Do Evangelho segundo S.Mateus 1,1-16:
Genealogia de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão: Abraão gerou Isaac; Isaac gerou Jacob; Jacob gerou Judá e seus irmãos; Judá gerou, de Tamar, Peres e Zera; Peres gerou Hesron; Hesron gerou Rame; Rame gerou Aminadab; Aminadab gerou Nachon; Nachon gerou Salmon; Salmon gerou, de Raab, Booz; Booz gerou, de Rute, Obed; Obed gerou Jessé; Jessé gerou o rei David. David, da mulher de Urias, gerou Salomão; Salomão gerou Roboão; Roboão gerou Abias; Abias gerou Asa; Asa gerou Josafat; Josafat gerou Jorão; Jorão gerou Uzias; Uzias gerou Jotam; Jotam gerou Acaz; Acaz gerou Ezequias; Ezequias gerou Manassés; Manassés gerou Amon; Amon gerou Josias; Josias gerou Jeconias e seus irmãos, na época da deportação para Babilónia. Depois da deportação para Babilónia, Jeconias gerou Salatiel; Salatiel gerou Zorobabel; Zorobabel gerou Abiud. Abiud gerou Eliaquim; Eliaquimgerou Azur; Azur gerou Sadoc; Sadoc gerou Aquim; Aquim gerou Eliud; Eliud gerou Eleázar; Eleázar gerou Matan; Matan gerou Jacob. Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo.
Nunca gostei desta lista de nomes. Até ao dia em que parei para olhar de perto as quatro avós que o evangelista refere na genealogia de Jesus Cristo:
Tamar (Gn. 38)
Após a morte do primeiro marido, casou com o segundo irmão, para que este "suscitasse uma posteridade" ao falecido. Onã, o segundo irmão, não queria cumprir esse dever, e por isso, "de cada vez que se unia à mulher de seu irmão, derramava por terra". Iahweh desagradou-se e fê-lo morrer. O sogro de Tamar tinha um terceiro filho, que, segundo a lei, deveria casar com ela, mas, temendo que também ele morresse, mandou-a voltar para casa do seu pai, e esperar lá até que o filho mais novo crescesse. Ao perceber o logro, Tamara disfarça-se de prostituta, atrai o sogro e engravida dele, dando à luz os gémeos Peres e Zera.
A primeira avó de Jesus: uma mulher que conhece os seus direitos e não olha a meios para os conquistar.
Raab (Js. 2, 1-21)
Não se sabe se prostituta se dona de uma taberna, mora junto à muralha de Jericó. Quando Josué envia dois espiões à cidade, ela esconde-os e mente aos mensageiros do rei de Jericó que vão em busca deles. Aos espiões diz que todos estão a morrer de medo do seu exército porque viram como Iahweh os tem ajudado sempre, e firma com eles um pacto: ajuda-os a fugir, e em troca eles farão com que nenhum mal aconteça à família dela.
Pode-se dizer que o que a move é a Fé no Deus de Israel, ou o amor à família, ou até a escolha pela vida num mundo que vive em guerra.
Mas não se pode dizer que seja uma personagem acima de qualquer suspeita.
Rute (livro de Rute)
Uma moabita viúva que tem a opção de ficar em casa dos pais, permanecendo na segurança da sua família e da sua cultura, ou acompanhar a sogra, que quer regressar a Belém de Judá. Rute opta por não abandonar a sogra, dedicando-se-lhe inteiramente. Na terra da família do marido é uma gentia que tem de lutar arduamente para conseguir o sustento das duas mulheres. No fim, tudo acaba bem - recomendo a leitura da história toda.
- "Aquela que foi a mulher de Urias" (2Sm. 11)
Uma desgraçada que, em Mateus, nem direito a nome próprio tem. "Confiscada" pelo rei David a Urias, o marido, que é depois enviado para a guerra com a intenção de que o inimigo o atinja mortalmente. Iahweh mata o filho desta ligação ignominiosa, e a dor desse castigo provoca em David a conversão e uma verdadeira aproximação dessa mulher. Nasce um segundo filho, que será o rei Salomão.
Mateus não escreve um relato histórico, antes faz uma narração criativa.
O que nos interessa decifrar neste texto é o simbolismo, o motivo das suas escolhas. Porquê estas mulheres, porquê uma família onde se cruzam histórias de tanta miséria e grandeza, e não outras?
Para mim, é um sinal da sua humanidade e da sua proximidade: veio de quem não é perfeito, para quem não é perfeito.
27 dezembro 2007
26 dezembro 2007
para o tempo de Natal (3)
Do Evangelho segundo S.Mateus 1,1-17, sobre a genealogia de Jesus:
(...) Assim, o número total das gerações é, desde Abraão até David, catorze; de David até ao exílio da Babilónia, catorze; e, desde o exílio da Babilónia até Cristo, catorze.
Três está para a Santíssima Trindade, quatro são os pontos cardeais.
Sete é a sua soma, o ponto onde o céu e a terra se tocam. A completude.
Redobrada: catorze.
Reforçada: Duas vezes catorze.
E ainda não basta: três vezes catorze.
É este o momento em que Deus nasce humano:
completude, completude, completude, completude, completude, completude.
(...) Assim, o número total das gerações é, desde Abraão até David, catorze; de David até ao exílio da Babilónia, catorze; e, desde o exílio da Babilónia até Cristo, catorze.
Três está para a Santíssima Trindade, quatro são os pontos cardeais.
Sete é a sua soma, o ponto onde o céu e a terra se tocam. A completude.
Redobrada: catorze.
Reforçada: Duas vezes catorze.
E ainda não basta: três vezes catorze.
É este o momento em que Deus nasce humano:
completude, completude, completude, completude, completude, completude.
25 dezembro 2007
para o tempo de Natal (2)
Ouvi esta história há alguns anos. Não sei quem é o autor, nem o nome do livro. Reconto-a, de memória:
Era uma vez, nos confins da Noruega, uma aldeia no meio da floresta.
As pessoas sabiam que algures entre as árvores habitava um troll, e por isso não se aventuravam muito longe. Pelo seguro, porque nunca se sabe o que um troll pode fazer.
Só uma menina, a mais bonita da aldeia, passeava despreocupadamente pela floresta.
"Um troll?", ria-se ela, "e que tem? Porque é que havia de ter medo do nosso troll?"
Este, por seu lado, evitava as pessoas da aldeia. Pelo seguro, porque nunca se sabe o que uma pessoa pode fazer.
Aconteceu um dia que o troll viu a menina, e se deixou encantar por ela. Em silêncio, e a distância segura, começou a seguir os seus passos, as suas voltas pela floresta em busca de lenha ou cogumelos, as suas idas ao rio para lavar a roupa. Fascinado, esqueceu todas as precauções e foi chegando cada vez mais perto da aldeia.
Os meses passaram.
Veio a Primavera, e ele escondia-se atrás das árvores a observar como a menina fazia coroas de flores para os irmãos mais novos. No seu coração um sentimento novo crescia - seria ternura?
Depois chegou o Verão, e ele ria perante as brincadeiras das crianças junto ao rio.
No Outono a natureza começou a fechar-se sobre si, os habitantes da aldeia foram-se recolhendo cada vez mais ao abrigo das casas e o troll, em vez de se preparar para o Inverno, ficou cada vez mais inquieto.
