25 janeiro 2008

aula prática sobre Democracia

Na primeira página do jornal Die Zeit desta semana vem um artigo muito interessante sobre o exercício da Política e os riscos para a Democracia, a propósito das eleições em Hessen.
O artigo pode ser encontrado aqui (em alemão).

Por me parecer tão interessante, vou fazer uma tradução (aviso já: rápida, e com cortes - que isto é um blogue, não é um emprego, e uma tradução a sério exige muito mais tempo)


Envenenado

Roland Koch é um ministro-presidente competente.
Mas não pode ganhar estas eleições.


Autor: Bernd Ulrich



Roland Koch é um dos políticos mais fortes da Alemanha. Tem talento retórico e competência. Nos últimos oito anos não governou Hessen tão bem como se poderia esperar, mas ficou muito longe de ter governado de tal modo mal que um balanço político justificasse a sua não reeleição. (...) Koch faz parte de uma espécie em vias de extinção de políticos conservadores capazes de reintegrar no espectro democrático eleitores inseguros e com tendência para o extremismo. Contudo, seria uma catástrofe para a cultura política na Alemanha se Koch ganhasse as eleições em Hessen no próximo domingo.

Isto tem menos a ver com os quatro últimos anos de governo CDU do que com as últimas quatro semanas da campanha eleitoral deste partido. Embora não se deva aqui simplificar demasiado. O populismo não é algo bonito de ver, mas faz parte da política, tal como as faltas fazem parte do futebol. E, para sermos sinceros, quem quer ver desporto sem dureza, devia optar por ver beach volleyball. Mesmo o facto de Koch ter usado um ataque brutal de dois jovens a um reformado como tema na sua campanha eleitoral não deve ser usado como argumento contra ele. Ele só vincou aquilo que outros tentavam desvalorizar. Com a sua exigência de abrir as prisões a crianças com menos de 14 anos foi demasiado longe, não há dúvida. E no entanto, poder-se-ia menosprezar esta última volta no parafuso da campanha eleitoral de Koch, classificando-a com uma falha motivada pelo calor do debate.


Koch começou a atingir o limite do suportável quando colocou a origem estrangeira dos jovens no centro do debate. E conseguiu mesmo superar-se nesse erro, quando deu ao final da sua campanha um tom de fundo demagógico e de uma generalidade xenófoba que se deveria alojar no subconsciente dos eleitores. Pode ver-se isso nesta formulação: ele não se deixa calar por "representantes dos turcos". Estes "representantes dos turcos" são na sua maior parte cidadãos alemães. Ou seja: a sua crítica não se refere, como a formulação poderia dar a entender, a uma ingerência externa, mas a um debate interno da sociedade alemã, para mais perfeitamente legítimo.

O seu objectivo de apelar a instintos xenófobos veio à luz do dia sem disfarces quando iniciou um - pretensamente - novo tema da campanha: o alegado risco de uma coligação vermelho-vermelho-verde (comunistas, social-democratas, verdes) em Hessen. O novo cartaz da CDU grita: "Impedir o bloco de esquerda! Travar Ypsilanti, Al-Wazir e os comunistas!"
Comunistas, já conhecemos. Também já tivemos oportunidade de saber quem é a Frau Ypsilanti. Mas - e até em Hessen se perguntará - quem é esse Al-Wazir?

Bem, o nome próprio do homem é Tarek, é o candidato dos Verdes para Hessen, e se se chamasse Müller, Meier ou Koch, no cartaz estaria escrito: "Travar SPD, Verdes e Comunistas!". Como o candidato dos verdes, filho de um iemenita, tem um nome que soa estrangeiro, foi o seu nome e não o do seu partido que apareceu no cartaz. A mensagem não tão subliminar do cartaz da CDU-Koch é esta: "Ypsilanti, Al-Wazir e os comunistas - se isto não é uma perigosa invasão de elementos estrangeiros na Land alemã de Hessen...". Combina-se xenofobia com difamação do opositor político. O que é, digamo-lo sem rodeios: uma obscenidade.


Para Koch, não se trata da criminalidade juvenil ou das alianças de esquerdas. Agora trata-se sobretudo de marcar a fronteira entre "eles lá" e "nós aqui". Em suma, trata-se de hostilidade.

O que é surpreendente é que um político CDU da era pós-Kohl seja portador de um protótipo de inimigo [n.t.: agradeço a quem me souber dar uma boa tradução para "Feindbild"] tão marcado, segundo o lema: se o meu lado, o bom, está na defensiva, todos os meios são válidos - seja donativos anónimos, seja difamações insidiosas" [n.t. para quem sabe alemão: hinterfotzig! Eles escreveram hinterfotzig na primeira página do Die Zeit!!! hihihi]

Uma Democracia saudável é capaz de suportar um pensamento em categorias de amigos e inimigos, pelo menos enquanto este não se tornar muito poderoso. E tornar-se-á poderoso se tiver sucesso. Se esta campanha de Roland Koch se revelar bem-sucedida nas eleições do próximo domingo, ele pode tornar-se um modelo para muitos outros políticos. E aí, vai ser evidente que a nossa Democracia afinal não é tão estável como pensávamos. No fundo, todos os partidos estão profundamente inseguros em relação aos seus eleitores, e os eleitores em relação aos partidos.

A desconfiança mútua domina, e a ênfase democrática dos cidadãos está a regredir. Nesta fase, corre-se o risco de que os políticos com maior êxito sejam aqueles que, especialmente dirigidos a um eleitorado da classe média inseguro do ponto de vista económico e social, ofereçam um novo radicalismo, ofereçam a possibilidade de rebentar peias civilizacionais para poder de novo gritar em vez de argumentar, forneçam inimigos cujo combate possa dar a esse eleitorado um sentimento de segurança ideológica.

Quem pensa que nas nossas latitudes a Democracia não corre perigo, quem afirma que as classes médias desta área saberão manter a contenance, olhe com mais cuidado para o que se passa na Europa. O que está a acontecer na Itália, na França, na Suíça, na Bélgica, na Dinamarca? Muitos estão já na senda para uma para- ou pós-democracia. Dois caminhos conduzem a isso: perder as inibições, forçar o pensamento em categorias de amigo e inimigo. A Alemanha ainda não chegou aí. Ainda não.

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