2 Dedos de Conversa

... sobre o que nos desaquieta

30 janeiro 2016

será que alguém em Portugal faz ideia do pandemónio que por aqui vai com os refugiados?

(foto: Zazzle)

Tenho andado a conversar com algumas pessoas no facebook sobre a retórica usada para criticar as medidas de alguns governos para tentarem reduzir o fluxo de refugiados para o seu país, e começa a ser bastante evidente que as pessoas desconhecem partes importantes da realidade. Aqui deixo alguns apontamentos sobre mais alguns lados desta questão, a partir do que observo aqui em Berlim.

Todos os dias chegam à capital alemã centenas de refugiados. Os serviços estatais responsáveis pelos refugiados já estavam a trabalhar no seu limite antes de ter começado esta onda imparável de pessoas em terrível estado de necessidade. Centenas de pessoas diariamente, que é preciso registar, que é preciso controlar cuidadosamente (depois do 13 de Novembro em Paris foi imperativo aumentar as medidas de segurança; depois de Colónia acresceram as preocupações de identificar potenciais delinquentes misturados com o grupo), para as quais é preciso arranjar alojamento, comida, cuidados médicos (especiais e acrescidos para quem fez milhares de quilómetros em terríveis condições), e apoio psicológico (muitos estão profundamente traumatizados). É preciso arranjar tradutores de árabe.

Há um batalhão de voluntários a ajudar imenso. Alguns envolvem-se em disputas com os funcionários, há azedume e crítica de parte a parte. Os media dão uma e outra vez notícias de situações de grande desumanidade, por falta de organização dos serviços. As queixas nos tribunais multiplicam-se, e são sempre casos de muita urgência (geralmente pessoas que esperam semanas e meses para se registarem, porque só depois disso recebem ajuda do Estado), o que significa que se atrasam ainda mais os casos de alemães à espera de uma decisão sobre apoios da Segurança Social.

Esta semana um voluntário inventou a morte de um refugiado de 24 anos em Berlim. As redes sociais incendiaram-se em desabafos muito emocionais e em críticas duríssimas aos serviços ("quantos mais terão de morrer até eles começarem a fazer o que devem?", "mais valia acabar com o LaGeSo!"), até que se descobriu que era tudo mentira. Um ministro do governo regional berlinense criticou a chefe desse grupo de voluntários, e esta respondeu que se está nas tintas para a opinião do ministro.

Na semana passada os media russos divulgaram o caso de uma menina russa de 13 anos, vítima de rapto e violação colectiva por refugiados em Berlim. Um escândalo, acusações gravíssimas de a polícia estar a encobrir o caso para proteger a fama dos refugiados - e afinal tinha sido tudo invenção. Possivelmente haverá um grupo de extrema-direita por trás deste incidente, com o intuito de aumentar o medo e o sentimento de insegurança. E não é caso único. Multiplicam-se as queixas de violações cometidas pelos refugiados, as redes sociais agitam-se (acusando os media de serem mentirosos, porque ocultam estas notícias assustadoras) e no fim a polícia descobre que muitos desses casos são invenção. A polícia queixa-se: enquanto anda a investigar mentiras, perde tempo que era muito necessário para fazer o seu trabalho.

Os refugiados continuam a chegar, e são alojados em sítios inacreditáveis. Muitos deles escapam aos dormitórios colectivos e são acolhidos por famílias, o que deixa os apartamentos sobrelotados, os vizinhos e os senhorios inseguros e desconfiados. Quando pensámos alugar o apartamentozinho do Matthias a um casal de refugiados, ouvimos muita gente dizer: "cuidado, não se metam nisso, ao fim de uma semana têm lá dez pessoas!"

Fala-se em cancelar eventos importantes para dar lugar aos refugiados. Ou então leva-se mil refugiados de um armazém para outro ainda pior, para não ter de cancelar uma feira internacional.

Há bandos mafiosos árabes a ganhar muito com a situação, e a envolver refugiados numa rede da qual dificilmente se poderão libertar. Há casos de refugiados que vendem o cartão que recebem ao entrar em Berlim, para terem acesso a comida e aos transportes públicos, e vão pedir um novo. Para evitar este tipo de burla, dá-se uma pulseira às pessoas, como nos hotéis "all inclusive". O que cria um certo mal-estar. Pensa-se numa nova solução - cartões com um chip e a fotografia do portador. Entretanto os refugiados continuam a chegar às centenas, diariamente. Alguns imigrantes há muito instalados, e que ajudam a traduzir e a organizar, tentam usar esse poder de "interface" para instalar na sua área de influência uma certa ordem islâmica. O que tem como consequência, entre outros, haver refugiados cristãos que escondem a todo o custo a sua religião, com medo de sofrerem represálias dos outros. Isto passa-se no coração de Berlim.

Os media tentam dar uma perspectiva equilibrada da realidade, e evitar ao máximo - sem prejuízo dos seus deveres de informação - alimentar a xenofobia, mas são acusados de serem parciais e até de mentirem. Confesso que me incomoda que só mostrem imagens de crianças e famílias para ilustrar notícias sobre os refugiados, quando todos sabemos que a maior parte dos refugiados são homens jovens. Muitas pessoas sentem-se mais que incomodadas - sentem-se amordaçadas, obrigadas a engolir os seus medos para não ficarem mal na fotografia. Na intimidade das famílias e dos amigos multiplicam-se os desabafos e os boatos: os professores que se sentem incapazes de disciplinar adolescentes que se recusam a ficar sossegados a trabalhar como os outros, ou que não respeitam a professora por ela ser uma mulher; os casos de abuso sexual de que nenhum jornal quer falar; os refugiados que defecam nos jardins; os espertalhões que se portam como se tudo lhes fosse devido; etc.
Haverá com certeza entre um milhão de refugiados alguns que acham normal defecar num jardim, alguns adolescentes (traumatizados?) que se portam mal na sala de aula, alguns espertalhões que acham que podem tudo porque "foram convidados pela Frau Merkel". Mas no espaço reservado das casas e das mesas de café estes casos desenham o retrato robot do refugiado, e tudo o que os media possam fazer para o corrigir reforça a ideia de imprensa manipuladora e parcial.

Entretanto, as ruas da Berlim estão cada vez mais esburacadas, e em inúmeras escolas não há aulas de ginástica, porque os ginásios estão a servir de camaratas. Para dar apenas dois exemplos de problemas práticos. Isto, em Berlim - que nem é a cidade em situação mais difícil.

Noutras cidades já há grupos de cidadãos a fazer patrulhas nas ruas, porque sentem que a polícia é incapaz de responder a todas as necessidades. E há localidades onde de repente passou a haver mais refugiados que alemães.

O Estado de Direito está a rebentar pelas costuras, e os governos tentam responder adequadamente para que o país continue a funcionar em normalidade democrática. Entretanto a Áustria tenta ser apenas um corredor, a Alemanha sente-se aliviada por cada refugiado que resolve continuar caminho, a Dinamarca espera que eles sigam para a Suécia, a Suécia devolve-os à Dinamarca e insiste que é preciso respeitar Dublin.

O sentimento geral é de que estamos perante uma nova vaga de "invasões dos bárbaros" (em alemão diz-se Völkerwanderung, migração de povos - não tem o sentido pejorativo e ameaçador do português). Os alemães vêem o estado de necessidade das pessoas que aqui chegam e sentem que têm de ajudar, mas também estão apreensivos sobre o que isto possa significar de mudança nos hábitos e no nível de vida (nomeadamente as mulheres terem medo de andar na rua, ou uma redução drástica dos apoios sociais, nomeadamente os cuidados de saúde, devido a este enorme acréscimo de despesas). Apesar disso, continua a haver uma multidão de voluntários que sabem focar-se no essencial: ajudar estas pessoas, que precisam tanto. O país olha para elas com gratidão. Em 2015 contaram-se cerca de 800 ataques contra os refugiados. Ninguém contou os gestos de acolhimento, mas são milhões.

