06 fevereiro 2026

*sair da bolha*


Dizem-me: sai da bolha, vai ao encontro dos outros, abre os olhos para outras realidades...
Será que a minha bolha é assim tão reduzida e redutora? Encontro nela homens, mulheres, pessoas não-binárias. Pessoas dos zero aos cem anos. Heterossexuais, gays e nem sei que mais, porque o que as pessoas fazem na cama delas é o lado para onde durmo melhor. Pessoas de muitos países diferentes. Várias religiões, muitos agnósticos, muitos ateus. Pessoas com a quarta classe, e professores catedráticos. Desempregados e CEOs. Cientistas e artistas. Simpatizantes e membros de todos os partidos, menos um.
Porque é justamente aí que traço um limite para as fronteiras da minha bolha: não quero ter por perto pessoas que gostam de um líder político que põe ódio no mundo, que aplaude abertamente perseguições a emigrantes, que atira ao chão os mais vulneráveis e os espezinha para conquistar poder.
Dizem-me que não é assim que consigo conquistá-los para o espaço democrático. Que tenho de ouvir, que tenho de compreender...
Não, não tenho. Não tenho de compreender quem - repito - gosta de um líder político que põe ódio no mundo, que aplaude abertamente perseguições a emigrantes, que atira ao chão os mais vulneráveis e os espezinha para conquistar poder.
Pertencem a uma realidade paralela, com outros valores, outra definição de "decência" e "dignidade" e "direitos humanos". Não vejo o menor motivo para entrar em contacto com esta realidade.
Alguns contemporizam: ai e tal, estão muito zangados com a situação actual, votam assim como sinal de protesto. E há aqui dois erros: um de lógica (se estão zangados com a situação actual, porque votam no partido que já deu provas de que vai pôr tudo ainda pior?) e outro de carácter (se queriam fazer um voto de protesto, tinham o candidato Vieira, ou votavam em branco — mas preferiram votar no sujeito que, para além de fazer de conta que está zangado com o sistema, conquista votos apelando ao ódio e servindo-se das minorias como inimigo instrumental).
Se é para dividir o mundo entre "nós" e os "outros", a minha divisão é esta. Porque aqueles que, segundo me dizem, deviam ser motivo para eu sair da minha bolha e para aprender a ver o mundo como ele é, são os mesmos que querem impor à sociedade a bolha deles, uma bolha feita de ódio e mentira, sem espaço para o pensamento e para a diversidade. Saiam antes eles da bolha em que se meteram, que é um lugar insalubre e está a envenar tudo, e muitos. --- Este texto responde a um desafio chamado "no Largo": um grupo que todas as semanas escreve sobre um tema diferente. "Sair da bolha" era o tema da semana passada, mas por motivos vários só agora publico. As outras bolhas:
A Curva 
A Gata Christie
Boas Intenções
Gralha dixit 
O blog azul turquesa 
Quinta da Cruz de Pedra

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