22 dezembro 2010

para o Natal: regressar às infâncias




The Muppet Show, a minha infância.

Twelve days of Christmas, a infância dos meus filhos: incrível como dois alemãezinhos de 4 e 6 anos cantavam aquela letra complicadíssima sem sequer pestanejar, e entenderam tão bem a matemática desta melodia. Antes do Natal a escola deles fazia caroling nos melhores hotéis da cidade, junto aos pinheirinhos de Natal sempre bombásticos. E os pais iam ver e fotografar, sorrindo e limpando uma ou outra lagrimita. O tempo não volta para trás, mas às vezes tenho um restinho de saudades desses pormenores do kitsch natalício.

para o Natal: ideia para aquecer as mãos, se fizer frio

para o Natal: canções de embalar


(carregar na imagem para ouvir um pouco do conteúdo)

quem com ferro mata...

A gracinha do dia vem no Hoje há Conquilhas: "delicioso"

***

Uma pessoa ri-se, claro, que isto é ironia do melhor.
Mas só se ri por um momento.
Ontem escrevi um post que não publiquei por pensar que os leitores deste blogue já devem estar fartos deste tema. Vai hoje:

A vida sexual do Assange anda nos meios de comunicação social. Agora, foi uma "fuga à justiça" - e eu que julgava que isso só acontecia em Portugal... - que permitiu que um jornal publicasse detalhes da acusação.
Quem com ferro mata, com ferro morre?
Não. Mesmo não concordando com o que o Assange fez (e refiro-me ao cablegate; outras acções da wikileaks, como publicar, por exemplo, um filme onde soldados americanos atiram sobre pessoas na rua, são coisas completamente diferentes) mantenho que, numa Democracia saudável, há regras que nos protegem a todos e que são válidas para todos - mesmo para quem não as respeita.

***

E já que estou a falar no Assange: neste momento os nervos do Manning estão a ser cozinhados em lume brando, como pequeno incentivo a um exame de consciência que ele um dia destes fará, e o levará a revelar todos os detalhes dos contactos que teve com o Assange. Este será então objecto de um processo não por assédio sexual, mas por conspiração contra os Estados Unidos da América.
(Lamento que estas coisas aconteçam na era Obama - e cada vez mais me convenço que o homem decidiu ser presidente do país errado. Mais lhe valia naturalizar-se português, e ir para presidente da UE.)
É uma questão de tempo, portanto, até o Assange comparecer perante um tribunal americano: uma nova prova de fogo para os EUA.

Nem todos iguais.

Um post do Luis M. Jorge que devia ecoar pelo país inteiro:


Nunca me perguntaram, felizmente, quais eram os problema do país. Se me tivessem perguntado responderia que eram os paninhos quentes, as falinhas mansas e o respeitinho dos chico-espertos pelos poderosos. No linguajar dos comentadores chama-se a isto a falta de exigência dos cidadãos. Pois bem, aqui está uma mulher que exige, que chateia e que faz perguntas incómodas. Precisamos de quinhentas destas. E, já agora, convém-nos que Paulo Portas se digne a responder-lhe. O motivo é simples: se nos contentarmos com menos que isso não merecemos viver num país decente.

21 dezembro 2010

notícias frescas

Parece que a wikileaks já se deu conta do sarilho em que se meteu:

WikiLeaks appears to be aware of the danger if it is proved to be involved in a conspiracy to leak material. It has deleted from its website the claim that "Submitting confidential material to Wiki-Leaks is safe, easy and protected by law". The site now says: "Submitting documents to our journalists is protected by law in better democracies." It also now says: "WikiLeaks accepts a range of material, but we do not solicit it." Furthermore, it no longer says it welcomes "classified" material.


Vem numa notícia do The Independent, que encontrei no Informationclearinghouse.info
Onde também há uma entrada a contar como é o dia do soldado Manning: de cinco em cinco minutos um soldado pergunta-lhe se ele está OK, e ele tem de responder; o mesmo controlo durante a noite, de cinco em cinco minutos - se o soldado não lhe vê a cara, acorda-o e pergunta-lhe se ele está OK. Não percebo nada de tortura "soft" (uma bela expressão da época Bush, que não esperaria ter de usar na época Obama), mas parece-me que isto está demasiado para os lados da tortura do sono.
O informationclearinghouse é um site que publica quase só material que já apareceu em jornais (ou seja, não depende de leaks), onde se encontra material suficiente para desacreditar todo o sistema. Mas acontece alguma coisa? Não, nada. Não é por falta de informação e transparência que as coisas continuam como estão.

a vingança de Caim

Li o livro Caim, de Saramago, com uma mistura de sentimentos: por um lado a beleza da escrita, por outro lado o embaraço do conteúdo. É que fica mal a um Nobel da literatura fazer tão teimosamente questão de ler a Bíblia daquela forma literal. Que uma pessoa não tem de nascer ensinada, é certo, e nem todos terão oportunidade de ler cursos de introdução à Bíblia que começam assim: "a Bíblia é como um álbum de fotografias de uma família, que vai mostrando como essa família evoluiu". Mas um Nobel da literatura em algum momento terá sido entrevistado por um jornalista que fará perguntas difíceis sobre "a propedêutica da simbologia poética" e "a economia narrativa das imagens simbólicas", e ele, mesmo que não entenda, dá uma resposta de bola ao canto "com certeza terá visto nas entrelinhas dos meus últimos romances que essa é uma das minhas preocupações centrais, o que uma leitura atenta não deixará de confirmar" e depois vai para casa e googleia um bocadinho, e é assim que se aprende. Se não for de outra maneira.
Mas não, parece que nunca nenhum entrevistador lhe fez perguntas sobre a propedêutica da análise da Bíblia, de modo que o Saramago acaba por me escrever aquele livro onde aparece desamparadamente nu, a exibir uma ignorância que me embaraçou, porque não sou de voyeurismos. Um livro onde as imagens que relatam a evolução de um povo (ou, mais precisamente, a evolução da intuição teológica de um povo) são confundidas com uma verdade eterna e imutável.

A internet pode ser usada como Saramago usou Caim: como testemunha de acusação, implacável e violentamente cega, neste caso virada contra uma pessoa e não contra um conceito de Deus.
(Aposto que já estavam a desconfiar por eu não escrever um postezinho sobre o wikileaks e o futuro da internet...)
A internet regista cada um dos nossos momentos, e tem uma poderosíssima memória. Daqui a vinte ou trinta anos, alguém poderá pescar uma fotografia ou uma frase infeliz postada na adolescência, num momento de euforia ou depressão, sei lá, e armar um pequeno processo em tribunal popular. Que adiantará argumentar que isso pertence ao passado, que não foi essa a intenção, que foi uma fase, que as pessoas evoluem?

Na internet, as pessoas não têm o direito de evoluir ou de ser vistas no contexto particular do momento. Ou muito me engano, ou há aqui um trabalhinho que o Tribunal dos Direitos Humanos vai ter de fazer, e muito em breve. Que as pessoas não têm a capacidade de encaixe do Deus de Saramago. E já tem havido um ou outro suicídio - sinal de que a pressão se pode tornar insuportável.

os riscos do facebook

Os miúdos combinaram que este ano não compram presentes muito caros um para o outro.
Ontem, o Matthias agarrou nas suas poupanças e foi fazer compras de Natal. Procurou, procurou, procurou, mas ou via coisas demasiado caras, ou demasiado parvas. Até que encontrou uma Vogue com um caderno especial para a Primavera, e achou que era uma óptima prenda para a irmã.

Chegou a casa, e foi direitinho ao facebook escrever "comprei uma Vogue".

Horas depois, a Christina chegou a casa e foi direitinha ao facebook. Leu que o irmão tinha comprado uma Vogue, não desconfiou, mas viu 18 comentários e ficou curiosa, foi ver, e...
- Vogue não presta para nada
- Ai eu gosto
- Eu também
- Eu cá não
- Isso são coisas de mulheres
- Quem é que disse que só as mulheres é que gostam?
- ... etc. etc. etc. ...
até que no último comentário aparece o Matthias a dizer "eu gosto, mas não é para mim, é para a minha irmã".

Eu bem lhes digo que a internet é um lugar de risco: a Christina foi ter com o Matthias a rir, dizendo: "facebook! facebook!"

