30 maio 2009

o céu é o limite

Na semana passada esta tasquinha foi incluída na lista de links do Bandeira ao Vento.
(Infelizmente, consta lá com o nome "Helena Araújo". Pois bem - rufar de tambores - chegou o momento de revelar ao mundo e a José Bandeira que eu sou a Anastásia Nikolaevna. Guardo este segredo há quase cem anos, porque nunca se sabe de que é que os bolcheviques são capazes, mas agora a verdade tem de ser dita. Em estando em causa passar para um dos primeiros lugares daquela coluna alfabética, a verdade tem de ser dita.)

Na próxima semana tenho um encontro com o Barack Obama. Ainda não sei os pormenores, mas está tudo muito bem encaminhado.

De modo que a pergunta para a segunda semana de Junho, e seguintes, é:
que mais irá me acontecer?

De momento, parece que o céu é o limite.

29 maio 2009

os frangos que paguem a crise

Ontem vi um cartaz de um partido de extrema-esquerda alemão onde se dizia "os ricos que paguem a crise".
É bom saber que algumas coisas não mudam nunca - excepto a realidade.

Em caso de crise, quem a paga são os frangos.
A carne de galinha criada em condições aceitáveis custa cerca do dobro da dos frangos de aviário.
Se houver vida depois da vida, julgamento final e tudo, estamos tramados.



(foto tirada daqui)

coisas da vida

A minha avó soltava as galinhas e prendia as flores.

(E ainda agora a vejo, com o avental cheio de milho, a avançar pelo quintal chamando "polhinha, polhinha". Não sei o que diria dos amplos espaços ajardinados em frente aos aviários industriais.)

25 maio 2009

bufaria

Bufaria, no Segunda Língua.

Se a Maria N. se candidatar - seja ao que for, pode ser ao PE ou à sua Junta de Freguesia - eu arranjo maneira de ir votar nela.

***

Este fim-de-semana perguntei a um professor de um liceu alemão como é isso de gravar aulas às escondidas do professor. Não teve dúvidas: é proibido (as pessoas têm direito à sua imagem, e é ilegal gravar ou fotografar sem sua autorização - pior ainda: publicar!); na Alemanha, um processo contra esta professora estaria à partida ganho por ela, por profunda ilegalidade das provas apresentadas. E os pais da aluna, bem como os jornalistas, arriscavam-se eles próprios a ser levados a tribunal.

para a Inês


Peço emprestado a Van Gogh este quadro que ele pintou para festejar o nascimento do sobrinho, e mostro-o à Inês.
Não conheço maneira mais sossegada de dizer a alegria e a esperança que vêm com ela.
Notaram que o mundo está um bocadinho mais feliz desde o passado dia 20 de Maio?

20 maio 2009

desligo o computador

...e aqui vou euuuuuu. A correr, como de costume.
Para Munique, até domingo.

Ora então: a todos o que aqui vierem, desejo boa semana, bom fim-de-semana, um sábado cheio de sol, um domingo magnífico, etc. e até já.

update

Constato com alívio que, na escola de Espinho onde há uma professora que, aparentemente, se debate com problemas graves de saúde, os alunos mais velhos dizem que a senhora é uma docente formidável.
Óptimo! Isto significa que este problema só recentemente se agudizou.
Melhor assim, que imaginar há quantos anos e há quantas centenas de alunos é que este problema se arrastava.

Agora, alguém me ajuda, que eu não percebo nada de ética, e muito menos de deontologia profissional:

I. Pode-se fazer uma gravação destas?

II. Pode-se transmitir na tv uma gravação destas? As pessoas doentes não têm o direito a ser respeitadas na sua fragilidade?

III. Era mesmo preciso fazer deste caso um escândalo nacional?! E dizer/insinuar que é um problema da Educação?
(Já agora: conheço uma fábrica de têxteis onde a encarregada atira com as peças mal feitas à cabeça - "aos cornos", para citar correctamente - da costureira. Um dia que alguma estação de tv esteja precisada de notícia para abrir o noticiário, posso dar mais detalhes. Não sei é se as garrafais devam ser "crise nos têxteis" ou "situação laboral na indústria está cada vez mais degradada" ou ainda "grunhices típicas do Norte")
(Delirando bem, até se podia inventar tendências lésbicas na encarregada, assédio sexual de que a empregada será vítima, e mais uma cena de violência gay. Ora isto é que sim, dava uma abertura de noticiário e peras!)

19 maio 2009

"tu nem sabes no que te metestes"



Analisando os conteúdos e o tom de voz, parece-me que esta professora tem alguns problemas pessoais graves para resolver.
Isto não é o Ensino em Portugal, isto é uma pessoa em situação de sofrimento e que precisa de ajuda.

A notícia no Público fala em alusão a orgias sexuais. Na gravação da SIC ouvi frases inacreditáveis: "Sabes como é que a minha mãe me rebentou o hímen na vagina?", "E não estou a dizer nada de errado; se os vossos pais não vos disseram, é porque NÃO VOS SABEM EDUCAR", etc. - se me obrigassem a assistir a isto durante uma hora, saía de lá doente.

O que assusta mais é que a situação se arrastou três anos. Quantas turmas, quantas centenas de crianças foram traumatizadas por um assédio moral com esta dimensão catastrófica, sem que a escola tivesse meios para reagir?

A questão interessa-me bastante - é que também não sei o que fazer perante casos (bem menos graves!) de comportamento inadequado na sala de aulas.
Uma professora da turma do meu filho leva um apito para as aulas. Quando sobe o nível de ruído na sala, ela saca do apito e drrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiii! Tem horas em que drrrrrrrrrriiiiiiiiiiiii mais de dez vezes.
Noutra escola, uma antiga professora de russo reciclou-se à pressa para dar francês. Não apenas não sabia francês, como - parece-me - arrastava consigo uma depressão. As aulas eram profundamente frustrantes, os alunos odiavam francês.

