu injecções de hormonas, que nos EUA pode dizer "eu sou um homem", apesar de ainda ter o útero, e que agora decidiu recorrer a inseminação artificial para engravidar.
O título correcto para esta notícia seria "mulher grávida diz que é homem e fica famosa"
Ostrogoth:
27.03.2008, 14:09 Uhr
Antes de mais: eu sou um transexual. Na imagem que tenho de mim próprio não há lugar para uma gravidez. Para mim, isso não é masculino, nunca tive o desejo de engravidar. No entanto, não exijo que outros pensem como eu. Para alguns, o desejo de mudar de sexo é tão grande como o de ter um filho, e, no final de contas, uma pessoa tem de recorrer àquilo que tem à mão.
Contudo, eu acharia mais saudável se o desejo de ter um filho fosse realizado antes das medidas de reajustamento sexual. Assim se reduz o risco de que isso traga problemas à criança, dado que é indiscutível que a introdução de hormonas do sexo oposto provoca mudanças irreversíveis no corpo, e que não se pode saber à partida como é que isso pode afectar os óvulos ou o esperma.
Para além disso, eu não chegaria ao ponto de negar a Thomas Beatie a sua identidade masculina. Ele tira o melhor partido das suas condições físicas. A natureza é muito variada, e tem lugar para elementos que saem da norma. O que pode fazer com que a maioria de heterosexuais, esses que estão em sintonia com o seu sexo biológico, se sinta ameaçada.
Mona:
27.03.2008, 14:51 Uhr
Desumano!
Acho que o risco de esta criança ficar com problemas de desenvolvimento físico ou psíquico é bem superior ao de uma criança nascida de uma gravidez "normal".
O que é isto? Ou homem, ou mulher - mas não ambos. Isto chega quase a ser uma perversidade.
Isto desagrada-me, e só penso na criança. Na função de modelo dos "pais", que neste caso não tem lugar.
Bewusstsein:
27.03.2008, 17:41 Uhr
@ELERIA
Em minha opinião, caluniar pessoas transexuais chamando-lhes "doentes mentais" é uma atitude bastante arrojada, passe o eufemismo.
A Medicina não aplica aos transexuais o carimbo de doença mental. Em vez disso, é um sentimento - raro, mas natural - da pessoa que não se sente bem no seu corpo. Estas pessoas têm fantasias espontâneas nas quais experimentam os sentimentos do sexo oposto.
Na Medicina existem algumas explicações para este tema de como uma pessoa pode nascer transexual.
Pessoas com doenças mentais normalmente não conseguem confrontar-se conscientemente com as suas sensações e, em vez disso, criam para si próprias, de forma irreflectida, uma realidade regida por obstinação ou um comportamento teimoso completamente descontrolado.
E é exactamente isso o que os transexuais não fazem. Mais depressa se adaptam às circunstâncias, embora a sua auto-estima sofra com isso. Ninguém consegue imaginar a pressão exercida sobre uma pessoa transexual enquanto esta se sujeita à sociedade e se obriga a ter um comportamento correspondente ao seu sexo biológico, em vez do psíquico. E quem é que está em condições de se trair permanentemente, desde que se levanta até que se deita, por toda a sua vida? Alguém aqui consegue imaginar isso?
NÃO, claro que não. É impensável, e por isso é que estas pessoas fazem o que têm de fazer. Vivem a sua própria vida.
Kim:
28.03.2008, 08:28 Uhr
"se obriga a ter um comportamento correspondente ao seu sexo biológico, em vez do psíquico". Embora seja necessário considerar aqui que o chamado "sexo psíquico" também tem uma causa biológica, concretamente, o cérebro humano. O neurologista Dr. Manfred Spitzer diz, a propósito, "você é o seu cérebro" - motivo pelo qual é lógico afirmar que, por exemplo, homens transexuais não se sentem simplesmente homens mas SÃO homens (mesmo que tenham nascido com um útero).
Uma pessoa é o que é.
Peter:
29.03.2008, 18:32 Uhr
Aceitar e tolerar pessoas transexuais é uma coisa, em minha opinião cada pessoa tem o direito de viver a sua vida como acha correcto, sem provocar "danos" a terceiros.
Mas se uma pessoa se decide por uma alteração, devia então ir até às últimas consequências do novo papel que escolheu.
Após uma escolha destas, não devia haver regresso - pois o que hão-de responder à criança quando ela perguntar à "mãe", da qual não nasceu, onde estão as fotos da gravidez, e questões semelhantes...
..."nasceste da barriga do teu pai"...
e desse modo mandá-la para uma marginalidade social?!
