No dia 29.05.2016 uma amiga comentou comigo que tinha gostado muito do livro do Raduan Nassar que lhe emprestei. Logo a seguir, ele ganha o Prémio Camões.
Agora vou pensar que autor de língua portuguesa empresto a essa minha amiga daqui a cerca de um ano, para ela gostar.
Este domingo os meus filhos mudaram de casa: o Matthias saiu, a Christina regressou.
Aos 19 e 21 anos, ninguém precisa dos pais para quase nada. Trataram sozinhos de tudo, inclusivamente de alugar uma carrinha de mudanças.
Eu fiz uma salada de cuscuz suficiente para um regimento inteiro e o bolo de aniversário para a Christina, que fez anos ontem, e fui levar umas coisas do Matthias à casa dele. No caminho cruzámo-nos com a carrinha das mudanças, abrimos as janelas, olá! olá! até já! Quando regressámos, uma hora mais tarde, a carrinha já estava vazia, os móveis espalhados pelos lugares que lhes competiam, e o pessoal estendido no terraço a comer cuscuz e restos do frigorífico, e a beber cerveja. Depois arrumaram tudo, agarraram nas coisas deles, disseram onde estava o que o pai tinha de levar no carro, e foram para aquela sauna louca no centro da cidade grelhar salsichas e festejar até entrarem no aniversário da Christina. Eu fui para a recepção na Embaixada.
Nunca vi nada disto: duas mudanças no mesmo dia, sem o menor alarde, sem qualquer nervosismo. Tudo pronto a horas, com toda a calma.
Não sei como é que os meus filhos conseguem. Das duas, uma: ou são os genes alemães, ou então passaram a infância toda a observar-me atentamente e a decidir como não querem ser.
Isto ontem dava uma sequência de filme (infelizmente não muito original):
fui ao terraço fotografar um arco-íris que lá estava, e de repente olhei para o lado e vi que o céu estava para cair sobre Berlim. E caiu.
Esta manhã, no Tiergarten, o céu estava a levantar-se de novo: uma neblina suave erguia-se do chão e envolvia as árvores, dando ao parque um aspecto fantasmagórico.
O Fox deve ter cheirado uma prima, porque lhe deu a tola e desatou a correr como um bólide, até se me perder longe da vista e da voz.
Triste cena: de manhã bem cedo, ao lado da Chancelaria, uma mulher a andar de um lado para o outro por entre as árvores enevoadas, com os pés cada vez mais molhados da erva húmida, a chamar as raposas em português.
(Coitado do Presidente da República, ainda agora veio a Berlim polir a imagem do país, e já tem de voltar para dar mais uns retoques.)
Este post já tem uma semana de atraso, mas eu ainda não consegui inventar maneira de viver a vida e contá-la ao mesmo tempo, desculpem.
Caso alguém tenha interesse em saber mais sobre o projecto da Rundfunkchor Berlin com inúmeros coros de amadores, à custa do pobre do Schubert que não tem culpa nenhuma e nesse dia deve ter dado tantas voltas no túmulo que quase ia morrendo de novo, aqui vai:
Às dez da manhã estávamos todos a postos, todos os 1300 cantores deste projecto do Rundfunkchor Berlin, e dois pianistas. Era a primeira vez que os vários coros se encontravam juntos e com o maestro Simon Halsey. O concerto público - a missa em mi bemol maior, de Schubert - teria lugar às quatro da tarde.
Começámos pelos exercícios de distensão e de aquecimento de voz:
Após uns minutos, arrancámos com o Kyrie. Cantámos bonitinho, sem sermos interrompidos, e até nem parecia mal. Foi o que me pareceu, mas o maestro tinha outra opinião. Fez-nos repetir, uma e outra vez, em trabalho intenso e concentrado para afinar a interpretação e nos levar bem mais longe. Esse trabalho já é, em sim, a essência do prazer de cantar. Mas o Simon Halsey, com o seu humor britânico, o extraordinário dom de entertainer e o inteiro domínio da peça e dos participantes, leva esse prazer para uma dimensão a todos os títulos superlativa.
Das dez ao meio-dia estiveram apenas os coros amadores. A seguir ao almoço percorremos de novo toda a missa, mas já com a orquestra, o Rundfunkchor e os solistas. Finalmente, fizemos o ensaio geral. Mais uma pequena pausa, e seguiu-se o concerto.
Vou tentar relatar os comentários e as informações do Simon Halsey à medida que íamos conquistando a Missa página a página. No texto que se segue, as frases entre aspas são dele. As fotografias são do fotógrafo Kai Bienert, e trouxe-as da página de facebook do coro. Por favor espreitem lá, e deixem um like, para eu poder dizer que o roubo era por uma boa causa) (eles pediram-nos para pôr likes, queriam chegar aos 5000 nesse dia. Prometeram que quem fizesse o nº 5.000 tinha direito a um meet and greet com o Simon Halsey. Ele fez uma careta e comentou: "e o segundo prémio é dois meet and greet comigo").
À falta de um filme deste concerto, repito a gravação com a Orchestre Philharmonique de Radio France e o Daniel Harding. Das versões que ouvi até agora, é a que me parece mais próxima da interpretação que lhe demos neste concerto de 22.05.2016.
00:00 Kyrie
O Kyrie é um problema, porque começa com uma consoante dura. Se não estamos atentos ao maestro e uns aos outros, em vez de começar com Kyrie, parecemos gagos: Ky-Ky-Ky-Kyrie. Pergunto-me se não será daí que vem a palavra "cacofonia". Numa das repetições, o maestro zangou-se e disse aos tenores, que por azar tinham errado naquele momento: "nesta peça, o Kyrie às vezes vem depois daquilo que vocês querem. Se preferirem ser vocês a dirigir, trocamos já de lugar, e eu canto."
Mas eles não preferiam, o que foi uma sorte - sabia eu lá a qual dos 200 tenores devia obedecer!
06:21 Gloria
"Não, não é gloRRIAAA, é GLOria", notava o maestro. E pedia-nos para cantar como quem proclama, e para fazer o arco a crescer para Deo: Gloria in excelsis Deo! Pediu aos naipes masculinos que cantassem só eles, e as sopranos e contraltos aplaudiram a performance. "As mulheres gostaram", disse o Simon Halsey, e nós rimos. "Eu não! A primeira frase foi fantástica. Mas a segunda falhou."
Na última repetição antes do ensaio geral, pediu ao seu Rundfunkchor que cantasse sozinho. Ficámos consternados com a diferença. O maestro passeava pelo palco com o polegar e o indicador à volta da testa, e perguntava-se em tom meditativo "porque será que soa melhor? sim, porquê? talvez por estar mais focado, e ter mais energia, e milhões de outras coisas". Agora nós: tentando cantar de modo focado e com energia, E acertar no GLOria, e crescer para o excelsis Deo. E milhões de outras coisas.
06:50 - "Et in terra pax, paz na terra, ouçam, isto agora é connosco! Proclamemos: laudamus te! Mais entusiasmo: benedicimus te! E agora, o mistério: adoramus te..."
08:17 - "Gratias agimus tibi - elegante, em vez de elefante!"
e: "O som tem de vos sair dos olhos e não da barriga" (só por esta frase, já me valeu a pena todo o trabalho).
