31 dezembro 2017
um ano bom
A quem passa por aqui deixo um truque simples para terem um ano excelente:
treinar no quotidiano um olhar de gratidão.
(Por estes dias, tenho pensado muito na imprevisibilidade da vida. Cada dia é um presente.)
(Hoje à noite vou oferecer estes frascos com a promessa de um ano bom.
Já avisei: "vocês só têm de fazer uma coisinha de nada todas as semanas, e garanto que vão ter um ano excelente."
Hehehe, tenho poderes especiais!)
29 dezembro 2017
morte lenta
Se é mesmo verdade que na hora da morte o filme da nossa vida passa por nós, espero ter - daqui a muitíssimos anos, claro - uma morte tão lenta que dê tempo para ouvir a Joyce DiDonato a cantar canções de Richard Strauss.
Como cantou hoje. Sublime.
O concerto de ano novo da Filarmónica de Berlim vai passar na Arte no domingo, 31.12., a partir das 17:40 (hora portuguesa), e na radio RBB (Kulturradio, livestream) passa a partir das 16:25.
Como cantou hoje. Sublime.
O concerto de ano novo da Filarmónica de Berlim vai passar na Arte no domingo, 31.12., a partir das 17:40 (hora portuguesa), e na radio RBB (Kulturradio, livestream) passa a partir das 16:25.
24 dezembro 2017
Natal, Natal, Natal de luz
"Jul, jul, strålande jul" é uma canção de Natal de Gustav Nordqvist, com letra de Edvard Evers.
Composta em 1921, a música pousa delicadamente uma aura de sossego e paz sobre as chagas de uma Europa torturada pelos horrores da Primeira Guerra Mundial.
Para todos os que passam por aqui, deixo votos de um Natal de luz suavemente derramada sobre a vida inteira: fazendo brilhar o seu melhor, aliviando inquietações e dores.
Penso especialmente naqueles que viram a sua vida devastada pelos incêndios - que este Natal lhes possa trazer alguma da força necessária para continuar.
Penso no meu vizinho Uwe, o melhor dos vizinhos da minha rua, que transformou este bocadinho de Berlim numa aldeia de amigos, e morreu repentinamente durante o sono dois dias antes do Natal. Penso na mulher dele e nos irmãos, que por estes dias têm sido amparados por uma extraordinária rede de amizade e de solidariedade dos vizinhos: recebem de volta o bem que o Uwe espalhava entre nós.
[E agora vou-me desgraçar de vez, e traduzir para português a partir da tradução automática de sueco para várias línguas. Depois desta ousadia, nem a alma do Speedy Gonzalez se me vai aproveitar. ]
Natal, Natal, Natal de luz
brilha sobre as florestas brancas,
as coroas celestes de luzes cintinlantes,
os arcos claros da casa de Deus,
e o salmo que repete
o eterno desejo de luz e de paz!
Natal, Natal, Natal de luz
brilha sobre as florestas brancas!
Vem, vem, e diz Natal!
Pousa as tuas asas brancas
sobre o sangue e o alarme dos combates,
sobre tudo o que rouba segurança à humanidade,
sobre as famílias que sossegam enfim,
sobre os dias de juventude que virão!
Vem, vem, diz Natal,
envolve-nos com as tuas asas brancas.
20 dezembro 2017
je suis autocarro
(foto)
Ontem, no centro de Berlim, foram lembradas as doze vítimas mortais do atentado no mercado de Natal de 19.12.2016. Foi inaugurado um memorial - uma fractura que se estende pelo passeio, ao longo de 17 metros, preenchida com um metal dourado. Às 20:02, a hora a que o atentado teve lugar, os sinos da Gedächtniskirche tocaram durante doze minutos. No Parlamento berlinense, o presidente de Berlim pediu aos feridos e aos familiares das vítimas desculpa pelos erros cometidos pelo Estado, que não soube proteger os cidadãos.
Tudo isto é digno e está muito certo.
Mas ninguém sente necessidade de falar das doze pessoas que morreram faz hoje 14 anos num acidente de autocarro na fronteira entre a Bélgica e a Alemanha, ou nas dezoito que morreram em Julho deste ano noutro acidente de autocarro na auto-estrada entre Berlim e Munique. Em Junho de 2018 não vai haver qualquer cerimónia para lembrar essas 18 pessoas.
Ninguém fala das estradas portuguesas onde todos os anos morrem mais de quatrocentas pessoas, ou nas alemãs, onde anualmente morrem mais de três mil. Num ano só as estradas portuguesas fazem mais vítimas que o terrorismo islâmico fez até agora em toda a Europa, e as estradas alemãs fazem mais vítimas que o terrorismo islâmico fez até agora em todo o Ocidente, 11 de setembro incluído - mas nenhum político vê necessidade de pedir desculpa no parlamento pelo facto de o Estado não saber proteger os cidadãos.
A onda de comoção que percorre as redes sociais quando há um ataque terrorista contra o ocidente não se estende a outras tragédias. Há quem diga que as ondas "je suis" se justificam porque as cidades atacadas são parte da nossa vida. No entanto, apesar de todos andarmos de automóvel e transportes públicos, quando há tragédias na estrada o facebook não se enche de fotos de perfil marcadas com "je suis autocarro" ou "je suis acidente rodoviário".
Porquê esta diferença?
Porque é que não reagimos em relação a um condutor que matou pessoas por conduzir embriagado com o mesmo repúdio que temos para com um tresloucado filho de muçulmanos?
Porque é que muitos dos que exigem ao Estado que feche as fronteiras a "essa gente", para garantir a nossa segurança, não se lembram de exigir que o Estado tire a carta de condução a quem, por incúria, tenha provocado um acidente com vítimas mortais ou feridos graves?
Porque é que nos habituámos aos irresponsáveis e aos incompetentes na estrada (quantos de vocês já telefonaram à polícia a denunciar um condutor cujo comportamento põe em risco a vida de terceiros?) e exigimos do Estado segurança absoluta contra o terrorismo?