Amanhã, dia 31 de Janeiro, mais de 80 instituições culturais da cidade abrem as portas aos voluntários, oferecendo gratuitamente a entrada em museus e exposições, visitas guiadas, peças de teatro e concertos para os que ajudaram a acolher 70.000 refugiados em 2015. Berlin sagt Danke!
E na segunda-feira chegarão mais autocarros. E na terça, e na quarta, ...
Ninguém sabe quantos milhões entrarão na Alemanha em 2016.


Enviado por: Helena Araújo às: 23:01 13 comentários:
Etiquetas: refugiados

uma ideia de Deus

(foto)

Este post do Leandro Karnal no facebook já tem uns meses, mas hoje passei por ele de novo e gostei ainda mais de reler. Copio tudo para aqui (o poema da Hilda Hilst, o texto de introdução do Leandro Karnal e a foto), como presente para o fim-de-semana:



Hilda Hist (1930-2004)

Li, nos aviões da semana passada, o volume organizado pelo meu amigo Alcir Pécora, sobre as poesias de Hilda Hist. (Exercícios, ed da Folha de São Paulo) Termino o volume com uma sensação estranha: amei cada linha, achei a linguagem (ou metalinguagem) fascinante; admirei esta mulher e... creio que não entendi nada. Entendi as metáforas, as metonímias; entendi tudo o que ela escreve, mas não sei se entendi Hilda. No poema abaixo, por exemplo, estamos diante da relação do eu terreno com o outro divino e Deus como metáfora do além e da ousadia. Consciência imanente versus consciência de epifania? Seria o poema um diálogo do ego dela com o superego? Acho muito denso, muito bonito e muito poético... Porém, acho que estou inventando uma Hilda para mim... Será a verdadeira Hilda? A senhora genial do Casa do Sol perto de Campinas: sexuada, culta e cercada de cachorros? Tenho de perguntar ao Alcir... Este poema é de 1967. Amar a poesia talvez seja suficiente...

Exercício no 1

Se permitires
Traço nesta lousa
O que em mim se faz
E não repousa:
Uma Ideia de Deus.

Clara como Coisa
Se sobrepondo
A tudo que não ouso.

Clara como Coisa
Sob um feixe de luz
Num lúcido anteparo.

Se permitires ouso
Comparar o que penso
O Ouro e Aro
Na superfície clara
De um solário.

E te parece pouco
Tanta exatidão
Em quem não ousa?

Uma ideia de Deus
No meu peito se faz
E não repousa.

E o mais fundo de mim
Me diz apenas: Canta,
Porque à tua volta
É noite. O Ser descansa.
Ousa.


Enviado por: Helena Araújo às: 20:07 1 comentário:

29 janeiro 2016

"pulseiras brilhantes identificativas"


A notícia vem no Sapo, com o título: Refugiados obrigados a usar pulseiras brilhantes identificativas no norte de Inglaterra. A empresa que distribui os alimentos quer que os refugiados usem a pulseira, porque facilita o trabalho de identificar quem tem direito a receber as três refeições diárias. 

Onde é que já vimos algo semelhante?
Nos festivais, nos hotéis com regimes diferentes pensão completa/meia pensão, coisas assim. É muito prático, e ninguém se queixa.
Também vimos há uns anos uma coisa deste género. Em França. Era um cartão que os sem-abrigo deviam trazer consigo, com a sua história clínica, para serem mais facilmente ajudados. Também era uma ideia muito prática, mas teve tantos protestos (não ajudou especialmente ter um triângulo amarelo desenhado num dos lados) que foi rapidamente abolida.
Façamos então um coro de protestos para que esta "brilhante" ideia de identificar os refugiados com pulseiras seja também rapidamente abolida. Ser refugiado não é o mesmo que ter direito a entrar num festival ou a servir-se de todas as bebidas de um hotel. Não se pode dar tratamento igual ao que é diferente. Por muito prático que seja. E que se repita o aviso para todos os que trabalham na área de ajuda aos refugiados: é preciso ter muito cuidado, muita sensibilidade, e não esquecer nunca o permanente estado de necessidade em que vivem. A identificação, necessária para terem acesso a determinados apoios, tem de ser feita de outro modo. O Estado e as organizações que ajudam os refugiados não podem contribuir de modo algum para aumentar ainda mais a sua exposição, exclusão, e fragilidade. Os refugiados têm de ser ajudados e protegidos, e não servidos de bandeja à xenofobia que, infelizmente, existe em cada país.

(Mas confesso que não percebo a parte em que se queixam que os camionistas vêem as pulseiras e os insultam. Quem quer insultar refugiados, não precisa de uma pulseira para os identificar.)

(Já a outra parte da notícia, a "polémica à volta da cor vermelha com que se pintaram as portas das casas onde vivem requerentes de asilo em Middlesbrough", é um triste sinal de mau serviço de informação. Calhou de os refugiados terem sido alojados em casas devolutas da empresa Jomast, cujas portas são todas iguais e de cor vermelha - há vinte anos que são assim. Fazer disso um caso nacional e comparar imediatamente com as estrelas amarelas dos judeus é um triste sinal dos tempos de histeria que vivemos.)  


Enviado por: Helena Araújo às: 08:37 Sem comentários:
Etiquetas: refugiados

28 janeiro 2016

Bethânia e Chico



Gosto de tudo. O público que sabe a canção de cor. O sorriso do Chico para o público que conhece a sua canção de cor. A energia da Bethânia. A interpretação maravilhosa da Bethânia. A cumplicidade e a amizade dos gigantes. Até gosto da roupa que escolheram a fazer pandã.

E fico a pensar: se tivesse de escolher um dos dois para levar para uma ilha deserta, qual escolhia?
Ai. Ai. Ai... o Chico que não me ouça, mas levava a Bethânia. Para além de cantar, interpreta. E estou capaz de apostar que os dias com ela iam ser mais animados. Enfim, ia faltar um pequeno detalhe (ou dois, contando com a cor dos olhos dos Chico), mas acredito que a ilha da Bethânia seria mais quente, viva e alegre.


Enviado por: Helena Araújo às: 14:06 1 comentário:

dando agora a palavra ao Kofi Annan



No meio do caos retórico em que nos encontramos, a mensagem do Kofi Annan, que copio abaixo, é um contributo sereno, incisivo, justo e equilibrado.

(Também gostei de reconhecer nele algumas das ideias que tenho andado a defender, e de verificar que sabe criticar a Dinamarca e a Europa sem precisar de recorrer a palavras como "nazi", Holocausto" e "sombras da História".)


Kofi Annan
26/1 às 17:15 

I am worried by the new refugee law before the Danish Parliament today. It is in sharp contrast with Denmark’s humanitarian and social traditions, and highlights a worrying trend in European politics: An issue that should have helped Europe to rally together in solidarity to forge a common approach is regretfully having the opposite effect.

The threat to confiscate migrants’ valuables and to delay to three years the waiting period before they can be reunited with their families is not in the spirit of the European Convention on Human Rights, the UN Convention on the Rights of the Child, and the UN Refugee Convention, all of which Denmark is a party to.

The failure of the European Union to agree to a common migration policy is leading to a race to the bottom by member states. Attempting to push problems to one's neighbors is not a sustainable strategy. If the law before Parliament today in Denmark is passed, I fear to think what the next national response will be.

While European states have to address the legitimate concerns of their citizens regarding the historic influx of migrants since last year, they cannot do so at the expense of their values, ideals and international law. By doing so, they offer violent movements a victory they could never have won on their own.

I encourage the member states of the European Union to focus on forging the common migration policy the continent urgently needs.