O que é que se pode fazer nestes casos?

***

PS para o Eduardo Pitta: a pergunta "porque será que estas coisas só acontecem a Norte?" não é muito simpática. A primeira resposta que me ocorreu foi que a aluna que levou o gravador teria alguém da família a trabalhar na Grundig; a segunda foi que, felizmente!, no Norte há uma DREN atenta... (hehehe)
O que pretende com essa pergunta, concretamente? Sugerir que estas coisas só acontecem na área da DREN, porque a Direcção Regional cria um ambiente de trabalho de tal modo terrível que os professores descarrilam completamente? Ou que as pessoas do Norte são mais propênsicas à grunhice que as do Sul?
Curiosamente, nos comentários do Público o país divide-se logo em Norte e Sul. Um país tão pequenino, visto à distância de 3.000 km, é divertido.
Permito-me ainda uma sugestão: parece-me que a etiqueta "Educação", assim sozinha, induz em erro. Precisa do complemento "Patologia".

***

ADENDA (em 25.05)

Pela sua importância informativa, publico aqui o comentário de um leitor, João Cardoso:

A gravação tem uma hora e está disponível no DN online. A montagem que por aqui circula, e a forma como foi ouvida e transformada, é um exemplo fantástico de como se constroem verdades: com imaginação e mentiras.

E mais uma ADENDA (em 25.05)

A Gabriela pediu que eu apagasse a gravação que estava no princípio deste post.
Já andava a pensar nisso, mas nestas coisas sou muito mais lenta do que devia.
Apaguei o vídeo; o post e os comentários ficam um bocado descontextuados, mas está muito melhor assim.

18 maio 2009

a educação começa em casa...

Ora aqui está uma bela frase:
(lida no Público)
(via der terrorist)

"As Testemunhas de Jeová, que em Portugal contam com cerca de 150 mil seguidores, lembram a importância da castidade até ao casamento, dizendo que, por isso, a distribuição de contraceptivos é indiferente. “Os nossos jovens sabem muito bem o que fazer, são criados e educados de acordo com aqueles valores, apreciamos muito a educação que Deus nos dá, vivemos de acordo com os valores que defendemos independentemente do que os outros façam”, esclareceu Pedro Candeias, também à TSF."

É isso mesmo: se, para mim, educar os filhos no valor da castidade é importante, só tenho que educar os meus filhos no valor da castidade - em vez de obrigar pessoas que têm outros valores a impor aos filhos delas o mesmo que eu imponho aos meus.

Parabéns à comunidade das Testemunhas de Jeová, que nos dá um belo exemplo de como estar numa sociedade plural sem perder a sua própria identidade e sem querer impor a sua visão do mundo aos outros.

***

Penso que a distribuição de preservativos nas escolas tem três vantagens: prevenir a gravidez de adolescentes, evitar a propagação de doenças sexualmente transmissíveis, e, sobretudo, divulgar e vulgarizar a ideia de que o preservativo é algo indispensável na sexualidade juvenil.
Não faz sentido que, em nome dos interesses de algumas famílias (que acreditam que os anjos não têm sexo e que os seus filhos adolescentes são anjos e portanto nem é preciso falar do problema), os outros adolescentes sejam privados deste apoio.

17 maio 2009

melhor que domingo em pijama, só mesmo pull my old jeans on

E porque hoje está aqui uma bela manhã de domingo e sol (que combina muito mal com a minha gripe, estou a ver quando começo a fazer oinc oinc oinc e aí vou ao médico) uma música de boa disposição e mainada:

Grand Prix Eurovision de la Chanson 2009

Alguns apontamentos sérios:

- Um palco sensacional, boas canções, uma edição óptima deste festival - não fora a desumanidade da repressão da manifestação de homossexuais (enfim, pode-se dizer que "não tinha sido autorizada", mas é muitíssimo mais que isso: no mesmo dia, pessoas entrevistadas na rua diziam delicadezas do género "estes depravados deviam ser todos metidos em campos de concentração". Fique registado: em 2009, em Moscovo) e a barbaridade da recolha e envenenamento dos cães vadios. Tudo isto porque se queria dar de Moscovo a melhor imagem possível. Lamento informar que falharam redondamente.

- Constrangedor o modo como tentaram fazer sketches humorísticos, manipulando a realidade para a fazer passar por preconceito. Raramente vi um país a jogar tão ridiculamente à defesa.

- Engraçada, embora inconsequente, a ideia de passarem um pequeno dicionário russo entre as canções. Mas quais terão sido os critérios para a escolha das palavras? Confesso que tive um arrepio ao ver o verbete Sibir = Sibéria. Serão preconceitos, mas esta palavra, tão carregada de associações negativas, pareceu-me muito deslocada naquele ambiente de festa.

- Há semanas disse que Israel ia ganhar. Bem...
Ultimamente ando muito certeira: acerto completamente ao lado do alvo. O melhor é não jogar no totoloto nos próximos anos, vou poupar um dinheirão.
Que se passa na Europa, se já ninguém está disposto a premiar o simbolismo de uma judia e uma cristã palestiniana juntas a cantar "there must be another way"? Será isto sinal de cansaço? Uma maneira de dizer "pois há another way, há - tratem de o encontrar e de seguir por ele adiante, tratem de resolver o problema, que já estamos fartos dos vossos conflitos"?


