29 outubro 2008

picando o ponto

Só para avisar a abrunho que, se não me encontrar nas escadas, é porque estou em retiro a fazer figas pelo Obama. Quer dizer: a fazer figas pelos EUA.

Emboramente... depois de saber que a Islândia, ao ver-se perto da bancarrota, foi pedir dinheiro à Rússia, devia virar-me era para a política aqui mais a leste.

Talvez. Mas é que o Putin não tem a graça deste:

puestos estan frente a frente

Puestos estan frente a frente
Los dos valerosos campos





No décimo aniversário da morte de José Cardoso Pires: o cenário das lides.

Adenda: a quem se interessa pela pessoa do escritor, tem aqui algumas achegas interessantes, tanto no post como nos comentários.

28 outubro 2008

o 2 dedos de conversa feito pelos meus filhos

- sugestões do Matthias:






- sugestões da Christina:



27 outubro 2008

homofobia escondida com o riso alarve de fora

Muito revelador o modo como por aí se reage à informação de que Haider era homossexual, ou bissexual, ou sei lá o quê.

Até parece que o homem foi apanhado em falta.


***

Dirão: pois, mas, e os de extrema-direita...
Expliquem-me então: o que é que o Haider disse, concretamente, contra os homossexuais?

E mesmo que tivesse uma posição pública repressora!
Citando o Mexia (ele lá saberá porque o disse, mas a mim serve-me muito bem neste contexto): "há uma diferença entre aquilo que as pessoas sentem e aquilo que as pessoas dizem; e há uma diferença entre aquilo que dizem e aquilo que fazem."


Na vida real, nenhum indivíduo se livra da diferença grande entre o seu ser e o seu dever-ser.

Por outras palavras: as ideias políticas do Haider, ou de outro qualquer, são para discutir com ideias, e não por recurso ao confronto com a realidade da sua vida privada.

Dirão: pois, mas, e os políticos? Impõem-nos uma coisa e fazem outra?
O Ministro das Finanças, por exemplo: se ele defendesse que todos temos de pagar impostos, e se lhe descobrissem uma contazita no Liechtenstein, qual era a conclusão a tirar? Que afinal ninguém tem de pagar impostos?


***

Em jeito de coda: no Renas e Veados encontrei um texto muito interessante, onde se pega nesta problemática pelo seu oposto. Em vez do "até entre os de extrema-direita há homossexuais" diz-se "até entre os homossexuais há gente de extrema-direita".


Um dia - sonho - a orientação sexual de uma pessoa será uma informação tão relevante como, por exemplo, revelar com que mão ela gosta de escrever.

mercado de trabalho, sul dos EUA, 2009



The immigration debate just got a little funnier, diz a empresa produtora.
O filme foi feito em 2007. E eu a pensar que seria novinho em folha, de Outubro 2008...

Já vimos uma variação deste tema no filme "the day after tomorrow".
Uma onda de frio varre o norte da América, e os EUA pedem asilo climático ao México. Um cinismo de cena: os mexicanos derrubam, magnânimos, a fronteira que separa os dois países.

24 outubro 2008

vinte



Vinte pessoas cá em casa, de hoje (e é já daqui a bocadinho!), até domingo ou segunda-feira.
Não sei onde tinha a cabeça quando concordei com este encontro de família.
Se sobreviver, e quando recuperar, conto.

O que vale é que é tudo boa gente. Excepto alguns, que são ainda mais boa gente que os outros.

22 outubro 2008

prémio alvos



Enquanto ouvem a musiquinha, que é das coisas mais bem dispostas que conheço (lembram-se da telenovela onde ela passava todos os dias, lembram-se daquela engraçada "quem quer comprar meu melãããoooo?"?), vou revelando que não tenho blogues a quem atribuir um prémio alvo.
Quando muito, o prémio fugir-deste-a-sete-pés.
Se acho que o que lá leio não me aproveita, não frequento.
Prefiro gastar o tempo nos blogues que me alargam os horizontes, em vez dos que me aumentam a produção de fel.

Às vezes, incauta, meto-me numa refrega. Mas não é bem tiro ao alvo, é mais alguém que se me mete pelos olhos adentro indo eu toda descansadinha pela minha vida blogosférica...

21 outubro 2008

prémio dardos



Ora aqui está a primeira cadeia que me agrada: o prémio dardos, melhor seria chamar-lhe "gosto de te ler!".

Chegou a mim via Lutz - obrigada e igualmente, Lutz!
Que é como quem diz: obrigada, e muito mais para ti!

Pede-se-me que indique 15 blogues.

Ah, com todo o gosto conto alguns dos meus vícios privados!
E até acrescento uns comentários - exercício sempre redutor, mas hoje apetece-me correr o risco.

Atão, vá:

amor e outros desastres, a io a dar-nos música da boa

barbearia do sr.luis - o blogue que apela aos meus mais baixos instintos: o que eu tenho de me controlar para esconder a inveja e para não lhe roubar aquele genial "já fui feliz aqui"

bios politikos - o blogue que não precisa de caixa de comentários, porque geralmente está tudo dito

boas intenções - ou: a arte de exibir inteligência como se fosse uma coisa simples

contemplamento - "Livre pensar, é só pensar"

imagens com texto - um blogue surpreendente

jardim de luz - a MC lembra-me um pouco a Etty Hillesum, com essa ânsia de procurar um sentido, estando consciente que a eternidade se joga em cada momento

lida insana - o chamado "pouco, mas bom"

ouvido do vento - o cristianismo não se impõe aos outros, vive-se: como fermento e sal

quase em portugues - o Lutz devia ganhar o prémio "retórica" aqui do bloco: não conheço ninguém como ele tão capaz de fazer avançar um debate a partir do saber ouvir os argumentos alheios

religionline - as boas notícias da Igreja que é minha

segunda língua - disse mal o descobri: este blogue é um sossego

terrear - o coração na escola

E vão treze. Tenho mais alguns vícios, mas preferi guardar espaço para dois blogues que ainda não existem, e há muito deviam existir:
- Sara Monteiro
- Carlos Índico


Em contrapartida, o JPT inventou o prémio-alvos.
Confesso que também me tinha ocorrido algo semelhante.

