Ontem a Christina fez catorze anos.
Anteontem há catorze anos fiz uma tarte de ananás, que acabámos por comer no hospital com a família e os amigos, no dia mais feliz da minha vida.
O parto fizera-se esperar mais de duas semanas. Dias difíceis para mim, em que as perguntas que se pretendiam simpáticas, "o quê, ainda com essa barriga? e então, o bebé, quando vem?", só contribuíam para aumentar o meu medo. Consolava-me pensando que antes de mim já duas ou três mulheres tinham passado pelo mesmo, e que tudo correria bem por força das estatísticas.
Nesse tempo de espera, uma enfermeira disse-me que nasceria na lua cheia, dado que normalmente há mais partos nessa altura.
A lua cheia chegou. Encontrei-me com ela num jardim claríssimo de luar, olhei-a como se fosse cúmplice do meu destino.
"Tu e eu", disse-lhe.
Anteontem há sete anos vivíamos em San Francisco e fiz um bolo de chocolate para a Christina levar para a escola. Um bolo caseiro, com ingredientes simples, batido à mão durante meia hora. Eu atalho, no máximo bato 10 minutos e é por muito favor, mas para um povo que compra os bolos super-artificiais e super-perfeitos em caixas de plástico no supermercado, já não foi nada mau. Comeram que não sobrou nem uma migalha.
Foi o bolo de aniversário mais estranho da minha vida: enquanto o batia, chorava desconsoladamente, porque de repente me dei conta que a Christina estava a crescer e nunca mais seria a minha filhinha.
(De onde se conclui, sem pensar muito, que se tivesse comprado o bolo num supermercado me teria poupado uma crise existencial. Acho que, sem pensar muito, começo a perceber melhor a sociedade americana...)
Tivemos de festejar este 14º aniversário antecipadamente, porque não conseguiram arranjar quórum de amigas para nenhum fim-de-semana até Julho. Aproveitámos a terça, em que a escola estava fechada devido a exames, e fomos passar dia e meio a uma cidadezinha de sonho: Buckow, a meio caminho entre Berlim e a Polónia.
Fiz-lhe uma tarte de grão-de-bico para levar para a escola. Uma novidade em Berlim, e as amigas adoraram.
A ver se no 10 de Junho me dão uma medalha por bons serviços prestados na divulgação da cultura portuguesa.
Ontem a Christina fazia catorze anos e perguntou-me se podia dormir em casa de uma amiga. O Joachim num congresso, o Matthias num torneio de xadrez... porque não?
À noite telefonou uma tia para lhe dar os parabéns, e ao dar-se conta que eu estava sozinha, perguntou-me se não estava zangada. Curioso, nem me tinha lembrado dessa possibilidade.
Não, não estava zangada. Porque havia de estar? Devia trocar os planos e o prazer de todos, forçá-los a festejar comigo?
Eles não estão a fugir de mim, estão a viver a sua vida.
A vantagem de viver entre duas culturas é que uma pessoa não tem hábitos nem tradições - tem de se reconstruir permanentemente e questionar sempre o sentido.
Tu e eu, minha lua cheia.
31 maio 2008
30 maio 2008
como um diário das férias
Acabada de chegar a Amesterdão para passar um dia na cidade, uma amiga que tenho para os lados do lago Constança reparou numa turista que levava sandálias, pensou "esta deve ter ouvido o boletim metereológico e sabe que hoje vai estar quente, enquanto eu vou sofrer nos meus sapatos fechados", olhou um pouco melhor, e viu que a turista era eu.
Eu, que tinha acabado de combinar com os miúdos o que faríamos nesse dia.
Como se não fosse já bem grande a coincidência, os nossos amigos queriam fazer exactamente o mesmo.
Na Mauritshuis, em Haia, oferecem para a visita guias áudio gratuitos. Grande ideia! Os miúdos interessaram-se realmente pelo que estavam a ver, repararam nos detalhes, contavam-me o que descobriam. E eu (dá Deus as nozes...) fazia má cara, porque eles passavam a vida a interromper o que eu estava a ouvir. No fim, riram-se de mim: "outras mães ficam felizes se conseguem meter os filhos uma meia horita no museu, e a nós calhou-nos uma assim mal-agradecida."
O guia áudio explicava que os holandeses se interessaram pelos novos territórios descobertos, mas eram vistos pelos portugueses como hóspedes não desejados. Gostei do eufemismo.
Falava disso porque o dono da casa, o Maurits, era o célebre Maurício de Nassau, comandante dos holandeses no Brasil - esses usurpadores, esses piratas (espero que nenhum brasileiro leia isto - curiosamente, parece que eles têm outra opinião sobre este assunto). Por sorte, digo eu, o Maurits zangou-se com o patrão e despediu-se antes de se lhe acabar a comissão. Mal voltou à sua casinha em Haia, nem 15 anos foram precisos para os restantes holandeses se porem a desandar. Com o que amealharam no Brasil lá terão comprado aqueles Vermeer e Rembrandt e Rubens que na altura se vendiam a um preço muito em conta. Eu vejo aqui, precisamente aqui, motivo suficiente para nos unirmos num esforço nacionalista, gritarmos juntos e bem alto "é nosso!", exigirmos a devolução dos quadros que foram comprados com o que seria o nosso rico dinheirinho se não no lo tivessem roubado.
(os brasileiros que não me ouçam, senão estamos perdidos: vêm já cá reclamar a transposição dos Jerónimos para Ouro Preto) (estou a escrever assim complicado, "no lo" e tal, a ver se eles não entendem...) (;-) para os amigos brasileiros que lerem isto).
Depois de três horas no museu Van Gogh e duas horas na casa de Anne Frank, no primeiro dia, e de três horas na Mauritshuis, no segundo, ao terceiro dia fomos ao Gemeentemuseum de Haia para ver o Mondrian. Comecei pela exposição temporária do Lucian Freud, mas os miúdos, que no dia anterior se tinham fartado de rir com simbolismos de bordel do séc. XVII, armaram-se em pudibundos, "mas que espécie de mãe és tu? parece impossível que nos mostres coisas destas!", escaparam-se sozinhos para o Mondrian e depois para o café do museu, onde se refugiaram no Jawbreaker do meu telemóvel.
E depois arranjámos bicicletas e fomos pelas colinas até um restaurante na praia, onde fazem umas panquecas formidáveis. E ficámos até ao pôr-do-sol, e voltámos pelas colinas.
O que aprendi nesta viagem: quando quiser ter uma máquina de fazer dinheiro, abro um restaurante de panquecas.
Eu, que tinha acabado de combinar com os miúdos o que faríamos nesse dia.
Como se não fosse já bem grande a coincidência, os nossos amigos queriam fazer exactamente o mesmo.
Na Mauritshuis, em Haia, oferecem para a visita guias áudio gratuitos. Grande ideia! Os miúdos interessaram-se realmente pelo que estavam a ver, repararam nos detalhes, contavam-me o que descobriam. E eu (dá Deus as nozes...) fazia má cara, porque eles passavam a vida a interromper o que eu estava a ouvir. No fim, riram-se de mim: "outras mães ficam felizes se conseguem meter os filhos uma meia horita no museu, e a nós calhou-nos uma assim mal-agradecida."
O guia áudio explicava que os holandeses se interessaram pelos novos territórios descobertos, mas eram vistos pelos portugueses como hóspedes não desejados. Gostei do eufemismo.