Alguns apontamentos frívolos:

- "O céu é o limite" - depois desta manifestação excessiva de grandeza, que incluiu até a participação de astronautas directamente do espaço, como serão os festivais futuros? Enquanto observava esta desbunda de exibicionismo, lembrava-me daqueles aniversários infantis em que a primeira criança a fazer anos traz um palhaço para a festa, a segunda já tem um carrossel no jardim, a terceira leva os amiguinhos todos à Euro Disney e os pais da quarta arrependem-se muito de não terem interrompido a pílula uns meses mais cedo...

- Ainda não sei bem para que serve um festival da canção europeu. Para manter a indústria oleada? Para mostrar a riqueza das diferenças musicais no espaço europeu? Sou mais pelo segundo, e por isso dou os meus parabéns a Portugal, à Arménia e à Moldávia (entre outros) que, podendo ter mandado para lá um grupo Abba qualquer, optaram por levar elementos musicais específicos da sua cultura.
(Repararam bem que eu disse que Portugal podia levar um Abba qualquer à Eurovisão, e só não fez porque não quis? hehehe)

- E que me dizem da Dita von Teese? Heinhe?
Aprendi uma palavra nova (aprender até morrer): burlesque.
Vejam só como é a internet: ainda ontem não sabia o que isso é, e hoje já tenho opinião formada...
Parece que o erotismo à maneira dos anos vinte voltou para ficar. Dei uma vistinha de olhos (internética) por bares berlinenses onde se pratica essa arte, mas não me convenceu. A Dita von Teese mete todas aquelas aprendizas-de-Marylin num chinelo cambado. Caramba, aquela mulher é um excelente exercício de estatística: ninguém como ela faz render ao máximo aquilo que não mostra!

- No ano passado, durante a recolha das votações, o Matthias comentou com tristeza: "ninguém gosta de nós..."
Este ano constatou que a canção norueguesa tinha de ser realmente muito boa, porque a Noruega também não exporta muitos emigrantes, nem tem relações particularmente amistosas com os restantes países.

(Gostei do humor do comentador alemão, ao ver o vencedor no palco, assim novinho e despretencioso, a dizer: "atenção, atenção: os pais do pequeno Alexander podem vir buscá-lo ao palco")

15 maio 2009

descubra as diferenças

Para comparar e tentar encontrar as diferenças:

I.
Este texto.


II.
E este:
Um casal teve uma filha. A mãe ficou em casa com o bebé, e saboreou intensamente cada dia.
Quando a criança fez um ano, falaram sobre um segundo filho. A mãe disse: "ok, e eu fico em casa até o segundo completar dois anos e meio. Os últimos seis meses do período de protecção à maternidade
[na Alemanha é até o filho mais novo fazer três anos]
serão feitos por ti, para eu poder voltar ao meu trabalho, reentrando em cheio e sem qualquer preocupação de horários."
Quando o filho mais novo completou dois anos e cinco meses, ofereceram ao pai o lugar mais cobiçado da empresa.
O pai disse ao empregador: "fico-lhe muito grato, e terei todo o prazer em fazer esse trabalho, mas só daqui a sete meses."
O empregador: "Este trabalho é incompatível com uma licença de maternidade, tem de começar já."
O pai respondeu: "Já, não posso. Só daqui a sete meses."

Deram-lhe o lugar.
Mas também o podia ter perdido. E depois?

(O meu marido viu tudo isto, e ficou cheio de pena de não ter tido a mesma ideia na altura em que o podia ter feito. Agora é tarde para voltar atrás, e tirar seis meses de licença para ver os filhos crescer.)


::::::


I.
Este desenho, de uma capa de revista sobre aniversários de crianças.





(foto tirada daqui)



II.
Esta fotografia, de um aniversário de crianças.



::::::

Sinceramente: acho muito bem que se proteste.
Mas talvez fosse melhor começar a mudar na própria família.
O pai também tem o direito e a responsabilidade de tratar da prole.
Se eles começarem a tirar algumas semanas para ficar com o bebé, se forem eles a faltar ao trabalho quando a criança está doente, se forem eles a reduzir o horário de trabalho, por exemplo, os empregadores vão-se habituar à ideia de que uma mulher em idade fértil não é uma funcionária muito mais complicada que um homem - e os homens até têm uma idade fértil bem mais prolongada.
Ah, mas nem pensar, os homens ganham mais? Pois ganham, é tudo muito injusto.
E têm trabalhos de mais responsabilidade? Pois que admiração...
Por onde é que se começa a mudar isto tudo?

...E depois, conheço famílias da classe média onde foi feita essa opção de trabalharem ambos menos para darem mais apoio aos filhos, e que por causa disso não têm carro. Tudo é possível, excepto - como dizia ontem a picheleira suábia - querer ter ao mesmo tempo a bretzel e o gelado de morango.

Adenda - talvez seja interessante revelar que o casal alemão referido acima tem os seguintes empregos:
Ela: terminado o ensino secundário, entrou para uma empresa onde foi fazendo uma "carreirinha" (conquistada a pulso ao longo de mais de uma década de trabalho sólido)
Ele: frequentou sempre as chamadas escolas de elite; concluiu o curso de matemática com a nota máxima; trabalha numa empresa que é uma espécie de hobby do seu proprietário, um desses modernos magnatas da indústria informática; o lugar em causa era o de chefe do departamento que se diverte a imaginar novos produtos de software.

buracos, notícias

Dantes, o Da Literatura oferecia a possibilidade de ver as reacções aos seus posts noutros blogues.
Quem me dera ainda ter essa ferramenta para poder ver o que se escreveu sobre este assunto...

isto até parece um porco a andar de bicicleta...

Os educadores de infância estão em greve. Querem melhores salários e melhores condições de trabalho.
Os pais concordam com eles.
Até a Ministra da Família, Ursula von der Leyen (CDU), diz que pois claro e que é evidente: que se queremos melhor qualidade nos cuidados das crianças também temos de contar com maiores custos.

