Daqui a pouco vou ao Kino International, ali na Karl-Marx-Allee, assistir a uma sessão de Kaminer. (Podem ter inveja, é caso para isso.)
(Quem entende alemão, pode ouvir cerca de 15 minutos aqui - ao segundo minuto faz uma referência ao Ensaio sobre a Cegueira, de Saramago)
Para os outros, traduzo um pouco do seu mural de facebook:
29.11.2017
I believe, i can fly
Estão em curso no mundo inteiro os preparativos para o Natal. Na Schönhauser Allee, já há pinheirinhos decepados à venda a preços altos. Felizmente ainda não começaram a vender o fogo-de-artifício. Em compensação, os coreanos não conseguiram esperar mais e já estão - quer no Norte quer no Sul - a testar os foguetes, para ver quem tem o mais bombástico. O foguetão espacial russo com vários satélites a bordo foi disparado na mesma altura, com fins pacíficos, e caiu no mar. O ministério da Defesa do Espaço deita as culpas para a Igreja Ortodoxa. Aparentemente, o bispo que benzeu o foguetão não estava sóbrio. Por sua vez, o americano Mike Hughes não recebeu autorização para voar. Este ingénuo queria-se catapultar para o espaço num foguetão que ele próprio fez, com propulsão a vapor. A ideia era tirar fotografias lá de cima, para provar a todos que a terra é plana. Como se isso fosse novidade para alguém.
30.11.2017
Como se a terra plana de ontem não fosse suficiente, esta manhã recebi uma foto com o globo polaco. À volta de que sol giram os nossos vizinhos? Espero que regressem sãos e salvos.
Em todo o caso: os polacos têm o globo mais bonito do mundo, muito verde e sem glifosato.
[O globo da imagem foi criado para um programa satírico polaco.]
30 novembro 2017
29 novembro 2017
now
Trago a imagem do mural da Helena Ferro de Gouveia, juntamente com o seu texto:
Todos os dias me ofereço um luxo, uns minutos ohmmm. Breves momentos de prazer fugaz, roubados à navegação diária contra o ditakt do relógio. Basta-me conjugar uma planície infinita que ninguém habita, a do livro que leio de momento, e um parêntese reconfortante entre a mão e o pensamento, na forma de uma chávena de cappuccino.
"Mais do que um eterno bem estar, eu desejava um breve momento de prazer efémero", escreve Jaroslav Seifert.
Aos prazeres efémeros.
Prazeres efémeros, dizem eles...
Este é o meu relógio de quando vou ao facebook. Avança entre um e outro now a tal velocidade que a única solução é mesmo desligar tudo: janela, internet, computador.
Adeuzinho, pessoal.
(O raixparta do relógio das horas exactas bem podia tentar ter o mesmo poder hipnotizante deste aqui!)
o mais importante dos últimos cem anos
Por recomendação - e presente - de uma amiga, estou a ler um livro que conta a história de três irmãs por altura do 100º aniversário da mais velha, e a relação destas com a história da Alemanha desde a monarquia até aos anos noventa do século passado.
Chama-se "Wir sind doch Schwestern", e a autora é Anne Gesthuysen.
O livro não é o melhor dos que li este ano, mas é suficientemente bom para me agarrar e levar até à última página. E tem uma passagem que me chamou mais a atenção. Trata-se de um jornalista que vem entrevistar a quase centenária, e a encontra rodeada por amigas igualmente idosas, a beber o copinho de aguardente do meio da manhã. A conversa, em - já se sabe! -tradução rapidíssima:
O jornalista bebeu mais um copo de aguardente, e a seguir pegou na folha de papel e na caneta:
"Então, que inovação, que invenção foi a melhor da sua vida?", e corrigiu, "quero dizer, foi a melhor do seu primeiro século?" - sublinhando "primeiro" de forma exagerada. "O que é que a marcou mais?"
Wollentarski parecia contente com o elogio bem conseguido, e foi recompensado com gargalhadas alegres à volta da mesa.
"Você entendeu o mais importante, meu jovem", felicitou-o Gertrud, "não se deve louvar o dia antes do anoitecer. Sabe-se lá quantas surpresas me prepara ainda a vida!"
Wollentarski riu-se. "Com certeza, com certeza. Mas antes de olharmos para o futuro, deixe-nos fazer uma retrospectiva. O que foi que a marcou mais?"
"A pílula!", atirou uma vizinha, na brincadeira, e todas desataram a gritar:
"A chegada à lua!"
"Telefone!"
"Emancipação!"
"O automóvel!"
"Café forte!" - "Hã, café forte? Isso já havia antes, ó pateta!" - "Ah, tens razão..."
"Antibióticos!"
"Rádio!"
"Isso mesmo, e depois o cinema e a televisão! Os media, em suma.", louvou Kitty, tentando captar a atenção do jornalista. Mas Gertrud não estava disposta a abrir mão do seu lugar na conversa. Tossicou alto, e disse:
"Acalmem-se, raparigas. O senhor Wollentarski fez uma pergunta séria e merece uma resposta séria. Sabe, nasci num tempo a que se chamava Belle Époque. Albert Einstein desenvolveu a sua teoria da relatividade, a Arte Nova embelezava a vida, e então veio a primeira guerra mundial. No entanto, a vida continuou a partir de 1918, fez o seu caminho pelo meio das campas e dos hospitais militares. Recomeçaram as festas, inventaram a telefonia, havia filmes, luz eléctrica para todos. E a Democracia. Foi assim até à segunda guerra mundial, que destruiu todo o progresso e provocou ainda mais destruição e devastação que a primeira. Agora estamos de novo numa fase de construção. Inventámos computadores, a televisão e os foguetões, temos a liberdade e a União Europeia. Alegro-me com cada passo no sentido do progresso, mas temo o próximo retrocesso. A humanidade lembra-me uma criança a fazer uma torre de blocos, cada vez mais alta, cada vez mais alta, e que a meio do processo sente o prazer incontrolável de destruir tudo o que fez. E quanto mais alta faz a torre, mais se aplica a destruí-la. Desejaria um pai severo para esta criança. Talvez mais confiança em Deus, mais fé, para evitar as guerras. Em suma: a maior invenção da humanidade, senhor Wollentarski, é a paz. Mas não sei se já a inventaram realmente."
"doméstico"
Durante muitos anos não tive cães nem gatos, nem canários, nem peixinhos vermelhos, nem nada. Quer dizer: minto. Houve por cá piolhos, mas se calhar esses não entram na categoria de animais domésticos.
Com a chegada do Fox - um rafeirinho português cheio de personalidade - comecei a perguntar-me qual é a ideia de ter um animal #doméstico.
O problema é que ele nos dá tudo. Entrega-se tão inteiramente nas nossas mãos que quase me assusta: será que estaremos à altura de tamanha entrega e dependência?
Em algum momento o ser humano resolveu domesticar os animais, e agora aqui estamos: nós com mais responsabilidades ainda, e os desgraçados dos bichos numa situação de dependência contrária à natureza deles.
Embora - tantos milhares de anos mais tarde - já não saiba dizer muito bem qual é a natureza desses animais.
Em todo o caso: gosto muito do nosso cão, mas não quero ter mais nenhum animal doméstico. Vivo mal com a responsabilidade de ser o mais-que-tudo deles.
[Na foto: o Fox cheio de medo, a pedir que o deixemos ir embora da veterinária, porque já sabe que o vão fazer sofrer.]
27 novembro 2017
lá vamos nós outra vez
primavera verão outono inverno primavera verão outono inverno primavera verão outono inverno primavera verão outono inverno primavera verão outono inverno primavera verão outono inverno primavera verão outono inverno primavera verão outono inverno primavera verão outono inverno primavera verão outono inverno primavera verão outono inverno primavera verão outono inverno primavera verão outono inverno primavera verão outono inverno primavera verão outono inverno primavera verão outono inverno primavera verão outono inverno primavera verão outono inverno primavera verão outono inverno primavera verão outono inverno primavera verão outono inverno primavera verão outono inverno primavera verão outono inverno primavera verão
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da minha vida vê-se um lago,
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viver em Berlim
dez anos
Fez há pouco dez anos que nos instalámos em Berlim.
Tomámos a decisão no dia 17 de setembro de 2007, e a 17 de outubro tínhamos os camiões de mudança à porta da nossa casa em Weimar. Ainda hoje estou para saber como consegui organizar tudo em apenas um mês.
Num desses dias de correria fui a Dahlem, em busca de uma escola que me tinha sido muito recomendada. Ao atravessar uma daquelas ruas calmas, ladeadas por árvores antigas e frondosas, entre vivendas do século XIX, parei um pouco para saborear o longo túnel de folhas douradas que se desenhavam contra o céu muito azul. De repente, a brisa discreta agitou levemente os ramos e soltou uma imensidão de folhas. Surpreendida e muda pela beleza dessa neve de tons quentes, senti que a cidade me dava as boas-vindas, e que aqui podia ser muito feliz.
Desde então procuro recuperar esse momento de magia. Há tempos fiz vários filmes com a câmara de bolso, mas não fiquei nada satisfeita com o resultado. Até que, no lago onde passeio com o Fox, encontrei algo semelhante.
Isto:
Tomámos a decisão no dia 17 de setembro de 2007, e a 17 de outubro tínhamos os camiões de mudança à porta da nossa casa em Weimar. Ainda hoje estou para saber como consegui organizar tudo em apenas um mês.
Num desses dias de correria fui a Dahlem, em busca de uma escola que me tinha sido muito recomendada. Ao atravessar uma daquelas ruas calmas, ladeadas por árvores antigas e frondosas, entre vivendas do século XIX, parei um pouco para saborear o longo túnel de folhas douradas que se desenhavam contra o céu muito azul. De repente, a brisa discreta agitou levemente os ramos e soltou uma imensidão de folhas. Surpreendida e muda pela beleza dessa neve de tons quentes, senti que a cidade me dava as boas-vindas, e que aqui podia ser muito feliz.