A neve que cobria a floresta obrigava-o a manter-se longe. Pois como poderia ele apagar as pegadas reveladoras?
E no entanto, a sua vontade de se aproximar e de conhecer melhor os humanos crescia de dia para dia, enquanto à sua volta o tempo parava no frio e na penumbra.
Lembrava os gestos e os ritos, as canções das crianças, o trabalho dos lenhadores. Imaginava-se um deles, a viver numa casa, vizinho da menina. Pensava: "se os observar bem, serei capaz de os imitar, poderei ser como eles."
E suspirava no seu abrigo escuro, entre os ramos de um abeto frondoso.
Mas eis que um dia toda a aldeia se iluminou. Atraído pela luz, o troll aproximou-se das casas e viu como em cada sala havia pinheiros decorados com mil velas, maçãs vermelhas e biscoitos. Viu que as pessoas se sentavam à mesa festiva, envergando as suas melhores roupas. E depois viu, que estranho!, como vestiam os casacos mais quentes, saíam para a rua gelada, e se dirigiam todos a uma casa grande na maior praça.
Morto de curiosidade, avançou pelas ruas da aldeia. Sem pensar nas pegadas na neve e na possibilidade de ser visto por alguém, aproximou-se da igreja. A porta estava fechada, mas ouvia os cânticos - que música linda! - e via a luz que saía das janelas altas.
Bem queria perceber o que faziam as pessoas ali dentro, chegar mais perto!
Um pinheiro que crescia junto à igreja deu-lhe uma ideia: podia subir pelos ramos, chegar a uma janela, espreitar. E assim fez. A neve que se soltava da árvore toldava-lhe a vista e dificultava os seus movimentos, mas conseguiu empoleirar-se num ramo precário, mesmo junto aos vidros.
Lá dentro as pessoas cantavam de novo, as velas enchiam a sala de uma luz quente. Com os olhos muito abertos, ávido de tudo, foi chegando o rosto cada vez mais à janela.
De súbito, o interior da igreja toldou-se. O seu bafo quente tinha congelado na superfície do vidro, impedindo-lhe a vista. Impaciente, raspou o gelo com a unha. Rzzzz, rzzzzz, rzzzz... e depois: plim!
Desequilibrara-se, tentara agarrar-se à janela, e na precipitação partira o vidro.
Todos os rostos se voltaram para ele, e ele pôde ver o medo estampado nos olhos.
O padre correu para a porta, abriu-a, gritou para a escuridão: "Quem está aí? Que quer de nós?"
O troll desceu lentamente da árvore, aproximou-se da entrada, e gagejou: "Sou eu... queria... queria aprender... eu... eu quero tornar-me um ser humano..."
O padre escancarou a porta e fez um largo sorriso: "Ah, então entra, entra! É esse o desejo de todos os que aqui estão!"
Era uma vez, nos confins da Noruega, uma aldeia no meio da floresta.
As pessoas sabiam que algures entre as árvores habitava um troll, e por isso não se aventuravam muito longe. Pelo seguro, porque nunca se sabe o que um troll pode fazer.
Só uma menina, a mais bonita da aldeia, passeava despreocupadamente pela floresta.
"Um troll?", ria-se ela, "e que tem? Porque é que havia de ter medo do nosso troll?"
Este, por seu lado, evitava as pessoas da aldeia. Pelo seguro, porque nunca se sabe o que uma pessoa pode fazer.
Aconteceu um dia que o troll viu a menina, e se deixou encantar por ela. Em silêncio, e a distância segura, começou a seguir os seus passos, as suas voltas pela floresta em busca de lenha ou cogumelos, as suas idas ao rio para lavar a roupa. Fascinado, esqueceu todas as precauções e foi chegando cada vez mais perto da aldeia.
Os meses passaram.
Veio a Primavera, e ele escondia-se atrás das árvores a observar como a menina fazia coroas de flores para os irmãos mais novos. No seu coração um sentimento novo crescia - seria ternura?
Depois chegou o Verão, e ele ria perante as brincadeiras das crianças junto ao rio.
No Outono a natureza começou a fechar-se sobre si, os habitantes da aldeia foram-se recolhendo cada vez mais ao abrigo das casas e o troll, em vez de se preparar para o Inverno, ficou cada vez mais inquieto.
A neve que cobria a floresta obrigava-o a manter-se longe. Pois como poderia ele apagar as pegadas reveladoras?
E no entanto, a sua vontade de se aproximar e de conhecer melhor os humanos crescia de dia para dia, enquanto à sua volta o tempo parava no frio e na penumbra.
Lembrava os gestos e os ritos, as canções das crianças, o trabalho dos lenhadores. Imaginava-se um deles, a viver numa casa, vizinho da menina. Pensava: "se os observar bem, serei capaz de os imitar, poderei ser como eles."
E suspirava no seu abrigo escuro, entre os ramos de um abeto frondoso.
Mas eis que um dia toda a aldeia se iluminou. Atraído pela luz, o troll aproximou-se das casas e viu como em cada sala havia pinheiros decorados com mil velas, maçãs vermelhas e biscoitos. Viu que as pessoas se sentavam à mesa festiva, envergando as suas melhores roupas. E depois viu, que estranho!, como vestiam os casacos mais quentes, saíam para a rua gelada, e se dirigiam todos a uma casa grande na maior praça.
Morto de curiosidade, avançou pelas ruas da aldeia. Sem pensar nas pegadas na neve e na possibilidade de ser visto por alguém, aproximou-se da igreja. A porta estava fechada, mas ouvia os cânticos - que música linda! - e via a luz que saía das janelas altas.
Bem queria perceber o que faziam as pessoas ali dentro, chegar mais perto!
Um pinheiro que crescia junto à igreja deu-lhe uma ideia: podia subir pelos ramos, chegar a uma janela, espreitar. E assim fez. A neve que se soltava da árvore toldava-lhe a vista e dificultava os seus movimentos, mas conseguiu empoleirar-se num ramo precário, mesmo junto aos vidros.
Lá dentro as pessoas cantavam de novo, as velas enchiam a sala de uma luz quente. Com os olhos muito abertos, ávido de tudo, foi chegando o rosto cada vez mais à janela.
De súbito, o interior da igreja toldou-se. O seu bafo quente tinha congelado na superfície do vidro, impedindo-lhe a vista. Impaciente, raspou o gelo com a unha. Rzzzz, rzzzzz, rzzzz... e depois: plim!
Desequilibrara-se, tentara agarrar-se à janela, e na precipitação partira o vidro.
Todos os rostos se voltaram para ele, e ele pôde ver o medo estampado nos olhos.
O padre correu para a porta, abriu-a, gritou para a escuridão: "Quem está aí? Que quer de nós?"
O troll desceu lentamente da árvore, aproximou-se da entrada, e gagejou: "Sou eu... queria... queria aprender... eu... eu quero tornar-me um ser humano..."
O padre escancarou a porta e fez um largo sorriso: "Ah, então entra, entra! É esse o desejo de todos os que aqui estão!"
24 dezembro 2007
para o tempo de Natal (1)
Traduzo uma passagem do diário de Ruth Andreas-Friedrich, que fazia parte de um grupo da Resistência, chamado "Onkel Emil".