Estão-se a preparar para uma longa greve, mas não em todas as cidades e todos os infantários simultaneamente. Nas localidades em causa, serão criados serviços de emergência para tomar conta das crianças. Os pais serão avisados a tempo. Ontem, na televisão, informaram que os pais devem contactar o seu empregador para comunicar que terão de ficar em casa a tomar conta dos filhos, e que continuarão a receber o seu salário apesar de faltarem ao trabalho.
Só falta mesmo discutir as tabelas salariais e as questões de carreira.

Passa por aqui um respeito mútuo entre os vários agentes e grupos envolvidos que me agrada muito.
Desconfio que o Marx esteja a dar duas voltinhas no caixão...

sobre jornalistas alemães (só para a Rita)

Então está bem, Rita,
tu fazes os scones, mas eu levo a manteiga e a compota (do Winterfeldtplatz - conheces? fruta biológica e só 15% de açúcar)
É que ontem irritei-me como nem imaginas com a Maybrit Illner a convidar para o seu programa de debate político uma "dona de casa suábia" - discutiam-se as dívidas galopantes do Estado alemão.
Em 1929 os governantes funcionaram como donas de casa suábias, e foi o que se viu.
É verdade que neste momento em cima de cada alemão já há 19.000 euros de dívidas (digamos: à minha família caberiam, mal feitas as contas, 80.000 euros! - como é que nós podemos pagar isso?!), mas a questão não é fazer maultaschen de espinafres ou de carne, a questão é evitar o total descalabro económico e social, e simultaneamente lutar para dar ao país perspectivas de futuro.
A Maybrit Illner tinha obrigação de ter lido um pouco de Keynes - nem que fosse na wikipedia.
E a Marietta Slomka, outra que tal: ontem, no noticiário "Heute", a perguntar ao ministro das Finanças então como é que é, temos um buraco orçamental deste tamanho mas há mais de mil milhões de euros para investir numa viagem à lua?!
Não percebe nada de budismo: o principal não é a meta, mas o caminho.

13 maio 2009

reincidi

Lembram-se de eu ter comprado uma balança na IKEA e de a ter devolvido porque estava avariada?
Pois bem: reincidi.

Desta vez foi com um um livro de músicas, "the best of Jobim", que estive tentada a devolver porque no Wave tem três notas que não são as que eu canto...

12 maio 2009

o mundo da Isabela:

Durante uns tempos foi perfeito, agora é novo.
E já começou bem. Vão ver.

escolhas editoriais

Ontem ouvimos na rádio que quase houve um amok numa escola perto de Bona.
Uma miúda de 16 anos entrou na escola com uma mochila carregada de cocktails molotov, uma pistola de gás, várias facas e uma carta onde, alegadamente, explica os seus motivos.
Na casa de banho cruzou-se com outra aluna, atacou-a com uma faca, e em seguida fugiu.

Na breve notícia na rádio, a polícia falava em "vagos indícios" de um atentado amok, e que as investigações estavam no início ("vagos indícios", hehehe, quando se trata de uma mochila cheia de coktails molotov - é muito engraçado).
Notícia seguinte.

Em casa, assistimos ao noticiário das dez da noite. Da meia-hora do noticiário, quase 15 minutos foram sobre a visita do Papa a Israel

-- e é que não é para menos, se um alemão com esta visibilidade vai a Yad Vashem. Além disso, talvez por terem metido tanta água da última vez que citaram o Papa, passaram o discurso feito por ele. As frases completas, ora nem mais. Também entrevistaram em directo a presidente do Conselho Judaico Alemão, que continua muito desapontada com o Papa, e foi um bocadinho polémica, e falaram outra vez de responsabilidade e anti-semitismo --

mais alguns minutos de Política, mais Afeganistão, mais Bolsa.
E acabou-se o noticiário, sem falarem do amok de Bona.
O que está bem, porque a Polícia só tem "vagos indícios" para relatar, e não há tempo para gastar com especulações. (Embora o pior que há em mim estivesse a pedir isso mesmo daquele noticiário...)

Só vos digo que é muito agradável viver num país onde os serviços informativos funcionam assim.

onde é que podemos encontrar bronze?

Há dias assisti com o Matthias a uma visita guiada no Museu da Pré-História. Falava-se da Época do Bronze, e a primeira pergunta feita aos miúdos foi: "onde é que podemos encontrar bronze?"
Uma das crianças respondeu: "nos museus!"
"Ora nem mais", rematou o guia.

Aqueles antigos eram muito modernos: faziam espadas enormes, que não davam jeito nenhum para combater, só para impressionar os inimigos. Provavelmente - imagino eu - punham-se frente a frente, cada um brandia as suas armas, ó! vistes bem o tamanho disto?, e não passavam a vias de facto porque todos tinham boas vistinhas, graças a Deus.

Ou então são os modernos que são muito antigos: na Guerra Fria fazia-se o mesmo, taliqual.

***

A pergunta era: onde é que podemos encontrar bronze?
E a resposta certa: no quarto do Matthias!
Saiu há quatro dias para os torneios nacionais de xadrez, e voltou ontem à noite com o terceiro lugar.

Eu, que ando na minha vida sem perceber nem metade do filme, perguntei-lhe à despedida se depois vinha sozinho para casa ou se era preciso ir buscá-lo ao comboio. Por sorte explicaram-me a tempo o enredo e o desfecho, e pois lá fomos buscá-lo ao comboio, pois lá encontramos os pais dos outros três miúdos da equipa vencedora, e pois lá fizemos em pleno Hauptbahnhof figura de fãs de clube de futebol quando trazem a taça das taças para casa. E eles fizeram figura de clube, a gritar muito felizes e orgulhosos "Hauptstadt! Hauptstadt!" que é como quem diz "capital! capital!", e é engraçado que se identifiquem com Berlim-a-capital quando de facto são apenas uma escola.