10:49 - "Qui tolis pecata mundi, que tira o pecado do mundo. Schubert tinha muitos pesos na consciência, "pecado" era uma palavra terrível para ele. Vejam o medo que ele tem aqui! Ouçam o medo na orquestra."
Esta parte - Domine Deus, Agnus Dei - começa com as vozes masculinas. O maestro interrompeu-os ao fim de alguns compassos, e perguntou "porque é que cantamos num coro, meus senhores?" Respondeu ele mesmo: "Porque está cheio de mulheres. Vamos lá cantar isso de modo a deixá-las muito impressionadas!" Os homens recomeçaram, e ao chegar ao fim da frase o maestro soltou um gritinho de admiração, juntou as mãos e fez-lhes olhinhos descaindo um lado da anca.
(Era preciso que alguém filmasse um destes ensaios.)
11:36 - Em menos de um segundo passávamos do riso para a seriedade. Na parte "cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, tende misericórdia de nós" tentámos pôr naquele miserere toda a espantosa beleza que o espírito atormentado do Schubert pôde produzir. Não se bate em quem está no chão, e Schubert está no chão, da sua mais baixa condição de humano e pecador pede misericórdia a um Domine Dei forte e implacável.
20:23 Credo
"Quando está a escrever esta missa, Schubert já está muito doente. Tem sífilis. Está cheio de medo do futuro e daquele Deus": Creio em um só Deus, que fez o céu e a terra, e todas as coisas, visíveis e invisíveis..."
22:50 - ...e em Jesus Cristo, que para nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos céus.
A música muda completamente. "Estamos em Viena, Jesus faz-se carne como nós, faz-se homem em Viena, isto é uma valsa, dancemos." - o maestro convida uma das solistas para valsar com ele ao som da orquestra. Depois mostra-nos o movimento dos contrabaixos no início da peça, "reparem que beleza, reparem na leveza deles; os contrabaixos só têm o seu solo uma vez na vida, e é hoje!"
25.30 - "Oh, no! Grande choque, grande comoção: foi crucificado! Cristo morre hoje por nós, está a morrer aqui em Berlim. O ritmo é o de um coração a bater, horrorizado por tudo o que acontece no mundo."
26:45 - "Voltamos a Viena, voltamos à valsa" - nesta parte, movemo-nos entre o horror da cruz e a beleza de um Deus feito homem. Schubert entre o terror e a esperança, oito ou oitenta.
29:34 - E de novo há-de vir em sua glória, para julgar os vivos e os mortos. "Para julgar os vivos e os mortos! (30:05 ) Schubert tem 35 anos, tem sífilis, sabe que vai morrer, Tem um medo enorme. Um medo enorme."
31:10 - Professo um só baptismo para a remissão dos pecados, O maestro ajoelha-se e implora em tom dramático: "remissãããããoooooo dos pecaaaaaadooooos".
35:42 Sanctus
Antes de começar o Sanctus, um pouco de conversa: "No Digital Concert Hall foi publicado recentemente um filme com entrevistas a maestros. Numa delas, Zubin Mehta diz que o trabalho do maestro é analisar. Reparem no início do Sanctus: começa em si bemol menor, e segue para algo completamente inesperado, assusta-nos - si menor." (um dos pianistas toca os dois acordes, e ele esconde-se atrás do outro, com esgares de terror. "O terceiro acorde soa ainda mais desconfortável: sol menor." Corre, com ar de aflição, para se aninhar escondido atrás do pianista, enquanto nós digerimos o efeito daquela sequência de acordes. Depois levanta-se, vem à boca do palco, e remata: "É isto o que eu faço de segunda a quinta-feira."
36:27 - No fugato "pleni sunt coeli et terra" o maestro pede-nos "um coro de anjos".
39:10 Benedictus
45:13 Agnus Dei
"This is the stuff of horror movies", avisa-nos.
46:06 - Miserere, miserere nobis: "O tempo é instável, porque o futuro é incerto". E logo a seguir: "conhecem a história de Lázaro, que estava morto e voltou à vida, libertando-se das faixas que o envolviam?" - ele próprio mima Lázaro, primeiro preso e retesado, a pouco e pouco ganhando liberdade e leveza de gestos - "é assim que quero que cantem este miserere nobis."
(se em vez de dizer Lázaro tivesse dito Houdini toda a gente percebia logo)
51:43 - Dona nobis pacem: "Ficamos com a sensação que a missa vai acabar aqui, no fim deste diálogo entre os solistas e o coro em eco, e acabava muito bem. Mas não é o caso! Logo a seguir ao último pacem entram os barítonos em tom ameaçador, como num filme do Harry Potter."
53:49 - "Pela segunda vez, ficamos com a sensação que a peça devia acabar aqui. Mas ainda não acaba, ainda precisa de um final terrível! Normalmente sai-se de um concerto com sentimentos de leveza. Desta vez não será assim. Deste concerto sai-se doente."
Não saí do concerto doente, nada disso. Mas saí muito mal-habituada. Foi extraordinário sentir a minha voz fundir-se com centenas de contraltos, jogando com ou contra os outros naipes poderosíssimos. E, se pudesse, daqui para a frente só cantava com orquestra.
Maravilha.
Depois do jogo é antes do jogo: vou preencher a ficha para me inscrever no próximo projecto.
O Presidente da República e o ministro dos Negócios Estrangeiros estão em Berlim, e ontem tiveram um encontro com alguns elementos da comunidade portuguesa. Também me convidaram (pois: por estas e por outras é que este país...), de modo que me disfarcei de senhora, e fui.
Marcelo Rebelo de Sousa discursou sem papel e sem se perder em banalidades de ocasião. Mencionou todos os grupos activos da comunidade portuguesa em Berlim - de cor, sem gaguejar, sem esquecer nenhum (bem diferente de um maestro que vi há dias na Filarmonia a fazer um pequeno discurso e a hesitar na parte em que queria dizer o nome da cidade). Depois falou com cada um dos presentes, realmente interessado no que lhe diziam. Contei-lhe sobre as novas perspectivas para o Cinemagosto, respondeu com algumas sugestões.
Por sua vez, o ministro ia ficando sem jantar por estar inteiramente imerso na conversa com os investigadores da associação ASPPA.
O embaixador João Mira Gomes e a embaixatriz/embaixadora Graça Mira Gomes conseguiram criar um ambiente tão informal quanto elegante, sempre bem-dispostos e atentos a tudo - até a chamar as cozinheiras para receberem o nosso aplauso de gratidão e falarem ao Presidente. Uma delicadeza.
Para mim, foi uma noite muito proveitosa: além de matar saudades de um bacalhau como deve ser, pude falar com várias pessoas fundamentais para a nova associação cultural que estamos a criar.
Mas o melhor de tudo, de longe o melhor de tudo, foi ter passado umas horas a assistir a um Portugal renovado e cheio de swag. Meu rico país!
["swag" no sentido alemão da palavra: uma aura invejável de descontracção e confiança, própria de quem está de bem consigo e com o mundo]
[como se não bastasse termos o problema de as palavras portuguesas mudarem de significado quando chegam ao lado de lá do Atlântico, agora temos palavras inglesas com sentidos diferentes conforme o país onde são ditas - tradutor sofre!]
