29 fevereiro 2016
Berlinale 2016 - dias 10 e 11
Sábado e domingo: mais histórias de cama. Não vou contar.
No sábado, queria ver quatro filmes, mas vim para casa ao fim do primeiro. A culpa foi da maldita gripe, e também do documentário com que abri o dia: era sobre uma família chinesa, e filmavam-nos a conversar enquanto comiam. Já a podiam incluir na lista dos métodos de tortura, aquela barulheira a sorver a sopa numa sala de cinema.
Ao fim da tarde de domingo fui ver os meus últimos dois filmes desta Berlinale. E não me arrependi: o da última sessão foi Les Sauteurs - um documentário tocante, e um dos melhores filmes que vi nesta Berlinale.
Berlinale 2016 - dia 9
Entrei no Berlinale Palast para a primeira sessão de jornalistas. À entrada, perguntei se tinha boas hipóteses de ver também o filme do meio-dia. A senhora riu-se: "Isto agora é só para sobreviventes! Vai haver lugar para todos".
Parecia que estava na Filarmonia: só se ouvia gente a tossir na sala.
Ao meu lado estava um jornalista dinamarquês. Ficou todo satisfeito com os meus rebuçados de menta japonesa. Falámos do Michael Moore, que ele iria entrevistar em breve. Pedi-lhe que lhe perguntasse porque é que insiste em forçar a nota até ao ponto de perder credibilidade. No caso do filme "Where to invade next" era muito óbvio que estava a transformar factos reais e positivos num conto fantástico de questionável veracidade. O filme fica mais divertido e impactante, mas será que uma mensagem embrulhada em tanto papel de fantasia consegue chegar realmente ao seu destinatário?
O Gerard Depardieu estava quase a sair da conferência de imprensa, e resolvi esperar para pedir um autógrafo no meu bilhete do Saint Amour. Apesar dos derrapanços que tem dado ali para os lados da Rússia, ainda lhe estou muito grata pelo Cyrano de Bergerac, pelo Green Card, por Tous les Matins du Monde, por tantos outros...
Os profissionais dos autógrafos estavam todos a postos, e ficaram muito entusiasmados quando descobriram que eu falo francês. Era o joker deles, e queriam que eu gritasse "Gerard, je t'aime!"
Ora, eu aprendi francês no tempo em que, no máximo, me permitiriam um "Monsieur Depardieu, je vous aime!"
Não interessa, disseram eles. Grita o que te apetecer, o que é importante é que ele venha para aqui.
Demorou que se fartou, e nós ali na conversa. Um dos caçadores de autógrafos era uma pessoa muito amarga. Destilava ódio contra os artistas - o que lhe assinou com preto sobre preto um cartaz que custava centenas de euros, ou a actriz inglesa que se recusa a autografar para alemães -, destilava ódio contra os colegas, e usou para um uma expressão muito curiosa: "nómada de pessoas", para alguém que vai de amizade intensa em amizade intensa, passando para a seguinte e esquecendo a anterior.
A equipa do Saint Amour saiu finalmente. Eu bem gritava Monsieur Depardieu com a minha voz muito sensual de gripe, mas ele virou para Leste. Sempre o Leste, sempre o Leste.
Um dos caçadores de autógrafos, o mais simpático, conseguiu que lhe assinasse um poster. Posava com ele, feliz e orgulhoso como se fosse um peixe de 20 kg.
Eu consegui um autógrafo do Vincent Lacoste. Feito a caneta fina, mal se vê. Mas disse-lhe que gostei muito do trabalho dele no filme - e além disso é o mais bonito dos três. Há que transformar em limonadas os actores secundários que a Berlinale te dá.
Berlinale 2016 - dia 8
Foi aqui que começaram as minhas histórias de cama nesta Berlinale. Ardentes, febris.
The Berlinale flu.
Passei o dia na cama. Nem queiram saber.
The Berlinale flu.
Passei o dia na cama. Nem queiram saber.
Berlinale 2016 - dia 7
Quarta-feira. Atravessar o Tiergarten à hora do nascer do sol. O lago gelado, a luz fria, o parque vivo de pessoas de bicicleta ou a fazer jogging.
De novo a fila dos bilhetes, e o primeiro filme do dia: Zero Days. Um documentário assustador.
