31 janeiro 2008

a quem interessar possa, e viva em Berlim

1. Para comemorar a Berlinale, a revista Tip desta quinzena está a oferecer o DVD do filme Va, Vis et Deviens. As duzentas e tal páginas do costume a anunciar a animação cultural da cidade, e mais esse belo filme, tudo por 3 euros.

2. Cultura para trogloditas: começou ontem o festival de super-curtas-metragens no metro. A gente entra na carruagem, começa a ver, e até se esquece onde é para sair e para onde ia.
Mas esta informação vai com um bónus para os não-berlinenses: podem ver todos os dias alguns filmes neste site.

O Roter Rauch, que é apresentado hoje, é engraçado - sobre fumar nos restaurantes.
(Alguns dos outros filmes também estão giros)

3. Parece que no fim de semana virá um tempo terrível. Aquela coisa que nem é chuva nem é neve e nos faz desejar entrar num cocoon e ficar lá até à Primavera.
Mas não faz mal: há em Berlim um lugar mágico (enfim, pelo menos um) para os piores dias de inverno.
Aqui, no Badeschiff.

(Porque será que me apetece mais dizer cocoon que casulo?)




***

Adenda: Por lapso, escrevi "berlinses". Corrigi para berlinenses. Mas, pensando bem, não devia ser berlimenses?...
O melhor é dizer Berliner, e todos percebem: bolas de Berlim!
Esta adenda está a descambar a olhos vistos. Calateboca-ijá.

30 janeiro 2008

post que começa fútil e depois melhora

Queria aproveitar os saldos para comprar umas calças, mas na fase em que o meu corpo actualmente se encontra, a tentar desinvestir da doçaria de Natal, é asneira. Arrisco-me a que, daqui a duas semanas (sim, sou uma optimista), pareça que herdei as calças do meu irmão mais velho.

Os saldos de Verão também vêm sempre no momento errado, justamente quando ando a investir na culinária da saudade.

De onde se prova que o capitalismo dá com uma mão e tira com a outra.

***

E, por falar em capitalismo, na semana passada ouvi esta definição muito engraçada, dada por uma miúda de 10 anos: "economia planificada é comprar as coisas quando elas estão a ser oferecidas na loja, e não quando precisamos delas".

De onde se prova que os saldos, o Lidl, o Aldi e o Tchibo estão na mão dos comunistas. Quem diria.

Foi no Museu Alemão de História, numa visita guiada para crianças, que começava no presente e ia avançando em marcha atrás para o passado. Via-se a queda do muro e perguntava-se quem o construiu e porquê, e assim fomos avançando até à República de Weimar. Um dos momentos mais interessantes da visita foi um cartaz dos anos 30 que mostrava "o Judeu" com a União Soviética no bolso. Então a figura que encarna o pior do capitalismo está feita com o seu inimigo visceral, o comunismo?! Mais uns anitos para trás, e percebe-se porquê: durante a campanha eleitoral, o partido nazi afirmava em cartaz que a SPD era o anjo da guarda dos judeus.
No reino da ideologia tudo é possível.

25 janeiro 2008

aula prática sobre Democracia

Na primeira página do jornal Die Zeit desta semana vem um artigo muito interessante sobre o exercício da Política e os riscos para a Democracia, a propósito das eleições em Hessen. 
O artigo pode ser encontrado aqui (em alemão). 

Por me parecer tão interessante, vou fazer uma tradução (aviso já: rápida, e com cortes - que isto é um blogue, não é um emprego, e uma tradução a sério exige muito mais tempo) 


Envenenado 

Roland Koch é um ministro-presidente competente. Mas não pode ganhar estas eleições. 

Autor: Bernd Ulrich 

Roland Koch é um dos políticos mais fortes da Alemanha. Tem talento retórico e competência. Nos últimos oito anos não governou Hessen tão bem como se poderia esperar, mas ficou muito longe de ter governado de tal modo mal que um balanço político justificasse a sua não reeleição. (...) Koch faz parte de uma espécie em vias de extinção de políticos conservadores capazes de reintegrar no espectro democrático eleitores inseguros e com tendência para o extremismo. Contudo, seria uma catástrofe para a cultura política na Alemanha se Koch ganhasse as eleições em Hessen no próximo domingo. 

