Olá, Rita
tu pensa-me bem se queres mesmo voltar para Portugal, tu vê-me lá bem se ainda podes dar o dito por não dito no senhorio e no emprego, que isto, desculpa lá que te diga, não é só sol e bom tempo e muitos feriados (ao contrário do que consta na Alemanha) (hihihi) (antes que os mirones que andam a ler estes postais me caiam em cima, ó aqui o contraditório) porque olha o que me aconteceu ontem:
Tudo começou com a io, que costuma ser uma moça precavida e conscienciosa, a convidar-me para vir a casa dela preparar um jantar para alguns amigos. Estás-me a ver isto? A io, que recebe como poucos, e eu, que também recebo como poucos, mas no outro extremo da escala. Ela estaria talvez a sofrer um momento de fragilidade e atracção do abismo, sei lá, a experimentar novas rimas como "comer mal" com "frugal", desconfio. Será caso para lhe sugerir que procure ajuda de um profissional?
Pois comecei a pensar no que faria, eu a 3000 km de distância dos meus livros de cozinha tão prestáveis nestes momentos. Fui ver o que havia no frigorífico, ah, óptimo, muito melancia e muito melão, e ala para a internet, de quem os meus livros de cozinha ultimamente têm cada vez mais ciúmes, e são todos justificados.
Fiz uma listinha simples: melão com presunto, melancia mexicana (com sumo de lima, piri-piri moído e sal grosso), salada de tomate com laranja e menta (de facto, para bem ser, é salada de menta com tomate e laranja), arroz basmati com frango à tailandesa em leite de coco. E fruta para a sobremesa, que eu ao fim de cinco semanas na culinária da saudade ando a precisar de abater algum do valor acrescentado, os outros convivas que me desculpem e tenham paciência.
Agarrei na minha lista de compras minúscula e fui para o Continente do Colombo, convencida de que ali tinha a garantia de encontrar tudo o que queria. Como me enganava. Menta? Que é lá isso? Vai de erva cidreira, e muita sorte. Gengibre, ainda vá, apesar de velhinho e mirrado. Mas folhas de lima, vai no Batalha. Troquei por erva príncipe. Faltava o molho de peixe tailandês. Três quilómetros à frente, encontrei molho de ostras. Ahem, não era bem isso... "Aaaah, molho de peixe? Já tivemos uma caixinha da Knorr", disse a empregada. Da Knorr. Eu não queria fazer bouillabaisse, queria fazer frango tailandês. Mas o molho de peixe, nada. Desisti. Plano B - que não tinha. Cirandando, cheguei à secção da peixaria, onde encontrei um salmão a rir-se para mim. E que tal peixe cru à moda do Tahiti? Ózanos que não como disso, e é tão bom: marina-se o peixe em sumo de lima, e rodelas de pepino em sal. Escoa-se o sumo de lima ao peixe e a água ao pepino, mistura-se, junta-se leite de coco, sal e pimenta, e alguma cenoura raspada para dar cor. Aimêdês, só de pensar enche-se-me a boca de água. Já na fila para ser atendida, lembrei-me de telefonar à ASAE, que me atendeu um bocado aflita, "agora não posso, diz lá", "desculpa, era só para saber se tu compravas salmão ou atum no Continente para comer cru", "aaah, cru?!!!!", "pronto, está bem, plano C". Também não tinha. Já andava por lá há mais de meia hora, arrastando o meu triste cesto com uma embalagem de erva cidreira e mainada, quando de repente me deparei com um frasco de molho teriyaki, a minha arma secreta nos dias em que não sei o que cozinhar. Atão, vá. Uns bifinhos de coiso qualquer, acompanhados por uma salada de beterrabas e pimentos grelhados. Deixa cá ver os ingredientes: beterrabas cozidas, um frasco de pimentos grelhados, cebolinhas, aneto congelado, limão biológico para lhe raspar a casca. Comecei pelo aneto congelado, mas ao fim de dez quilómetros só encontrei salsa e cebola. Então e o mangericão, o cebolinho, o "cinco ervas" para fazer aquele molho de Frankfurt? Por sorte, dois quilómetros à frente encontrei aneto fresco. Até parecia dia de Natal, juro-te! Cebolinhas também não havia, mas encontrei cebolinho e échalote, o que, em havendo criatividade e boa-vontade, dá para desenrascar.
Voltei para casa cansada e chateada. Comecei a preparar as coisas. Dei-me conta de que a melancia estava a caminho de Schnaps (sou uma esquisita). Fui a outro supermercado comprar mais melancia - e fui de carro, tu pensa bem no que vais fazer! que eu ao fim de cinco semanas já vou de carro a um supermercado que ficava mais perto que o meu berlinense aquele ali logo ao virar da esquina! - e pelo caminho comecei a ter pena dos convivas que iam ficar sem doce à sobremesa só por causa do meu valor acrescentado. De modo que procurei queijo ricotta para fazer aquele bolo corso sempre-a-aviar, um ricotta, quatro ovos, açúcar, aguardente, raspa de limão, e não encontrei. Para complicar, os limões não têm qualquer indicação sobre os produtos usados na casca.
Em suma: desde a minha primeira ida ao supermercado em San Francisco (onde fiquei horas a tentar perceber aquelas listas de ingredientes que tinham metros de comprimento, e onde ainda hoje estaria se no entretanto não tivesse descoberto o Trader Joe's) que não havia memória de uma passagem tão frustrante pelo supermercado. É bem verdade que a partir de 1989 eu comecei a evoluir numa direcção e o meu país noutra, tu pensa-me bem se queres mesmo voltar para um país que já não é como tu eras quando saíste em peregrinação e diáspora.
***
E depois do jantar fomos aos fados, um mundo que me é ainda mais estranho que este meu país de 2011, e tive a sorte de ser iniciada por dois garbosos connaisseurs, de modo que tudo está bem quando acaba bem.
PS. Se fizeres alguma receita de gaspacho de melancia tirada da internet, cuidado. À que fiz faltava alguma coisa. Talvez menta. Menta?! *suspiro* lá vamos nós outra vez...
29 julho 2011
28 julho 2011
correio das ilhas (37)
Olá, Rita
ontem andei a passear com uma amiga sob o magnífico céu estrelado da planície alentejana. Até me perguntei o que fui fazer para Chaco em 2009, se as estrelas afinal vêm ter comigo aqui mesmo.
(A malandra da galinha da vizinha, aquela galinha gorda indecente, é o que é...)
Vi várias estrelas cadentes, lindas, mas nunca a tempo de formular um pedido. É que tínhamos muito que conversar, e entre o acabar a frase, fazer oh, e pensar no que queria, já ela tinha desaparecido. Ao fim de seis ou sete, desisti de contar com elas. Vou ter de me desenrascar sozinha.
ontem andei a passear com uma amiga sob o magnífico céu estrelado da planície alentejana. Até me perguntei o que fui fazer para Chaco em 2009, se as estrelas afinal vêm ter comigo aqui mesmo.
(A malandra da galinha da vizinha, aquela galinha gorda indecente, é o que é...)
Vi várias estrelas cadentes, lindas, mas nunca a tempo de formular um pedido. É que tínhamos muito que conversar, e entre o acabar a frase, fazer oh, e pensar no que queria, já ela tinha desaparecido. Ao fim de seis ou sete, desisti de contar com elas. Vou ter de me desenrascar sozinha.
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
27 julho 2011
correio das ilhas (36)
Olá, Rita
passo os dias numa herdade perto de Évora e as noites numa perto de Estremoz.
Em Évora, não saio do tanque. Um tanque de pedra, lindo-lindo, no meio de montes de antiquíssimos sobreiros. Almoçamos à sombra de uma nespereira que cobre todo o terraço junto ao tanque. E que belos petiscos! Já pedi casamento à cozinheira, mas ela ficou de pensar. Terá talvez desconfiado que seria um casamento por interesse. E eu a sonhar, lúbrica, com as nossas noites loucas a preparar massa areada.
Em Estremoz, os meus filhos dormem nos quartos que foram em tempos uma capela. Abençoados.
A mim, deram-me um belíssimo, cheio de móveis tradicionais alentejanos azuis. É uma casa com alma, com inúmeras salas, e mais quartos e recantos, fotografias que contam histórias de outros tempos, vestígios de amigos e da própria História. E pilhas de livros por todos os lados. Pomo-nos à conversa, e toca de ir buscar um livro para ver isto, confirmar aquilo. Enquanto que a internet, essa, vem a passo de caracol cansado. Entre a minha Évora e o meu Estremoz devem andar uns cinquenta anos de diferença, pelo menos.
Depois do jantar saio para passear sob o céu estrelado. Um exagero de nítida beleza. À minha frente estende-se a planície até Portalegre, iluminada aqui e além. A minha amiga diz "um belo sítio para vir varrer as teias de aranha". E é verdade.
(Se eu fosse a eles, cobrava bilhetes para sessões de "terapia da alma" - umas cadeiritas confortáveis, silêncio absoluto, cinco euros cada hora) ("Helena Araújo - inventam-se nichos de mercado onde mais ninguém se lembraria, Lda.")
passo os dias numa herdade perto de Évora e as noites numa perto de Estremoz.
