30 maio 2019

"parlamento europeu" (2/3 - duas provocações)

Mais um post que trago da Enciclopédia Ilustrada, com algumas alterações resultantes dos comentários que suscitou:

E agora duas brutas provocações (eu avisei, OK?) a propósito das eleições para o #Parlamento_Europeu e da abstenção:

1. Os 751 lugares de deputados são divididos proporcionalmente pelos vários países, segundo o peso demográfico de cada um deles na União. Assim, a Alemanha tem 96 destes 750, e Portugal tem 21.
O que eu sugiro (é a tal bruta provocação) é que esses números sejam vistos como número máximo de lugares que um país pode ocupar. Se só votarem metade dos eleitores, Portugal elege 11 representantes em vez de 21; e a Alemanha elege 48 em vez de 96.
Talvez assim os eleitores de cada país se enchessem de brios, e fossem votar por ser tão claro que a sua abstenção tinha consequências directas para o seu país.
E se quisesse ser mesmo mesmo mesmo brutalmente provocadora, diria que os lugares deixados vagos pelos eleitores de alguns países fossem entregues aos países com taxas de participação acima de 90%. Que tal, heinhe?

2. A segunda bruta provocação: as pessoas só deviam poder votar depois de terem respondido aos questionários que ajudam a decidir que partido responde melhor às escolhas de cada um (EUandI, por exemplo).


"parlamento europeu" (1/3 - "Ah, e tal, não se sabe o que andam lá a fazer...")

Recentemente, e como não poderia deixar de ser, o tema na Enciclopédia Ilustrada foi o Parlamento Europeu. Participei com três posts. Dir-se-ia que me é um tema caro...
Aqui deixo o primeiro desses três. Os outros seguirão em breve.





Hoje estou mesmo a ter azar com os amigos! Não concordo nada nem com o que diz aqui o Luís Aguiar-Conraria sobre o #Parlamento_Europeu, nem concordo com o que disse o Carlos Moreira num post anterior.

Por partes, seguindo o artigo do Luís Aguiar-Conraria: o Parlamento Europeu não tem culpa que a televisão portuguesa prefira abrir os noticiários com um autocarro que vai buscar jogadores de futebol não sei quê ao hotel deles. Na Alemanha, o Parlamento Europeu já foi muitas vezes assunto bem importante nos noticiários - tanto televisivos como outros.
O caso mais recente foi o artigo 13. Pessoalmente, tinha enormes esperanças que o Parlamento o chumbasse. Infelizmente, ainda vacilou - porque ouviu realmente o protesto do povo - mas acabou por não chumbar. Daqui a uns tempos, quando se irritarem muito com as consequências do artigo que foi aprovado, vão perceber um dos motivos pelos quais era muito importante ter votado no domingo passado, e em quem.
Mas há muito mais, e tudo isso tem sido notícia de primeira página na Alemanha.
Repararam que agora já não se paga roaming nas viagens dentro da Europa? Foi o Parlamento Europeu.
Lembram-se daquela altura em que tudo o que era newsletter nos perguntava se queríamos continuar a receber notícias? Foi o Parlamento Europeu.
Notaram que as viagens de avião estão muito mais baratas? Foi o Parlamento Europeu.
Sabem que a qualidade da água das redes de cada país da UE tem de respeitar determinados mínimos? Foram estabelecidos pelo Parlamento Europeu.
Viram o que aconteceu ao TTIP? Ia ser assinado, mas houve uma sublevação geral entre os povos europeus, e o Parlamento recuou. As notícias que li em Março apontam para o fim das negociações, decidido no - lá está - Parlamento Europeu. Este é um dos exemplos mais importantes para mostrar que a nossa opinião conta, e é ouvida no Parlamento Europeu.

Ah, e já me esquecia: é o Parlamento Europeu que elege o presidente da Comissão Europeia. O que deve fazer pensar um pouco no sentido e na importância do nosso voto: queremos que o presidente seja eleito por uma maioria de esquerda ou de direita, queremos evitar que a extrema-direita xenófoba (cada vez mais forte na Europa) tenha uma palavra a dizer nessa escolha?