Enviado por: Helena Araújo às: 11:09 Sem comentários:

dando agora a palavra à Dinamarca

Recebi no facebook um texto onde se explica a posição da Dinamarca. Divulgo-o aqui, por me parecer bastante esclarecedor. Mas faço-o com uma ressalva, porque há nesta argumentação algo com que não posso concordar: um refugiado pobre é muitíssimo mais frágil que um dinamarquês pobre. O dinamarquês tem, apesar de tudo, uma história e uma rede social no seu país. Tem amarras. O refugiado não tem nada. Não basta dar-lhe casa, pão, educação e saúde. É preciso ter sensibilidade e empatia para perceber o estado de alienação absoluta em que se encontra.

(E uma segunda ressalva: o inglês parece aquele das cartas do advogado do nosso primo que morreu na Zâmbia e nos deixou uma herança de vários milhões, mas dá para entender o essencial.)

 «Well, because I read many unrelated to rush to accuse Denmark regulating voted to confiscate the money immigrants over EUR 1,200 to finance their stay in the country should be aware of all that:
-> Denmark has the same setting for all Danish citizens claiming / eligible for assistance from the state.
-> For example, when a Danish citizen wants to get unemployment benefits from the state (not by professional fund), the state wants to liquidate all assets that arthrizoun amount over 1200 euro.
-> So if you have deposits over 1200 euro, is not entitled to assistance from the state.
-> If you have a car, own house etc. NOT entitled to state aid.
-> The help goes only to whoever does not have anything over 1,200 euro as the purpose is to help really poor.
-> In this case, give them shelter (a small apartment), unemployment benefits, help for children, education for work etc.
-> The same applies to immigrants and refugees.
-> The setting passed essentially passes the conditions applicable for Danish citizens and refugees.
-> The money is not confiscated, they do not go to the Danish state, but EXCLUSIVELY used to finance the refugees who have neither the 1200 euros with them. One more thing:
-> The benefits gives refugees the Danish state include:
- Provision of housing (furnished apartment with heating, clothing and food)
- Providing comprehensive health care
- Living allowance equal to the basic unemployment benefit
- Child allowance
and many others which are the same as those offered by the State for all Danish citizens have no means to support themselves.
Please much then, before rush to play the stupid who believe that a country with a strong welfare state and widespread social sensitivities which for years receives immigrants from many Muslim and African countries, offering them equal opportunities and benefits as other citizens, suddenly went mad and became a massive neo-Nazi, show a little attention and learn better.»


Enviado por: Helena Araújo às: 09:27 4 comentários:
Etiquetas: refugiados

27 janeiro 2016

ai que horror, esta semana o Holocausto é na Dinamarca...

Junto-me ao coro dos que criticam o parlamento dinamarquês por ter aprovado regras muito mais restritas para a entrada de refugiados no país, sem se incomodar ao menos em esconder que o faz para evitar que os refugiados continuem a entrar ao ritmo actual.

Sem sequer mencionar a cruel decisão de impedir durante 3 anos a reunião de membros da família, esta decisão de confiscar o dinheiro e os bens dos refugiados:
- é desumana e insensível em relação a essas pessoas que fogem para salvar a própria vida, têm de se instalar numa terra desconhecida e alheia, estão numa situação de extrema precaridade e não sentem qualquer espécie de segurança;
- é perigosa para os nossos Estados, porque representa uma cedência a um discurso egoísta e xenófobo, em vez de apelar para os valores que dizemos serem os europeus;
- é estúpida (e falo agora numa perspectiva muito egoísta e de mero bom senso) porque afasta do país os refugiados com mais posses, que são em princípio aqueles que têm uma profissão e um nível social que mais nos convêm. Com estas leis, a Dinamarca consegue uma triagem pela negativa: só atrai pessoas sem vínculos familiares, sem dinheiro e sem perspectivas. Mesmo correndo o risco de generalizações injustas: aqui está o retrato robot dos homens que fizeram os ataques em Colónia.

Dito isto, tenho de criticar também os que tão facilmente recorrem a palavras sonantes como "nazi" e "Holocausto". Isto não é o Holocausto, nem sequer o seu princípio, e o Parlamento dinamarquês não tem uma agenda nazi. Há diferenças substanciais entre o nazismo e um egoísmo nacional.
O uso abusivo e ignorante destas palavras esvazia-as, e é uma ofensa às vítimas do Holocausto e das outras perseguições perpetradas pelo regime nazi. Ao menos por ser hoje o 71º aniversário da libertação de Ausschwitz, sejamos capazes de medir melhor as palavras.

Enquanto gritamos "nazi!" e "Holocausto!" apontando o dedo aos dinamarqueses, podemos esquecer a nossa própria responsabilidade e culpa. A Dinamarca foi deixada sozinha com o seu problema. O país de 5,6 milhões de habitantes já tem 21.000 pedidos de asilo (site alemão), uma das maiores cargas per capita da Europa. A Grécia está a ser fortemente pressionada pela UE para impedir a chegada de mais refugiados. Perante uma tragédia desta dimensão, cada país é abandonado à sua sorte, e criticado pelos outros. Confesso que não sei o que mais me choca: se as medidas aprovadas pelo Parlamento dinamarquês, se a hipocrisia de quem critica a partir da posição confortável de habitante de um país que não se debate com este problema. Mais: será que já nos esquecemos todos da nossa própria História recente, nomeadamente quando a Europa não soube resolver o problema dos imigrantes africanos, deixando que continuassem a morrer no Mediterrâneo? A Europa não começou a morrer hoje na Dinamarca, já morre há vários anos em Lampedusa. E antes disso em Melilla. E nem aí se trata de uma deriva nazi e de um Holocausto: nenhum governo europeu quer deliberadamente "acabar com a raça aos pretos e/ou aos árabes". Os governos, e muitos de nós, só querem que eles continuem a morrer longe e não nos chateiem. Chamemos as coisas pelo seu nome: comodismo de ricos, desinteresse, egoísmo nacional. E estamos todos enterrados nisto até ao pescoço. Que ninguém se iluda apontando o dedo à Dinamarca.

A criação de opinião pública às vezes tem fenómenos curiosos. Nas redes sociais, o Canadá parece ser o país modelo no acolhimento aos refugiados. Até passam um vídeo bonitinho, no qual o novo primeiro-ministro dá as boas-vindas a um grupo de refugiados. Não dá para acreditar: o país que só recentemente aceitou subir para 50.000 o número de refugiados acolhidos até fins de 2016, que faz casting de refugiados (só famílias, mulheres e crianças; homens, só os perseguidos devido à sua orientação sexual - não sei se estão a ver o filme: se fosse a Dinamarca, provavelmente iriam dizer que até parece a selecção em Auschwitz), e que se permite atrasar - em pleno inverno! - a entrada dos refugiados porque, devido aos atentados em Paris, quer verificar muito bem a sua identidade previamente - este país é considerado o modelo. E a Dinamarca, que até agora teve as fronteiras escancaradas para quem precisa e não para quem lhe dá jeito, quando resolve pressionar os outros países da UE para que se cheguem à frente e façam também a sua parte, é acusada de deriva nazi. Pelos que não fazem a sua parte.  

Enviado por: Helena Araújo às: 21:42 2 comentários:
Etiquetas: refugiados

política de refugiados: precisamos de regras!

A propósito do escândalo do confisco de bens dos refugiados, traduzo um artigo do semanário "Die Zeit". Às vezes dá jeito olhar para as questões com um horizonte um pouco mais alargado. Este artigo, publicado a 7.05.2015, mostra a velocidade a que a História está a acontecer (basta ver que, há apenas sete meses, os refugiados sírios ainda não eram sequer um tema) e inscreve este recente escândalo dinamarquês num quadro alargado de falta de comunicação, de egoísmo nacional, de cálculo cínico e de adiamento de soluções comum a toda a Europa. Muito antes de os dinamarqueses começarem a obrigar os refugiados a pagar as despesas que fazem, caso tenham meios para isso, já a Europa estava a falhar escandalosamente.


Precisamos de regras!

7. Mai 2015 DIE ZEIT Nr. 17/2015, 23. April 2015

Há quem diga que é desumano impor condições aos refugiados. Outros dizem que essa é a única solução razoável. Mas, digam lá: que regras podem ser essas?