Em Évora, não saio do tanque. Um tanque de pedra, lindo-lindo, no meio de montes de antiquíssimos sobreiros. Almoçamos à sombra de uma nespereira que cobre todo o terraço junto ao tanque. E que belos petiscos! Já pedi casamento à cozinheira, mas ela ficou de pensar. Terá talvez desconfiado que seria um casamento por interesse. E eu a sonhar, lúbrica, com as nossas noites loucas a preparar massa areada.
Em Estremoz, os meus filhos dormem nos quartos que foram em tempos uma capela. Abençoados.
A mim, deram-me um belíssimo, cheio de móveis tradicionais alentejanos azuis. É uma casa com alma, com inúmeras salas, e mais quartos e recantos, fotografias que contam histórias de outros tempos, vestígios de amigos e da própria História. E pilhas de livros por todos os lados. Pomo-nos à conversa, e toca de ir buscar um livro para ver isto, confirmar aquilo. Enquanto que a internet, essa, vem a passo de caracol cansado. Entre a minha Évora e o meu Estremoz devem andar uns cinquenta anos de diferença, pelo menos.
Depois do jantar saio para passear sob o céu estrelado. Um exagero de nítida beleza. À minha frente estende-se a planície até Portalegre, iluminada aqui e além. A minha amiga diz "um belo sítio para vir varrer as teias de aranha". E é verdade.
(Se eu fosse a eles, cobrava bilhetes para sessões de "terapia da alma" - umas cadeiritas confortáveis, silêncio absoluto, cinco euros cada hora) ("Helena Araújo - inventam-se nichos de mercado onde mais ninguém se lembraria, Lda.")
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
26 julho 2011
25 julho 2011
correio das ilhas (34)
Olá, Rita
ontem desafiaram-me: se seria homem para escrever no blogue o que estava a dizer depois do terceiro copinho da festa. Beeem, não me provoquem! Era mais ou menos isto: se o Bin Laden tivesse sido enterrado, a esta hora estava com tamanha dor de cotovelo e a dar tantas voltas na tumba que ainda acordava os mortos do lado.
E mais não digo, porque as vítimas do massacre da Noruega não deixam. Excepto isto: é interessante ver os cristãos a andar nos mocassins dos muçulmanos. Sabes?, aquela coisa de "cristianismo não é isto" e "o Islão não é isto". Talvez esta tragédia horrível acabe por ter um pequeno efeito positivo no diálogo entre as culturas.
ontem desafiaram-me: se seria homem para escrever no blogue o que estava a dizer depois do terceiro copinho da festa. Beeem, não me provoquem! Era mais ou menos isto: se o Bin Laden tivesse sido enterrado, a esta hora estava com tamanha dor de cotovelo e a dar tantas voltas na tumba que ainda acordava os mortos do lado.
E mais não digo, porque as vítimas do massacre da Noruega não deixam. Excepto isto: é interessante ver os cristãos a andar nos mocassins dos muçulmanos. Sabes?, aquela coisa de "cristianismo não é isto" e "o Islão não é isto". Talvez esta tragédia horrível acabe por ter um pequeno efeito positivo no diálogo entre as culturas.
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
24 julho 2011
correio das ilhas (33)
Olá, Rita
esta semana estive nas edições tinta-da-china, e tive mais um daqueles meus momentos ovo de Colombo: como é que isto não me ocorreu antes?! é evidente que quem faz livros tão bons e tão bonitos só podia ser gente muito especial. Em menos de três gargalhadas já estavam na minha gaveta "gracias a la vida".
(Alguns dos mirones que andam a ler estes postaizitos vão agora, provavelmente, comentar: "olha aqui a Helena a dar graxa à patroa!" - coitados, não sabem nada. Nada de nada. Até dava vontade de ir lá com eles enfiar-lhes a evidência pelos olhos adentro. Aliás -- saia agora um pequeno tratado teológico à minha moda --, aquela frase "felizes os que acreditam sem ver" é um disparate. Felizes os que viram, porque quem não viu não sabe o que está a perder - por muito que acredite. E quem viu, ...vá, calateboca, que agora ia dizer coisas que até a mim pareceriam graxa!)
esta semana estive nas edições tinta-da-china, e tive mais um daqueles meus momentos ovo de Colombo: como é que isto não me ocorreu antes?! é evidente que quem faz livros tão bons e tão bonitos só podia ser gente muito especial. Em menos de três gargalhadas já estavam na minha gaveta "gracias a la vida".
(Alguns dos mirones que andam a ler estes postaizitos vão agora, provavelmente, comentar: "olha aqui a Helena a dar graxa à patroa!" - coitados, não sabem nada. Nada de nada. Até dava vontade de ir lá com eles enfiar-lhes a evidência pelos olhos adentro. Aliás -- saia agora um pequeno tratado teológico à minha moda --, aquela frase "felizes os que acreditam sem ver" é um disparate. Felizes os que viram, porque quem não viu não sabe o que está a perder - por muito que acredite. E quem viu, ...vá, calateboca, que agora ia dizer coisas que até a mim pareceriam graxa!)
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
correio das ilhas (32)
Olá, Rita
a Amy Winehouse. Uma miúda. Via-a trucidada nas capas das revistas, e tinha sempre a certeza que ela conseguiria dar a volta por cima, milhões de quilómetros por cima daquela súcia.
Sinto-me triste por ela, pelos meus filhos que a sabiam de cor, e pelo Lutz, que há três anos viu o seu concerto em Lisboa e escreveu um post inesquecível. Este, que transcrevo integalmente:
Amy em Lisboa
A rapariga não devia andar de saltos altos. Não sabe. Talvez sabe quando está sóbria, embora duvido. Há mulheres que andam de saltos altos a vida toda, sem jamais o aprender: nunca deixam de dar a noção ao observador que estão a balançar num equilíbrio precário. Aqui não é só a noção, é o caso, mesmo. Esta rapariga franzina de cabeleira enorme e com estas pernas magras não se mexe muito seguro no Palco do Mundo.
Vê-se que hoje também não se entende com o equipamento. O microfone está alto de mais, não, agora está demasiado baixo. Solta-o, quer repô-lo, mas então a maldita coisa não quer voltar a prender no pé. A guitarra - enfia com dificuldade o cinto da guitarra no ombro - porquê é que a peça faz nenhum som? Ah, não está ligada à PA. Ora, vem um rapaz e tenta pôr o cabo. Quando consegue, já é tarde. Paciência.
É verdade que também a voz não está grande coisa hoje, para isso pode-se pedir desculpa. O público entende. O que vale é que os rapazes da banda são bons profissionais, aguentam as confusões todas.
Está sempre a mexer no vestido. Parece que está desconfortável, embora o vestido está largo, até muito largo no decote para o peito que tem. Puxa a bainha da saia para cima, já pela quarta vez. Ah, está a coçar-se! Entre as pernas. Também mexe no decote, outra vez. O que é que ela tirou de lá? Algo de comer? Será que vai cantar de boca cheia? Essa mancha é chocolate? Não, uma tatuagem. Talvez não vi bem. Em todo o caso, há coisas que ainda continuam enfiados no decote, como aquele lenço preto que está meio a sair acima do peito esquerdo. Tudo isso é um pouco obsceno, um pouco indecente, mas não, não é para provocar, não é para seduzir. Não é mesmo calculado, muito pelo contrário. Por outro lado, aquilo não a parece embaraçar.
Entretanto vai-se na quarta canção. Depois um cover: A Message to You, Rudy, dos Specials. Há muito que já o não ouvi. Tem um belo groove: ideal para continuar no fundo enquanto se apresenta a banda. Amy começa pelo saxofonista, o músico mais a direita. - «ta-ta-ta-ta ta-taaa - A Message to You, Rudy» - A canção acabou. Esqueceu-se de apresentar os outros. Não faz mal.
Agora acocora-se atrás de uma coluna do palco. O que está lá a fazer? Xixi? Não, reaparece com um copo de vinho. Parece Fanta, o que há no copo. Ainda tropece mesmo, os membros da banda ajudam-na a levantar-se. No fim, pede desculpas, diz que devia ter cancelado mas que adorou ter estado aqui, apesar de ter uma «bad voice» hoje. Já o disse antes. Explica que tem de acabar já, não há mais tempo, porque começou atrasada. Soa como achasse que era bem feito assim, o castigo justo. Para ela. E para o público? Mas que adorou. E ainda vai tocar o Lenny Kravitz.
Um desastre de concerto. Curto, caótico, sem voz, sem garra. Mas o público perdoa. E eu também. Ela é destes raros artistas que mesmo no fracasso, no desleixo imperdoável aos mortais, ainda nos deixam algo que é dos deuses. Sou novo de mais para ter visto a Janis, o Jimi Hendrix, o Jim Morrison, calhou que nunca vi o Kurt Cobain. Vi a Amy Winehouse. Ela tem 24. Vamos ver se se safa. Não aposto alto. Mas nem todos que os deuses amam têm de morrer cedo. Talvez daqui a trinta anos poderá dizer o que Jimmy Page disse: «Sabia que a nossa música iria durar, mas não pensava que eu ia durar. Primeiro achei que estaria morto aos trinta, depois aos quarenta, entretanto tenho cinquenta e cinco e ainda ando por aqui.»
a Amy Winehouse. Uma miúda. Via-a trucidada nas capas das revistas, e tinha sempre a certeza que ela conseguiria dar a volta por cima, milhões de quilómetros por cima daquela súcia.