Desde então procuro recuperar esse momento de magia. Há tempos fiz vários filmes com a câmara de bolso, mas não fiquei nada satisfeita com o resultado. Até que, no lago onde passeio com o Fox, encontrei algo semelhante.
Isto:
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o abraço como forma de abuso
A propósito deste artigo no Expresso (de onde tirei a fotografia), sobre o fundador da Pixar, John Lasseter, ter metido um semestre sabático para repensar o seu comportamento, devido a ter-se começado a falar do seu hábito de abraçar a despropósito e a desprimor depois do segundo ou terceiro copito nas festas da empresa, alguém disse no facebook que já estamos a viver em distopia.
É um comentário curioso, porque em distopia já nós vivemos há séculos. Só que era no outro extremo desta questão - as suas vítimas eram outras, e sofriam em silêncio.
Os comentários nesse post eram muito semelhantes aos que defendem o piropo: que exagero / então agora já não se pode elogiar? / quem se sentir assediado que se defenda / daqui a nada proíbem tudo.
O meu contributo para esse debate:
Começo por um detalhe que me incomoda muito, e surgiu nesse conjunto de comentários: a sugestão de que as mulheres se devem defender do assédio com violência física. Reclamo para mim o direito a andar no espaço público sem ter de me defender com estaladas ou pontapés nos tomates. O caminho é em direcção a uma sociedade civilizada, e não ao far west.
E há uma questão de fundo que muitos dos comentadores parecia estarem a esquecer: a situação que temos tido até agora é degradante e indigna. Os abusadores agem com um sentimento de segurança que advém do silêncio da vítima. Este silêncio das vítimas torna-as inexistentes, permite à sociedade viver na ilusão de que tudo está bem, e leva muitos a reagir automaticamente a favor dos assediadores, porque nem se dão conta do que estes têm andado a fazer.
Quanto à defesa do abraço propriamente dito: convém não confundir as coisas. Há muitos tipos de abraço - o único permitido (e desejável) é aquele que não vai além do que a relação entre as pessoas justifica. (Desculpem estar aqui a dizer lapalissadas.)
Pergunto a quem está tão preocupado com a, digamos assim, “criminalização do abraço”: sendo certo que a fronteira entre um e outro é pouco nítida, entre ter um abraço a menos e ter um apalpão a mais, o que preferem? Preferem que uma pessoa só abrace se tiver a certeza de que esse contacto é bem-vindo, ou que, por sistema, seja a pessoa abraçada quem tem de gastar tempo e nervos a pensar se aquele abraço desagradável terá sido "normal" ou abuso, e como é que devia ter reagido?
Penso que é positivo ser claro para todos que um contacto físico desagradável pode ter consequências para quem passou os limites, e é muito positivo que o ónus esteja do lado que quem passa os limites, e não da sua vítima.
Concordo que de momento está a haver exageros de sentido contrário, e até que há algo de anacrónico nesta onda de repúdio, porque se baseia nos valores de hoje, mas incide também em muitos casos de assédio que ocorreram num tempo em que esse comportamento era considerado, quando muito, “delito de cavalheiro” (não sei se a expressão existe em português; neste contexto, em que os poderosos estavam habituados a abusar impunemente, acho-a muito apropriada). No entanto, mesmo com todos os exageros e relativas injustiças, parece-me fundamental denunciar, alertar e debater, e que se torne muito claro que, a partir de hoje, a sociedade não admite e não perdoa este comportamento.
No caso do artigo do Expresso, de que só li a parte que o jornal deixa aberta a todos: parece ser um caso em que o próprio reconhece que abraçou de forma abusadora. O barulho à volta dele pode até ser exagerado e injusto, mas o facto de se falar tanto disto abre a porta para que, quando alguém for abraçado de uma forma que sinta como desagradável, possa olhar o outro nos olhos com segurança, e perguntar: "que merda é esta?!" Depois da vaga actual de crítica e repúdio, a outra pessoa entenderá, e saberá os riscos que corre se continuar a insistir nesse comportamento. E sem esta vaga - às vezes exagerada - de repúdio, quem abusa podia continuar a rir-se e a virar o bico ao prego, envergonhando quem se queixa. Que é o que tem acontecido até agora.
Quanto aos temores sobre o plano inclinado em direcção ao puritanismo exacerbado, ou algo do género: concordo que neste momento estamos a passar do oito ao oitenta, mas esse oitenta é necessário para que estabelecer na cabecinha de toda a gente que os apalpões sub-reptícios não são admissíveis, e para que as/os apalpadas/os saibam que têm o direito de protestar e de envergonhar quem os pratica, em vez de engolir em seco e fazer de conta que não aconteceu. Uma vez conseguida esta plataforma de novas regras do jogo, podemos começar a falar do plano inclinado. Se for caso disso.
O que não podemos permitir é a situação que tínhamos até agora em que os abusadores faziam impunemente os que lhes apetecia (e mais que impunemente: pensando que é essa a ordem natural das coisas - vide Trump a explicar em tom gabarolas que quando se é famoso/poderoso se pode grab them by the pussy), e em que a pessoa assediada tem de comer e calar, porque se falar é ela quem fica mal.
25 novembro 2017
"assimetria"
Esta manhã mostraram-me uma notícia da ARD, informando que em 2016, na Alemanha, 146 mulheres foram vítimas mortais de violência doméstica. Nesse ano, 82% das vítimas mortais de violência doméstica foram mulheres.
Espreitei os comentários. Um dos primeiros dizia: "então e os homens? eles também apanham!"
Típico. A habitual tentativa de argumentar de forma simétrica para iludir a questão gritante da assimetria de poder e de força chega a ser patética. Como alguém respondeu: "É óbvio que não se pode esquecer a violência exercida contra homens. Mas a relação 82% para 18% é muito clara. Tão clara, que não permite que as pessoas recorram ao whataboutism para desviar a atenção dos factos."
E quais são os factos?
Um inquérito a 42 000 mulheres dos 28 Estados-Membros da União Europeia revelou que a violência contra as mulheres compromete os seus direitos fundamentais, tais como a dignidade, o acesso à justiça e a igualdade de género.AS mulheres foram questionadas sobre as suas experiências de violência física, sexual ou psicológica, incluindo atos violentos perpetrados por um parceiro íntimo («violência doméstica»), bem como sobre a perseguição, o assédio sexual e o papel desempenhado pelas novas tecnologias nos abusos sofridos. Foram igualmente inquiridas sobre as suas experiências de violência na infância.
(...) Por exemplo, uma em cada três mulheres sofreu violência física e/ou sexual desde os 15 anos de idade; uma em cada cinco mulheres foi vítima de perseguição; uma em cada duas mulheres foi confrontada com uma ou mais formas de assédio sexual. Estamos, deste modo, perante um quadro de abuso disseminado, que, embora afete a vida de muitas mulheres, é sistematicamente objeto de notificação insuficiente às autoridades. Os dados oficiais não refletem, por conseguinte, a amplitude da violência contra as mulheres.
Voltando ao meu site da ARD, e para piorar ainda mais: alguns comentários à frente, apareceram cidadãos alemães daqueles tipo "preocupados com a islamização da Europa" a insinuar que isso é uma problemática dos imigrantes. Ao que outra pessoa respondeu: "Há alemães que se tornam feministas convictos quando a violência sobre as mulheres parte de um estrangeiro; quando é perpretada por um alemão, usam-se as habituais frases misóginas."
Seria caso para dizer: uma assimetria nunca vem só...
A tragédia das mulheres imigrantes vítimas da violência do seu companheiro ou dos familiares é instrumentalizada para um discurso xenófobo que repudia os imigrantes. As mulheres estrangeiras, ou filhas de estrangeiros, que sofrem às mãos de um companheiro violento tornam-se assim duplamente vítimas - da violência doméstica e da violência, pelo menos verbal, dos xenófobos.
Neste contexto, calha às mulheres refugiadas um lugar de particular fragilidade. Traumatizadas e no meio de gente traumatizada, com os nervos em franja, tendo percorrido uma rota de fuga na qual terão sido testemunhas e até vítimas de situações de enorme violência, abrigadas tantas vezes em alojamentos sem um mínimo de condições nem privacidade, é particularmente cínico que alguns cidadãos europeus "preocupados" dirijam discursos de ódio contra o desgraçado grupo em que se encontram.
A Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia preocupa-se particularmente com estas mulheres. Uma vez que o contexto de refugiada sujeita estas mulheres a riscos acrescidos de violência, pede-se aos países da União Europeia que tenham um cuidado especial com elas, nomeadamente estando mais atentos às questões da violência de género - neste grupo em particular, e no conjunto da sociedade em geral.
Para terminar, uma história que nos dá esperança e indica o rumo a seguir: há tempos vi uma entrevista a uma mulher que vive num hotel berlinense convertido em abrigo para refugiados. Contava ela que o seu marido sempre fora um homem que batia nela e nos filhos. Ao chegarem à Alemanha, fizeram-lhe saber que esse comportamento não era aceitável neste país. Como o homem não conseguia controlar-se, foi afastado da família e proibido de chegar perto da ex-mulher e dos filhos. A mulher contava tudo isto com um ar de segurança e alívio que me comoveram: quanto não vale viver num país cujo Estado e cuja sociedade estão atentos às assimetrias e fazem o que está ao seu alcance para proteger os mais fracos!
"thanksgiving" (3)
Mais um contributo roubado da Enciclopédia Ilustrada: a refeição típica de Thanksgiving nos EUA, feita à maneira de artistas famosos.