Falava disso porque o dono da casa, o Maurits, era o célebre Maurício de Nassau, comandante dos holandeses no Brasil - esses usurpadores, esses piratas (espero que nenhum brasileiro leia isto - curiosamente, parece que eles têm outra opinião sobre este assunto). Por sorte, digo eu, o Maurits zangou-se com o patrão e despediu-se antes de se lhe acabar a comissão. Mal voltou à sua casinha em Haia, nem 15 anos foram precisos para os restantes holandeses se porem a desandar. Com o que amealharam no Brasil lá terão comprado aqueles Vermeer e Rembrandt e Rubens que na altura se vendiam a um preço muito em conta. Eu vejo aqui, precisamente aqui, motivo suficiente para nos unirmos num esforço nacionalista, gritarmos juntos e bem alto "é nosso!", exigirmos a devolução dos quadros que foram comprados com o que seria o nosso rico dinheirinho se não no lo tivessem roubado.
(os brasileiros que não me ouçam, senão estamos perdidos: vêm já cá reclamar a transposição dos Jerónimos para Ouro Preto) (estou a escrever assim complicado, "no lo" e tal, a ver se eles não entendem...) (;-) para os amigos brasileiros que lerem isto).
Depois de três horas no museu Van Gogh e duas horas na casa de Anne Frank, no primeiro dia, e de três horas na Mauritshuis, no segundo, ao terceiro dia fomos ao Gemeentemuseum de Haia para ver o Mondrian. Comecei pela exposição temporária do Lucian Freud, mas os miúdos, que no dia anterior se tinham fartado de rir com simbolismos de bordel do séc. XVII, armaram-se em pudibundos, "mas que espécie de mãe és tu? parece impossível que nos mostres coisas destas!", escaparam-se sozinhos para o Mondrian e depois para o café do museu, onde se refugiaram no Jawbreaker do meu telemóvel.
E depois arranjámos bicicletas e fomos pelas colinas até um restaurante na praia, onde fazem umas panquecas formidáveis. E ficámos até ao pôr-do-sol, e voltámos pelas colinas.
O que aprendi nesta viagem: quando quiser ter uma máquina de fazer dinheiro, abro um restaurante de panquecas.
29 maio 2008
estas famílias patchwork

O noivo com os filhos do primeiro casamento.

Os noivos com, da esquerda para a direita, o padrasto e a mãe da noiva, o pai da noiva e, do lado direito, os pais do noivo.
Não é que seja novidade. Mas convém ter esta realidade presente quando se fala do Valor Inestimável da Família.
***
Uma vez comprei um livro na Alemanha chamado "a família desejada". Depois, comprei um em França, chamado "dessine-moi une familie". Só mais tarde me apercebi que eram o mesmo, e para mais não era bom. Triste vida. Mas lembro-me de uma passagem em que a autora fala das suas várias noras e ex-noras, e do seu papel, como avó, para apanhar todas estas pontas soltas e permanecer, no contexto daquela manta de retalhos, uma referência de estabilidade afectiva.
E eu a a pensar que os meus trabalhos se acabam quando chegar o momento em que eles "deixarão pai e mãe e serão uma só carne"...
Há que repensar.
28 maio 2008
ecce homo
Foi inaugurado ontem um monumento para lembrar os homossexuais perseguidos pelo III Reich. Já vem tarde, e vem - em minha opinião - mal: porquê lembrar apenas os homossexuais perseguidos pelos nazis, se depois da guerra continuaram a ser perseguidos?
Delimitar a perseguição à época nazi torna-a um fenómeno ultrapassado, um problema "deles".
Venha, pois, um centro de documentação como existe no Memorial do Holocausto.
Um jornal berlinense, o Tagesspiegel, tem na sua edição de 24.05.2008 um artigo muito informativo, com o título "Ecce homo".
Aqui vai um pequeno resumo (o artigo completo, em alemão, está aqui):
Quando, em 1992, se começou a falar na construção de um memorial do Holocausto, surgiu também a ideia de algo semelhante para lembrar a perseguição aos homossexuais. Contudo, aquele ainda não era o tempo certo para lembrar todos os grupos perseguidos. Só em 2002 é que o Parlamento pediu desculpa às vítimas homossexuais e anulou os veredictos da justiça nazi. O problema é que muitos homossexuais sobreviventes dos campos de concentração foram, depois da guerra, reenviados para a prisão para cumprirem o resto da pena. A lei alemã do pós-guerra continuou a criminalizar a homossexualidade, tal como fazia desde 1871, e o o parágrafo 175, que os nazis tinham tornado ainda mais duro, não foi modificado. Entre o fim da guerra e 1969, ano em que esse parágrafo foi retirado, dezenas de milhares de homossexuais foram condenados. A Polícia abriu mais de 100 000 processos, 50 000 pessoas tiveram pena de prisão. Criaram-se "listas cor-de-rosa", polícias espiavam casas de suspeitos e escreviam protocolos sobre quem entrava, quem saía, e quanto tempo ficavam. Na era Adenauer muitas pessoas foram presas no local de trabalho - e mesmo que o caso não chegasse a uma condenação em tribunal, a fama da pessoa estava arruinada, o despedimento era provável.
Em 2002 o Tribunal Constitucional afirmou que a existência de casais homossexuais não é anticonstitucional, criando uma situação paradoxal: na Alemanha vivem pessoas com cadastro criminal devido a homossexualidade, que podem oficializar uma relação homossexual protegida pelo Estado.
Embora o texto da lei fosse semelhante no período nazi e no pós-guerra, as consequências eram bem diferentes.
No III Reich os homossexuais corriam risco de vida. Considerados inimigos do Estado, porque não cumpriam o seu papel de procriadores, estavam sujeitos a condenações que iam desde a pena de morte até à imposição de se sujeitarem "voluntariamente" a uma castração. Já em 1933 começaram a ser enviados homossexuais para campos de concentração. Muitos não sobreviveram às condições de vida no campo, outros foram vítimas de acções de execução, tais como, em 1942, 200 prisioneiros de Sachsenhausen, mortos "quando iam a fugir".
[complemento da tradutora: Muitos foram também sujeitos às selváticas experiências de médicos que queriam descobrir mais sobre a "doença" e possíveis "terapias".]
Contudo, mesmo nas décadas mais recentes, parece haver resistências a lembrar as perseguições aos homossexuais.
Em 1979, a empresa de transportes públicos de Berlim tentou por todos os meios evitar a afixação de uma placa no edifício do metro na Nollendorfplatz. Só dez anos mais tarde o poder político conseguiu impor a afixação, onde se lembra essas pessoas, "atingidas por um golpe de morte, rodeadas por um silêncio de morte".
Em 1985, a comunidade do campo de concentração de Dachau recusou a proposta de fazer uma placa que lembrasse os homossexuais perseguidos naquele campo, mesmo apesar de o presidente da República, Richard von Weizsäcker, ter referido essas vítimas no discurso proferido esse ano, por ocasião do 40º aniversário do fim da guerra.
O monumento em Berlim aparece incrivelmente tarde, pesem embora as palavras de apoio recebidas de importantes personagens, tais como Lea Rosh, Paul Spiegel (na altura representante do Conselho Central dos Judeus na Alemanha), Günter Grass e Christa Wolf, além de inúmeros políticos. "Poderia forrar todas as minhas paredes com o papel das cartas de apoio recebidas", diz Eckert, o dinamizador desta iniciativa, "mas as acções só vieram da parte de políticos declaradamente homossexuais".