Sinto-me triste por ela, pelos meus filhos que a sabiam de cor, e pelo Lutz, que há três anos viu o seu concerto em Lisboa e escreveu um post inesquecível. Este, que transcrevo integalmente:
Amy em Lisboa
A rapariga não devia andar de saltos altos. Não sabe. Talvez sabe quando está sóbria, embora duvido. Há mulheres que andam de saltos altos a vida toda, sem jamais o aprender: nunca deixam de dar a noção ao observador que estão a balançar num equilíbrio precário. Aqui não é só a noção, é o caso, mesmo. Esta rapariga franzina de cabeleira enorme e com estas pernas magras não se mexe muito seguro no Palco do Mundo.
Vê-se que hoje também não se entende com o equipamento. O microfone está alto de mais, não, agora está demasiado baixo. Solta-o, quer repô-lo, mas então a maldita coisa não quer voltar a prender no pé. A guitarra - enfia com dificuldade o cinto da guitarra no ombro - porquê é que a peça faz nenhum som? Ah, não está ligada à PA. Ora, vem um rapaz e tenta pôr o cabo. Quando consegue, já é tarde. Paciência.
É verdade que também a voz não está grande coisa hoje, para isso pode-se pedir desculpa. O público entende. O que vale é que os rapazes da banda são bons profissionais, aguentam as confusões todas.
Está sempre a mexer no vestido. Parece que está desconfortável, embora o vestido está largo, até muito largo no decote para o peito que tem. Puxa a bainha da saia para cima, já pela quarta vez. Ah, está a coçar-se! Entre as pernas. Também mexe no decote, outra vez. O que é que ela tirou de lá? Algo de comer? Será que vai cantar de boca cheia? Essa mancha é chocolate? Não, uma tatuagem. Talvez não vi bem. Em todo o caso, há coisas que ainda continuam enfiados no decote, como aquele lenço preto que está meio a sair acima do peito esquerdo. Tudo isso é um pouco obsceno, um pouco indecente, mas não, não é para provocar, não é para seduzir. Não é mesmo calculado, muito pelo contrário. Por outro lado, aquilo não a parece embaraçar.
Entretanto vai-se na quarta canção. Depois um cover: A Message to You, Rudy, dos Specials. Há muito que já o não ouvi. Tem um belo groove: ideal para continuar no fundo enquanto se apresenta a banda. Amy começa pelo saxofonista, o músico mais a direita. - «ta-ta-ta-ta ta-taaa - A Message to You, Rudy» - A canção acabou. Esqueceu-se de apresentar os outros. Não faz mal.
Agora acocora-se atrás de uma coluna do palco. O que está lá a fazer? Xixi? Não, reaparece com um copo de vinho. Parece Fanta, o que há no copo. Ainda tropece mesmo, os membros da banda ajudam-na a levantar-se. No fim, pede desculpas, diz que devia ter cancelado mas que adorou ter estado aqui, apesar de ter uma «bad voice» hoje. Já o disse antes. Explica que tem de acabar já, não há mais tempo, porque começou atrasada. Soa como achasse que era bem feito assim, o castigo justo. Para ela. E para o público? Mas que adorou. E ainda vai tocar o Lenny Kravitz.
Um desastre de concerto. Curto, caótico, sem voz, sem garra. Mas o público perdoa. E eu também. Ela é destes raros artistas que mesmo no fracasso, no desleixo imperdoável aos mortais, ainda nos deixam algo que é dos deuses. Sou novo de mais para ter visto a Janis, o Jimi Hendrix, o Jim Morrison, calhou que nunca vi o Kurt Cobain. Vi a Amy Winehouse. Ela tem 24. Vamos ver se se safa. Não aposto alto. Mas nem todos que os deuses amam têm de morrer cedo. Talvez daqui a trinta anos poderá dizer o que Jimmy Page disse: «Sabia que a nossa música iria durar, mas não pensava que eu ia durar. Primeiro achei que estaria morto aos trinta, depois aos quarenta, entretanto tenho cinquenta e cinco e ainda ando por aqui.»
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
23 julho 2011
correio das ilhas (31)
Olá, Rita
as férias do Joachim estão a terminar. No domingo lá volta ele para a vida real. Eu sigo com os miúdos para o Alentejo (eles tem um cão em Estremoz, e outras amizades caninas em Évora, pelo que o Alentejo é-lhes sinónimo de aventuras mil, e um vê-se-te-avias de festinhas e muito amor para dar). Na quinta-feira é a vez da Christina regressar. O Matthias e eu ficamos ainda uns dias - primeiro perto de Coimbra (mais amigos! isto é cá um stress...) e depois na Casa do Padeiro, para dar uma nova oportunidade à praia e ao meu triângulo das Bermudas.
Para trás ficam três semanas à nossa maneira de férias portuguesas, com família e amigos, muitos bons encontros e boas conversas. Não é que se descanse muito, mas não é bem para isso que venho a Portugal (o Joachim tem outra opinião, e isto seria tema não para um post mas para um tratado dos casamentos interculturais, que começaria com um conselho às jovens portuguesas: "não se casem com estrangeiros!" - que seria depois traduzido para alemão, com um conselho aos jovens de lá: "não se casem com portuguesas, porque elas nas férias fazem um rally Portugal que vos deixa doidos"). Adiante.
Fizemos de novo aquele encontro anual da família e dos amigos que conhecemos desde que nascemos, os filhos dos amigos dos nossos pais. Estas festas deixam-me de coração cheio, e agradavelmente surpreendida: que estranha matéria é a destas amizades que nos predispõe a gostar dessas pessoas que passamos anos sem ver, e dos companheiros que escolheram, e dos seus filhos? Se o que nos une são momentos que, de tão antigos, já esquecemos, de onde nos vem esta confiança e esta vontade de partilhar pontes?
E agora com licencinha e adeuzinho, que temos muito que passear.
as férias do Joachim estão a terminar. No domingo lá volta ele para a vida real. Eu sigo com os miúdos para o Alentejo (eles tem um cão em Estremoz, e outras amizades caninas em Évora, pelo que o Alentejo é-lhes sinónimo de aventuras mil, e um vê-se-te-avias de festinhas e muito amor para dar). Na quinta-feira é a vez da Christina regressar. O Matthias e eu ficamos ainda uns dias - primeiro perto de Coimbra (mais amigos! isto é cá um stress...) e depois na Casa do Padeiro, para dar uma nova oportunidade à praia e ao meu triângulo das Bermudas.
Para trás ficam três semanas à nossa maneira de férias portuguesas, com família e amigos, muitos bons encontros e boas conversas. Não é que se descanse muito, mas não é bem para isso que venho a Portugal (o Joachim tem outra opinião, e isto seria tema não para um post mas para um tratado dos casamentos interculturais, que começaria com um conselho às jovens portuguesas: "não se casem com estrangeiros!" - que seria depois traduzido para alemão, com um conselho aos jovens de lá: "não se casem com portuguesas, porque elas nas férias fazem um rally Portugal que vos deixa doidos"). Adiante.
Fizemos de novo aquele encontro anual da família e dos amigos que conhecemos desde que nascemos, os filhos dos amigos dos nossos pais. Estas festas deixam-me de coração cheio, e agradavelmente surpreendida: que estranha matéria é a destas amizades que nos predispõe a gostar dessas pessoas que passamos anos sem ver, e dos companheiros que escolheram, e dos seus filhos? Se o que nos une são momentos que, de tão antigos, já esquecemos, de onde nos vem esta confiança e esta vontade de partilhar pontes?
E agora com licencinha e adeuzinho, que temos muito que passear.
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
correio das ilhas (30)
Olá, Rita
ontem tive o meu momento Marilyn Monroe: só para que saibas que o respiradouro do metro no largo do Camões funciona.
A vantagem de acontecer uma coisa destas quando se tem muito mais do que vinte anos é que uma pessoa atravessa a rua a rir tanto como os condutores parados no semáforo, porque de facto a situação é hilariante. E pronto.
ontem tive o meu momento Marilyn Monroe: só para que saibas que o respiradouro do metro no largo do Camões funciona.
A vantagem de acontecer uma coisa destas quando se tem muito mais do que vinte anos é que uma pessoa atravessa a rua a rir tanto como os condutores parados no semáforo, porque de facto a situação é hilariante. E pronto.
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
20 julho 2011
correio das ilhas (29)
Olá, Rita
o pintor já anda nas uvas quilhäo-de-galo. Talvez ainda as consiga provar maduras antes de regressar a Berlim. Aqui do fundo do quintal vejo as árvores de fruto, dezenas delas (e o que custa a poda, e a limpeza do terreno?!) mas nenhuma dá fruto quando eu cá estou. Triste vida.
E ainda há quem se atreva a insinuar que eu tenho uma costela alemä...
o pintor já anda nas uvas quilhäo-de-galo. Talvez ainda as consiga provar maduras antes de regressar a Berlim. Aqui do fundo do quintal vejo as árvores de fruto, dezenas delas (e o que custa a poda, e a limpeza do terreno?!) mas nenhuma dá fruto quando eu cá estou. Triste vida.
E ainda há quem se atreva a insinuar que eu tenho uma costela alemä...