A autora é Hannah Rothstein, que vive em San Francisco. Na Time há mais informações sobre esta série - aqui. Mas vão ler apenas depois de terem tentado adivinhar qual é o artista representado em cada uma destas imagens.
A autora é Hannah Rothstein, que vive em San Francisco. Na Time há mais informações sobre esta série - aqui. Mas vão ler apenas depois de terem tentado adivinhar qual é o artista representado em cada uma destas imagens.
Pedro Rolo Duarte
Vou ser sincera: não o conhecia. Sabia que existia, e pouco mais.
Mas ao ver esta homenagem do Observador fiquei com a sensação de que perdemos um daqueles que nos mostram a diferença.
24 novembro 2017
"thanksgiving" (2)
Normalmente não copio para este blogue o que os caros colegas publicam na Enciclopédia Ilustrada, mas desta vez tem de ser.
(Espero que isto não me aconteça muito porque, se me ponho a trazer para aqui o que de excelente se publica lá, vou parecer o vai-vem espacial das redes sociais, e nunca mais faço outra coisa)
"To John Dillinger and hope he is still alive.
Thanksgiving Day November 28 1986"
Thanks for the wild turkey and
the passenger pigeons, destined
to be shat out through wholesome
American guts.
Thanks for a continent to despoil
and poison.
Thanks for Indians to provide a
modicum of challenge and
danger.
Thanks for vast herds of bison to
kill and skin leaving the
carcasses to rot.
Thanks for bounties on wolves
and coyotes.
Thanks for the American dream,
To vulgarize and falsify until
the bare lies shine through.
Thanks for the KKK.
For nigger-killin' lawmen,
feelin' their notches.
For decent church-goin' women,
with their mean, pinched, bitter,
evil faces.
Thanks for
"Kill a Queer for Christ"
stickers.
Thanks for laboratory AIDS.
Thanks for Prohibition and the
war against drugs.
Thanks for a country where
nobody's allowed to mind his
own business.
Thanks for a nation of finks.
Yes, thanks for all the memories
-- all right let's see your arms!
You always were a headache and
you always were a bore.
Thanks for the last and greatest betrayal
of the last and greatest
of human dreams.
(Espero que isto não me aconteça muito porque, se me ponho a trazer para aqui o que de excelente se publica lá, vou parecer o vai-vem espacial das redes sociais, e nunca mais faço outra coisa)
"To John Dillinger and hope he is still alive.
Thanksgiving Day November 28 1986"
Thanks for the wild turkey and
the passenger pigeons, destined
to be shat out through wholesome
American guts.
Thanks for a continent to despoil
and poison.
Thanks for Indians to provide a
modicum of challenge and
danger.
Thanks for vast herds of bison to
kill and skin leaving the
carcasses to rot.
Thanks for bounties on wolves
and coyotes.
Thanks for the American dream,
To vulgarize and falsify until
the bare lies shine through.
Thanks for the KKK.
For nigger-killin' lawmen,
feelin' their notches.
For decent church-goin' women,
with their mean, pinched, bitter,
evil faces.
Thanks for
"Kill a Queer for Christ"
stickers.
Thanks for laboratory AIDS.
Thanks for Prohibition and the
war against drugs.
Thanks for a country where
nobody's allowed to mind his
own business.
Thanks for a nation of finks.
Yes, thanks for all the memories
-- all right let's see your arms!
You always were a headache and
you always were a bore.
Thanks for the last and greatest betrayal
of the last and greatest
of human dreams.
23 novembro 2017
"thanksgiving"
[Freedom from Want is a painting by American artist Norman Rockwell. The painting, which is also known as The #Thanksgiving Picture, is an oil on canvas work completed in 1943, and is in the Norman Rockwell Museum in Stockbridge, Massachusetts.]
O thanksgiving, os EUA e eu (por menos que isto, não faço ;) )
Thanksgiving, só há o americano. O da quinta-feira que antecede a Black Friday, o do peru e da pumpkin pie, o da família reunida à mesa e o do patriarca a rezar para todos, o do jogo de futebol americano, o da parada do Macy’s. O resto são festinhas, ou celebrações que vão morrendo com o mundo rural – como a Festa das Colheitas. A Festa das Colheitas, se querem saber, ainda agora se celebra nas igrejas das cidades alemãs. Enchem os altares de cereais e frutos como se fosse uma grande coisa, até parece que não sabem que isso existe nos supermercados o ano inteiro, e até a preços bastante acessíveis.
Mas a Festa das Colheitas e as celebrações de Acção de Graças não são, como disse, o Thanksgiving.
Quando fomos morar nos Estados Unidos achávamos que já sabíamos tudo sobre esta comemoração. Afinal de contas já tínhamos celebrado alguns com amigos da comunidade norte-americana que vivia na nossa cidade alemã (sim, que os soldados americanos não abandonaram a Alemanha mal o muro caiu). Como um amigo meu comentou uma vez, a propósito das férias que passava no Douro, na casa de um padre onde havia uma cozinheira fantástica: “tínhamos de rezar antes de comer, mas valia a pena”. Oh, se valia! O fiambre assado, o presunto recheado, o baked macaroni and cheese, o puré de batata, o cranberry sauce, a pumpkin pie, tudo! Depois do jantar, eu lembrava-me com muita urgência dos meus deveres de mãe, e levava os miúdos para casa porque eram horas de dormir, e assim escapava à seca do futebol americano. Os outros ficavam em frente à televisão, a beber cervejas e a soltar exclamações. Um Thanksgiving bem passado, em suma.
Pois, quando nos mudámos para os EUA pensávamos que sabíamos tudo sobre o Thanksgiving, mas a verdade é que nem da missa a metade. Aprendemos o resto com os nossos filhos, que em Outubro nos desatavam a contar histórias mirabolantes de pilgrims e índios, e na semana do Thanksgiving preparavam com muito entusiasmo os seus apetrechos para a festa na escola. É que, antes de comer os pratos típicos da data, tinham de encenar aquele momento histórico em que os pilgrims chegavam de barco, os índios os recebiam com toda a gentileza, e logo ali faziam uma grande festa com peru assado, corn bread e pumpkin pie.
Eu enternecia-me com o ar sério deles no papel de pilgrim ou de índio, conforme lhes calhasse, e nem me percebia da estratégia da propaganda e da lavagem ao cérebro que ali estava a decorrer. Só me dei conta no dia em que uma adulta nascida e criada nos EUA começou a dizer-me, com um ar muito concentrado e com todo o detalhe, como tinha sido essa festa e o que tinham comido. Quase lhe perguntei se não se estava a esquecer do baked macaroni and cheese...
A maior parte dos norte-americanos acredita piamente naquele episódio de paz e amor entre os povos, tal e qual, com pumpkin pie e tudo.
A verdade é um pouco diferente, e começa com o Martinho Lutero, esse extraviado [o mais tardar aqui, perceberão que sou católica] [e que estou a brincar] que andou a provocar cisões na Santa Madre, e pôs as pessoas a pensar pela sua cabeça em vez de continuar a dizer ámen ao papa, de modo que cem anos depois andava tudo à turra e à massa, e um grupo da igreja congregacional, que era um ramo radical do puritanismo, que já se tinha separado do calvinismo, achou melhor ir de Inglaterra para Amesterdão, e daí para Leiden, e daí para Southampton, para se meter num barco e zarpar para um continente novo de cem anos, e onde provavelmente os deixariam em paz com a fé deles. Saíram em Setembro de 1620, e depois de uma paragem em Plymouth largaram “on a ship they call the Mayflower / a ship that sailed the moon / in the ages' most uncertain hours and sing an American tune”. A viagem durou mais tempo do que tinham pensado e os ventos levaram-nos para Cape Cod, em vez da Virgínia para onde tinham comprado o bilhete. Rapidamente perceberam que a terra arenosa da região onde tinham desembarcado não lhes daria de comer, pelo que rumaram um pouco mais a sul, instalando-se na terra a que depois dariam o nome de Plymouth – como quem diz que a História se faz em círculos. O inverno estava à porta, eles não tinham o que comer e não lhes ocorreu que um mar chamado Cape Cod devia ter o bacalhau suficiente para lhes compor a ceia de Natal, e as ceias dos outros dias todos. De modo que ficaram cheios de escorbuto no Mayflower, sem saber o que fazer à vida, e passaram tanta fome e tanto frio que morreram mais de metade dos 102 que tinham vindo de Inglaterra, e só não morreram todos porque se puseram a roubar os armazéns de víveres abandonados e os túmulos dos índios da região.
Os índios da região, por sua vez, tinham problemas para dar e vender. Três anos antes uma epidemia tinha atingido mortalmente muitos deles, e as tribos estavam traumatizadas e enfraquecidas. O que explica os depósitos de comida abandonados que os pilgrims encontraram: toda a população daquela aldeia tinha morrido.