Não há dúvida: o que a gente se pela por uma boa rixa!

gelados em Roma

Rita,

os melhores gelados de Roma são - ao que dizem os especialistas - na San Crispino, na Via Della Panetteria, 42, uma transversal da Via del Tritone, perto da Fontana di Trevi.

Só servem em copos de papel, porque aquilo é muito mais que uma religião, e não se pode profanar o sabor do gelado com uma bolachinha.
Terás de fazer de conta que és romana, porque é só para autóctones.
(Com o teu estilo, é fácil - basta fingires que estás afónica, apontas elegantemente com o dedo, pronto.)

Também gostei da Gelateria Giolitti, na Via degli Uffici Vicario, perto do Corso. É fácil de encontrar: vais pelo Corso adiante, quando vires pessoas a comer gelados segues na direcção contrária à delas, quando vires uma grande fila de gente pela rua adiante, é lá. Um café lindíssimo, em estilo Arte Nova.

A Gelataria fica entre a Piazza del Parlamento e o Panteão. Pegas no teu gelado, e vais passear para a Via dei Cestari, por trás do Panteão, uma rua inteira de alta-costura e prêt-à-porter para padres, freiras e papas. Encontrarás desde montras de lingerie (tipo avós) até à parafernália católica - por vezes, à distância de escassos centímetros.
É um sítio um bocadinho estranho. Quase diria: a Diagon Alley da Igreja Católica.

Ao passar pela praça de Santa Maria sopra Minerva não te esqueças de reparar no elefante do Bernini. Aquele grande manganão, zangado com os dominicanos que lhe tinham encomendado a obra, arranjou maneira de fazer aprovar os planos onde o elefante estava virado para o edifício destes, com uma pequena nota para o mestre de obras dizendo que o elefante devia ser girado 180º. Imagina a cara dos dominicanos, ao abrirem as janelas pela manhã e darem com o traseiro do bicho a rir-se para eles...



Ah, mas não vás tão depressa. Se o gelado já se te acabou em frente ao Panteão, e fizer bom tempo, vai até ao Tazza d'Oro (se estás de costas para o Panteão, fica do outro lado da praça, à direita - Via degli Orfani 84) e pede uma granita di café con panna (aqui tens mais informações, e a fotografia que acabei de roubar). Ou então, experimenta o expresso tazza d'oro.

Finalmente: recomendaram-me o Fassi. Não cheguei a ir lá, porque se me atravessaram umas igrejas pelo caminho (o problema das igrejas em Roma é que não estão sempre abertas - o que nós andámos de um lado para o outro para acertar com as horas de visita...).
Sugeriram: gelado de café, chocolate amargo com laranja e avelã com chocolate.

Boa viagem!

20 outubro 2008

o meu parto mais bonito do mundo

A bolsa de águas rebentou na sexta-feira, pouco antes da meia-noite.
Fui para o hospital. Contracções, nada.
No sábado continuava tudo calmo.
Como os ginecologistas alemães não gostam de dar empurrõezinhos químicos à natureza, disseram-me para subir e descer escadas, a ver se o Matthias se resolvia a nascer.
Por volta das nove da noite, já tinha eu percorrido pelo menos meia muralha da China, começaram finalmente as contracções.

Quando estou em trabalho de parto, sou assim: se me sento, as contracções param.
Grande truque, hehehe: posso ligar e desligar, conforme as forças que tenho.
(Espero que não esteja aqui nenhum médico.)

O Matthias foi o meu parto mais bonito do mundo, porque foi dividido com o pai. Em vez de estar por ali com a cara de aflito que os pais têm nestas ocasiões, fez uma boa parte do trabalho. Passámos a fase da dilatação no corredor, andando de um lado para o outro. Depressa percebemos como dominar a dor: quando vinha uma contracção, ele amparava-me e massajava as minhas costas na área da bacia.
Eu sabia praticamente tudo sobre as técnicas para controlar a dor do parto - o que não imaginava, é que resultassem tão bem!

Pouco depois das onze fomos para a sala de partos. O médico disse "está quase", e eu respondi "não se apresse - já esperei tanto, que agora aguento mais um bocadinho e nasce-me um Sonntagskind".

O Matthias nasceu na primeira hora da manhã.
Muito mais que um Sonntagskind: traz em si todos os domingos.

E hoje faz 12 anos.

17 outubro 2008

efeméride

Por esta altura, há um ano, estávamos a mudar para Berlim.

Trocámos estas escadas:




por estas:





Esprit d'escalier é a nossa especialidade.

roupa de marca

A propósito deste post no Amor e Outros Desastres, lembrei-me de uma das características mais interessantes que descobrimos no que restava da "Alemanha comunista", onde vivemos cinco anos: o desprezo a que se votava a roupa de marca.

Se havia pressão social, era para baixo.

"Mãe, sou a única menina da minha turma que ainda não tem aquela camisola do Lidl" - dizia uma miúda cuja mãe tinha uma especial predilecção por boutiques infantis francesas e italianas, caríssimas.

Na escola, os excluídos eram os que vestiam chique com label...

***

No sul da Alemanha, onde nasceram os meus filhos, havia a loucura da roupa de marca para crianças.
Era ver as mães nos bazares de roupa usada, a atirarem-se como loucas àquelas pecinhas Oilily e Portofino. Troféus.
(Eu não, que eu comprava directamente de uma amiga. Hehehe.)