Enquanto gritávamos "capital!" (e pensávamos "viva o meu rebento!"), uns polícias todos animados passaram multas aos nossos carros, estacionados num lugar muito prático e muito proibido. Em desespero de causa, mostramos a nossa taça, mas os gajos não se demoveram.

Não perdem pela demora.
Da próxima vez que quiserem ver bronze, ó fundamentalistas da legalidade, vão aos museus!

Irene Sendler


A propósito do primeiro aniversário da morte de Irene Sendler, recebi este texto da Palas Athena, em São Paulo, que transcrevo:

Amanhã, 12 de maio, faz um ano da morte de um dos monumentos de humanidade e destemor: Irena Sendler. Em plena juventude ela enfrentou a crueldade hedionda das tropas nazistas que haviam invadido sua terra natal, a Polônia. Assistente social na época, resgatou do extermínio seguramente 2.500 crianças do Gueto de Varsóvia.


Em tempos como estes, quando os fantasmas das idéias totalitárias parecem ressurgir, e se questiona a inquestionável ignomínia, a vergonha do holocausto, é necessário lembrar para não repetir.


O artigo abaixo, de Lia Diskin, foi publicado originalmente na Revista 18, do Centro da Cultura Judaica de São Paulo, edição set/out/nov. de 2008, e aqui reproduzido em homenagem à singularidade inspiradora de uma assistente social que fez de sua profissão um ato de fé.





A Mãe do Gueto de Varsóvia – Irena Sendler

O que leva uma pessoa a pôr em risco sua própria vida para salvar outras? Mesmo quando não tem com elas vínculos nem partilha de sua identidade, ideologia ou religião? Estas são as perguntas que teimam na minha mente após saber dos feitos de Irena Sendler.

A conheci quando já não era possível conhecê-la. Em 13 de maio de 2008 foi publicada uma breve nota de 11 linhas em O Estado de São Paulo: “Morreu ontem em Varsóvia, aos 98 anos, Irena Sendler, que salvou milhares de crianças judias durante a ocupação nazista da Polônia. Entre 1940 e 1943 Irena, que era assistente social, tirou 2500 crianças do Gueto de Varsóvia. Ela chegou a ser presa e torturada pela Gestapo em 1943, mas nunca revelou os nomes das crianças que salvou”.

No mesmo dia iniciei uma busca desesperada na internet, com o sentimento de haver perdido algo de muito precioso e singular. Perguntei a meus colegas e alunos se sabiam dela, se tinham livros ou documentos, relatos de testemunhas, crônicas de jornal. Ninguém lera, ninguém ouvira a seu respeito. Mas como, em um mundo que corre atrás de celebridades, que sabe o número do sapato desta ou daquela atriz, que esmiúça a intimidade de futebolistas, políticos, empresários, que sabe onde e com quem janta uma top model – como pode ter passado despercebida a trajetória de uma mulher que, nas palavras do rabino Michael Schudrich, “não somente salvou as crianças judias, mas também salvou a alma da Europa”?

Em 1965 Irena Sendler foi agraciada com a medalha “Justos entre as Nações do Mundo”, outorgada pelo Instituto Yod Vashem a não judeus que salvaram e protegeram judeus durante as atrocidades nazistas da II Guerra Mundial. Essa honraria ela não pode receber porque os líderes comunistas que governavam a Polônia de então proibiram sua saída do país. Recém em 1983, quando reiterada a distinção pela Suprema Corte de Israel, é que foi ao encontro das homenagens oferecidas em Jerusalém na Autarquia Nacional para Recordação dos Mártires e Heróis do Holocausto.

Contudo, sua vida e inusitada coragem emergiram do silêncio em setembro de 1999 pela curiosidade e criatividade de quatro jovens americanas que, instigadas pelo Prof. Norm Conard, começaram a pesquisar sua história. Na região rural do Kansas, na escola secundária protestante de Uniontown, o Prof. Conrad propôs a seus alunos que para celebrar o Dia Nacional da História criassem um projeto original, que fosse além das fronteiras e das personagens conhecidas, dos fatos já explorados. Apenas como sugestão mostrou um recorte do jornal News and World Report, cujo título era “Outros Schindlers”, e que mencionava Irena Sendler. Entre os alunos, quatro estudantes prontificaram-se a realizar a pesquisa, mas nunca imaginaram que esta as levaria a encontrar a própria Irena, viva, com 90 anos, morando ainda na Polônia. Estabeleceram contato, enviaram e recebera m cartas, fotos, informações, documentos. Acabaram por escrever uma peça de teatro intitulada A Vida num Pote de Vidro, que apresentaram na própria escola em fevereiro de 2000. A comunidade toda envolveu-se no sucesso e logo chegaram convites de igrejas, sinagogas, centros culturais. A peça atravessou o país, alcançou o Canadá, a Europa e, finalmente, a própria Polônia. Já foi encenada mais de 300 vezes e hoje está disponível em DVD.

Para termos uma dimensão do valor desse resgate, e do impacto que provocaram as experiências vividas por Irena Sendler, basta dizer que até 2001, quando aconteceu o primeiro encontro das alunas da Uniontown com sua heroína na Polônia, havia apenas uma página sobre ela na internet, quando hoje podemos encontrar mais de 90.000 citações. Elas revelam a abnegação e destemor de uma jovem polonesa, cristã, que sobrepujou as ameaças ao seu instinto de sobrevivência e nos legou a mais alta realização de um ser humano: o amor incondicional.