Um pouco de contexto: Moltke está na prisão por suspeita de participação no atentado organizado por Stauffenberg, e a sua mulher visita o grupo para tentarem evitar o julgamento.
O diário foi escrito durante a guerra: Por motivos de segurança todos tinham nomes falsos. Andrik é Leo Borchard, o maestro titular da orquestra filarmónica de Berlim, que foi afastado por não mostrar a necessária lealdade ao regime.
Berlim. Sábado, 6.Janeiro 1945
Às nove, amanhã às nove! O processo foi adiado um dia. Um prazo de 24 horas. Se não houver entretanto nenhum alarme e se os comboios não tiverem um atraso infinito, Hinrichs vai conseguir.
Ainda nesta noite Freya Moltke vem visitar-nos, e fazemos um longo serão. Falamos do que é próximo e do que é distante. Do fugaz e do eterno. A sirene uiva. Juntos vamos para a cave. Juntos regressamos ao apartamento. Os nossos pensamentos estão muito longe da guerra e do alarme.
"É preciso levar a centelha para além do tempo", diz Freya von Moltke. "Se formos portadores da centelha, tudo ganha um sentido. A vida e a morte. Sim, também a morte. Tenho pensado muito nisso. Talvez resida aí o mistério do dilúvio e dos sábios do Oriente." - Andrik acena com a cabeça. "Eles salvam a arca do dilúvio, e levam o ouro através do deserto. Os sábios da antiga cultura para a criança da nova cultura. Ouro, incenso e mirra. Os tesouros mais preciosos do seu povo." - Os seus olhos cheios de seriedade procuram os de Andrik. "Sim, os mais valiosos. A magia do gótico e a riqueza de Hölderin. Bach e Mozart, Dürer e Goethe. É uma benção poder ser portador da centelha. É um dever sagrado. Queremos sentir esse dever. Algum dia - no fim do deserto - à nossa espera está - a criança!"
Cala-se. Os olhos claros parecem estrelas no seu rosto.
Boas Festas para todos, com os votos de que possam encontrar - com alegria - essa centelha que vale a pena transportar através do tempo.
Um pouco de contexto: Moltke está na prisão por suspeita de participação no atentado organizado por Stauffenberg, e a sua mulher visita o grupo para tentarem evitar o julgamento.
O diário foi escrito durante a guerra: Por motivos de segurança todos tinham nomes falsos. Andrik é Leo Borchard, o maestro titular da orquestra filarmónica de Berlim, que foi afastado por não mostrar a necessária lealdade ao regime.
Berlim. Sábado, 6.Janeiro 1945
Às nove, amanhã às nove! O processo foi adiado um dia. Um prazo de 24 horas. Se não houver entretanto nenhum alarme e se os comboios não tiverem um atraso infinito, Hinrichs vai conseguir.
Ainda nesta noite Freya Moltke vem visitar-nos, e fazemos um longo serão. Falamos do que é próximo e do que é distante. Do fugaz e do eterno. A sirene uiva. Juntos vamos para a cave. Juntos regressamos ao apartamento. Os nossos pensamentos estão muito longe da guerra e do alarme.
"É preciso levar a centelha para além do tempo", diz Freya von Moltke. "Se formos portadores da centelha, tudo ganha um sentido. A vida e a morte. Sim, também a morte. Tenho pensado muito nisso. Talvez resida aí o mistério do dilúvio e dos sábios do Oriente." - Andrik acena com a cabeça. "Eles salvam a arca do dilúvio, e levam o ouro através do deserto. Os sábios da antiga cultura para a criança da nova cultura. Ouro, incenso e mirra. Os tesouros mais preciosos do seu povo." - Os seus olhos cheios de seriedade procuram os de Andrik. "Sim, os mais valiosos. A magia do gótico e a riqueza de Hölderin. Bach e Mozart, Dürer e Goethe. É uma benção poder ser portador da centelha. É um dever sagrado. Queremos sentir esse dever. Algum dia - no fim do deserto - à nossa espera está - a criança!"
Cala-se. Os olhos claros parecem estrelas no seu rosto.
Boas Festas para todos, com os votos de que possam encontrar - com alegria - essa centelha que vale a pena transportar através do tempo.
23 dezembro 2007
"Feliz natal"? Isso era nos bons velhos tempos...
Nos tempos que correm, é bem diferente.
Recebi de um amigo, e trespasso:
Dear friends,
On my last working day this year I would simply like to wish you a Merry Xmas and a Happy New Year.
But in a time of political correctness, globalization, US GAAP rules and disclaimers, where it is so difficult to know exactly what to say without offending someone, and after careful consultation with my lawyer, here's my final version of the season's greetings:
Please accept with no obligation, implied or implicit, my best wishes for an environmentally conscious, socially responsible, low stress, non addictive, gender neutral celebration of the winter solstice holiday, practiced with the most enjoyable traditions of religious persuasion or secular practices of your choice with respect for the religious/secular persuasions and/or traditions of others, or their choice not to practice religious or secular traditions at all.
I also wish you a fiscally successful, personally fulfilling and medically uncomplicated recognition of the onset of the generally accepted calendar year 2007, but not without due respect for the calendars of choice of other cultures whose contributions to society have helped make your country great (not to imply that your country is necessarily greater than any other country) and without regard to the race, creed, colour, age, physical ability, religious faith or sexual preference of the wishee.
By accepting this greeting, you are accepting these terms:
This greeting is subject to clarification or withdrawal. It is freely transferable with no alteration to the original greeting. It implies no promise by the wisher to actually implement any of the wishes for her/himself or others and is void where prohibited by law, and is revocable at the sole discretion of the wisher. This wish is warranted to perform as expected within the usual application of good tidings for a period of one year or until the issuance of a subsequent holiday greeting, whichever comes first, and warranty is limited to replacement of this wish or issuance of a new wish at the sole discretion of the wisher.
Disclaimer: No trees were harmed in the sending of this message; however, a significant number of electrons were slightly inconvenienced.
Recebi de um amigo, e trespasso:
Dear friends,
On my last working day this year I would simply like to wish you a Merry Xmas and a Happy New Year.
But in a time of political correctness, globalization, US GAAP rules and disclaimers, where it is so difficult to know exactly what to say without offending someone, and after careful consultation with my lawyer, here's my final version of the season's greetings:
Please accept with no obligation, implied or implicit, my best wishes for an environmentally conscious, socially responsible, low stress, non addictive, gender neutral celebration of the winter solstice holiday, practiced with the most enjoyable traditions of religious persuasion or secular practices of your choice with respect for the religious/secular persuasions and/or traditions of others, or their choice not to practice religious or secular traditions at all.
I also wish you a fiscally successful, personally fulfilling and medically uncomplicated recognition of the onset of the generally accepted calendar year 2007, but not without due respect for the calendars of choice of other cultures whose contributions to society have helped make your country great (not to imply that your country is necessarily greater than any other country) and without regard to the race, creed, colour, age, physical ability, religious faith or sexual preference of the wishee.
By accepting this greeting, you are accepting these terms:
This greeting is subject to clarification or withdrawal. It is freely transferable with no alteration to the original greeting. It implies no promise by the wisher to actually implement any of the wishes for her/himself or others and is void where prohibited by law, and is revocable at the sole discretion of the wisher. This wish is warranted to perform as expected within the usual application of good tidings for a period of one year or until the issuance of a subsequent holiday greeting, whichever comes first, and warranty is limited to replacement of this wish or issuance of a new wish at the sole discretion of the wisher.