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
correio das ilhas (28)
Olá, Rita
na segunda-feira passada estive pela primeira vez na Casa da Música, para ver o concerto da Maria Rita.
Bela voz - e esplêndida fêmea, no melhor sentido da expressão
E que dizer da voz dela quando falava, aquela sua maneira simples de comunicar, aquele registo quente e um pouco grave? Uma delícia.
(E mais isto, que é apenas um detalhe, mas impressionou-me muito: o modo como ela dançava e saltava e andava até em marcha atrás sobre aqueles sapatos de saltos vertiginosos. Uma grande artista!...)
na segunda-feira passada estive pela primeira vez na Casa da Música, para ver o concerto da Maria Rita.
Bela voz - e esplêndida fêmea, no melhor sentido da expressão
E que dizer da voz dela quando falava, aquela sua maneira simples de comunicar, aquele registo quente e um pouco grave? Uma delícia.
(E mais isto, que é apenas um detalhe, mas impressionou-me muito: o modo como ela dançava e saltava e andava até em marcha atrás sobre aqueles sapatos de saltos vertiginosos. Uma grande artista!...)
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
correio das ilhas (27)
Olá, Rita
O imperador morreu, viva o imperador?
Fritz the Emperor, o pintainho que pelos vistos faria hoje uma semana, morreu ontem. A vizinha Matilde adivinhou: que piava muito, que andava numa aflicäo... viu-o a abrir as asas, diz ela, e soube logo que ia morrer. E os outros parece que väo pelo mesmo caminho. Ai!
Em desespero de causa, o Matthias quer dar um nome novo à Frida. Que o que os mata é o nome, diz ele.
A Matilde diz que näo, que o problema é o frio. Assim pequeninos, deviam estar debaixo de uma lämpada que os mantenha quentes.
Da próxima vez, já sabemos. Em vez de comprarmos aqueles novelinhos amorosos, compramos os mais espigados, tipo adolescentes feiosos, mas resistentes.
Mais uma achega à teoria dos amores que matam: näo é muito boa ideia quando o coracäo se orienta apenas pela estética.
O imperador morreu, viva o imperador?
Fritz the Emperor, o pintainho que pelos vistos faria hoje uma semana, morreu ontem. A vizinha Matilde adivinhou: que piava muito, que andava numa aflicäo... viu-o a abrir as asas, diz ela, e soube logo que ia morrer. E os outros parece que väo pelo mesmo caminho. Ai!
Em desespero de causa, o Matthias quer dar um nome novo à Frida. Que o que os mata é o nome, diz ele.
A Matilde diz que näo, que o problema é o frio. Assim pequeninos, deviam estar debaixo de uma lämpada que os mantenha quentes.
Da próxima vez, já sabemos. Em vez de comprarmos aqueles novelinhos amorosos, compramos os mais espigados, tipo adolescentes feiosos, mas resistentes.
Mais uma achega à teoria dos amores que matam: näo é muito boa ideia quando o coracäo se orienta apenas pela estética.
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
correio das ilhas (26)
Olá, Rita
espero que o clima näo tenha a menor importancia na tua decisäo de vir para Portugal. É que os alemäes da troika, ao que parece, trouxeram o pacote completo para aproximar o nosso país do standard da Europa central. Näo é que eu entenda a lógica económica e social subjacente às medidas, e muito menos a vantagem de terem trazido para cá o veräo alemäo. Mas a verdade é que näo me lembro de um Julho assim chuvoso e ventoso. Näo me estou a queixar, claro. Se é preciso passar também por isto para endireitar o país, vamos lá! ;-)
Hoje amanheceu com sol, e por isso adeuzinho, temos de nos despachar para a praia enquanto dura. Estou a trabalhar arduamente para anular aquela mancha vermelha em V no meu decote, aquela que apanhei no primeiro dia de praia, quando adormeci ao sol com o fato de banho de bisavó alemä. E lá vou eu.
espero que o clima näo tenha a menor importancia na tua decisäo de vir para Portugal. É que os alemäes da troika, ao que parece, trouxeram o pacote completo para aproximar o nosso país do standard da Europa central. Näo é que eu entenda a lógica económica e social subjacente às medidas, e muito menos a vantagem de terem trazido para cá o veräo alemäo. Mas a verdade é que näo me lembro de um Julho assim chuvoso e ventoso. Näo me estou a queixar, claro. Se é preciso passar também por isto para endireitar o país, vamos lá! ;-)
Hoje amanheceu com sol, e por isso adeuzinho, temos de nos despachar para a praia enquanto dura. Estou a trabalhar arduamente para anular aquela mancha vermelha em V no meu decote, aquela que apanhei no primeiro dia de praia, quando adormeci ao sol com o fato de banho de bisavó alemä. E lá vou eu.
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
correio das ilhas (25)
Olá, Rita
há muitos anos, ainda antes de tu nasceres, havia uma série que se chamava "viver no campo". As cenas do telefone eram muito divertidas, porque para falar com o mundo o homem tinha de subir ao poste da linha telefónica.
Penso nisso sempre que agarro no portátil e vou para o fundo do quintal apanhar a internet da vizinha.
há muitos anos, ainda antes de tu nasceres, havia uma série que se chamava "viver no campo". As cenas do telefone eram muito divertidas, porque para falar com o mundo o homem tinha de subir ao poste da linha telefónica.
Penso nisso sempre que agarro no portátil e vou para o fundo do quintal apanhar a internet da vizinha.
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
16 julho 2011
correio das ilhas (24)
Olá, Rita
já lá vai o tempo em que eu ficava contente por comprar um polo Lacoste por 5 euros. Aliás, agora estou mais para exigir que me paguem se é para eu fazer publicidade a marcas, e quase morro de embaraço empático quando vejo pessoas brandindo enormes D&G ou LV em uivos de falsete. Por isso - e era aqui que queria chegar - só vou à área dos ciganos na feira de Barcelos para lhes ouvir a música. Belas cantorias. Depois sigo para o quarteirão dos lavradores, e naquelas mulheres de lenço na cabeça, fio de ouro ao pescoço e sulcos fundos no rosto retomo o ambiente da infância na aldeia da avó, lembro o cesto que ela arranjava para a feira de São Roque aos sábados: forrado a panos de linho feitos à mão por alguma antepassada, os ovos delicadamente pousados sobre os feijões. Outros tempos.
Na quinta-feira passada andámos também pelo corredor onde vendiam animais. Os miúdos apaixonaram-se pelos pintainhos que nem 24 horas haviam de ter. Comprámos para a vizinha Matilde (boa desculpa). Cada um podia escolher o seu, e eu escolhi também: um preto. No carro, regressando a casa, trataram de começar o processo de bonding (sobre guardanapos de papel, claro, que eles gostam de animais domésticos mas não são parvos) e baptizaram-nos. Deram àquelas coisinhas fofas e aflitas nomes pomposos como Herbert Bonaparte, Fritz the Emperor, e assim. Eu queria chamar Ovelhanegra ao meu novelinho escuro, mas eles ficaram muito chocados, e preferiram Elsa. Também pode ser: assim como assim, vai acabar arroz de cabidela. E com jeitinho podia alugá-la (-lo?) nas festas de São Bartolomeu do Mar, um euro para cada voltinha à igreja (gosto muito destas manifestações de religiosidade popular, e penso que devem ser incentivadas ou, pelo menos, protegidas. A ver se a Elsa cresce a tempo de participar activamente neste fenómeno cultural).
Os bichinhos estão agora no galinheiro da vizinha, tentando acalmar-se como podem depois das manifestações de ternura de que são vítimas a intervalos regulares. Punha aqui algumas das fotografias que a Christina fez (Herbert Bonaparte contemplando sabe-se lá o quê do alto dos joelhos dela, coisas assim) mas ela desapareceu com a máquina fotográfica e eu estou demasiado em férias para ir tratar de resolver esse assunto. A Matilde diz-me com jeitinho diplomático: "ainda os matam com mimo". Sim, literalmente. Mas eles não percebem: pode lá o amor matar? São muito novos - e espero que não apanhem com a dura realidade pela proa, que eu estou a contar com o the Emperor para uma canjinha das boas.
já lá vai o tempo em que eu ficava contente por comprar um polo Lacoste por 5 euros. Aliás, agora estou mais para exigir que me paguem se é para eu fazer publicidade a marcas, e quase morro de embaraço empático quando vejo pessoas brandindo enormes D&G ou LV em uivos de falsete. Por isso - e era aqui que queria chegar - só vou à área dos ciganos na feira de Barcelos para lhes ouvir a música. Belas cantorias. Depois sigo para o quarteirão dos lavradores, e naquelas mulheres de lenço na cabeça, fio de ouro ao pescoço e sulcos fundos no rosto retomo o ambiente da infância na aldeia da avó, lembro o cesto que ela arranjava para a feira de São Roque aos sábados: forrado a panos de linho feitos à mão por alguma antepassada, os ovos delicadamente pousados sobre os feijões. Outros tempos.