E porque é que insistimos em mostrar abertamente o choque e o medo perante um acto de terrorismo, mesmo sabendo que estamos a fazer o jogo das organizações terroristas, que colhem nas nossas reacções o material de que precisam para seduzir e angariar terroristas para o ataque seguinte?
oração para os tempos que me correm
Pai nosso que estás no céu
(...)
o iorgurte magro de cada dia nos dai hoje
(...)
e não nos deixeis cair em tentação
mas livrai-nos das embalagens de Marabou de 250 g que comprei outro dia na IKEA
e das caixas de Fudge Mrs Tilly's que me estão aqui a fazer negaças.
Amén.
(mas quem é que se lembra de fazer dieta uma semana antes do Natal?!)
(...)
o iorgurte magro de cada dia nos dai hoje
(...)
e não nos deixeis cair em tentação
mas livrai-nos das embalagens de Marabou de 250 g que comprei outro dia na IKEA
e das caixas de Fudge Mrs Tilly's que me estão aqui a fazer negaças.
Amén.
(mas quem é que se lembra de fazer dieta uma semana antes do Natal?!)
19 dezembro 2017
Vila Feliz
Glüklitz é o nome que Wladimir Kaminer inventou para a aldeia perto de Berlim onde tem a casa com jardim que comprou depois de ter sido expulso do seu talhão de agricultura urbana devido a, como ele diz com ar de gozo, "vegetação espontânea". Poder-se-ia traduzir "Glüklitz" para "Vila Feliz", ou algo do género, e no domingo passado percebi porquê.
Começa com o caminho: cheguei tardíssimo, porque estava encantada com o pôr-do-sol sobre a planície alagada, e a cada 100 metros parava o carro para tirar fotografias.
Quase a entrar na aldeia, olhei para a esquerda e vi três pássaros enormes, que não sabia identificar. Parei o carro e fotografei-os, muito satisfeita por não terem fugido logo. Depois olhei para a esquerda, e vi que havia milhares de pássaros iguais naquele campo - não se vê bem na fotografia mas, podem crer, eram milhares.
Quando finalmente cheguei a "Vila Feliz", perguntaram-me: "Viste os grous? Dizem que são mais de setenta mil! Estão a habituar-se a ficar aqui no inverno, porque já não é tão frio como antigamente. O problema é que se um ano destes vier um inverno realmente severo, já não haverá grou nenhum que tenha aprendido o caminho para o sul com os grous mais antigos. Vão morrer todos!"
Em "Vila Feliz", no Advento, os vizinhos encontram-se nos quintais uns dos outros, de volta de uma fogueira com uma caneca de vinho quente na mão.
Este ano estavam a queixar-se que o calendário lhes roubou a possibilidade de mais um encontro, porque o último fim-de-semana de Advento coincide com o Natal. Ao fim de umas horas na conversa com eles, de volta da fogueira (e do meu chá, porque tinha de levar o carro de volta para casa), bem lhes percebi a tristeza: há algo de único nestes encontros tão simples e amáveis. E é em momentos assim que entrevejo o que havia de realmente positivo na RDA: laços humanos que não precisavam de grande logística, consumo e ostentação, para se afirmarem e reforçarem.
Um pouco mais tarde, à mesa da cozinha, um casal amigo dos Kaminer começou a contar:
"Nós os dois éramos tratadores de animais num zoológico. Um dia, tivemos de fazer uma cesariana a uma leoa, e ela rejeitou as crias. Três leoazinhas. O director do zoológico perguntou-me se a minha mulher podia criá-las, já que estava em casa em licença de maternidade. Ela aceitou, e eu levei as três bichinhas num cesto de vime com tampa para o nosso apartamento, que era num prédio de dez andares. Fizemos-lhes umas papas com leite e aveia, que elas comeram avidamente. Mas não saía nada pelo outro lado. Ao fim de três dias, deixaram de comer. Arranjámos um tubo ligado a uma seringa, e metemos-lhes parafina pelo lado de baixo do tubo digestivo, não sei se me está a entender. Depois fomos dormir, mas às quatro da manhã acordámos com um cheiro estranho. Olhámos para o cesto, e vimos uma massa castanha a sair por todos os interstícios. Abrimos a tampa, e demos com um espectáculo miserável: as leoas também estavam castanhas. Só se lhes viam os olhinhos.
Metemo-las na banheira - no nosso prédio já havia esses luxos de banheira e água quente - e usámos um champô para bebé que uns amigos da Alemanha Ocidental nos tinham oferecido. Ficaram um espectáculo! O pelo muito encaracoladinho, pareciam caniches.
Passados uns dias o guarda do prédio tocou-nos à campainha. Disse que os vizinhos se tinham queixado de ouvir barulhos esquisitos na nossa casa, e queria saber o que se passava. Eu disse-lhe "conto-te a ti, mas não contas a mais ninguém, ouviste?" - e mostrei-lhe as leoas pequeninas. No dia seguinte tínhamos uma fila interminável de vizinhos à porta, que também queriam ver. "Eu só disse a uma pessoa!", defendeu-se o guarda.
A nossa filha tinha um ano, estava na fase de gatinhar. Não dizia nem mamã nem papá, mas seguia as leoas para todo o lado, e quando uma delas rugia a nossa filha rugia igual.
Tivemos de as mandar embora ao fim de onze semanas, quando as garras começaram a crescer."
Em suma: no domingo passado jantei com os pais da Mogli da RDA.
E lembrei-me de novo de uma pergunta que um entrevistador da RTP fez ao Kaminer, em Lisboa: "o senhor inventa as histórias surreais que escreve?"
Não. Não inventa. Limita-se a organizar uma fogueira e um vinho quente para os vizinhos, e a ouvir as histórias que estes contam.