Sabia que o ambiente no Martin-Gropius-Bau, onde decorre o European Film Market, estava um pouco mais relaxado, e também que era a minha última oportunidade para lá ir, porque a maior parte dos participantes começa a ir-se embora na quinta-feira. Fui espreitar. Na associação de documentaristas alemães pedi um livro que eles têm, com a lista de distribuidores por tipo de documentário - mas já estava esgotado há muito. A jovem ao balcão foi muito simpática, deu-me o caderno dos documentários alemães deste ano, do qual constam os distribuidores, para eu me orientar. e também me contou sobre o filme que ela própria fez, que teve mais de 4000 bilhetes nas salas (nada mau, para um documentário), e já está vendido em várias áreas do mundo. Como é que conseguiu?, perguntei. Tem uma carteira de 20.000 contactos. Agora, 20.001.
Segui caminho, e parei um pouco à frente, indecisa, a pensar se lhe levava um cappuccino ao balcão, só por ter sido tão simpática. Logo a seguir, tocaram-me nas costas: era ela, que tinha encontrado um último exemplar do livro que eu queria no fundo de uma caixa, e me trazia também um catálogo de todos os expositores no EFM. E ainda dizem que o pessoal de Berlim é antipático!
Tinha combinado encontro com um conhecido do facebook, que trouxe um filme português a Berlim. Fui ter com ele ao café onde estava, procurando um simpático moço de barba, como na sua foto no facebook. Lá estava ele, sentado a uma mesa. Abordei-o, muito simpática, e ele ficou a olhar para mim com cara de "oh, que pena não ser eu...". Fiz a mesma cena duas mesas adiante. Até que descobri o meu amigo facebookiano - não tinha barba.
Fica aqui a história como metáfora e aviso: pensamos nós que conhecemos os nossos amigos no facebook, e acabamos a envergonhar-nos em público e repetidamente.
À noite fui com toda a família ver o filme do Michael Moore. A minha noite mais memorável nesta Berlinale: nós os quatro em linha, a rir ao mesmo tempo em perfeita sintonia.
Quando a equipa entrou na sala, pensei que o Michael Moore estava muito mudado. E não era para menos, porque não era ele, era o Carl Deal, um dos produtores. O Michael Moore estava retido em casa, com uma pneumonia. Dirigiu-se ao público berlinense por vídeo, e deixou-nos todos comovidos. Agradeceu o modo como a Alemanha está a receber os refugiados, quando bem podia assobiar para o lado e dizer "quem fez a asneira resolva agora o problema!". E revelou que tinha tido um momento de epifania na Alemanha, durante as filmagens. Finalmente alguém que me compreende (vejam o filme, e também vão compreender).
Berlinale 2016 - dia 6
(fonte)
Pequeno-almoço no instituto Ibero-Americano. Por aquelas empanadas de queso estava capaz de rever a minha posição sobre Aljubarrota.
Seguiu-se a sessão de apresentação da Pantalla CACI, uma nova plataforma que disponibiliza cinema da América Latina, da Espanha e de Portugal para instituições de formação, educação e cultura na América Latina.
Tem como objectivo:
- dar visibilidade ao cinema desta área geográfica e cultural, tirando os filmes do limbo em que desaparecem entre os festivais e os circuitos comerciais;
- romper o bloqueio à circulação das películas;
- educar e formar o público do cinema.
No debate falou-se das novas plataformas de distribuição, como o video on demand, e da importância de ter atenção às novas ondas tecnológicas, de modo a resistir também aí à hegemonia do cinema comercial.
A questão da universalidade e da diferença no cinema também foi focada. O cinema latino-americano parece preso às expectativas do público, que parte do princípio que deve ser um cinema diferente, obedecer a certos estereótipos. Mas será que há cinema universal? Cada país tem as suas diferenças culturais, humor e story telling diferentes.
Um outro tema importante foi a questão do público. O público dos festivais reage de modo diferente do público dos circuitos comerciais. Nunca se sabe qual será a reacção a um filme. Mesmo assim, é fundamental pensar desde o início nas estratégias de colocação junto do público, disseram eles. E deram números: na Alemanha, 99% dos filmes no circuito comercial são norte-americanos ou europeus. Anualmente, só chegam aos cinemas alemães uns 5 filmes falados em espanhol.
Fui ver o Havarie - o filme que menos me agradou nesta Berlinale. Depois fui a casa, adiantar o jantar e tratar do Fox. Por essa altura já estava a desejar que a Berlinale fosse bem longe do sítio onde moro, e eu fosse obrigada a escolher entre uma coisa e outra. É muito complicado tentar ver cinco filmes por dia, e ainda ir a casa para passear o Fox e tratar da vidinha.