Para Eckert, isto é um sintoma: já não existe antipatia aberta contra a homossexualidade, mas ainda falta a coragem de afirmar.
Também houve conflitos: Alice Schwarzer e a redacção da revista Emma protestaram contra o monumento, onde se passa um filme que mostra dois homens a beijar-se, alegando que mais uma vez se esquecem as mulheres.
Na realidade, o parágrafo 175 referia-se aos homens. Só estes foram perseguidos até à morte pelos nazis. As mulheres, embora sujeitas a dificuldades e perseguições, foram-no em muito menor grau, porque a orientação sexual não punha em risco a sua condição de reprodutoras.
Rapidamente se arranjou um compromisso: o filme será mudado de dois em dois anos, e de cada vez se discutirá novamente qual é o filme mais adequado para o momento.
A RDA retirou o parágrafo 175 em 1968; a Alemanha Ocidental fê-lo em 1969, mas foi preciso esperar mais quatro anos para que um vento de emancipação dos homossexuais varresse este país. Começou com a exibição, num dos canais estatais, de um filme de Rosa von Praunheim, com o título "O Homossexual não é perverso, perversa é a situação em que vive". Continuou com a realização de demonstrações que acabaram por se cristalizar no cortejo anual Christopher Street Day. Houve ainda, em 1983, um escândalo com um general que foi afastado do seu cargo por alegada homossexualidade, e posteriormente reabilitado.
O tema homossexualidade é cada vez menos motivo para escândalos.
Esta evolução é menos resultado do lobbyism de grupos de homossexuais, ainda relativamente fracos, que do aparecimento de uma doença mortal conhecida como "a peste dos homossexuais". Trágico, mas real: foi a epidemia de SIDA que levou os homossexuais a, mais ou menos voluntariamente, afirmar-se em público e exigir o cumprimento dos seus direitos. Num instante surgiram por todos os lados projectos de ajuda às vítimas da SIDA, e políticos que dialogavam com o mundo da homossexualidade. Em Berlim, um dos acontecimentos sociais mais importantes do ano é a Gala da SIDA, na Ópera.
Esta naturalidade está evidente também na existência da organização "Gays e Lésbicas na CDU", ou de um grupo chamado "Homossexuais e Igreja" que se apresentou cheio de auto-confiança nas Jornadas Católicas, o grande encontro anual dos católicos alemães, realizado recentemente.
****
Este é o filme que vai estar em exibição permanente nesse monumento durante os próximos dois anos.
Ao vê-lo, lembrei-me do desconforto que sentíamos há trinta anos, quando apareceu em Portugal a primeira telenovela, e a sala nos era invadida com aqueles beijos de desentupir bancas que o Tonico Bastos dava à Gerusa. Quem é que hoje em dia se incomoda com os beijos da telenovela?
Quantos anos demorará até acharmos que este filme é uma banalidade sem substância para um monumento destes?
Delimitar a perseguição à época nazi torna-a um fenómeno ultrapassado, um problema "deles".
Venha, pois, um centro de documentação como existe no Memorial do Holocausto.
Um jornal berlinense, o Tagesspiegel, tem na sua edição de 24.05.2008 um artigo muito informativo, com o título "Ecce homo".
Aqui vai um pequeno resumo (o artigo completo, em alemão, está aqui):
Quando, em 1992, se começou a falar na construção de um memorial do Holocausto, surgiu também a ideia de algo semelhante para lembrar a perseguição aos homossexuais. Contudo, aquele ainda não era o tempo certo para lembrar todos os grupos perseguidos. Só em 2002 é que o Parlamento pediu desculpa às vítimas homossexuais e anulou os veredictos da justiça nazi. O problema é que muitos homossexuais sobreviventes dos campos de concentração foram, depois da guerra, reenviados para a prisão para cumprirem o resto da pena. A lei alemã do pós-guerra continuou a criminalizar a homossexualidade, tal como fazia desde 1871, e o o parágrafo 175, que os nazis tinham tornado ainda mais duro, não foi modificado. Entre o fim da guerra e 1969, ano em que esse parágrafo foi retirado, dezenas de milhares de homossexuais foram condenados. A Polícia abriu mais de 100 000 processos, 50 000 pessoas tiveram pena de prisão. Criaram-se "listas cor-de-rosa", polícias espiavam casas de suspeitos e escreviam protocolos sobre quem entrava, quem saía, e quanto tempo ficavam. Na era Adenauer muitas pessoas foram presas no local de trabalho - e mesmo que o caso não chegasse a uma condenação em tribunal, a fama da pessoa estava arruinada, o despedimento era provável.
Em 2002 o Tribunal Constitucional afirmou que a existência de casais homossexuais não é anticonstitucional, criando uma situação paradoxal: na Alemanha vivem pessoas com cadastro criminal devido a homossexualidade, que podem oficializar uma relação homossexual protegida pelo Estado.
Embora o texto da lei fosse semelhante no período nazi e no pós-guerra, as consequências eram bem diferentes.
No III Reich os homossexuais corriam risco de vida. Considerados inimigos do Estado, porque não cumpriam o seu papel de procriadores, estavam sujeitos a condenações que iam desde a pena de morte até à imposição de se sujeitarem "voluntariamente" a uma castração. Já em 1933 começaram a ser enviados homossexuais para campos de concentração. Muitos não sobreviveram às condições de vida no campo, outros foram vítimas de acções de execução, tais como, em 1942, 200 prisioneiros de Sachsenhausen, mortos "quando iam a fugir".
[complemento da tradutora: Muitos foram também sujeitos às selváticas experiências de médicos que queriam descobrir mais sobre a "doença" e possíveis "terapias".]
Contudo, mesmo nas décadas mais recentes, parece haver resistências a lembrar as perseguições aos homossexuais.
Em 1979, a empresa de transportes públicos de Berlim tentou por todos os meios evitar a afixação de uma placa no edifício do metro na Nollendorfplatz. Só dez anos mais tarde o poder político conseguiu impor a afixação, onde se lembra essas pessoas, "atingidas por um golpe de morte, rodeadas por um silêncio de morte".
Em 1985, a comunidade do campo de concentração de Dachau recusou a proposta de fazer uma placa que lembrasse os homossexuais perseguidos naquele campo, mesmo apesar de o presidente da República, Richard von Weizsäcker, ter referido essas vítimas no discurso proferido esse ano, por ocasião do 40º aniversário do fim da guerra.
O monumento em Berlim aparece incrivelmente tarde, pesem embora as palavras de apoio recebidas de importantes personagens, tais como Lea Rosh, Paul Spiegel (na altura representante do Conselho Central dos Judeus na Alemanha), Günter Grass e Christa Wolf, além de inúmeros políticos. "Poderia forrar todas as minhas paredes com o papel das cartas de apoio recebidas", diz Eckert, o dinamizador desta iniciativa, "mas as acções só vieram da parte de políticos declaradamente homossexuais".
Para Eckert, isto é um sintoma: já não existe antipatia aberta contra a homossexualidade, mas ainda falta a coragem de afirmar.
Também houve conflitos: Alice Schwarzer e a redacção da revista Emma protestaram contra o monumento, onde se passa um filme que mostra dois homens a beijar-se, alegando que mais uma vez se esquecem as mulheres.