Sigo a Marisa Matias no facebook, o que me permite ter uma ideia do trabalho que ela faz, e de alguns temas importantes para o Parlamento. Não sigo os outros deputados, mas o que vejo do trabalho da Marisa Matias basta-me para afirmar aqui que é uma tremenda injustiça reduzir os deputados europeus a "pessoas que vão receber salários principescos durante os próximos cinco anos", como dizia o Luís Aguiar-Conraria no seu artigo.

Um artigo do meu jornal berlinense favorito chama ao Parlamento Europeu "o gigante subestimado". O gigante está lá, tem um papel fundamental em muitas das leis que são criadas em Portugal (e nos outros países europeus, obviamente), e até tem grandes preocupações de transparência. Mas: os deputados não podem fazer por nós o trabalho de ir ao site do Parlamento ou dos deputados e ler o que têm andado a fazer. E, como disse no princípio, também não têm culpa das opções dos órgãos de comunicação social de cada país.


29 maio 2019

bailero




Amanhã é feriado na Alemanha, e na sexta faço ponte.
Sinto-me como se fosse fim-de-semana, e começo-o com este "bailero".
Em sossego.


procura-se: pais adoptivos para uma espécie de Tântalo de Berlim

Sabem aquilo de os filhos dos meus amigos terem muito sucesso na vida, de que falava há dias?

Pois, estava aqui a pensar que se calhar algum dos meus amigos me podia adoptar, a ver se a vida me começa a correr melhor. Concretamente, dava-me jeito que melhorasse ali para os lados do preço dos bilhetes para concertos em Berlim. É que já para conseguir um bilhete para o Caetano tive de o comprar às escondidas de mim mesma, e hoje liguei para ver se se arranjava um milagre para o concerto da Grimaud, mas parece que não. O mais barato custa 48 euros.

Assim não dá, que mais pareço o Tântalo: numa cidade cheia de concertos fantásticos, e não tenho como os comprar!

(Também aceito ser adoptada por divorciados - ouvi dizer que os filhos dos divorciados recebem mais dinheiro e presentes dos pais.)

para quem pensa que a reunificação alemã já está concluída (2)


(fonte: Spiegel)


O post anterior suscitou duas perguntas no facebook:

- O que é a AfD?
- "O homem novo do socialismo é neo nazi? A forma como foi feita a reunificação explica tudo? Quer dizer, a revolta contra o capital sem ética leva à AfD?"
Não sou jornalista nem especialista de análises sociais. Limito-me a relatar o que tenho observado nestes anos que tenho vivido na Alemanha, para onde vim viver em 1989, três dias antes da queda do muro.

1. A AfD é a "Alternativa para a Alemanha", o partido populista de extrema-direita que nasceu na internet, começou por ser contra o euro, depois optou por ser contra os refugiados porque viu que o tema euro não lhe dava votos. Alguns dos seus dirigentes fazem afirmações que provocam sempre enorme comoção no país (ideias como: se for preciso, defenderemos as fronteiras da Europa a tiro; ou: os alemães têm o direito de se orgulharem da sua gloriosa História - o período nazi foi apenas uma cagadela de pássaro que não deve ofuscar o resto). Uma vez ditas, estas frases instalam-se no debate público e muitas pessoas sentem-se autorizadas a baixar ainda mais o limiar da decência.
Os refugiados, que não chegam a 2% da população,
não são propriamente um problema para a Alemanha, mas a AfD soube incutir medos e capitalizar invejas para conquistar eleitorado, e conseguiu transformar um não-problema numa questão central para quase todos os partidos. A coligação CDU/CSU foi profundamente abalada e castigada por isso, enquanto a opção dos Verdes de se manterem à margem dessa discussão foi muito premiada por parte do eleitorado nas últimas legislativas. 