Isto tem menos a ver com os quatro últimos anos de governo CDU do que com as últimas quatro semanas da campanha eleitoral deste partido. Embora não se deva aqui simplificar demasiado. O populismo não é algo bonito de ver, mas faz parte da política, tal como as faltas fazem parte do futebol. E, para sermos sinceros, quem quer ver desporto sem dureza, devia optar por ver beach volleyball. Mesmo o facto de Koch ter usado um ataque brutal de dois jovens a um reformado como tema na sua campanha eleitoral não deve ser usado como argumento contra ele. Ele só vincou aquilo que outros tentavam desvalorizar. Com a sua exigência de abrir as prisões a crianças com menos de 14 anos foi demasiado longe, não há dúvida. E no entanto, poder-se-ia menosprezar esta última volta no parafuso da campanha eleitoral de Koch, classificando-a com uma falha motivada pelo calor do debate. 

Koch começou a atingir o limite do suportável quando colocou a origem estrangeira dos jovens no centro do debate. E conseguiu mesmo superar-se nesse erro, quando deu ao final da sua campanha um tom de fundo demagógico e de uma generalidade xenófoba que se deveria alojar no subconsciente dos eleitores. Pode ver-se isso nesta formulação: ele não se deixa calar por "representantes dos turcos". Estes "representantes dos turcos" são na sua maior parte cidadãos alemães. Ou seja: a sua crítica não se refere, como a formulação poderia dar a entender, a uma ingerência externa, mas a um debate interno da sociedade alemã, para mais perfeitamente legítimo. 

O seu objectivo de apelar a instintos xenófobos veio à luz do dia sem disfarces quando iniciou um - pretensamente - novo tema da campanha: o alegado risco de uma coligação vermelho-vermelho-verde (comunistas, social-democratas, verdes) em Hessen. O novo cartaz da CDU grita: "Impedir o bloco de esquerda! Travar Ypsilanti, Al-Wazir e os comunistas!" 
Comunistas, já conhecemos. Também já tivemos oportunidade de saber quem é a Frau Ypsilanti. Mas - e até em Hessen se perguntará - quem é esse Al-Wazir? 

Bem, o nome próprio do homem é Tarek, é o candidato dos Verdes para Hessen, e se se chamasse Müller, Meier ou Koch, no cartaz estaria escrito: "Travar SPD, Verdes e Comunistas!". Como o candidato dos verdes, filho de um iemenita, tem um nome que soa estrangeiro, foi o seu nome e não o do seu partido que apareceu no cartaz. A mensagem não tão subliminar do cartaz da CDU-Koch é esta: "Ypsilanti, Al-Wazir e os comunistas - se isto não é uma perigosa invasão de elementos estrangeiros na Land alemã de Hessen...". Combina-se xenofobia com difamação do opositor político. O que é, digamo-lo sem rodeios: uma obscenidade. 


Para Koch, não se trata da criminalidade juvenil ou das alianças de esquerdas. Agora trata-se sobretudo de marcar a fronteira entre "eles lá" e "nós aqui". Em suma, trata-se de hostilidade. 

O que é surpreendente é que um político CDU da era pós-Kohl seja portador de um arquétipo de inimigo tão marcado, segundo o lema: se o meu lado, o bom, está na defensiva, todos os meios são válidos - seja donativos anónimos, seja difamações insidiosas" [n.t. para quem sabe alemão: hinterfotzig! Eles escreveram hinterfotzig na primeira página do Die Zeit!!! hihihi] 

Uma Democracia saudável é capaz de suportar um pensamento em categorias de amigos e inimigos, pelo menos enquanto este não se tornar muito poderoso. E tornar-se-á poderoso se tiver sucesso. Se esta campanha de Roland Koch se revelar bem-sucedida nas eleições do próximo domingo, ele pode tornar-se um modelo para muitos outros políticos. E aí, vai ser evidente que a nossa Democracia afinal não é tão estável como pensávamos. No fundo, todos os partidos estão profundamente inseguros em relação aos seus eleitores, e os eleitores em relação aos partidos. 