Na quinta-feira passada andámos também pelo corredor onde vendiam animais. Os miúdos apaixonaram-se pelos pintainhos que nem 24 horas haviam de ter. Comprámos para a vizinha Matilde (boa desculpa). Cada um podia escolher o seu, e eu escolhi também: um preto. No carro, regressando a casa, trataram de começar o processo de bonding (sobre guardanapos de papel, claro, que eles gostam de animais domésticos mas não são parvos) e baptizaram-nos. Deram àquelas coisinhas fofas e aflitas nomes pomposos como Herbert Bonaparte, Fritz the Emperor, e assim. Eu queria chamar Ovelhanegra ao meu novelinho escuro, mas eles ficaram muito chocados, e preferiram Elsa. Também pode ser: assim como assim, vai acabar arroz de cabidela. E com jeitinho podia alugá-la (-lo?) nas festas de São Bartolomeu do Mar, um euro para cada voltinha à igreja (gosto muito destas manifestações de religiosidade popular, e penso que devem ser incentivadas ou, pelo menos, protegidas. A ver se a Elsa cresce a tempo de participar activamente neste fenómeno cultural).
Os bichinhos estão agora no galinheiro da vizinha, tentando acalmar-se como podem depois das manifestações de ternura de que são vítimas a intervalos regulares. Punha aqui algumas das fotografias que a Christina fez (Herbert Bonaparte contemplando sabe-se lá o quê do alto dos joelhos dela, coisas assim) mas ela desapareceu com a máquina fotográfica e eu estou demasiado em férias para ir tratar de resolver esse assunto. A Matilde diz-me com jeitinho diplomático: "ainda os matam com mimo". Sim, literalmente. Mas eles não percebem: pode lá o amor matar? São muito novos - e espero que não apanhem com a dura realidade pela proa, que eu estou a contar com o the Emperor para uma canjinha das boas.
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
correio das ilhas (23)
Olá, Rita
tenho andado a ser feliz na FNAC. Ontem numa do Porto, hoje em Guimarães. Passado o choque inicial dos electrodomésticos e assim, passado o choque secundário de nenhuma ter o "meu livro" (de onde se prova que foi um best seller: esgotou que foi uma coisa espantosa...), chego à secção de CDs portugueses e brasileiros e começo a babar. Hoje a felicidade foi tanta que a minha carteira começou a ter palpitações (pobrezinha: nas férias fica com os nervos em franja). De modo que agarrei em mim pelo cachaço, e amandei-me para fora daquele antro de perdição. Bem contra a minha vontade, mas isso já se sabe que os desvios do vício são assim.
(os desvios do vício são os desvícios?)
tenho andado a ser feliz na FNAC. Ontem numa do Porto, hoje em Guimarães. Passado o choque inicial dos electrodomésticos e assim, passado o choque secundário de nenhuma ter o "meu livro" (de onde se prova que foi um best seller: esgotou que foi uma coisa espantosa...), chego à secção de CDs portugueses e brasileiros e começo a babar. Hoje a felicidade foi tanta que a minha carteira começou a ter palpitações (pobrezinha: nas férias fica com os nervos em franja). De modo que agarrei em mim pelo cachaço, e amandei-me para fora daquele antro de perdição. Bem contra a minha vontade, mas isso já se sabe que os desvios do vício são assim.
(os desvios do vício são os desvícios?)
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
correio das ilhas (22)
Olá, Rita
atravessando o rio Lima ao fim do dia pela ponte nova, junto a Viana, sou apanhada pelo azul profundo da água, o verde das ilhas ocasionais, o verde mais pujante das margens. Beleza pura, diria eu - cega à paisagem industrial, ao desconcerto do casario, à nódoa do porto marítimo.
E de repente tenho outra vez cinco anos, e encosto o nariz ao couro vermelho do assento da frente do carro para ouvir melhor a minha mãe
...os soldados recusaram-se a atravessar o rio porque, vendo-o tão estranhamente belo, tinham a certeza que era o Letes, o rio do esquecimento. Mas o centurião atravessou-o a nado, e do lado de lá chamou-os todos, cada um pelo seu nome...
e dou-me conta de que, independentemente do que hoje façam à sua paisagem, a beleza deste rio entrou para dentro de mim há muitos anos, e nada a poderá alterar.
atravessando o rio Lima ao fim do dia pela ponte nova, junto a Viana, sou apanhada pelo azul profundo da água, o verde das ilhas ocasionais, o verde mais pujante das margens. Beleza pura, diria eu - cega à paisagem industrial, ao desconcerto do casario, à nódoa do porto marítimo.
E de repente tenho outra vez cinco anos, e encosto o nariz ao couro vermelho do assento da frente do carro para ouvir melhor a minha mãe
...os soldados recusaram-se a atravessar o rio porque, vendo-o tão estranhamente belo, tinham a certeza que era o Letes, o rio do esquecimento. Mas o centurião atravessou-o a nado, e do lado de lá chamou-os todos, cada um pelo seu nome...
e dou-me conta de que, independentemente do que hoje façam à sua paisagem, a beleza deste rio entrou para dentro de mim há muitos anos, e nada a poderá alterar.
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
14 julho 2011
correio das ilhas (21)
Olá, Rita
Como se estivesse de férias, parei a tradução do livro. Não que traduzir aquele livro seja realmente trabalho, porque é muito divertido, mas aqui, na Casa do Padeiro, só há internet ao fundo do quintal, sob a ramada junto às laranjeiras. Apanha-se o wireless da vizinha, e é um sítio engraçado para escrever um ou outro post, mas não para traduzir um livro.
A Christina já escolheu o seu cantinho preferido para trabalhar – anda a ler um livro para a escola, e faz apontamentos no computador. Ao fim da tarde, este alpendre é o melhor lugar para um happy hour com amigos, ao som do passaredo, à luz dourada que se derrama sobre as copas das árvores e vem bater quase horizontal na velha parede e sobre nós, sentados nos degraus de granito que o dia aqueceu.
Essa luz do pôr-do-sol que transforma a buganvília e nos atrasa o jantar porque nos distraímos a olhar pela janela da cozinha.
Dito desta maneira, quase me pergunto porque tenciono voltar para a Alemanha daqui a umas semanas…
Como se estivesse de férias, parei a tradução do livro. Não que traduzir aquele livro seja realmente trabalho, porque é muito divertido, mas aqui, na Casa do Padeiro, só há internet ao fundo do quintal, sob a ramada junto às laranjeiras. Apanha-se o wireless da vizinha, e é um sítio engraçado para escrever um ou outro post, mas não para traduzir um livro.
A Christina já escolheu o seu cantinho preferido para trabalhar – anda a ler um livro para a escola, e faz apontamentos no computador. Ao fim da tarde, este alpendre é o melhor lugar para um happy hour com amigos, ao som do passaredo, à luz dourada que se derrama sobre as copas das árvores e vem bater quase horizontal na velha parede e sobre nós, sentados nos degraus de granito que o dia aqueceu.
Essa luz do pôr-do-sol que transforma a buganvília e nos atrasa o jantar porque nos distraímos a olhar pela janela da cozinha.
Dito desta maneira, quase me pergunto porque tenciono voltar para a Alemanha daqui a umas semanas…
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
correio das ilhas (20)
Olá, Rita
uma leitora deste blogue, a "Interessada", deixou um poema de Eugénio de Andrade num post anterior (obrigada, Interessada! Como é que sabia que este é um dos meus - poucos - poetas?)
As Amoras
O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
[ Eugénio de Andrade ]
Outro dia, depois da praia e da internet, o Matthias e o amigo que veio com ele soltaram-se pelas silvas ao longo dos caminhos como dois cabritos felizes - em busca de amoras. Chegaram a casa todos arranhados e com uma caixinha cheia delas, a fazer contas aos bolos e às compotas que podiam fazer. Mas nós fomos mais rápidos: näo passaram do jantar.
uma leitora deste blogue, a "Interessada", deixou um poema de Eugénio de Andrade num post anterior (obrigada, Interessada! Como é que sabia que este é um dos meus - poucos - poetas?)
As Amoras
O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
[ Eugénio de Andrade ]
Outro dia, depois da praia e da internet, o Matthias e o amigo que veio com ele soltaram-se pelas silvas ao longo dos caminhos como dois cabritos felizes - em busca de amoras. Chegaram a casa todos arranhados e com uma caixinha cheia delas, a fazer contas aos bolos e às compotas que podiam fazer. Mas nós fomos mais rápidos: näo passaram do jantar.
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
13 julho 2011
correio das ilhas (19)
Olá, Rita
No verão passado deixámos apalavrado com o senhor José que pintava a casa por dentro, tratava do bicho da madeira, arranjava a chaminé. Que sim, que sim, mas o tempo passava e nada, e nada. Tentámos as mentiras habituais, «olhe que vamos aí no Natal», pois sim : à terceira vez, já não cai nessa. Acabou por fazer a chaminé na altura em que nós começávamos a fazer as malas. Tão à pressa que não teve tempo de ir comprar tinta branca, e pintou a fachada com uma amarela que tinha. O resultado é tão louco, que me apetece deixar ficar assim mesmo.
No verão passado deixámos apalavrado com o senhor José que pintava a casa por dentro, tratava do bicho da madeira, arranjava a chaminé. Que sim, que sim, mas o tempo passava e nada, e nada. Tentámos as mentiras habituais, «olhe que vamos aí no Natal», pois sim : à terceira vez, já não cai nessa. Acabou por fazer a chaminé na altura em que nós começávamos a fazer as malas. Tão à pressa que não teve tempo de ir comprar tinta branca, e pintou a fachada com uma amarela que tinha. O resultado é tão louco, que me apetece deixar ficar assim mesmo.