(roubei as fotos no facebook da Helena Ferro de Gouveia)
"I'm going to build a rocket ship out of a trash can and some wood and a bubble that never pops, and then I'm going to test it out to see if it goes somewhere, and if it goes somewhere, I'll go to outer space and see things that people never even saw before."
Resposta da NASA, no facebook:
NASA - National Aeronautics and Space AdministrationYou're just about the right age to be on one of the first human missions on our Journey to Mars! We're building NASA's Space Launch System rocket and NASA’s Orion Spacecraft right now, but we're going to need innovators like you to develop new technologies people haven't even thought of yet to get there. Keep experimenting, keep testing, keep dreaming, and keep looking up!
Porque hoje é sábado, e porque amanhã a vou conhecer, deixo aqui algumas histórias da Matilde, contadas pela mãe no blogue Domadora de Camaleões. Adiantando já a moral da história: adoro viver na Alemanha!
1. A recém... política
(...) Pediu-me para ver sozinha as fotografias. “Tens a certeza?”. “Tenho”. Corpos escavados pela fome, pela fadiga, pelo pesadelo nazi. Empilhados como molhos de lenha. Uma tácita convenção impõe que eu não quebre o silêncio antes dela. “Anne Frank morreu assim?”. “Sim querida”. “Isto não mais vai voltar a acontecer, pois não Mami?”. “Não. Nie wieder”. “Temos de estar atentos”, diz-me baixinho. Disfarço mal a comoção.
Continuamos o percurso pela Haus der Geschichte, o museu de História de Bona e um dos mais importantes legados do chanceler Helmut Kohl. Paramos no Bundestag. O mobiliário original do primeiro parlamento alemão do pós-guerra está aqui. Sobe ao púlpito e pede-me para tirar uma fotografia. Ao almoço, depois de visitarmos a queda do Muro e a reunificação, comeu sem pressas, mastigando com lentidão. Cogita. “Tu sabes que eu não vou ter filhos, não sabes?”. “Sim, Matilde?”. “ E também já não vou estudar baleias para o Alasca com a tia”. “E?”. “ Decidi uma coisa hoje”. AIAMINHAVIDA.”Sim?”. “Como não quero ter filhos tenho todas as condições para ser política, como a Merkel”. “Aaah?”. “ Ela não é a mulher mais poderosa do mundo? E não pode decidir sobre guerra e paz? Pois eu quero ser política para que nunca mais haja guerra. E vou ser dos Verdes”. Mãe em hiperventilação.
Pensar que eu aos nove anos sonhava ser a Wonder Woman.
2. As crianças são o melhor do mundo e tal
Há quem diga que a ironia é o melhor dos condimentos e é óptimo ter sentido de humor. Aprecio uma e não me escasseia outro. Porém digam, digam-me o que eu fiz de errado quando a mini-política cá de casa afirma “ser favorável à introdução de um salário mínimo” e põe no topo da sua lista de presentes de Natal ( sim lista de presentes de Natal em Setembro ou não fosse a pestinha alemã) um encontro com …o Peer Steinbrück.
Façam coro comigo: ohmmmmmmmm.
Estando nos antípodas de um filme publicitário sobre o Porto, a curta "Canção de Amor e Saúde" do João Nicolau agarra em duas peças de Serralves com um olhar tão surpreendente que me deixou capaz de apanhar o primeiro avião para as ir viver com calma.
Temos um país extraordinário. E temos pessoas que fazem cinema extraordinário. Temos tudo para poder dar do país perspectivas originais, poéticas, inesperadas, compondo uma imagem que suscite interesse e curiosidade. Temos a matéria, a arte, a inteligência, a flexibilidade e a criatividade necessárias para inventar uma nova linguagem na publicidade turística.
Também por isso me incomodam os filmes publicitários para atrair turistas que põem a tónica no "venha a Portugal, coma uma local", nas imagens com a beleza banalizada dos catálogos turísticos, e na hospitalidade confundida com subserviência. Portugal é muito mais, pode muito mais e merece muito mais que isto.
"Vem a Portugal, come uma local" deve ter sido a ideia de base que serviu à equipa que fez este filme. Seguida de "a nossa culinária é um bocado esquisita, mas as nossas mulheres são mais boas que as vossas" e "estamos ansiosos por ver as nossas ruas invadidas por gente bárbara, usem-nas à vontade, porque nós levamos a hospitalidade tão a sério que nem nos importamos que alguns dos nossos moradores vão parar ao hospital".
Sobre os conteúdos, estamos conversados. Agora gostava de saber quem é que fez esta pérola da subserviência, quem pagou, e quanto pagou.
O meu coro já está a preparar a próxima maratona: um trabalho intenso com o Rundfunkchor Berlin, e um programa variado e exigente. A arte também se quer organizada, e muito: já nos deram uma folha com as peças que vamos cantar, e uma tabela de datas para fins-de-semana do coro, ensaios normais e ensaios com o Rundfunkchor. Quem se inscrever, compromete-se a faltar o menos possível aos ensaios normais e a não falhar nenhum dos outros.
Ainda tenho a missa do Schubert feita ear worm nos meus dias, ainda falta mais de uma semana para terminar o prazo de inscrições para o próximo projecto, mas uma colega do meu naipe já começou a ouvir as peças propostas e já nos avisou que há uma que a tocou de forma especial. Chama-se "dirait-on", e é a música de Morten Lauridsen para um dos poemas que Rainer Maria Rilke escreveu em francês. Como estamos na Alemanha, o entusiasmo espontâneo é muito organizado: enviou-nos o poema em francês e a tradução para alemão, e um filme no qual o compositor explica como criou a música.
Esta manhã estive a ouvi-la repetidamente: a tranquilidade e a simplicidade que se instalam em nós sem remissão.
Venha a próxima maratona! Quero corrê-la intensamente e devagar, passo a passo, compasso a compasso, inteiramente.
Les roses Abandon entouré d'abandon, tendresse touchant aux tendresses... C'est ton intérieur qui sans cesse se caresse, dirait-on; se caresse en soi-même, par son propre reflet éclairé. Ainsi tu inventes le thème du Narcisse exhaucé.
À boleia do Europeu de Futebol, a empresa Ferrero trocou a imagem habitual nas embalagens dos chocolates Kinder. Em vez do miúdo do costume, vêem-se fotos de criança dos jogadores da selecção nacional.
Um grupo regional do movimento Pegida publicou no facebook uma fotografia dos pacotes que tinham rostos com traços fisionómicos diferentes do que se associa normalmente a "alemão", mas escondendo a parte da embalagem que informava tratar-se de estrelas do futebol em criança. E comentou: "nada os faz parar" (com o sentido de "não têm quaisquer escrúpulos") e a pergunta: "isto está mesmo à venda? ou é uma piada?"
A Ferrero reagiu imediatamente, afirmando sem margem para dúvidas que na empresa não há lugar para xenofobia ou discriminação, e que não aceita esse tipo de comentários nas suas comunidades no facebook.