Irena nasceu em 15 de fevereiro de 1910 nos subúrbios de Varsóvia, onde seu pai, na condição de médico, clinicava e atendia comunidades carentes. Dele aprendeu o sentido da solidariedade e o senso de responsabilidade profissional: quando a epidemia de tifo irrompeu em 1917 ele foi o único médico a permanecer na área infectada, o que o levou ao contágio e conseqüente morte.

Na década de 30 Irena ingressou na Universidade de Varsóvia, formou-se em Assistência Social e tomou contato com sentimentos e atitudes anti-semitas por parte dos estudantes, com quem manteve franca oposição. Já diplomada, ingressou no Departamento de Bem Estar Social, atendendo os refeitórios populares que acolhiam órfãos, anciãos e os pobres. Sua vocação ultrapassou a vocação de servidora pública – providenciava roupas, medicamentos e dinheiro para os necessitados, e os distribuía entre católicos e judeus indistintamente.

Em 1939 as tropas nazistas invadiram a Polônia e em outubro de 1940 criou-se em Varsóvia o “bairro judeu”, onde foram confinados todos os judeus da cidade. Em pouco mais de duas semanas a população dessa área passou de 160.000 pessoas para 400.000. Em 15 de novembro desse mesmo ano o governador alemão de Varsóvia, Hans Frank, criou oficialmente o gueto, que foi logo murado tornando-se o palco de crueldades inomináveis, sistemáticas e consecutivas visando um único propósito: o extermínio dos judeus. Também foi palco das ações heróicas de Irena, cuja indignação encarnou o voto de resistir à barbárie sabotando uma e outra vez – 2500 vezes! – o plano da “solução final”.

Como assistente social dos serviços públicos ela tinha autorização para entrar no gueto com um passe especial, o que lhe permitia livre trânsito, conhecimento da situação e, sobretudo, contrabandear comida, medicamentos e roupas. O racionamento de alimentos chegou a limites insuportáveis e as pessoas começaram a morrer de fome. No arquivo elaborado pelo historiador Emmanuel Ringelblum, resgatado depois da guerra entre as ruínas do gueto, lê-se: “Viver sem pão, sem nenhuma colher de comida quente durante anos atua como choque sobre a psique humana. Muitos, esgotadíssimos, foram acometidos de total apatia. Permaneciam deitados até que perdessem a força de se levantar. (...) Entre esses havia famílias inteiras com dez a doze pessoas. Permaneciam estendidos, imóveis, os rostos pálidos, olhares ardentes, engolindo sal iva. Para eles tudo se tornava indiferente. Queriam apenas uma coisa, sentiam apenas um desejo: o de conseguirem um pedacinho de pão”.

Irena percebeu que seus esforços para mitigar o sofrimento só conseguiam prolongá-lo. Decidiu então iniciar a retirada de crianças de dentro do gueto – ao menos elas precisavam ter uma chance.

Extra-muros trabalhava a resistência do Zegota, uma organização clandestina, na qual assumiu a coordenação da Divisão das Crianças, cuja missão era, primeiramente, encontrar instituições de amparo, conventos e casas de família dispostos a correr o risco de abrigar as crianças que fossem resgatadas e, depois, obter documentos falsos para elas.

Antes, porém, era necessário convencer as mães, pais ou parentes que entregassem seus filhos a uma desconhecida. Muitos perguntavam, em desespero, por que deviam confiar nela. “Vocês não têm de confiar em mim”, respondia. “Mas não há mais o que fazer”. As informações em Varsóvia, fora e dentro do gueto, corriam à solta. No segundo semestre de 1941 já estavam em operação as deportações e traslados de milhares de judeus em vagões de gado, que levavam às câmaras de gás em Treblinka, aos fuzilamentos em massa, aos cemitérios a céu aberto repletos de moribundos... O abominável não deixava alternativa!

Planejamento coordenado, método e capacidade de descobrir vantagens nos recursos mais improváveis foram as vias que Irena encontrou para a escalada de resgates usando: 1) Túneis subterrâneos que levavam para fora, onde guardas poloneses haviam sido subornados para que “fechassem os olhos”. Pedia-se aos pais que vestissem as crianças com suas melhores roupas. 2) Crianças pequenas eram sedadas e levadas em malas, caixões de defunto, caixotes de ferramentas, baús ou similares. 3) Devido às freqüentes epidemias, e ao medo que os alemães tinham de se aproximar dos doentes, as crianças que conseguissem fingir uma doença, ou que estivessem realmente muito doentes, podiam ser retiradas numa ambulância. 4) Os carros e ambulâncias levaram um cão treinado para latir quando o veículo estivesse parado, assim o eventual choro de uma cri ança escondida não seria percebido pelo guarda que parasse o carro na saída do gueto.

Desse modo, durante um ano e meio de articulações clandestinas, foram salvas 2.500 vidas. Em 22 de julho de 1942 teve início a expulsão em massa dos habitantes do gueto de Varsóvia para os campos de extermínio de Treblinka. Em outubro desse ano o general da SS Jürgen Stroop informou a seu superior Friedrich Krüger que um total de 310.332 judeus do gueto tinham sido “transferidos”. Sobraram apenas 65.000 habitantes, considerados indispensáveis como escravos nas fábricas e oficinas da Varsóvia ocupada.

Em 20 de outubro de 1943 as atividades de Irena Sendler foram descobertas pela Gestapo, que a levou à prisão de Pawiak, onde foi brutalmente torturada, tendo pernas e pés quebrados a pauladas – mas ela não revelou nomes, nem de seus companheiros do Zegota, nem das crianças que havia salvado. Foi sentenciada à morte. Os membros da Zegota agiram rápido: subornaram os responsáveis pela execução e no dia seguinte o nome de Irena Sendler integrava a lista dos poloneses executados. Sob a proteção de um pseudônimo, viveu escondida até o final da guerra – exatamente como as crianças que havia salvo.