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
correio das ilhas (18)
Olá, Rita
O meu triângulo das Bermudas fica entre a macieira, a figueira e o diospireiro. Lá me perco tão bem que nem eu própria me encontro.
O meu triângulo das Bermudas fica entre a macieira, a figueira e o diospireiro. Lá me perco tão bem que nem eu própria me encontro.
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
correio das ilhas (17)
Olá, Rita
Era o que mais faltava: ter relva no jardim, e o trabalho de a cuidar. A nossa troika privada manda que a erva cresça livre e seja cortada apenas no princípio do verão, quando os patrões estão para vir.
A erva e, pelo meio, a hortelã: chão suave para os pés descalços, e um aroma fresco que envolve discretamente a mesa do pequeno-almoço sob a ramada. A hortelã cresce nos sítios mais improváveis – nas juntas da eira, por exemplo. A vizinha Matilde, que é quem manda aqui, volta e meia vai e corta tudo raso. É pena : o que eu gosto daquele friso verde entre o cimento e o granito.
Era o que mais faltava: ter relva no jardim, e o trabalho de a cuidar. A nossa troika privada manda que a erva cresça livre e seja cortada apenas no princípio do verão, quando os patrões estão para vir.
A erva e, pelo meio, a hortelã: chão suave para os pés descalços, e um aroma fresco que envolve discretamente a mesa do pequeno-almoço sob a ramada. A hortelã cresce nos sítios mais improváveis – nas juntas da eira, por exemplo. A vizinha Matilde, que é quem manda aqui, volta e meia vai e corta tudo raso. É pena : o que eu gosto daquele friso verde entre o cimento e o granito.
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
10 julho 2011
correio das ilhas (16)
Olá, Rita
ontem de manhã choveu muito, e à tarde fomos à praia. Sem grande esperança, só para dizer olá ao mar. Estava fenomenal: deserta, sem vento, misteriosa de neblina, com umas ondas daquelas que dão luta e nos fazem soltar gargalhadas misturadas com vertigem.
Claro que não pus creme solar, claro que como de costume dormitei com um livro em cima da cara. Agora tenho um vermelhão enorme no peito, que torna muito evidente que o meu fato de banho, alemão, em Portugal era bom era para bisavós. Até ganhar um vermelhão mais alargado por todo o peito vou ter de andar de blusas de gola alta.
De facto precisava era de um burkini, por causa de um tratamento às varizes que fiz antes de vir para Portugal, e me deixou umas marcas suspeitas nas pernas. As amigas dizem que não devo apanhar sol ali, o Joachim vem-me com estudos publicados em revistas famosas para explicar que é sub-cutâneo e não preciso de me preocupar. E eu, entre a medicina e as conversas de druidas femininas (as mais fiáveis, como se sabe) devo fazer o quê? Um burkini era boa ideia - apesar de correr o risco de deixar os mirones nas dunas fora de si, porque não há nada mais sensual que uma mulher de burkini molhado (os fundamentalistas islâmicos saíram-me uns grandes espertalhões).
Hoje é domingo, dia dos laços de ternura: almoço em casa do irmão mais velho, jantar com uma das minhas mais antigas amigas.
E como estou na famosa casa, aqui vão mais algumas fotos da dita:
ontem de manhã choveu muito, e à tarde fomos à praia. Sem grande esperança, só para dizer olá ao mar. Estava fenomenal: deserta, sem vento, misteriosa de neblina, com umas ondas daquelas que dão luta e nos fazem soltar gargalhadas misturadas com vertigem.
Claro que não pus creme solar, claro que como de costume dormitei com um livro em cima da cara. Agora tenho um vermelhão enorme no peito, que torna muito evidente que o meu fato de banho, alemão, em Portugal era bom era para bisavós. Até ganhar um vermelhão mais alargado por todo o peito vou ter de andar de blusas de gola alta.
De facto precisava era de um burkini, por causa de um tratamento às varizes que fiz antes de vir para Portugal, e me deixou umas marcas suspeitas nas pernas. As amigas dizem que não devo apanhar sol ali, o Joachim vem-me com estudos publicados em revistas famosas para explicar que é sub-cutâneo e não preciso de me preocupar. E eu, entre a medicina e as conversas de druidas femininas (as mais fiáveis, como se sabe) devo fazer o quê? Um burkini era boa ideia - apesar de correr o risco de deixar os mirones nas dunas fora de si, porque não há nada mais sensual que uma mulher de burkini molhado (os fundamentalistas islâmicos saíram-me uns grandes espertalhões).
Hoje é domingo, dia dos laços de ternura: almoço em casa do irmão mais velho, jantar com uma das minhas mais antigas amigas.
E como estou na famosa casa, aqui vão mais algumas fotos da dita:
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
08 julho 2011
correio das ilhas (15)
Ola, Rita
No Minho chove: com persistencia e desconsolo.
Fizemos uma fogueira na lareira de pedra. So faltam castanhas para a sensacao de aconchego ser completa.
No Minho chove: com persistencia e desconsolo.
Fizemos uma fogueira na lareira de pedra. So faltam castanhas para a sensacao de aconchego ser completa.
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
07 julho 2011
correio das ilhas (14)
Olá, Rita
amanhã vamos para o Alto Minho. Praia, canoa em Ponte de Lima, cafézinhos em Viana. Sonecas na rede estendida entre duas árvores do quintal. Muda o cenário, continua a boa vida. Uma coisa piora: a partir de agora, a cozinheira sou eu... (ai que saudades antecipadas das cozinheiras da Quinta de Santa Eufémia!)
Para a despedida do Douro, uma imagem do progresso:
amanhã vamos para o Alto Minho. Praia, canoa em Ponte de Lima, cafézinhos em Viana. Sonecas na rede estendida entre duas árvores do quintal. Muda o cenário, continua a boa vida. Uma coisa piora: a partir de agora, a cozinheira sou eu... (ai que saudades antecipadas das cozinheiras da Quinta de Santa Eufémia!)
Para a despedida do Douro, uma imagem do progresso:
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
correio das ilhas (11)
Olá, Rita
Tens de fazer a viagem de comboio entre a Régua e o Pocinho, e com urgência, antes que acabe. De uma beleza indescritível: os montes cada vez mais bravios à medida que se avança para Espanha, as vinhas agonizantes de sede, os laranjais muito verdes ao longo do rio, as oliveiras a desenhar os caminhos. Aqui e ali um quinta, mais além ruínas tristes. E a literatura portuguesa a entrar-me pelos olhos dentro - eu a entender, maravilhada, o que é que os escritores do Douro querem dizer quando escrevem "fragas" e "barrancos".
Olhando a paisagem dos terraços da vinha ocorreu-me que quem escreveu o livro do Génesis não sabia nada: uma tal doçura e sensualidade não saiu da costela do homem, mas das suas mãos.
Na nossa carruagem iam alguns velhotes que falavam das glórias passadas e das misérias presentes. O costume: que é uma pouca-vergonha terem vendido a estação do Pinhão, que dizem que mandaram os azulejos para consertar mas nunca se sabe, que são todos uns mentirosos, que no tempo de Salazar não havia esta ladroagem e falta de respeito, que isto chegou a tal ponto que nem quinhentos Salazares conseguiriam endireitar. Contavam também dos restaurantes que servem belos peixinhos do rio (há um em Freixo de Numão, mesmo ao pé da estação), do passeio às gravuras de Foz Côa que se pode fazer a partir do Pocinho (são quase três horas, vai-se de jipe e depois a pé, custa cerca de 20 euros por pessoa). Ao passar no Tua começou o coro das lamentações: "Já fecharam tudo", diziam eles. "A beleza das linhas que havia, aquelas obras monumentais por penhascos e ravinas, quanta gente morreu para as fazer, e foi-se tudo: Tua, Corgo, Tâmega, Sabor". E faziam a lista com desalento, um desalento como só vi há muitos anos ao meu irmão mais velho, quando andava na quarta classe e tinha de aprender as estações e apeadeiros de todas estas linhas. Eu, dois anos mais nova, escapei a tudo isso, o que prova que a qualidade do Ensino já estava em queda livre antes do 25 de Abril.
As carruagens da CP são fechadas, as janelas não estavam propriamente bem lavadas. As fotografias são as possíveis. Mas aqui vão, para teres uma ideia do que isto é. Do que vamos perder.
Tens de fazer a viagem de comboio entre a Régua e o Pocinho, e com urgência, antes que acabe. De uma beleza indescritível: os montes cada vez mais bravios à medida que se avança para Espanha, as vinhas agonizantes de sede, os laranjais muito verdes ao longo do rio, as oliveiras a desenhar os caminhos. Aqui e ali um quinta, mais além ruínas tristes. E a literatura portuguesa a entrar-me pelos olhos dentro - eu a entender, maravilhada, o que é que os escritores do Douro querem dizer quando escrevem "fragas" e "barrancos".
Olhando a paisagem dos terraços da vinha ocorreu-me que quem escreveu o livro do Génesis não sabia nada: uma tal doçura e sensualidade não saiu da costela do homem, mas das suas mãos.