(este é o momento em que a Rita Dantas aparece a dizer: Ó Helena! Então tu ainda não lhes ensinaste a gerir a informação que cada pessoa pode ler? Heinhe? - e eu respondo: Gulp)

***

Aqueles comentários facebookianos estão fanados: faltam os smileys. Incrível como estes miúdos têm sempre de fazer um desenho a seguir ao que escrevem. Embora seja também inteligente: se deixam um smiley indicando o estado de espírito com que escreveram, fica menos margem de manobra para mal-entendidos.
Ontem à noite, ao jantar, fartamo-nos de rir com as expressões faciais do Matthias para explicar os smileys que usa. "Se ponho dois pontos, traço, p grande, é assim" - e fazia a careta correspondente.
Se não se lembrarem de mais nada para animar o vosso jantar de Natal, experimentem isto. Sucesso garantido!

20 dezembro 2010

como transferir ficheiros descomunais?

Todos os anos por esta época levanta-se-me a questão de como transferir ficheiros enormes com fotografias para a família e os amigos.
E eis que descobri um site que me parece muito bom: TransferBigFiles.
Extremamente fácil de utilizar e rápido. Gratuito até determinados limites de utilização.
E ainda avisa se as pessoas abriram o ficheiro que lhes enviei (sim, sim, big sista watching ya)

illegally shoot this son of a -piiiiiiiiiiiii-

Quem será capaz de entender esta lógica da Fox?
Um comentador, Bob Beckel, sugere que alguém mate o Assange. A frase é censurada pelo famoso piiiii - não a incitação a um assassinato, mas a palavra "bitch":
"A dead man can't leak stuff. This guy's a traitor, he's treasonous, and he has broken every law of the United States. And I'm not for the death penalty, so...there's only one way to do it: illegally shoot the son of a -piiiiiiiiii-."

Para quem não tem tempo de ver todo o filme: a brilhante intervenção começa por volta do segundo 55. Também vale a pena ver a reacção dos outros intervenientes no debate. 



Não me digam que vou ter de dar dinheiro à wikileaks? Não me digam que cheguei a um ponto em que estou capaz de pagar para que o Assange possa ter bons advogados e possa proteger-se de uma horda de malucos à solta para o matar? Que até era capaz de contribuir para lhe fazerem em casa um panic room, como o que salvou a vida do Kurt Westergaard? Não direi que estava capaz de morrer para ele poder dizer o que quer, mas se calhar contribuir com um ou outro euro...
E de repente dou-me conta da coragem de milhentas pessoas em todo o mundo, que estão a dar dinheiro à wikileaks mesmo sabendo que esses dados podem ser gravados e analisados pela NSA, ou até pela Fox - para quem a liberdade de expressão permite incitação à violência, mas não palavrões.

17 dezembro 2010

publicidade descarada


O mais famoso livro do ano (pelo menos cá em casa) vai ser apresentado hoje na FNAC de Coimbra, pelas 21:30.
E o Filipe Homem Fonseca vai falar amanhã sobre o mesmo caso no Última Ceia, na SIC RADICAL. Peço a todos os que puderem o favor de o ouvirem com muita atenção e tomarem nota se fala bem de mim, para eu poder formar a minha opinião isenta e desinteressada sobre ele. (Se não souberem o meu endereço de e-mail, enviem a informação para uma embaixada americana qualquer, e eu depois leio no El País)

Suspeito que um dia destes o livrinho chegará ao Porto. Ainda não sei quando, mas lá chegará ao Porto, ai, até me comobo. Só espero que não chegue à livraria onde o Daniel Bessa compra: ainda é capaz de se arrepender daquela boa nota que me deu em Políticas Económicas e Monetárias.

wikileaks e a saúde da Democracia

O Spiegel teve cinquenta jornalistas a trabalhar durante meses no material do cablegate. Na capa da revista lia-se: "Revelação: como a América vê o mundo". O caso foi tema durante três ou quatro dias, se tanto. Mal empregado dinheirinho...

Agora discute-se se a wikileaks adianta ou atrasa a Democracia. E a história tem detalhes engraçados, como uma queixa feita ao Conselho da Comunicação Social, protestando contra o contrato de exclusividade entre os cinco jornais escolhidos e a wikileaks, que contraria o princípio da liberdade de informação.
Mas escândalos e revelações sobre a política alemã, coisas assim sumarentas, não houve.
A princípio fiquei chocada com o facto de uma revista como o Spiegel se entreter com as coscuvilhices do diz-que-disse relativo a governantes alemães. A própria oposição reagiu: que estas coisas não são um bom serviço prestado à Democracia.
Entretanto, começo a suspeitar que não podia ser de outro modo: para além das coscuvilhices, não tinham mais nada para publicar.
Ou eles estão a esconder os factos realmente graves sobre as relações entre a Alemanha e a América (que é como quem diz: ou os cinquenta jornalistas do Spiegel estão todos feitos com os políticos-cambada-de-corruptos), ou não havia mesmo nada relevante, excepto aquele rapaz da FDP que resolveu colaborar com a embaixada americana por conta própria.


Em suma: no que diz respeito à Alemanha, a recente acção da wikileaks não trouxe nenhuma novidade realmente importante sobre o que os políticos fazem nas costas do povo. Parece-me que isto é um sinal óbvio da saúde do sistema democrático alemão.

Já no que diz respeito a Portugal as coisas parecem ser diferentes: se bem entendi, a wikileaks revelou factos graves que os políticos esconderam ao país e sobre os quais chegaram a mentir.
Perante isso, há quem defenda a necessidade de uma vigilância tipo wikileaks para melhorar a Democracia.
Tenho as minhas dúvidas que isso nos conduza a uma Democracia mais madura. Temo que simplesmente continuemos a assistir ao aumento a desconfiança, do descrédito no sistema, do cinismo. E que a pouca-vergonha se instale de vez: para aguentar o controle feito por hackers, só mesmo políticos com a máquina de publicidade e a cara-de-pau de um Berlusconi.Se é por aí que queremos ir...

***

Virando o bico ao prego: como seria o nosso mundo se o Estado decidisse que a maior parte dos contribuintes mentem, e para o evitar passasse a publicar as declarações de rendimentos de todos, convidando qualquer pessoa a denunciar falcatruas?

Alguém escreveu por estes dias um texto onde referia a imensa quantidade existente de dados informatizados, sobre tudo e sobre todos, terminando com: "habituem-se". Pois lá teremos que nos habituar, é verdade, mas não nos obriguem a achar que o futuro está cada vez mais risonho.

GANHEI! GANHEI! GANHEI!

Ganhei o primeiro prémio do Concurso de Natal 2010 da Barbearia do Senhor Luís!

Confesso que não esperava, porque havia lá concorrentes de peso (especialmente uma ovelha americana empanturrada de hormonas, já denunciada pela wikileaks como resultado de uma experiência perversa de cruzamento de um lama com um galgo afegão), mas se o sapientíssimo júri decidiu, está decidido.

Infelizmente deixei passar o prazo para levantamento do prémio. Nada que não se resolva facilmente: já me inscrevi nas Mães de Bragança.
Hehehe, com esta é que o senhor Barbeiro não contava!


Irão, cá vamos nós! Vou já fazer a malinha: arranjo uma capa preta de estudante para fazer de chador e, pelo sim pelo não, deixo em casa todas as peças de roupa verdes. Sim, que isto era um concurso de ovelhas: convém obedecer e balir mansamente.

15 dezembro 2010

libertem o Assange!

Ao Assange rebentou-lhe um preservativo uma vez, e outra vez lembrou-se de querer bis depois de uma noite bem dormida. E é por isto que põem a Interpol no seu encalço, e um tribunal inglês está a deliberar se o envia para a Suécia, onde um tribunal sueco deliberará se o envia para os EUA.
Por causa de um preservativo furado?!
Libertem o Assange, já! Porque a Justiça não pode ser conspurcada desta maneira.
Ou há moralidade, ou daqui em diante os tribunais não fazem mais nada que estudar preservativos furados (se eu tivesse acções da Durex vendia-as agora - vem por aí uma vaga de indemnizações que só visto) e punir gajos que tiveram duas vezes tesão no mesmo one night stand.

No entretanto, aos cavalheiros de todo o mundo, sobretudo aos que entendem de informática, sugiro que aprendam com a gentileza dos dois alentejanos da anedota velhinha (arrisco a contar de novo, na esperança que já tenha caído no esquecimento), que estavam muito descansados a trabalhar quando passou uma jovem turista sueca a pedir ajuda porque o carro dela se tinha avariado. O reboque só vinha no dia seguinte, e ela pediu se podia dormir no monte deles. Eles pois que sim, mas havia um problema: só tinham uma cama. Ela pois que não tinha problema, e lá foram dormir. Eles pois que se já estamos aqui os três bem podíamos aproveitar o tempo, e ela pois que sim, mas como não queria engravidar eles teriam de usar aquelas coisinhas. E eles pois muito bem, e lá seguiu a noite. No dia seguinte veio o reboque, a sueca despediu-se muito agradecida, eles também, e passados seis meses, estavam outra vez muito descansados a trabalhar, vira-se um para o outro:
- Ó Manel, tu importas-te que a sueca engravide?
- Eu não, e tu?
- Eu também não.
- Ah, então vamos tirar isto!