2. O mapa mostra como a AfD se instala na região da antiga RDA, e faz-me imediatamente pensar
no nome que se dava ao pessoal da zona de Dresden: Tal der Ahnungslosen (Vale dos "Que Estão a Leste"). As ondas de rádio e televisão da Alemanha ocidental não chegavam lá. Trinta anos depois, ainda se nota bastante bem neste mapa quais eram as regiões inteiramente à mercê da propaganda do regime comunista.
Para além da propaganda comunista como impedimento para a maturidade democrática, há o problema da reunificação em si: muitos desses eleitores são pessoas que
perderam  o seu país, e em troca receberam desemprego e falta de perspectivas. A reunificação foi uma "anexação": demasiado rápida, pouco transparente, economica e simbolicamente muito violenta e arrogante. As pessoas da RDA perderam o país, o trabalho, as creches ("o lugar da mãe é em casa"), e a ideia de que eram respeitadas.
Em Forst, antiga cidade têxtil, contaram-me que a Treuhand (o organismo que privatizou essa economia) fez questão de ignorar as iniciativas de operários para comprar as empresas, vendendo-as por tuta e meia a investidores internacionais que levaram as melhores máquinas e fecharam o resto. Em Weimar, vi como um desses investidores arrasava as pessoas e a moral empresarial (aquela coisa da responsabilidade social do capital, etc.) para poder vender as empresas com lucro. Em Jena vi fecharem a secção de peças de vidro com design da Bauhaus (Wagenfeld, etc.), que teria imenso mercado internacional se quisessem apostar nela, para começarem a fazer apenas placas cerâmicas para fogões. Em Berlim, dando a desculpa de ser preciso tirar o amianto, arrasaram o Palast der Republik (o Parlamento da RDA, que tinha espaços públicos para iniciativas culturais e eventos vários, onde os cidadãos podiam fazer as suas festas privadas e portanto estava ligado a recordações felizes de inúmeros cidadãos da RDA). E como se não bastasse, em substituição do Parlamento da RDA construíram de novo o palácio do Kaiser.

Para completar o quadro, alguns factos, por ordem cronológica:
- A RDA não foi confrontada com a herança nazi. Os nazis ficaram na Alemanha ocidental, e na RDA só havia o homem novo do socia
lismo. Por definição, claro. A verdade é que houve muitos nazis que fugiram da parte ocidental para a oriental, porque lá se sentiam mais seguros.
- Na RDA não havia muitos estrangeiros - o que contribui para aumentar a xenofobia e a desconfiança.
- A reunificação - e depois o alargamento da UE a Leste - destruiu a já de si muito frágil economia da região da antiga RDA. Ninguém investe em fábricas na Saxónia, por exemplo, se tem mesmo ao lado trabalhadores polacos e checos igualmente excelentes e muito mais baratos. Em Berlim, que fica a 80 km da Polónia, há muitas empreitadas entregues a polacos, com custos bem inferiores aos dos alemães.
- Muitas regiões da antiga RDA estão em processo de desertificação. As pessoas que restam têm condições de vida cada vez mais difíceis. Por exemplo: os médico s especialistas cobrem uma área cada vez maior, o que significa que as pessoas têm de fazer longas viagens para ir ao médico.
- Muitos pais de família vão trabalhar durante a semana na parte ocidental do país, e vêm a casa ao fim-de-semana (onde a mulher fica a tomar conta dos filhos e dos avós da família): nas gerações mais jovens, geralmente são as raparigas que saem em busca de emprego, deixando para trás homens jovens frustrados, zangados e sem uma companheira que lhes dê algum equilíbrio emocional.
- Desertificação rápida significa que há muitos edifícios vazios. Em 2015, quando entravam milhares de refugiados no país todos os dias, esses edifícios foram uma boa solução de recurso para os alojar. O problema é que em alguns casos havia demasiados estrangeiros para as poucas pessoas da localidade.
- A inveja: "para os refugiados há dinheiro, e para nós não há?"
- Começou-se a falar agora no fenómeno dos filhos dos deserdados da RDA, que mesmo tendo nascido já na Alemanha reunificada sentem a perda com mais intensidade que os próprios pais.

Penso que o problema não é bem a revolta contra o capital sem ética. O problema é sentirem-se abandonados pelo Estado, que na RDA garantia a satisfação de todas as necessidades básicas (excepto a liberdade...) e na Alemanha unificada deixa as pessoas num limbo de insegurança e falta de perspectivas. 