Disclaimer: No trees were harmed in the sending of this message; however, a significant number of electrons were slightly inconvenienced.
22 dezembro 2007
Feliz Natal!
2008 seja a Esperança renovada num Mundo mais Justo e Pacífico.
* Saúde * Paz * Alegria *
21 dezembro 2007
19 dezembro 2007
arte e fé
Lutz,
ia comentar este teu post, mas ficou um texto demasiado longo, e por isso comento aqui.
Aviso já que pouco percebo de arte e do mundo em que nasce e se desenvolve. Sei um pouco de compadrios, de protecções, de padrinhos. Quanto às obras, quando muito sei se gosto ou se não gosto. Facilmente me podem demonstrar que gosto de pirosices monumentais, ou que nem me apercebi que estava perante obras fundamentais da Humanidade.
Também não percebo a afirmação, que já ouvi várias vezes, de que o cristianismo deixou de produzir arte. Conheço belíssimos poemas do nosso tempo, vejo nas igrejas e nos livros boa arte sacra moderna.
Mas - lá está, pouco percebo disso - os especialistas podem sempre afirmar que isso que eu vejo nas igrejas e aprecio não é bem arte, é mais artes decorativas para beatas.
Aliás, ando há meses para te perguntar o que há de errado com a nova igreja de Fátima. Gostei do que vi nestas fotografias.
Talvez se pudesse ter optado por arte menos descritiva (e por ser mais descritiva é menos arte?), mas penso nos clientes que pagaram essa obra e nas suas expectativas. Até que ponto é que o artista é de facto independente do cliente ou do mecenas?
No teu post, tive dificuldade em entender a frase que citaste de Milliner, e por isso pesquisei o seu contexto. Encontrei-o aqui:
"Contemporary art refuses any set form, content, or medium--but it does, nonetheless, insist on one sure commandment: Religion has to go. The Art Institute of Chicago's James Elkins lays down this law in his book On the Strange Place of Religion in Contemporary Art. The art world, he says, "can accept a wide range of 'religious' art by people who hate religion, by people who are deeply uncertain about it, by the disgruntled and the disaffected and the skeptical, but there is no place for artists who express straightforward, ordinarily religious faith."
Indeed, Elkins writes: "To fit in the art world, work with a religious theme has to fulfill several criteria. It has to demonstrate the artist has second thoughts about religion.... Ambiguity and serf-critique have to be integral to the work. And it follows that irony must pervade the art, must be the air it breathes." It is a given, of course, that such irony cannot extend to the rejection-of-religion rule: "Committed, engaged, ambitious, informed art does not mix with dedicated, serious, thoughtful, heartfelt religion."
Percebi bem? Não será propriamente uma questão de a Fé conseguir ou não produzir obras de arte, mas um caso de mobbing no mundo dos artistas.
Fui procurar mais. E encontrei Dali e Warhol. Ainda Milliner:
None of this is to suggest that Warhol was another “Beato Angelico” any more than was Dalí, but simply to assert that both artists were seriously, un-ironically Catholic. What is truly remarkable, however, is not that God meets celebrity artists–but that the ravages of fame leave enough of their selves to be met.
Though the Dalí illustrations now on view are not on the scale of Warhol’s Last Supper, both series are hard material evidence to counter a cherished illusion. The artist Isamu Noguchi represented a main thrust of twentieth century art when, at a Yale lecture in 1949, he asserted, “Religion dies as dogma, it is reborn as a direct personal expression in the arts.” Dalí and Warhol both tell a different story: Art dies as dogma, it is reborn as a direct personal expression in religion.
(Matthew J. Milliner is a Ph.D. candidate in art history at Princeton University. He blogs at millinerd.com.)
Será que é preciso ser um artista muito famoso para sobreviver profissionalmente a um processo de conversão?
ia comentar este teu post, mas ficou um texto demasiado longo, e por isso comento aqui.
Aviso já que pouco percebo de arte e do mundo em que nasce e se desenvolve. Sei um pouco de compadrios, de protecções, de padrinhos. Quanto às obras, quando muito sei se gosto ou se não gosto. Facilmente me podem demonstrar que gosto de pirosices monumentais, ou que nem me apercebi que estava perante obras fundamentais da Humanidade.
Também não percebo a afirmação, que já ouvi várias vezes, de que o cristianismo deixou de produzir arte. Conheço belíssimos poemas do nosso tempo, vejo nas igrejas e nos livros boa arte sacra moderna.
Mas - lá está, pouco percebo disso - os especialistas podem sempre afirmar que isso que eu vejo nas igrejas e aprecio não é bem arte, é mais artes decorativas para beatas.
Aliás, ando há meses para te perguntar o que há de errado com a nova igreja de Fátima. Gostei do que vi nestas fotografias.
Talvez se pudesse ter optado por arte menos descritiva (e por ser mais descritiva é menos arte?), mas penso nos clientes que pagaram essa obra e nas suas expectativas. Até que ponto é que o artista é de facto independente do cliente ou do mecenas?
No teu post, tive dificuldade em entender a frase que citaste de Milliner, e por isso pesquisei o seu contexto. Encontrei-o aqui:
"Contemporary art refuses any set form, content, or medium--but it does, nonetheless, insist on one sure commandment: Religion has to go. The Art Institute of Chicago's James Elkins lays down this law in his book On the Strange Place of Religion in Contemporary Art. The art world, he says, "can accept a wide range of 'religious' art by people who hate religion, by people who are deeply uncertain about it, by the disgruntled and the disaffected and the skeptical, but there is no place for artists who express straightforward, ordinarily religious faith."
Indeed, Elkins writes: "To fit in the art world, work with a religious theme has to fulfill several criteria. It has to demonstrate the artist has second thoughts about religion.... Ambiguity and serf-critique have to be integral to the work. And it follows that irony must pervade the art, must be the air it breathes." It is a given, of course, that such irony cannot extend to the rejection-of-religion rule: "Committed, engaged, ambitious, informed art does not mix with dedicated, serious, thoughtful, heartfelt religion."
Percebi bem? Não será propriamente uma questão de a Fé conseguir ou não produzir obras de arte, mas um caso de mobbing no mundo dos artistas.
Fui procurar mais. E encontrei Dali e Warhol. Ainda Milliner:
None of this is to suggest that Warhol was another “Beato Angelico” any more than was Dalí, but simply to assert that both artists were seriously, un-ironically Catholic. What is truly remarkable, however, is not that God meets celebrity artists–but that the ravages of fame leave enough of their selves to be met.
Though the Dalí illustrations now on view are not on the scale of Warhol’s Last Supper, both series are hard material evidence to counter a cherished illusion. The artist Isamu Noguchi represented a main thrust of twentieth century art when, at a Yale lecture in 1949, he asserted, “Religion dies as dogma, it is reborn as a direct personal expression in the arts.” Dalí and Warhol both tell a different story: Art dies as dogma, it is reborn as a direct personal expression in religion.
(Matthew J. Milliner is a Ph.D. candidate in art history at Princeton University. He blogs at millinerd.com.)
Será que é preciso ser um artista muito famoso para sobreviver profissionalmente a um processo de conversão?