14 dezembro 2010

13 dezembro 2010

a responsabilidade dos cidadãos

A propósito deste post do João Pinto e Castro, o Maradona escreve o que abaixo se publica (que ele apaga os post ainda mais depressa do que os escreve).

Comento apenas esta afirmação do post do Maradona: "O que essencialmente se afirma é que não deverá nunca ser da responsabilidade dos cidadãos, muito menos de um jornalista australiano de cor de cabelo indefinida, zelar pelos bocados de informação mais fulcrais ao funcionamento dos orgãos de soberania, mas sim das próprias instituições que os produzem e fazem circular."

É indiscutível que compete às instituições zelar pela segurança dos seus documentos confidenciais, e que fizeram uma asneira descomunal, e que esta crise é uma óptima oportunidade para aprenderem para o futuro.
Mas os cidadãos não têm de ser necessariamente gente que come tudo o que vem ao prato. Podem ter um conjunto de valores pelos quais se orientem. Já estivemos aí: pudemos escolher livremente se víamos as fotografias do Tomás Taveira naquela revisteca (lembram-se?) ou se nos queríamos informar  sobre os detalhes da relação Clinton/Lewinsky.
Não é por ser possível expor determinados materiais que esta exposição se torna legítima e aceitável, e que os cidadãos se devam sentir convidados a suspender a ética por uns tempos para participar na fuçangada geral. Isto, como no resto, é cada um por si. Cada cidadão decide por si qual é a sua própria responsabilidade.

O que é que você faria se lhe tivessem dado a si o tal CD? Passava-o ao Assange? Passava-o ao embaixador americano mais próximo, avisando que havia fugas gravíssimas ao sistema?
Eu: pedia a um padre, em segredo de confissão, que fosse levá-lo a uma embaixada americana, exigindo uma resposta do Obama a dizer que a carta chegou à Garcia. Porquê um padre? Porque - espero eu, espero eu - ninguém se lembraria de o torturar para o obrigar a violar o segredo de confissão.  (O que é que os de Hollywood andam a fazer, que ainda não se lembraram de mim para lhes inventar os filmes?)

***

Um post em que se fala do Roberto

Sem por um segundo duvidar que o amigo do João Pinto e Castro seja um palerma, há um lado não explorado neste post. Um segredo de Estado ou um segredo diplomático que seja do conhecimento do Assange já não é um segredo diplomático ou de Estado. Te-lo-á sido em tempos primevos, idos e belos, mas a partir do momento em que os canais de comunicação institucionais falham ao ponto de permitir que um bardamerdas qualquer exacerbe o seu amor pela transparência fuçando em documentos supostamente classificados significa, principalmente, que as instituições democráticas andam a tratar ineficiente e indignamente informação que supostamente seria mais valiosa para todos se circulasse limitadamente.

Salvo os excêntricos habituais (e que merecem existir, até porque animam isto), ainda não vi praticamente ninguém a defender que os Estados deveriam ser cem por cento transparentes, e que todos merecemos ter acesso indiscriminado a tudo o que ocorre entre governos, diplomatas e demais poderes sob a alçada dos tentáculos democráticos. O que essencialmente se afirma é que não deverá nunca ser da responsabilidade dos cidadãos, muito menos de um jornalista australiano de cor de cabelo indefinida, zelar pelos bocados de informação mais fulcrais ao funcionamento dos orgãos de soberania, mas sim das próprias instituições que os produzem e fazem circular.

Assim, e acima de tudo, o caso Wikileaks é valioso porque demonstra a fragilidade do actual sistema de comunicações confidenciais entre Estados e respectivos apêndices diplomáticos, o que com certeza merecerá a atenção e melhoria adequadas por parte daqueles que têm a responsabilidade de os manter restritos a determinadas áreas de poder. Notem: se o Assange, um personagem mínimo, conseguiu ter acesso a relatórios de diplomatas americanos sobre governos estrangeiros e a informação militar americana secreta, imaginem o que andou por aí a circular nas cúpulas dos interesses económicos, das filiações políticos e dos inimigos bem posicionados dos Estados Unidos? É muito melhor que todos saibamos o mais cedo possivel que o sistema está a precisar de arranjos, que o mesmo continue por aí a pingar sem que ninguém desconfie, ou seja, sem que nos apercebamos que precisamos de nos proteger melhor: dada a habitual e universal inércia dos burocratas quando não estão sob pressão dos média, este caso é uma oportunidade flagrante para emendar o que, com certeza matemática, nos anda a prejudicar há muito.

Outro aspecto da questão é a aparente guerra ao menssageiro que os Estados Unidos e outras democracias ocidentais visadas por esta questiúncula (não passará disso, se seguirem os meus conselhos) estão a montar aos olhos do mundo inteiro: trata-se um erro que me parece estúpido. É impossivel controlar os danos: até o esquerda.net já alojou um dos famosos "mirror" do site, sendo que a informação encontra-se neste momento tão refletida em tudo quando é local que qualquer tentativa de a estancar é o equivalente pedir ao Roberto para nos proteger das gotas da chuva.

Não duvido - estou mais gordo mas não sou ingénuo - da necessidade e utilidade de também punir quem divulga segredos de Estado, mas, neste caso, quando o palco é mundial e a luta ideológica é, tudo bem espremido, o principal que está aqui em jogo (os voos da CIA, por exemplo, de que o Bloco faz bandeira, são evidentes pretextos no ambito mais global da guerra à supremacia dos EUA), parece-me perfeitamente contra-producente insistir no cumprimento de um pormenor judicial que só levará a uma maior corrosão do posicionamento moral dos EUA perante os valores que, efectivamente, defende.

Um pouco de táctica neste momento era não só desejável, como muito desejável: o mais remoto cheiro a sucesso em, simultaneamente, limitar a divulgação de toda a extensão dos documentos e colocar debaixo da justiça o Julian Assange, como que dispersaria pelo muito inteiro uma nuvem radioactiva de documentos e julian assanges fictícios potenciais que, aí sim, transformariam o ambiente informativo numa barafunda estéril e ingovernável, mesmo por uma super-potência.

O "palerma" conhecido do João Pinto e Castro é de facto um palerma se disse que os estados democráticos têm que viver em juramento de fidelidade eterna à extra-mítica "transparência"; mas é provável que o palerma o seja não porque acredite no que disse (não teve tempo para pensar, provavelmente foi isso), mas apenas porque não se soube expressar: o que praticamente toda a gente que eu conheço defende é que fazer uma cruzada contra as fugas de informação confidencial postas em evidência pela Wikileaks é um triplo erro: não impede a presente, transforma em boato as futuras, e criminaliza de forma meramente teatral um acto cuja performance em impunidade é a base da democracia ocidental (ainda mais que as própria eleições).

12 dezembro 2010

que fazer com tanta transparência?

No período que precedeu o início da guerra do Iraque, eu lia um site chamado informationclearinghouse.info que recolhia, um pouco por todo o mundo, notícias publicadas sobre as actividades da "máquina americana". O Plamegate, que agora anda por aí em filme, foi publicado em tempo real nesse site: as revelações dos detalhes sobre o caso eram feitas ao ritmo de várias dezenas por dia. 
A internet estava cheia de informações sobre a farsa da guerra, criticava a pressão que o governo estava a exercer sobre a CIA para apresentar os "factos" que ele queria receber (esta até veio na TV alemã). Ainda antes de Colin Powel ir à ONU já havia na internet factos para rebater as afirmações que ele lá faria.
De que serviu tanta transparência? A guerra foi iniciada e, apesar de todos os escândalos, Bush foi reeleito.

Será a transparência um fim absoluto, que justifica todos os meios? Porquê? Para quê?
E o que é isso, "transparência"? Inclui o direito de espiar conversas confidenciais e as tornar públicas, servindo-as como notícias?
Lembro-me de um episódio vergonhoso que ocorreu há anos, em Portugal, quando um jornal publicou uma conversa telefónica entre dois políticos. Com frases de alto teor informativo e explosivo como "agora vou para casa tomar um banho". Tudo em nome de mais Democracia?