Ao sair para o ensaio do coro vi passar a comitiva do Netanyahu. Vai pela sombra, pensei, ainda zangada. Ao chegar ao Zoo vi que ninguém tinha avisado os polícias. A zona continuava toda fechada ao trânsito e aos peões.
À noite fui à festa no Instituto Cervantes. Pisco sour, maravilha. Música, maravilha.
Sou novata nestas coisas da Berlinale, não percebi aqueles olhares muito atentos e directos. Provavelmente estariam a tentar decidir se tenho cara de produtora ou de distribuidora, que estas festas é só networking, andam todos ao mesmo. Todos, excepto eu, que ainda estou a tentar perceber se nas coisas da cultura nos podemos dar bem com a Espanha ou quê, e por precaução optei por concentrar-me no pisco sour. Em vez de aceitar conversa, sentei-me a apreciar as cenas. Ao fim da (minha) noite chegou um grupo diferente - calculo que seriam os actores de um dos filmes a concurso. Muito pinocas e senhores de si, excepto uma miúda com uma minissaia que mal lhe chegava às pernas, uns saltos altos vertiginosos, um cabelo muito produzido, e um ar de equilíbrio precário dentro e fora de si. Vi um lado devorador do cinema, e não era bonito.
Berlinale 2016 - dia 5
(isto é uma espécie de selfie vitoriosa: ópramim na Potsdamer Platz
ainda antes das oito da madrugada!)
Cartas da Guerra. Nove da manhã, o Friedrichstadtpalast bem cheio, e o público muito atento e receptivo.
A seguir, A Quiet Passion no Zoo Palast (no papel de Emily Dickinson, a Cynthia Nixon fez um trabalho de voz fantástico. O Cartas da Guerra dobrado por ela era menino para ir aos óscares).
Quase não conseguia entrar no cinema, porque o Netanyahu estava alojado no hotel de luxo em frente, e a zona toda estava fechada. Nem sequer deixavam atravessar a rua, e até fecharam algumas entradas do metro. Esvaziar o maior nó de transportes públicos rodoviários na parte ocidental da cidade?! Já não gostava nada do Netanyahu antes, mas agora é que foi de vez. Como é que alguém que precisa de cuidados de segurança tão extremos se lembra de se alojar no centro nevrálgico dos transportes públicos desta parte da cidade? Se me deixassem mandar, fazia um hotelzinho de luxo para estes visitantes no jardim da Chancelaria. Ou do palácio presidencial. Ou até no Tiergarten, pronto.
Tudo, excepto transtornar desta maneira a vida da cidade.
Escapei ao Netanyahu e fui ver a estreia do novo filme da Salomé Lamas, Eldorado XXI.
É sempre um prazer ver a Salomé - não apenas os seus filmes, mas a forma calma, inteligente e controlada com que fala do seu trabalho.
28 fevereiro 2016
Berlinale 2016 - dia 4
Domingo. Ensaio do meu coro, o dia inteiro. Nem workshop da Meryl Streep, nem estreia do Cartas da Guerra, nem estreia do 24 Semanas.
Em compensação, um ensaio excelente, e uma bela surpresa: em conversa com uma colega do coro, quando lhe falei do filme português que ia à competição nesse dia ela falou-me de um festival de cinema português muito bom que há em Berlim, onde há tempos viu um filme excelente dos anos 60 sobre um boxer...
Estava a falar do Cinemagosto!
Portanto: no meu coro há uma senhora que um dia foi a um restaurante português, viu um folheto sobre uma mostra de cinema português em Berlim, decidiu logo ali com a sua amiga irem espreitar, e adorou.
Com jeitinho, ainda a ponho a distribuir flyers para a próxima mostra.
Em compensação, um ensaio excelente, e uma bela surpresa: em conversa com uma colega do coro, quando lhe falei do filme português que ia à competição nesse dia ela falou-me de um festival de cinema português muito bom que há em Berlim, onde há tempos viu um filme excelente dos anos 60 sobre um boxer...
Estava a falar do Cinemagosto!
Portanto: no meu coro há uma senhora que um dia foi a um restaurante português, viu um folheto sobre uma mostra de cinema português em Berlim, decidiu logo ali com a sua amiga irem espreitar, e adorou.
Com jeitinho, ainda a ponho a distribuir flyers para a próxima mostra.