O caso chegou ao topo da Federação Alemã de Futebol. O seu presidente, Reinhard Grindel, comentou que a equipa nacional é um dos melhores exemplos de sucesso da integração, que há milhões de pessoas orgulhosas desta equipa por ser como é, e que no futebol o que interessa é como se joga, e não a religião ou a origem da família do jogador.
O próprio chefe do Pegida, Lutz Bachmann, distanciou-se do grupo, dizendo que já não pertence à organização e está a usar abusivamente o seu nome desde Junho de 2015. Mas já não escapam à onda de gozo na internet. O twitter encheu-se de imagens como as seguintes (que tirei daqui):
Uma nova variação de chocolate, para o Pegida: "racisnoz"
A revista satírica Titanic lança uma edição especial de chocolates Kinder Pegida:
Alguém pergunta no Twitter o que é que o Pegida dirá do romance entre as duas personagens da publicidade aos chocolates de leite, o Shoky e a Milky:
E um adepto remata: quem quer discriminar Jerome Boateng und Ilkay Gündogan não é xenófobo, é traidor da pátria!
Uma pessoa ri-se, mas isto é sério. O racismo, que tem vivido uma existência discreta, está a perder a vergonha. Desta vez tiveram azar com o alvo escolhido. Mas amanhã encontrarão outro.
Amanhã vou cantar um missa de Schubert na Filarmonia. O tal concerto a mil vozes, a maior parte delas de coros amadores como o meu. Erros meus, má fortuna, viagens, outros afazeres: são quase cinco da tarde, e ainda só sei da missa a metade.
Agora vou estudar o resto, para tentar reduzir ao mínimo o post que talvez venha a escrever mais tarde sobre o erro de estudar apenas para dez quando a escala vai até infinito, sobre não saber aproveitar convenientemente as oportunidades que nos dão, etc.
Esta manhã acordei, abri um olho, vi que eram 9:30. Ena, ena! Isto é que foi dormir!, pensei. Levantei-me a correr, fiz um café, preparei o pão, olhei para o relógio: 6:02. Na penumbra do quarto tinha trocado o ponteiro grande pelo pequeno. Mas o café já fumegava, e tinha um aroma tão bom que desisti de voltar para a cama e tentar redormir.
Desde então não parei. E mesmo assim ainda nem comecei a fazer o almoço.
Da próxima vez, hei-de ver se me consigo levantar antes de deitar, para poupar tempo e aviar mais pontos da minha listinha de to-dos.
O título de um texto de Margaret Stokowski no Spiegel online é, das que vi até agora, a melhor resposta a dar a pessoas que em vez de usar o cérebro se afundam na armadilha do sexismo: tira a mão das calças, pá. O texto não é dos melhores que lhe tenho lido, mas é uma reacção sincera ao fenómeno do ódio na internet, e por isso traduzo.
(melhor dizendo: quem traduz é o Speedy Gonzalez, como de costume)
Ela escreve um texto, ele deseja-lhe a morte: a colunista Margarete Stokowski responde a um comentador irado. A título de excepção.
Já não me respondes mais no chat do facebook. Tinha-te perguntado por que motivo concreto é que me desejas a morte, Ruven. É esse o teu nome, ou talvez não. Lindo nome.
No site Baby-Vornamen.de diz que o teu nome significa "vejam: um filho". Como se os teus pais anunciassem a tua existência em júbilo contínuo, e talvez seja assim. Mas o que faz este filho? Vai para o facebook escrever a mulheres que não conhece, dizendo-lhes que devem morrer: "Olá, minha porca. Espero que te afogues numa das tuas sanitas para transexuais." Foi a tua, digamos, carta do leitor, a propósito da minha penúltima crónica. E como não era suficiente, ainda acrescentaste um "fuck you". Provavelmente para ter a certeza que eu percebia o tom.
Perguntei o que te impelia a escrever esta missiva. "Exmo. Senhor [nome de família], porque é que tem esse desejo? Cumprimentos, Margarete Stokowski" - e ao menos deste uma resposta curta. "Porque já estou farto da tua tagarelice. E agora, tão delicada, queres ser minha amiga no facebook? Só se me enviares fotografias nua!"
Pois, Ruven. Tenho fotografias tão boas. Mas esse não era o assunto que estávamos a tratar, pois não? Tira a mão das calças quando falo contigo. Perguntei uma segunda vez o que é que te incomoda tanto que te leva a desejar-me a morte. Que imagem tens tu das mulheres, Ruven?
Não consegues melhor que isso, quando não concordas com a opinião de uma mulher? Dizer-lhe que pode escolher entre morrer ou servir-te de inspiração para uma punheta? É pouco, Ruven! Onde está o filho pelo qual os pais se alegraram tanto? Escreves o mesmo a homens que não têm a tua opinião? Pediste ao Jakob Augstein fotos dele nu?
O ódio não é boa ideia
Para a tua visão do mundo, seria conveniente que eu te odiasse. Mas não te posso ser útil. Mesmo juntando todas as emoções negativas que tenho neste momento, não consigo sentir ódio. Vi fotos tuas no facebook, e li que de momento tens problemas de saúde. As melhoras, Ruven. Sem qualquer ironia, desejo que te sintas de bem com a vida. E não é por ter comido um hippie ao pequeno-almoço. É porque nas fotografias tu pareces infeliz.
Parece-me que andar pela internet a odiar não é boa solução para nada. Sobretudo quando é feito à custa dos outros. Hoje dão-te atenção, mas amanhã já se esqueceram de ti. Pura e simplesmente, não é boa ideia. Li que tiveste um ataque cardíaco, Ruven. Imagina que tens outro, e a última coisa que fizeste antes disso foi enviar uma mensagem curta e má, que provavelmente nem sequer será lida.
É certo que não mereces que eu me ocupe tanto de ti. Pura sorte, Ruven. Confesso até que nem és um caso especial. Há quem me escreva com mais frequência e brutalidade que tu. Dizem que devia ser violada por um grupo de árabes e só depois morrer. Ou falam em vingança sanguinária e aniquilação total. Tu dizes-me apenas que eu devia morrer nuns sanitários públicos. É mais provável que eu seja atropelada pelo Jan Böhmermann num Segway do que morra afogada numa sanita de transexuais, mas as pessoas são livres de pensar o que lhes apetecer.
Já o Einstein tinha aconselhado a Marie Curie a não ler comentários online, digamos assim. Obviamente, não se tratava da internet. Mas a mensagem era clara: "se o mob continua a falar de si, não leia esses disparates." És o mob, Ruven? Escrevo-te porque me pergunto porque é que as pessoas enviam essas mensagens de ódio. E com certeza que também escrevo porque gosto do teu nome - embora talvez nem seja o teu nome, se calhar chamas-te Manuel Neuer.
E também porque já fiz férias na cidade onde moras. Uma cidade impressionante, marcada pela coexistência muito próxima de pessoas com religiões diferentes. Sabe Deus que nem sempre de forma pacífica. Mas na maior parte do tempo conseguem. Isso incomoda-te, Ruven? Incomoda-te a existência lado a lado de pessoas que têm visões diferentes do mundo? Às vezes acusam-me disso: que não me dou bem com a existência de pessoas que têm outras opiniões. A verdade é que me dou muito bem, e praticamente até é disso que vivo.