A desconfiança mútua domina, e a ênfase democrática dos cidadãos está a regredir. Nesta fase, corre-se o risco de que os políticos com maior êxito sejam aqueles que, especialmente dirigidos a um eleitorado da classe média inseguro do ponto de vista económico e social, ofereçam um novo radicalismo, ofereçam a possibilidade de rebentar peias civilizacionais para poder de novo gritar em vez de argumentar, forneçam inimigos cujo combate possa dar a esse eleitorado um sentimento de segurança ideológica. 

Quem pensa que nas nossas latitudes a Democracia não corre perigo, quem afirma que as classes médias desta área saberão manter a contenance, olhe com mais cuidado para o que se passa na Europa. O que está a acontecer na Itália, na França, na Suíça, na Bélgica, na Dinamarca? Muitos estão já na senda para uma para- ou pós-democracia. Dois caminhos conduzem a isso: perder as inibições, forçar o pensamento em categorias de amigo e inimigo. A Alemanha ainda não chegou aí. Ainda não.

23 janeiro 2008

sabedoria versus esperteza

Parece que o Papa foi convidado para ir falar sobre a pena de morte (e o director esperava protestos da China e dos EUA, mas não da sua própria Universidade), parece que o Papa queria falar sobre a Verdade (e quem, como eu, nem sabe o que é a matriz epistemológica, quanto mais a Verdade, não se mete por essas discussões), parece que foram ao baú buscar um trabalho do Ratzinger para contestar a sua visita (e nem me dou ao trabalho de o ler, porque nunca consigo entender se este homem está a afirmar uma coisa ou o seu contrário), parece que deu uma febre em alguns estudantes que lhes abalou consideravelmente os neurónios.

Parece que foi assim.

Poderia ter sido assim: a visita do Papa a uma Universidade poderia ter sido uma óptima oportunidade para discussão. Quer na forma de diálogo com a Igreja (por exemplo, uma publicação dedicada ao tema Ciência e Religião, com contribuições da Universidade e do Vaticano, debates, etc.) quer na forma de confrontação (uma publicação que até se podia chamar, já que estamos todos muito originais, "Se questo è un dialogo", confrontando o Papa com as afirmações que tem feito sobre a Ciência - e se lhes faltasse pedalada, fossem pedir ajuda ao Vasco Barreto).

Lamentavelmente, perdeu-se esta oportunidade. Em vez disso, a futura elite do país resolveu contestar a visita do Papa, chegando a ameaçar profanar a capela da Universidade com vin santo em sinal de protesto. Isto sim, é uma retórica imbatível.

Lamentavelmente, também, o Papa (ou talvez seja mais apropriado dizer: o Ratzinger) virou o jogo a seu favor. Ganhou esta batalha, mas traiu o espírito de Jesus Cristo. Fosse eu a dona da empresa, e passava-o já de presidente para consultor.

Vejamos: não temos de pensar todos da mesma maneira, mas temos de construir maneiras de nos entendermos. Temos de criar condições para uma coexistência mutuamente interpeladora, mas pacífica e plena de respeito.
Exige-se da Universidade e da Igreja que sejam actores pioneiros da construção deste diálogo.