O que me lembra mais uma história divertida que ouvi a outro amigo dos Kaminer: "na aldeia da minha irmã havia uma empresa de escavadoras que foi à falência. Alguém comprou o parque industrial da empresa e fez nele um parque de diversões. Por um euro, os homens que em criança sonhavam ser condutores de escavadora podem realizar o seu sonho. Vão para lá aos fins-de-semana, levam a família, e andam felizes como putos pequenos a escolher a escavadora que vão conduzir e a areia que vão mover de um lado para o outro, sob o olhar aprovador da sua mulher."
17 dezembro 2017
oratória de Natal num 3 assoalhadas
Uma oratória de Natal memorável: a nossa maestrina estava em cima de uma pilha de livros para poder ser vista por todos, os trompetistas estavam no corredor, por trás do coro, na orquestra e no coro havia miúdos com menos de 10 anos, alguns dos cantores tinham bebés no canguru (ou lá como é que se chama agora o saco de carregar os pequeninos junto ao peito). Começou bem, mas tivemos de recomeçar porque ao fim de alguns minutos um pequenito foi a gatinhar pelo meio dos cantores e quando chegou à zona dos músicos atirou a estante de uma flautista ao chão, e depois não fez mais nenhuma asneira porque os pais (um trompetista, uma soprano) se revezaram a pegar nele ao colo, conforme a partitura permitia.
Às vezes parávamos para discutir, "fazemos também o 19?" "não, vamos já para o 21!" "oh, o 19 não custa nada, vamos lá!" e a maestrina punha ordem na anarquia.
No fim - vá, alguns até pelo meio, cof cof - comemos as bolachinhas caseiras que é tradição fazer no Advento, e quase todos tinham trazido. Depois houve sopas, e muita conversa.
Uma pessoa está ali toda aplicada a fazer playback, sente-se um bocado embaraçada ao dar-se conta da segurança com que todos cantam, vê que uma das contralto trouxe o bebé de dois meses para o meio do coro, e começa a pensar que a oratória de Bach corre no sangue desta gente. Provavelmente aprenderam ao colo dos pais - a partitura serve apenas para as revisões da matéria dada.
16 dezembro 2017
já me podiam dar o prémio Nobel da economia
Passei a manhã a alavancar a economia berlinense. Se não é com isto que a cidade reduz o seu défice, não sei com que será.
isto hoje está mau para piadinhas
A palavra mágica de hoje na Enciclopédia Ilustrada começa por V, e aqui a engraçadinha põe-se a pensar que palavra há-de propor, e decide-se por:
"16 de Dezembro de 2017: A palavra mágica para hoje é VAN.
Hoje é o aniversário de Ludwig van Beethoven. ;) "
O problema é que a palavra "van" não existe nos dicionários portugueses. Usa-se no Brasil, mas não em Portugal. A culpa é dos opositores ao Acordo Ortográfico, por causa deles perdi esta oportunidade de fazer uma gracinha.
(Calma, eu sei que o Acordo Ortográfico não é um Acordo Semântico, calma lá - estava a tentar ser engraçada. Hoje está mesmo mau para piadinhas...)
(Mas está muito bom para fake news. Aviso já que a wikipedia não sabe quando é que Beethoven faz anos, só sabe que foi baptizado a 17 de Dezembro.)
15 dezembro 2017
era para ser um post sobre o programa para este fim-de-semana
Ia para contar que, só para me desforrar da famosa insularidade de que sou vítima (desta vez é a Tinta-da-China a fazer uma feira do livro com bolos e tudo este fim-de-semana em Lisboa, e eu aqui tão à desamão), para me desforrar, dizia, amanhã vou a casa de uma amiga que juntou um grupinho para interpretar na casa dela o Oratório de Natal de Bach, e no domingo vou à festa de advento que os Kaminer estão a organizar na aldeia que é cenário de um dos livros mais recentes do Wladimir, "Deste lado do Éden". É a aldeia onde eles compraram uma quinta junto a um lago, onde se orgulham de serem proprietários da vinha mais setentrional do mundo (é o que vem no livro, eu cá não invento nada), e onde os vizinhos lhe pediram que fizesse uma russendisko e lhe mandaram mensagem a dizer: "tudo a postos, já pusemos 100 cadeiras na sala". Ando há que anos com vontade de conhecer esses vizinhos - melhor dizendo: a parte não romanceada deles -, e vai ser no domingo.
Antes disso tenho o Oratório de Bach no sábado à tarde, e pensei tirar o sábado de manhã para fazer umas comprinhas e aprender a minha parte. O mail que recebi há duas semanas falava em cinco peças, imaginei que seriam apenas os velhos corais de Lutero que qualquer criança conhece, só que com a cara lavada e bem penteados por Bach, enfim, aquelas coisas que se cantam sozinhas. Mas hoje, só para ser previdente, resolvi começar a olhar para a partitura. Depois fui ouvir a primeira peça que tenho de aprender. Essa que está no vídeo. Quer-me parecer que vou passar a noite inteira a estudar um playback jeitoso.
Era para ser um post sobre o que vou fazer este fim-de-semana, mas depois reparei nas imagens iniciais do vídeo, feito na Frauenkirche, em Dresden. Que igreja barroca fantástica! Ninguém diria que tem apenas dez anos. Foi praticamente toda destruída no bombardeamento de Dresden. E as ruínas só se salvaram porque havia um professor universitário que ia pedindo sucessivamente adiamentos na remoção do entulho porque tinha alunos a fazer doutoramentos sobre a estática daquela igreja, dizia ele. Deve ter sido a estática mais bem estudada do mundo, mas a verdade é que quando se deu a reunificação as ruínas ainda lá estavam, e arranjou-se dinheiro para refazer o resto em todo o seu esplendor.