Na realidade, o parágrafo 175 referia-se aos homens. Só estes foram perseguidos até à morte pelos nazis. As mulheres, embora sujeitas a dificuldades e perseguições, foram-no em muito menor grau, porque a orientação sexual não punha em risco a sua condição de reprodutoras.
Rapidamente se arranjou um compromisso: o filme será mudado de dois em dois anos, e de cada vez se discutirá novamente qual é o filme mais adequado para o momento.
A RDA retirou o parágrafo 175 em 1968; a Alemanha Ocidental fê-lo em 1969, mas foi preciso esperar mais quatro anos para que um vento de emancipação dos homossexuais varresse este país. Começou com a exibição, num dos canais estatais, de um filme de Rosa von Praunheim, com o título "O Homossexual não é perverso, perversa é a situação em que vive". Continuou com a realização de demonstrações que acabaram por se cristalizar no cortejo anual Christopher Street Day. Houve ainda, em 1983, um escândalo com um general que foi afastado do seu cargo por alegada homossexualidade, e posteriormente reabilitado.
O tema homossexualidade é cada vez menos motivo para escândalos.
Esta evolução é menos resultado do lobbyism de grupos de homossexuais, ainda relativamente fracos, que do aparecimento de uma doença mortal conhecida como "a peste dos homossexuais". Trágico, mas real: foi a epidemia de SIDA que levou os homossexuais a, mais ou menos voluntariamente, afirmar-se em público e exigir o cumprimento dos seus direitos. Num instante surgiram por todos os lados projectos de ajuda às vítimas da SIDA, e políticos que dialogavam com o mundo da homossexualidade. Em Berlim, um dos acontecimentos sociais mais importantes do ano é a Gala da SIDA, na Ópera.
Esta naturalidade está evidente também na existência da organização "Gays e Lésbicas na CDU", ou de um grupo chamado "Homossexuais e Igreja" que se apresentou cheio de auto-confiança nas Jornadas Católicas, o grande encontro anual dos católicos alemães, realizado recentemente.
****
Este é o filme que vai estar em exibição permanente nesse monumento durante os próximos dois anos.
Ao vê-lo, lembrei-me do desconforto que sentíamos há trinta anos, quando apareceu em Portugal a primeira telenovela, e a sala nos era invadida com aqueles beijos de desentupir bancas que o Tonico Bastos dava à Gerusa. Quem é que hoje em dia se incomoda com os beijos da telenovela?
Quantos anos demorará até acharmos que este filme é uma banalidade sem substância para um monumento destes?
21 maio 2008
não fui eu!
...embora tenha sido vista nas imediações pouco tempo antes.
E então foi assim: ontem de manhã encontrei-me na Potsdamer Platz com um casal português que caiu na asneira de fazer férias em Berlim com uma criança de dois anos.
Para vermos a cidade, levei-os no elevador mais rápido da Europa ao topo de uma das torres. Mostrei-lhes a Filarmónica, contei que o edifício foi construído há quase 50 anos no que na altura era o fim do mundo, um descampado junto ao muro de Berlim, e mais uma vez me dei conta que continua a encantar como uma obra de boa arte.
Disse-lhes que às terças há concerto gratuito à hora do almoço, e ofereci-me para tomar conta do filho para eles poderem saborear a música e o ambiente do foyer.
(Não tenho grande álibi para as três horas que se seguem, porque fui ao supermercado com o rapazito e depois ele adormeceu. Além disso, ainda só diz papá, mamã, aqui e pum (esta última, ensinei-lhe eu - é o barulho que faço ao descer as escadas). Não teria como explicar à Polícia o que andámos a fazer. Para complicar, aquele "pum" presta-se a interpretações dúbias.)
Quando os pais regressaram, contaram que o concerto tinha sido muito bom, mas que mal a música acabou obrigaram toda a gente a sair do edifício. Sem revelarem que havia fogo, mas de forma firme, diziam "vamos fechar" e dirigiam as pessoas para as portas. Os portugueses acharam, quase sem surpresa, que os alemães têm a mania de cumprir horários, e não permitem nem meio minuto de atraso na hora de fechar a Filarmónica. Quando chegaram à rua é que viram o fumo a sair da cobertura, os primeiros carros de bombeiros a chegar, os músicos que vinham para um ensaio a iniciar um vaivém de formigueiro para salvar instrumentos do edifício.

(Foto tirada da torre onde tínhamos estado umas horas antes)
A nossa Filarmónica, que tristeza!
A ver se a consertam até fins de Junho, que nessa altura tenho cá visitas muito importantes, e ir a Berlim sem ver a Filarmónica é como ir a Roma e não ver o Giolitti.
***
Poucos meses depois de ir morar para Weimar, ardeu a Anna-Amalia-Bibliothek.
Começo a ter medo de mim própria. Isto é destino, não é culpa, mas corro o risco de me tornar persona non grata em todas as cidades do mundo.
E então foi assim: ontem de manhã encontrei-me na Potsdamer Platz com um casal português que caiu na asneira de fazer férias em Berlim com uma criança de dois anos.
Para vermos a cidade, levei-os no elevador mais rápido da Europa ao topo de uma das torres. Mostrei-lhes a Filarmónica, contei que o edifício foi construído há quase 50 anos no que na altura era o fim do mundo, um descampado junto ao muro de Berlim, e mais uma vez me dei conta que continua a encantar como uma obra de boa arte.
Disse-lhes que às terças há concerto gratuito à hora do almoço, e ofereci-me para tomar conta do filho para eles poderem saborear a música e o ambiente do foyer.
(Não tenho grande álibi para as três horas que se seguem, porque fui ao supermercado com o rapazito e depois ele adormeceu. Além disso, ainda só diz papá, mamã, aqui e pum (esta última, ensinei-lhe eu - é o barulho que faço ao descer as escadas). Não teria como explicar à Polícia o que andámos a fazer. Para complicar, aquele "pum" presta-se a interpretações dúbias.)
Quando os pais regressaram, contaram que o concerto tinha sido muito bom, mas que mal a música acabou obrigaram toda a gente a sair do edifício. Sem revelarem que havia fogo, mas de forma firme, diziam "vamos fechar" e dirigiam as pessoas para as portas. Os portugueses acharam, quase sem surpresa, que os alemães têm a mania de cumprir horários, e não permitem nem meio minuto de atraso na hora de fechar a Filarmónica. Quando chegaram à rua é que viram o fumo a sair da cobertura, os primeiros carros de bombeiros a chegar, os músicos que vinham para um ensaio a iniciar um vaivém de formigueiro para salvar instrumentos do edifício.

(Foto tirada da torre onde tínhamos estado umas horas antes)
A nossa Filarmónica, que tristeza!
A ver se a consertam até fins de Junho, que nessa altura tenho cá visitas muito importantes, e ir a Berlim sem ver a Filarmónica é como ir a Roma e não ver o Giolitti.
***
Poucos meses depois de ir morar para Weimar, ardeu a Anna-Amalia-Bibliothek.
Começo a ter medo de mim própria. Isto é destino, não é culpa, mas corro o risco de me tornar persona non grata em todas as cidades do mundo.