 
No verão passado apareceu um vídeo que exemplificava muito bem o fenómeno. Em Chemnitz, uma manifestação de neonazis e AfDs com as palavras de ordem habituais ("esta terra é nossa" e "nós somos o povo") descarrilou completamente quando bandos de homens desataram a correr atrás dos estrangeiros que encontrassem na rua, para os intimidar e agredir.
A televisão foi a Chemnitz, entrevistou alguns dos participantes, e um deles disse: "eu trabalhei quarenta anos!"
É preciso resolver o problema destas pessoas que trabalharam quarenta anos e agora se vêem em risco de ter uma reforma miserável, e daqueles que não encontram emprego na região à qual se sentem ligados (e não querem ser tratados como "estrangeiros" noutro Estado da Federação).


Os partidos democráticos têm de saber manter uma posição firme em relação a discursos xenófobos e nacionalistas, e simultaneamente dar às pessoas perspectivas de resolução dos seus problemas  concretos. Que, na região da antiga RDA, estão longe de ser a ameaça da "islamização do ocidente", mas são sobretudo resultado de uma reunificação feita a toda a velocidade, mal concebida e mal resolvida. A par dos outros problemas que afectam o país como um todo: a distribuição cada vez mais desigual da riqueza e a destruição do planeta e do futuro dos nossos filhos.


28 maio 2019

para quem pensa que a reunificação alemã já está concluída


Para quem pensa que a reunificação alemã já está concluída, deixo aqui um mapa que trouxe do Spiegel (este artigo). A preto estão as regiões que votaram maioritariamente na CDU, a vermelho no SPD, a verde nos Verdes, a azul na CSU (simplificando: a CDU da Baviera).

E a cinzento/azulado são as regiões que votaram maioritariamente na AfD - que ficou em primeiro lugar em mais de metade do antigo território da RDA.


a preço de amigo

Aviso à navegação: as olimpíadas musicais 2019 foram ganhas pelo filho de amigos meus, e a filha de outro amigo meu ganhou a supertmatik de matemática.

Portanto: quem quiser que os seus filhos vão muito longe, deve começar por se tornar meu amigo.

Estou a pensar numa tabela de preços de amigo para:
- amizade gold - primeiros prémios
- amizade normal - participação e menção honrosa
- amizade da onça (gratuita) - o primeiro prémio vai para os filhos dos amigos do costume, ou então para os meus sobrinhos, que fazem um figurão no EUCYS
 
Agora com licencinha, vou preparar um formulário para os interessados se inscreverem, e já cá volto. 
 
 

27 maio 2019

eleições europeias: duplas nacionalidades, residentes no estrangeiro, abstenção

Este fim-de-semana falei com um amigo que é espanhol e alemão, e - segundo me disse - está inscrito como eleitor nos dois países, e ontem teria podido votar duas vezes. Já eu, que resido na Alemanha mas tenho apenas uma nacionalidade, a portuguesa, tive de escolher: para o Parlamento Europeu, ou voto no sistema alemão, ou no português. Segundo me informaram no Consulado, apesar de continuar inscrita nos cadernos eleitorais portugueses, a Alemanha deu indicações para me bloquearem nestas eleições, uma vez que estava inscrita no sistema alemão. 

O que me levanta uma primeira questão sobre as eleições para o Parlamento Europeu:
- Uma nacionalidade europeia = um voto (ou nos candidatos do país de residência, ou nos do país da nacionalidade)
- Dupla nacionalidade europeia = dois votos (um em cada país)
- Tripla nacionalidade europeia = três votos
É mesmo assim?

Caso seja mesmo assim, segunda questão: não tenho opinião sobre a possibilidade de pessoas com mais do que uma nacionalidade poderem votar nas eleições nacionais de cada um dos seus países; em compensação, parece-me a todos os títulos inaceitável que um cidadão europeu com mais de uma nacionalidade possa ter mais do que um voto nas eleições europeias. Que resposta é que a União Europeia e os governos nacionais estão a dar a esta situação?

Terceira questão: quanto dos valores da abstenção em cada país estão distorcidos pelo facto de pessoas com dupla nacionalidade europeia terem votado apenas num dos países, apesar de contarem como eleitores em ambos? É que acredito que em cada país haja um entendimento com os Consulados, para evitar que as pessoas votem em duas mesas diferentes na mesma eleição, mas duvido (corrijam-se se estou errada) que haja um controle para verificar a situação das pessoas com dupla nacionalidade.