E depois reparei num comentário a esse vídeo:
Johannes Günther: "Ouço uma obra-prima como esta com sentimentos contraditórios. Por um lado, alegra-me o coração e a alma. Por outro lado, amaldiçoo o nosso tempo, porque tenho a sensação de que a formação sobre a História e a Cultura alemãs se limitam ao Holocausto. Quantos dos alemães com menos de 30 anos (como é o meu caso) têm uma ideia da cultura do seu próprio povo?"
Algumas pessoas reagiram:
The Wizard of Potsdam: "Que disparate... A literatura que é dada nas escolas só em dois semestres inclui o Holocausto. Em Brandeburgo e Berlim, por exemplo, os temas do final do secundário são Sturm und Drang, Naturalismo, Comunicação e Media. A segunda Guerra Mundial não é tema. E mesmo que fosse: claro que este espantoso trabalho de Bach pertence à história cultural alemã. Mas não se pode ficar só com o que "faz bem ao coração e à alma". O Holocausto também é parte da história cultural alemã. O nacional-socialismo não surgiu de repente - peng! - do nada. Tem uma longa história e raízes profundas na cultura alemã (o romantismo nacional, a narrativa do eterno judeu em Wagner, por exemplo). Também temos de nos confrontar com isso."
Christiane Behnke: "A escola nunca pôde dar tudo, nem agora nem há 40 anos. Mas dá pistas que cada um pode seguir. É uma sorte cruzar-se com Bach. Na vida há sempre sentimentos contraditórios. Se gostamos do que estamos a ouvir, o melhor é ignorar o outro lado. (...) Infelizmente, a Alemanha nazi conseguiu ser o primeiro país a vez exterminar pessoas de forma sistemática. Isso vai ficar para sempre, e é bom que fique. Porque não pode voltar a acontecer. Em vez de se lamentar (não vale a pena, não vamos conseguir desfazer o que foi feito), mais vale tentar aprender com isso. (...)"
Johannes Günther: "Nas entrelinhas, vejo claramente que és boa pessoa. Mas a frase "isso vai ficar para sempre, e é bom que fique" leva-me a acreditar que, como tantos outros, aceitaste o que te doutrinaram na escola, e isso entristece-me. Podes ter a certeza que não conhecemos a verdadeira história, e por isso não podemos aprender com ela. "
The Wizard of Potsdam: "Obrigado, Johannes. Eu só queria saborear Bach. Mas agora, mal abro este vídeo, sinto-me enojado por saber que nem sequer vídeos de música como esta estão a salvo de pessoas que se servem de tudo para espalhar o negacionismo do Holocausto. A sua falta de compaixão dá vómitos. Bem pode poupar frases arrogantes como o "vejo que és boa pessoa" que dirigiu à Frau Behnke.
Christiane Behnke: Beeeem, o melhor é não entrar na questão da culpa. (...) Penso que é globalmente importante que um povo não esqueça o que fez, tanto o bem como o mal. Como qualquer pessoa, aliás. Caso contrário, continua a andar nos seus sapatos infantis, e não consegue ir muito longe. Irrita-me ver que nos outros países ninguém fala dos transportes de judeus e dos pogroms contra eles, embora as milícias nacionais tenham trabalhado com muito empenho. A Alemanha teve de reconhecer o que os nazis fizeram. E com base nisso foi possível desenvolver uma Democracia como não se encontra em muitos outros países. Com erros, mas bastante OK. Portanto, em vez de ficares triste, saboreia Bach. E não sejas tão espevitado.
Talvez eu seja boa pessoa, não sei e não me interessa. Mas dei-me ao trabalho de estudar muito sobre História e Cultura, para saber de que estou a falar. Por isso não me passa pela cabeça ter sentimentos contraditórios quando ouço a música belíssima da minha cultura."
Já agora: "os alemães" devem a "um judeu" a obra de Bach não ter caído no esquecimento. Foi o compositor Felix Mendelson Bartholdy (e neto do grande filósofo iluminista Moses Mendelson) que lutou para fazer ouvir peças de Bach e Haendel quando já há muito se deixara de falar deles. Mendelson Bartholdy cirou em Leipzig o primeiro Conservatório da Alemanha e criou standards, quer como compositor quer como maestro, que ainda hoje são válidos."
O outro responde que não está a defender negacionismo nenhum, e se já não se pode dar uma opinião...
Anda um J.S. Bach a suar as estopinhas para compor um Oratório que celebra o Deus que se faz criança entre nós, e é isto...
dez dias antes do Natal
Quando uma pessoa pensa que já sabe tudo sobre etiqueta na Alemanha, e
deseja "bom Natal" a um funcionário de uma empresa com quem não vai
voltar a falar nas próximas semanas, e ele - para mais em Weimar, terra
onde não há muitos cristãos! - responde: "bom Advento é o que lhe
desejo", catrapum!
Fiquei com o ego na cave.
Fiquei com o ego na cave.
o vídeo de gatinhos para arrumar com todos os vídeos de gatinhos
Aqui está the ultimate vídeo de gatinhos.
(isto é tão bom que estava capaz de ir comprar todos os cremes de La Roche-Posay, só para lhes agradecer)
14 dezembro 2017
o direito ao sarampo
Da newsletter do Spiegel, hoje:
"Para mim, um dos maiores enigmas deste tempo é o de pessoas inteligentes que se recusam a vacinar os filhos. Sangrar doentes saiu de moda por algum motivo, e o ferreiro já não trabalha como dentista há algum tempo. Mas é justamente nos bairros urbanos cujos moradores se têm em conta de muito progressistas que se espalhou uma recusa estranhamente esotérica de vacinar as crianças. (...) O pediatra Herrmann Josef Kahl apresenta uma proposta que me parece sensata: "quem quiser frequentar uma instituição estatal de ensino - como creche ou escola - tem de ter as vacinas completas".
Nesse caso, o direito humano de apanhar sarampo passa a existir apenas nas escolas privadas."