***

Há uma semana, o jornal Süddeutsche Zeitung trazia um artigo sobre este assunto, de que traduzo uma parte:

O grupo dos 67 refere uma intervenção de Joseph Ratzinger ocorrida há largos anos, na qual ele terá defendido a justeza do processo contra Galileu Galilei. Os professores argumentam que essas afirmações são humilhantes para as pessoas da Ciência. Na realidade, é óbvio que este conflito não se refere ao velho caso Galileu. Na Itália moderna, os defensores do laicismo e os críticos da Igreja sentem-se cada vez mais na defensiva. Este Papa está a cumprir o seu anúncio de iniciar uma acção decidida para levar os valores cristãos, segundo a interpretação católica, à sociedade. Quer se trate da pena de morte, da moral sexual, da política de família ou da bioética - o Vaticano parece estar sempre na ofensiva. Ainda na semana passada causou sensação no país que Bento XVI tenha exortado publicamente o presidente da Câmara de Roma, Walter Veltroni, para que trave a degradação social da cidade.
Os defensores do laicismo suspeitam que por trás do habitus simpático do Papa se esconda um reaccionário. O pontífice pretende comprimir de novo Igreja e Estado num estado religioso, fazer triunfar a Fé sobre a Razão Científica. Numa sociedade livre pode discutir-se sobre isso, bem como sobre a fronteira a partir da qual a Igreja se imiscui de forma ilícita em assuntos do Estado. Contudo, esta tentativa, por parte dos professores, de impedir o discurso de Bento XVI, não aparece como um contributo para a luta de ideias mas como um sinal de insegurança.


(Autor: Stefan Ulrich)

22 janeiro 2008

algumas coisas incríveis que me acontecem neste país

1. O delegado dos pais da turma da Christina marcou uma visita guiada ao Museu Alemão de História, para acompanhar a matéria que os miúdos estão a dar agora nessa disciplina. Depois mudou a data e esqueceu-se de me avisar.
De modo que na sexta-feira passada a Christina e eu aparecemos no Museu para a visita guiada, e éramos as únicas.
No problem, disseram eles quando se aperceberam que a visita tinha sido marcada e depois cancelada. Fizeram uma visita guiada só para nós as duas. E como íamos da parte da escola, pagámos 1 euro cada uma. Com direito a visitar o resto do museu, inclusivamente a exposição "Novos Mundos", sobre a época dos descobrimentos portugueses.

2. Tenho estado a telefonar para os serviços camarários de Weimar para avisar que mudámos de casa e que vou deixar de pagar as contas standard (definidas com base nos consumos anteriores), porque não estamos a fazer esses consumos.
No problem, dizem eles, e anotam na minha ficha informatizada a nossa nova morada. Assim, simplezinho, ao telefone. Só em alguns casos me pedem para lhes enviar um fax ou uma cartinha a avisar a alteração.
O mais engraçado foi uma funcionária me ter reconhecido: "Frau Araújo, já sei, mora na rua tal e tal, não é?"
"Como é que sabe?", perguntei eu.
"É o único cliente que temos cujo nome não consigo pronunciar", respondeu ela a rir.

moral da história

Quem se quiser meter com uma raposa velha como o Ratzinger, comece por contar as galinhas e verificar a segurança da capoeira.

21 janeiro 2008

nem humildade nem auto-afirmação

Não sei se já contei outra descoberta boa de Berlim: gosto da minha paróquia.
St. Ludwig, com franciscanos.

Ontem, por exemplo, a partir das leituras (estão no fim deste post), o padre questionava-nos sobre o valor da humildade e da auto-afirmação:
- Alguém acredita que consegue chegar longe (de um modo geral na nossa sociedade, e em particular na carreira profissional) se for humilde? Então este mundo não pertence aos espertos, aos que se afirmam, aos que sabem fazer bom jogo de bastidores e berrar mais alto?! Um sinónimo da humildade é o insucesso, ou não?

Gosto destes padres que primeiro nos levam a escolher entre dois opostos, para depois nos lançarem numa terceira via.
A de ontem era uma proposta do Papa João XXIII, assim:


Regras de vida para a Serenidade

1. Só por hoje, cuidarei de viver este dia, sem querer resolver todos os problemas da minha vida de uma só vez.

2. Só por hoje, porei o máximo cuidado nos meus modos, sendo agradável no trato, não criticando ninguém, não tentando corrigir ou melhorar seja quem for - excepto a mim próprio.