O inverno passou. Em Março, quando os pilgrims resolveram instalar-se em terra firme, veio ao seu encontro um índio abenaki que os cumprimentou em inglês. Garanto que isto não é um filme Walt Disney, foi mesmo assim. Esse índio voltou uns dias depois com outro, que falava perfeitamente inglês. Era Squanto - e bem lhe podiam chamar Salvador! – que em tempos fora capturado pelo capitão de um navio inglês e vendido como escravo, e depois de fugir para Londres tinha voltado à sua terra numa missão de exploração. Squanto ensinou os pilgrims a cultivar as plantas daquela terra, a pescar nos rios e a evitar as plantas venenosas. Foi ele quem os ajudou trambém a celebrar um acordo de paz com os Wampanoag, que durou 50 anos e foi um dos poucos casos de coexistência pacífica entre europeus e populações nativas. Mas a este tratado de paz, curiosamente, ninguém liga hoje em dia. A única coisa que interessa os norte-americanos parece ser o peru, a pumpkin pie e o jogo de futebol americano. Em Novembro de 1621, quase um ano depois de terem chegado àquela terra, os pilgrims fizeram uma festa das colheitas e convidaram alguns dos índios seus amigos. A festa repetiu-se dois anos mais tarde, para comemorar o fim de um período de grave seca, e foi entrando nos hábitos do novo país. Também, verdade seja dita, não era uma especialidade apenas dos pilgrims e dos índios seus amigos – a festa das colheitas já se fazia noutras regiões desse continente, bem como na Europa – e se formos a ver, até no Egipto antigo. A coisa foi evoluindo até que George Washington proclamou um dia de Thanksgiving para agradecer o sucesso das guerras de secessão e a criação da constituição americana. Em 1827, Sarah Josepha Hale, editora de uma revista e escritora (e escusam de dizer que não conhecem: é a autora de “Mary Had a Little Lamb”), começou uma campanha para que o Thanksgiving passasse a ser um feriado nacional. Andou nisto 36 anos. Finalmente, no apogeu da Guerra Civil, Lincoln considerou que era boa ideia criar um dia para pedir a Deus “to commend to his tender care all those who have become widows, orphans, mourners or sufferers in the lamentable civil strife” e ainda “heal the wounds of the nation.” O Thanksgiving passou a celebrar-se em todo o país na última quinta-feira de Novembro, até 1939, quando Roosevelt decidiu antecipar a data numa semana, para alargar o período de compras de Natal e assim fintar a Grande Depressão. O seu plano, a que chamaram desdenhosamente Franksgiving, encontrou enorme oposição, pelo que em 1941 o presidente se viu obrigado a assinar um decreto determinando que a data do Thanksgiving é a quarta quinta-feira de Novembro.
Actualmente, este feriado é o momento anual mais importante de encontro das famílias, com os consequentes engarrafamentos nas estradas e nos aeroportos, e ganhou alguns detalhes folclóricos como o desfile do Macy’s, em Nova Iorque, e o peru que recebe o perdão presidencial – algo que começou oficialmente com Bush pai 200 exactos anos após a proclamação do Thanksgiving por Washington. Obama concedia o perdão com imensa graça (vejam os filmes no youtube), e Trump, enfim, fá-lo naturalmente à sua maneira trompassada. [Trompassada: pensava que era português, mas afinal parece que é catalão – tem a ver com “tropeçar”. Que chatice, dava-me um trocadilho tão bom para o Trump!]
Em suma: o Thanksgiving tornou-se um elemento importante de reforço da identidade que um país tão novo como os EUA inventou para si. E funciona tão bem, que as pessoas até acreditam naquela palhaçada dos Pilgrims a comer pumpkin pie com os índios.
--
Depois de escrever tudo isto, deu-me a saudade de uma boa pumpkin pie. E dos passeios pelos campos de abóboras no Outono. E do peru bem assado. Um amigo meu faz um peru de Thanksgiving que fica uma delícia: deixa-o a assar em brandíssimo lume (acho que é 60º C) durante cerca de 24 horas. O truque permite assar por igual as carnes brancas e as escuras, fica tudo tenrinho, e nada seco. Hmmmm. Ah, as saudades da tal pumpkin pie! Não tenho como fazer uma dessas aqui, porque as minhas receitas são todas com evaporated milk e pumpkin em conserva. Alguém sabe evaporar leite, e transformar uma abóbora fresca numa lata de abóbora?
--
Este texto é uma síntese do meu saber de experiência feito, e ainda dos seguintes artigos: http://www.history.com/topics/thanksgiving/history-of-thanksgiving
http://www.telegraph.co.uk/news/0/thanksgiving-day-whats-the-history-of-the-holiday-and-why-does-the-us-celebrate-pilgrim-fathers/
https://news.nationalgeographic.com/2015/11/151121-first-thanksgiving-pilgrims-native-americans-wampanoag-saints-and-strangers/
gerador de piadas secas (2)
Socorro! Voltei ao local do crime.
Olhem-me esta:
Os pais descobrem que o filho tem no quarto revistas de práticas sado-masoquistas.
- E agora, que lhe fazemos?, pergunta a mãe.
- Acho que o melhor é não lhe bater..., responde o pai.
(Imploro-vos: ponham-me umas algemas, batam-me se chegar perto daquele gerador de anedotas!)
(Bem, se não me ajudam a combater o vício, conto mais algumas que entretanto os amigos foram acrescentando no meu mural de facebook, e outras que entretanto li)
(Tirem-me de lá!)Uma muito boa para quando acabas de conhecer alguém:
- Quanto pesa um urso polar?
- Não sei.
- O suficiente para quebrar o gelo.
- Como se chama a um conjunto de lobos (wolfen)?
- Wolfgang.
Olhem-me esta:
Os pais descobrem que o filho tem no quarto revistas de práticas sado-masoquistas.
- E agora, que lhe fazemos?, pergunta a mãe.
- Acho que o melhor é não lhe bater..., responde o pai.
(Imploro-vos: ponham-me umas algemas, batam-me se chegar perto daquele gerador de anedotas!)
(Bem, se não me ajudam a combater o vício, conto mais algumas que entretanto os amigos foram acrescentando no meu mural de facebook, e outras que entretanto li)
(Tirem-me de lá!)Uma muito boa para quando acabas de conhecer alguém:
- Quanto pesa um urso polar?
- Não sei.
- O suficiente para quebrar o gelo.
- Como se chama a um conjunto de lobos (wolfen)?
- Wolfgang.
Dois funcionários públicos encontram-se junto à máquina do café, diz um para o outro:
- Também não consegues dormir?
- Também não consegues dormir?
Quando um cientista prova um molho, o molho fica cientificamente provado?
- Quantas flexões consegue Chuck Norris?
- Todas!
- Você é Salvador Dalí?
- Não, sou daqui.
- Quantas flexões consegue Chuck Norris?
- Todas!
- Você é Salvador Dalí?
- Não, sou daqui.
Três homens vão à caça. O primeiro tem uma espingarda, o segundo tem um cão, o terceiro tem cáries.
- Porque é que tens cáries?, perguntam-lhe
- Um em cada três tem cáries.
- O que é doce, e atravessa o deserto?
- Um caramelo.
- O que se encontra no duche de um canibal?
- Head & Shoulders.
- O que se encontra no duche de um canibal?
- Head & Shoulders.
gerador de piadas secas
Neste momento (em que as negociações para a coligação governamental falharam, etc.etc. etc.) o artigo mais lido no Spiegel online é um gerador de piadas secas. Fui espreitar, e já dei um bom par de gargalhadas. Os políticos vão ter de se desenrascar sem mim, que esta vida são dois dias, e este gerador de anedotas é viciante.
Infelizmente, quase nenhuma dá para traduzir. Ou felizmente, porque se desse corria o risco de passar o resto do dia a rir e a traduzir.
Em todo o caso, deixo aqui o link. Pode ser que adiante muito aos professores de alemão, entre outros.
Algumas delas:
Como é que se chama um espanhol sem carro?
Carlos
[car-los = car-less em inglês]
A minha namorada gosta muito de brincar aos médicos.
Já está há duas horas sentada no corredor à espera.
Porque é que só raramente se vêem elefantes escondidos nas árvores?
Porque eles são mesmo bons nisso.
Qual é a diferença entre um pássaro?
Ambas as pernas têm o mesmo comprimento, especialmente a esquerda.
[O que me lembra o livro de Filosofia alemão que tem um título com o mesmo tipo de humor: "Quem sou eu, e, em caso afirmativo, quantos?"]
O menino Joãozinho está a chorar em cima de uma ponte. Uma senhora pergunta:
- Porque estás a chorar?
- Porque aquele homem deitou o meu pão ao rio.
- Com maldade?, pergunta ela.
- Não, com fiambre.
Dois palitos sobem a uma montanha e encontram um ouriço.
Diz um palito ao outro: se soubesse que havia um autocarro, não tinha vindo a pé!
Um homem entra num bar e encomenda dez cervejas e dez aguardentes. Depois de beber tudo, encomenda nove cervejas e nove aguardentes. Depois de beber tudo, encomenda oito cervejas e oito aguardentes. E assim sucessivamente.
Às tantas, comenta:
- Que estranho - quanto menos bebo mais bêbedo fico...
Esta não dá para traduzir, mas é tão tola que tenho de incluir:
Ela: Vou-me divorciar! Já não aguento mais o teu comportamento infantil!
Ele: Hihihihi! Disseste vagina!
[divorciar: scheiden; vagina: Scheide]
Como é que se chama um espanhol sem carro?
Carlos
[car-los = car-less em inglês]
A minha namorada gosta muito de brincar aos médicos.
Já está há duas horas sentada no corredor à espera.
Porque é que só raramente se vêem elefantes escondidos nas árvores?
Porque eles são mesmo bons nisso.
Qual é a diferença entre um pássaro?
Ambas as pernas têm o mesmo comprimento, especialmente a esquerda.
[O que me lembra o livro de Filosofia alemão que tem um título com o mesmo tipo de humor: "Quem sou eu, e, em caso afirmativo, quantos?"]
O menino Joãozinho está a chorar em cima de uma ponte. Uma senhora pergunta:
- Porque estás a chorar?
- Porque aquele homem deitou o meu pão ao rio.
- Com maldade?, pergunta ela.
- Não, com fiambre.
Dois palitos sobem a uma montanha e encontram um ouriço.
Diz um palito ao outro: se soubesse que havia um autocarro, não tinha vindo a pé!
Um homem entra num bar e encomenda dez cervejas e dez aguardentes. Depois de beber tudo, encomenda nove cervejas e nove aguardentes. Depois de beber tudo, encomenda oito cervejas e oito aguardentes. E assim sucessivamente.