Dois apontamentos à margem deste debate:

Continuo sem entender porque é que os jornais portugueses ignoraram tanta informação fundamental sobre as contradições da febre belicista do governo Bush. Em pleno Plamegate, nos jornais portugueses continuava a defender-se que sim senhor, que o urânio da África, e as armas do Saddam, e que custa muito mas o que tem de ser tem muita força.

Mas a internet não era muito mais isenta que os jornais portugueses: o próprio informationclearinghouse.info sujeitava a transparência a critérios ideológicos, de que me dei conta quando lhe enviei dois links com notícias sobre o Iraque. O primeiro era um relato, publicado como opinião num jornal alemão, onde se dizia que foram os próprios soldados americanos que convidaram os transeuntes a saquear o museu de Bagdad. Esse texto foi imediatamente traduzido e publicado como notícia da Süddeutsche Zeitung. O segundo link era de um jornal americano de referência, onde se mostrava que a economia iraquiana estava a ser saqueada por empresas americanas. Esse artigo nunca foi publicado.

11 dezembro 2010

um caso de manipulação da wikipedia

Uma história linda que aconteceu na internet.

honestidade rima com idade

Vi num canal alemão: esconderam uma câmara de filmar numa barraquinha de salsichas grelhadas, e pediram à vendedora que, ao fazer o troco, se enganasse sistematicamente a favor do cliente.
Curiosamente, as pessoas mais velhas reparavam no erro e devolviam o excedente, enquanto as mais novas metiam o dinheiro ao bolso e iam-se embora.
"Pode ser que os mais novos não façam contas", pensaram eles, e mudaram o teste: a vendedora passou a enganar-se a seu favor. A partir daí, os mais novos começaram a protestar que faltava dinheiro. Os mais velhos também.
Foram falar com as pessoas. Os mais velhos diziam "eu sei o que ele custa a ganhar" ou "era o que mais faltava meter dinheiro ao bolso à custa daquela mulher". Os mais novos arranjavam desculpas, "ah, que estranho, não reparei..." ou "a culpa não é minha, ela que veja o que está a fazer".

***

E é assim que uma pessoa se põe velha...

Numa livraria, ao pagar dois livros, vi que a máquina registou ambos mas só cobrou um. Por um momento senti-me tentada a não reparar naqueles 25 euros de diferença, mas a velhice falou mais alto. Disse o que costumo dizer nestas situações: "não é que me queira queixar, mas..."
Hoje em dia, já nem nas máquinas de registar se pode confiar! A empregada, muito agradecida, deu-me um saco de pano muito bonitinho, decorado com uma página de um livro antigo.
A velhice tem destas coisas: uma pessoa sai das lojas com a cabeça levantada. E com um it-bag de borla...

A revista com o programa quinzenal de Berlim trazia colado na capa um caderninho que me interessava muito: praias e Biergärten na capital. Era o último dia em que estava à venda, e daí a umas horas seria substituída pelo número relativo à quinzena seguinte. Olhei em volta: no meio daquela confusão, ninguém se daria conta de um cliente a tirar um caderninho minúsculo. Além disso, não estava a prejudicar a loja, porque o programa da revista já estava desactualizado. Porque hesitava, então?
A velhice é uma coisa tramada. E a vergonha de ser apanhada a roubar uma coisa sem valor também.
Perguntei ao vendedor se me podia dar o caderninho. E ele deu: olhou para a data da revista, arrancou o caderno, e deu-mo enquanto resmungava "que chatice, esta cola que eles usam nas capas não presta para nada, os cadernos soltam-se todos sem querer..."
Saí da loja a rir, de bem com o mundo. Melhor assim, que com um caderno precipitadamnete enfiado no bolso e o rabo entre as pernas.

10 dezembro 2010

eu não sou a wikileaks



Pôr a Interpol atrás de um gajo que teve relações sexuais sem usar preservativos é de uma hipocrisia ridícula. Ou, se não é hipocrisia, os contribuintes deviam protestar, porque isto é desperdício de dinheiros públicos: se a Interpol agora está encarregada de ir atrás de homens que não praticam sexo seguro, não fará outra coisa senão capturar respeitosos pais de família a pedido da Tailândia. Por exemplo.  
Se organizarem uma manifestação para protestar contra esta desculpa ridícula que quer fazer de nós parvos, eu vou e levo um cartaz.

Se organizarem uma manifestação para protestar contra o envio de Assange para a Suécia, e daí para os EUA, e sobretudo para evitar que ele vá num daqueles aviões onde "interrogam" os prisioneiros, eu vou e levo dezenas de pessoas comigo.
Não tenhamos dúvidas: há por aí governos democraticamente eleitos capazes de mandar torturar o homem para lhe arrancar o nome dos colaboradores. E nós já sabíamos estas coisas, muito antes de a wikileaks ter surgido.

Há muitos motivos para organizar manifestações. Mas a liberdade de expressão e a transparência da informação defendidos por esta "eu sou a wikileaks" não me convencem. Não acredito na liberdade de expressão como um valor absoluto, e menos ainda na transparência da informação feita a partir de documentos diplomáticos roubados. Aceitar como legítimo que estes papéis sejam publicados agora, e não daqui a quarenta anos, é uma clara tomada de posição no sentido de destruir toda a base das relações internacionais. E eu não vou por aí.




Também não vou participar no protesto organizado pela Avaaz, onde se afirma que a pressão exercida sobre a wikileaks é um ataque à Democracia (*). Olhando para o que os defensores da wikileaks andam a fazer, parece-me que o verdadeiro ataque à Democracia está aí.

Esta semana temos podido vislumbrar um pouco do que pode vir a ser o futuro. O nosso mundo está a tornar-se um sítio cheio de ruído, desconfiança e ódio crescente. Para quê fazer jornais, organizar debates, esperar por eleições e processos judiciais, se é muito mais fácil fazer agitação na internet e combinar actos de sabotagem contra aqueles de quem não gostamos?
Queremos realmente deixar de apostar na construção de um Estado de Direito cada vez mais sólido - apesar de todos os erros que lhe conhecemos -, para o trocar pela lei do geek mais forte? Que mundo vai ser esse, onde viveremos chantageados e sob a permanente ameaça de uma minoria de anónimos que têm o poder de torpedear o sistema a seu bel-prazer, e cada um segundo critérios que só ele conhece?


Não, não vou a nenhuma dessas manifestações. Vou ficar em casa, a baixar para um arquivo independente o material que tenho na internet. Sei lá para que lado vão acordar depois de amanhã esses geeks defensores da liberdade de expressão, sei lá se não se lembrarão de vir boicotar este blogue por eu não concordar com o que a wikileaks anda a fazer...

Por outro lado, não tenho dúvidas que tudo isto vai ter uma resposta muito dura. A internet vai ser muito mais vigiada. Pode ser que estejamos a assistir ao fim de um sonho.

(*) Adenda: mas obviamente participaria (e levaria dezenas de amigos) numa manifestação para exigir a entrada em cena dos tribunais. Isto está a ficar uma fotografia onde todos saem muito mal.

10 de Dezembro: dia internacional dos direitos humanos

Em Berlim realizaram-se hoje várias manifestações. Junto à porta de Brandemburgo, um grupo de iranianos encenou a lapidação de uma mulher para reivindicar o fim do regime religioso no Irão. Também houve pequenas manifestações em frente às embaixadas russa e chinesa. No caso desta última, entre os manifestantes quase não havia chineses. É que a embaixada filma os manifestantes, e sabe-se lá o que pode acontecer depois.

e ela dança


Um dia tinha de ser: no fim de um jogo, o Joachim e o Matthias trouxeram o equipamento todo da equipa de futebol para lavar. Lavei, estendi tudo no corrimão da galeria (não contem a ninguém, mas é o melhor sítio da casa para secar roupa) (ah! perante este facto, vão passar a olhar com outra tolerância para as marquises, não é?), e fiquei a admirar a vista. Melhor que vinte embalagens de Testarol.

***

"E ela dança" é o meu quadro preferido cá em casa (a seguir a todos os do Joachim, claro): impressão sobre um tecido ligeiramente dourado, que era usado na RDA para encadernar livros.

o casamento já não é o que era...

Perto da minha casa há uma loja de vestidos de noiva que me dá sempre vontade de rir, por causa da cara dos manequins: parece que estão a casar a contragosto.



09 dezembro 2010

"para uma nova Economia" - agora em versão blogue de gaja

Só porque sou muito vossa amiga, e estamos na época natalícia, hoje vou ser muito boazinha e contar-vos onde se podem encontrar com alguns dos homens mais bonitos e inteligentes que há em Portugal: neste site
Vão ver, vão ver!  Aaah, tantos e tão bons! Até parece Natal.