18 dezembro 2007
as crianças, todas as crianças
Da UNICEF, as fotos do ano 2007.

Um fotógrafo observa crianças em frente à televisão.

No Afeganistão. O noivo tem 40 anos, a noiva tem 11.

"Gosto mais da minha primeira filha, que foi fruto do amor."
A segunda filha é fruto de violações sucessivas.
Vale a pena ver todas as fotografias, e as histórias por trás de cada imagem. Aqui, em inglês. E para quem quiser ganhar algum tempo a abrir o coração ao seu próximo, as fotos dos anos anteriores.

Um fotógrafo observa crianças em frente à televisão.

No Afeganistão. O noivo tem 40 anos, a noiva tem 11.

"Gosto mais da minha primeira filha, que foi fruto do amor."
A segunda filha é fruto de violações sucessivas.
Vale a pena ver todas as fotografias, e as histórias por trás de cada imagem. Aqui, em inglês. E para quem quiser ganhar algum tempo a abrir o coração ao seu próximo, as fotos dos anos anteriores.
13 dezembro 2007
será também culpa do aquecimento global?
Nós a entrar no inverno, e um jardim a encher-se de luz!
A Maria da Conceição regressou. Viva!
(E ainda há dias a Céu andou a arrumar a casa e me disse "não tive coragem de "apagar" o Jardim de Luz" - terá sido premonição?)
A Maria da Conceição regressou. Viva!
(E ainda há dias a Céu andou a arrumar a casa e me disse "não tive coragem de "apagar" o Jardim de Luz" - terá sido premonição?)
11 dezembro 2007
esta cidade vai dar cabo de mim (5)
O carpinteiro veio para consertar as janelas, que estão todas empenadas.
Primeiro contou-as: 89.
Como é que eu vou limpar 89 janelas?!!!
Ou como é que eu vou pagar a quem me limpe 89 janelas?!!!
***
Procura-se: T4, até 10 janelas, em Berlim, de preferência central.
Pensando bem, não se procura nada. Primeiro tenho de decidir se prefiro lavar janelas ou, plano B, mudar de casa sempre que os vidros começarem a passar de transparentes a translúcidos.
(Não pensem que moro no Schloß Charlottenburg. É o modo como eles contam. Por exemplo: a janela do meu escritório conta como 12, porque tem 3 batentes em baixo, 3 - mais pequenas - em cima, e outras tantas do lado de fora. Espero que me entendam, que nem eu própria...)
Primeiro contou-as: 89.
Como é que eu vou limpar 89 janelas?!!!
Ou como é que eu vou pagar a quem me limpe 89 janelas?!!!
***
Procura-se: T4, até 10 janelas, em Berlim, de preferência central.
Pensando bem, não se procura nada. Primeiro tenho de decidir se prefiro lavar janelas ou, plano B, mudar de casa sempre que os vidros começarem a passar de transparentes a translúcidos.
(Não pensem que moro no Schloß Charlottenburg. É o modo como eles contam. Por exemplo: a janela do meu escritório conta como 12, porque tem 3 batentes em baixo, 3 - mais pequenas - em cima, e outras tantas do lado de fora. Espero que me entendam, que nem eu própria...)
10 dezembro 2007
esta cidade vai dar cabo de mim (4)
As pessoas têm cães nos apartamentos, trazem os bichos à rua para eles se aliviarem, e deixam o alívio no passeio.
Em Outubro e Novembro, quando nevava ouro e o chão se cobria com todas as cores de Outono, a cidade ficou como que encantada - e nós avançávamos sobre terreno minado.
Ao fim de uma semana e três pares de solas para limpar, estava capaz de aprovar uma lei que obrigasse o pessoal a pagar 100 euros por cada flagrante no passeio, contra apreensão do canídio e transformação do dito em salsichas. Mas depois reconsiderei, que não é correcto matar os bichinhos por vingança, tanto mais que eles não têm culpa, que esta é toda dos donos que os sujeitam a uma tal vida de cão. Além disso são cães de colo, era preciso pelo menos três para fazer uma salsicha. Não era eticamente viável, do ponto de vista do aquecimento global.
Dezembro: já limparam as folhas, já podemos ver por onde andamos.
Menos mal.
O problema agora são as lojas: tantas, tão variadas, tão bonitas - e nem falo do que vendem, falo das lojas em si.
Ando pelas ruas com um olho nas lojas e outro no passeio, e por este andar ainda fico estrábica.
***
Hoje fui levar o Joachim ao aeroporto, era ainda noite (sim, amor é... levá-lo ao aeroporto às 5 da manhã, mesmo se a empresa paga o táxi), não deu para examinar o passeio. E vai o quarto par de solas. Estou a ficar uma especialista de m...
(Nunca mais compro sapatos ECCO, aquele exagero de ranhuras nas solas é uma complicação)
***
PS: Não acreditem no título deste post, e de todos os outros desta série. Estou a gostar imenso de viver aqui.
Em Outubro e Novembro, quando nevava ouro e o chão se cobria com todas as cores de Outono, a cidade ficou como que encantada - e nós avançávamos sobre terreno minado.
Ao fim de uma semana e três pares de solas para limpar, estava capaz de aprovar uma lei que obrigasse o pessoal a pagar 100 euros por cada flagrante no passeio, contra apreensão do canídio e transformação do dito em salsichas. Mas depois reconsiderei, que não é correcto matar os bichinhos por vingança, tanto mais que eles não têm culpa, que esta é toda dos donos que os sujeitam a uma tal vida de cão. Além disso são cães de colo, era preciso pelo menos três para fazer uma salsicha. Não era eticamente viável, do ponto de vista do aquecimento global.
Dezembro: já limparam as folhas, já podemos ver por onde andamos.
Menos mal.
O problema agora são as lojas: tantas, tão variadas, tão bonitas - e nem falo do que vendem, falo das lojas em si.
Ando pelas ruas com um olho nas lojas e outro no passeio, e por este andar ainda fico estrábica.
***
Hoje fui levar o Joachim ao aeroporto, era ainda noite (sim, amor é... levá-lo ao aeroporto às 5 da manhã, mesmo se a empresa paga o táxi), não deu para examinar o passeio. E vai o quarto par de solas. Estou a ficar uma especialista de m...
(Nunca mais compro sapatos ECCO, aquele exagero de ranhuras nas solas é uma complicação)
***
PS: Não acreditem no título deste post, e de todos os outros desta série. Estou a gostar imenso de viver aqui.
09 dezembro 2007
explicação breve
(para a Rita)
Em cinco segundos:
O Tiago Mendes virou-se para o André Azevedo Alves e disse-lhe assim:
por qué no te callas?
Mas como não é rei, lixou-se.
Em cinco segundos:
O Tiago Mendes virou-se para o André Azevedo Alves e disse-lhe assim:
por qué no te callas?
Mas como não é rei, lixou-se.
esta cidade vai dar cabo de mim (3)
Vejo-as às vezes nas escadas do meu prédio, saem e chegam em grupo, duas ou três raparigas, pelos 20 anos, muito giras e com ar desenrascado. São morenas, e imagino uma família do sul da Europa, uma ranchada de filhos.
Afinal parece que não é família, é mais empresa. O encarregado alugou o apartamento, elas moram lá e saem pela cidade em carros de luxo sempre diferentes.