Às tantas, comenta:
- Que estranho - quanto menos bebo mais bêbedo fico...
Esta não dá para traduzir, mas é tão tola que tenho de incluir:
Ela: Vou-me divorciar! Já não aguento mais o teu comportamento infantil!
Ele: Hihihihi! Disseste vagina!
[divorciar: scheiden; vagina: Scheide]
22 novembro 2017
"Weinstein"
Dei-me conta do escândalo #Weinstein
devido a este artigo na New Yorker, escrito por Ronan Farrow, o filho
de Mia Farrow com contas em aberto em Hollywood e em particular com o pai dele, Woody
Allen.
A gravação que vinha com o artigo reabriu uma ferida antiga em mim. Eu já falei com este tom de voz, já disse "não quero" e "deixa-me ir embora" com este exacto tom de voz. Tinha oito anos.
Nunca contei aos adultos à minha volta o que aconteceu nesse dia em Paris: fui-me despedir das minhas amiguinhas antes de regressar a Portugal, e o pai delas, que estava sozinho em casa, mentiu-me dizendo que elas estavam a brincar às escondidas, e atraiu-me à casa de banho. Só me deixou sair depois de eu ter cedido a dar-lhe o beijo que exigia. Foi apenas um beijo na cara, mas ando já há 45 anos a rogar-lhe pragas. Espero que algumas tenham funcionado, especialmente as que incluem pústulas, podridão e dores lancinantes na parte da cara que fui obrigada a beijar.
Porque é que não contei aos primos da minha mãe, com quem estava a passar férias? Porque é que não contei aos meus pais?
"Porque é que as mulheres não contam o que lhes fazem? Porque é que só agora é que lhes deu para se queixarem?" - é uma acusação frequente ligada ao escândalo Weinstein e à onda de testemunhos que se lhe seguiu.
Em Maio de 2016, o jornalista Ronan Farrow explicou com o exemplo da sua própria irmã o que acontece às mulheres que ameaçam os poderosos, e mostrou como a máquina de Hollywood protege os seus machos (My Father, Woody Allen, and the Danger of QuestionsUnasked). Uns meses depois, Ronan começou um trabalho de investigação sobre o comportamento de predador sexual de Weinstein, um dos poderosos que defendeu Woody Allen quando este foi acusado de abuso sexual pela própria filha. Andou dez meses a entrevistar mulheres e a preparar o artigo que, depois de ter visto a sua publicação recusada noutros órgãos de informação, foi publicado na New Yorker (From Aggressive Overtures to Sexual Assault: Harvey Weinstein’s Accusers Tell Their Stories).
Em 2015, logo depois de ter sido vítima de abuso sexual por parte de Weinstein, Ambra Battilana Gutierrez, a modelo que se ouve na gravação no topo deste post, queixou-se à polícia de Nova Iorque, que lhe sugeriu que se encontrasse de novo com Weinstein e gravasse a conversa. Foi o que ela fez. Entregou a gravação à polícia. Esta, depois de falar com Weinstein, decidiu arquivar o processo. Entretanto, nos boulevards começaram a pipocar notícias que arruinaram o bom nome da modelo.
"Porque é que as mulheres só agora começaram a falar destes assuntos?" - o mínimo que se pode dizer desta pergunta é que é de um cinismo inacreditável. O que espanta é que, apesar de todas as ameaças e de todos os riscos, algumas tenham tido a coragem de denunciar algo que todos sabem e preferem fazer de conta que não vêem.
Porquê agora? Estou convencida que a vaga mundial de repúdio provocada pela gravação "grab them by the pussy" de Donald Trump, quando este concorria à presidência dos EUA, teve um papel muito importante na mudança da atitude em relação a estas histórias.
No entanto, o que me enfurece ainda mais do que o próprio conteúdo da gravação, é o facto de a terem divulgado por necessidade estratégica eleitoral, e não por uma questão de decência ou de revolta pelo modo como ali se fala das mulheres. A gravação existia desde 2005. Tudo nela é abjecto, mas durante uma década inteira ninguém se lembrou de a divulgar. Só a usaram em Outubro de 2016 - e foi porque era preciso evitar a todo o custo que Trump se tornasse presidente. Se Trump não tivesse concorrido às eleições, se não tivesse havido alguém que decidiu chegar ao extremo de divulgar material "sensível" como este para impedir a sua eleição, provavelmente ainda hoje quase nenhuma mulher teria a coragem de enfrentar um mundo que as hostiliza e castiga quando decidem acusar um homem poderoso. E o mundo continuaria a organizar-se para ignorar, desprezar e desconfiar das poucas que ousassem erguer a voz.
A gravação que vinha com o artigo reabriu uma ferida antiga em mim. Eu já falei com este tom de voz, já disse "não quero" e "deixa-me ir embora" com este exacto tom de voz. Tinha oito anos.
Nunca contei aos adultos à minha volta o que aconteceu nesse dia em Paris: fui-me despedir das minhas amiguinhas antes de regressar a Portugal, e o pai delas, que estava sozinho em casa, mentiu-me dizendo que elas estavam a brincar às escondidas, e atraiu-me à casa de banho. Só me deixou sair depois de eu ter cedido a dar-lhe o beijo que exigia. Foi apenas um beijo na cara, mas ando já há 45 anos a rogar-lhe pragas. Espero que algumas tenham funcionado, especialmente as que incluem pústulas, podridão e dores lancinantes na parte da cara que fui obrigada a beijar.
Porque é que não contei aos primos da minha mãe, com quem estava a passar férias? Porque é que não contei aos meus pais?
"Porque é que as mulheres não contam o que lhes fazem? Porque é que só agora é que lhes deu para se queixarem?" - é uma acusação frequente ligada ao escândalo Weinstein e à onda de testemunhos que se lhe seguiu.
Em Maio de 2016, o jornalista Ronan Farrow explicou com o exemplo da sua própria irmã o que acontece às mulheres que ameaçam os poderosos, e mostrou como a máquina de Hollywood protege os seus machos (My Father, Woody Allen, and the Danger of QuestionsUnasked). Uns meses depois, Ronan começou um trabalho de investigação sobre o comportamento de predador sexual de Weinstein, um dos poderosos que defendeu Woody Allen quando este foi acusado de abuso sexual pela própria filha. Andou dez meses a entrevistar mulheres e a preparar o artigo que, depois de ter visto a sua publicação recusada noutros órgãos de informação, foi publicado na New Yorker (From Aggressive Overtures to Sexual Assault: Harvey Weinstein’s Accusers Tell Their Stories).
Em 2015, logo depois de ter sido vítima de abuso sexual por parte de Weinstein, Ambra Battilana Gutierrez, a modelo que se ouve na gravação no topo deste post, queixou-se à polícia de Nova Iorque, que lhe sugeriu que se encontrasse de novo com Weinstein e gravasse a conversa. Foi o que ela fez. Entregou a gravação à polícia. Esta, depois de falar com Weinstein, decidiu arquivar o processo. Entretanto, nos boulevards começaram a pipocar notícias que arruinaram o bom nome da modelo.
"Porque é que as mulheres só agora começaram a falar destes assuntos?" - o mínimo que se pode dizer desta pergunta é que é de um cinismo inacreditável. O que espanta é que, apesar de todas as ameaças e de todos os riscos, algumas tenham tido a coragem de denunciar algo que todos sabem e preferem fazer de conta que não vêem.
Porquê agora? Estou convencida que a vaga mundial de repúdio provocada pela gravação "grab them by the pussy" de Donald Trump, quando este concorria à presidência dos EUA, teve um papel muito importante na mudança da atitude em relação a estas histórias.
No entanto, o que me enfurece ainda mais do que o próprio conteúdo da gravação, é o facto de a terem divulgado por necessidade estratégica eleitoral, e não por uma questão de decência ou de revolta pelo modo como ali se fala das mulheres. A gravação existia desde 2005. Tudo nela é abjecto, mas durante uma década inteira ninguém se lembrou de a divulgar. Só a usaram em Outubro de 2016 - e foi porque era preciso evitar a todo o custo que Trump se tornasse presidente. Se Trump não tivesse concorrido às eleições, se não tivesse havido alguém que decidiu chegar ao extremo de divulgar material "sensível" como este para impedir a sua eleição, provavelmente ainda hoje quase nenhuma mulher teria a coragem de enfrentar um mundo que as hostiliza e castiga quando decidem acusar um homem poderoso. E o mundo continuaria a organizar-se para ignorar, desprezar e desconfiar das poucas que ousassem erguer a voz.
17 novembro 2017
"romantismo"
Ontem,
na Enciclopédia Ilustrada, a palavra era "romantismo". Precisava de
meter uma semana de férias para apreciar todos os caminhos que lá se
abriram: Victor Hugo como pintor, Rachmaninov, música quase pimba, temas
românticos, António Nobre, a "Révolucionaire" de Chopin acompanhada por
um texto tão bom como a música, e muitíssimo mais.
Passo a vida a pensar isto, e é sempre - e cada vez mais - actual:
"Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Pra poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes.”
Hoje a palavra é Saramago, amanhã não sabemos.
Só sei que precisava de meter todos os dias uma semana de férias, para saborear tudo e aprender muito com eles. :)
--
Pequena amostra do trabalho dos estimados colegas:
"VICTOR HUGO PINTOR
Todos conhecemos a importância de Victor Hugo como um dos mais importantes autores e teóricos do #ROMANTISMO.
Já a sua obra como pintor é menos conhecida e, no entanto, muito original."
" #Romantismo|
E não me vou embora sem vos deixar aqui a minha peça favorita de Chopin, chama-se Révolucionaire, pois claro e, é fatal, traz-me lágrimas aos olhos.