Porque me desejas a morte?
Talvez queiras dizer agora: quem vai à guerra, dá e leva. É verdade. Um ponto para ti, Ruven. Mas penso que a expressão significa que quem dá uma opinião recebe uma opinião, e quem dá uma bofetada recebe uma bofetada, Não esses votos de morte em troca de uma opinião.
Porquê, Ruven? Porque me desejas a morte? Ou tratava-se de uma metáfora? Para quê? (...) Conheces este estudo do Guardian, que analisou 70 milhões de comentários online? Embora no Guardian, como aliás em toda a parte, a maior parte dos textos de opinião sejam escritos por homens, os dez autores que recebem mais comentários ofensivos são oito mulheres e dois homens de pele escura. Os temas com mais comentários bloqueados foram Israel/Palestina, feminismo e violação. Os temas com mais comentários decentes foram palavras cruzadas, críquete, corridas de cavalos e jazz.
Bem sei que receberia muitas mais mensagens de pessoas como tu, Ruven, se usasse um lenço na cabeça. "Não me apetece continuar a ser a mulher de limpeza da nação", disse Kübra Gümüsay na re:publica[ o vídeo indicado no link é em alemão - recomendo-o imenso a quem o fala; para os outros, já sei, já sei, vou ver o que se arranja ali com o Speedy Gonzalez ] , ter de limpar a porcaria das ideias dos outros, repetidamente e sem parar. É possível esgotar as pessoas enviando-lhes mensagens de ódio. Mas o paradoxo é este, e agora repara bem, Ruven: quando, em vez de argumentar, simplesmente se enviam insultos, não se muda absolutamente nada. É a maneira mais idiota de reagir. Hoje é o único dia da tua vida em que te dei algum do meu tempo, e tu desperdiçaste-o por completo. Repara: eu continuo a ser feminista e a favor de sanitários públicos para transexuais. Que pena. Perdeste a tua oportunidade, Ruven, e tão pequena que era.
Três posts que escrevi na Enciclopédia Ilustrada, no dia em que a palavra mágica foi "diabo":
Estava a ver se alguém fala do diabo que foi desencaminhar o Dr. Fausto de Goethe, que havia de ser um nerd mas em medíocre (o Fausto - porque o Goethe, esse, havia de ser um nerd, mas em genial). Como estão todos muito caladinhos, vou ter de me envergonhar eu.
A história começa com um prólogo no céu, uma conversa entre Deus e o diabo, à maneira do livro de Job. Não sei como é que Deus arranja, que a cada par de milénios mete-se no jogo e a fazer apostas. Más companhias, já a minha avó avisava. Cuidado com as más companhias! Entretanto ela morreu, e espero que esteja a avisar Deus com o mesmo empenho com que me avisava a mim, e espero que ele lhe dê ouvidos (durante muitos anos a coisa correu bem comigo, mas agora meti-me no facebook...).
O diabo entra na casa do Fausto em forma de caniche, depois mostra quem é e ao que vem, e o nerd do professor, que tudo estudou mas pelos vistos pouco aprendeu, com meia dúzia de tretas acaba a vender a alma ao diabo. Ao caniche. E é melhor eu agora não atirar pedras ao telhado do Fausto, porque tenho cá em casa um rafeirito que manda em mim, e nem sequer fizemos um pacto para ele me dar tudo o que quero, nem nada. Por falar nisso, são horas de o levar outra vez a passear.
Em todo o caso: o Fausto vendeu a alma ao diabo, depois disso só fez asneiras, e quem pagou foi a pobre da Gretchen.
O Goethe publicou o primeiro Fausto em rapaz novo, e passou o resto da vida a pensar e a escrever o segundo. O Fausto II escapa com um olho negro. Então como é? Vende a alma ao diabo, morre, e tal, mas Deus arranja de não perder a aposta toda?! E depois falam em "justiça divina"... Mais valia rematar à maneira do Evangelho, com uma daquelas frases que me deixam sempre boquiaberta a pensar quem terá sido o tradutor que fez tal asneira (geralmente a culpa é do tradutor), tipo "o reino de Deus é assim: quem muito tem, mais lhe será dado; quem pouco tem, até esse pouco lhe será tirado". É daquelas frases que me fazem pensar que se o reino de Deus é assim, se calhar era boa ideia ir espreitar como será o contrário, o reino do diabo, mas eu não disse nada, nem sequer estou aqui, ópramim lá tão longe, já estou no lago a passear o cão. Não, não é um caniche.
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Na aldeia da minha avó não se podia dizer diabo. Nem demo. Nem mafarrico. Nenhum dos seus nomes. Em vez disso, diziam "o cão" ou "o bicho da peçonha" em modo raivoso, cuspido. Como se o diabo existisse mesmo, como se todos morressem de medo da sua presença material e fizessem questão de lhe omitir o nome, não fosse ele pensar que o estavam a chamar.
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Hoje já é amanhã, pelo menos aqui na minha terra, e a culpa é do vizinho que me viu a chegar a casa tarde e a más horas e ainda abriu uma garrafinha de vinho para ficarmos na conversa. Em todo o caso, antes deste dia do diabo terminar queria falar do Martinho Lutero que fugiu para a Wartburg disfarçado de Junker Jörg, e se entreteve por lá a traduzir o Evangelho para uma língua que acabou por se tornar a base do alemão moderno unificado, digamos assim, mas isso era no tempo em que a religião tinha uma palavra a dizer na sociedade. Até tinha uma língua inteira.
Diz que o diabo costumava incomodá-lo muito, desde tenra idade, e uma vez, lá na Wartburg, quando estava novamente a ser provocado e posto à prova, o Lutero perdeu a paciência e, zimbas!, atirou-lhe o tinteiro ao focinho. Mas o malvado do mafarrico esquivou-se e a parede ficou toda esborratada. Para gáudio dos crentes e turistas muitos anos depois, que foram esgravatando a tinta da parede até não sobrar mancha nenhuma para eu ver (fui lá no princípio deste século, e não tinham deixado nada para mim, os egoístas). Para gáudio dos trolhas da Turíngia, que passavam a vida a pintar e a repintar a nódoa, que era esgravatada e repintada. Mas agora deixaram-se disso, se calhar a culpa é da troika.
Em todo o caso: a culpa deste texto é do rosé.
Boa noite, durmam bem.
Rui Carvalho tem um sentido de oportunidade ainda mais fantástico que eu: teve 14 longos anos para denunciar o que lhe parece ser um comportamento criminoso de um investigador, mas só se lembrou de falar disto justamente na altura em que o tal investigador, agora ministro, está a travar uma luta complicada para fazer cumprir obrigações constitucionais que vão contra interesses de um grupo empresarial.
Coitado do Rui Carvalho. Mesmo que tivesse razão (e parece que não tem - as entidades públicas envolvidas afirmam que o processo decorreu com toda a normalidade), ser-lhe-ia muito difícil explicar porque é que foi precisamente neste momento que se lembrou de denunciar algo que aconteceu há 14 anos. E vai-lhe ser ainda mais difícil conseguir que alguém acredite que o que o move não está de modo algum ligado a poucas-vergonhas como as que se descrevem nesta reportagem.