Quando eu dizia que estava fascinada com a localização desta casa, e de encontrar tudo tão perto, não imaginava que era mesmo tudo e era mesmo tão perto...
Afinal parece que não é família, é mais empresa. O encarregado alugou o apartamento, elas moram lá e saem pela cidade em carros de luxo sempre diferentes.
Quando eu dizia que estava fascinada com a localização desta casa, e de encontrar tudo tão perto, não imaginava que era mesmo tudo e era mesmo tão perto...
07 dezembro 2007
se fizerem referendo, voto sim
Isto é um post emprestado do Linha dos Nodos, que por sua vez o emprestou do Nascer do Sol, que as boas ideias são para divulgar:
"Apoio
Seria assim tão absurdo a RTP 1 ter um pequeno bloco de poesia, depois do telejornal e antes da novela, sei lá, de 5 minutinhos, em que se lia um poeminha bem lido de autores portugueses, lido por actores e declamadores portugueses?
Lido n'O Nascer do Sol.
E acrescento: na 1, e não na 2."
"Apoio
Seria assim tão absurdo a RTP 1 ter um pequeno bloco de poesia, depois do telejornal e antes da novela, sei lá, de 5 minutinhos, em que se lia um poeminha bem lido de autores portugueses, lido por actores e declamadores portugueses?
Lido n'O Nascer do Sol.
E acrescento: na 1, e não na 2."
adenda, para maiores de 18 anos
Encontrei o vídeo de apresentação da Flauta Mágica na versão Neuenfels.
O caminho das pedras é assim (infelizmente não encontrei um link directo):
entra-se aqui, escolhe-se na barra da esquerda "Spielplan", procura-se o dia 10.12 (Die Zauberflöte), e aí carrega-se em "Video".
E agora vou procurar uma Zauberflöte para crianças, que esta é ligeiramente arrojada para um miúdo de 11 anos acompanhado pela avó.
O caminho das pedras é assim (infelizmente não encontrei um link directo):
entra-se aqui, escolhe-se na barra da esquerda "Spielplan", procura-se o dia 10.12 (Die Zauberflöte), e aí carrega-se em "Video".
E agora vou procurar uma Zauberflöte para crianças, que esta é ligeiramente arrojada para um miúdo de 11 anos acompanhado pela avó.
06 dezembro 2007
esta cidade vai dar cabo de mim (2)
Os miúdos queixam-se que são os únicos alemães do mundo inteiro que ainda não viram a Flauta Mágica. Os únicos não serão, mas é verdade que tenho negligenciado esse aspecto.
De modo que quando vi que a Flauta Mágica está na Komische Oper de Berlim fui logo informar-me sobre os bilhetes.
Neuenfels, lembram-se de Neunfels? O encenador do Idomeneo que provocou uma grande discussão no ano passado? Pois é, encenou agora esta Flauta Mágica, interpretou-a à sua maneira. Desta vez não corta cabeça nenhuma, mas ia-me dando um fanico.
Então ia ser assim: ia comprar os bilhetes, ia levar os filhinhos todos contentes a ver uma ópera de Mozart, como é tradição do Advento e, para quê? Para vermos que a flauta mágica é um pénis, os sinos são testículos. Símbolos da fertilidade, pois claro, e por aí vai.
Mas eu queria a magia de Mozart, e não a de Freud.
De modo que quando vi que a Flauta Mágica está na Komische Oper de Berlim fui logo informar-me sobre os bilhetes.
Neuenfels, lembram-se de Neunfels? O encenador do Idomeneo que provocou uma grande discussão no ano passado? Pois é, encenou agora esta Flauta Mágica, interpretou-a à sua maneira. Desta vez não corta cabeça nenhuma, mas ia-me dando um fanico.
Então ia ser assim: ia comprar os bilhetes, ia levar os filhinhos todos contentes a ver uma ópera de Mozart, como é tradição do Advento e, para quê? Para vermos que a flauta mágica é um pénis, os sinos são testículos. Símbolos da fertilidade, pois claro, e por aí vai.
Mas eu queria a magia de Mozart, e não a de Freud.
05 dezembro 2007
pequeno contributo para resolver o problema do défice português
Não leio o Portugal Contemporâneo, como não leio o Blasfémias, como não leio as mensagens spam que recebo frequentemente a propor-me aumentar o tamanho do meu pénis - e sempre pela mesma razão: não me adiantam nada à minha vida.
(Mas guardei aquela mensagem spam que me prometia sexo ininterrupto durante 36 horas; só estou à espera que me mandem outra a anunciar o produto para pôr depois nas pústulas...)
Hoje passeei pelo Arrastão, e encontrei lá um texto hilariante (como quase sempre) do Pedro Arroja. Se bem percebi, os preconceitos contra os homossexuais serão um saber de experiência feito, derivados da lógica inerente ao processo de sobrevivência da espécie humana.
Ora bem, insultos é que não. Se o Pedro Arroja se entende como mero cadáver adiado que procria, é lá com ele.
Mas nada de generalizações, ó se faz favor.
***
Bem sei que passo a vida a fazer propostas que não interessam a ninguém, mas é mais forte que eu, e por isso cá vai mais uma: se um português frequenta uma universidade portuguesa (ensino gratuito para ele mas bastante caro para o país) e, concluído o curso universitário, ainda é capaz de fazer a apologia do preconceito como conjunto de valiosos conhecimentos adquiridos e filtrados pelas gerações anteriores, isto não é um caso para o obrigar a devolver ao Estado o dinheiro que custou?
É como dizia a Susaninha: "andou na universidade, e nada".
(Mas guardei aquela mensagem spam que me prometia sexo ininterrupto durante 36 horas; só estou à espera que me mandem outra a anunciar o produto para pôr depois nas pústulas...)
Hoje passeei pelo Arrastão, e encontrei lá um texto hilariante (como quase sempre) do Pedro Arroja. Se bem percebi, os preconceitos contra os homossexuais serão um saber de experiência feito, derivados da lógica inerente ao processo de sobrevivência da espécie humana.
Ora bem, insultos é que não. Se o Pedro Arroja se entende como mero cadáver adiado que procria, é lá com ele.
Mas nada de generalizações, ó se faz favor.
***
Bem sei que passo a vida a fazer propostas que não interessam a ninguém, mas é mais forte que eu, e por isso cá vai mais uma: se um português frequenta uma universidade portuguesa (ensino gratuito para ele mas bastante caro para o país) e, concluído o curso universitário, ainda é capaz de fazer a apologia do preconceito como conjunto de valiosos conhecimentos adquiridos e filtrados pelas gerações anteriores, isto não é um caso para o obrigar a devolver ao Estado o dinheiro que custou?
É como dizia a Susaninha: "andou na universidade, e nada".
esta cidade vai dar cabo de mim
Comprei um programa cultural para a primeira quinzena de Dezembro, e tem 218 páginas.
04 dezembro 2007
fronteiras, culturas, direitos humanos
O "2 dedos de conversa" feito pelos seus leitores (o que eu esperei por este dia...):
Na caixa de comentários do post anterior a Gabriela ofereceu-me um link sobre uma organização que ajuda mulheres muçulmanas a fugir à sua própria família, aqui.