Acabado o inferno, Irena desenterrou dois frascos de vidro que escondera no jardim de uma vizinha. Eles continham a lista dos verdadeiros nomes das crianças junto aos inventados nos documentos falsos. Era seu propósito que um dia as crianças pudessem retornar às suas famílias naturais e recuperar sua identidade judaica. Contudo, quase não havia sobreviventes – o heróico levante do gueto de Varsóvia consumira seus últimos habitantes. Constituído então o comitê de salvamento dos judeus sobreviventes, entregou os frascos de vidro a seu primeiro presidente, o Dr. Adolf Berman.

Em 1991 foi reconhecida como cidadã honraria do Estado de Israel; em novembro de 2003 recebeu a mais alta condecoração polonesa: a Ordem da Águia Branca e também o Prêmio Jan Karski “Pela Coragem e Coração”. Foi indicada pelo governo da Polônia, em 2007, como candidata ao Prêmio Nobel da Paz; também nesse ano o Senado da República da Polônia, em resolução especial, homenageou Irena Sendler e o Conselho de Ajuda aos Judeus. Ainda em 2007 foi condecorada com a Ordem do Sorriso – a mais importante distinção concedida por crianças de todo o mundo.

Nunca considerou a si própria, nem permitiu que a investissem na condição de heroína. Em todas as entrevistas e homenagens ressaltou que trabalhava em equipe, que sem seus companheiros de resistência não teria sido possível tamanha ousadia. Em resposta ao convite para uma reunião em sua homenagem, respondeu: “A justificação para minha vida não são honrarias, mas sim a vida de cada uma das crianças salvas pela minha ajuda e a ajuda de incríveis mensageiros secretos que não vivem mais”.

Nenhuma honraria seria capaz de enaltecê-la o suficiente, e sem dúvida não precisou de reconhecimentos para validar sua coragem e amor. Somos nós que precisamos oferecer admiração e gratidão, pois no espelho de Irena Sendler, a despeito de todos os horrores de seu tempo, fica enaltecida a nossa própria humanidade.

Lia Diskin – Co-fundadora da Associação Palas Athena, coordenadora do Comitê Paulista para a Década da Cultura de Paz – um programa da UNESCO. Recebeu da UNESCO o Diploma de Reconhecimento por sua contribuição na área de Direitos Humanos e Cultura de Paz durante as comemorações dos 60 anos da UNESCO.

Obama sobre o jornalismo

Recebi da Gabriela um presentinho numa caixa de comentários:



O discurso completo pode ser lido aqui.
Se o Sindicato dos Humoristas sabe disto, vai obrigar o Obama a pagar inscrição e quotas...

Depois de muita piadinha, Obama lembra o desafio do jornalismo:


But it's also true that your ultimate success as an industry is essential to the success of our democracy. It's what makes this thing work. You know, Thomas Jefferson once said that if he had the choice between a government without newspapers, or newspapers without a government, he would not hesitate to choose the latter.

Clearly, Thomas Jefferson never had cable news to contend with -- (laughter) -- but his central point remains: A government without newspapers, a government without a tough and vibrant media of all sorts, is not an option for the United States of America. (Applause.)

So I may not -- I may not agree with everything you write or report. I may even complain, or more likely Gibbs will complain, from time to time about how you do your jobs, but I do so with the knowledge that when you are at your best, then you help me be at my best.

You help all of us who serve at the pleasure of the American people do our jobs better by holding us accountable, by demanding honesty, by preventing us from taking shortcuts and falling into easy political games that people are so desperately weary of.

And that kind of reporting is worth preserving -- not just for your sake, but for the public's. We count on you to help us make sense of a complex world and tell the stories of our lives the way they happen, and we look for you for truth, even if it's always an approximation, even if -- (laughter.)

This is a season of renewal and reinvention. That is what government must learn to do, that's what businesses must learn to do, and that's what journalism is in the process of doing. And when I look out at this room and think about the dedicated men and women whose questions I've answered over the last few years, I know that for all the challenges this industry faces, it's not short on talent or creativity or passion or commitment.

It's not short of young people who are eager to break news or the not-so-young who still manage to ask the tough ones time and time again. These qualities alone will not solve all your problems, but they certainly prove that the problems are worth solving. And that is a good place as any to begin.

aviso já:

Hoje vou produzir mais posts que o Jugular e o Eleições 2009 juntos.
Ou que a Abrunho nestes últimos dias (sugiro que vão lá ler, a moça anda inspirada).

Está-me tudo a acontecer ao mesmo tempo, não dá para ir servindo os posts a conta-gotas, um por dia.

Peço desculpa aos amigos que se queixaram que não dão vazão.
Prometo que não acontecerá frequentemente.
(a ver vamos)

11 maio 2009

folclore da "ostalgia"

Aqui (filme em alemão)

Tenho uma certa dificuldade em lidar com as lojas onde se vendem produtos inspirados na época da RDA, e por duas razões: porque dão uma imagem ternurenta, saudosa e kitsch do período comunista, e porque implicam em si uma contradição - o design do comunismo adaptado à lógica da sociedade de consumo.

Este filme consegue ser ainda pior: imagens de uma festa de bairro onde se mistura o "dantes é que era bom" com "o Ocidente não presta". Vinte anos depois da queda do muro.

Um dia destes ainda inauguram uma praça "Erich Honecker" ou, pelo menos, "Pacto de Varsóvia". Magníficos símbolos da resistência à sofreguidão predadora do capitalismo.
(Volta, município de Santa Comba Dão, estás perdoado...)

E que ninguém se incomode a lembrar as pessoas que foram assassinadas na tentativa de fuga. Ou - apenas um detalhe - que nos quartéis da Volksarmee os rádios tinham traços a marcar as estações do "povo". Volta e meia um "inspector" aparecia de surpresa para verificar se o rádio estava sintonizado na estação certa. Se não estivesse...