3. Só por hoje, viverei feliz a certeza de ter sido criado para a Felicidade - não apenas no outro mundo mas também neste.

4. Só por hoje, adaptar-me-ei às circunstâncias sem pretender que as circunstâncias se adaptem aos meus desejos.

5. Só por hoje, dedicarei pelo menos dez minutos do meu tempo a uma boa leitura; tal como é necessário comer para sustentar o corpo, assim também a leitura é necessária para alimentar a vida da minha alma.

6. Só por hoje, praticarei uma boa acção sem contar a ninguém.

7. Só por hoje, farei algo de que não gosto: se me sentir ofendido, terei o cuidado de fazer com que ninguém o note.

8. Só por hoje, serei firme na minha fé - mesmo se as circunstâncias apontarem o contrário - de que a Divina Providência se ocupa de mim como se só eu existisse no mundo.

9. Só por hoje, não terei medo de nada. Em particular, não terei medo de apreciar tudo o que é belo - e não terei medo de crer na Bondade.

10. Só para hoje, farei um programa concreto. Talvez não o execute perfeitamente mas, em todo caso, vou fazê-lo. E guardar-me-ei de dois males - a pressa e a indecisão.




***

As leituras:

Sir 3,19-21.30-31
Filho, em todas as tuas obras procede com humildade e serás mais estimado do que o homem generoso. Quanto mais importante fores, mais deves humilhar-te e encontrarás graça diante do Senhor. Porque é grande o poder do Senhor e os humildes cantam a sua glória. A desgraça do soberbo não tem cura, porque a árvore da maldade criou nele raízes. O coração do sábio compreende as máximas do sábio e o ouvido atento alegra-se com a sabedoria.

Lc 14,1.7-14
Naquele tempo, Jesus entrou, a um sábado, em casa de um dos principais fariseus para tomar uma refeição. Todos O observavam.
Ao notar como os convidados escolhiam os primeiros lugares, Jesus disse-lhes esta parábola: «Quando fores convidado para um banquete nupcial, não tomes o primeiro lugar. Pode acontecer que tenha sido convidado alguém mais importante que tu; então, aquele que vos convidou a ambos, terá que te dizer: ‘Dá o lugar a este’; e ficarás depois envergonhado, se tiveres de ocupar o último lugar. Por isso, quando fores convidado, vai sentar-te no último lugar; e quando vier aquele que te convidou, dirá: ‘Amigo, sobre mais para cima’; ficarás então honrado aos olhos dos outros convidados. Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado».

17 janeiro 2008

hoje já é amanhã?

O filme "The day after tomorrow" começa com um avião apanhado num temporal, e os passageiros quase morrem de medo.

Aconteceu na terça-feira passada, num avião de Toulouse para Paris: o avião aos saltos descontrolados no ar, os passageiros a morrer de medo, metade das pessoas a vomitar descontroladamente, várias pocinhas de vómito pelo chão, prenúncios (muito malcheirosos) do fim do mundo pelas cadeiras e pelas paredes do avião.

O boletim meteorológico avisava a continuação do temporal para o dia seguinte, quando o Joachim tinha de voar de Paris para Berlim.
Passei o dia de ontem a pesar a diferença entre pânico e prudência, e se lhe devia telefonar a sugerir que viesse de comboio. Se lhe salvava a vida ou o cobria de ridículo...

Será que já só falta um dia para o "after tomorrow"?
Ou continuamos a acreditar que isso é só com os outros e a nós não vai acontecer nada?

***

Falámos recentemente com um engenheiro holandês especialista em túneis submarinos, que nos contou que as margens de segurança da engenharia têm de ser aumentadas radicalmente, porque as construções estão sujeitas a elementos cada vez mais agressivos. Se caíram elementos das fachadas dos edifícios quando o furacão Cyrill passou pela Europa central, isso não se deveu a mau cálculo dos engenheiros, ou a poupanças nos materiais, mas a uma desadequação das margens tradicionalmente utilizadas nos cálculos à nova realidade das alterações climáticas.
Perguntei-lhe se não temem pela Holanda, e ele disse que não. Vão construir diques mais altos - muito menos bonitos, mas paciência.
Agora começo a perceber melhor como é que se fazem as contas do custo do aquecimento climático: reforçar todas as fachadas e pontes, aumentar o volume dos diques. Por exemplo.
Volta, Keynes, até vais babar de entusiasmo.