Em entrevista, o pediatra mencionado conta que perde imenso tempo a explicar aos pais a necessidade das vacinas, e raramente os consegue convencer. Sei de outra médica, mais pragmática, que já não perde tempo com essas discussões estéreis. Limita-se a dizer aos pais: "não precisam de vacinar todos os vossos filhos - vacinem apenas aqueles que não querem perder".
Mas o discurso da liberdade de escolha vai longe e encontra terreno fértil entre os oportunistas que preferem poupar os seus filhos, contando com a alta taxa de vacinação na sociedade que garante a segurança de todos. Às vezes dá-me vontade de curto-circuitar a lógica destes pais, enviando toda a família para duas semanas de férias gratuitas numa ilha onde todas essas doenças existam.
(Não me levem a sério, é só uma provocação.)
A proposta deste pediatra, no sentido de tornar as vacinas obrigatórias para quem frequenta os estabelecimentos de ensino público, pode ter uma consequência muito interessante: como muitas escolas privadas seguirão com certeza a mesma regra (porque todos sabem que a única maneira de conter essas doenças é ter uma população vacinada a quase 100%), acabará por haver escolas privadas frequentadas apenas por não vacinados. Ou seja: as crianças passam o dia num ambiente semelhante ao da tal ilha que sugeri como provocação. Com a diferença de que ninguém é obrigado a ir para lá - cada família pode decidir livremente se a sua criança frequenta uma escola onde todos são vacinados, ou uma escola onde as vacinas não são obrigatórias.
Estou em crer que em meia dúzia de anos as pessoas perdiam todas as dúvidas sobre a importância de vacinar os filhos.
ADENDA:
"Para mim, um dos maiores enigmas deste tempo é o de pessoas inteligentes que se recusam a vacinar os filhos. Sangrar doentes saiu de moda por algum motivo, e o ferreiro já não trabalha como dentista há algum tempo. Mas é justamente nos bairros urbanos cujos moradores se têm em conta de muito progressistas que se espalhou uma recusa estranhamente esotérica de vacinar as crianças. (...) O pediatra Herrmann Josef Kahl apresenta uma proposta que me parece sensata: "quem quiser frequentar uma instituição estatal de ensino - como creche ou escola - tem de ter as vacinas completas".
Nesse caso, o direito humano de apanhar sarampo passa a existir apenas nas escolas privadas."
Em entrevista, o pediatra mencionado conta que perde imenso tempo a explicar aos pais a necessidade das vacinas, e raramente os consegue convencer. Sei de outra médica, mais pragmática, que já não perde tempo com essas discussões estéreis. Limita-se a dizer aos pais: "não precisam de vacinar todos os vossos filhos - vacinem apenas aqueles que não querem perder".
Mas o discurso da liberdade de escolha vai longe e encontra terreno fértil entre os oportunistas que preferem poupar os seus filhos, contando com a alta taxa de vacinação na sociedade que garante a segurança de todos. Às vezes dá-me vontade de curto-circuitar a lógica destes pais, enviando toda a família para duas semanas de férias gratuitas numa ilha onde todas essas doenças existam.
(Não me levem a sério, é só uma provocação.)
A proposta deste pediatra, no sentido de tornar as vacinas obrigatórias para quem frequenta os estabelecimentos de ensino público, pode ter uma consequência muito interessante: como muitas escolas privadas seguirão com certeza a mesma regra (porque todos sabem que a única maneira de conter essas doenças é ter uma população vacinada a quase 100%), acabará por haver escolas privadas frequentadas apenas por não vacinados. Ou seja: as crianças passam o dia num ambiente semelhante ao da tal ilha que sugeri como provocação. Com a diferença de que ninguém é obrigado a ir para lá - cada família pode decidir livremente se a sua criança frequenta uma escola onde todos são vacinados, ou uma escola onde as vacinas não são obrigatórias.
Estou em crer que em meia dúzia de anos as pessoas perdiam todas as dúvidas sobre a importância de vacinar os filhos.
ADENDA:
Sandy Hook
Sandy Hook já foi há cinco anos?!
Muita coisa mudou entretanto. Mas a facilidade com que qualquer maluco pode provocar tragédias, essa, continua desgraçadamente igual.
Enquanto procurava fotos para este post deparei-me com uma série de páginas de teorias da conspiração. Alguém andou a espalhar na internet a ideia de que esta tragédia não aconteceu, e que as imagens que vimos não passavam de uma encenação criada para ajudar o governo federal a levar avante os seus planos de controlar mais a licença de porte de armas, de "tirar as armas aos americanos". Em tribunal, os acusados de mentira e difamação reclamavam o seu direito de livre expressão. O antigo "vale tudo, excepto tirar olhos" deu lugar a "vale tudo, especialmente confundir olhos".
ADENDA
[é que partilho estas coisas no facebook, e depois o pessoal completa-me lá os posts, e depois tenho de vir para aqui adendar - isto de estar no blogger e no facebook ao mesmo tempo é uma dor de cabeça...]
Armed and dangerous this Xmas/ It's an oxymoron I know how it sounds/But you won't pry my fingers from it/My precious 2nd Amendment guarantees a clip that holds 100 rounds.
ADENDA II
[e não garanto que seja a última]
"This song was written a little less than 5 years ago, in the days following Sandy Hook. It revisits us year after year on this day, and too often in between."
Mandolin Orange perform "Blue Ruin" from their 2015 album 'Such Jubilee'
Emily Frantz - guitar, vocals
Andrew Marlin - guitar, vocals
Recorded in Beehive Productions Studio in Saranac Lake, NY May, 2015
13 dezembro 2017
vai à lua ver se chove
Já não há respeitinho (1)
Ontem, o noticiário ARD da noite falou do projecto trumpiano de ir à lua e mais além. A notícia veio já no final do programa, e a passagem para a seguinte foi feita assim: "Pode ser que este projecto seja um grande passo para Trump, mas para as pessoas de quem vamos falar a seguir não é mais que uma saída para ir comprar cigarros no quiosque da esquina. O novo Star Wars..."