Lembrei que no caso relatado, em que rapazes (de Berlim) matam a sua própria irmã, um dos argumentos usados foi ela "viver como essas putas alemãs": roupa, emprego, divórcio.
Como é possível aceitar nesta sociedade grupos cuja identificação ocorre por oposição aos nossos valores mais básicos, pessoas que vivem aqui e não escondem o seu profundo desprezo?
Pessoas que fazem questão de não aceitar regras fundamentais da sociedade alemã podem permanecer aqui ou devem/podem ser repatriadas?
A Rita responde:
Acho que a questão do repatriamento é falsa. O que nos interessa não é criar ilhas de respeito pleno pelos direitos humanos mas estende-los sempre e sempre. O que interessa não é dizer "não podes fazer isso aqui" mas dizer "não podes fazer isso". Repatriá-los para mim só reforça o conceito de fronteira. E não acho que a defesa dos Direitos Humanos deva passar por aí...nem por aí nem pelo "nós e eles".
Deixo o conceito de fronteira para outro dia.
Quanto ao "não podes fazer isso": estava a imaginar uma teoria do dominó dos direitos humanos ao contrário, ou seja, quem quiser viver na Europa também tem de aceitar certas regras básicas do jogo. Não podemos invadir outras sociedades/culturas para lhes impor estas regras, mas podemos exigir o seu respeito quando jogamos em casa.
Simultaneamente, penso que a cultura e a tradição desses outros países não são estáticos. Também lá há mulheres que se querem emancipar e que o conseguem com maior ou menor custo. Mas esse é um processo sobretudo endógeno, e é bom que seja assim, em vez de ser imposto pelo exterior.
Parece-me que este fundamentalismo moral e esta obsessão pelas tradições são mais acentuados em algumas familias de imigrantes na Europa do que no seu país de origem. Por um lado, talvez se trate de uma reacção a esta sociedade ou de um fenómeno de identificação numa hierarquia social onde ocupam o lugar mais baixo; por outro lado, o exagero deve-se com certeza à ausência de toda uma rede social que existe no país de origem e atenua os totalitarismos do núcleo familiar.
Concretamente: quando importam noivas, adolescentes que nem alemão sabem falar, para que os rapazes casem com "mulheres decentes", investem estas desgraçadas de uma função redentora, e simultaneamente desterram-nas para longe da sua própria família e da sua verdadeira cultura. Vestais de apartamento, longe do mundo - de todos os mundos - em nome da pureza.
Se estas noivas casassem na terra delas, duvido que vivessem numa situação tão desesperada de solidão e total alienação.
Esticando um pouco o argumento, poderíamos imaginar que se estes homens, tão afeiçoados à tradição, fossem obrigados a viver no país de origem da sua família, perceberiam que a tal tradição só existe na sua cabeça.
O problema é, como diz a Gabriela, que não faz sentido enviá-los para um país que nunca foi o seu.
Fazer o quê, então?
Ontem, um professor contou-me de uma turma onde mais de metade dos alunos vem de famílias de emigrantes com baixo nível educacional. Situação cada vez mais normal na Alemanha, sobretudo nas escolas primárias. Dizia ele que os miúdos não têm quem os ajude a fazer os trabalhos para a escola, nem dormem o suficiente, nem têm o material escolar necessário, nem levam para a escola um pequeno-almoço normal. E que muitos deles têm óptimas capacidades, mas por falta de ajuda ficarão muito aquém do que poderiam atingir. Defende que o Estado intervenha: que as crianças fiquem o dia todo na escola, com professores suficientes para que cada uma delas receba a ajuda de que precisa, com comida saudável, etc.
Um Estado violento, que tira as crianças à influência dos pais para as reeducar?!
Não serão só alguns muçulmanos a reagir...
***
Uma vez falaram-me das diferenças entre a política de imigração brasileira e a dos Estados Unidos. O que se segue é sabedoria de ouvido, mas achei interessante.
Os EUA aceitam a entrada das pessoas por grupos. Nem sequer exigem que aprendam a falar inglês. As Chinatown, por exemplo, estão cheias de gente cuja família vive há cinco gerações nos EUA, e continuam a falar melhor chinês que inglês.
O Brasil exige que todos se tornem brasileiros. Houve uma altura em que os japoneses queriam ficar entre si e evitar misturas, e o governo pura e simplesmente fechou as fronteiras aos japoneses. Até que estes cederam, e se abriram à integração.
O resultado está à vista: african-americans, asian-americans, native-americans, latin-americans e sei lá que mais de um lado, e brasileiros do outro.
Na caixa de comentários do post anterior a Gabriela ofereceu-me um link sobre uma organização que ajuda mulheres muçulmanas a fugir à sua própria família, aqui.
Lembrei que no caso relatado, em que rapazes (de Berlim) matam a sua própria irmã, um dos argumentos usados foi ela "viver como essas putas alemãs": roupa, emprego, divórcio.
Como é possível aceitar nesta sociedade grupos cuja identificação ocorre por oposição aos nossos valores mais básicos, pessoas que vivem aqui e não escondem o seu profundo desprezo?
Pessoas que fazem questão de não aceitar regras fundamentais da sociedade alemã podem permanecer aqui ou devem/podem ser repatriadas?
A Rita responde:
Acho que a questão do repatriamento é falsa. O que nos interessa não é criar ilhas de respeito pleno pelos direitos humanos mas estende-los sempre e sempre. O que interessa não é dizer "não podes fazer isso aqui" mas dizer "não podes fazer isso". Repatriá-los para mim só reforça o conceito de fronteira. E não acho que a defesa dos Direitos Humanos deva passar por aí...nem por aí nem pelo "nós e eles".
Deixo o conceito de fronteira para outro dia.
Quanto ao "não podes fazer isso": estava a imaginar uma teoria do dominó dos direitos humanos ao contrário, ou seja, quem quiser viver na Europa também tem de aceitar certas regras básicas do jogo. Não podemos invadir outras sociedades/culturas para lhes impor estas regras, mas podemos exigir o seu respeito quando jogamos em casa.
Simultaneamente, penso que a cultura e a tradição desses outros países não são estáticos. Também lá há mulheres que se querem emancipar e que o conseguem com maior ou menor custo. Mas esse é um processo sobretudo endógeno, e é bom que seja assim, em vez de ser imposto pelo exterior.
Parece-me que este fundamentalismo moral e esta obsessão pelas tradições são mais acentuados em algumas familias de imigrantes na Europa do que no seu país de origem. Por um lado, talvez se trate de uma reacção a esta sociedade ou de um fenómeno de identificação numa hierarquia social onde ocupam o lugar mais baixo; por outro lado, o exagero deve-se com certeza à ausência de toda uma rede social que existe no país de origem e atenua os totalitarismos do núcleo familiar.
Concretamente: quando importam noivas, adolescentes que nem alemão sabem falar, para que os rapazes casem com "mulheres decentes", investem estas desgraçadas de uma função redentora, e simultaneamente desterram-nas para longe da sua própria família e da sua verdadeira cultura. Vestais de apartamento, longe do mundo - de todos os mundos - em nome da pureza.
Se estas noivas casassem na terra delas, duvido que vivessem numa situação tão desesperada de solidão e total alienação.
Esticando um pouco o argumento, poderíamos imaginar que se estes homens, tão afeiçoados à tradição, fossem obrigados a viver no país de origem da sua família, perceberiam que a tal tradição só existe na sua cabeça.