"para uma nova Economia"

Há tempos, o meu filho criou numa rede tipo facebook um grupo chamado "um dia como os outros: estou sentado no frigorífico, e canto". Juntou-lhe uma fotografia de um homem tristonho sentado num frigorífico, e em meia dúzia de dias tinha mais de mil aderentes.

Por comparação, o número de 1500 apoiantes (até agora) do  texto "Para uma nova Economia" levanta-nos questões inquietantes: Só aderimos ao que é fácil, só nos deixamos envolver em gracinhas inócuas?  Já desistimos de juntar a nossa voz às de outros que exigem e buscam um melhor rumo para o futuro de nós todos?

A Manuela Silva deixou um comentário no meu post anterior sobre esta petição, que repasso aqui por ser uma boa síntese do que está em causa:


"Agradeço a divulgação que faz da tomada de posição Para uma nova economia. Vejo cada assinatura ( e já são mais de mil e quinhentas!) como um sinal de esperança de que uma outra Ciência Económica é possível e desejável pois dela decorrerão efeitos benéficos para a concepção e gestão da economia real. O actual paradigma dominante já produziu evidência bastante para que se reconheça que sacrifica as pessoas no altar do dinheiro. Ou seja: não serve e carece, por isso, de transformação profunda nos seus respectivos pressupostos."

Estamos a atravessar um momento de vertigem: a crise financeira, a crise económica, a crise do euro e a crise mais abrangente que atinge a ideia da União Europeia, a globalização, a alteração profunda das relações de poder internacionais, a crise ecológica, a passagem de um conceito de solidariedade social para um brutal salve-se quem puder - e mais não digo, que isto já é deprimente q.b.
Como escrevem os chineses: crise é sinónimo de oportunidade. Vertigem pode ser viragem. Mais do que nunca importa agora definir os princípios básicos que devem orientar as políticas nacionais e europeias, para não sermos arrastados neste turbilhão destruidor.

a pergunta do dia:

É a internet que está bastante mais lenta, ou tenho um vírus no computador?

Nem sei se confesse...
Imaginei logo que seria a internet, por causa dos milhares de hackers que estão a vingar o Assange, e quase senti alívio por não ser um vírus no meu computador. A ser assim, não é um problema que eu tenha de resolver.

Pronto, confessei. Apenas para que provar que aquelas teorias económicas que defendem que o egoísmo individual permite atingir o máximo bem-estar para todos estão redondamente erradas.

08 dezembro 2010

eu sei que já estão todos fartos de petições, e contudo...

Vale a pena ler esta petição. Quanto mais não seja, isso: ler o texto desta petição.

Também podem assinar, o que lhe daria um pouco mais de força, mas o fundamental é ler esta petição, e deixar-se tomar por uma dúvida impertinente: talvez as coisas não tenham de ser assim. Talvez a última palavra não tenha de ser a do sistema financeiro. Talvez possa haver outras políticas económicas, financeiras e sociais. Talvez não tenham de ser sempre os mesmos a pagar sempre para os mesmos. Talvez a Europa possa reencontrar-se consigo própria a um nível mais elevado de coesão e responsabilidade social.

Vão lá ler, e vão com tempo.

para quem acha que os blogues estão cada vez mais chatos e repetitivos, mais do mesmo, mais do mesmo, aqui vai uma página absolutamente única:

Um texto que vai ao filme "o escafandro e a borboleta", e na volta nos atinge em cheio, no blogue Sem-se-ver.

alea iacta est

Acabámos de comprar um terreno para fazer uma casa. Depois de muita hesitação, convenhamos. Difícil escolher entre um loft no topo de um prédio antigo, com terraço sobre os telhados de Berlim, e uma casa bauhaus com jardim num bairro muito central e sossegado, quase só de moradias.
No fim, venceu o comodismo: estamos sem nervos para convencer vizinhos que é uma grande coisa fazermos um elevador, pô-los a pagar metade do dito, e a aturar o barulho de guindastes por cima das suas cabeças. E também, de algum modo, o calculismo. Lofts, sempre os haverá em Berlim. Mas terrenos para construir naquele bairro, isso será cada vez mais raro. E mais o trampolim gigante do Matthias: dava-me uma coisa má se o visse a tentar saltos mortais no céu sobre Berlim. Eu bem sei que a rede, e tal, mas há coisas que não consigo racionalizar.
De modo que comprámos o terreno para fazer uma casa, e eu fui do escritório do vendedor directamente para a Dussmann ver livros com títulos como "lowest cost houses", "green houses", "great small houses", e assim. Os sofás da Dussmann são uma maravilha.

Agora vai ser uma aflição para decidir se fazemos a casa sobre molas, para evitar a trepidação quando passam os comboios (casas sobre molas? o que eles inventam), ou se uma cave sólida já basta, e se fazemos com as tradicionais paredes exteriores de meio metro ou se, para poupar espaço, fazemos com paredes mais finas, mas com placas de vácuo (placas de vácuo? o que eles inventam!), e se leva uma instalação fotovoltaica ou painéis solares ou ambos os dois, e se aquecemos com gás do Putin ou antecipamos já a próxima chantagem e fazemos logo com geotermia, ou pellets, ou quê. Não esquecer o sistema de ventilação para arejar a casa sem perder calor (e ver se já há solução para humedecer o ar). E decidir como distribuir os espaços, e o que fazer quando os miúdos saírem de casa: ficamos nós com o apartamento de baixo, com terraço e jardim, ou com o de cima, com galeria e terraço no topo? Não percam o próximo inquérito sociológico neste blogue.
E depois, há as revistas de arquitectura que devíamos folhear para ficar com uma ideia de estilos e materiais (eu bem sabia que aquelas centenas de revistas que tenho vindo a juntar nos últimos dez anos me serviriam para alguma coisa) (eu muito gostava de saber quando vou ter tempo para folhear centenas de revistas de arquitectura).

Coitadinho do nosso arquitecto.

pas de deux

Ontem passei uma bela horinha na Filarmonia a ver um pas de deux dançado pelas mãos do András Schiff. Algumas vezes cheguei a desconfiar que Bach tinha um fino sentido de humor.

07 dezembro 2010

enlouqueceram todos?

De um lado, o wikileaks revela lista de infraestruturas "sensíveis". É certo que os terroristas fazem o seu trabalhinho de casa, e até sabem uma ou outra coisita, mas não havia necessidade de lhes servir o trabalho já todo feito na internet.

De outro lado, um apelo para que as pessoas vão levantar o seu dinheiro do banco. Não saberão elas que a falta de liquidez dos bancos provoca imediatas dificuldades à economia?

Que espécie de niilismo é este? De onde nos vem esta febre de autodestruição?

a transparência quando nasce é para todos

(um post à maneira da Rita Dantas)

Site da embaixada americana na Alemanha: Cara Angela Merkel, será possível que o seu país receba meia dúzia de uigures inofensivos que queríamos libertar de Guantanamo? Sendo certo que este é um problema criado pela anterior administração, queremos resolvê-lo rapidamente e de forma digna, e apelamos ao sentido de justiça alemão para bla bla bla.

Fox News: Obama - international gossip against Bush!

Site da Sarah Palin (tradução Speedy Gonzalez): Obama traiu o país! Alta-traição! Pena de morte para os traidores!

Site do FBI (tradução Speedy Gonzalez): Ao abrigo da lei que proíbe o incitamento ao assassinato do Presidente dos EUA, o site de Sarah Palin (conteúdos e visitantes) está sob observação. Os e-mails e computadores dos visitantes serão também objecto de security check.

Site da University of California Berkeley (tradução Speedy Gonzalez): Como é do conhecimento público, o FBI está a preparar uma lista dos visitantes da página de Sarah Palin, que será em breve posta no seu site. Esta universidade publicará as nomes dos seus alunos que fizerem parte dessa lista.

Site do Governador da California: Se a UCB publicar uma lista dos estudantes que consultam um site legal, vamos reduzir em 50% as contribuições para essa universidade.

(Etc., com muitos - fascistas! - comunistas! - Hitler! - terrorista! - evil! pelo meio, várias manifestações, e motins em Los Angeles por causa de um polícia que bateu num african-american que levava um hoody UCB)

Site da chancelaria: Caro embaixador, discutirei no governo essa questão com todo o gosto, porque a Alemanha tem o dever histórico de bla bla bla.

Bildzeitung: Governo tenciona conceder asilo a suspeitos de terrorismo islâmico! Custo: mais de 100.000 euros por ano!

Mesas de café: É sempre assim - os contribuintes alemães pagam tudo!