Na nossa carruagem iam alguns velhotes que falavam das glórias passadas e das misérias presentes. O costume: que é uma pouca-vergonha terem vendido a estação do Pinhão, que dizem que mandaram os azulejos para consertar mas nunca se sabe, que são todos uns mentirosos, que no tempo de Salazar não havia esta ladroagem e falta de respeito, que isto chegou a tal ponto que nem quinhentos Salazares conseguiriam endireitar. Contavam também dos restaurantes que servem belos peixinhos do rio (há um em Freixo de Numão, mesmo ao pé da estação), do passeio às gravuras de Foz Côa que se pode fazer a partir do Pocinho (são quase três horas, vai-se de jipe e depois a pé, custa cerca de 20 euros por pessoa). Ao passar no Tua começou o coro das lamentações: "Já fecharam tudo", diziam eles. "A beleza das linhas que havia, aquelas obras monumentais por penhascos e ravinas, quanta gente morreu para as fazer, e foi-se tudo: Tua, Corgo, Tâmega, Sabor". E faziam a lista com desalento, um desalento como só vi há muitos anos ao meu irmão mais velho, quando andava na quarta classe e tinha de aprender as estações e apeadeiros de todas estas linhas. Eu, dois anos mais nova, escapei a tudo isso, o que prova que a qualidade do Ensino já estava em queda livre antes do 25 de Abril.
As carruagens da CP são fechadas, as janelas não estavam propriamente bem lavadas. As fotografias são as possíveis. Mas aqui vão, para teres uma ideia do que isto é. Do que vamos perder.
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
05 julho 2011
post apenas para os meus amigos do Porto e arredores
A Esperanza Spalding vai dar um concerto no Coliseu do Porto no dia 15. Vão por mim, e vão ver.
Não direi que devolvo o dinheiro se não gostarem, isso não. Mas prometo que se não gostarem, apesar de tudo continuamos amigos como dantes. Oh, tão magnânima sou!
E outra informação, esta para todos os amigos: quem me informou sobre este concerto foi a sem-se-ver. Se não conhecem esse blogue, não sabem o que estão a perder. Se forem ver e acharem que não estavam a perder nada, eu farei esforçados esforços para continuarmos amigos como antes, porque respeito muito a liberdade de expressão e tal, mas olhem que me custa... ;-)
Não direi que devolvo o dinheiro se não gostarem, isso não. Mas prometo que se não gostarem, apesar de tudo continuamos amigos como dantes. Oh, tão magnânima sou!
E outra informação, esta para todos os amigos: quem me informou sobre este concerto foi a sem-se-ver. Se não conhecem esse blogue, não sabem o que estão a perder. Se forem ver e acharem que não estavam a perder nada, eu farei esforçados esforços para continuarmos amigos como antes, porque respeito muito a liberdade de expressão e tal, mas olhem que me custa... ;-)
correio das ilhas (10)
Olá, Rita
estamos numa quinta no Douro. O rio, para estes lados, havia de se chamar Rio Lindodazulprofundo, mas como de costume ninguém me pergunta nada...
Tenho trabalhado bastante na tradução daquele livro muito divertido, numa mesa sob a vinha, junto à piscina. Quando a Merkel falou da produtividade dos portugueses, provavelmente estava a morrer de inveja destas coisas. Coitadita, uma chancelerina também não é de ferro.
Os miúdos treinam saltos especiais na piscina (é cada barrigada, bálhósdeus!) e depois desaparecem pela quinta. Reaparecem à hora das refeições, esfomeados. Hoje havia peixe assado com pimentos grelhados e um molho com cebola e azeite da quinta que nem te digo. E que dizer das batatas assadas de ontem, da tortilha do jantar? Não conheço restaurante nenhum onde a comida me saiba tão bem como aqui.
Amanhã vamos de comboio até ao Pocinho, e voltamos. Para nos despedirmos desta parte da Linha do Douro, que vai fechar. Acho bem: não faz sentido nenhum gastar um dinheirão a manter um património destes numa paisagem protegida pela UNESCO. Os turistas? Que se danem os turistas. Que vão de carro pelas curvas e contracurvas dos montes, apreciar de perto e de todos os ângulos os fantásticos postes das autoestradas da energia que agora atravessam o Douro. Viva o progresso! Porque havíamos nós de continuar a manter a paisagem protegida do Douro, só para os turistas acharem que as coisas aqui ainda são perfeitas? Não, não: realismo é que é preciso. Toca a arrancar os anéis, e se for preciso largar um ou outro dedo, pois que tudo se faça com coragem e sem anestesia. Somos um povo de valentes.
(Nem queiras saber o que ultimamente me tenho lembrado daquela linha Durango-Silverton, e do pessoal que faz viagens intercontinentais para viajar nesses comboios, e de como aquela paisagem não é em nada superior à do Douro)
estamos numa quinta no Douro. O rio, para estes lados, havia de se chamar Rio Lindodazulprofundo, mas como de costume ninguém me pergunta nada...
Tenho trabalhado bastante na tradução daquele livro muito divertido, numa mesa sob a vinha, junto à piscina. Quando a Merkel falou da produtividade dos portugueses, provavelmente estava a morrer de inveja destas coisas. Coitadita, uma chancelerina também não é de ferro.
Os miúdos treinam saltos especiais na piscina (é cada barrigada, bálhósdeus!) e depois desaparecem pela quinta. Reaparecem à hora das refeições, esfomeados. Hoje havia peixe assado com pimentos grelhados e um molho com cebola e azeite da quinta que nem te digo. E que dizer das batatas assadas de ontem, da tortilha do jantar? Não conheço restaurante nenhum onde a comida me saiba tão bem como aqui.
Amanhã vamos de comboio até ao Pocinho, e voltamos. Para nos despedirmos desta parte da Linha do Douro, que vai fechar. Acho bem: não faz sentido nenhum gastar um dinheirão a manter um património destes numa paisagem protegida pela UNESCO. Os turistas? Que se danem os turistas. Que vão de carro pelas curvas e contracurvas dos montes, apreciar de perto e de todos os ângulos os fantásticos postes das autoestradas da energia que agora atravessam o Douro. Viva o progresso! Porque havíamos nós de continuar a manter a paisagem protegida do Douro, só para os turistas acharem que as coisas aqui ainda são perfeitas? Não, não: realismo é que é preciso. Toca a arrancar os anéis, e se for preciso largar um ou outro dedo, pois que tudo se faça com coragem e sem anestesia. Somos um povo de valentes.
(Nem queiras saber o que ultimamente me tenho lembrado daquela linha Durango-Silverton, e do pessoal que faz viagens intercontinentais para viajar nesses comboios, e de como aquela paisagem não é em nada superior à do Douro)
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
04 julho 2011
correio das ilhas (9)
Olá, Rita
obrigada pela ligação ao texto do José António Saraiva, e pela série "saraiva aplicado" - o que já me ri hoje.
Obrigada, sobretudo, por me resolveres uma curiosidade que me atormenta há décadas: agora sei com quem casou a Susaninha do Quino!
Pois que sejam muito felizes, que é um gosto quando duas almas tão gémeas se encontram.
(eu sei que devia argumentar, e explicar para onde vão aqueles custos de pessoal e assim, e perguntar quem é essa classe média que faz férias em hotéis de cinco estrelas por default, mas o dia está muito bonito, e o almoço da quinta estava muito bom - embora com ingredientes baratinhos, eles provavelmente andaram a ler o José António Saraiva, ou talvez o Sarrazin quando, de cima dos seus muitos milhares de euros por mês, andou a explicar aos pobres como podiam viver com 10 euros por dia -, e portanto ficamos por aqui)
obrigada pela ligação ao texto do José António Saraiva, e pela série "saraiva aplicado" - o que já me ri hoje.
Obrigada, sobretudo, por me resolveres uma curiosidade que me atormenta há décadas: agora sei com quem casou a Susaninha do Quino!
Pois que sejam muito felizes, que é um gosto quando duas almas tão gémeas se encontram.
(eu sei que devia argumentar, e explicar para onde vão aqueles custos de pessoal e assim, e perguntar quem é essa classe média que faz férias em hotéis de cinco estrelas por default, mas o dia está muito bonito, e o almoço da quinta estava muito bom - embora com ingredientes baratinhos, eles provavelmente andaram a ler o José António Saraiva, ou talvez o Sarrazin quando, de cima dos seus muitos milhares de euros por mês, andou a explicar aos pobres como podiam viver com 10 euros por dia -, e portanto ficamos por aqui)
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
03 julho 2011
correio das ilhas (8)
Olá, Rita
fim de semana em casa do meu irmão mais velho, em Guimarães. Este postal é pura baba, e nem te mostro as fotografias que ele faz. Ou os desenhos. Fico sempre dividida entre morrer de orgulho ou de inveja.
O escritório da casa está suspenso sobre a sala.Uma vez dormi naquele sofá, e lembrei-me muito do arquitecto do mosteiro da Batalha, que dormiu sob as abóbadas que tinha construído, para provar que eram seguras. O meu irmão é muito da gestão moderna, sabe delegar: ele faz, eu testo...
fim de semana em casa do meu irmão mais velho, em Guimarães. Este postal é pura baba, e nem te mostro as fotografias que ele faz. Ou os desenhos. Fico sempre dividida entre morrer de orgulho ou de inveja.