Um trabalho de Michael Thumann, Martin Klingst, Gero von Randow e Ulrich Ladurner
(em tradução apressadíssima)


Regras que substituem a brutalidade pela previsibilidade

Michael Thumann e Martin Klingst

Estabelecer regras para pessoas que correm risco de vida parece insensível, burocrático, alemão na sua forma mais desagradável. Mas não se iludam: já há regras. De momento são estabelecidas por autocratas brutais, por criminosos e pelo mercado. De momento, conseguem chegar à Europa os que têm dinheiro suficiente para a passagem. Os que pura e simplesmente têm mais força. Ou os que estão dispostos a vender o corpo, como trabalhadores escravos ou como prostitutas. É uma autêntica selecção darwiniana: survival of the fittest.

Se propomos regras, isso não significa que queremos deixar tudo como está. Tem de haver uma missão de salvamento no Mediterrâneo organizada pela UE. Tem de haver uma distribuição diferente dos refugiados no interior da UE. Tem de ser possível que as pessoas peçam asilo numa Embaixada europeia, e não só depois de porem o pé em solo europeu. Tem de haver outras formas, formas legais, para as pessoas entrarem na Europa, sem ser o recurso ao sistema de asilo que está a rebentar pelas costuras. A Europa podia, por exemplo, ter um contingente de vistos de trabalho, eventualmente para um período limitado. Para que não seja a necessidade a ditar as regras. Quem tiver a possibilidade de se inscrever para vir para a Europa, não se verá obrigado a pôr-se nas mãos de um gang de traficantes.
Devido à sua História, a Alemanha tem alguma dificuldade em recusar a entrada a pessoas que precisam de ajuda. Isso faz com que aceitemos muitos mais refugiados que outros países, sem ousarmos exprimir abertamente os nossos interesses. Que estão ligados à regulação, e não às pessoas que pedem asilo.
Países como a Austrália e o Canadá não têm tantos problemas com isso. O Canadá aceita no máximo 30.000 pessoas por ano, no âmbito do auxílio humanitário, e a Austrália já se fechou radicalmente há um ano à entrada de qualquer refugiado. Mas ambos os países procuram com muito mais empenho que a Alemanha atrair tanto mão-de-obra qualificada como investidores estrangeiros. Nos dois países, a entrada de emigrantes é regulada por um sistema de pontos que reflecte as necessidades do mercado de trabalho, e é definido com o contributo das empresas, regiões e províncias. De momento, dois terços das pessoas que entram no Canadá fazem-no para trabalhar, um quarto corresponde a familiares de pessoas que já residem no país, e os restantes devem-se a motivos humanitários. Entre nós, acontece o oposto.
Isso não faz do Canadá e da Austrália um modelo para a Alemanha. Ninguém diz que nesse país tudo se processa com perfeição, e há diferenças históricas, sociais e geográficas que não se podem iludir. Mas torna claro que é razoável e possível abrir novas vias para entrada de imigrantes, para além do conceito delimitado de asilo político.


Como se fosse possível controlar as vagas migratórias!
 
Gero von Randow

É surpreendente que alguém use o Canadá como exemplo. Nesse país, os emigrantes que têm entrada prioritária são os que podem exibir uma oferta de trabalho. Uma regra que traz consigo vários problemas: produz um mercado de falsas ofertas de trabalho; discrimina pessoas com nomes que pareçam árabes ou africanos (essas pessoas têm muitas dificuldades em arranjar quem lhes ofereça um trabalho); e as pessoas que concorrem estão na total dependência do seu empregador. Quem não pode recorrer a esta express entry é examinado com base em critérios económicos. O que leva a que, por exemplo, uma família com um filho autista não seja aceite, porque ia custar demasiado ao sistema de saúde. É isso que vocês querem?
Além disso, nem sequer se pode falar de entradas controladas no Canadá. Segundo variadas estimativas, vivem no Canadá entre 100.000 e 500.000 pessoas sem autorização de residência. Sendo de salientar o aumento das entradas pela fronteira com os EUA - pessoas que fogem deste país com regras ainda mais rigorosas. A fronteira é um viveiro de bandos de traficantes. Para conseguir entrar no Canadá, há quem atravesse o Niágara a nado, ou se deite em cima das carruagens de comboio. Muitas pessoas morrem nessa passagem. E há até quem consiga entrar no país atravessando o Atlântico e o Pacífico.
Se nem o Canadá consegue controlar as suas fronteiras desenhadas de forma tão simples, como hão-de os europeus controlar as deles, de geografia tão mais complexa? Na Austrália, que está protegida pelo Oceano Índico, o preço do controlo do fluxo de imigrantes não desejados é a manutenção de cerca de 2.500 pessoas presas em campos na costa ou em ilhas longínquas.
As fronteiras não são sebes de jardins. Haverá controlo mais rígido que o de Calais e Dover, no Canal da Mancha? Antes de entrar no túnel, os camiões são minuciosamente examinados, com detectores de todo o tipo; os comboios e os barcos são inspeccionados. Mesmo assim, os emigrantes chegam aos milhares a Calais, na esperança de conseguir atravessar para a Grã-Bretanha. Também eles pagam muito dinheiro aos bandos que ali se instalaram. Algumas centenas conseguem. Os outros morrem.


A verdade é que a Europa está a utilizar as mortes como elemento dissuasor

Ulrich Ladurner

Ninguém sabe mais sobre as mortes dos refugiados que Giusi Nicoli, a autarca de Lampedusa. Entretanto, qualquer europeu conhece o nome da ilha minúscula, com 22 km2: Lampedusa, o buraco da agulha para entrar na Europa.
Giusi Nicolini tem uma outra ideia da ilha onde nasceu: "somos uma espécie de bóia no mar. Quem aqui chega pode repousar um pouco antes de seguir viagem. Mas não somos um posto fronteiriço. Não temos meios para isso." E continua: "Sabe, os media falam sobre a migração como se fosse uma catástrofe. No entanto, é um processo normal. As pessoas saem do seu país quando as condições são demasiado difíceis. Por isso, os media não deviam falar da emigração como se fosse algo algo sensacional, mas como algo normal."
Os naufrágios ao largo de Lampedusa têm posto esta mulher nas páginas da imprensa mundial. Ela defendeu com entusiasmo aquilo em que acredita, falou com grande empatia sobre os barcos de refugiados, visitou um campo de acolhimento, consolou e deu alento, tentou dar uma outra imagem de Lampedusa.
Em Novembro de 2012, recentemente eleita para o cargo, publicou uma carta aberta que descreve as consequências daquilo a que - do seu ponto de vista, eufemisticamente - se chama "a política de imigração europeia":

"Sou a nova presidente das ilhas Lampedusa e Linosa. Fui eleita em Maio. Até ao dia 3 de Novembro já me foram apresentados 21 cadáveres. Estas pessoas morreram afogadas quando tentavam chegar a Lampedusa. Isto é insuportável para mim, e significa dificuldades e dores imensas para Lampedusa. Tivemos de pedir a outras regiões ajuda para conseguir enterrar dignamente onze mortos. Já não tínhamos espaço no nosso cemitério para estes desgraçados. Vamos aumentar o cemitério, mas pergunto: que tamanho deve ter o cemitério da nossa ilha?
Não consigo compreender como tamanha tragédia é aceite como normal. Como podemos esquecer no nosso dia-a-dia que, por exemplo, no sábado passado morreram onze pessoas, entre as quais crianças, na viagem que devia significar para eles o princípio de uma vida nova? Foi possível salvar 76, mas naquele barco havia 115 pessoas. O número de mortos é sempre superior ao número de corpos que o mar nos devolve.
Continuo convencida de que a política de imigração europeia aceita estes mortos como preço necessário para secar o fluxo de imigrantes, e talvez veja os mortos como meio dissuasor. Mas, se para estas pessoas, a viagem de barco era a única possibilidade de esperança, então a Europa tem de sentir a sua vergonha e indignidade (...) É preciso que todos saibam que Lampedusa, os seus habitantes e todos os que ajudam nas operações de salvamento respeitam a dignidade dos refugiados. São eles que conferem dignidade ao nosso país e à Europa."  