20 maio 2008
três fotografias que devia ter feito em Amesterdão e não fiz
1. Um carro estacionado a 2 cm da berma da rua - lá onde começa não o passeio, mas o canal.
(Amesterdão daria comigo em louca)
2. Um ninho de patos no meio de um canal, com patinhos acabados de sair da casca e tudo, feito com resíduos urbanos.
3. Um smart transformado em carro de bombeiros. Sim, que até conseguir passar com as habituais banheiras dos bombeiros pelas ruelas do centro antigo, já metade da cidade podia ter ardido.
E um vídeo: o ar do Matthias ao dizer "uma cidade onde os ciclistas têm prioridade sobre os peões?! mas isso é um sonho!"
Às vezes prefiro guardar os momentos na memória em vez de os armazenar em fotografias.
E depois arrependo-me.
(Amesterdão daria comigo em louca)
2. Um ninho de patos no meio de um canal, com patinhos acabados de sair da casca e tudo, feito com resíduos urbanos.
3. Um smart transformado em carro de bombeiros. Sim, que até conseguir passar com as habituais banheiras dos bombeiros pelas ruelas do centro antigo, já metade da cidade podia ter ardido.
E um vídeo: o ar do Matthias ao dizer "uma cidade onde os ciclistas têm prioridade sobre os peões?! mas isso é um sonho!"
Às vezes prefiro guardar os momentos na memória em vez de os armazenar em fotografias.
E depois arrependo-me.
19 maio 2008
instantâneos holandeses
À entrada de um museu, um homem pediu desconto como se fizesse parte de um grupo, alegando que era esquizofrénico.
Entrei no eléctrico e, para saber quantas tarjetas do bilhete devia usar, disse ao condutor que ia até à paragem fulano-de-tal. Ele respondeu: "how exciting!"
Na viagem de regresso, ao dar-me conta que não havia mais ninguém no cais, fui perguntar a um funcionário da estação o que se passava. Ele explicou que me venderam na Alemanha um bilhete para um comboio que não existia, porque no fim-de-semana essa linha estava fechada para obras. "E agora?", perguntei eu. "E agora, disse ele, vamos tentar mandá-la de táxi para a outra cidade", e telefonou imediatamente para combinar tudo. "E quanto é que isso me vai custar?", perguntei eu aflita, pensando nos mais de 100 km. "Nada", respondeu ele.
Entrei no eléctrico e, para saber quantas tarjetas do bilhete devia usar, disse ao condutor que ia até à paragem fulano-de-tal. Ele respondeu: "how exciting!"
Na viagem de regresso, ao dar-me conta que não havia mais ninguém no cais, fui perguntar a um funcionário da estação o que se passava. Ele explicou que me venderam na Alemanha um bilhete para um comboio que não existia, porque no fim-de-semana essa linha estava fechada para obras. "E agora?", perguntei eu. "E agora, disse ele, vamos tentar mandá-la de táxi para a outra cidade", e telefonou imediatamente para combinar tudo. "E quanto é que isso me vai custar?", perguntei eu aflita, pensando nos mais de 100 km. "Nada", respondeu ele.
12 maio 2008
Irena Sendler
Transcrevo integralmente um post do Jardim de Luz:

A polaca Irena Sendler, que salvou cerca de 2500 crianças de serem encaminhadas para campos de concentração nazi, morreu hoje, aos 98 anos, informou a sua família. Sendler foi considerada como uma das grandes heroínas da resistência polaca ao nazismo, tendo estado nomeada para o Prémio Nobel da Paz.
notícia Publico.
***
Gosto muito do calor e da placidez deste olhar. Deve ter sido uma mulher muito bem dentro da sua pele.
Por coincidência, sem imaginar que tinha morrido, ainda hoje falei dela a uma amiga.
E ela contou-me que a mulher polaca, que conheci na semana passada na Filarmonia, foi baptizada 10 vezes. De cada vez que era baptizada recebia um nome novo, passado pelo padre que resolvera colaborar neste processo, e os pais entregavam esses papéis, que correspondiam a uma nova identidade, a um grupo da resistência polaca que salvava crianças judias.
Depois contou-me a história da sua própria família, mas essa fica para depois das férias. Agora tenho de fazer as malas.

A polaca Irena Sendler, que salvou cerca de 2500 crianças de serem encaminhadas para campos de concentração nazi, morreu hoje, aos 98 anos, informou a sua família. Sendler foi considerada como uma das grandes heroínas da resistência polaca ao nazismo, tendo estado nomeada para o Prémio Nobel da Paz.
notícia Publico.
***
Gosto muito do calor e da placidez deste olhar. Deve ter sido uma mulher muito bem dentro da sua pele.
Por coincidência, sem imaginar que tinha morrido, ainda hoje falei dela a uma amiga.
E ela contou-me que a mulher polaca, que conheci na semana passada na Filarmonia, foi baptizada 10 vezes. De cada vez que era baptizada recebia um nome novo, passado pelo padre que resolvera colaborar neste processo, e os pais entregavam esses papéis, que correspondiam a uma nova identidade, a um grupo da resistência polaca que salvava crianças judias.
Depois contou-me a história da sua própria família, mas essa fica para depois das férias. Agora tenho de fazer as malas.
10 maio 2008
um outro Maio

Há 75 anos, a Alemanha escurecia à luz de fogueiras grandiosas, numa gigantesca encenação para fazer a apologia do bom e glorioso e imortal espírito alemão, acção conjunta do Ministério de Propaganda e organizações de estudantes.

Estas coisas preparam-se com cuidado. Foram pedidos manifestos a vários escritores (a maior parte do quais alegou falta de tempo para escrever); foram instalados pelourinhos em frente às universidades, para punir simbolicamente os professores e autores que traíam o espírito alemão; foram organizadas sessões solenes nas Faculdades, contando com a presença de professores e estudantes; realizaram-se cortejos triunfais para manifestar o repúdio pelos traidores.

E as fogueiras, com início marcado para o dia 10 de Maio.
Antes de atirar os livros ao fogo, havia uma proclamação que explicava o motivo pelo qual se entregavam os livros daquele autor às chamas purificadoras:
1ª Chamada: Contra a pregação da luta de classes e contra o materialismo, pela nação e pelo nosso estilo de vida ideal! Entrego ao fogo as obras de Marx e Kautsky.
2ª Chamada: Contra a decadência e a decomposição moral, pela moral e pelos bons costumes, entrego ao fogo as obras de Heinrich Mann, Ernst Glaeser, E. Kästner.
3ª Chamada: Contra a degradação da mentalidade e a traição política, pela dedicação ao povo e ao Estado! Entrego ao fogo as obras de F. Wilhelm Förster.
4ª Chamada: Contra a sobrevalorização dos instintos que destrói o espírito, pela nobreza da alma humana! Entrego ao fogo as obras de S. Freud.
5ª Chamada: Contra a falsificação da história e o desrespeito pelas suas grandes personagens, pela veneração do nosso passado! Entrego ao fogo as obras de E. Ludwig e W. Hegemann.
6ª Chamada: Contra o jornalismo inimigo do povo, de inspiração democrático-judaica, pela colaboração responsável no trabalho de construir a nação! Entrego ao fogo as obras de Theodor Wolff e Georg Bernhard.
7ª Chamada: contra a traição literária que atingiu os soldados da guerra mundial, pela educação do povo no sentido da defesa nacional! Entrego ao fogo as obras de Erich Maria Remarque.