E depois era ver as crianças todas engalanadas a brincar nos parques infantis, observadas por mães mal vestidas - geralmente de leggings e t-shirt largueirona - e descuidadas com a sua própria aparência.

funeral

Aqui.
Tanta beleza numa história tão triste.

provincianismo

Encontro com amigos, vindos de outras paragens para uma curta visita à capital, numa esplanada perto do Winterfeldplatz.

No meio do bulício desse maravilhoso mercado ao sábado de manhã, da profusão de diferenças e da alegria leve que enchia as ruas, estavam eles.
Muito asseados nos seus impecáveis jeans DKNY, sapatos luva Timberland, e pólos Tommy Hilfiger em tons de rebuçado a condizer com o pullover Ralph Lauren pousado sobre os ombros, com o cavaleiro virado para fora.

Acontece que Berlim é uma cidade descontraída, e uma família inteira vestida de forma assim certinha dá nas vistas. Fiquei cheia de pena deles. Nesta cidade, onde as pessoas que realmente têm estilo não exibem marcas, limitavam-se a manifestar, com dolorosa evidência, um provincianismo que toca as raias do tristemente ridículo.

Para onde pensavam eles que iam, para precisarem de proteger o peito com o símbolo de marcas poderosas?

registo com especial satisfação

No post "audiências", Eduardo Pitta anota um momento no ranking do blogómetro.

Não percebi muito bem o que são "blogues-enquanto-blogues", mas esse não é o elemento central da questão.
Mais importante é dar-me conta do óptimo lugar conseguido pelo Da Literatura, apesar de resistir às estratégias de holding para aumentar a audiência. Parabéns!

Registo com especial satisfação, e até muito alívio, que num país onde se recorre a abjecções do género "Momento da Verdade" para conquistar audiências, blogues que apelam à inteligência, como o Da Literatura e o De Rerum Natura, conseguem um lugar tão alto no ranking dos mais lidos.

Isto vai. Devagarinho, mas vai.

15 outubro 2008

terrear

Já aqui falei no blogue Terrear?
Onde se procura fazer do ofício docente o primeiro de todos os ofícios, e onde se dá as boas-vindas a quem ainda não desistiu de inventar dias mais claros.

Ir à procura de caminhos mais claros pelos posts do Terrear é um prazer e uma inteligência.
Leiam isto, por exemplo, onde se explica que o juízo que o professor faz sobre o rendimento dos alunos, logo na primeira aula, condiciona de facto o rendimento destes.

Aquilo não é bem um blogue, é mais um vício...

Tout Donner




Jung atacou de novo.
Ontem, uma amiga lembrou-me esta bela peça de Lully, que me fez ir buscar o CD com a música de Tous les Matins du Monde.
Hoje, o dia começou com a notícia da morte de Guillaume Depardieu.

***

Fique registado que, apesar do peso do sofrimento e das angústias que em má sorte lhe couberam, soube tornar o nosso mundo um pouco mais belo.
Obrigada, Guillaume!

14 outubro 2008

os uns e os outros

Na semana passada, Angela Merkel e Peer Steinbrück, ministro das Finanças, garantiram que os depósitos de poupanças dos particulares estavam seguros.
Para acalmar os ânimos e evitar uma corrida aos bancos como a que deu origem à grande depressão, calculo eu.
Os media devem ter calculado outra coisa, porque desataram a perguntar "e como é que eles podem garantir isso?! de que meios dispõem?!"

Ontem, numa entrevista de Steinbrück a um noticiário televisivo, quando o ministro contava em tom positivo e seguro os detalhes da solução encontrada, a jornalista perguntou-lhe "mas-e-então-não-sei-o-quê" que o deixou exasperado:
"Tenho eu tão boas notícias, e a senhora esforça-se por procurar ver tudo pelo lado pior. Os políticos estão a fazer tudo o que podem para controlar esta crise, em vez de nos deixar resvalar para um ciclo infernal. Espera-se que os media façam também a parte deles!"
(não foi bem assim que ele disse, mas era a ideia)

Ora pois, boa pergunta: num momento em que o fundamental é manter o sangue-frio e impedir a todo o custo que aumente a desconfiança no sistema, qual deve ser o papel dos media?

13 outubro 2008

amor homossexual

No verão passado disseram-me que Eugénio de Andrade era homossexual.
Seria? Não seria? Não me interessa muito.

Contudo, se o era de facto, cabe-me assinalar com um certo divertimento que - em décadas passadas - andei a copiar poemas homoeróticos para as minhas cartas de amor heterossexual.

E que bem me serviam. Hehehe.

das línguas para as culturas

Hoje apetece-me contar histórias:

1. Em Taizé, na parte das famílias, formam os grupos de discussão por países. Eu aproveito a minha condição de estrangeirada no mundo inteiro para me permitir a liberdade de escolher o meu grupo.
É muito interessante comparar as diferenças:

- Os espanhóis/italianos têm um espírito de missão exacerbado, fazem as discussões já de mangas arregaçadas, "e então, por onde é que começamos a empurrar?"

- Os alemães/austríacos são bastante caseiros: acham que se varrerem muito bem à frente da sua porta, o mundo fica melhor. Mas "à frente da sua porta" significa: da porta para dentro de casa...
Às vezes são irritantes, mas o princípio tem algo de muito válido: não é preciso mudar os outros, basta mudar-me a mim mesmo e o mundo já fica um bocadinho melhor.

- Os franceses têm uma maneira linda-linda-linda de falar das questões. É um prazer ouvir as palavras que escolhem para se exprimir, o modo como verbalizam uma busca de sentido. Uma riqueza.

Um dia destes vou experimentar os anglo-saxónicos, depois conto.


2. Um francês, que sabia falar português aprendido no Brasil, casou com uma portuguesa. Se discutiam em francês, zangavam-se imenso. Se discutiam em português, o problema resolvia-se facilmente. Aperceberam-se que a mulher se sentia muito mais agredida em francês que em brasileiro. Ou seja: a mesma pessoa, a exprimir uma mesma opinião, provocava reacções diferentes conforme falasse a língua da cultura francesa ou a da brasileira.
Deram-se conta que em francês ele era muito mais directo, e em brasileiro mais delicado - porque aprendera não apenas as palavras, mas uma maneira mais suave, muito brasileira, de se exprimir e dialogar.