Enviado por: Helena Araújo às: 18:12 Sem comentários:
Etiquetas: refugiados

uma pessoa põe-se a falar da dificuldade que é para um emigrante ter de fazer centenas de quilómetros para ir votar, mas depois recebe uma mensagem assim e sente-se envergonhada

Numa conversa de facebook sobre o voto dos emigrantes falava-se de parte da alta taxa de abstenção ser devida, eventualmente, a terem cartão de cidadão emitido em Portugal, o que os registaria automaticamente numa mesa de voto no país, e falava-se também sobre as dificuldades para ir votar ao consulado, especialmente depois de terem fechado uns quantos para contenção de custos. Dizia eu que muitos emigrantes são obrigados a tirar um dia de férias para se irem inscrever no consulado, e a ida ao consulado implica para muitos deles uma viagem de centenas de quilómetros.

E foi então que recebi esta mensagem:

"Olá Helena, sou uma seguidora e estava seguir uma conversa num post onde não posso comentar.
Voto na Irlanda porque me registei aqui, o meu cartão de cidadão continua igualinho (tirado em Portugal).
Sim, tirei um dia de férias para me registar, mas...a democracia vale isso. É uma desculpa parva. No sábado, eu e o meu marido fizemos 400 km para votar porque o voto tem de ser na Embaixada (para o parlamento foi pelo correio). Sei de um amigo que fez igual na Croácia para poder votar (mas tb sei de amigos que não quiseram saber). Difícil fazer generalizações sobre o voto dos expats, que foram assim e assado. Vejo as mesmas tendências nos que ficaram em Portugal, cada caso é um caso..."

(sublinhado meu)

Ia sugerir que se desse uma medalha do 10 de Junho a esta portuguesa, mas desta vez não me apetece brincar com coisas tão sérias. A que baixíssimo patamar da Democracia já descemos, para eu sentir este impulso genuíno de dar uma medalha do 10 de Junho a uma pessoa, só porque foi votar?


Enviado por: Helena Araújo às: 10:17 4 comentários:

26 janeiro 2016

o desejado

A neve que durante os últimos dias cobriu Berlim (tanta, que só no domingo tive de limpar três vezes o passeio) esvaiu-se, como por milagre, quando o Matthias começou a atravessar o Atlântico na direcção da Europa.
À hora a que ele chegou a casa, estava assim:






Agarrem-me, que eu ainda tiro conclusões...

---

Viemos para casa com os amigos do Matthias. Bom, se querem saber tudo: o Joachim voltou para o trabalho de carro, os amigos levaram o rapaz na van em que fizeram a viagem a Portugal (é que não se poupam a nada: regressar de um ano na Costa Rica para logo ali reviver o passado na VW mítica!) Ainda tinham um lugar disponível. Como não consegui resistir aos olhinhos que a Christina me fez, fui de metro, a comer os croissants de chocolate que levava para o Matthias, e me esqueci de lhe dar. Cheguei a casa antes deles. Almoçaram todos o chili con carne que as saudades do rapaz tinham encomendado. Ficaram por ali a jogar e a rir até serem horas de jantar, jantaram, e depois foram-se embora (agradecendo muito as três refeições que lhe dei - a brincar a brincar, estamos no fim do mês, e eles moram todos num apartamento partilhado; ao fim do mês, sentem uma necessidade compulsiva de ir a casa dos pais). O Matthias acompanhou-os ao metro, e aproveitou para fazer a última volta do dia com o Fox.

Ah, o Fox! No caminho para o aeroporto, disse à Christina que tínhamos dez minutos para educar o cão, para não se perceber o laxismo que foi este ano inteiro. Tentámos com muito esforço, mas sem êxito. Ao fim de meia dúzia de passos na rua, pelo modo como reagiu à sua voz de autoridade, o Matthias percebeu logo que o Fox passou um ano sem saber o que isso é.

O pateta do nosso raposinho está feliz, e muito calmo. Parece-me que se pôs com dono. 





Enviado por: Helena Araújo às: 08:39 1 comentário:
Etiquetas: da minha vida vê-se um lago, fox news, gracias a la vida

25 janeiro 2016

e então, esse Matthias: chega ou não chega?

Estou assim: só acredito quando vir.
A última mensagem que recebemos foi na madrugada de domingo, de Chicago. Que parecia provável chegar a Berlim às 7:50, e que ia tentar encontrar um banco qualquer onde dormir. O avião saía no dia seguinte à tarde. Depois disso, não soubemos mais nada. Nem sequer em que avião vinha, nem a que aeroporto chegava. Descobri que não teria jeito nenhum para ser a mãe do Vasco da Gama. Isto de ter o rapaz a dar a volta a meio mundo sem mandar notícias mexe-me com os nervos. Comecei logo a imaginar filmes.

Esta manhã fomos para o aeroporto que nos pareceu mais provável, esperar o avião que em princípio seria o certo. A uns metros de entrar na auto-estrada, o telefone tocou. Era o Matthias, a falar do telemóvel de uma hospedeira, para avisar que havia um problema técnico e ainda não podiam sair. Voltámos para trás. Ando há dois dias a dizer que só compro os croissants para o pequeno-almoço depois de termos o rapaz dentro do carro, mas resolvi dar o dito por não dito, e fomos comprar um saco enorme de croissants e pãezinhos. Voltámos para o aeroporto, tirámos do carro tudo para o receber: o Fox, o cartaz e as flores de boas-vindas, e um casaco de inverno. Os amigos dele foram chegando. O avião, esse, nem sinais. O voo dele foi cancelado, entretanto caiu um nevoeiro horroroso em Frankfurt, começaram a cancelar e a atrasar voos, nós sem saber se havíamos de o ir esperar para a porta 8, ou 9, ou outra. Até que o telefone tocou outra vez, e era o Matthias a dizer que se fartara de esperar pelo avião e vinha de comboio. Agora, se não adormecer e não se esquecer de mudar de comboio em Erfurt, e se não houver avarias nem nevoeiro nem o diabo a quatro, é possível que chegue a Berlim por volta das duas da tarde. De hoje, em princípio.

Regressámos a casa, tomámos o pequeno-almoço sem ele. Os amigos são óptimos: muita risota, muitas histórias, agradeceram o pequeno-almoço, arrumaram a cozinha, e agora estão a aquecer-lhe a cama. Excepto o que resolveu aproveitar o tempo para lhe instalar no quarto uma ligação de luxo à internet. O Matthias ainda não regressou, mas a casa já começa a recuperar a energia alegre do tempo dele.


Enviado por: Helena Araújo às: 11:24 1 comentário:

23 janeiro 2016

um ano, e mais 24 horas intermináveis


(fonte)

Em fins de Janeiro de 2015, levei o Matthias ao aeroporto, para um longo ano fora de casa, a trabalhar como voluntário na Costa Rica. No check in disseram-nos que havia um temporal na costa leste dos EUA, e mandaram-no via Texas, para o que seria uma viagem horrorosa e cheia de confusões, que demorou dois dias.

Esta semana andámos a contar as horas para chegarmos a domingo às 8 da manhã, e já tínhamos um belo pequeno-almoço combinado com os seus melhores amigos. Ele fez a parte dele: dirigiu-se ao aeroporto de San Jose, onde lhe disseram que o mandavam via Chicago, porque fecharam todos os aeroportos da costa leste dos EUA devido a um temporal.

O avião sai 5 horas mais tarde do que é previsto, ele vai ter de dormir num canto qualquer do aeroporto de Chicago, e se o temporal não se deslocar para aqueles lados e se tudo correr bem, chega a Berlim na segunda-feira às oito da manhã.