Mais lhe valia ter ido regar o jardim à chuva, ou perguntar se alguém pode levar uma encomendazinha no próprio dia em que se suspeita de uma bomba ter feito cair um avião...
Tem estado um tempo formidável em Berlim. "Formidável" é um conceito relativo, bem sei. Em todo o caso: ora com mais calor ora com menos, tem estado seco. Sim: há semanas que não chove! A relva do nosso jardim parece que tem icterícia, o acerto da factura da água do ano passado ainda nos dói na conta bancária, e não chove. E depois há o sádico do boletim meteorológico a repetir, dia após dia, que chove na Alemanha toda. Toda? Não! Uma pequena aldeia da Prússia resiste estoicamente no mapa.
Ontem não aguentei mais e fui regar o jardim. Bem sei, de outros anos, que se eu regar daí a nada chove. Até queria que a câmara de Berlim me pagasse a conta da água, porque com o que faço chover poupam eles a rega de todos os parques. O problema é que se eu não regar não chove, e ainda se lembram de me passar uma multa por causa do prejuízo da cidade. Reguei, portanto, e a relva começou a tingir-se, agradecida, sabem como é: aquela associação do verde à esperança.
Daqui a nada começa a chover. Se for o dilúvio, fui eu.
Ontem, quando meio mundo se questionava - em choque - sobre os motivos da queda de um avião no Mediterrâneo, perguntei nas redes sociais se haveria alguém disposto a trazer-me um pequeno volume de menos de um quilo de Lisboa para Berlim.
E admirei-me muito de não ter resposta.
(fotos: Catarina Ivone, numa série do facebook a que chamou "esta mulher é pecado")
Nem sei bem como, caí numa play list com esta mocinha, e fiquei a ouvi-la tocar mais de três horas, vídeo após vídeo.
Caramba, esteve a tocar de cor mais de três horas! (vá, era uma piada seca)
(volta e meia ia espreitar, e os vestidos eram todos de aimêdês - desde a Yuja Wang que não via nada disto)
(há tempos esteve cá - da próxima vez, não me escapa)
(antes que pensem coisas, aviso já que só escrevi o nome dela muitas vezes porque é difícil como tudo, e não quero enganar-me da próxima vez que me quiser armar em pessoa erudita)
("fiquei a ouvi-la" foi o que escrevi no início do post. Entretanto, por causa de comentários de amigas no facebook, fui ver. Agora não sei se quero ir a um concerto dela. É um dois em um: boa música, e excelente mise en scène. Não é o Lang Lang, demasiado arrebicado, nem a Grimaud, que se transforma em música, nem o Trifonov, que se funde com o piano. É dois em um, e é demais: não sei se conseguirei abstrair da sensualidade dela para lhe ouvir a arte.)
A minha estreia numa loja nos EUA: cheguei à caixa, mostrei o que queria comprar, e a senhora perguntou:
- How are you today?
Apanhada completamente desprevenida:
- Well, ahem, fine, fine. Thank you.
A pensar: que maravilha de país, têm atendimento psicológico nas caixas das lojas!
(Por sorte o meu filho mais novo já chegou à fase em que não se envergonha de mim. Até me pede para ser natural à frente dos amigos dele, diz que quando começo a meter água sou muito divertida.)
(Nós tínhamos dos nossos pais uma ideia completamente diferente, não era? Estávamos muito longe de os conhecer por dentro, como os nossos filhos nos conhecem. Será que eles disfarçavam muito bem, ou já estavam realmente completos e adultos como os imaginávamos, ou não se podiam dar ao luxo de tirar a máscara nem perante eles próprios?)
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Uma vez (desconfio que quando o pessoal lê os meus "uma vez" pensa "oh, não! lá vem ela com o uma vez outra vez!") os meus irmãos viram um esquilinho amoroso à venda no mercado do Bolhão, e convenceram o pai que era mesmo mesmo mesmo o presente de anos que a mãe ia adorar (o aniversário dela era o que estava mais a jeito para o caso). A contragosto, o pai lá deu os 500 escudos para o comprar - uma fortuna.
Os rapazes foram ao Bolhão, e quando descobriram que a gaiola não estava incluída no preço não se atrapalharam, nem ficaram em choque, nem nada: compraram o bicho, e trouxeram-no para casa numa caixa de sapatos com buraquinhos no cartão para ele poder respirar.
O resto, é uma história mirabolante de uma miúda de seis anos que vai espreitar o esquilo, do esquilo a aproveitar para fugir da caixa - mas como este é o momento em que a caixa sai desta história, não conto do pandemónio que foi para o tentar apanhar, nem de ele ter mordido o meu irmão que se tinha protegido com uma luva de pano (hihihihi, uma luva de pano!), nem da minha mãe a telefonar ao hospital a perguntar se o bicho teria raiva, nem do meu pai a mandar comprar uma gaiola e depois, quando chegou a casa, a fazer um corredor entre o sítio onde a pobre criatura se escondera e a gaiola, e a resolver o problema em menos de um minuto.
Pobre esquilinho. Morreu pouco depois. Se calhar, era o meu irmão que tinha raiva...
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Na nossa casa havia uma caixa destas. Era de mil novecentos e vinte e pouco, e imagino o meu avô a encomendá-la de Paris, feliz que estava com a chegada do filho. Em criança, passei horas sem fim a estudar-lhe o mecanismo, e mais horas ainda a dançar uma coisa a que chamava "ballet" ao som daquelas músicas (por sorte, ninguém viu). Tinha uma boa dúzia de melodias, e podia-se escolher repetir sempre a mesma, ou tocar a sequência. Só não tinha a opção de sequência aleatória. Nem sequer passou a ter depois de eu a ter estudado por todas as formas, e em particular pelo método experimental.
querido diário,
hoje foi o meu primeiro dia como administradora da Enciclopédia Ilustrada. Que responsabilidade! Que medo! A letra do dia era A, e claro que me ocorreu imediatamente "administrador". Fiz o post cheia de medo, aimêdês que não vai haver nada para dizer, aimêdês que ainda agora comecei e já estou a desgraçar esta obra. Mas os posts começaram a entrar, uns melhores que os outros. Que maravilha!
Estou fascinada com este poder. Digo uma palavra qualquer, e os estimados colegas desatam a produzir coisas incríveis.
Agora estou a pensar criar um sistema de encomendas de palavras. Não sei ainda: 5 ou 10 euros por encomenda? Talvez 20, que isto é um grupo muito selecto. Enfim, não quero exagerar, e também não convém enriquecer depressa. Nos tempos que correm anda tudo muito desconfiado, o Correio da Manhã ainda vinha a saber, e depois o youtube enchia-se de escutas de telefonemas entre mim e o Joachim, "a que horas vens jantar? " e "não te esqueças de trazer pão" e o pessoal, que é fino e não se deixa enganar, ia logo ver que isto são mensagens codificadas.
Agora vou dormir, e sonhar com a palavra da próxima quinta-feira. A letra D.
Será que encontro alguma?
No próximo domingo, o Daniil Trifonov vai tocar o concerto nº 2 para piano de Rachmaninov na Filarmonia de Berlim. Vi-o há meses, a tocar o nº 3. A sala inteira em apneia, até se esqueceram de tossir e tudo.