3. Há muito que ganhei o gosto de comparar traduções para línguas diferentes. Na área do software, onde trabalhei muitos anos, dei-me conta que as traduções dos franceses eram sempre mais elegantes. Onde os outros aceitavam o anglicismo, os franceses (também por causa daquela lei de protecção da língua) viam-se obrigados a ir ao fundo da palavra e a inventar uma nova, francesa, para a significar. Algumas invenções poderão ser um bocado ridículas, mas este profundo amor pela língua não o é.
Vive l'élégance à la française.

***

Moral das histórias: faz-me pena ver que em Portugal se está a virar as costas ao francês, para optar pelo espanhol. Bem sei que se abre uma nova porta, mas será que há consciência do valor intelectual da porta que se fecha?

10 outubro 2008

"Bater nos mais fracos é uma cobardia!"

A frase é de José Cardoso Pires.
Não sei se a escreveu em algum livro, mas dizia-a muito em casa.



Se quiserem perceber melhor, é só ler aqui.
(E vai assim porque me fartei de ouvir tanto disparate, e tanta frase feita, e tanto insulto. Por uma questão que me parece clara como água. Pronto.)

este mundo está roto...

Vi com êxtxquiaterrádcomer, e estou que não acredito:

No centro de Berlim um homem a empurrar um carrinho de bébé onde estava um rapazito que tinha uma boneca ao colo.
E era uma boneca a sério, não era o cowboy do Toy Story, nem o Asterix, nem nada.

A exibir perversões destas em público, sem vergonha nenhuma, onde é que iremos parar?!
Tsss tsss tsss, este mundo está roto, chove nele como na rua.

***

Escrevo a propósito deste post. A culpa é do Cenas...

Mas o que eu queria mesmo dizer era isto:
Até acredito que o PS esteja a ser tramado por uma manobra política da oposição à esquerda. Até aceito que seja uma armadilha.
Contudo, perante um ardil destes, não é muito inteligente para o PS desatar a dar tiros no próprio pé.

O Joe Sixpack ainda não terá chegado à Casa Branca, mas hoje ocupará um lugar de honra em São Bento.

09 outubro 2008

descobri um blogue que é um sossego

Por exemplo, esta história:


Magalhães

O Pedro descalça-se antes de entrar. «Venho brincar».
Brincar com os castelos, às vezes é dos bons, às vezes é dos maus, até os guerreiros não serem suficientes. Aí, o Pedro e o meu dez anos, improvisam uma capa duma toalha que atam no pescoço e, com espadas de pau, batalham pela posse das escadas de caracol, até não ser suficiente. Saem para o jardim, para os campos, e conquistam árvore atrás de árvore, até ao muro que separa o meu terreno da horta dos pais dele. Estão próximo do tanque e resolvem apanhar lagartixas. São os dragões.
Chamo-os para lanchar e deixo-os sós na cozinha. «Arrumem tudo quando acabarem».
O Pedro vai ter um Magalhães, quando chegarem aqui. A julgar pela forma como coloca os sapatos, alinhados pelo tapete da entrada, cordões metidos para dentro para que os gatos não os mordam, a sua preocupação com as horas, «Já são cinco horas? Tenho de estar em casa às cinco para ajudar a minha mãe», a forma cuidadosa como devora os livros de história e ciências nas estantes dos meus filhos, e pela falta de luxos em casa, ele tratará o Magalhães como um tesouro. Quase teve um computador no último natal mas o pai juntou-se à mãe no desemprego e já não houve dinheiro.
- No fim de lanchar, podemos brincar no teu computador? – pergunta o Pedro.
- Podemos.
- Eu fico só a ver-te jogar. Posso enganar-me nas teclas e estragar-te o disco.
Ás vezes o Pedro trás um amigo. Ás vezes dois ou três.

a Islândia e o que andaram a fazer do nosso futuro

Belo post, Lutz.
Então a Islândia não vai ser comprada pela Rússia?!


Duas conclusões provisórias:

- Começamos a vislumbrar a dimensão da catástrofe para que fomos lançados pela cobiça, a irresponsabilidade e o desvario de um sistema financeiro todo-poderoso
(arrependei-vos e convertei-vos, meus irmãos!, diria o outro aos gritos no deserto, eu há momentos em que me dou conta da profundidade das referências bíblicas)

- Os EUA já foram. No momento em que um país entra em bancarrota (e que outros se seguirão?), quem o pode comprar é a Rússia. Ou a China. Ou os produtores de petróleo (grande negócio para eles: quando o petróleo acabar, têm a Islândia; sempre é mais seguro que investir em hotéis de luxo no deserto.)


E uma pergunta, em voz muito baixinha, para que ninguém me ouça:
E como é que vai a crise em Portugal? Também estamos à beira da bancarrota? Será que é desta vez que conseguimos que a Espanha pegue em nós?
(e agora comlicencinha, volto para o meu posto de vigia na praia, ainda não perdi a esperança de que um dia, numa manhã de nevoeiro...)

08 outubro 2008

enquanto isso, na Bélgica...

A professora pediu aos alunos que se apresentassem:
- Chamo-me Jean, e o meu pai é médico.
- Chamo-me Marie, e o meu pai é advogado.
- Chamo-me Charles, e o meu pai é padeiro.
- Chamo-me Paul, e o meu pai é stripper num clube gay de Bruxelas.

No fim da aula, a professora chamou o Paul à parte, e disse-lhe, muito compreensiva, que se ele tivesse algum problema com a situação podia sempre contar com ela, etc.
Ele respondeu:
- Ah, não se preocupe. Na verdade, o meu pai é manager do Fortis, mas eu não tive coragem de dizer.