14 janeiro 2008

ovelhas tresmalhadas

Pergunta a MC: sou uma das 99 ou sou a outra?

Mas quem se terá lembrado de fazer esta conta de noventa e nove mais um?!...
Pois se somos todos tão fifty-fifty!

(Consola-me saber que esse matemático não respeitava as matrizes, e desprezava os meritíssimos membros do clube 99, guardando tanta da sua ternura para os de fora do sistema.)

Também a mim perguntam, rindo das minhas incoerências: "E ao domingo, vais à missa!?"
Vou, vou. Mas não vou à missa de qualquer um, e muito menos daqueles que me querem dentro do redil, presa segura da má-consciência.

Ovelhas perdidas?
Abençoado o pastor que perde as ovelhas e as reencontra todos os domingos na igreja, ávidas de caminhos.
Sábio o pastor que não deixa que o medo tolde o mistério, e não escreve nos mapas "daqui prá frente há monstros".

Pobres, abençoadas ovelhas somos nós: a cada um de nós é pedido que seja a outra ovelha, a que anda pelo seu próprio pé e faz o caminho ao andar, que erra e recomeça, guiada menos pelos mapas e pelos pastores que pela sua própria sede de um sentido.

estamos cercados!

...mais uma teoria de conspiração:

08 janeiro 2008

este é o primeiro ano do resto da minha vida

A gente sabe tudo isto, mas vai-se esquecendo.

Neste primeiro ano do nosso futuro, é sempre bom lembrar pequenos gestos e opções de consumo para um mundo melhor:





















(Obrigada ao Ruben, que a partir da sua belíssima ilha me ensina tanto sobre os pequenos gestos que mudam o mundo.)

06 janeiro 2008

as perigosas ruas de Berlim

Como se já não bastassem os passeios armadilhados com resíduos biológicos...

Ontem, enquanto estávamos no museu Brücke (encontrei lá algumas Playmates do Quase em Português, hehehe), choveu no chão gelado de Berlim.
Ainda conseguimos voltar para casa, mas, quando saímos para ir fazer as compras do fim de semana, pensei que teria de regressar de gatas, puxando os sacos atrás de mim.
(na próxima encarnação acho que vou ser um husky)

Vimos um homem a sair pelo passeio aos saltinhos, e ficamos a olhar para ele para ver quando caía. Não caiu (provavelmente era marciano) e ainda olhou para trás, para nós, com um ar trocista.

À vinda do supermercado, descobrimos que as ruas não estavam escorregadias. Entre ser atropelados por um carro e partir uma perna no passeio, optámos pelos carros. Sempre se tem a possibilidade de eles travarem a tempo.

Enquanto avançávamos despreocudamente pela rua, vimos um homem a avançar despreocupadamente para o passeio, gritámos "cuidado!", mas já era tarde.

E não foi só na minha rua: o Frederico o Grande quase ia levando um safanão que o mandava abaixo do pedestal. Parece que nem todos os carros conseguiram travar a tempo.

Se não estivesse tanto frio, ia para a varanda. Gostava de ver os cães a chegar ao pé da "sanita", preparar-se para levantar a pata, e começar a patinar pelo passeio fora...
(que maldade! pelos vistos, andei no Natal e não aprendi nada)

02 janeiro 2008

episódios do tempo

No dia 24 de Dezembro uma rádio berlinense estava a oferecer bilhetes de cinema.
As pessoas telefonavam, diziam meia dúzia de patacoadas, recebiam os bilhetes.
Ouvi um desses telefonemas:

- E o que tenciona fazer na "Noite Santa"? (o nome alemão para noite de consoada é, literalmente, noite santa)
- O meu filho, que já não mora connosco, vem jantar cá a casa.
- E depois?
- Depois era boa ideia irmos os três ao cinema.