É preciso lembrar que a Polónia é um país desde sempre rasgado entre os Impérios europeus e no fim do sec. XIX foi sujeita a três partilhas entre Rússia, Prússia e Áustria, que condenaram o país a desaparecer do mapa e o seu território a ser dividido.
Em 1807, ( parece que graças a Maria Walewska) Napoleão restabeleceu um Estado polaco, o Ducado de Varsóvia, mas em 1815, após as guerras napoleónicas, o Congresso de Viena tornou a partilhar o país. A porção oriental coube ao tzar russo, e era regida por uma constituição liberal. Entretanto, os tzares logo trataram de restringir as liberdades polacas e a Rússia terminou por anexar de facto o país.
Chopin como tantos intelectuais da sua época admirava Napoleão. E esta peça de 1831 ainda remete para o 'libertador' da Polónia.
Eu ouço-a sempre como um diálogo entre duas pessoas que se amam, ou um diálogo dentro de si próprio...em que o refrão é: tenho de ir, tenho de ir.
Ouçam são 2 minutos fabulosos."
"(...) que não falte o clímax do #romantismo, a cena de todos os arrepios. Com o bónus de podermos ficar a olhar para a cara da Ingrid Bergman enquanto o tempo passa."
"Der Wanderer über dem Nebelmeer (O caminhante sobre o mar de névoa), de Caspar David Friedrich, pintura que se diz encarnar a essência dos princípios da estética do #romantismo da paisagem: uma figura solitária contempla uma imponente paisagem alpina em cima de um pico rochoso, descrição a que hoje se acrescentaria: "empunhando um dispositivo que permite fixar o momento".
Mudam-se os tempos, mudam-se as estéticas, mas nem por isso as vontades mais profundas."
"
#Romantismo, além do sentido próprio no domínio da arte, é aquela ideia que conduz a esse estado nebuloso e açucarado em que homens e mulheres se permitem os maiores erros
:-)
Um grande filme, da época em que os grandes filmes eram todos filmes românticos, foi o Breve encontro, ou "Brief encounter", como dizem os americanos... Com Trevor Howard e Celia Johnson, foi realizado por David Lean a partir de uma peça de Noel Coward. O filme tem tudo para ser uma xaropada movediça que se cola aos pés e aos dedos, e do qual não é possível escapar... Um amor impossível e Rachmaninoff do princípio ao fim...
"quem me conhece sabe bem da minha paixão por esta música absolutamente deslumbrante.
isto é #romantismo puro e duro"
"Com #romantismo, não há nada a fazer: lie back and enjoy!
Temos banda sonora assegurada para dias a fio. Pela minha parte, gosto de tudo; mas do que eu gosto mesmo-mesmo, é do excesso, ou da sua encenação: tão encenação que deixa de doer, é puro deleite na dor-que-se-finge-ter.
Entre as prendas mais bonitas e comoventes que já tive na vida, conta-se uma noite de "canções de dor de corno", que um grupo de alunas e alunos brasileiros organizou para mim, aqui há uns dois anos. Só parámos de cantar de madrugada, quando a vizinhança ameaçou com a polícia (e isto na Alta de Coimbra, o que não é fácil
😄)
Ora digam lá se estes 3 minutos não são imbatíveis em deleite!"
Passo a vida a pensar isto, e é sempre - e cada vez mais - actual:
"Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Pra poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes.”
Hoje a palavra é Saramago, amanhã não sabemos.
Só sei que precisava de meter todos os dias uma semana de férias, para saborear tudo e aprender muito com eles. :)
--
Pequena amostra do trabalho dos estimados colegas:
"VICTOR HUGO PINTOR
Todos conhecemos a importância de Victor Hugo como um dos mais importantes autores e teóricos do #ROMANTISMO.
Já a sua obra como pintor é menos conhecida e, no entanto, muito original."
" #Romantismo|
E não me vou embora sem vos deixar aqui a minha peça favorita de Chopin, chama-se Révolucionaire, pois claro e, é fatal, traz-me lágrimas aos olhos.
É preciso lembrar que a Polónia é um país desde sempre rasgado entre os Impérios europeus e no fim do sec. XIX foi sujeita a três partilhas entre Rússia, Prússia e Áustria, que condenaram o país a desaparecer do mapa e o seu território a ser dividido.
Em 1807, ( parece que graças a Maria Walewska) Napoleão restabeleceu um Estado polaco, o Ducado de Varsóvia, mas em 1815, após as guerras napoleónicas, o Congresso de Viena tornou a partilhar o país. A porção oriental coube ao tzar russo, e era regida por uma constituição liberal. Entretanto, os tzares logo trataram de restringir as liberdades polacas e a Rússia terminou por anexar de facto o país.
Chopin como tantos intelectuais da sua época admirava Napoleão. E esta peça de 1831 ainda remete para o 'libertador' da Polónia.
Eu ouço-a sempre como um diálogo entre duas pessoas que se amam, ou um diálogo dentro de si próprio...em que o refrão é: tenho de ir, tenho de ir.
Ouçam são 2 minutos fabulosos."
"(...) que não falte o clímax do #romantismo, a cena de todos os arrepios. Com o bónus de podermos ficar a olhar para a cara da Ingrid Bergman enquanto o tempo passa."
"Der Wanderer über dem Nebelmeer (O caminhante sobre o mar de névoa), de Caspar David Friedrich, pintura que se diz encarnar a essência dos princípios da estética do #romantismo da paisagem: uma figura solitária contempla uma imponente paisagem alpina em cima de um pico rochoso, descrição a que hoje se acrescentaria: "empunhando um dispositivo que permite fixar o momento".
Mudam-se os tempos, mudam-se as estéticas, mas nem por isso as vontades mais profundas."
"
#Romantismo, além do sentido próprio no domínio da arte, é aquela ideia que conduz a esse estado nebuloso e açucarado em que homens e mulheres se permitem os maiores erros
Um grande filme, da época em que os grandes filmes eram todos filmes românticos, foi o Breve encontro, ou "Brief encounter", como dizem os americanos... Com Trevor Howard e Celia Johnson, foi realizado por David Lean a partir de uma peça de Noel Coward. O filme tem tudo para ser uma xaropada movediça que se cola aos pés e aos dedos, e do qual não é possível escapar... Um amor impossível e Rachmaninoff do princípio ao fim...
No entanto, é salvo pela subtileza de David Lean. Subtileza e inteligência podem salvar até o mais romântico dos filmes...
;-)
Teve Óscar para melhor realização, melhor atriz, e melhor argumento adaptado. Viria ainda a ganhar o Grande Prémio em Cannes. A fotografia foi de Robert Krasker, que vai mais tarde ganhar um Óscar com o Terceiro Homem.
Houve dois remakes, que me lembre, desta história. Mas sem o David Lean..."
Teve Óscar para melhor realização, melhor atriz, e melhor argumento adaptado. Viria ainda a ganhar o Grande Prémio em Cannes. A fotografia foi de Robert Krasker, que vai mais tarde ganhar um Óscar com o Terceiro Homem.
Houve dois remakes, que me lembre, desta história. Mas sem o David Lean..."
"quem me conhece sabe bem da minha paixão por esta música absolutamente deslumbrante.
isto é #romantismo puro e duro"
"Com #romantismo, não há nada a fazer: lie back and enjoy!
Temos banda sonora assegurada para dias a fio. Pela minha parte, gosto de tudo; mas do que eu gosto mesmo-mesmo, é do excesso, ou da sua encenação: tão encenação que deixa de doer, é puro deleite na dor-que-se-finge-ter.
Entre as prendas mais bonitas e comoventes que já tive na vida, conta-se uma noite de "canções de dor de corno", que um grupo de alunas e alunos brasileiros organizou para mim, aqui há uns dois anos. Só parámos de cantar de madrugada, quando a vizinhança ameaçou com a polícia (e isto na Alta de Coimbra, o que não é fácil
Ora digam lá se estes 3 minutos não são imbatíveis em deleite!"
16 novembro 2017
"contra a doença do politicamente correcto" (3)
Retomo (pela antepenúltima vez, prometo) o exemplo do artigo de Bárbara Reis no Público, com o título "contra a doença do politicamente correcto", no qual se suja propositada ou inadvertidamente a água da banheira para poder deitar fora tudo o que está dentro, fechando os olhos com muita força para não ver o bebé que também lá estava.
Este post é sobre o fenómeno de fechar os olhos com muita força.
O artigo começa assim: Este Verão, engasguei-me a rir com o alerta da Unidade para a Igualdade e a Diversidade da Universidade de Oxford, que começou por dizer ao staff que não olhar os alunos olhos nos olhos podia ser racismo e, a seguir, anulou o aviso por se ter esquecido de que as pessoas com autismo não conseguem olhar olhos nos olhos e que seriam, portanto, discriminadas.
Pergunto-me como é possível escrever um texto contra o politicamente correcto que começa por referir que em 2017 foi necessário avisar o staff de uma universidade inglesa que se deve olhar todos os alunos nos olhos, independentemente da cor da sua pele. Pergunto-me como é possível uma pessoa "engasgar-se a rir" perante estes sinais de racismo.
O texto continua assim:
Caminhamos para uma sociedade que aceita e promove a censura e que, entretida a inventariar “microagressões” (...)
Um professor ou um funcionário de uma universidade que não olha um determinado aluno nos olhos devido à cor da sua pele é uma micro agressão. "Apenas" uma das milhentas humilhações a que algumas pessoas são sistematicamente sujeitas durante toda a sua vida, do parque infantil ao lar de terceira idade, perpetradas por uma maioria autocentrada que nem sequer se dá conta do mal que lhes faz. E Bárbara Reis entende que chamar a atenção para esses comportamentos é passar ao lado do que é realmente importante.