Berlinale 2016 - dia 3
Sábado. O despertador tocou às 6:30. A ideia era levantar-me imediatamente, e sair sem sequer tomar café, para estar às 7 da manhã na fila dos bilhetes e tentar arranjar bilhete para o workshop da Meryl Streep no domingo. Mas quando o despertador tocou, fez-se-me de repente luz: nem sequer era um workshop, era apenas a actriz a falar hora e meia para uma sala cheia de pessoas, e para a ouvir teria de faltar a metade do ensaio do coro, e não é correcto comprometer-me com o coro e depois falhar, coitadas das outras contralto que se tentam orientar por mim (pensando bem, sim, coitadas das que têm de se orientar por mim...). De modo que desliguei o despertador, virei-me para o outro lado, e continuei a dormir.
Bastante mais tarde fui passear o Fox, fiz as compras e o almoço, saboreei calmamente o intervalo que me concedi na Berlinale. Cheguei ao palácio da Berlinale à hora a que o Dieter Kosslick, o simpático director, recebia a equipa do Fuocoammare, e vi o sorriso escancarado do miúdo do filme, amoroso.
Gostei imenso do Fuocoammare. Já não é a primeira vez que me acontece: o primeiro filme que vejo, do concurso, ganha o urso de ouro. (Se os autores do Cartas da Guerra sabem, ainda arranjo um sarilho por não ter ido ver a estreia do filme deles, em vez do italiano.)
No fim do filme, o médico - uma pessoa de extraordinária humanidade - fez votos de que o Fuocoammare ajudasse a terminar "esta página suja da nossa História". O realizador não estava tão certo disso. "O cinema não muda muito, mas esperemos que pelo menos foque o nosso olhar durante alguns momentos nesta tragédia". Contaram ainda que mesmo depois de o filme já estar escolhido para a competição da Berlinale, ele ainda regressou à ilha para filmar mais. Só parou em meados de Janeiro.
Depois de passar pela street food da Berlinale (grande ideia que tiveram!), voltei à Audi Berlinale Lounge para espreitar da varanda a chegada da equipa de L'Avenir. Os fotógrafos e jornalistas estavam histéricos: Mia! Mia! Mia!
A Mia deve ser uma grande artista, porque também não vinha vestida para apanhar frio. Embora aquela blusa rendada semitransparente tivesse muito, e só bom, que se lhe diga.
(Era a Mia Hansen-Løve, recebeu o Urso de Prata pela melhor realização.)
Não me apeteceu ir ver este filme. Sim, eu sei: Deus esbanja as nozes sem critério nenhum.
Em vez disso, sentei-me confortavelmente na Audi Berlinale Lounge a assistir a um concerto de jazz com a Jasmin Tabatabai. Depois de ter bebido o café fortíssimo que ofereciam (ofereciam!) junto à entrada.
Aqui fica a informação, para futuros frequentadores da Berlinale: aquele pavilhão junto ao tapete vermelho está aberto a todo o público, oferece café forte a quem quiser, e todas as noites tem música ao vivo.
O David Klein é um excelente músico, um homem com muito sentido de humor, e um doce de pessoa. A Jasmin Tabatabai ocupa bem o palco e canta bastante melhor que eu (mesmo no duche), mas fez umas piadinhas à custa dos outros que me caíram mal.
No fim do concerto fui à estreia do filme neozelandês, Mahana. Os actores principais fizeram uma pequena cena de haka no tapete vermelho. Mas não metiam medo a ninguém.
Bastante mais tarde fui passear o Fox, fiz as compras e o almoço, saboreei calmamente o intervalo que me concedi na Berlinale. Cheguei ao palácio da Berlinale à hora a que o Dieter Kosslick, o simpático director, recebia a equipa do Fuocoammare, e vi o sorriso escancarado do miúdo do filme, amoroso.
Gostei imenso do Fuocoammare. Já não é a primeira vez que me acontece: o primeiro filme que vejo, do concurso, ganha o urso de ouro. (Se os autores do Cartas da Guerra sabem, ainda arranjo um sarilho por não ter ido ver a estreia do filme deles, em vez do italiano.)
No fim do filme, o médico - uma pessoa de extraordinária humanidade - fez votos de que o Fuocoammare ajudasse a terminar "esta página suja da nossa História". O realizador não estava tão certo disso. "O cinema não muda muito, mas esperemos que pelo menos foque o nosso olhar durante alguns momentos nesta tragédia". Contaram ainda que mesmo depois de o filme já estar escolhido para a competição da Berlinale, ele ainda regressou à ilha para filmar mais. Só parou em meados de Janeiro.
Depois de passar pela street food da Berlinale (grande ideia que tiveram!), voltei à Audi Berlinale Lounge para espreitar da varanda a chegada da equipa de L'Avenir. Os fotógrafos e jornalistas estavam histéricos: Mia! Mia! Mia!