Já não há respeitinho (2)
Wladimir Kaminer, sobre o mesmo tema:
Trump acendeu uma centelha de esperança: "Vamos conquistar o espaço, os nossos melhores homens voarão de novo até à lua." A verdade é que qualquer criança sabe quem é o melhor homem da América, o mais bonito, o mais corajoso e o mais esperto. No entanto, não tenho grandes esperanças de que ele resolva hoje mesmo pentear o seu toucado de esquilo morto e zarpar para a Lua a toda a velocidade.
["esquilo morto"! nunca mais vou conseguir olhar para o Trump da mesma maneira ]
12 dezembro 2017
bela por fora e por dentro
Três concertos em dois dias: Maria João Pires, Late Night com Simon Rattle ao piano, e voltar no dia seguinte aonde fui feliz, para ouvir o mesmo concerto da pianista.
Simon Rattle toca piano com a mesma energia que põe na direcção da orquestra. O seu pequeno concerto teve graça, mas convenhamos que é preciso coragem (ou inconsciência) para se sentar ao piano pouco depois de a Maria João Pires ter estado naquela sala.
Tocou a sonata em sol menor de Debussy com Daishin Kashimoto, e o Quatuor pour la fin du temps, uma peça que Olivier Messiaen escreveu num campo de prisioneiros de guerra dos alemães. A sorte de Messiaen (e nossa) foi ter-se deparado com um tal de Franzpeter Goebels como comandante do campo. Este Goebels, um músico chamado a cumprir serviço militar na guerra de Hitler, deu a Messiaen os meios necessários para compor a sua peça, e permitiu que a estreia mundial se realizasse no campo, perante 400 prisioneiros. E depois ainda há quem diga que a Arte não serve para nada...
Não sei como seria a qualidade dos instrumentistas que também eram prisioneiros no campo, nesse desgraçado ano de 1941. Em 2017, ter um Wenzel Fuchs a tocar o solo de clarinete em "Abismo dos pássaros" foi assombroso.
Aliás: de todos os músicos daquele quarteto, o pianista era o menos brilhante...
Este foi o momento, no fim do concerto de domingo, em que Maria João Pires ofereceu ao maestro uma rosa do seu ramo. A sala inteira desatou a rir porque ela não conseguia soltar o pé da flor, e acabou a oferecer apenas uma rosa a modos que decepada.
Os dois concertos foram excelentes - como seria de esperar de Maria João Pires e de Herbert Blomstedt. Assisti ao de domingo com sentimentos contraditórios: a felicidade de estar ali naquele momento, e a tristeza de saber que provavelmente não volto a ver nenhum deles em palco.
Mas guardo comigo a graça dela a propor os temas à orquestra, a elegância das frases, o equilíbrio entre expressão e contenção. E do maestro Blomstedt, esse extraordinário homem que aos noventa anos ainda consegue transmitir a energia da música com todas as fibras do seu corpo, guardo a dinâmica "molto dansabile" que deu à versão original da terceira sinfonia de Bruckner.
então que tempo tem feito em Berlim?
Se é para dizer numa palavra: não sei.
Primeiro parecia que íamos directos do outono para a primavera. Fiz uma selfie num lago cheio de sol (fiz muitas), enquanto o Fox esperava pacientemente.
Depois nevou um bocadinho.
Depois a neve derreteu.
Depois houve uma espécie de granizo durante a noite, mas o dia amanheceu sem nuvens.
Depois passou por nós uma cadelinha, e aqueceu outra vez. A bem dizer: para o Fox, foi primavera.
(Ficou tão feliz que até parecia uma zebra.)
Depois caiu um nevão valente...
...que transformou o meu bairro num cenário de filme.
Esperto foi o casal que saiu para dar uma voltinha de esqui de fundo às onze da noite, na minha rua:
Espertos, sim. Porque no dia seguinte voltou a primavera.
(Sem cadelinha.)
Primeiro parecia que íamos directos do outono para a primavera. Fiz uma selfie num lago cheio de sol (fiz muitas), enquanto o Fox esperava pacientemente.
Depois nevou um bocadinho.
Depois a neve derreteu.
Depois houve uma espécie de granizo durante a noite, mas o dia amanheceu sem nuvens.
Depois passou por nós uma cadelinha, e aqueceu outra vez. A bem dizer: para o Fox, foi primavera.
(Ficou tão feliz que até parecia uma zebra.)
Depois caiu um nevão valente...
...que transformou o meu bairro num cenário de filme.
Esperto foi o casal que saiu para dar uma voltinha de esqui de fundo às onze da noite, na minha rua:
Espertos, sim. Porque no dia seguinte voltou a primavera.
(Sem cadelinha.)
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da minha vida vê-se um lago,
viver em Berlim
a minha melhor festa de Natal com os portugueses de Berlim
Pela primeira vez em sete anos fui à festa de Natal da comunidade portuguesa em Berlim sem ter nela qualquer responsabilidade. Fui de férias, a bem dizer. Tão de férias que nem me lembrei de fotografar a festa para divulgar na respectiva página do faceboook.
Nas festas anteriores andava numa roda-viva, a acudir a tudo e a fazer tudo ao mesmo tempo - o que deu cenas um bocadinho gagas, como por exemplo daquela vez em que a chegada do Embaixador coincidiu com o momento em que eu ia levar o almoço aos técnicos do som, que não podiam sair da sua sala. Ainda tentei que a co-organizadora da festa o fosse receber, mas ela estava nesse preciso momento no palco a saracotear um bacalhau, em pleno leilão. Como é que se cumprimenta respeitosamente um Embaixador enquanto se equilibra uma jardineira, mais um rancho, mais uma feijoada, mais meia dúzia de rissóis, mais uma salada? Valeu-me a excelente preparação dos diplomatas portugueses, que lhes permite disfarçar muito bem - nem deitou as mãos à cabeça nem disse "foi para isto que me alistei?!", nem foi para a casa de banho respirar fundo vinte vezes, nem nada. Provavelmente só fez uma nota mental, "da próxima vez, pedir a alguém do staff que vá à frente ver se alguma daquelas profissionais do multi-tasking está com as mãos livres".