O pequeno-almoço com os amigos já foi à vida, mas eu já tinha tudo preparado. Pelo que vamos passar duas semanas a comer tostas-mistas.



Enviado por: Helena Araújo às: 16:43 Sem comentários:

22 janeiro 2016

inverno, em glorioso - e hoje não me esqueci das luvas





Havia um homem a fazer esqui de fundo no lago. Ia e vinha, ia e vinha.
O Fox também: fugiu-me cinco vezes enquanto eu tirava as fotografias. Ia - e eu feita pateta a gritar "Foooox! ó Fooooox! Já aqui!" - e vinha.
Mas esperou pacientemente cinquenta vezes. Tive de lhe perdoar aqueles 10% de falta de juízo. Ou isso, ou deixá-lo em casa nos dias em que levo a máquina fotográfica para o seu passeio matinal.






 
 
 
  

Não costumo tirar fotografias a outras pessoas e cães. Hesitei antes de tirar esta, e acabou por não sair tão engraçada como a própria cena: um cão estava a atirar neve para trás, e o pateta do Fox levava com ela toda no focinho. Protestava em altos latidos, em vez de se tirar dali. 


Enviado por: Helena Araújo às: 13:17 3 comentários:
Etiquetas: da minha vida vê-se um lago, fox news

21 janeiro 2016

o inverno - glorioso nos detalhes



Na sebe de um vizinho.



Outra sebe, feita com árvores de maçãs anãs, em espaldeira horizontal. 



O sol de inverno na madeira de um corrimão.


Enviado por: Helena Araújo às: 17:07 3 comentários:
Etiquetas: colheita do dia, fox news

Strauss, Neuenfels, Metzmacher


(foto: Monica Rittershaus)



(foto: Monica Rittershaus)


Mudam-se os tempos, mudam-se os enfants terribles.
Na Ariadne auf Naxos que vi ontem, o Hans Neuenfels ganhou juízo. Já não se pode confiar em ninguém? Enfim... ainda há o Calixto Bieito, talvez a saudável loucura do mundo não esteja completamente perdida.

A encenação, de gestos precisos e adereços tão discretos como intemporais (encenar o novo-riquismo com um multibanco numa parede de betão já podia ser um clássico, não?), alarga o espaço da música de Strauss e deixa-a brilhar na sua beleza. Uma beleza e um equilíbrio para os quais muito contribuiu o trabalho do maestro Ingo Metzmacher.

Do elenco, retive três nomes: Brenda Rae, Marina Prudenskaya, Roman Trekel.

Para o futuro, uma decisão de ano novo: vou andar mais atenta às produções da Staatsoper.
(A Filarmonia que não saiba disto.)
(Se tiverem tempo, entrem neste link, onde se pode ter um ideia do que a Staatsoper fez nos últimos 5 anos)


Enviado por: Helena Araújo às: 09:10 1 comentário:
Etiquetas: filarmonia de Berlim

20 janeiro 2016

colheita do dia

 


Colheita do dia
(sim, está frio)
(não, não é uma queixa)

Enviado por: Helena Araújo às: 23:29 Sem comentários:
Etiquetas: colheita do dia, fotografia

rien de rien

 


Estou a sair para um ópera encenada pelo Neunfels, o enfant terrible das encenações de ópera. Para o caso de voltar muito diferente do que fui, aqui neste ponto limiar para o desconhecido solenemente declaro: non, rien de rien, je ne regrette rien, etc.
("solenemente", diz ela, hehehehe)
Depois conto como foi.
Enviado por: Helena Araújo às: 23:20 Sem comentários:

estou a sair para uma ópera encenada pelo Neuenfels



Estou a sair para um ópera encenada por este enfant terrible das encenações de ópera. Para o caso de voltar muito diferente do que fui, aqui neste ponto limiar para o desconhecido solenemente declaro: non, rien de rien, je ne regrette rien, etc.

("solenemente", diz ela, hehehehe)

Depois conto como foi.



Enviado por: Helena Araújo às: 17:56 Sem comentários:

o inverno, em glorioso - um cãoguru




Não é fácil apanhar o saltarilho no meio da cena. De tão gelados, ia ficando sem dedos enquanto tentava fazer este filme.

Na primeira fotografia tive sorte, porque o saltarilho parou um momento; na segunda e na terceira estava a acenar-lhe com um pedacinho de carne. A última foi tirada pela Christina no Natal, e sempre que a vejo dá-me vontade de rir.










Enviado por: Helena Araújo às: 16:22 Sem comentários:
Etiquetas: colheita do dia, fox news

notícias do facebook neste triste janeiro

Isto está complicado: o David Bowie continua a morrer no facebook, e não deixa espaço para riparmos os outros. Bom jeito nos dava podermos fazer um intervalinho nos ripanços.
Alguém avise o Zuckerberg, para ele não deixar morrer mais ninguém.
Que a vida no facebook está a ficar complicada.

++

Por falar em David Bowie, aqui deixo dois vídeos de que gostei especialmente. Um que festeja o que ele deixou em nós, e outro só porque gostei muito de o ver assim de cara lavada. Nunca se sabe o que é máscara e o que é a pessoa (saberemos nós, de nós próprios?) mas gostei mesmo muito desta versão dele.







Enviado por: Helena Araújo às: 12:08 Sem comentários:
Etiquetas: viver na internet

o inverno, em glorioso


Parece que o inverno chegou, finalmente. Os dias têm estado muito frios, mas com o céu azul. Excepto ao amanhecer e ao fim do dia, quando algumas nuvens simpáticas vão para o lado do sol fazer bonito para a fotografia.

O lago gelou, e a superfície sólida cobriu-se de neve.


 




 (no meio do caminho tinha um poste, 
tinha um post com um casaquinho tricotado no meio do caminho)






Enviado por: Helena Araújo às: 07:33 2 comentários:
Etiquetas: colheita do dia

19 janeiro 2016

un concert très dansable



Já está online o concerto de ano novo de 2015 dos filarmónicos de Berlim, com compositores franceses e a Anne-Sophie Mutter. No site do DCH há um trailer com alguns momentos do concerto.
Pena é não terem incluído nenhuma das passagens em que o violino ia do choro desamparado ao lamento velhaco em dois ou três compassos - a Anne-Sophie Mutter a levar-nos, pela mão da sua música, ao mais sublime e ao mais sórdido do que pode haver em nós.

O programa era francês, com muita música de dança. E eles dançavam, os filarmónicos. Ultimamente dançam sobre o precipício. Apercebi-me disso no primeiro concerto do ciclo Beethoven, quando acabaram a Sétima praticamente em pé, arrebatados por um apogeu de energia que siderou a sala. E desta vez, La Valse, de Ravel, numa onda que parecia desafiar as leis da Física.

Entretanto, é oficial - e vinha na página central do programa deste concerto! - que faço parte da Filarmonia de Berlim. Ora vejam bem nessa foto, o título - die Berliner Philharmoniker - e eu, de vermelho, bem no meio, praticamente em grande plano. Hei-de ir ver quem foi o fotógrafo, hei-de ter uma conversinha construtiva com ele, para me explicar porque é que resolveu meter tanta gente na fotografia, mais um bocadinho e bem podia ir fazer aqueles livros "onde está o Wally?", para isso é que ele tem jeito.


Enviado por: Helena Araújo às: 17:31 2 comentários:
Etiquetas: filarmonia de Berlim

18 janeiro 2016

"como discutir com a forquilha de estrume"

Por causa das gargalhadas que este texto me provocou, e da admiração que me causaram certos trocadilhos (se querem saber tudo: fiquei cheia de inveja daquele "pós-colonialismo"), e sobretudo porque é uma crítica muito bem feita ao modo como o debate no espaço público está a ficar irracional e inútil, traduzo (apressadamente, já se sabe, em registo muito livre e encurtando as partes que me obrigariam a pensar muito para traduzir bem). Ora cá vamos nós.