****

O Joachim esteve lá este fim de semana. Havia longas filas de pessoas à porta dos bancos.

(Enquanto isso, a vida continua: combinaram que a viagem a Marrocos no próximo ano será antes da Páscoa. Isso significa que o Joachim levará a roupa interior de ski para dormir, e o fato de ski para o camião-hospital...)

esqueçam o casamento dos homossexuais

A verdadeira causa fracturante - descobri por mero acaso - é esta:

é legítimo usar violência física na educação das crianças?



(Os portugueses que se acham superiores àqueles broncos do povo ficam muito engraçados quando tentam defender o indefensável)

07 outubro 2008

alguns apontamentos sobre o uso de violência na educação das crianças

Aconteceu num blogue português (mas vai sem links, porque o que interessa é o que aconteceu e não quem o fez), e parecia aqueles e-mails que andam pela internet com o título "Portugal no seu melhor".

A história conta-se depressa:

Um rapazinho de três anos começou a achar graça à palavra "puta". Os pais explicaram porque é que ele não podia usar essa palavra, mas ele gostou de a usar. O pais tentaram tudo: ignorar, castigos, ameaças, quarto escuro "e, claro, porrada" (admito que alguns destes recursos possam ser mera figura de estilo, para tornar o texto mais "engraçado"). O miúdo insistia, e a mãe, em desespero de causa, deitou-lhe na língua um molho industrial à base de malagueta. Depois, foi para a internet contar este incidente de uma forma muito divertida. Choveram comentários tipo "o que eu me ri!" e "educação é assim mesmo".
A cena passa-se não no Portugal profundo mas, aparentemente, numa família de classe média de Lisboa.

***

Repito: não interessa quem fez.
Muito mais interessante é reparar na reacção dos comentadores.

Confesso que fico perplexa perante adultos que conseguem rir com a descrição de uma criança chorando desesperada ao sentir a boca em fogo, como resultado de uma acção premeditada da mãe.
Menos surpreendentes são os comentários "a minha mãe também usava pimenta, e é o que tenciono fazer com os meus filhos": é sabido que as vítimas de violência infantil tendem a repetir os maus-tratos a que foram sujeitos.

A questão é: como quebrar este ciclo de violência que se vai passando de pais para filhos, tolerado pela sociedade?
Parece-me fundamental falar abertamente sobre isto, e dar-lhes o nome exacto: actos de violência quotidiana exercida sobre as crianças, com a cumplicidade dos adultos que os testemunham.

Bater ou provocar de algum modo dores físicas ou psíquicas a uma criança, é sempre uma vitória da força bruta contra a inteligência. Um adulto que precisa de recorrer à pancada, à humilhação da criança, a chantagens e a prepotências várias, já perdeu.
Perdeu a cabeça, perdeu a razão e perdeu a noção das suas responsabilidades de educador e dos limites do seu poder.

Perguntarão: "então, agora, dar um tabefe é crime?"
Não será um crime, mas é um desvio - nunca um método normal de educação (aliás: nem para educar cães serve). Não há motivo nenhum para os pais se gabarem disso.


Chegados aqui, algumas ideias recolhidas de livros que escolhi à pressa da estante (muitos mais há sobre o assunto, e com certeza melhores):

"(...) a educação não consiste em impor à criança uma série de comportamentos. Trata-se de a ajudar a construir-se ensinando-lhe, em primeiro lugar, o respeito por si própria. Respeito que ela apenas poderá adquirir se os adultos que a rodeiam a respeitarem. A criança é um indivíduo de pleno direito, tão distinta dos seus pais que estes a devem sempre "adoptar", isto é, travar conhecimento com ela e aceitá-la tal como ela é."

"(...) "Quero ter poder sobre ti, não permito que vivas sem a minha vigilância."
Se estudarmos os nossos comportamentos educativos, metade de entre eles, certamente, são perversos, tal é a nossa vontade de ter um poder ilimitado sobre os nossos filhos. Mas os nossos poderes são limitados. Como pais, é sobretudo o poder do exemplo que devemos desenvolver, não para impedir a criança de fazer as suas experiências, mas para a armar para estas e dar-lhe os meios de as realizar, em vez de as interdizer."

(Do livro "Profissão: Pais", com textos de Françoise Dolto, publicado pela Editora Pergaminho em 1999)


"Harsh discipline - by which we mean both physical punishment in the form of hitting or spanking and verbal intimidation, which includes belittling, denigrating, scapegoating, and threatening - is not the answer for any child. Not ever."

"Physical punishment is only the half of the picture. Harsh or threatening words leave a mark on a child, too, and boys get an earful. Even parents who wouldn't think of striking a child acknowledge that in anger or frustration they say things or impose penalties that are meant to sting in the same way. And all of it does sting in much the same way: the spanking, hitting, smacking, yanking ways that some adults use to show a boy who's boss, as well as the shaming criticism, sarcasm, belittling, and other verbal intimidation or harsh penalties that so many parents use to discipline or direct a boy."

(Do livro "Raising Cain: Protecting the Emotional Life of Boys")
http://www.amazon.com/Raising-Cain-Protecting-Emotional-Life/dp/0345434854


***

Finalmente, aqui vai uma resposta de Françoise Dolto quando questionada sobre um caso de um miúdo que dizia palavrões:

"Gostaria ainda de lhe fazer uma pergunta. Há uma fase em que as crianças gostam de dizer palavrões. (...)