O escritório da casa está suspenso sobre a sala.Uma vez dormi naquele sofá, e lembrei-me muito do arquitecto do mosteiro da Batalha, que dormiu sob as abóbadas que tinha construído, para provar que eram seguras. O meu irmão é muito da gestão moderna, sabe delegar: ele faz, eu testo...
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
correio das ilhas (7)
Olá, Rita
ontem esqueci-me de contar o momento mais engraçado do Governo Sombra: foi no intervalo, quando uma moça se dirigiu ao grupo onde estavam os excelentes governantes e alguns membros da plebe, e disse ao Carlos Vaz Marques que tinha ido ali só para o ver. Eu olhei para o Ricardo - uma estrela em queda livre! - e ofereci-me para lhe arranjar um psicólogo. Ele é muito realista: pediu que fosse dos baratos, que a vida prafrentemente não vai nunca mais ser como tem sido pratrasmente...
Se eu fosse a eles, mudava-me para Berlim: poder andar sossegado sem que ninguém queira fazer fotografias para a colecção de troféus, sem aquelas conversas penosas de "a minha filha queria fazer carreira na sua área"...
Vivendo e aprendendo: abordar as pessoas pelo seu lado "estrela" tem o seu quê de constrangedor. Prefiro abordá-las pelo seu lado "pessoa" - ou deixá-las ir, caso não tenham esse lado disponível.
ontem esqueci-me de contar o momento mais engraçado do Governo Sombra: foi no intervalo, quando uma moça se dirigiu ao grupo onde estavam os excelentes governantes e alguns membros da plebe, e disse ao Carlos Vaz Marques que tinha ido ali só para o ver. Eu olhei para o Ricardo - uma estrela em queda livre! - e ofereci-me para lhe arranjar um psicólogo. Ele é muito realista: pediu que fosse dos baratos, que a vida prafrentemente não vai nunca mais ser como tem sido pratrasmente...
Se eu fosse a eles, mudava-me para Berlim: poder andar sossegado sem que ninguém queira fazer fotografias para a colecção de troféus, sem aquelas conversas penosas de "a minha filha queria fazer carreira na sua área"...
Vivendo e aprendendo: abordar as pessoas pelo seu lado "estrela" tem o seu quê de constrangedor. Prefiro abordá-las pelo seu lado "pessoa" - ou deixá-las ir, caso não tenham esse lado disponível.
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
02 julho 2011
correio das ilhas (6)
Olá, Rita
ontem o Governo Sombra esteve na Casa de Serralves.
Para que conste que a TSF é um espaço de pluralismo: mesmo antes do Governo Sombra tiveram lá o pessoal do FCP e do não sei quê Braga a falar. Até o Pinto da Costa, em pessoa! Falava tão à moda do Porto que parecia que fazia gala disso, e, pior ainda, eu tive dificuldade em compreendê-lo.
De modo que me sentei nas escadas a falar português neutro com uma amiga, mesmo junto àquele portão Arte Nova que foi uma complicação na altura em que a quinta foi comprada aos herdeiros, porque eles achavam que o portão era uma escultura e não parte da casa, e queriam fazer-se pagar por esse pequeno extra. Um belo portão, por sinal. Que fecha a parte central de uma passagem, mas tem aberturas do lado, de modo que se alguém quiser passar não precisa de arrombar. Acho muito bem pensado. Se calhar podiam fazer o mesmo com as caixas multibanco. Punham o dinheiro em cima da caixa, assim quem quisesse roubar levava sem estragar as paredes nem nada.
Ora bem: a sessão com o Pinto da Costa acabou tarde, nem deu tempo para arrefecer os cadeirões, e quis o destino, esse especialista em gracinhas de mau gosto, que o RAP se sentasse no mesmo lugar. Quando chegou aquele momento do "então, Ricardo, não sai um bibó Puôrto?!" e ele respondia "booom, se for um bibá cidade do Porto..." a minha vizinha comentou: "se ele soubesse onde está sentado..."
Falo em cadeiras, lembro-me logo do Salazar. Sim, porque já tive uma cadeira onde o Salazar esteve sentado. Tinha uma fitinha vermelha, para a distinguir das outras. Mas eu fui-me informar, e pareceu-me que ele não tinha nenhuma doença contagiosa, de modo que tirei a fitinha. Foi asneira: afinal estava provado que aquela era melhor que outras, mais resistente ao peso do poder e da responsabilidade. Não que isso sejam coisas que pesem especialmente nas minhas costas, mas nunca se sabe.
E por falar em piadas de mau gosto: andamos com um carro alugado. Dois dias depois de termos passado numa SCUT temos de ir aos correios pagar a dívida. Booom, temos três dias para o fazer. Portanto: entre o terceiro e o quinto dia depois de ter passado numa SCUT e feito um uso de, por exemplo, 25 cêntimos, tenho de ir ao correio pagar. Ainda não gastei muitos neurónios com isso, mas parece-me que terei de ir de cinco em cinco dias para as filas dos correios pagar uma dívidas. As filas já não eram muito convidativas antes desta história das SCUT, imagino como ficarão agora. Está cada vez mais difícil ser turista em Portugal. Talvez esse seja um bom argumento para voltar de vez...
ontem o Governo Sombra esteve na Casa de Serralves.
Para que conste que a TSF é um espaço de pluralismo: mesmo antes do Governo Sombra tiveram lá o pessoal do FCP e do não sei quê Braga a falar. Até o Pinto da Costa, em pessoa! Falava tão à moda do Porto que parecia que fazia gala disso, e, pior ainda, eu tive dificuldade em compreendê-lo.
De modo que me sentei nas escadas a falar português neutro com uma amiga, mesmo junto àquele portão Arte Nova que foi uma complicação na altura em que a quinta foi comprada aos herdeiros, porque eles achavam que o portão era uma escultura e não parte da casa, e queriam fazer-se pagar por esse pequeno extra. Um belo portão, por sinal. Que fecha a parte central de uma passagem, mas tem aberturas do lado, de modo que se alguém quiser passar não precisa de arrombar. Acho muito bem pensado. Se calhar podiam fazer o mesmo com as caixas multibanco. Punham o dinheiro em cima da caixa, assim quem quisesse roubar levava sem estragar as paredes nem nada.
Ora bem: a sessão com o Pinto da Costa acabou tarde, nem deu tempo para arrefecer os cadeirões, e quis o destino, esse especialista em gracinhas de mau gosto, que o RAP se sentasse no mesmo lugar. Quando chegou aquele momento do "então, Ricardo, não sai um bibó Puôrto?!" e ele respondia "booom, se for um bibá cidade do Porto..." a minha vizinha comentou: "se ele soubesse onde está sentado..."
Falo em cadeiras, lembro-me logo do Salazar. Sim, porque já tive uma cadeira onde o Salazar esteve sentado. Tinha uma fitinha vermelha, para a distinguir das outras. Mas eu fui-me informar, e pareceu-me que ele não tinha nenhuma doença contagiosa, de modo que tirei a fitinha. Foi asneira: afinal estava provado que aquela era melhor que outras, mais resistente ao peso do poder e da responsabilidade. Não que isso sejam coisas que pesem especialmente nas minhas costas, mas nunca se sabe.
E por falar em piadas de mau gosto: andamos com um carro alugado. Dois dias depois de termos passado numa SCUT temos de ir aos correios pagar a dívida. Booom, temos três dias para o fazer. Portanto: entre o terceiro e o quinto dia depois de ter passado numa SCUT e feito um uso de, por exemplo, 25 cêntimos, tenho de ir ao correio pagar. Ainda não gastei muitos neurónios com isso, mas parece-me que terei de ir de cinco em cinco dias para as filas dos correios pagar uma dívidas. As filas já não eram muito convidativas antes desta história das SCUT, imagino como ficarão agora. Está cada vez mais difícil ser turista em Portugal. Talvez esse seja um bom argumento para voltar de vez...
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
01 julho 2011
correio das ilhas (5)
Olá, Rita
Acabei de descobrir que nem em Portugal posso ver os vídeos do youtube que são bloqueados pela Alemanha. Sniff sniff.
Acho que devias incluir isto na tua lista de considerações pró e contra sobre mudar para Portugal:
(sim, bem sei que já não vou a tempo com argumento tão convincente, mas pelo menos tentei...)
***
Estou a sair para ir buscar os miúdos ao aeroporto. Depois conto-te do taxista amoroso que me trouxe aqui. Não me digas que nem os preconceitos contra taxistas se me aguentam de pé? Isto estão tempos difíceis para opiniões firmes...
Acabei de descobrir que nem em Portugal posso ver os vídeos do youtube que são bloqueados pela Alemanha. Sniff sniff.
Acho que devias incluir isto na tua lista de considerações pró e contra sobre mudar para Portugal:
O passado persegue os estrangeirados retornados!
(sim, bem sei que já não vou a tempo com argumento tão convincente, mas pelo menos tentei...)
***
Estou a sair para ir buscar os miúdos ao aeroporto. Depois conto-te do taxista amoroso que me trouxe aqui. Não me digas que nem os preconceitos contra taxistas se me aguentam de pé? Isto estão tempos difíceis para opiniões firmes...
Etiquetas:
correio das ilhas,
viagens
Subscrever:
Mensagens (Atom)













