18 maio 2011

reforma aos 67 anos - o contraditório

Pois antes que se zanguem muito com a notícia de que a Angela Merkel quer que os portugueses trabalhem mais, deixem-me contar-lhes que a notícia do dia é o relatório dos "Cinco Sábios da Economia", que conclui que a Alemanha não pode desistir dos planos de elevar a reforma para os 67 anos até 2029, e que numa fase posterior será necessário equacionar até a hipótese de reforma aos 68 anos até 2045 e aos 69 anos até 2060. Caso contrário, a manter-se a situação actual, a evolução demográfica implicará custos insuportáveis para as gerações futuras.
O relatório diz ainda que estes problemas podem ser controlados se a sociedade aceitar o desafio e agir, em vez de ficar petrificada como o coelho em frente à cobra. E lembra mais uma vez a necessidade de investir na Educação, e de captar mulheres para o mercado de trabalho (sim, as mães alemãs que tradicionalmente ficam em casa são - e têm - um problema).

Dito isto, fiquem sabendo que os outros partidos estão a fazer duras críticas ao discurso da chanceler. Que isto não é maneira de falar dos outros países, que ela está a destruir a ideia da Europa apenas para ganhar pontos na imprensa populista, e que em vez de alimentar o ressentimento anti-europeu mais valia que se empenhasse realmente numa coordenação das políticas económicas e financeiras europeias, e que os culpados da crise não são os trabalhadores e os reformados gregos mas os especuladores e os bancos que ela continua a deixar à solta, e que a solução passa mais por um governo alemão a dar tudo por tudo para controlar os mercados financeiros, verdadeiros culpados pela crise, em vez de andar a mandar bocas populistas à custa das populações dos países do Sul, que são quem menos culpa tem nesta trapalhada toda.

E assim vai a vida.

5 comentários:

A. Castanho disse...

Acho que a Merkel tem razão, mas... os seus críticos também! E o mais certo é a solução estar em seguir ambos os caminhos propostos, que de contraditórios nada têm, antes se complementam harmoniosamente.

Jonas disse...

Hum, mas será honesto falar em normalizar estes parâmetros para toda a europa, excluindo outros que funcionam ao mesmo nível, como os benefícios fiscais e sociais?

"O povo alemão, que recebe abonos de família de cerca de 200 euros por filho até este fazer 18 anos (podendo prolongar-se até que acabe a formação profissional)"

Quando isto for verdade para Portugal, não terei nenhum problema em reformar-me mais tarde, ou em ter menos dias de férias :)

mdsol disse...

Gostei tanto de ler... Obrigada, Helena. Estes (aparentemente pequenos) apontamentos são ao mesmo tempo esclarecimentos e bálsamos.
:)))

Helena disse...

A. Castanho, pois claro que todos têm razão. A questão é: a Merkel devia fazer o trabalho dela em vez de andar a marcar pontos de populismo à custa dos outros.
Mas também é verdade que quando a Merkel avançou sozinha a proibir a especulação com títulos alheios, a Europa a criticou imenso por estar a avançar sozinha. Esta nossa Europa parece uma anedota de mau gosto...

Jonas, vejo que lês os meus posts atentamente! ;-)
Não sei que responder. Por um lado, era fundamental haver uma unificação de todos os parâmetros, uma harmonização das condições básicas - como por exemplo a igualdade de oportunidades (que é o que está na base daqueles abonos de família tão altos). Por outro lado, os países não têm todos a mesma capacidade financeira para arcar com estes pagamentos.
Finalmente (e tenho pensado muito nisso, ultimamente, porque fui confrontada com essa situação): como é que um país pode dar as ajudas necessárias se os seus cidadãos não se ensaiam nada para fugir aos impostos e às suas responsabilidades? Falemos do cancro dos recibos verdes, ou do hábito generalizado de registar uma venda de imobiliário por um preço mais baixo, por exemplo.
Há tempos, a discutir o preço de um terreno que quero vender, ofereceram-me um preço bem mais baixo do que eu queria, mas pagando em dinheiro vivo. E eu, que já moro há demasiados anos na Alemanha, nem percebi o alcance da proposta. Demorou meses até cair a ficha, hehehe. Bom: nem pensar. Num país que cortou o abono de família aos mais pobres, nem pensar em trocar as voltas ao fisco, por muitos milhares de euros que me possa custar, por muito boas desculpas que me possam dar sobre o despesismo do Estado.

mdsol,
obrigada!

Nan disse...

Só vejo nisto um «pequeno» problema: cada vez é preciso menos esforço para produzir o mesmo ou até mais. Não se pode aumentar o consumo nem a produção infinitamente, pois o planeta não é elástico. Os postos de trabalho são em número limitado e o desemprego cresce entre os jovens. Se cada geração trabalhar até mais tarde, em breve haverá gerações que nunca vão conseguir emprego.
Teremos que nos habituar a viver de outra maneira, a consumir menos, a estragar menos, a repartir equitativamente o trabalho por todos para que todos possam ter dignidade e um salário, a ter mais tempo livre ( e não menos) para fazer outras coisas...