Como discutir com a forquilha de estrume

Margarete Stokowski - 14.01.2016Spiegel Online

Encontramo-nos desde há duas semanas na época do pós-colonialismo. Esta nova era tem as suas próprias regras. Um guia.


Encontramo-nos desde há duas semanas numa nova época: a do pós-colonialismo. Uma era na qual a lógica já não conta, porque pura e simplesmente já ninguém a usa, e o bom senso não se consegue fazer ouvir no meio da barulheira. Mas o pós-colonialismo também tem as suas regras. Ei-las:

Regra primordial: não convém usar argumentos. Os argumentos discriminam as pessoas que não têm a capacidade de pensar. Portanto, nos debates há que evitar encadeamentos lógicos e justificações compreensíveis. Também não se deve dar ouvidos aos argumentos das outras pessoas. Afinal de contas, isto aqui não é uma universidade de elite. Não temos de reflectir. Pelo contrário: a reflexão encandeia. (É uma questão da Física).

Segunda regra: conhece o princípio da boa vontade na interpretação? Não? Não importa. Significa que, em vez de procurar o pior possível no que outra pessoa diz, se ouve numa atitude de boa vontade, a partir da qual se interpreta e critica. Mas isto são coisas de antigamente. Terá sido inventado por uns santos quaisquer na Idade Média, e depois académicos sem qualquer noção da realidade, nos anos cinquenta (!), copiaram a ideia. Em inglês chama-se "principle of charity". Hahaha, charity. Isso é coisa de famosos ricos, que constroem escolas para zebras no Saara, não é para gente como nós. A propósito: este é o ano do macaco no calendário chinês. Comportemo-nos em conformidade.

Terceira regra: se quer discutir com alguém, não se deixe confundir. Não importa se o seu oponente também quer o mesmo. Mantenha o seu rumo! Comece por reparar nas características exteriores: qual é o aspecto dessa pessoa? Pertence a uma minoria? Tente identificar potenciais fragilidades, partes do corpo pouco estéticas (veja também por trás) e boatos sobre a mãe dessa pessoa. Mas não perca muito tempo com isso. Não verifique a veracidade das insinuações. Qualquer informação serve, e a mesquinhez é um valor precioso. Comece por ofender a pessoa. Tente ir baixando o nível passo a passo, até tocar o chão. Uma vez aí, repouse um pouco. Depois, comece realmente a sério. Mas mantenha-se sempre lá em baixo! É o terreno mais seguro.

Quarta regra: por princípio, não acredite em nada do que lê nos jornais. Se está impresso, é mentira. Leia as notícias como se fossem ironia. Anedotas. As três excepções sagradas são a coluna do Harald Martenstein, os prospectos do Aldi e o Cicero. O resto, é imprensa-falsa-pára-a-valsa. Envie cartas do leitor à imprensa falsa - muitas! Escreva dez cartas por cada mágoa que sofreu na sua infância. Diariamente.

Quinta regra: conhece a Hannah Arendt? LOL, não é preciso. Era só um teste. Como se tivesse de acreditar em pessoas do século passado! Não acredite em intelectuais! Se tiver de acreditar em alguém, que seja em gente do You Tube ou da "Junge Alternative". Têm mais futuro. Em tempos houve um tipo que escreveu "como filosofar com o martelo". Isso não é cá para nós. Nós argumentamos com a forquilha do estrume.

[em "forquilha do estrume" há um link para esta notícia, sobre um motim de 250 neonazis em Leipzig, que rebentou paralelamente à manifestação em que o Pegida comemorava um ano de existência. Acolhida por um público que gritava "resistir! resistir!", uma oradora do Pegida afirmou: "Se a maioria da população ainda estivesse no seu perfeito juízo, pegava em forquilhas de estrume para correr com estas elites traiçoeiras ao povo, correr com elas dos parlamentos, dos tribunais e das igrejas."]

Intervalo para um exercício de respiração: inspire e expire, tomando o dobro do tempo para inspirar que para expirar. (Os idiotas do ioga fazem isto ao contrário, mas você não é um idiota do ioga.) Mantenha os músculos do maxilar e dos joelhos retesados. Permaneça assim.

Sexta regra: Não poder usar argumentos não significa que a língua não tenha importância. Use palavras fortes, isso torna-o poderoso. Censura! Incitamento ao ódio! Nazi! Se quer proteger as mulheres, cuide de ter uma aura de seriedade, dizendo muitas vezes cona-mole. No Twitter, escolha um nome como ParceiroRaivoso3000. Para sublinhar a sua autoridade, escreva em maiúsculas, com muitos pontos de exclamação e o emoji da bomba.

Sétima regra: O twitter é o máximo. Vá para lá! O melhor é fazer logo vários perfis: quantos mais, melhor. Além disso, pode enviar likes-coração a si próprio. Se por causa de tantos cliques não tiver tempo para arranjar uma foto de perfil, deixe ficar o ovo deles. De qualquer modo, essa é a melhor solução. Seja um ovo. Ovos são inatacáveis. Repare no Humpty Dumpty, em "Alice do outro lado do espelho". Um caso exemplar de ovo, sobretudo no que diz respeito à cultura do debate.

[em "cultura do debate" há um link para a wikipedia em alemão, "Humpty Dumpty na Filosofia", onde se lê:
"I don't know what you mean by 'glory,' " Alice said. 
Humpty Dumpty smiled contemptuously. "Of course you don't—till I tell you. I meant 'there's a nice knock-down argument for you!' "     
"But 'glory' doesn't mean 'a nice knock-down argument'," Alice objected. 
"When I use a word," Humpty Dumpty said, in rather a scornful tone, "it means just what I choose it to mean—neither more nor less." 
"The question is," said Alice, "whether you can make words mean so many different things." 
"The question is," said Humpty Dumpty, "which is to be master—that's all." 
Alice was too much puzzled to say anything, so after a minute Humpty Dumpty began again. "They've a temper, some of them—particularly verbs, they're the proudest—adjectives you can do anything with, but not verbs—however, I can manage the whole lot! Impenetrability! That's what I say!"
Chama-se "argumento Humtpy Dumpty" a alegações (1.) que, numa discussão, são apresentadas como válidas sem qualquer outro fundamento para além de um poder de facto, permitindo este prescindir de verdadeiros argumentos, ou (2.) nas quais são usadas palavras com um significado que se afasta de modo flagrante do seu uso habitual. ]

"Quando uso uma palavra", explica Humpty Dumpty à Alice, "ela significa exactamente aquilo que eu deixo que ela signifique, e nada mais." Para a Alice, aquilo é muito estranho, para Humpty Dumpty não é: "A questão é: quem tem o poder. E isso é tudo."
Tome o poder nas suas mãos. Se prefere o facebook ao twitter: não há problema. No facebook também vigoram as leis do pós-colonialismo. Já há mulheres na política a publicar as regras da etiqueta na net para esta nova era.

[esta última frase tem um link para o mural de facebook da Renate Künast, no marcador "etiqueta na net", no qual ela se dirige às pessoas que lhe enviam cartas de ódio. O texto, muito sarcástico, termina com um aviso sobre ela fazer queixa por qualquer mensagem agressiva, e que as coisas se podem tornar desagradáveis para o agressor. Dá um exemplo.]

Oitava regra: Quando disser alguma coisa, sublinhe que é essa a verdade. Isso é importante. Quem não faz isso, está a mentir. Veja-se a imprensa falsa. Habitue-se a frases como "agora vou quebrar um tabu" ou "desculpem a pergunta ingénua", e sobretudo "isto que vou dizer não é politicamente correcto, mas...". Termine sempre com "alguém tinha de dizer isto" ou então com "pobre Alemanha". Antes de adormecer, diga: "boa noite, Alemanha". Ensine isso aos seus filhos.