A Mia deve ser uma grande artista, porque também não vinha vestida para apanhar frio. Embora aquela blusa rendada semitransparente tivesse muito, e só bom, que se lhe diga.
(Era a Mia Hansen-Løve, recebeu o Urso de Prata pela melhor realização.)
Não me apeteceu ir ver este filme. Sim, eu sei: Deus esbanja as nozes sem critério nenhum.
Em vez disso, sentei-me confortavelmente na Audi Berlinale Lounge a assistir a um concerto de jazz com a Jasmin Tabatabai. Depois de ter bebido o café fortíssimo que ofereciam (ofereciam!) junto à entrada.
Aqui fica a informação, para futuros frequentadores da Berlinale: aquele pavilhão junto ao tapete vermelho está aberto a todo o público, oferece café forte a quem quiser, e todas as noites tem música ao vivo.
O David Klein é um excelente músico, um homem com muito sentido de humor, e um doce de pessoa. A Jasmin Tabatabai ocupa bem o palco e canta bastante melhor que eu (mesmo no duche), mas fez umas piadinhas à custa dos outros que me caíram mal.
No fim do concerto fui à estreia do filme neozelandês, Mahana. Os actores principais fizeram uma pequena cena de haka no tapete vermelho. Mas não metiam medo a ninguém.
a boa filha à casa torna
Filha pródiga, depois de algumas incursões pela concorrência, voltei à casa mãe. Em boa hora. O programa de ontem anunciava Daniel Stabrawa a tocar o concerto de Szymanowski para violino, mas eu ia lá por causa do Simon Rattle, e não me arrependi (alguma vez me arrependeria?).
A primeira peça, Le Festin de l'Araignée, um ballet de Albert Roussel composto em 1913 (aqui numa gravação de 1946, com direcção de Toscanini), desperta todos os sentidos. Mesmo sem cenários nem bailarinos, facilmente imaginamos o jardim e o sol, a aragem suave, os aromas de verde, a aranha na sua teia, o cortejo das formigas, a borboleta presa - quanta tragédia cabe numa tranquila tarde de verão!
(e quanta alegria cabe nos bancos do coro da Filarmonia)
O segundo concerto para violino de Karol Szymanowski foi muito bem tocado, etc. etc., mas não o compreendi.
Depois do intervalo fomos sentar-nos nos lugares vazios do bloco A. Infelizmente (ou felizmente, como se verá) conversei tanto durante o intervalo que me esqueci dos lugares vazios que tinha decorado durante o Szymanowski. Acabámos a passar outra vez vergonhas, com as pessoas a chegar e a dizer "este lugar é meu...", de modo que voltámos para os bancos do coro mesmo por trás da orquestra, e foi a melhor decisão que podíamos ter tomado. O Simon Rattle a dirigir Les Boréades, de Rameau, foi um espectáculo. Ainda - e muito - mais do que habitualmente. A ópera de 1763 foi tocada pela primeira vez em 1975, sob a batuta de John Elliot Gardiner. O jovem Rattle ficou inteiramente seduzido pela obra, criou uma suite para orquestra a partir de uma selecção pessoal, e trouxe-a para Berlim. Ontem tocou-a de cor, e sem batuta. Delicioso.
No movimento que começa a 2:48, no vídeo, cruzou as mãos sobre o ventre, e dirigiu com as sobrancelhas. Delicioso. E depois do penúltimo movimento (que não reconheço neste vídeo - ou foi interpretado de modo completamente diferente, ou não consta desta selecção) parou, pegou num microfone, e avisou o público de que não havia nada de errado - simplesmente, este movimento evocava de tal modo o estilo de Stravinski, que ele ia repeti-lo, para termos a certeza de que não se tinham enganado. Delicioso.
Este concerto deve estar disponível no Digital Concert Hall dentro de uma semana. Recomendo que o espreitem - e espero que a régie não tenha tirado nunca a câmara do Simon Rattle, como eu não tirei os olhos, ontem, no Rameau.
(Abençoados bancos do coro da Filarmonia, que ainda me vão dar muitas alegrias até 2018.)
No fim do concerto encontrámos um casal amigo, que ainda não conhecia o truque dos bancos do coro. Aqui fica, mais uma vez: quando o programa não inclui coro, costumam pôr à venda bilhetes a preços acessíveis para esses lugares. Começam a vendê-los na terça-feira, às duas da tarde, para os concertos que são, geralmente, na quinta, na sexta e no sábado.