Usar palavrões significa para a criança ser tão grande como os adultos. É formidável, uma pessoa sente-se mesmo como um adulto. E provoca ainda mais prazer - caso já se seja capaz de fazer isso - escrever os palavrões na parede. Podemos dizer às crianças, por exemplo: "E agora? Que mais palavrões conheces?", e essa fase passa rapidamente. Afinal de contas, não conhecem mais de quatro ou cinco... O pai, por exemplo, poderia dizer: "O quê, só conheces quatro ou cinco?! Olha lá, precisas de aprender mais alguns, para teres sempre algum de reserva para usar no infantário ou na escola". O pai pode então inventar palavrões, mesmo que sejam um disparate qualquer, se não lhe ocorre nenhum outro. Deve dizer: "Isso tudo é para o infantário ou a escola. Aqui em casa, deves viver como os teus pais. Mas é importante que os conheças todos. E se não os sabes escrever, eu ajudo-te". A criança fica feliz. Pode usar os palavrões com os seus amigos, sentindo-se como um adulto; em casa, respeita o estilo que ali domina.
Se as crianças estão no seu quarto e têm a porta fechada, a mãe não devia escutar à porta. Afinal de contas, é o mundo privado da criança. E se, por acaso - o que acontece volta e meia -, as crianças dizem palavrões em frente a adultos, devia-se dizer-lhes: "estamos aqui com pessoas crescidas. Tens de te portar como se fosses uma pessoa crescida..., senão vais parecer um bébé."
Se se tratar de uma criança que, de facto, experimenta a necessidade real de dizer palavrões, a mãe pode dizer-lhe: "Podes fazer isso na casa de banho. A sanita é o lugar certo para o que é sujo. Por isso, vai para lá. Por favor, usa aquele lugar para te aliviares". A mãe ficará admirada de ver que a criança vai para a casa de banho gritar todos os palavrões que conhece, e que depois fica apaziguada. Porque, de facto, tinha uma necessidade de se exprimir.

Tradução minha de um excerto do livro "Alltagsprobleme mit Kindern und Jugendlichen", Françoise Dolto, Quadriga Verlag.
Que é, por sua vez, uma tradução dos três volumes de "Lorsque l'enfant paraît", de 1977, 1978 e 1979.

06 outubro 2008

o autêntico debate dos vice-presidentes

Aqui, logo a seguir a um pequeno filme de publicidade:




(gostei especialmente da parte a propósito do casamento homossexual, quando Tina Fey/Sarah Biden diz "oh, I believe marriage is meant to be a sacred institution between two unwilling teenagers")

e se...?



The Prosecution of George W. Bush for Murder is a 2008 book by former prosecutor Vincent Bugliosi. It argues that George W. Bush took the United States into the invasion of Iraq under false pretenses and should be tried for murder for the deaths of American soldiers in Iraq when he leaves office in 2009.

O resto do texto do wikipedia explica bastante bem, e sinteticamente, o que está em causa.

Os EUA têm destas coisas: tanto produzem um Ken Starr como um Vincent Bugliosi.
Resta-me desejar sucesso a este último.
Embora não seja preciso ir até à pena de morte.
Vai contra os meus mais sólidos princípios, e, além disso, até parece mal, um rapaz de tão boas famílias...

05 outubro 2008

por outras palavras:

A crise financeira explicada em British English (e legendas em espanhol, que este blogue está cada vez mais poliglota)

a gargalhada do dia

Num post do Vida Breve.

Como não sei fazer links para os posts desse blogue, copio para aqui esse post, de 4.10.2008:




Na prisão de Custóias, um amável grupo de admiradores prepara as boas vindas ao nacionalista injustamente acusado.

eu ando-me a repetir...

...mas o que tem de ser tem muita força:

O jj.amarante faz um blogue que é um prazer!
O post de ontem, por exemplo.

Quando começou o seu blogue, afirmou com a humildade a que nos tem habituado, que não gostava do título.
Por mim, gosto cada vez mais: a partir de uma imagem, as palavras levam-nos para passeios inesperados.
Não se arma em especialista, antes conta com simplicidade as descobertas, os incidentes, as dúvidas, as pesquisas na wikipedia.
E eu a ler: curiosa, muitas vezes divertida.
Os neurónios agradecem a massagem.

04 outubro 2008

3 de Outubro

Ontem foi feriado na Alemanha: dia da reunificação, que foi há 18 anos.

O primeiro canal passou os dois "clássicos" deste capítulo alemão: A Vida dos Outros e o Goodbye Lenine.

Os miúdos faziam perguntas como se fosse algo de uma história longínqua. E eu respondia a partir daquilo que eu própria vivi. Ainda me lembro onde estava quando vi imagens dos alemães da RDA a fugir pela fronteira húngara, ainda me lembro da surpresa ao ver as imagens das manifestações às segundas-feiras...

É estranho falar com os filhos sobre estas coisas, tão próximas e tão reais, como se fosse História.

o fim da arrogância

Um artigo muito extenso e muito interessante sobre a crise financeira e uma nova ordem internacional: no Spiegel da semana passada, aqui em inglês.

02 outubro 2008

Karl Marx meets Miss Marple

Um texto do Spiegel Online,
em alemão aqui,
em inglês aqui,

e em tradução para português do Brasil (obrigada, T.!) aqui mesmo:

(com alguns sublinhados meus)




Estados Unidos da América: o país onde o

fracasso é recompensado


Na atual crise financeira, o modelo de capitalismo dos Estados Unidos implodiu com um grande estrondo. Mas o governo Bush está tentando extinguir as chamas com mais combustível, em vez de água, e quer que os apostadores de Wall Street sejam recompensados pelo fracasso

Gabor Steingart
Em Washington (EUA)

Mais de cem anos atrás, o sociólogo alemão Georg Simmel criticou os bancos por ficarem cada vez maiores e mais poderosos do que as igrejas. A sua principal queixa - a de que o dinheiro é o novo deus dos nossos tempos - ainda é ouvida nos dias de hoje. Se Simmel estava certo, e há indicações de que de fato estava, a declaração teria que ser modificada para coadunar-se com as circunstâncias atuais: nem todo mundo reza para o mesmo deus.