Quarta questão: será que em Berlim a taxa de abstenção dos portugueses foi mesmo 92,6%?
Segundo o site do MAI, havia 4.379 portugueses inscritos no Consulado de Berlim e só 324 (7,4%) votaram nestas eleições para o Parlamento Europeu. Nas eleições presidenciais de 2016 havia 488 inscritos e 196 foram votar (40,16%). Em termos absolutos, entre 2016 e 2018 houve um grande aumento no número de pessoas que se deslocou ao Consulado para votar. Mais ainda: dos 196 votantes de 2016, alguns (como foi o meu caso) desta vez não podiam votar no Consulado, porque escolheram votar no sistema alemão. Acredito que muitos dos portugueses desta área consular, mas que vivem longe de Berlim, tenham também optado por votar no sistema alemão e, no seu próprio interesse, tenham ido votar num partido europeísta qualquer.

Ou seja: tenho sérias dúvidas sobre aquela taxa de abstenção de 92,6% no Consulado de Berlim. Gostava que me esclarecessem se o total de 4.279 corresponde aos portugueses autorizados a votar no Consulado nestas eleições, ou se corresponde a todos os portugueses inscritos nos cadernos eleitorais do Consulado (e, nesse caso, quantos deles estavam autorizados a votar no Consulado nestas eleições).
É que, se houve realmente 4.279 portugueses que, podendo votar ao pé de casa, escolheram votar no Consulado, e desses só 7% é que se deram ao trabalho de ir votar nas eleições que mais decisivas são para o bem estar dos europeus residentes em países da União Europeia que não o seu (ou seja, para o seu próprio bem-estar), nesse caso, então... nem sei que diga. 
 


25 maio 2019

minha rica Europa!

http://dotheyknowitseurope.eu/

Se nestas eleições votasse em Portugal, saberia quem escolher com confiança e alegria.
Mas voto na Alemanha, onde não há uma Marisa Matias, nem um Rui Tavares, nem uma Júlia Reda para eleger.
Em contrapartida, na Alemanha trava-se uma batalha decisiva para a Democracia: não podemos deixar que a extrema-direita alemã ganhe força. Sinto-me contente por votar neste país e poder juntar a minha voz à dos que lutam contra o cancro que ameaça esta democracia.

Um comediante alemão preparou um filme simpático sobre as eleições, com uma participação portuguesa que nos deixa ficar bem na fotografia. Podem ver aqui:
they know it's Europe". É a nossa Europa, imperfeita, caótica. Pode tornar-se bem diferente - para melhor, ou para muito pior. Amanhã é dia de decidir que rumo lhe damos. Nestas eleições está em causa, antes de mais, escolher entre continuar a viver em democracia, construindo um futuro comum, pacífico e - last but not at all least! - sustentável, ou caminhar para  a fragmentação dos nacionalismos.

Ainda é possível lutar contra a destruição da Europa.
Amanhã, vamos todos votar num partido democrático. Mesmo que não seja perfeito, qualquer partido democrático é melhor que o nacionalismo, o populismo e o totalitarismo que se lhes pode seguir.


Os meus parafusos

Alguém conhece um psi competente e baratinho que me dê uma apertadela aos parafusos?
É o seguinte: costumo sair para viagens sempre à última da hora. Da última vez, cheguei ao aeroporto depois de o check-in ter fechado. Resolvi mudar de vida. Desta vez cheguei à estação de caminho de ferro mais de meia hora antes. Muito orgulhosa de mim própria pespeguei-me no cais certo quinze minutos antes da partida prevista. O comboio tinha um ligeiro atraso. Olhei para o mostrador, depois olhei para os polícias que andavam por ali em grande número por causa dos adeptos de um clube de futebol, olhei de novo para o mostrador e o meu comboio já não constava. Olhei para o cais ao lado: estava a sair dali nesse preciso momento.
Pequena informação à margem: em Berlim é possível passar ao lado de dezenas de polícias de choque a resmungar „Bosta! Oh, bosta! Bosta! Bosta!“ e não se vai preso.
Voltando anos meus parafusos: isto é coisa para quantos anos de divã?