A primeira peça, Le Festin de l'Araignée, um ballet de Albert Roussel composto em 1913 (aqui numa gravação de 1946, com direcção de Toscanini), desperta todos os sentidos. Mesmo sem cenários nem bailarinos, facilmente imaginamos o jardim e o sol, a aragem suave, os aromas de verde, a aranha na sua teia, o cortejo das formigas, a borboleta presa - quanta tragédia cabe numa tranquila tarde de verão!
(e quanta alegria cabe nos bancos do coro da Filarmonia)
O segundo concerto para violino de Karol Szymanowski foi muito bem tocado, etc. etc., mas não o compreendi.
Depois do intervalo fomos sentar-nos nos lugares vazios do bloco A. Infelizmente (ou felizmente, como se verá) conversei tanto durante o intervalo que me esqueci dos lugares vazios que tinha decorado durante o Szymanowski. Acabámos a passar outra vez vergonhas, com as pessoas a chegar e a dizer "este lugar é meu...", de modo que voltámos para os bancos do coro mesmo por trás da orquestra, e foi a melhor decisão que podíamos ter tomado. O Simon Rattle a dirigir Les Boréades, de Rameau, foi um espectáculo. Ainda - e muito - mais do que habitualmente. A ópera de 1763 foi tocada pela primeira vez em 1975, sob a batuta de John Elliot Gardiner. O jovem Rattle ficou inteiramente seduzido pela obra, criou uma suite para orquestra a partir de uma selecção pessoal, e trouxe-a para Berlim. Ontem tocou-a de cor, e sem batuta. Delicioso.
No movimento que começa a 2:48, no vídeo, cruzou as mãos sobre o ventre, e dirigiu com as sobrancelhas. Delicioso. E depois do penúltimo movimento (que não reconheço neste vídeo - ou foi interpretado de modo completamente diferente, ou não consta desta selecção) parou, pegou num microfone, e avisou o público de que não havia nada de errado - simplesmente, este movimento evocava de tal modo o estilo de Stravinski, que ele ia repeti-lo, para termos a certeza de que não se tinham enganado. Delicioso.
Este concerto deve estar disponível no Digital Concert Hall dentro de uma semana. Recomendo que o espreitem - e espero que a régie não tenha tirado nunca a câmara do Simon Rattle, como eu não tirei os olhos, ontem, no Rameau.
(Abençoados bancos do coro da Filarmonia, que ainda me vão dar muitas alegrias até 2018.)
No fim do concerto encontrámos um casal amigo, que ainda não conhecia o truque dos bancos do coro. Aqui fica, mais uma vez: quando o programa não inclui coro, costumam pôr à venda bilhetes a preços acessíveis para esses lugares. Começam a vendê-los na terça-feira, às duas da tarde, para os concertos que são, geralmente, na quinta, na sexta e no sábado.
Merda d’Artista
O Godwin só costuma dar um ar da sua graça lá para a terceira frase, mas desta vez é irresistível: estava a ouvir este rapazinho, e a lembrar-me das posições sobre a "arte degenerada" na Alemanha nos anos 30. A passagem "dantes é que eles pintavam bem" evoca imediatamente os nazis que trocavam as obras de "arte degenerada" confiscadas por quadros "como deve de ser" - os dos antigos. Também havia os que levavam os produtos do confisco para a sua colecção particular - seria talvez a atracção do abismo (e pergunto-me, maldosa, se este rapazinho não terá uma conserva de Merda d’Artista do Manzoni a servir de pisa-papéis) (sim: suspeito de uma certa fixação fecal, devido às nuances precisas de shit, bullshit e dogshit na sua assertiva adjectivação).
Não que o rapaz seja nazi. Nada disso. Está apenas a incorrer no mesmo erro de olhar para a arte a partir da sua perspectiva limitada, e a negar a possibilidade de outras perspectivas. Além disso, ainda não percebeu que na arte moderna há uma componente meta artística e meta cultural (o objecto de arte como reflexão, descoberta, experiência e provocação da arte e da cultura) e outra à maneira de Rorschach (uma parte importante da obra de arte é aquilo que evoca na pessoa que a contempla). Ironicamente, o rapazinho inscreve-se nas obras que critica, e revitaliza-as: não há provocação sem provocado. E mais não digo, porque não sei.
(A Merda d'Artista do Manzoni, em latinhas numeradas e assinadas, foi vendida ao preço do ouro, e desde então o seu valor tem aumentado exponencialmente. Este fenómeno ilumina com tal crueza e nitidez certas cenas do nosso tempo, que quase se podia dizer que o Manzoni é um Caravaggio contemporâneo...)