Entre o grupo de adoradores de dinheiro, existem pelo menos três fés. A primeira é a dos Puritanos, que carregam pacientemente o dinheiro deles para as novas igrejas, esperando que ele se multiplique. O chinês típico, por exemplo, deposita 40% dos seus rendimentos em bancos. Que disciplina louvável! E há também os Pragmáticos. Estes poupam e emprestam, mas somente nesta ordem; a poupança é o fator que limita a ousadia deles. Esta linha é especialmente comum nos países germânicos, nos quais o banco de poupança é o templo religioso.

Finalmente, temos a comunidade religiosa dos Desinibidos, que é especialmente popular nos Estados Unidos. Os seus seguidores não se acanham em admitir a falta de cautela, o desperdício extravagante e a cobiça onipresente.

Eles chamam isto de "American way of life" ("estilo de vida americano"). Os seus membros vivem no aqui e no agora, sem fazer perguntas sobre o amanhã. Um empresta dinheiro ao outro, mesmo que o dinheiro não lhes pertença. Em vez disso, eles tomam quantias emprestadas com uma terceira pessoa, que prometeu conseguir o dinheiro com um quarto indivíduo - e assim por diante.


Southampton: o início do rastro de evidências

Esta comunidade religiosa é a mais fervorosa de todas. Há algum tempo, ela adotou a prática de tratar dinheiro antecipado como dinheiro real e de entender desejo como realidade. Atualmente ela não conta mais com nenhum fragmento de inibição.

Como todos sabiam que havia mais desejos do que dólares, o resultado inevitável foi uma certa lacuna de financiamento, ou déficit. Capitalismo sem capital - o núcleo audacioso desta inovação - não poderia funcionar. Não há salvação terrena - pelo menos esta foi uma conclusão quanto à qual o antigo Deus, aquele que carregou a cruz, e o novo deus, o que traz cifrões nos olhos, poderiam concordar.

E, assim, o inevitável ocorreu: o big bang. Três entre cada cinco bancos de investimento dos Estados Unidos perderam a independência, e os outros dois ainda estão afundando. Dois bancos de hipotecas e uma companhia de seguros encontram-se agora sob administração governamental.

O sistema financeiro global foi abalado, horrorizando os membros das outras duas fés. Pode haver três religiões, mas só há um céu. Se este cair, todos morrem.

Uma busca por evidências a fim de identificar os responsáveis deveria provavelmente começar em Southampton, um reduto da elite endinheirada. Nesta cidade, na parte leste de Long Island, perto da cidade de Nova York, é possível presenciar o quanto a cobiça pode ser atraente.

Trata-se de um lugar no qual as opções de ações foram transformadas às centenas em castelos de contos de fadas à beira-mar. Aproveitando-se das brechas tarifárias, os gurus financeiros de Wall Street conseguiram retirar os seus bônus da cidade mais ou menos intactos. Segundo a legislação tributária dos Estados Unidos, a compensação na forma de ações e garantias é taxada em menos da metade do índice mais elevado de impostos. Como resultado, a taxa tributária que incide sobre os rendimentos de muitos banqueiros é inferior àquela a que estão sujeitos os salários das suas secretárias.


Como menos transformou-se em mais

Os donos destas mansões à beira-mar não estão lá neste momento, de forma que uma investigação mais profunda requer uma viagem de trem até Nova York. No arranha-céu de Midtown que abriga os escritórios do Lehman Brothers, que está em processo de encerramento da sua história, há muito o que descobrir a respeito da seqüência de eventos. Bilhões de dólares foram emprestados a pessoas que não tinham crédito para que elas adquirissem condomínios e casas de pouco valor. No jargão alegre e cínico dos banqueiros, esse tipo de empréstimo foi batizado de "NINA", acrônimo de "No Income, No Asset" ("Sem renda, sem bens").

Mas mesmo assim as coisas andavam bem no mundo dos financiadores. O aumento miraculoso da oferta de dinheiro contribuiu para que o preço de imóveis subisse mais de 70% entre 2000 e 2006. A indústria conseguiu obter lucros aumentando o risco. Pelo menos na folha de balanço, o menos se transformou em mais.

Em tempos melhores, alguém poderia ter chamado os banqueiros de empreendedores; atualmente, eles são chamados de irresponsáveis. Antes mesmo do surgimento da expressão banco de investimentos, Karl Marx sabia como as duas coisas estavam vinculadas: "O capital tem tanto horror à ausência de lucro ou de um lucro muito pequeno quanto a natureza tem horror ao vácuo. Com um lucro apropriado, o capital é despertado; com 10% de lucro, ele pode ser usado em qualquer lugar; com 20%, torna-se vivaz; com 50%, fica positivamente ousado; com 100%, ele esmagará com os pés todas as leis humanas; e com 300%, não existe crime que ele não se disponha a cometer, ainda que se arrisque a ir para a cadeia".


A fé de Paulson

Agora o rastro conduz de Nova York a Washington, onde o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Paulson, tem o seu gabinete na Avenida Pensilvânia. O seu ministério é tão importante que há um portão ligando o subsolo do Departamento do Tesouro ao da Casa Branca. A atitude adotada por Paulson em relação aos bancos foi a de deixá-los atuar livremente, e ele agora pretende assumir os prejuízos dessas instituições. Para os altos círculos financeiros, ele tornou-se algo como uma garantia extra. O objetivo dele é eliminar a ameaça de cadeia - mas não a cobiça.

Paulson já foi um banqueiro de Wall Street. Ele é um homem de boas maneiras e princípios firmes. Em tempos normais, ele tem fé no mercado, em Deus e em George W. Bush. Mas em tempos como estes, ele prefere depositar a sua fé no governo, no contribuinte e em Bush.

Ao contrário do que muito se anunciou, Paulson não pretende utilizar as rendas obtidas com impostos para financiar o pacote de socorro aos bancos. Em vez disso, a intenção dele é tomar novos empréstimos de bilhões de dólares em nome do Tesouro dos Estados Unidos. "Detesto o fato de termos que fazer tal coisa, mas isto é a melhor do que a única outra alternativa", disse ele na semana passada. O presidente já deu o seu sinal de aprovação.