Não estou contra que "este tipo" de pares tenham filhos! Uma decisão como esta não devia ser fruto de puro egoísmo, sem pensar nas possíveis consequências para a criança.
Se a sua mulher não pode engravidar, ainda há a possibilidade da adopção! Há crianças em número suficiente, que não têm família e precisam urgentemente de uma! Porque é que um homem precisa de engravidar? Porque é que as pessoas precisam sempre de brincar aos deuses?
Kim:
30.03.2008, 19:03 Uhr
@peter "se uma pessoa se decide por uma alteração" - Pois é, se a decisão dissesse respeito a uma alteração.
Pode ser, que se fale sempre nestes termos, mas eu gostaria de lhe dar alguns elementos para pensar: não há alterações sexuais. O que se pode alterar é
(a) o comportamento social (embora aqui a questão seja até que ponto é que, numa sociedade equalitária, ainda podem existir modelos de comportamento - plenos de clichés - que teriam então de ser mudados) e
(b) os orgãos do corpo (até um certo limite).
O que, do meu ponto de vista, não se altera: o sexo efectivo de uma pessoa, localizado no cérebro e traduzido no psíquico. Dado que a transexualidade é um fenómeno congénito, e ao mesmo tempo o cérebro é o orgão mais importante dos humanos, a conclusão lógica - também do ponto de vista científico - é esta: há mulheres que nascem com pénis e testículos, e homens que nascem com útero.
A partir daí, pode inferir-se isto: uma pessoa é o que é. E porque uma pessoa é o que é, não pode tomar a decisão de se tornar "transexual"; apenas pode reconhecer que o é.
A transexualidade não é um desejo (embora alguns teóricos retrógrados e pseudoreligiosos não o queiram aceitar) mas um elemento da realidade.
Negar esta realidade já é suficientemente mau. E transforma-se em discriminação e atentado contra os direitos humanos quando alguém nega a existência destas pessoas que nascem com orgãos sexuais que não correspondem à sua identidade, a declara uma "não-existência" e insinua que essas pessoas podem decidir "alterar o seu sexo". Em primeiro lugar, a pessoa não decide; em segundo lugar, não é o sexo que é alterado, mas o comportamento e o corpo são ajustados, até um determinado ponto, ao seu verdadeiro sexo. Penso que todas as pessoas têm o direito a um sexo de nascença. Não lhe parece? E se se tratar de um homem que nasceu com útero, então pura e simplesmente esse homem existe. E não precisa que alguém venha com sofismas, ou desenvolva teses religioso-fanáticas, ou algo semelhante... aceitar uma pessoa como ela É (e não como ela talvez queira ser) significa respeitá-la no seu próprio Eu. Infelizmente, há sempre pessoas que não têm este respeito - o que é, em minha opinião, uma característica que não merece propriamente o predicado "bom".
****
Moral da história: fartei-me de escrever disparates no meu post anterior sobre este assunto.
ora bem, amigos
Estou a ver que tenho de mudar o nome deste blogue de "dois dedos de conversa" para "enfim sós" - só a Gabriela e eu, eu nos posts e ela nos comentários.
Vocês adiantam-me pouco à minha vida. Propus aqui um tema sobre o qual gostava de discutir convosco (e continuo impressionada pelo silêncio que vai pela blogosfera portuguesa, que é sempre tão amiga de ter opinião sobre tudo mas desta vez está caladinha como um rato) e nicles.
Virei-me para o espaço internético alemão, e encontrei comentários muito interessantes.
Os próximos dois posts são portanto o contraditório ao que eu própria escrevi no post "já só me falta ver um porco a andar de bicicleta". Traduzi, porque embora vocês não me liguem, eu tenho esta mania de dar a outra face.
I hope you enjoy!
Vocês adiantam-me pouco à minha vida. Propus aqui um tema sobre o qual gostava de discutir convosco (e continuo impressionada pelo silêncio que vai pela blogosfera portuguesa, que é sempre tão amiga de ter opinião sobre tudo mas desta vez está caladinha como um rato) e nicles.
Virei-me para o espaço internético alemão, e encontrei comentários muito interessantes.
Os próximos dois posts são portanto o contraditório ao que eu própria escrevi no post "já só me falta ver um porco a andar de bicicleta". Traduzi, porque embora vocês não me liguem, eu tenho esta mania de dar a outra face.
I hope you enjoy!
01 abril 2008
dia nacional do jornalismo
(perdoem-me os amigos jornalistas, os bons jornalistas - mas é cá umas contas antigas que tenho com alguns jornais portugueses, do tempo em que os lia e simultaneamente conhecia os bastidores das mentiras que publicavam na primeira página, ou na última, ou nas entre uma e a outra)
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