Os bilhetes para o próximo domingo são demasiado caros, pelo que estou a pensar um plano B, teimosamente fundado na convicção de que a esperança é a última a morrer: ir para a porta, ver se há alguém com um bilhete a mais, que o queira oferecer. Às vezes, há.
O problema é que no próximo domingo vou cantar a missa de Schubert. Estarei na Filarmonia das dez da manhã até às seis da tarde, completamente mergulhada em música e endorfina da melhor. Já basta para um dia, já deveria bastar - e bastaria até para um mês, ou seis meses, ou um ano, se a minha vida não fosse a tal de mil faces transbordantes.
Há tempos, uma das cantoras que participou na ópera do ano passado comentou que foi o melhor que lhe aconteceu nesse ano (ou terá dito "na vida inteira"?). Fiquei muito surpreendida, porque eu tinha conseguido encaixar a ópera entre uma viagem maravilhosa à Costa Rica e a festa que organizámos na nossa rua - para falar apenas do que aconteceu na mesma altura. Pergunto-me se dou o devido valor ao que me acontece, ou se na vertigem de tanto e tão bom acabo a deslizar pela vida sem lhe tocar a profundidade.
Estou a ouvir o Trifonov, e a pensar que gostaria imenso de o ver no próximo domingo, mas não sei se consigo estar realmente nesse concerto com ele logo depois de ter cantado a mil vozes uma missa de Schubert - essa missa que estou a fazer minha.
Não será uma overdose de sensações demasiado intensas?
Menos é mais?
Não me digam que ainda agora completei cinquenta anos, e já estou a ganhar juízo?
(Provavelmente é apenas o saber de experiência feito. Por causa daquela vez em que fiquei de frente ao Dudamel a vê-lo dirigir a segunda de Mahler, e a seguir fui ao late night com o Rattle e a Barbara Hannigan. Eles foram excelentes, mas foi uma péssima ideia, porque não conseguia ouvi-los - ainda estava no concerto anterior. O eco daquele Mahler precisou de vários dias para se resolver dentro de mim.)
(Por outro lado, é o Trifonov. E o nº 2 de Rachmaninov. Aaah, pudesse eu não ter laços nem limites...)
Há uma passagem neste vídeo que me lembrou imediatamente uma resposta dada ao Michael Moore no seu filme mais recente, Where should we invade next?, quando se falava do modo como em Portugal tratam os consumidores de droga.
- Mas então, não criminalizam o consumo?! A droga destrói famílias!
- O facebook também, e ninguém o proíbe...
(Vi-o na Berlinale: o Friedrichsstadtpalast cheio até à última cadeira, e o público a rir em uníssono com esta resposta. Fiquei muito orgulhosa daquele português.)
Esta manhã lembrei-me, nem sei porquê, daquele fim de tarde em que - teria talvez seis anos - me mandaram ir num instantinho comprar um ramo de salsa à mercearia. Ia a subir a rua (pelo meio do passeio, nem demasiado perto do movimento, nem demasiado perto do pastor alemão e do lobo da Alsácia de um vizinho, que metiam um medo dos diabos a toda a gente), quando vi um carro desgovernado na minha direcção, com várias raparigas lá dentro. Passou por mim aos ésses, e logo a seguir guinou para a direita, galgou o passeio e estampou-se de frente contra um muro. As raparigas saíram, gravei delas os cabelos compridos, as calças à boca-de-sino, algum sangue na cara de uma, o ar de choque. Começaram a aparecer pessoas, e eu continuei caminho aliviada por o carro não ter guinado para cima de mim (lá ficava a minha família sem salsa para o jantar),
Hoje ocorreu-me que estas raparigas, se naquele dia não foram mortas pelo pai, devem estar a fazer uns sessenta e cinco anos. Espero que já tenham ganhado juízo.
(Antes de mais, façamos um esforço para ignorar os nomes envolvidos neste assunto, de modo a podermos pensar com objectividade em coisas muito sérias.)
É o seguinte: no nosso país, como em muitos outros, os cidadãos concedem ao Estado o poder de lhes devassar a privacidade e a intimidade em casos muito especiais, quando há fortes suspeitas de crime. Dado tratar-se de um abuso do Estado contra os mais básicos direitos da personalidade, essa devassa está sujeita a regras muito apertadas. No entanto, recentemente demo-nos conta de que no nosso país é possível que jornalistas tenham legalmente acesso a material muito sensível, recolhido segundo essas apertadas regras, para a seguir publicarem acusações contra uma pessoa que nem sequer está na mira do Ministério Público. Desculpem, vou repetir: apesar de o Ministério Público entender que não há motivos para incriminar e levar a tribunal determinada pessoa, ela vê-se acusada num tribunal popular que a julga com base nas insinuações de um jornal que se diz omnisciente mas não consegue apresentar provas concludentes do que afirma (claro: se as houvesse, o Ministério Público constituía a pessoa como arguida). Mas ainda pior é possível: se essa pessoa, para se defender, pedir ao Ministério Público acesso ao processo de modo a conhecer a base da acusação que lhe foi feita pelo jornal, esse pedido é-lhe recusado porque - quem diria? - aquele material está sob segredo de Justiça. Entretanto, parte do tal material (que, recorde-se, foi recolhido no âmbito de uma investigação que obedece a regras rígidas e nem sequer tinha esta pessoa como alvo) já é exibido, de forma manipulada, em vários meios de comunicação social.
Diz-se que somos uma Democracia recente, e que ainda estamos a ensaiar passos. Penso, pelo contrário, que quarenta anos não são tão pouco como isso, que já começa a ser tempo de sermos exigentes com o país e connosco em vez de nos embalarmos nesta atitude de compreensão e derrotismo, e que não podemos tolerar que se ensaem passos na direcção errada. A direcção que este caso toma é fatal. Um jornal entende que se pode substituir à Justiça: começa por lhe dizer o que ela deve fazer e, ao ver que não é obedecido, arma-se em herói justiceiro e castigador. Não o confundamos com um whistle blower - esse fornece à Justiça os factos que ela desconhece. Aqui, quem desconhece os factos é o jornal, que os vai buscar à Justiça e, rejeitando o veredicto de não-relevância do único agente do Estado de Direito que tem o direito de decidir sobre isso, publica calúnias alegando que "sabe coisas" - o que dá origem a um julgamento popular. Por outro lado, ao mesmo tempo que se põe descaradamente acima da Justiça, o jornal furta-se às obrigações mais elementares do jornalismo, não cuidando de ouvir a pessoa que acusa para lhe dar a oportunidade de contraditório,
Sinceramente, não sei como é que o Ministério Público se deixa desautorizar desta maneira, e como é que o caso não foi ainda ao Parlamento. Ainda não perceberam que estamos perante um ataque muito sério ao regular funcionamento das instituições que são a base de qualquer Democracia?
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Neste momento está a acontecer à Fernanda Câncio.
Independentemente dos sentimentos de ressentimento e vingança que algumas pessoas possam ter em relação a ela, não nos iludamos: se permitirmos isto, deixamos uma porta aberta para que aconteça a qualquer um de nós.
Alguns dirão "ai, mas eu cá sei escolher as pessoas com quem me dou". Não teria tanta certeza.