A newsletter da universidade de Oxford dava outros exemplos de micro agressões, tais como perguntar a uma pessoa de onde é que ela vem. Não sei como é em Portugal, mas na Alemanha é extremamente comum: se uma pessoa tem a pele ligeiramente mais escura que o considerado normal no país, a primeira pergunta que lhe fazem é de onde vem, ou se entende alemão. Uma pergunta que não tem más intenções, mas faz muito mal a quem a ouve, porque lhe confirma e repete à exaustão que basta uma pequena diferença na cor da pele para todos à sua volta partirem do princípio de que é um elemento estranho a essa sociedade. Aliás, a própria formulação "cor de pele diferente do normal" aponta já para a condição de "anormalidade" na vida da pessoa.
É preciso ter muita vontade de não ver para considerar que isto são detalhes sem importância. E é preciso uma boa dose de cinismo para chamar "geração snowflake" a quem quer questionar e desinstalar comportamentos enraizados que provocam sofrimento às pessoas dos grupos minoritários.
Em contrapartida, não custa muito repensar os hábitos e mecanizar outros comportamentos: olhar para todas as pessoas nos olhos (excepto se forem autistas), dirigir-se a elas na língua do país onde estão (elas avisarão, se não entenderem), evitar a pergunta sobre a sua origem (a não ser que seja realmente óbvio que se trata de um estrangeiro), evitar usar com sentido depreciativo palavras associadas a minorias (frases como "és mesmo judeu!", "não sejas maricas!", "isto tem classe, não é para pretos", "pareces atrasado mental", entre outras, podem perfeitamente ser trocadas por "és mesmo sovina", "não sejas medroso", etc.).
Não custa muito. Mas - como no artigo do Público que tenho estado a referir - há quem prefira pegar em exemplos muito mal contados para ridicularizar e rejeitar o enorme esforço em curso para que a sociedade tome consciência do que há discriminatório nos seus hábitos.
O que é que move estas pessoas, afinal? Porque será que se sentem ameaçadas na sua liberdade quando lhes chamam a atenção para o facto de provocarem sofrimento a outros? Porque é que temem o esforço de tratar as minorias com o mesmo respeito que é devido a todos os seres humanos?
E porque é que os privilegiados reclamam para si o direito de dizer o que lhes apetece, mas depois se armam em vítimas se são confrontados com o que disseram e com a carga de agressão do que disseram? Como é possível chamarem "snowflakes" às pessoas que acusam a ofensa, e ao mesmo tempo não quererem ser ofendidos pela crítica que lhes é dirigida?
Quem é o "snowflake", afinal?
Mais perguntas: o que leva pessoas que pertencem à maioria, e que por isso mesmo têm a vida mais facilitada, a fazer o discurso da auto vitimização "ai, que maçada, já não se pode dizer nada porque está-se sempre a ofender alguém"? O que é que têm de tão importante para dizer, que tem realmente de ser dito, mesmo que faça sofrer pessoas com outra cor de pele, ou com deficiência, ou de determinada etnia, ou de determinada orientação sexual?
Nada disto faz sentido. Mas se olharmos por outra perspectiva, as peças começam a encaixar:
Sabemos que a extrema-direita dos EUA criou toda uma retórica no espaço público, alimentada também pelas fake news, que reforça a ideia de que as minorias estão a conquistar o "espaço vital" (usei a expressão propositadamente) da maioria. Sabemos que a Rússia inundou as redes sociais americanas com mensagens combativas tanto para a extrema-direita como para a esquerda e os grupos de luta pelos direitos civis, com o objectivo de polarizar e desestabilizar ainda mais aquela sociedade (podem ver aqui alguns dos posts russos lançados nas redes sociais dos EUA para influenciar as eleições presidenciais de 2016).
É certo que o "politicamente correcto" muitas vezes cai em exageros que não ajudam à sua causa. Mas fechar com toda a força os olhos para não ver a justeza dessa causa, e abri-los para ver apenas os exageros (e as fake news que deturpam os factos para melhor servir o discurso extremista) é fazer o jogo de quem está a orquestrar uma campanha para destruir a paz social e atacar a Democracia.
No artigo de Bárbara Reis, o mais assustador é saber que uma antiga directora de um dos diários mais importantes de Portugal se deixou apanhar na armadilha das fake news ao serviço de um discurso que recusa reconhecer os problemas quotidianos ligados à condição das minorias. E, se querem saber tudo, também é assustador que eu tenha escrito ao director do jornal, alertando-o para o facto de no Público estarem a passar fake news como se fossem mesmo factos, e ele nem se tenha dado ao trabalho de me responder, quanto mais ao de fazer uma adenda ao texto da Bárbara Reis, que - a esta data - já foi partilhado 4179 vezes.
Tenho a certeza que a Bárbara Reis não fez por mal. Mas um jornal como o Público, se não quer passar a fazer o jogo do Breitbart News, tem de se esforçar mais para fazer bem.
__
Adenda, para os mais interessados neste tema:
Political correctness: how the right invented a phantom enemy
Este post é sobre o fenómeno de fechar os olhos com muita força.
O artigo começa assim: Este Verão, engasguei-me a rir com o alerta da Unidade para a Igualdade e a Diversidade da Universidade de Oxford, que começou por dizer ao staff que não olhar os alunos olhos nos olhos podia ser racismo e, a seguir, anulou o aviso por se ter esquecido de que as pessoas com autismo não conseguem olhar olhos nos olhos e que seriam, portanto, discriminadas.
Pergunto-me como é possível escrever um texto contra o politicamente correcto que começa por referir que em 2017 foi necessário avisar o staff de uma universidade inglesa que se deve olhar todos os alunos nos olhos, independentemente da cor da sua pele. Pergunto-me como é possível uma pessoa "engasgar-se a rir" perante estes sinais de racismo.
O texto continua assim:
Caminhamos para uma sociedade que aceita e promove a censura e que, entretida a inventariar “microagressões” (...)
Um professor ou um funcionário de uma universidade que não olha um determinado aluno nos olhos devido à cor da sua pele é uma micro agressão. "Apenas" uma das milhentas humilhações a que algumas pessoas são sistematicamente sujeitas durante toda a sua vida, do parque infantil ao lar de terceira idade, perpetradas por uma maioria autocentrada que nem sequer se dá conta do mal que lhes faz. E Bárbara Reis entende que chamar a atenção para esses comportamentos é passar ao lado do que é realmente importante.
A newsletter da universidade de Oxford dava outros exemplos de micro agressões, tais como perguntar a uma pessoa de onde é que ela vem. Não sei como é em Portugal, mas na Alemanha é extremamente comum: se uma pessoa tem a pele ligeiramente mais escura que o considerado normal no país, a primeira pergunta que lhe fazem é de onde vem, ou se entende alemão. Uma pergunta que não tem más intenções, mas faz muito mal a quem a ouve, porque lhe confirma e repete à exaustão que basta uma pequena diferença na cor da pele para todos à sua volta partirem do princípio de que é um elemento estranho a essa sociedade. Aliás, a própria formulação "cor de pele diferente do normal" aponta já para a condição de "anormalidade" na vida da pessoa.
É preciso ter muita vontade de não ver para considerar que isto são detalhes sem importância. E é preciso uma boa dose de cinismo para chamar "geração snowflake" a quem quer questionar e desinstalar comportamentos enraizados que provocam sofrimento às pessoas dos grupos minoritários.
Em contrapartida, não custa muito repensar os hábitos e mecanizar outros comportamentos: olhar para todas as pessoas nos olhos (excepto se forem autistas), dirigir-se a elas na língua do país onde estão (elas avisarão, se não entenderem), evitar a pergunta sobre a sua origem (a não ser que seja realmente óbvio que se trata de um estrangeiro), evitar usar com sentido depreciativo palavras associadas a minorias (frases como "és mesmo judeu!", "não sejas maricas!", "isto tem classe, não é para pretos", "pareces atrasado mental", entre outras, podem perfeitamente ser trocadas por "és mesmo sovina", "não sejas medroso", etc.).
Não custa muito. Mas - como no artigo do Público que tenho estado a referir - há quem prefira pegar em exemplos muito mal contados para ridicularizar e rejeitar o enorme esforço em curso para que a sociedade tome consciência do que há discriminatório nos seus hábitos.
O que é que move estas pessoas, afinal? Porque será que se sentem ameaçadas na sua liberdade quando lhes chamam a atenção para o facto de provocarem sofrimento a outros? Porque é que temem o esforço de tratar as minorias com o mesmo respeito que é devido a todos os seres humanos?
E porque é que os privilegiados reclamam para si o direito de dizer o que lhes apetece, mas depois se armam em vítimas se são confrontados com o que disseram e com a carga de agressão do que disseram? Como é possível chamarem "snowflakes" às pessoas que acusam a ofensa, e ao mesmo tempo não quererem ser ofendidos pela crítica que lhes é dirigida?
Quem é o "snowflake", afinal?
Mais perguntas: o que leva pessoas que pertencem à maioria, e que por isso mesmo têm a vida mais facilitada, a fazer o discurso da auto vitimização "ai, que maçada, já não se pode dizer nada porque está-se sempre a ofender alguém"? O que é que têm de tão importante para dizer, que tem realmente de ser dito, mesmo que faça sofrer pessoas com outra cor de pele, ou com deficiência, ou de determinada etnia, ou de determinada orientação sexual?
Nada disto faz sentido. Mas se olharmos por outra perspectiva, as peças começam a encaixar:
Sabemos que a extrema-direita dos EUA criou toda uma retórica no espaço público, alimentada também pelas fake news, que reforça a ideia de que as minorias estão a conquistar o "espaço vital" (usei a expressão propositadamente) da maioria. Sabemos que a Rússia inundou as redes sociais americanas com mensagens combativas tanto para a extrema-direita como para a esquerda e os grupos de luta pelos direitos civis, com o objectivo de polarizar e desestabilizar ainda mais aquela sociedade (podem ver aqui alguns dos posts russos lançados nas redes sociais dos EUA para influenciar as eleições presidenciais de 2016).