Mas, para quem tem saudades, aqui está uma pequena invenção de como este ano se poderia festejar o 60º aniversário da RDA.
(Comovo-me especialmente com a parte em que levam as bombas a passear pelas avenidas.)


09 maio 2009

sinais dos tempos (2)

Ontem fomos assistir à ópera madrigal "Barca di Venetia per Padova", de que já tinha falado aqui.
Ao cravo estava sentada uma mulher jovem, toda vestida de preto, com a cabeça coberta.

Perguntei ao Joachim: "será muçulmana?"
Respondeu: "já não reconheces uma freira?!"

sinais dos tempos


"Hundreds of years ago, they said the only way a black man would be president would be if pigs flew, and look at that, one hundred days into his presidency and swine flu!"
(foto tirada daqui)

08 maio 2009

bolos de casamento

Ia eu descansadamente a caminho de uma loja de partituras várias (Cantus, na Kantstrasse, óptima), pelo meio das lojas asiáticas e ibéricas (sim: pastéis de nata, rissóis, Sumol, etc.) quando se me atravessou pelo caminho a montra de uma confeitaria.
Bolos de casamento.
Uma sorte ter a máquina fotográfica comigo.

Por exemplo:



Ou este:

Para se ver melhor:


Tão, tão, tão kitsch! Tão burguês, tão igual a toda a gente. Fantástico.

Gostei de encontrar isto numa rua normal, entre a loja de partituras musicais, as de Sumol e as de pseudo-antiguidades asiáticas.

(Mais ou menos a propósito: as cenas iniciais do filme Milk são insuportáveis. Um murro no estômago. Mas, mesmo assim, não tão mau como o que vinte anos antes acontecia na Alemanha, onde os mandavam para campos de concentração, obrigados a ostentar o símbolo que os fazia vítimas preferenciais do sadismo, e onde acabavam por morrer. Foi há sessenta anos, pouco mais. Eu vim de longe, de muito longe, o que eu andei para aqui chegar!)

07 maio 2009

um apuradíssimo sentido de oportunidade

I. Quando morava em Weimar, houve eleições legislativas antecipadas. Bem queria votar, mas não pude, porque não estava inscrita no Consulado (em Berlim, a 300 km).
Agora, que moro em Berlim, não sei em que partido votar.


II. Vivi cinco anos em Weimar. Um sossego.
Agora, que moro em Berlim, é que o Obama se decide a ir a Buchenwald.


Sim, em princípios de Junho, o Obama virá de novo à Alemanha.
Desta vez: Dresden e Buchenwald. Saberá ele no que se está a meter?

Dresden - símbolo de uma bem planeada selvajaria dos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial.
Buchenwald - o pior cenário possível para recepções populares entusiásticas.

Visitará apenas o Buchenwald que o seu avô libertou? Ou também o campo especial dos russos?
Terá uma recepção apoteótica em Weimar? (A cidade onde ainda hoje se vêem as alterações arquitectónicas e urbanísticas realizadas para melhor receber Hitler. Quer dizer: não o imagino a mostrar-se na varanda feita para o Führer - apesar de ser também a varanda do Thomas Mann.)

Desta vez, mais lhe vale aparecer de gabardine e óculos escuros, e fazer de conta que não está aí.

(E porque havia de ser mais fácil para ele do que foi para mim? Quando nos mudámos da Califórnia para Weimar, tive imensas dificuldades para me habituar a uma cidade tão densamente povoada de História.)

06 maio 2009

estórias de livros e vidas

Revolução nas estantes da Maria N. e da io: sabe-se lá o que farão eles uns com os outros? Gostarão da vizinhança, sentir-se-ão enriquecidos pela diferença?

Resisto à divagação. Deixo os meus livros como estão, e nem sequer caso os "já lidos" com os "para ler" (que ando a acumular mais ou menos desde que nasci até hoje).
Arrumação dos livros, arrumações das gentes: tribos de índios tradicionalmente inimigas metidas à força na mesma reserva, nos EUA; centros de acolhimento para pessoas que pedem asilo político à Alemanha, onde se alojam lado a lado iraquianos e iranianos.
Na organização das pessoas por ordem alfabética, a letra I tem muito que se lhe diga.
(E agora percebo porque é que os iranianos se dizem persas...)

04 maio 2009

bailado bidimensional

Não há dúvida: aqueles antigos eram muito modernos - por exemplo, os que em 1923 fizeram um bailado só com figuras geométricas bidimensionais.
Vi-o este fim-de-semana, na exposição sobre o início da Bauhaus, em Weimar. Fascinante.
Podem saborear uma pequena parte do bailado neste site (carreguem em "video" e começa a correr "Das mechanische Balett").
É com figurinos de Kurt Schmidt, mas música composta mais recentemente.

Também tem uma outra peça, "Die mechanische Exzentrik ", que tenta recuperar um projecto de László Moholy-Nagy.

Que é como quem diz: em Weimar está uma exposição muito interessante sobre os primeiros anos da Bauhaus. Dividida entre cinco museus, mais a visita obrigatória ao edifício onde tudo começou, o que significa que se passeia por Weimar e pelas ruas pejadas de História e histórias, muitas histórias, e mais uma vez se é apanhado pela surpresa do paradoxo entre os tantos movimentos de vanguarda e o meio provinciano em que ocorreram.

(Escusado será dizer que é só para quem fala alemão. Em Julho a exposição virá para Berlim, mas será bastante diferente: incluirá também os desenvolvimentos posteriores, após a "expulsão" de Weimar. Em Berlim já haverá tradução para inglês.)