Melhor será passar a exigir sempre cópia da declaração de impostos a todos os amigos que nos convidarem para um almoço ou nos derem um presente de valor.
(É esta a sociedade que queremos ter?)
Outros dirão "quem não deve não teme". Pois, fiem-se na Virgem...
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Quem quiser ler o texto da Fernanda Câncio: o processo marquês e eu (e a visão).
Quem quiser ler a crítica que o Daniel Oliveira faz ao Correio da Manhã e à Justiça portuguesa (explica muito melhor que este meu post): Fernanda Câncio e os atalhos do "Correio da Manhã".
Quem quiser mesmo ir coscuvilhar no que nunca devia ter passado ao domínio público, mas agora que o mal está feito convém informar-se para além das insinuações do Correio da Manhã: O que liga Fernanda Câncio à Operação Marquês?
Quem quiser ouvir o Ricardo Araújo Pereira a dizer que isto parece o processo de Kafka do séc. XXI: Governo Sombra de 15.05.2016 (a partir de 7:34)
(Ontem escrevi o título deste post, e fiquei toda satisfeita com ele, achei-me muito original. Esta manhã vi o Governo Sombra, e aparece-me o Ricardo a dizer mais ou menos o mesmo. Humpf! Das duas, três: ou é sinal de que eu sou um génio, ou o RAP está a perder qualidades, ou então o espírito do La Palice caiu sobre nós os dois.)
Daqui a exactamente uma semana, mais minuto menos minuto, estarei na Filarmonia a cantar esta missa de Schubert.
Eu, e mais 999, e mais os solistas. Não se preocupem comigo, desta vez não me vou envergonhar, porque tenho o playback muito bem ensaiado: nas partes em que não estou segura, abro e fecho a boca dentro do ritmo e das vogais certas, e a coisa vai.
[ ouçam o "Domine Deus", a partir de 10:48, ouçam o - aaaaaah - "Miserere" ]
O meu coro teve cerca de dois meses para preparar a missa inteira. O nosso maestro deu-nos um plano muito exigente para prepararmos previamente cada ensaio, enviava-nos e-mails do género:
Seite Takt bis
1 Kyrie Christe 4 51 88
2 GloriaGratias 14 68 115
Domine Deus 19 151 229
ff. Fuge
Cum sancto 29 329 387
ff. 31 388 432
4 SanctusBenedictus (tutti)
68 26 35
Apesar do ritmo intenso do trabalho e de fazermos os trabalhos de casa, no último ensaio senti sinceramente pena antecipada do Simon Halsey, que no próximo domingo vai ter de apresentar uma missa de Schubert com duas dúzias de coros amadores, e mais o seu fantástico Rundfunkchor Berlin. Adoro o Simon Halsey, gosto imenso de trabalhar com ele (esta é a segunda e provavelmente a última vez, porque ele também se vai embora de Berlim, como o Simon Rattle) (desconfio que esses dois em Londres vão provocar uma bela subida do índice de felicidade na região) e deu-me pena: coitado, não merecia levar com uma como eu, que em dois meses o máximo que consegue fazer é preparar o playback na ponta da língua.
E depois senti muita pena de mim. É que, no ensaio da semana passada, ficámos um pouco mais em duas passagens - uma que me cativou por parecer russa [ 30:10 ] e outra, quase renascentista, que me fez sentir em casa - e por termos parado mais nelas comecei a perceber o que o Schubert queria e a sentir-me encantada por estar em comunhão com ele; pelo meio o nosso maestro dizia gracinhas do género "isto não é erro de impressão, é mesmo maldade do Schubert", a seguir a maldade resolvia-se em beleza, e eu só pensava - cheia de pena - que mais seis meses, seis meses de entrega total e íamos entrar realmente nesta missa e no Schubert, íamos talvez conseguir tocar a alma desta música.
[ ouçam os solistas a cantar "e encarnou", a partir de 20:50 ]
Se me deixassem mandar, em vez de "mansplaining" chamava-lhe "machosplaining", e filmava aleatoreamente conversas, debates e reuniões para depois, discretamente, mostrar essas cenas como espelho a quem dele precisa. Que ele não há rapazes maus, o problema é que alguns estão mal habituados.
Esta semana o prémio "literacia no jornalismo" vai para a jornalista Ana Dias Cordeiro, cujo artigo no Público mostra que foi uma das poucas pessoas na comunicação social, se não a única, que leu e entendeu o texto da Fernanda Câncio na revista Visão.
Dei uma vista de olhos pelo que os jornais online escrevem sobre o caso, e é desanimador: esta gente parece estar condicionada para interpretar o que lê seguindo um esquema de drama, intriga, traição, sangue a correr na calçada.
Se não fosse tão grave, era uma boa anedota: a Fernanda Câncio escreveu um retrato assustador do que se está a passar na Justiça e no Estado de Direito em Portugal, e o pessoal do jornalismo não se deu conta.
Bem sei que pois é, e tal, a vida está difícil, a crise tramou isto tudo, o jornal tem de vender, a espada de Dâmocles pende sobre o pescoço de todos. O nome "Sócrates" vende imenso, há que repeti-lo o mais possível. E há que retirar de um texto aquilo que rende mais, há que explorar ao máximo a intimidade de um casal famoso, há que usar os detalhes que o público - o ganha-pão dos jornais - quer ler. Ou isso, ou inventar uma boa impressora de dinheiro.
Moral da história: ninguém diga "desta água não beberei" - a Visão lançou o isco para apanhar público, e os jornalistas morderam-no com o entusiasmo de quem juntou a fome à vontade de comer.
Se me aceitassem uma sugestão, era esta: senhores jornalistas, mudem de vida e tentem ser felizes a fazer aquilo para que têm realmente jeito. Escrevam episódios de telenovela. Assim como assim, rende mais que o jornalismo sério, e não é preciso meter os princípios deontológicos e a mais elementar literacia no bolso de trás das calças, aquele que fica mais perto do, enfim, vocês sabem.
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E afinal, de que fala a Fernanda Câncio na Visão? Quem não quiser comprar a revista (e não merece - quem troca “Esclarecimento Público: O Processo Marquês e eu” para um muitíssimo mais rentável "Sócrates, o processo Marquês e eu" não merece que lhe comprem a revista), pode ler este resumo no Público. Obrigada, Ana Dias Cordeiro.
ADENDA: dizem-me que não é possível seguir os links dos blogues para o Público. Quem quiser ler o artigo, pode procurar no Google por "Ana Dias Cordeiro" e o título: Fernanda Câncio espera de uma justiça “cúmplice de crimes” que “reponha a verdade”
Deixem-me ver se entendo: ficámos todos chocados quando a Dilma trouxe o Lula para o governo, ajudando-o a escapar a um tribunal - e agora o presidente interino nomeia para ministro oito indivíduos que eram réus do Lava Jato?!
(Pronto, lá caí outra vez na ratoeira da superioridade moral da Esquerda: no caso do Lula, é imperdoável; no caso dos outros oito, é normal.) (Pessoas de bem da Direita, que também as há: protestem alto e bom som, por favor. Humilhem-me, mostrem-me que sofro de preconceitos absurdos.)