É isso o que acontece com as comunidades religiosas quando sofrem pressões: elas tornam-se ainda mais fervorosas. A idéia é que o mesmo tipo de pensamento de curto prazo que provocou o desastre vá agora pôr um fim a esta situação calamitosa. O governo está tentando extinguir o fogo com combustível, e não com água. Na verdade, este é exatamente o mesmo combustível que deu início ao incêndio em Wall Street: dinheiro emprestado.

A única diferença é que os novos empréstimos não virão do sexto, do sétimo ou do oitavo membro da comunidade religiosa. Eles serão coletados de todos os contribuintes. Isso significaria o fim da separação entre igreja e Estado, sendo que Wall Street se tornaria a religião nacional.

Os pontos em comum com as outras duas comunidades religiosas já estão desaparecendo. Coisas que na época da tradicionalmente honrada economia de mercado eram consideradas inseparáveis - como valor e consideração, salário e desempenho, risco e responsabilidade - estão sendo agora rasgadas em nome do governo. O capitalismo atualmente exibido pelos Estados Unidos é uma versão rota e degradada daquilo que costumava ser.

As ações dos políticos estão amplificando, em vez de mitigar, os efeitos do fracasso econômico. O capitalismo no estilo norte-americano ainda não morreu, mas está simplesmente preparando o seu próprio falecimento. A história destes dias é a história de uma morte que já foi anunciada. O que nos leva a Miss Marple.


Começou um jogo perigoso com o tempo

A detetive amadora imaginada por Agatha Christie, baseada na avó da escritora, era equipada com algo mais do que apenas um senso de humor e uma compreensão da natureza humana. Ela também tinha experiência em relação a coisas óbvias que ninguém acredita serem possíveis - até que elas aconteçam. No seu romance de 1950, "A Murder is Announced" ("Convite para um Homicídio"), Christie olhou para o futuro de maneira cômica.

A história transcorre mais ou menos assim: certa manhã, os cidadãos leram a seguinte mensagem nos classificados de um jornal local: "Um assassinato foi anunciado e ocorrerá na sexta-feira, 29 de outubro, em Little Paddocks, às 18h30. Amigos, por favor aceitem isto, a única intimação". Na hora designada, metade da vila reuniu-se na casa onde o assassinato supostamente aconteceria. A advertência é tratada como uma piada frívola, que ninguém desejaria rejeitar. Serve-se sherry aos presentes. O grupo é tomado por um pânico coletivo. Exatamente às 18h30, as luzes apagam-se.

"Não é maravilhoso?", diz uma voz feminina. "Estou trêmula".

Quando as luzes voltam a acender-se - para a surpresa de todos - um crime foi cometido. E agora nós, assim como os presentes na sala em Little Paddocks, estamos de pé, sussurrando, tomados pelo medo coletivo, aguardando para ver o que acontecerá a seguir. E ninguém acredita seriamente que um crime de verdade está prestes a ocorrer.

"Todos estavam em silêncio e ninguém se movia. Todos olharam para o relógio... Quando a última nota terminou, todas as luzes apagaram-se. Murmúrios de alegria e gritinhos femininos de satisfação foram ouvidos no escuro. 'Está começando', gritou a senhora Harmon, extasiada".


Um futuro vendido

Quem quer que espere receber um alerta antecipado deveria simplesmente expandir o seu campo de visão enquanto as luzes permanecerem acesas.

As companhias de cartão de crédito dos Estados Unidos não estão em uma situação significativamente melhor do que os bancos. Elas também venderam o futuro e até mesmo uma parcela do período posterior a ele.

A indústria automobilística norte-americana também se encontra seriamente combalida e tem dificuldades para estender as suas linhas de crédito no mercado aberto. A indústria perdeu mais de 300 mil empregos desde 1999. Mas qual é o benefício disto se são os gerentes - e não os trabalhadores - os culpados pela crise? A enorme conta dos Estados Unidos com a compra de petróleo - cerca de US$ 500 bilhões (? 345 bilhões) - é atualmente paga com dinheiro emprestado pela China. A cada dia útil, a dívida externa dos Estados Unidos aumenta em quase US$ 1 bilhão (? 690 milhões).

Provavelmente a pílula mais amarga de engolir nos Estados Unidos de hoje é o fato de os lares privados não estarem administrando as suas finanças de maneira melhor do que os executivos de corporações. Estes lares vêem o reflexo de suas imagens nos banqueiros de Wall Street, e não uma espécie de figura destorcida de si próprios. "De fato, não conheço nenhum país no qual o amor pelo dinheiro tenha se estabelecido tão fortemente no sentimento dos homens", observou Alexis de Tocqueville 170 anos atrás.

A conversa há muito necessária entre o governo e os governados ainda não se materializou. Essa teria que ser uma conversa a respeito da relação entre a economia e os valores, sobre a recuperação daquilo que se perdeu, em vez de sobre expansão. A palavra frugalidade - que desapareceu do vocabulário dos Desinibidos - deveria ser reintroduzida.

Mas não há sinal de que nada disso esteja acontecendo. Os Estados Unidos de hoje são muito estadunidenses para sobreviverem na sua forma atual. Mas os Estados Unidos atuais são também muito orgulhosos para perceberem isto. Os fiéis dificilmente permitiriam que alguém os convertesse.

Assim, a nossa compreensão dos acontecimentos continua ficando cada vez menos clara. Teve início um jogo perigoso com o tempo.

"O ruído de duas balas sacudiu a complacência da sala. Subitamente, o jogo não era mais um jogo. Alguém gritou... 'Luzes'. 'Não consegue encontrar um isqueiro?'...'Oh, Archie, quero sair daqui'".