23 maio 2019

se non è vero...

Diz que o Banksy esteve na Bienal de Veneza:




22 maio 2019

Chico e Camões


Às vezes penso que as palavras da língua portuguesa foram inventadas de propósito para se alinharem certeiras nos versos do Chico Buarque. Depois lembro-me que podia dizer o mesmo dos sonetos de Camões, mas - deslarguem-me! - o Chico tem o joker daqueles olhos verdes, enquanto o Camões tinha apenas um olho - e nem sequer me é verde, que só o sei a preto e branco.

(Ai! Já me desgracei! Isto era para ser um post sobre literatura, não tinha intenção de vir aqui para falar dos olhos de ninguém.) (Maldito Freud, que nunca dorme.)

Segunda tentativa: hoje, ao ver o facebook cheio de poemas - e estava capaz de apostar que muitos deles foram escritos de cor -, lembrei-me de Marcel Reich-Ranicki. Era um famosíssimo crítico literário que teve de 1988 a 2001 um programa de literatura na televisão alemã com enorme sucesso apesar de ter imposto um formato de rádio, e aos noventa anos se recusou a receber um importante prémio de televisão, em sinal de protesto pela falta de qualidade que impera naquele meio. Em conversa posterior argumentaram que o grande público pede essa mediocridade, e ele refutou, afirmando peremptório que um Shakespeare do nosso tempo também seria capaz de atrair multidões.

O Chico é um caso desses: consegue alojar a literatura no coração das pessoas, e fá-lo como se fosse fácil. Mais ainda: os seus poemas extravasam da literatura, andam enrolados connosco, fraseiam-nos a vida. Preparam-nos para o que nos pode acontecer - e de tal modo nos preparam bem que chego a pensar que somos plasmados pelos seus versos. Exagero meu, bem sei. Mas - deslarguem-me! - isto são muitos discos aprendidos inteiros de cor, são muitos encontros felizes com amigos a falar do que escreve, é o meu horizonte muito enriquecido pelas palavras e os temas de um Brasil de todas as cores, são muitos duetos com ele em inúmeras viagens solitárias entre a casa e o trabalho, são os meus filhos a cantar em português (ah, "Os Saltimbancos"!), são as milhentas frases que se erguem das músicas para me explicar nuns dias o mundo e noutros o meu sentir.

O Chico eleva-nos, maravilha-nos, alarga-nos o olhar. Que mais se pode pedir à literatura?


21 maio 2019

tão polivalente que até é o barbeiro de Sevilha



Ontem fui ver o Barbeiro de Sevilha na Deutsche Oper, com a música de Rossini um bocadinho atropelada pelo exagero da encenação de Katharina Thalbach: ele é um burro, ele é um tractor, ele é um grupinho de freiras a chocar umas nas outras, ele é crianças na praia durante a noite, ele é fatos de banho do séc. XXI, ele é roupinhas barrocas, ele é um Figaro armado em artista de circo, ele é uma profusão de cenas de sexo bastante explícitas (podia dar-se o caso de o público não perceber nas entrelinhas da música ao que é que aquela gente toda vem).

A ópera bufa foi bastante mais bufa que ópera, e portanto rimo-nos muito - lá disso não nos podemos queixar. De facto, já nos estávamos a rir ao fim de meia dúzia de compassos da abertura.

Mas o mais interessante de tudo foi o cantor que fazia o Figaro. Passei a ópera inteira convencida que era o... tã tã tarãããã... Hugo van der Ding!
Se não era ele, então era o Mathew Newlin por ele. Mas eu jurarei a pés juntos que ontem foi o Hugo van der Ding quem cantou na Deutsche Oper em Berlim.