27 fevereiro 2016
Jewgeni Onegin
Roubei a fotografia a um post do Wladimir Kaminer, que passo a traduzir:
Foi com alegria que me dei conta de que, graças à ópera moderna, as velhas tradições russas não desaparecem. A minha mãe e eu quase chorámos quando vimos o poster do Onegin na estação de metro. Pois qual é o russo que não gosta de nadar com um samovar? Eu prefiro nadar de costas, pois permite-me simultaneamente fazer desporto e observar a vida a acontecer à minha volta. Por regra, nado com o samovar em cima da barriga, e sorvo o chá do pires. A minha mãe leva sempre a compota para a piscina.
--
Fui ontem ver o Jewgeni Onegin à Komische Oper. Do que vi, quase só se aproveita este texto do Kaminer.
Há tempos, fomos à Komische Oper numa madrugada de domingo. Era o dia de venda das roupas e dos adereços de produções antigas, que fazem de dois em dois anos. Abria às dez, mas nós chegámos às nove, e a fila já estava bem comprida. Estava lá a Barbara (ou teria outro nome? Já me esqueci. Em todo o caso: é a pessoa na primeira fotografia. Vinha com um vestido de seda levíssimo, muito elegante, e fartou-se de apanhar frio apesar do casaco de pele. Rimos um bom bocado, porque disse que vinha preparada para arrancar das mãos de toda a gente - olhou para mim de soslaio, temos o mesmo tamanho - os vestidos que lhe agradassem). Meti conversa com as pessoas à volta, fiz aquelas perguntas sem importância nenhuma ("vêm cá comprar coisas para o Carnaval?") mas pelo modo evasivo como responderam, pareceu-me que não seria bem para o Carnaval. Deve haver por aí muitos mundos que desconheço.
Os que chegaram pouco antes de abrir foram obrigados a esperar várias horas ao frio, até que os gulosos como nós se achassem servidos. Foi um fartote: o Ring completo com cantores formidáveis, vários vinil de música clássica, uma colecção de Bossa Nova e Samba de ouvir e chorar por mais - tudo junto por vinte euros, que era o que eu tinha na carteira. Também comprei um chapéu lindíssimo de papoila. Já me podem convidar para um casamento qualquer, vou arrasar.
De modo que ontem estava a ver a ópera, e pelo meio dos tercetos e quartetos que o Tchaikovsky compôs tão bem, olhava para os vestidinhos e os cadeirões, e pensava se na próxima venda quero algum daqueles.
(o meu chapéu de papoila)
(uma senhora na fila para a caixa, com um chapéu de girassol)
Estavam a vender um tutu do Bolshoi. Vinte metros de tule, bordados à mão. 444 euros. Não comprei porque, digamos assim, tive medo que me estivesse muito largo...
ri melhor...
Já deve estar tudo dito, o que havia para dizer sobre o cartaz do Bloco. Pessoalmente, o que mais me desagrada é o tom de revanchismo que pressinto neste cartaz. Mas pode ser problema meu.
Já o segundo cartaz me parece uma resposta muito bem-humorada à provocação do primeiro. Soubesse a Igreja responder mais vezes desta maneira!
Talvez fosse boa ideia começarmos a abrir os olhos para o facto de que os "guardas da revolução" não são uma coisa só lá desses países retrógrados de fundamentalistas muçulmanos. É muito preocupante que um jornal português nesta altura do séc. XXI ainda ache lícito atacar uma mulher desta forma.
Também é triste esta "notícia" suscitar comentários como os que li no facebook. Homens muito contentinhos a falar das suas fantasias com políticas e a querer ir ao Tinder ver se fulana ou sicrana lá teria conta. Coitados, confundem o Tinder com uma sex shop de Amesterdão, e não sabem que é um espaço de igualdade e escolha mútua: quem não passar determinados critérios de qualidade, não tem hipótese. Coitados. Coitados.
Coitados.
26 fevereiro 2016
"e porque é que se quer tornar alemã?"
Arrasto há anos o projecto de me naturalizar alemã. Quando casei não era possível (tinha de escolher entre as duas, e achei que mais valia continuar portuguesa, porque com o meu sotaque francês nunca conseguiria convencer ninguém de que sou alemã). Quando se tornou possível ter as duas, a Europa ia tão de vento em popa que me pareceu supérfluo adquirir mais uma nacionalidade, se afinal somos todos europeus. Entretanto, surgem sinais preocupantes. A Europa parece em risco de implodir, e talvez no futuro faça realmente diferença ser português ou alemão.