Mas este ano, o da graça de 2017, oh, maravilha!, estava de férias. Com tempo para comer, saborear a música, conversar com todos. Da minha mesa, junto à entrada, via passar a comunidade: a senhora com uma certa idade e passos inseguros (a quem eu às vezes dava boleia, e de quem me esqueci completamente este ano, por "estar de férias" - ooops!). O melhor florista do meu bairro, que é português, a quem apresentei a amiga que acabara de elogiar um ramo de flores que ele fizera. A professora com quem preparámos a ida do realizador Eduardo Brito à escola portuguesa. Uma senhora muito simpática, que estava a comer à minha mesa, e que só ao fim de muita conversa descobri que era não-sei-quê-militar na Embaixada (e foi logo no momento em que tinha a boca cheia de bacalhau assado, nem deu para bater continência nem dizer "excelência", ou lá o que se faz nesses casos). Os músicos com quem combinei um concerto para daqui a uns tempos (depois conto). Podia ficar mais meia hora a contar com quem falei, mas como hoje não é o dia internacional da cusquice, adiante.
Sinto-me muito grata à associação Berlinda por ter proporcionado à comunidade portuguesa esta festa - e a mim dois meses sem canseiras. E mais uma vez me comovi com a generosidade daqueles que dão tanto para tornar possíveis festas como esta: veio um grupo enorme da missão católica em português, e abriu a festa com temas do Natal. Veio o fadista António Brito, que vem sempre com o seu bom humor e a alegria contagiante. Vieram a Ana Rocha e o Filipe Duarte, cujo trabalho não conhecia e me encantaram (aquele fado acompanhado por guitarra jazz foi qualquer coisa!). Vieram os Filhos da Madrugada, e trouxeram-nos o Zeca Afonso. E talvez tenham vindo ainda outros, mas fui embora antes do fim, porque queria ir ao concerto da Maria João Pires.
Comprei uma caixa de pastéis de nata ainda quentinhos, e saí com uma amiga.
Nevava copiosamente. Fomos em ritmo de pára e arranca até à filarmonia, porque a cada momento parávamos para fotografar a cidade transfigurada. Ao chegar, uma óptima surpresa: ainda havia bilhetes, e a um preço acessível. Fiquei tão grata que até ofereci dois pastéis de nata às senhoras da caixa. Na sala, acabei sentada ao lado de um trompista português que toca numa orquestra alemã, e observava atentamente o trabalho do Stephan Dohr. Disse-me que a sala estava cheia de portugueses. Estava, pois! De tal modo que à saída encontrei outro casal amigo, e fiquei tão contente que lhes ofereci dois pastéis. Só sobraram dois, à risca para a minha gente em casa.
Continuava a nevar, e recomeçámos a fotografar, extasiadas. No autocarro, a minha amiga deu-me um dos pastéis que ela própria comprara, batemos as natas uma na outra como se fossem taças de champanhe, dissemos "à saúde!" e rimos - e assim acabou o meu belo dia de festa de Natal com os portugueses de Berlim.
--
Ontem olhei com outros olhos para o caixote cheio papéis do grupo "Portugueses em Berlim", que me atravancava o escritório há vários anos. Guardei os mais importantes. Deitei fora as senhas, as rifas e os flyers das festas passadas, e o próprio caixote. Finalmente fui capaz de aceitar a implosão deste grupo, e de fechar esse capítulo. Outros virão para criar momentos de encontro para a comunidade portuguesa. "Outros amarão as coisas que amei".
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09 dezembro 2017
Maria João Pires em Berlim!
Este fim-de-semana a Maria João Pires dá três concertos em Berlim.
Uma amiga minha foi ontem, e enviou-me no fim do concerto um sms cheio de superlativos, "momento único!" e "danke! danke! danke!"
Hoje é a minha vez de mergulhar no segundo "momento único!" deste fim-de-semana.
Mas, para não virem dizer que sou mete-nojo e sei lá o quê, aqui deixo um presentinho.
O concerto vai ser transmitido em directo no Digital Concert Hall. Entrem neste link, e usem este voucher: PRM78ED45
Dá direito a uma semana de acesso ao digital concert hall (sete dias consecutivos, voucher válido até ao fim de Dezembro deste ano, ou, se o usarem hoje, até ao próximo sábado).
Depois deste concerto, permaneçam em linha, porque a seguir transmitem um Late Night com Simon Rattle a tocar Debussy ao piano.
Se gostarem do serão, ficam com uma boa ideia para presentes de Natal: um mês ou até um ano de acesso ao Digital Concert Hall. Com dois clicks e uns euritos têm com que fazer alguém feliz.
[Acrescentei esta frase porque estou cheia de medo de ir para a cadeia por andar a divulgar aquele voucher assim na internet, e tratei de transformar isto em publicidade. Alguma coisa ando a fazer mal: outros bloggers ganham a vida a fazer publicidade, e eu, o máximo que consigo, é não ir parar à cadeia. Se tiver sorte...]
[Aos mais cuscos: vou estar sentada por trás da orquestra, com um casaco em estilo Mondrian.]
Uma amiga minha foi ontem, e enviou-me no fim do concerto um sms cheio de superlativos, "momento único!" e "danke! danke! danke!"
Hoje é a minha vez de mergulhar no segundo "momento único!" deste fim-de-semana.
Mas, para não virem dizer que sou mete-nojo e sei lá o quê, aqui deixo um presentinho.