Inventem-se novas palavras, que "noite santa" não combina com cinema.
Diga-se então: que tenciona fazer nesta véspera de feriado?
Ou: como gostaria de festejar o solstício de inverno?

***

No dia 24 já não encontrei lojas abertas às 14:00.
Tal como no dia 31.
Acho bem: o pessoal do comércio também tem família.

***

Para a nossa "Noite Santa" fiz uma aletria, e com as claras que sobraram tentei fazer um pudim molotov. A receita dizia para o deixar assar no forno 10 ou 12 minutos no máximo, mas eu lembrava-me de uma outra onde diziam para o deixar ficar 50 minutos. Optei por tirar a média das duas receitas.

Ora bem: eu bem digo que é preciso estar muito atento às palavras que escolhemos.
Chamei-lhe pudim de marshmallow, e tudo acabou em bem.

***

O Joachim convidou um colaborador dele, um médico búlgaro, para passar a noite de consoada connosco. Coitadinho, teve de fazer de conta que adorou o marshmallow de caramelo.
Ficámos a saber imensas coisas sobre as tradições na igreja ortodoxa. Por exemplo: passam quase metade do ano em abstinência.

(E agora fala a economista: como é possível conciliar um sistema de produção com estas variações de consumo?! Agora percebo porque é que o sistema comunista tentou acabar com a religião - não dava para conciliar os planos quinquenais com os frangos de aviário a apodrecer nas lojas por se estar de novo numa época de abstinência.)

Depois ofereceu-nos um belo ícone, muito bem feito, e pediu desculpa por não ser da mesma religião.
Desculpe, como disse?
Como é que havemos de chegar ao ecumenismo se os outros não querem?!

***

Fomos à Missa do Galo. Não havia coro, nem nada bombástico, mas a igreja estava cheia. Cheia. O que se chama cheia.
Disseram-me depois que, para conseguir lugar sentado, é preciso ir com mais de hora e meia de antecedência, e levar um livro para ir lendo enquanto se espera.
Também me disseram que muitas dos presentes não eram católicos: protestantes, agnósticos e até muçulmanos - pessoas que vão àquela igreja em busca de um espírito de Natal mais puro.

No momento da Paz, o nosso médico búlgaro virou-se para nós e disse "merry Christmas!"
Mas eu não me posso rir, porque se fosse a uma celebração ortodoxa faria com certeza muitos mais faux pas.
No fim da missa, ele comentou que, comparado com as ortodoxas, tinha sido uma cerimónia muito falha de rituais e símbolos. Que o Deus dos cristãos o mantenha longe das celebrações evangélicas, porque aí é que o ecumenismo vai de vez.

***

A Christina contou-nos com um leve tom de inveja que uma amiga dela recebeu um telemóvel de 400 euros. Quase me ia dando uma ataque de histeria.
Quatrocentos euros! Assim, no bolso do casaco, para levar para a escola.
Estamos quase a criar uma nova regra para a família: os miúdos podem pedir tudo o que querem, mas têm de trabalhar para participar com uma percentagem do preço de compra. E não podem usar dinheiro recebido dos avós ou dos padrinhos, tem mesmo de lhes sair do corpo, para eles aprenderem o que a vida custa.

Isto dá um tema para outro post, cujo mote é assim: andamos a criar uma geração de desnaturados, e a culpa é nossa.
(estou a falar dos alemães, claro, claro, que os portugueses são muito diferentes...)

***

No dia 31 fomos para o maior reveillon do mundo: mais de um milhão de pessoas numa longa avenida de Berlim.
Não contem a ninguém que eu disse isto, senão ainda me tiram a autorização de residência, mas é assim: não vale a pena. Gente a mais, confusão a mais, e as árvores não deixam ver o fogo de artifício. Se puderem escolher, vão antes para Copacabana.

***

E depois, no primeiro dia do ano, nevou em Berlim.