8ª Chamada: contra o obscurecimento e o estropiamento do idioma alemão, pelo cuidado do valor mais precioso do nosso povo! Entrego ao fogo as obras de Alfred Kerr.
9ª Chamada: contra o atrevimento e a arrogância, pelo respeito e a veneração do imortal espírito alemão! Entrego ao fogo as obras de Kurt Tucholsky e Ossietzsky.
(Cá vai a nota do costume: fiz esta tradução à pressa. É que este fim-de-semana há Karneval der Kulturen, e enquanto escrevo isto estou a perder a festa. São cinco palcos em simultâneo, com música e dança do mundo inteiro, e gente de todas as cores e proveniente de todas as culturas a saborear em conjunto a riqueza das diferenças. Apenas 75 anos depois de universitários terem queimado os livros que danificavam o imortal e glorioso espírito alemão. Tem tudo a ver.)
(Cá vai mais uma nota: faltam maiúsculas. Comecei a escrevê-las, mas tenho uma espécie de alergia a textos com tantas maiúsculas. Talvez até alergia a épocas com tantas maiúsculas. Também pela ortografia se percebe que não eram bons, esses velhos tempos.)
09 maio 2008
"alguém viu esta rapariga?"
Como é que se traduz girl para português?
Até há pouco tempo, usava-se menina.
Mas menina, aplicado a uma girl de 18 anos, condiz mal com os tempos modernos. De modo que rapariga começa a ser cada vez mais usado.
Acredito que o infeliz do tradutor do Sun não tenha tido muito tempo para se informar sobre o contexto da girl que tinha que traduzir, o que deu origem àquela página absurda.

Mais absurda ainda - voltando à questão do português universal - para os brasileiros, que lêem rapariga e entendem prostituta.
***
Em termos de aventuras da tradução, há pior: a brasileira que traduziu o Harry Potter cometeu(*) uma tradução infeliz logo no princípio do primeiro livro, e ficou condenada a ela até ao fim do último volume: muggles = trouxas.
(*) "cometer uma tradução": gostava de ter sido eu a inventar esta expressão.
Até há pouco tempo, usava-se menina.
Mas menina, aplicado a uma girl de 18 anos, condiz mal com os tempos modernos. De modo que rapariga começa a ser cada vez mais usado.
Acredito que o infeliz do tradutor do Sun não tenha tido muito tempo para se informar sobre o contexto da girl que tinha que traduzir, o que deu origem àquela página absurda.

Mais absurda ainda - voltando à questão do português universal - para os brasileiros, que lêem rapariga e entendem prostituta.
***
Em termos de aventuras da tradução, há pior: a brasileira que traduziu o Harry Potter cometeu(*) uma tradução infeliz logo no princípio do primeiro livro, e ficou condenada a ela até ao fim do último volume: muggles = trouxas.
(*) "cometer uma tradução": gostava de ter sido eu a inventar esta expressão.
06 maio 2008
português neutro
Eu, pecadora, me confesso:
passei oito anos da minha vida a inventar uma língua chamada português neutro, numa empresa que queria uma tradução única para utilizar em Portugal e no Brasil.
E eu, acabada de nascer, tão ignorante como bem-intencionada, achei que, com jeitinho, era possível.
Pensava que bastaria usar o acordo ortográfico de 1990 (sim, senhores: o mesmo que agora se discute), e tudo acabaria em bem.
Hoje, do alto da minha experiência, vos digo: não funciona.
O problema não é o modo como se escrevem as palavras, mas o seu significado.
Sem pensar muito, ocorrem-me logo vários exemplos em que tropecei nessa época negra da minha linguística:
- Um armazém, em Portugal, é uma área onde se guarda mercadoria; no Brasil, é uma mercearia de portugueses. Que palavra usar então para a área onde se guarda mercadorias? Almoxarifado? Depósito? A partir do momento em que tentamos soluções de mínimo denominador comum, a língua transforma-se numa construção artificial alheia à realidade de cada país.
- O célebre file inglês é um ficheiro em Portugal e um arquivo no Brasil. Não tem solução.
- O time brasileiro (team) e a equipa portuguesa (equipa nem aparece no Aurélio, só existe equipe). Forma-se um grupo?
- Outras armadilhas de palavras heterossemânticas: bilião, fazenda, cadastrado, adeus, constipação, miúdos, terno. E muitas mais. Fazendo uma pequena incursão nas brejeirices: a palavra bicha já desapareceu dos meios de comunicação social portugueses, mas vamos também evitar trepar, pinto e grelo?
[Adenda (em 8.05) aos exemplos: por muito que unifiquem a ortografia, nunca será possível escrever um livro de culinária para ser usado simultaneamente no Brasil e em Portugal. Alguém sabe o que é um limão, no Brasil? E um limão galego? Eu ainda não consegui entender.]
O acordo ortográfico vai simplificar um pouco? Talvez, mas também complica:
Preciso de me concentrar para não ler afeto e respeto como afêto e respêto. (Ora aí está o alentejano promovido a português neutro.)
Ação pede a pronúncia de cação, receção parece recessão.
E porque é que o h cai da humidade, mas se mantém nos seres humanos e nos homens? (quer dizer: espero que se mantenha...)
Não adianta unificar a ortografia das palavras para termos a sensação que se trata de uma língua única. Mesmo que estejam escritas da mesma maneira, será sempre necessário conhecer e saber descodificar as palavras usadas pelos outros. Por isso, penso que a única solução é informar-se sobre as diferenças. Aprender mais sobre a nossa língua e sobre a língua portuguesa falada nos outros países. Assumir, por muito que custe aos heróis do mar nobre povo, que não há um português universal, mas um "portugalês" e um "brasileiro" (do português falado nos outros países não falo, porque não sei).
Fazer um acordo ortográfico que suprime alguns acentos e consoantes mudas, tira aqui hífens para os acrescentar ali, e pensar que essas alterações confusas de cosmética são um passo importante para unificar a língua, é de uma ingenuidade que se poderia dizer ridícula se não tivesse tantos custos.
Vão por mim: só nos faz bem aprender mais e exercitar permanentemente o cérebro. Aprender os falsos cognatos, manter as nossas consoantes mudas e os acentos de todos, inclusivamente o belíssimo trema brasileiro (eqüidade, que equilíbrio de palavra!), a eterna dúvida entre o ç, o ss e o s, tudo isso são bons exercícios para fintar o Alzheimer. Isto nem é só uma questão de ortografia, é até um caso de saúde pública...
Também não concordo com simplificações da ortografia para facilitar a aprendizagem. Isso equivale a, desculpem a ofensa, fazer uma hortografia: ortografia para nabos.
Tudo isto para dizer que sim, também assinei o manifesto em defesa da língua portuguesa. Embora por razões diferentes das que estão lá escritas.
***
Na altura em que eu inventava um português neutro, assistia a discussões dos tradutores para espanhol. Pelo que entendi, a Real Academia Española, sedeada em Madrid, decide a evolução do espanhol no mundo inteiro. Os sul-americanos protestavam, mas manda quem pode...
De onde se conclui que a culpada dos nossos problemas linguísticos é a República e o seu pai de todos os males, o regicídio... ;-)
Que um dia ainda se chamará rejissídio. ;-)
passei oito anos da minha vida a inventar uma língua chamada português neutro, numa empresa que queria uma tradução única para utilizar em Portugal e no Brasil.
E eu, acabada de nascer, tão ignorante como bem-intencionada, achei que, com jeitinho, era possível.