O concerto vai ser transmitido em directo no Digital Concert Hall. Entrem neste link, e usem este voucher: PRM78ED45
Dá direito a uma semana de acesso ao digital concert hall (sete dias consecutivos, voucher válido até ao fim de Dezembro deste ano, ou, se o usarem hoje, até ao próximo sábado).
Depois deste concerto, permaneçam em linha, porque a seguir transmitem um Late Night com Simon Rattle a tocar Debussy ao piano.
Se gostarem do serão, ficam com uma boa ideia para presentes de Natal: um mês ou até um ano de acesso ao Digital Concert Hall. Com dois clicks e uns euritos têm com que fazer alguém feliz.
[Acrescentei esta frase porque estou cheia de medo de ir para a cadeia por andar a divulgar aquele voucher assim na internet, e tratei de transformar isto em publicidade. Alguma coisa ando a fazer mal: outros bloggers ganham a vida a fazer publicidade, e eu, o máximo que consigo, é não ir parar à cadeia. Se tiver sorte...]
[Aos mais cuscos: vou estar sentada por trás da orquestra, com um casaco em estilo Mondrian.]
mesmo a tempo
Este é o fim-de-semana dos meus mercados de Natal favoritos em Berlim: o do Jagdschloss Grunewald e o de Blankensee (que fica a uma hora de viagem de Berlim, mas também conta, porque de qualquer modo aqui tudo fica a uma hora de viagem).
Como se fosse por encomenda para o Jagdschloss, esta manhã começou a nevar.
Alegrei-me: "mesmo a tempo para transformar aquele pátio num cenário de conto de fadas!"
Mas só nevou um bocadinho. Desconfio que alguém não pagou ao São Pedro as luvas que ele queria, e o resultado é este trabalho deixado a meio. Não sei que me parece! Humpf.
"nome"
A palavra de ontem na Enciclopédia Ilustrada era "nome".
Usando o blogue para arquivar o que aparece e desaparece na voragem do facebook, aqui deixo dez contributos. Os primeiros quatro são meus. Os outros seis foram roubados aos colegas de enciclopédia - para mais tarde recordar.
I.
Um detalhe curioso na passagem de Portugal para a Alemanha foi ter deixado de ser a Dra. Helena, para passar a ser a Frau Araújo. Em Portugal, geralmente trata-se uma mulher pelo nome próprio; na Alemanha, é pelo nome de família.
Quando estava para casar, e tinha de decidir se mantinha o meu apelido ou passava a usar o do meu futuro marido, não tive dúvidas: se aceitasse o apelido dele, ia passar a ser a minha sogra! Nem pensar.
Entretanto a lei mudou. O homem pode ficar com o apelido da mulher, e perde o seu, ou o casal adopta a combinação dos apelidos dos dois. Mas há preconceitos em relação às pessoas que têm apelidos compostos (tipo Müller-Mayer): têm fama de ser complicadas e implicativas.
(Este é o momento em que me perguntarão quantos apelidos tenho. Tenho quatro - nada de piadinhas, ouviram? - mais dois nomes próprios. Nem queiram saber o trabalho que tive para aprender os meus nomes todos, ali pelos meus 3, 4 anos. Mas nenhum deles é alemão. Tivesse eu caído nessa asneira, ficava com um nome só. E não era o meu. E todo aquele trabalhinho infantil teria sido em vão.)
II.Num estudo na Universidade de Oldenburg, no qual foram entrevistados 500 professores da escola primária, concluiu-se que os alunos podem ser vítimas dos preconceitos dos professores relativamente ao seu nome próprio:
Usando o blogue para arquivar o que aparece e desaparece na voragem do facebook, aqui deixo dez contributos. Os primeiros quatro são meus. Os outros seis foram roubados aos colegas de enciclopédia - para mais tarde recordar.
I.
Um detalhe curioso na passagem de Portugal para a Alemanha foi ter deixado de ser a Dra. Helena, para passar a ser a Frau Araújo. Em Portugal, geralmente trata-se uma mulher pelo nome próprio; na Alemanha, é pelo nome de família.
Quando estava para casar, e tinha de decidir se mantinha o meu apelido ou passava a usar o do meu futuro marido, não tive dúvidas: se aceitasse o apelido dele, ia passar a ser a minha sogra! Nem pensar.
Entretanto a lei mudou. O homem pode ficar com o apelido da mulher, e perde o seu, ou o casal adopta a combinação dos apelidos dos dois. Mas há preconceitos em relação às pessoas que têm apelidos compostos (tipo Müller-Mayer): têm fama de ser complicadas e implicativas.
(Este é o momento em que me perguntarão quantos apelidos tenho. Tenho quatro - nada de piadinhas, ouviram? - mais dois nomes próprios. Nem queiram saber o trabalho que tive para aprender os meus nomes todos, ali pelos meus 3, 4 anos. Mas nenhum deles é alemão. Tivesse eu caído nessa asneira, ficava com um nome só. E não era o meu. E todo aquele trabalhinho infantil teria sido em vão.)
II.Num estudo na Universidade de Oldenburg, no qual foram entrevistados 500 professores da escola primária, concluiu-se que os alunos podem ser vítimas dos preconceitos dos professores relativamente ao seu nome próprio:
08 dezembro 2017
U2 berlinense
A companhia de transportes públicos berlinense tem uma equipa de marketing que é um espectáculo.
Depois conto mais. Para já, conto apenas que no dia de S. Nicolau (dia de presentes, na Alemanha): puseram os U2 a viajar na linha U2 do metro, e a dar um pequeno concerto na estação "Deutsche Oper" (que tem painéis de azulejos do José de Guimarães - Portugal sempre na linha da frente, hehehe).
outono: a vez dos pintores
Ultimamente tenho saído mais com o smartphone, e é um erro, porque há efeitos especiais que só mesmo a Baratex consegue.
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