"gamela"

Na casa do Minho da minha infância a cozinha era o centro de tudo, e metade dela era a chaminé, com o chão feito de enormes lajes de pedra. Sob a chaminé havia: à esquerda o forno do pão, ao lado deste a lareira que se reacendia de manhã bufando às brasas que tinham sobrado da véspera, e o eterno pote com água quente; à direita ficava a dala de granito. Ao lado da dala, e já fora da chaminé, era o lugar do balde da lavadura, por baixo da cantareira onde havia sempre água do poço guardada em cântaros de barro.
Havia duas gamelas na dala, e serviam para lavar a louça. Tinham um toque aveludado e húmido de tanta água engordurada que por elas tinha passado, e eu achava-as nojentas.
Depois das refeições, a Bina (que em rapariguinha fora trabalhar para casa da minha avó, e lá ficou até morrer, acumulando discretamente as condições de serva da casa e de membro oficioso da família) e a SeMaria (que era jornaleira, e trabalhava enquanto havia trabalho, às vezes perguntava-me quem lhe criaria a ela as filhas) enchiam as gamelas com água quente do pote, usando o caneco de lata da cantareira. Uma lavava e ia passando as peças directamente para as mãos da outra, que as enxugava num pano de linho e pousava na mesa ou na masseira, num vaivém tranquilo de tamancos no sobrado.
No Natal, e noutras festas grandes, iam buscar os pratos da Vista Alegre e os copos de cristal do baptizado do meu pai para pôr a mesa. Enquanto decorria a nossa consoada, a dala de granito enchia-se de pilhas de louça valiosa e frágil, e eu enchia-me de medo de que alguma coisa se partisse. Elas, não. Um a um, os cálices – o da água, o do vinho, o do champanhe, o do vinho do Porto e o minúsculo, que era da aguardente, mais os pratos de risquinhas azuis e douradas, mais a “terrina de trezentos anos” – passavam pela água das gamelas escuras e pelo pano branco, e voltavam para a cristaleira. Depois a SeMaria punha as gamelas a escorrer, embrulhava-se numa manta de lã, e saía para a noite e para o Natal das suas próprias filhas.
Não contem a ninguém, mas eu nasci no fim da Idade Média. 






"filhos"

“Porque é que queremos ter #filhos?”, perguntou alguém na Enciclopédia Ilustrada, no dia em que se falou deste tema.

Porque é que quis ter filhos? Nunca me fiz essa pergunta. A questão nunca foi o porquê, mas o quanto, o quantos e o quando. Digam vocês, se quiserem: antes de se decidirem a ter um filho, perguntaram-se o porquê e o para quê?

Um amigo contou-me que, quando conheceu aquela que viria a ser a sua mulher, teve a percepção da presença dos filhos que esperavam por eles os dois para virem ao nosso mundo (espero que nenhuma pessoa do Porto leia a frase anterior, porque já imagino as piadinhas a que pode dar origem). Casaram, ela engravidou, e no sétimo mês de gestação o filho morreu-lhe no ventre. A equipa do hospital foi muito bruta: o corpo já em decomposição foi atirado para um caixote do lixo, sem que os pais tivessem a possibilidade de se despedirem do filho tão amado. Pouco depois surgiu na Alemanha uma iniciativa para lutar contra estes actos desumanos. Os meus amigos não conseguiram superar o trauma deste filho que desapareceu assim da vida deles, e a dor acabou por lhes destruir o casamento.

A Dolto fala da pulsão de vida que estará no âmago do mistério do orgasmo feminino. E eu, que sou do Porto, concluo logo que então o orgasmo múltiplo é sinal de a mulher – mesmo que não o saiba – querer ter muitos filhinhos.

“Muitos filhinhos”, como a Susaninha, que personifica um tipo de mãe fundada no “ter”. Os filhos como capital, a mãe como empresária de sucesso. E mesmo sem mudar de linha lembro as “empresárias de sucesso” do período nazi: as muito apreciadas mulheres que tinham mais de cinco filhos, produtoras dos arianos, fundamentais para a expansão e manutenção de um sistema ideológico tresloucado.

No outro extremo, ou melhor, num universo completamente diferente, está o poema de Khalil Gibran sobre os filhos:

“Os vossos filhos não são vossos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.”