É certo que o "politicamente correcto" muitas vezes cai em exageros que não ajudam à sua causa. Mas fechar com toda a força os olhos para não ver a justeza dessa causa, e abri-los para ver apenas os exageros (e as fake news que deturpam os factos para melhor servir o discurso extremista) é fazer o jogo de quem está a orquestrar uma campanha para destruir a paz social e atacar a Democracia.
No artigo de Bárbara Reis, o mais assustador é saber que uma antiga directora de um dos diários mais importantes de Portugal se deixou apanhar na armadilha das fake news ao serviço de um discurso que recusa reconhecer os problemas quotidianos ligados à condição das minorias. E, se querem saber tudo, também é assustador que eu tenha escrito ao director do jornal, alertando-o para o facto de no Público estarem a passar fake news como se fossem mesmo factos, e ele nem se tenha dado ao trabalho de me responder, quanto mais ao de fazer uma adenda ao texto da Bárbara Reis, que - a esta data - já foi partilhado 4179 vezes.
Tenho a certeza que a Bárbara Reis não fez por mal. Mas um jornal como o Público, se não quer passar a fazer o jogo do Breitbart News, tem de se esforçar mais para fazer bem.
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Adenda, para os mais interessados neste tema:
Political correctness: how the right invented a phantom enemy
15 novembro 2017
o que conta é a intenção
Uma pessoa põe-se a ver este vídeo de um cardeal a ser vestido por uma multidão de criados em plena igreja, ao som de música de órgão, e pergunta-se quanto tempo é que demorava a vestir a rainha Maria Antonieta, e como seria a música que tocavam enquanto lhe iam pondo em cima do corpinho um e outro e mais outro atavio, e se o pessoal da corte também estaria impacientemente à espera do "Ite, missa est".
Uma pessoa depois vê como o homem desfila pela igreja com os criados da corte a segurar a cauda vermelha do seu manto, e pergunta-se porque é que o órgão não toca a marcha nupcial, e onde estará o outro noivo.
Uma pessoa repara finalmente na exuberância dos panos à volta do tronco, e entende finalmente:
é uma gueixa cristã!
Pensei logo em Maria Madalena, claro. E comovi-me com o simbolismo da globalização da mensagem cristã: um cardeal feito gueixa da Igreja de Jesus Cristo, treinado para animar e satisfazer os fiéis, e para lhes servir chazinho com todos os requintes.
O cardeal Burke se calhar não devia ler tanto a Hola, e alguém havia de lhe dizer que estas encenações assim agora é só nas revistas, mas pronto: o que conta é a intenção.
[No site onde encontrei isto apontam um detalhe inacreditável, nestes tempos de escândalo devido à pedofilia na Igreja: ao minuto 3:25 há um miúdo que ajoelha várias vezes à frente dele, e beija o barrete e o manto do marmanjão.]
"you're a chancellor, not a gif"
Agarrem-me, que parece que a Tracey Ullman vai ser o meu próximo vício... :)
"obesidade"
Dia de "obesidade" na Enciclopédia Ilustrada:
Então um grupo tão grande como o nosso, e não há aqui um único médico que nos venha explicar a obesidade com científico saber?
Então um grupo tão grande como o nosso, e não há aqui um único médico que nos venha explicar a obesidade com científico saber?
O que se segue são provocações, a ver se os colegas da área da Medicina vêm cá dar um ar da sua graça.
Fui morar para os EUA na altura em que ainda comia tudo o que me apetecia e não acrescentava nem um grama ao peso. O que contribuiu para ficar ainda mais impressionada com a obesidade daquele povo. Pensei que seria problema da comida deles, mas eu também a comia e não engordava. Até que me explicaram que parte dos problemas de obesidade podia ser resultado de questões genéticas. Alguns povos indígenas tinham tanta dificuldade em encontrar alimento em quantidade suficiente, que o corpo se habituou a aproveitar muito bem cada caloria que conseguia ganhar. Quando começou a haver abundância de alimentos, o corpo não conseguiu adaptar-se ao novo registo, e continuou a armazenar o máximo possível, de modo a ter reservas para a próxima vaga de fome.
Pareceu-me uma teoria razoável.
Anos depois li um artigo sobre uma senhora que tinha uma diarreia que nunca mais acabava, e a quem fizeram um transplante de fezes de uma pessoa saudável, para restabelecer a sua flora intestinal. A pessoa curou-se da diarreia, mas começou a engordar inexplicavelmente. Descobriram depois que a tal pessoa saudável também era obesa, e que nas fezes transplantadas terão também ido as bactérias que causam desequilíbrios no metabolismo e levam ao desenvolvimento da obesidade.
Por essa altura já eu ia a caminho dos tais dez quilos mais do que sempre tinha tido, e fez-se-me luz: provavelmente as culpadas são as tais bactérias, que eu terei apanhado numa casa de banho pública de uma reserva indígena qualquer!
Moral da história: nas casas de banho públicas, não se sentem nunca nas sanitas! Podem engordar.
[agora pergunto-me quantos ;) ;) ;) tenho de largar aqui para perceberem que estou a brincar]
"panteão"
No dia em que a palavra mágica da Enciclopédia Ilustrada era "panteão", um dos enciclopedistas escreveu este texto (a gente lá na Enciclopédia rimo-nos muito):
Ali estavam no #panteão postos: Garrett e Junqueiro, e o João de Deus... O Sidónio presidente quase rei, e o institucional golpista Óscar, jamais Acúrsio, Carmona, uns antes dos que vieram depois, e outros depois dos que vieram antes, mas todos sortidos... Arriaga e Teófilo, sucedendo-se sucessivamente sem cessar, até o mundo se acabar. O Delgado Marechal que estava nos Prazeres, já não estava nos prazeres... O literário, presumível 3º atirador, Aquilino, como uma águia, agora cega. E os últimos inquilinos, Amália, Sophia, e da Silva Ferreira, Eusébio, o amado do povo, por todos invejado... Ali estavam, postos, a beber o seu cházinho na sala dos fundos, quando o Mestre Aquilino assim diz:
Ali estavam no #panteão postos: Garrett e Junqueiro, e o João de Deus... O Sidónio presidente quase rei, e o institucional golpista Óscar, jamais Acúrsio, Carmona, uns antes dos que vieram depois, e outros depois dos que vieram antes, mas todos sortidos... Arriaga e Teófilo, sucedendo-se sucessivamente sem cessar, até o mundo se acabar. O Delgado Marechal que estava nos Prazeres, já não estava nos prazeres... O literário, presumível 3º atirador, Aquilino, como uma águia, agora cega. E os últimos inquilinos, Amália, Sophia, e da Silva Ferreira, Eusébio, o amado do povo, por todos invejado... Ali estavam, postos, a beber o seu cházinho na sala dos fundos, quando o Mestre Aquilino assim diz:
"O pior dos crimes é
produzir vinho mau, engarrafá-lo e servi-lo aos amigos"... "A tudo se
habitua o homem, a todo o estado se afaz", logo diz, conciliador, João
Leitão da Silva, o Garrett... "Mas ó Aquilino, isto não é vinho, pá! É
chá!!!" - chuta Eusébio... Sophia, olímpica e grega, avança na sua
elegante postura vertical, e apesar de estar deitada, acrescenta:
"realmente, que bruto, só quero nos teus quartos forrados de luar, onde
nenhum dos meus gestos faz barulho, voltar." Junqueiro, sacudindo o
clerical pó do templo, vocifera: "Ó de Breyner, e que tal se fosses
fazer poesia com métrica ali para o teu caixão, e mais o dicionário de
rimas do Teófilo?"...
Fez-se um silêncio sepulcral...
O General, tomou as dores da dama, e exclamou: "você, evidentemente está demitido!" - Mas "demitido de quê?" - interrogava-se João de Deus, que por ali se distraía a brincar com umas letrinhas de plástico... UVA, PUA... "ó que interessante"...
Entretanto, Óscar Carmona e Sidónio Pais, movidos por um estranho e síncrono mal-estar, saíram discretamente, e foram cada um para seu caixotinho, conspirar contra o outro. Teófilo e Arriaga, saltam ambos das cadeiras deitadas e dizem ao mesmo tempo: "Viva a República!!!" Para logo caírem numa dupla e intrigante letargia...
Só Dona Amália, com a voz embargada, e pedindo um pouco de mel "se faz favor, que tenho a voz arruinada, desde que aqui estou" - Só ela, tem um momento de lucidez... "Isto faz aqui falta amor, pão e vinho e um caldo verde, verdinho, a fumegar na tijela..." - "Telefonem lá para a DGPC, por amor da Santa..."
Fez-se um silêncio sepulcral...
O General, tomou as dores da dama, e exclamou: "você, evidentemente está demitido!" - Mas "demitido de quê?" - interrogava-se João de Deus, que por ali se distraía a brincar com umas letrinhas de plástico... UVA, PUA... "ó que interessante"...
Entretanto, Óscar Carmona e Sidónio Pais, movidos por um estranho e síncrono mal-estar, saíram discretamente, e foram cada um para seu caixotinho, conspirar contra o outro. Teófilo e Arriaga, saltam ambos das cadeiras deitadas e dizem ao mesmo tempo: "Viva a República!!!" Para logo caírem numa dupla e intrigante letargia...
Só Dona Amália, com a voz embargada, e pedindo um pouco de mel "se faz favor, que tenho a voz arruinada, desde que aqui estou" - Só ela, tem um momento de lucidez... "Isto faz aqui falta amor, pão e vinho e um caldo verde, verdinho, a fumegar na tijela..." - "Telefonem lá para a DGPC, por amor da Santa..."
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