Mães à porta do infantário: Não queremos aqui terroristas!

Site do governo chinês: Esses prisioneiros são nossos, passem-nos já para cá, caso contrário a Alemanha sofrerá retaliações económicas!
 
Site da célula de convertidos ao Islão, em Hamburgo: Vamos pôr uma bomba na Embaixada da China e outra na sede da Bildzeitung. Mais detalhes serão publicados em breve.

Site da NPD: A Alemanha é dos alemães. Estrangeiros que criam problemas devem ser enviados para o país de proveniência. Os contribuintes alemães não devem pagar o preço dos erros alheios. A América que se organize.  Mensagem urgente para os nossos colaboradores: por favor queimem imediatamente todos os documentos que nos possam incriminar no processo movido por corrupção e falseamento de contas.

Site da CDU: Neste difícil momento, temos de pesar o interesse económico nacional e o artigo primeiro da nossa Constituição. Estamos a criar um grupo de trabalho para estudar as consequências económicas de um possível retaliação chinesa, enquanto tentamos encontrar uma solução criativa para resolver a questão a contento de todos. Pedimos ao povo alemão que participe com opiniões e sugestões a este respeito.

Mesas de café: Buuuuuh! Buuuuuuuh! Buuuuuuh!

Site da CDU, respostas: Os americanos que se organizem! / Temos outros problemas! / Ai os nossos ricos postos de trabalho! / Cambada de nazis! / Vieram pelos uigures, e eu não fiz nada... /


Site da CDU, página Wolfgang Schäuble: É preciso também tomar em conta os custos de vigiar em segredo estes refugiados - são necessários quarenta agentes por cada uigure, porque agora já não há informadores secretos, tem de ser a Polícia a fazer tudo sozinha.


Site da CDU, página Wolfgang Schäuble, comentário de um leitor: Já não são precisos tantos! Agora tudo se faz às claras. Basta pôr um polícia à porta dos homens, e outro a gravar as chamadas telefónicas e os e-mails, a verificar se eles de facto publicam nos seus blogues tudo o que pensam, fazem e estão a preparar.

Der Spiegel: CDU investiga o preço da inviolabilidade da dignidade humana. Aumentam as pressões para autorizar a Polícia a recolher dados de computadores privados.

Site da CDU, página Wolfgang Schäuble: Temos de questionar abertamente que sentido faz gastar tanto dinheiro a respeitar leis obsoletas. Qualquer hacker pode entrar em computadores e publicar o que encontra, mas o Estado alemão está impedido de o fazer para assegurar a Segurança dos cidadãos.

Mesas de café: Apoiado, o Schäuble tem razão!

Site da FDP: Tendo em conta a inviolabilidade da dignidade humana e os nossos deveres históricos, poderíamos eventualmente propor à China contrapartidas comerciais vantajosas para eles? Ou até o nosso apoio para que o próximo mundial de futebol seja na China?

Site da FIFA: E quanto nos pagam a nós, ó senhor da FDP?

Cristiano Ronaldo: Ai eu assim não brinco.

Mesas de café: Lá estão eles outra vez com jogos de cintura! São todos iguais! Por causa de meia dúzia de terroristas estão dispostos a fazer acordos comerciais desvantajosos para a Alemanha, e a obrigar-nos a ir à terra dos amarelos ver o mundial de futebol. O nosso país está à venda, e tudo por causa de uns terroristas de meia tigela.

***

Podia ficar nisto o resto do dia.

Assange preso em Londres

Não simpatizando minimamente com o homem (mas note-se que, dos fundadores do wikileaks, parece ser o menos extremista), nem sei se deva rir ou chorar.
Já é positivo saber que ao menos durante a captura não houve aqueles fatídicos tiros para o ar...
A ver como é que o Estado de Direito vai sair desta difícil prova.

uma ovelhinha para o senhor barbeiro

O concurso de Natal da Barbearia do Senhor Luís já vai bem farto de participantes, aimêdês, e eu que ainda não arranjei tempo para desembrulhar os bonecos do presépio do Canut, lou santonejaire.
É que tenho andado mergulhada nos livros do Quino, especialista de ovelhas e lobos maus, mas (é sempre assim quando se procura uma coisa concreta) até agora não encontrei uma única ovelhinha para amostra (aposto que se procurasse empregados de secretaria mansos, logo à primeira página encontrava um rebanho inteiro, com pastor e cão e lobo e tudo) (é a vida).

Então, ficamos assim: roubei ao Lugares Comuns estas ovelhas negras (não vi por lá nenhuma referência ao concurso, pelo que me parece um roubo legal). Tem-nas em quantidade suficiente para me garantir o primeiro, o segundo e o terceiro prémio do concurso, e mais algumas menções honrosas. Hehehe, já está no papo.


o dia em que se desfizeram duas ideias feitas que eu tinha:

1. Deus premeia as boas acções.

2. Fazer desporto aumenta as defesas do organismo.

Tudo em vão: depois de distribuir pela cidade sete bilhetes gratuitos para um concerto do András Schiff, e apesar de ir ao ginásio quase todos os dias, hoje vou ficar em casa a curar uma infecção de garganta.

há mensagens assim

Há mensagens tão universais, que até em chinês se entendem.
Andava à procura de um filme com a célebre cena em que o chanceler alemão, Willy Brandt, ajoelha em frente ao gueto de Varsóvia, e encontrei isto:



Fez ontem quarenta anos: 7 de Dezembro de 1970.

***

Ao segundo 24 do filme há uma cena que julgo reconhecer: quando os americanos chegaram a Buchenwald e viram todos aqueles horrores, perguntaram aos habitantes de Weimar: então como é, e eles responderam: o quê? ai, não me diga, e nós aqui sem saber de nada...
Pelo que o comandante americano os obrigou a fazer uma pequena excursão até ao campo, para aumentarem um bocadinho a sua cultura geral - são essas pessoas que se vêem a desfilar junto a um monte de cadáveres.
Depois os russos reabriram o campo, e a população de Weimar continuava a fazer questão de não querer saber, mesmo muitos anos depois de os prisioneiros dos russos terem saído de Buchenwald.

Não é que a população de Weimar seja diferente das outras. Nas mesmas condições, o que é que cada um de nós faria?

Já viram o filme "Sophie Scholl"? Uma grande resposta a esta pergunta.

E o exemplo de Willy Brandt: assumir o horror do passado como dever de construir a reconciliação.

06 dezembro 2010

fim da tarde no Wannsee



A tradição da fogueira na margem do Wannsee já vai na sua quarta edição. Por enquanto, ainda contamos.
Aquela paisagem muda a uma incrível velocidade. A neve cobre a areia e as árvores caídas. Na água menos profunda há placas de gelo sobrepostas, que fizeram a alegria dos miúdos: "olha! isto dá para brincar!"
Dá, dá: quebrar bocados de gelo, e ver quem os consegue fazer deslizar até mais longe sobre a superfície irregular do lago.
Passámos duas horitas entregues às ocupações habituais: o Joachim cuidava da fogueira, os miúdos brincavam, eu ralhava ("se algum de vocês cai à água acabou-se a brincadeira no mesmo instante, ouviram?"). E volta e meia fazíamos todos tréguas, para beber o punch ainda quente, comer bolachinhas de Natal, e conversar com as pessoas que passavam e se vinham aquecer um pouco junto ao fogo.







mercado de Natal em Blankensee



Sábado foi dia de passeio até Blankensee, para o mercado de Natal da Johannische Kirche.
Um mercado muito diferente dos que costumamos ver. Como se bastasse andar quarenta quilómetros em direcção ao sudoeste de Berlim para voltar a um tempo mítico anterior à nossa própria infância.

Esta comunidade cristã nasceu no princípio do século XX, centrada em Joseph Weißenberg, que eles acreditam ser profeta. A princípio, as coisas correram bem: a dinâmica envolveu dezenas de milhares de pessoas que juntaram donativos em valor suficiente para construir junto a Blankensee uma colónia a todos os títulos famosa, Friedenstadt (Cidade da Paz). Nela se encontravam habitações a preços baixos e edifícios comuns para reuniões e festas, hospital, escolas e lar de terceira idade. Uma comunidade solidária, baseada na espiritualidade e em valores cristãos.
Os nazis começaram a criar problemas já em 1935. Perseguiram Joseph Weißenberg e ocuparam os edifícios, usando alguns deles como campo satélite de Sachsenhausen. No fim da guerra, foram-se os nazis, vieram os russos A igreja foi imediatamente devolvida à comunidade, com um pedido do comandante russo: "rezem também por nós". A relação com estes ocupantes foi bem mais pacífica que com os nazis. Após a reunificação, todas as propriedades foram restituídas. Hoje em dia moram lá cerca de 400 pessoas.
Na igreja optou-se por um minimalismo ecuménico: sobre o altar lê-se a frase "Deus é amor", e a comunhão é oferecida a todos os presentes, sem imposição de partilha da mesma crença.