Pensava que bastaria usar o acordo ortográfico de 1990 (sim, senhores: o mesmo que agora se discute), e tudo acabaria em bem.
Hoje, do alto da minha experiência, vos digo: não funciona.
O problema não é o modo como se escrevem as palavras, mas o seu significado.
Sem pensar muito, ocorrem-me logo vários exemplos em que tropecei nessa época negra da minha linguística:
- Um armazém, em Portugal, é uma área onde se guarda mercadoria; no Brasil, é uma mercearia de portugueses. Que palavra usar então para a área onde se guarda mercadorias? Almoxarifado? Depósito? A partir do momento em que tentamos soluções de mínimo denominador comum, a língua transforma-se numa construção artificial alheia à realidade de cada país.
- O célebre file inglês é um ficheiro em Portugal e um arquivo no Brasil. Não tem solução.
- O time brasileiro (team) e a equipa portuguesa (equipa nem aparece no Aurélio, só existe equipe). Forma-se um grupo?
- Outras armadilhas de palavras heterossemânticas: bilião, fazenda, cadastrado, adeus, constipação, miúdos, terno. E muitas mais. Fazendo uma pequena incursão nas brejeirices: a palavra bicha já desapareceu dos meios de comunicação social portugueses, mas vamos também evitar trepar, pinto e grelo?
[Adenda (em 8.05) aos exemplos: por muito que unifiquem a ortografia, nunca será possível escrever um livro de culinária para ser usado simultaneamente no Brasil e em Portugal. Alguém sabe o que é um limão, no Brasil? E um limão galego? Eu ainda não consegui entender.]
O acordo ortográfico vai simplificar um pouco? Talvez, mas também complica:
Preciso de me concentrar para não ler afeto e respeto como afêto e respêto. (Ora aí está o alentejano promovido a português neutro.)
Ação pede a pronúncia de cação, receção parece recessão.
E porque é que o h cai da humidade, mas se mantém nos seres humanos e nos homens? (quer dizer: espero que se mantenha...)
Não adianta unificar a ortografia das palavras para termos a sensação que se trata de uma língua única. Mesmo que estejam escritas da mesma maneira, será sempre necessário conhecer e saber descodificar as palavras usadas pelos outros. Por isso, penso que a única solução é informar-se sobre as diferenças. Aprender mais sobre a nossa língua e sobre a língua portuguesa falada nos outros países. Assumir, por muito que custe aos heróis do mar nobre povo, que não há um português universal, mas um "portugalês" e um "brasileiro" (do português falado nos outros países não falo, porque não sei).
Fazer um acordo ortográfico que suprime alguns acentos e consoantes mudas, tira aqui hífens para os acrescentar ali, e pensar que essas alterações confusas de cosmética são um passo importante para unificar a língua, é de uma ingenuidade que se poderia dizer ridícula se não tivesse tantos custos.
Vão por mim: só nos faz bem aprender mais e exercitar permanentemente o cérebro. Aprender os falsos cognatos, manter as nossas consoantes mudas e os acentos de todos, inclusivamente o belíssimo trema brasileiro (eqüidade, que equilíbrio de palavra!), a eterna dúvida entre o ç, o ss e o s, tudo isso são bons exercícios para fintar o Alzheimer. Isto nem é só uma questão de ortografia, é até um caso de saúde pública...
Também não concordo com simplificações da ortografia para facilitar a aprendizagem. Isso equivale a, desculpem a ofensa, fazer uma hortografia: ortografia para nabos.
Tudo isto para dizer que sim, também assinei o manifesto em defesa da língua portuguesa. Embora por razões diferentes das que estão lá escritas.
***
Na altura em que eu inventava um português neutro, assistia a discussões dos tradutores para espanhol. Pelo que entendi, a Real Academia Española, sedeada em Madrid, decide a evolução do espanhol no mundo inteiro. Os sul-americanos protestavam, mas manda quem pode...
De onde se conclui que a culpada dos nossos problemas linguísticos é a República e o seu pai de todos os males, o regicídio... ;-)
Que um dia ainda se chamará rejissídio. ;-)
04 maio 2008
nacionalismos
Ontem vi um maestro chinês dirigir a quinta sinfonia de Beethoven na Filarmonia de Berlim.
Pensei: "isto sim, é coragem!", e lembrei-me deste debate, onde se fala de nacionalismos e globalização.
Tenho de pensar mais no assunto.
Pensei: "isto sim, é coragem!", e lembrei-me deste debate, onde se fala de nacionalismos e globalização.
Tenho de pensar mais no assunto.
03 maio 2008
e ao terceiro dia: vingaram-se
02 maio 2008
hoje há milagres
Primeiro milagre: ao pequeno-almoço, os rapazes disseram que afinal queriam ir conhecer mais da cultura de Berlim. Queriam ver todos os museus que referi, excepto o do dinossauro.
(Plano C, que equivale a redistribuir o Plano A por dois dias e meio. Também cortámos os Ferrari e os Opel.)
Segundo milagre: o Pergamon tinha uma bicha quase até à porta da Angela Merkel. Eu precisava de ir à casa de banho, e disse aos rapazes que entrassem comigo no museu, e que vissem ao menos o foyer. Ultrapassámos a bicha em velocidade cruzeiro. Lá dentro, reparei que por trás das informações havia uma porta de vidro que permitia ver a sala do altar. Pedi autorização ao funcionário para os miúdos verem o altar através da porta, e ele... tãtãtãtãããã... abriu a porta e deixou-nos passar!
(sim, eu sei que não é correcto em relação aos turistas ultrapassados - mas posso alegar que não foi premeditado, e que não foi por mim, foi pelos meus rapazes)
Terceiro milagre: os rapazes gostaram. Gostaram muito. Até fizeram fotografias, até leram alguma documentação. Um deles descobriu que gostava de tapetes, o que aumentou exponencialmente o tempo que tencionava passar lá dentro.
Quarto milagre: a casa de banho das senhoras tinha uma bicha quase tão grande como a da bilheteira. Mas cá fora, no Café Pergamon, não havia ninguém à espera.
Quinto milagre: às nove da noite estavam na cama. Às nove e meia estavam a dormir. Completamente estourados com o Pergamon e o passeio de barco de manhã e o jardim zoológico (inclusivamente Knut, inclusivamente aquário - fizeram questão) à tarde, seguido de um jogo de futebol para terminar o dia em grande.
(Plano C, que equivale a redistribuir o Plano A por dois dias e meio. Também cortámos os Ferrari e os Opel.)
Segundo milagre: o Pergamon tinha uma bicha quase até à porta da Angela Merkel. Eu precisava de ir à casa de banho, e disse aos rapazes que entrassem comigo no museu, e que vissem ao menos o foyer. Ultrapassámos a bicha em velocidade cruzeiro. Lá dentro, reparei que por trás das informações havia uma porta de vidro que permitia ver a sala do altar. Pedi autorização ao funcionário para os miúdos verem o altar através da porta, e ele... tãtãtãtãããã... abriu a porta e deixou-nos passar!
(sim, eu sei que não é correcto em relação aos turistas ultrapassados - mas posso alegar que não foi premeditado, e que não foi por mim, foi pelos meus rapazes)
Terceiro milagre: os rapazes gostaram. Gostaram muito. Até fizeram fotografias, até leram alguma documentação. Um deles descobriu que gostava de tapetes, o que aumentou exponencialmente o tempo que tencionava passar lá dentro.