Ou o título de um livro alemão que nunca li, mas cujo título me serviu de bússola: “os filhos são visitas que nos perguntam o caminho”. De facto, é mais que “perguntar o caminho”: os filhos são visitas que nos mostram caminhos que havia dentro de nós e não sabíamos. Lembro, por exemplo, aquelas noites em que um deles chorava por pesadelos ou doença, e eu ia ter com ele com uma sensação de ter sido "a escolhida" - nenhuma outra pessoa no mundo inteiro (excepto, vá, o pai) seria capaz de ajudar aquela criança melhor do que eu.

Tenho a sensação, a convicção, que os filhos já nos nascem prontos. O papel dos pais é não estragar demasiado. Claro que temos de educar (“não comas com as mãos”, “cumprimenta as visitas”, “fala mais baixo para não incomodar os vizinhos”, etc.) mas eles trazem dentro de si o mapa das suas possibilidades. E nós assistimos, maravilhados, a esses caminhos novos que eles desenham e que nos alargam a casa.

Como daquela vez que o Matthias, de cinco anos, parou no passeio para deixar passar pessoas que vinham na nossa direcção, e eu lhe disse que não era preciso parar, bastava chegar-se para o lado. “Parar é mais cortês”, respondeu ele, e eu nem sabia que ele conhecia essa palavra. Ou da outra vez, um ou dois anos mais tarde, quando ele foi limpar a neve da rua e limpou também até à porta do vizinho velhote, que tinha sido muito desagradável com ele. “Então tu limpas a neve desse vizinho que foi mau para ti?!”, perguntei eu, que sou muito rancorosa especialmente quando tratam mal os meus. “Sim, porque gosto de dar uma segunda oportunidade a toda a gente”, disse ele, e acrescentou: “e o que tu acabaste de dizer não é muito cristão.” Ou quando a Cristina começou a fazer baby-sitting com os gémeos da vizinha, e a mãe me perguntou: “que é que a tua filha fez ontem à tarde aos meus rapazes, que estavam tão felizes e equilibrados quando eu regressei a casa?” A Christina explicou-me: “cansei-os”.

Podia ficar o resto do dia nisto. Controlo-me para não contar mais nenhuma história, mas é difícil, porque os filhos são visitas que nos enchem a vida de caminhos novos e de recordações felizes.

--

Na foto: a Christina de dois anos a dar a si própria uma demão de mousse de chocolate, eu descansadinha da vida porque o vestido que levou àquele casamento estava bem protegido por uma bata de pintar, e o Matthias a cinco meses de nos vir mudar a vida para ainda melhor.


18 maio 2019

histórias de família


Mais recordações lá dos confins do blogue:
A meio de uma frase, a Christina estaca e pergunta:
- Como é que se chama um poeta da música?
Eu nem entendi a pergunta, mas o Matthias respondeu logo:
- Compositor.

***


Conversa ao jantar:

Christina: Mãe, viste o postal na casa de banho de Barbara, onde se lia "adoro ser mulher, posso chorar quando me apetece, vestir roupa bonita e, em caso de naufrágio, sou a primeira a saltar para o salva-vidas"?
Eu: Vi.
Matthias: Porquê?! Porque é que as mulheres se salvam primeiro?
Christina: Porque é assim, e pronto.
Eu: Então, Matthias, como é que te sentias se, em caso de naufrágio, saltasses logo para o salva-vidas e deixasses a tua mulher e os teus filhos para trás?
Matthias, ainda mais zangado: E como é que a minha mulher se sentia se se salvasse e me deixasse para trás?
Christina, já a pensar noutra coisa qualquer: Melhor seria um casal de lésbicas, salvava-se marido e mulher, a bem dizer.

(cá para nós: quanto mais penso no caso, mais me parece que o Matthias, nos seus seis anos, estava cheio de razão)

***
Lógica das sobrinhas gémeas:

Como de costume, chamei uma delas pelo nome da outra, e ela reagiu logo:
- Eu sou a Leonor! Eu sou a Leonor, puque... puque... puque...
E eu, realmente curiosa:
- Porquê?
- Puque o meu nome é diferente!!!
E a irmã, muito despachada:
- O meu nome também é diferente!

Tempos houve em que a Leonor sabia que era a Leonor porque a madrinha dela era a tia Xana.

***

E também há aquela pergunta, um clássico:

"Mãe, hoje é o amanhã de ontem?"