O problema é, como diz a Gabriela, que não faz sentido enviá-los para um país que nunca foi o seu.
Fazer o quê, então?
Ontem, um professor contou-me de uma turma onde mais de metade dos alunos vem de famílias de emigrantes com baixo nível educacional. Situação cada vez mais normal na Alemanha, sobretudo nas escolas primárias. Dizia ele que os miúdos não têm quem os ajude a fazer os trabalhos para a escola, nem dormem o suficiente, nem têm o material escolar necessário, nem levam para a escola um pequeno-almoço normal. E que muitos deles têm óptimas capacidades, mas por falta de ajuda ficarão muito aquém do que poderiam atingir. Defende que o Estado intervenha: que as crianças fiquem o dia todo na escola, com professores suficientes para que cada uma delas receba a ajuda de que precisa, com comida saudável, etc.
Um Estado violento, que tira as crianças à influência dos pais para as reeducar?!
Não serão só alguns muçulmanos a reagir...
***
Uma vez falaram-me das diferenças entre a política de imigração brasileira e a dos Estados Unidos. O que se segue é sabedoria de ouvido, mas achei interessante.
Os EUA aceitam a entrada das pessoas por grupos. Nem sequer exigem que aprendam a falar inglês. As Chinatown, por exemplo, estão cheias de gente cuja família vive há cinco gerações nos EUA, e continuam a falar melhor chinês que inglês.
O Brasil exige que todos se tornem brasileiros. Houve uma altura em que os japoneses queriam ficar entre si e evitar misturas, e o governo pura e simplesmente fechou as fronteiras aos japoneses. Até que estes cederam, e se abriram à integração.
O resultado está à vista: african-americans, asian-americans, native-americans, latin-americans e sei lá que mais de um lado, e brasileiros do outro.
03 dezembro 2007
humores
Quase nunca gosto do estilo e do conteúdo do Arrastão. Muitas vezes lhe achei um humor demasiado fácil e panfletário.
Mas, desta vez, o Daniel superou-se em excelência.
Finalmente alguém que reflecte sobre o politicamente correcto sem se fechar nos paradigmas.
Razão tinha o Padre Américo ao dizer que "não há rapazes maus"...
***
Apesar de o ter lido com muito gosto, o post do Daniel Oliveira deixa-me por vezes perplexa.
Por exemplo: aquela ideia de que o humor corajoso é um humor que se atreve a atingir as maiorias - como a Igreja Católica. Tivesse ele dito "os fundamentalistas islâmicos", ainda vá, mas... a Igreja Católica?
Talvez eu seja uma hipersensível, mas parece-me que a Igreja Católica é um permanente bombo da festa. Mais: que muitos se especializaram em interpretar da pior maneira o que alguém da Igreja Católica diz, para poder rir ainda mais. Também é verdade que alguns católicos facilitam muito este jogo...
O que eu não sabia é que, pelos vistos, a Igreja Católica em Portugal é um monstro que impede a liberdade de expressão e aterroriza as pessoas.
Fazer uma piada contra a Igreja Católica é um acto de coragem?! Quantas pessoas em Portugal têm sido realmente perseguidas e castigadas pela Igreja Católica devido às piadas que fazem? Estamos perante um estado sombra totalitário?!
Aquela distinção da normalidade na intimidade também tem os seus limites. Obviamente, todos estamos mais atentos ao que dizemos em público, do que ao que dizemos em casa (enfim, pelo menos os que não têm filhos). Em casa ou entre amigos, permito-me pensar em rascunho, procurar em diálogo com outros uma maneira de entender o mundo. Mas, mesmo em rascunho, há limites que não quero ultrapassar - como contar anedotas que estigmatizam os homossexuais (diferentes das anedotas em que a condição de gay é aceite como normalidade), anedotas de pretos, piadas sobre a fome em África ou sobre a vida dos judeus em Auschwitz.
O que me impede de contar essas anedotas não é apenas uma questão de sensibilidade e de compaixão pelas vítimas ou a sua memória, mas o saber que este humor não é neutro nem inócuo. Se há tensões entre os grupos, contar anedotas contra um deles é também uma forma de se posicionar e de reforçar os clichés.
O Daniel diz que "ainda é cedo", o que faz sentido.
Mas, pergunto eu: agora, que as fogueiras da inquisição já se apagaram há centenas de anos, alguém tem vontade de fazer piadas sobre esses churrasquinhos?
Ou será que ninguém precisa de fazer piadas sobre isso porque as tensões daquela época já se dissiparam?
(excluindo, claro está, alguns anacrónicos que acham que os judeus mereceram a fogueira)
Mas, desta vez, o Daniel superou-se em excelência.
Finalmente alguém que reflecte sobre o politicamente correcto sem se fechar nos paradigmas.
Razão tinha o Padre Américo ao dizer que "não há rapazes maus"...
***
Apesar de o ter lido com muito gosto, o post do Daniel Oliveira deixa-me por vezes perplexa.
Por exemplo: aquela ideia de que o humor corajoso é um humor que se atreve a atingir as maiorias - como a Igreja Católica. Tivesse ele dito "os fundamentalistas islâmicos", ainda vá, mas... a Igreja Católica?
Talvez eu seja uma hipersensível, mas parece-me que a Igreja Católica é um permanente bombo da festa. Mais: que muitos se especializaram em interpretar da pior maneira o que alguém da Igreja Católica diz, para poder rir ainda mais. Também é verdade que alguns católicos facilitam muito este jogo...
O que eu não sabia é que, pelos vistos, a Igreja Católica em Portugal é um monstro que impede a liberdade de expressão e aterroriza as pessoas.
Fazer uma piada contra a Igreja Católica é um acto de coragem?! Quantas pessoas em Portugal têm sido realmente perseguidas e castigadas pela Igreja Católica devido às piadas que fazem? Estamos perante um estado sombra totalitário?!
Aquela distinção da normalidade na intimidade também tem os seus limites. Obviamente, todos estamos mais atentos ao que dizemos em público, do que ao que dizemos em casa (enfim, pelo menos os que não têm filhos). Em casa ou entre amigos, permito-me pensar em rascunho, procurar em diálogo com outros uma maneira de entender o mundo. Mas, mesmo em rascunho, há limites que não quero ultrapassar - como contar anedotas que estigmatizam os homossexuais (diferentes das anedotas em que a condição de gay é aceite como normalidade), anedotas de pretos, piadas sobre a fome em África ou sobre a vida dos judeus em Auschwitz.
O que me impede de contar essas anedotas não é apenas uma questão de sensibilidade e de compaixão pelas vítimas ou a sua memória, mas o saber que este humor não é neutro nem inócuo. Se há tensões entre os grupos, contar anedotas contra um deles é também uma forma de se posicionar e de reforçar os clichés.
O Daniel diz que "ainda é cedo", o que faz sentido.
Mas, pergunto eu: agora, que as fogueiras da inquisição já se apagaram há centenas de anos, alguém tem vontade de fazer piadas sobre esses churrasquinhos?
Ou será que ninguém precisa de fazer piadas sobre isso porque as tensões daquela época já se dissiparam?
(excluindo, claro está, alguns anacrónicos que acham que os judeus mereceram a fogueira)
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