Quarto milagre: a casa de banho das senhoras tinha uma bicha quase tão grande como a da bilheteira. Mas cá fora, no Café Pergamon, não havia ninguém à espera.
Quinto milagre: às nove da noite estavam na cama. Às nove e meia estavam a dormir. Completamente estourados com o Pergamon e o passeio de barco de manhã e o jardim zoológico (inclusivamente Knut, inclusivamente aquário - fizeram questão) à tarde, seguido de um jogo de futebol para terminar o dia em grande.
01 maio 2008
dá Deus as nozes...
O Matthias aproveitou o fim-de-semana com quatro dias para convidar alguns amigos de Weimar.
Preparámos com todo o cuidado um roteiro turístico e gastronómico para lhes oferecer uns dias inesquecíveis.
À primeira refeição, comecei a contar o que podemos fazer:
- uma exposição de Ferraris (inclusivamente um de Fórmula 1);
- outra na Opel da Friedrichstrasse onde se podem ver os primeiros automóveis e as experiências de evolução;
- o museu no Checkpoint Charlie (e dizia o Matthias, tentando entusiasmá-los: "com um filme sobre uma fuga num balão, e mostra os truques que eles inventavam para fugir");
- o Pergamon ("com um altar inteiro em mármore e uma rua triunfal da Babilónia", dizia eu, e falava da Prússia, e dos cientistas enviados por todo o mundo, regressando com as peças mais impressionantes para expor no centro do império);
- o Museu de História Natural, com o maior esqueleto de dinossauro que existe exposto no mundo inteiro (um braquiossauro de 13 m de altura);
- o Museu de História onde podem ver sapatos para atravessar as ruas medievais (sim, já nessa altura tinham o mesmo problema com excrementos no passeio...) ou tocar numa cota de malha para ver o peso daquilo;
- etc., tantos tantos etc.
E os rapazes? Que não, que não lhes interessa, que querem é ir jogar futebol.
Senti-me mais ou menos como um amigo meu daquela vez que ofereceu vinho do Porto a uns escoceses, e os viu a despachar o vinho directamente da garrafa pró bucho.
O Matthias foi logo buscar uma folha de papel para fazer um novo programa das festas. Plano B: reduzir o plano A ao mínimo, por muito favor fazemos a cúpula do Reichstag e damos um passeio de barco. Quanto ao mais, bolas. Literalmente.
E, ainda por cima, põem cara de cool: "Cultura?! Não temos tempo para perder com essas chatices..."
Por sorte, o menos entusiástico de todos já se vai embora no sábado à tarde. É que à noite vamos à Filarmonia de Berlim, e sei lá como é que ele se ia portar - ele, que nunca viu uma sala de concertos por dentro.
***
Não serei eu quem vai forçar estes rapazes a aproveitarem ao máximo a oportunidade de quatro dias em Berlim.
(Enfim, vou forçar um bocadinho: hoje à tarde vamos ao Pergamon. Nem que seja por dez minutos, mas hão-de ver o altar, a porta de Ishtar - seis séculos antes de Cristo; emboramente... eles vêm da Alemanha comunista, às tantas nem sabem quem foi Cristo -, o portal do mercado de Mileto, e mais duas ou três velharias egípcias e turcas.)
E depois voltam para Weimar. Mais ou menos no mesmo estado em que vieram.
Em contrapartida, o Matthias: como prémio do seu interesse ao fazer um trabalho sobre Roma antiga, ofereceram-lhe uma visita super-exclusiva a Ostia, com uma arqueóloga especialista naquela cidade. Fica-nos um bocadinho à desamão, é verdade, mas às tantas ainda se consegue dar um jeitinho.
Chegada aqui, lembro-me de uma passagem difícil do Evangelho: "àquele que tem lhe será dado, e terá em abundância; mas ao que não tem, até aquilo que tem ser-lhe-á tirado."
Começo a desconfiar que Cristo estava a falar do Conhecimento.
(Ou seja: da escola, Céu, da escola!...)




Preparámos com todo o cuidado um roteiro turístico e gastronómico para lhes oferecer uns dias inesquecíveis.
À primeira refeição, comecei a contar o que podemos fazer:
- uma exposição de Ferraris (inclusivamente um de Fórmula 1);
- outra na Opel da Friedrichstrasse onde se podem ver os primeiros automóveis e as experiências de evolução;
- o museu no Checkpoint Charlie (e dizia o Matthias, tentando entusiasmá-los: "com um filme sobre uma fuga num balão, e mostra os truques que eles inventavam para fugir");
- o Pergamon ("com um altar inteiro em mármore e uma rua triunfal da Babilónia", dizia eu, e falava da Prússia, e dos cientistas enviados por todo o mundo, regressando com as peças mais impressionantes para expor no centro do império);
- o Museu de História Natural, com o maior esqueleto de dinossauro que existe exposto no mundo inteiro (um braquiossauro de 13 m de altura);
- o Museu de História onde podem ver sapatos para atravessar as ruas medievais (sim, já nessa altura tinham o mesmo problema com excrementos no passeio...) ou tocar numa cota de malha para ver o peso daquilo;
- etc., tantos tantos etc.
E os rapazes? Que não, que não lhes interessa, que querem é ir jogar futebol.
Senti-me mais ou menos como um amigo meu daquela vez que ofereceu vinho do Porto a uns escoceses, e os viu a despachar o vinho directamente da garrafa pró bucho.
O Matthias foi logo buscar uma folha de papel para fazer um novo programa das festas. Plano B: reduzir o plano A ao mínimo, por muito favor fazemos a cúpula do Reichstag e damos um passeio de barco. Quanto ao mais, bolas. Literalmente.
E, ainda por cima, põem cara de cool: "Cultura?! Não temos tempo para perder com essas chatices..."
Por sorte, o menos entusiástico de todos já se vai embora no sábado à tarde. É que à noite vamos à Filarmonia de Berlim, e sei lá como é que ele se ia portar - ele, que nunca viu uma sala de concertos por dentro.
***
Não serei eu quem vai forçar estes rapazes a aproveitarem ao máximo a oportunidade de quatro dias em Berlim.
(Enfim, vou forçar um bocadinho: hoje à tarde vamos ao Pergamon. Nem que seja por dez minutos, mas hão-de ver o altar, a porta de Ishtar - seis séculos antes de Cristo; emboramente... eles vêm da Alemanha comunista, às tantas nem sabem quem foi Cristo -, o portal do mercado de Mileto, e mais duas ou três velharias egípcias e turcas.)
E depois voltam para Weimar. Mais ou menos no mesmo estado em que vieram.
Em contrapartida, o Matthias: como prémio do seu interesse ao fazer um trabalho sobre Roma antiga, ofereceram-lhe uma visita super-exclusiva a Ostia, com uma arqueóloga especialista naquela cidade. Fica-nos um bocadinho à desamão, é verdade, mas às tantas ainda se consegue dar um jeitinho.
Chegada aqui, lembro-me de uma passagem difícil do Evangelho: "àquele que tem lhe será dado, e terá em abundância; mas ao que não tem, até aquilo que tem ser-lhe-á tirado."
Começo a desconfiar que Cristo estava a falar do Conhecimento.
(Ou seja: da escola, Céu, da escola!...)




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