Nona regra: Contradiga-se. Isso é da ordem da dialéctica. O seu opositor é apanhado de surpresa, o que lhe permite a si ganhar tempo. Use o tempo que ganhou para ler o "Focus online". Tente ler tudo o que há no "Focus online". As pessoas com mais experiência conseguem fazer simultaneamente o exercício respiratório descrito acima. (Mas não aceite ordens de cima. Os de cima são criminosos.)

Décima regra: Não recorra nunca à ironia. (Atenção: isso contradiz a quarta regra, mas não faz mal: é bom haver contradições! V. a nona regra.) Já ninguém entende ironia. A ironia mata. Vai haver sempre um palerma qualquer que a vai levar a sério - e nesse caso, boa noite, Alemanha.


ADENDA - Ao reler este texto, em 2025, dei-me conta de que já não é possível entender a piada da expressão "pós-colonialismo". Acrescento o contexto: Margarete Stokowski escreveu o texto sensivelmente duas semanas depois do caso chocante de ataques em série a mulheres no réveillon em Colónia, e critica o aproveitamento ideológico destes crimes no modo como se falou deles.
Enviado por: Helena Araújo às: 18:39 Sem comentários:

"faça de conta que não ouve"




(foto de uma notícia sobre acusações de xenofobia no SZ e na revista Focus, devido a estas imagens)


A informação de que o piropo (melhor dizendo: a importunação com propostas de teor sexual) já pode dar pena de prisão provocou uma onda de protestos, que iam desde "até parece que em Portugal não há problemas mais urgentes e importantes para resolver" até "não vamos começar a legislar sobre tudo e mais um par de botas! isso é totalitarismo!", passando por "como é que vão conseguir fazer prova disso em tribunal?" - sendo o debate acompanhado pelo baixo contínuo da atitude expressa pela frase lapidar: "mulher honesta não tem ouvidos".

Portanto: se um homem disser a outro, na rua, "seu gatuno! se te apanho a jeito, nem a alma se te aproveita!", o interpelado pode ir fazer queixa à polícia, pôr um processo por difamação, e eventualmente até pedir protecção policial. Mas se um homem disser a uma mulher, na rua, "sua boazona! se te apanho a jeito, dou-te três sem tirar!", é disparatado ir-se queixar à polícia. Não dá para provar seja o que for, os tribunais têm mais que fazer que perder tempo com ninharias, e toda a gente sabe que uma mulher honesta não tem ouvidos, aliás: ninguém a mandou ir por aquela rua, e muito menos vestida daquela maneira, quando sabia muito bem que tipo de homens costuma andar por ali.

No debate sobre a criminalização do piropo surge repetidamente a afirmação de que não há ligação nenhuma entre o "piropo" e a violência sexual física, e que o "piropo", mesmo se ordinário, é inócuo. Deixando de lado o facto de que não é isso que muitas mulheres relatam (muitas vezes o "piropo" vem acompanhado por um apalpão), gostava que me explicassem então porque é que um dos atacantes de Colónia se deu ao trabalho de traduzir "piropos" para a língua das vítimas, e gostava que me ajudassem a interpretar esta gracinha publicada no facebook por alguém que se diz humorista:




A nossa cultura habituou-se a bagatelizar o assédio de rua, culpabilizou a vítima (se fosse honesta, não tinha ouvidos; se fosse prudente - na roupa que veste, nas ruas que frequenta, nas horas a que anda sozinha na rua - não tinha que ouvir), e deixou cada mulher isolada num limbo de silêncio. Pelo que as mulheres se habituaram, elas próprias, a não chatear. Aprendem desde o início da puberdade a fazer de conta que não ouviram, a atravessar para o outro passeio, a evitar certas ruas, a "manter um braço de distância". Automaticamente, e em silêncio.

Penso que este acordo tácito social para bagatelizar o problema do assédio teve um papel muito importante nos acontecimentos em Colónia. A polícia não se terá apercebido do que estava a acontecer, porque apalpões a mulheres em eventos deste género são, digamos, azares que acontecem, mas não são algo com que os agentes da autoridade tenham de se preocupar. Lá está: ninguém as mandou ir para o meio de desconhecidos, já se sabe que há sempre algum que se aproveita, agora escusam de se armar em histéricas e hipersensíveis, afinal foi só um apalpão, claro que é desagradável, mas convenhamos que ninguém lhes tirou um bocado. Como respondeu um polícia a duas jovens que lhe foram pedir ajuda nessa noite, nessa praça, depois de terem sido atacadas por um grupo de cinco homens que as apalpou como quis, se riu dos pedidos de ajuda delas, e a seguir lhes tentou roubar um telemóvel: "não podemos fazer nada - acautelem os vossos objectos de valor".

No dia seguinte, no relatório policial sobre os acontecimentos da passagem de ano, dizia-se que tinha corrido com relativa normalidade. Acredito que a polícia não estaria a esconder os factos - estava simplesmente a fazer o que a sociedade acha normal: ignorar o que acontece às mulheres. Porquê sobressaltar-se com uma dúzia de queixas de mulheres que alegadamente teriam sido alvo de homens que as trataram sem respeito?

As próprias mulheres demoraram alguns dias a entender o que lhes aconteceu, e a dar-se conta de que, desta vez (!), tinham o direito de se queixar. Só isso explica que as queixas tenham entrado a conta-gotas. Até ao dia 4 de Janeiro ainda só havia 15 queixas por violência sexual; duas semanas depois dos incidentes, o número de queixas por violência sexual já ia em 330 (num total de 650 queixas, e 739 vítimas).

Perguntarão: então as mulheres não perceberam logo no dia 31 de Dezembro que foram apalpadas?
Essa parte não tem dúvida. Mas foi preciso terem sentido, por parte da sociedade, uma enorme onda de empatia, para terem a certeza de que desta vez seriam olhadas como vítima, e não como culpada, ou como histérica.

De certo modo foi uma sorte os atacantes serem árabes ou do norte de África: ao estilizar-se na cabeça de todos a imagem de mãos pretas em corpos femininos brancos, o crime em si desenhou-se com clareza, sem se deixar turvar pelo reflexo de tolerar os nossos hábitos culturais e de proteger os nossos homens. Neste caso, a xenofobia jogou a favor da causa das mulheres, porque ao ser cometido pelo "outro", pelo bárbaro indesejado, deu ao crime concreto uma visibilidade imune a qualquer máscara ou desculpa.



Também os gritos que da rua se ergueram para expulsar esses criminosos jogam a favor das mulheres. Para serem expulsos, têm de ser acusados de um crime grave. Pelo que o assédio de rua passará a ser considerado crime grave, seja cometido por "um desses energúmenos" ou por um dos "nossos". Se temos motivo para ficar muito incomodados por um refugiado árabe/muçulmano ter consigo um papel onde escreveu a tradução para a nossa língua de frases como "mamas grandes" e "quero-te foder", temos de ficar igualmente incomodados quando essas frases brotam da boquinha de um compatriota nosso. Não há como penalizar duramente no caso de uns, e tolerar no caso dos outros.

A polícia aprendeu depressa. Na semana passada, prenderam dois paquistaneses que andavam a abraçar mulheres junto à Porta de Brandeburgo, em Berlim. Os media também aprenderam depressa: em vez de passar em silêncio, essa notícia vinha na primeira página do suplemento regional do meu diário berlinense. Se há algo de positivo nos acontecimentos de Colónia, na passagem de ano, é este novo olhar, atento e crítico, ao assédio verbal e físico na rua. A sociedade já não faz de conta que não vê.

Por seu turno, as feministas alemãs lançaram nova campanha. Chama-se #ausnahmslos, ("sem excepção" - aqui, em inglês) e está a ser muito bem recebida pela sociedade alemã.

Os tempos estão a mudar. Nunca mais se vai poder dizer a uma mulher "faça de conta que não ouve".


Enviado por: Helena Araújo às: 11:55 4 comentários:
Etiquetas: assédio, machismo estrutural, refugiados
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Início da publicação: 17.01.2004
© Helena Araújo - 2004
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