Todos os anos, no segundo fim-de-semana de Advento, fazem um mercado de Natal. O edifício da igreja é transformado em café, sala de concertos e mercado. Ao ar livre há um stand para fazer velas, vários para venda de artesanato feito sobretudo por pessoas da comunidade, padarias e charcutarias com produtos biológicos de uma quinta que a comunidade tem na Baviera. E várias barraquinhas de comida típica alemã - carne assada com chucrute ou couve roxa, salsichas grelhadas e goulach com carne de caça. Para as crianças há uma tenda mágica onde são lidos contos (os pais gostam ainda mais que os filhos), ovelhas para tocar e acariciar, cavalos para ir dar uma voltinha.


A seguir à simplicidade, o que mais chama a atenção é o ambiente de boa disposição entre os vendedores e organizadores. Como se o mercado fosse para eles uma festa.

Estes Pais Natais, por exemplo: os miúdos pagam uma moeda, empurram uma alavanca (a mão de um deles) e os três desatam a vibrar, metem a mão no saco e tiram um fruto. Se os três têm um fruto igual, o miúdo ganha um prémio. Tão simples, e tão engraçado.







Ou este fiador de lã, que explica cheio de paciência como se faz esse trabalho, e volta e meia vai dar uma volta: dois dedos de conversa com uma mulher que está a vender aipo panado com beterraba ("a minha avó é que cozinhou a beterraba, daqui a bocadinho já lhe dá a receita"), uma piada trocada com o cozinheiro que serve o goulach de javali.



Nas traseiras de uma barraca descobrimos, fascinados, um dos segredos para o sucesso da iniciativa: uma lista de tarefas que é preciso executar, com um espaço em branco para as pessoas porem o seu nome, e pequenas tiras com a descrição da tarefa e a hora a que deve ser realizada. Por exemplo: lavar a louça do café, sábado, 13:30 - 14:00. As pessoas vêem o que é preciso fazer, inscrevem-se, e levam consigo a tira para se lembrarem.


Comprámos vinho quente - queríamos apenas duas canecas, mas a simpática da moça encheu-nos a garrafa térmica - e fomos para o Wannsee fazer a fogueirinha.

números em forma de bonecos

Pelo que vejo, comecei a estudar estatística trinta anos antes do que devia: agora é muito mais animado.

(via Jansenista)

05 dezembro 2010

já disse hoje que gosto muito de viver em Berlim?

Então: gosto muito de viver em Berlim.

Hoje, por exemplo. Fui para a Filarmonia tentar arranjar bilhetes acessíveis para um concerto com o Simon Rattle e a Anne-Sophie Mutter. Esperei duas horas e meia, tempo mais que suficiente para meter conversa com o pessoal ao lado. Pouco depois da abertura das caixas passaram por nós duas pessoas muito risonhas. Tinham vindo às seis e meia da manhã, e esperado até às oito à porta, com temperaturas aí pelos 10 graus negativos. Quatro horas e meia de espera (trinham trazido bancos), mas já tinham os bilhetinhos. São malucos, mas bem dispostos - o que é um dos charmes desta cidade.
Quando chegou a minha vez, ainda estavam disponíveis praticamente todos os bilhetes - excepto os de 110€, que hoje por acaso não me apetecia comprar.

Fui perguntando por outros concertos, e tal, e de repente a surpresa: estavam a *oferecer* um concerto inteiro do András Schiff a tocar as variações Golberg. É na próxima terça, às dez da noite, e deram-me oito bilhetes.

Já disse hoje que gosto muito de viver em Berlim?

mercado de Natal

Para quem vive em Berlim: este fim-de-semana (4 e 5 de Dezembro) vale a pena dar um saltinho a Blankensee para um mercado de Natal delicioso. Fica a sudoeste de Berlim, uma viagem de cerca de 40 minutos de carro.
Depois explico os detalhes. Para já, digo que é o mercado mais calmo, mais alegre e mais tradicional que conheço. Talvez até lhe possa chamar: o verdadeiro espírito de Natal.

Se soubesse como pôr fotografias nesta nova versão do software, punha. Mas hoje também não tenho tempo para tratar disso. Melhores dias virão.

03 dezembro 2010

uma questão de técnica

Embora seja sexta-feira, ouso escrever um post técnico para os blogueiros. Uma coisa séria.

Lembram-se do saudoso Technorati? Também lhe sentem a falta para saber se algum blog fez um link para o vosso?
Pois bem, meus amigos, acabei de descobrir uma janelinha de oportunidade. No blogger, usando a versão mais recente, abre-se um "new post", escolhe-se "preview" e aparece uma janela nova, para ver como aparecerá o post que se está a escrever, e sob ele, tã tã tã rãããã!, uma coisa chamada "links para este post", o que é mentira, porque são os links para todo o blogue!

O quê?! Já sabiam?! Malandros, não disseram nada...
;-)

02 dezembro 2010

o wikileaks e nós

É uma curiosa ironia que tenham sido justamente os EUA a primeira grande vítima do seu próprio esforço de recolha de informações para combate ao terrorismo. Com efeito, o 11 de Setembro mostrou que os serviços de informação estavam a funcionar com deficiências: a mão direita não sabia o que a esquerda fazia. Para corrigir o erro, decidiram unir várias bases de dados, o que resultou em centenas de milhares de pessoas a terem acesso a demasiados documentos secretos. Como dizia um jornal alemão: o mais surpreendente é que esta fuga não tenha ocorrido mais cedo.

Pergunto-me como será o futuro da diplomacia. Como é que os representantes dos Estados discutirão entre si se não estiverem seguros da confidencialidade do que é dito? Como poderão fazer análises e procurar encontrar soluções em conjunto com outros, se desconfiam que cada palavra sua pode aparecer no jornal no dia seguinte? É certo que o wikileaks revelou situações escandalosas. Mas, no fundo, nada disto chega a ser novidade. E o preço que pagámos por estas revelações, expresso na futura falta de confiança e liberdade nos diálogos diplomáticos entre Estados, é altíssimo. Valeu a pena?

Quanto às revelações: deixando de lado as coscuvilhices sobre os políticos (e o que me custa ver jornais que eu estimava a descerem tão baixo!), as referências a regimes ditatoriais, ou a Estados de democracia ainda frágil, podem ter violentas consequências. Esperemos que não ocorram atentados nem deflagrem conflitos sangrentos gerados por esta iniciativa do "dominó da transparência".

Tenho ouvido em Portugal várias vozes de apoio à acção do wikileaks, com as quais não posso concordar. Admito que seja entendida como menos chocante por quem vive num país onde há pouca confiança no Estado de Direito, há frequentes fugas ao segredo de justiça, se fazem análises em público totalmente avessas à ética profissional e se publicam escutas obtidas ilegalmente. Pouco faltará para passar para a fase seguinte: justiceiros franco-atiradores a dar o seu contributo aos processos em curso, ou a usar a internet para vinganças privadas. Se pensam que "só" o Carlos Cruz e os McCann correm riscos, estão um bocadinho enganados.

Este episódio constitui exemplo e confirmação dos piores cenários que se possam imaginar. Já existe imenso material, guardado em inúmeros locais sobre os quais não temos o menor controle. Tudo: multibanco, via verde, conta bancária, cartões de clientes das lojas, cartões de crédito, endereço de e-mail nos comentários dos blogues e nas petições, lista telefónica digital, facebook, registos de contribuinte, leitores do site wikileaks, viagens, história clínica, etc. etc. etc.
Enquanto se discute se a Europa pode ou não disponibilizar aos EUA dados sobre os viajantes, vemo-nos confrontados com esta realidade assustadora: basta um hacker habilidoso e um wikileaks qualquer para que a vida de cada indivíduo seja exposta na internet. Preto no branco, com nomes, datas e números. 

É um cancro com potencial para alastrar ao mundo inteiro. É possível evitá-lo? Creio que não, tanto mais que no teste da acção combinada wikileaks + meios de comunicação social, estes últimos falharam. Os jornais (que analisaram os documentos, combinaram entre si linhas de orientação, pesaram o interesse da notícia com os riscos da revelação) não resistiram ao impulso de se lançarem numa ignóbil chafurdice de quem diz o quê sobre quem. Nojento. E assustador. Se é assim que eles tratam textos diplomáticos de avaliação de políticos concretos, cuja revelação, não tendo qualquer interesse noticioso, prejudica a confiança entre os Estados, como é que tratarão os dados sobre mim, que algum hacker facilmente lhes fornecerá, um dia que as Finanças decidam que eu as ando a enganar há vinte anos? Lá está: "vieram pelos comunistas, e eu não reagi; vieram pelos judeus, etc."

No entanto, a questão é muito mais ampla que a dos riscos que cada um de nós corre.
Citando Peter von Becker: "O buraco da fechadura é maior que a porta. O mundo transforma-se num bordel e simultaneamente num tribunal dos novos polícias de costumes". Finalmente, ele aí está: não um, mas milhentos Big Brothers diferentes, atentos a tudo e a todos.
Chegamos a uma situação em que temos demasiada informação, posta a circular por pessoas de quem não se conhece nem o rosto, nem os objectivos, nem os princípios éticos. Como nos podemos orientar no meio de tanto ruído mais ou menos informativo, de tantos eventuais escândalos? Como conviver com o risco permanente da devassa da nossa vida privada e de ataques permanentes à imagem dos nossos governantes?

É urgente um debate sobre o rumo que consideramos saudável para as nossas sociedades neste tempo de internet, anonimato, e liberdade de expressão confundida com libertinagem do discurso. Apesar das óbvias limitações na aplicação prática, seria muito positivo tentar definir em conjunto pontos de referência éticos para um caminho comum no tempo da internet.

"os pensamentos são livres"

"Die Gendanken sind frei" é uma canção muito popular, divulgada em finais do séc.XVIII numa versão final de Fallersleben (o autor do hino nacional alemão), e sempre usada em situações de opressão política ou de luta por liberdade e independência.
Foi cantada nas revoltas estudantis dos princípios do séc.XIX, foi tocada à flauta por Sophie Scholl em frente à cadeia onde o pai estava preso por ter feito críticas a Hitler, foi entoada num impulso pelos 300.000 berlinenses que assistiram ao discurso de Ernst Reuter que terminava com o apelo: "povos de todo o mundo, olhai para esta cidade!"
(isto é tudo sabedoria wikipedia)

Neste vídeo-gracinha é cantada por Wolfgang Schäuble, que enquanto ministro do interior defendia a possibilidade de passar revista aos computadores das pessoas suspeitas de serem terroristas:



Segue-se a tradução, que encontrei no blogue "Rubra Bandeira" (cujo autor pensa que este texto é de Karl Marx, hihihi):

Os pensamentos são livres!
Quem pode adivinhá-los?
Eles passam voando
Como sombras da noite.
Ninguém pode sabê-los,
Ninguém pode atingí-los,
Não há como mudar:
Os pensamentos são livres!

Eu penso o que eu quero,
E tudo o que me agrada,
Mas tudo em silêncio
Sem chamar a atenção.
Meu desejo e meu anseio
Ninguém pode impedir.
Não há como mudar:
Os pensamentos são livres!

E se eu for aprisionado
No mais sinistro calabouço,
Tudo isto será obra
Inútil e também vã;
Pois os meus pensamentos
Partem os grilhões
E os muros em dois:
Os pensamentos são livres!

Por isto para sempre
Deixarei de lado preocupações
Deixarei de lado para sempre
Os meus temores
Pois no coração sempre
Será possível rir e ser alegre
E ao mesmo tempo pensar:
Os pensamentos são livres.

o mundo como bordel e tribunal

Peter von Becker, no Tagesspiegel:
"Há muito que a revolução digital atingiu não apenas todas as esferas privadas e sociais, mas também (quase) todas as políticas e económicas. Se dantes eram necessárias operações à James Bond, demoradas e perigosas, com assaltos, câmaras secretas, microfilmes e passagens de pastas com documentos secretos, hoje basta ter telemóvel, computador e pen. Para cada ficheiro existe, para além do hacker, pessoas que sabem da sua existência. Além disso, todos os dados dão a volta ao mundo. As repartições de Finanças recebem cada vez mais listas de contas de pessoas que fogem aos impostos, a espionagem industrial experimenta novos caminhos, e onde houver um mercenário, ou um idealista, a tendência é para que nada permaneça secreto. O buraco da fechadura é maior que a porta. O mundo transforma-se num bordel e simultaneamente num tribunal dos novos polícias de costumes."

(sublinhado meu)

01 dezembro 2010

a questão que realmente importa hoje, e prometo que depois deste post vos deixo em paz

Hoje à noite temos visitas. Um cirurgião especialista em transplantações de mãos e rostos. Eu, que já morria de respeitinho por um amigo nosso capaz de transplantar corações por endoscopia (talvez esteja a exagerar um pouco), vejo aumentar o meu temor perante tamanha sumidade na área de peças e reparações.
A pergunta que realmente importa hoje é: acham que faça isto,  ou antes isto, para o jantar?

(acho que não é nem muçulmano nem judeu, acho que não é vegetariano, esqueci-me de perguntar, e agora não posso ir interromper-lhe uma operação, sei lá se ele se confunde todo e sem querer acaba por unir um nervo com um tendão)

achegas importantes para um debate sobre o wikileaks e o jornalismo

Via jugular (este excelente post da Fernanda Câncio) chego a outro, clarividente, escrito em 2007 pela Shyznogud: os Justiceiros.
Ambos imprescindíveis.
Também Laurent Joffrin aponta um elemento importante (via Público):

"Transparência, transparência... seria a lei e os profetas?", interroga-se Laurent Joffrin no editorial de Libération. "Num mundo atravessado por conflitos violentos, o Estado não pode agir sob o olhar instantâneo da opinião. Tem o direito de conservar os segredos de defesa e discutir discretamente com os aliados ou com os adversários.

Conclusão de Joffrin: "Mesmo a democracia mais aberta e preocupada com os direitos humanos tem necessidade de um Estado. É um paradoxo ver o WikiLeaks só atacar as democracias, deixando de lado as ditaduras mais opacas e repressivas. E é reconfortante ver que as conversas secretas das grandes democracias são no fundo pouco diferentes do seu discurso público".


Quanto ao contraditório: este texto, entre outros.
Não me vou dar ao trabalho de traduzir a justificação do Spiegel, porque é sempre a mesma coisa (também se encontra em francês, inglês e espanhol): o wikileaks é mau, mas nós, os jornalistas, sabemos muito bem o que estamos a fazer e temos o dever de informar (e quem vier atrás que feche a porta, acrescento eu).

suspeito que há algo positivo nesta acção do wikileaks

É uma mera suspeita, porque não tenciono ler nem as notícias detalhadas nos jornais "escolhidos" (diz-me com quem andas...) nem o site propriamente dito, mas admito que tenha alguma base de sustentação.
Muito se tem revelado sobre o que os americanos dizem do Westerwelle, o ministro dos negócios estrangeiros alemão que há meses casou com o seu companheiro. Que é vaidoso, incompetente, politicamente imaturo, etc. Mas não ouvi ainda a menor referência à sua homossexualidade. Que não é segredo, convenhamos - como não é segredo para ninguém que o homem é um bocadinho vaidoso, incompetente, etc.
Que os diplomatas americanos não vejam a necessidade de incluir essa informação nos seus relatórios já é uma óptima notícia.
Ao menos isso.

dez graus negativos - actualização

Já não bastava o frio lá fora. Agora está também cá dentro, porque as janelas do prédio são de antes da primeira guerra mundial (1910, mais coisa menos coisa) e andam aí uns canalizadores a fazer fosquinhas no sistema de aquecimento, para o que foi preciso, antes de mais, desligá-lo.
Estou a trabalhar de luvas e gorro.

mais uma boa gracinha do Maradona

Copio o post inteirinho, título incluído (daqui)

O Wikileaks está em vias de me tornar mais pró-americano que o produto do acasalamento entre o João Carlos Espada (sujeito passivo) e o João César das Neves (sujeito activo)
Last year, King Abdullah of Saudi Arabia proposed an unorthodox way to return Guantánamo Bay prisoners to a chaotic country like Yemen without fear that they would disappear and join a terrorist group.

The king told a top White House aide, John O. Brennan, that the United States should implant an electronic chip in each detainee to track his movements, as is sometimes done with horses and falcons.

“Horses don’t have good lawyers,” Mr. Brennan replied.

Aqui.

dez graus negativos

E um vento gelado que faz rodopiar os flocos de neve.
Se quiserem que eu traduza mais alguma coisa, digam. Hoje preciso mesmo de trabalhar para aquecer...