Já tenho os papéis, e até já comecei a preenchê-los. O meu problema é a pergunta "porque é que se quer tornar alemã?" É uma pergunta armadilhada, podem crer! Em menos de nada dou comigo a tropeçar para dentro do chorrilho de disparates que me habita. Só me ocorrem respostas como: porque já sou, os meus amigos portugueses até me chamam alemoa. Ou: porque até já perdi amigos no facebook (sim! para que se veja a dimensão da tragédia!) por andar a defender que a Angela Merkel não é nazi como a pintam. Ou: porque sou a única estrangeira da minha família, e é muito triste quando passamos uma fronteira e o meu passaporte dá nas vistas por ser diferente. Ou: porque se for raptada no Jemen o MNE alemão paga mais que o MNE português. Ou: porque é para isso que me pagam (é verdade: uma vez, ali para os lados da terceira cerveja, os meus amigos fizeram um crowd founding, juntei 6 euros!) (de facto, 6,01 euros, porque uma antipática só deu 1 cêntimo, disse que eu estava muito bem como portuguesa, a grande antipática) (e também há a minha sogra, que quer pagar as despesas todas do processo, para haver mais um eleitor que não vota Alternativa para a Alemanha, mas tenho de prometer que também não voto Die Linke) (estou a pensar ir aos Die Linke perguntar se querem cobrir a oferta da minha sogra).
Claro que podia escrever "porque quero participar no sistema democrático do país onde já vivi metade da minha vida, etc. etc." - mas isso seria demasiado prosaico. Coitados dos funcionários públicos alemães, passam a vida a ler as mesmas frases sem graça. Soubesse eu escrever alguma que provocasse uma alegre gargalhada no cinzentismo daquele escritório!
(Soubesse eu fazê-los rir, sem me desgraçar...)
Para um dia que não tenha nada que fazer, já tenho projecto de vida: preencher formulários de modo a alegrar a vida aos funcionários públicos. Reduzo a taxa de depressão nos serviços, o pessoal até vai trabalhar mais cedo na expectativa de encontrar um dos meus formulários, a produtividade aumenta, e com sorte o presidente Gauck ainda me dá uma medalhinha no 3 de Outubro. Embora eu preferisse a do 10 de Junho, porque trago Portugal no coração e é essa a gentil pátria minha amada, e além disso os rissóis da cozinheira da Embaixada de Portugal em Berlim são extraordinários, uma pessoa fica cheia de vontade de prestar serviços de valor à pátria só para merecer um pratinho bem aviado deles.
[post biblogar]
post entre o divã do psicanalista e a mesa do café
(Este post é vítima de biblogaridade. Por causa da Destreza das Dúvidas, ao qual só vou muito compostinha, de gravata e tal, tirei-lhe frases como "no tempo do papa de sapatos Prada eu não era assim. Mas o papa Francisco, com os seus sapatos cambados e a sua mania de Jesus Cristo para aqui, Jesus Cristo para ali, esfanicou a ordem natural das coisas".
Vou estudar com atenção a letra do "eu tenho dois amores", pode ser que aprenda lá algum truque para gerir o problema. Ou isso, ou uma conversinha com Hegel, para discutirmos um sistema de trialéctica.)
O que mais me custa, nestes 26 anos de Alemanha - mais ainda que a falta de sol e de mar -, é quando as pessoas me dizem que eu, como estrangeira, não posso dizer ou fazer certas coisas. Não acontece muito, mas sempre que mo dizem é desagradável e doloroso. Logo a mim, que estou tão bem no centro do meu mundo, vêm dizer que não posso criticar, não posso sugerir, não posso pisar o risco? Como é que lhes passa pela cabeça que eu posso ser menos que eles?!
Traumatizaram-me. E deve ser por causa deste trauma profundo que estremeço sempre que se diz que os refugiados que não cumprirem as nossas regras devem ser sumariamente recambiados para a terra deles. Que estranho conceito de dignidade humana e de liberdade são os nossos, se apomos permanentemente uma espada de Dâmocles sobre pessoas que estão num terrível estado de dependência e fragilidade? E como será viver permanentemente sob essa ameaça? Atravessas no vermelho - volta para a tua terra! Largas um piropo a desconhecidas - volta para a tua terra! Roubas um telemóvel - volta para a tua terra! És indisciplinado na sala de aulas - volta para a tua terra, e leva a tua família contigo! Andas de bicicleta no passeio - volta para a tua terra! Mandas bocas homofóbicas - volta para a tua terra!
Vamos com calma. Melhor será ficar assente que daqui não sai ninguém, e que as pessoas que precisam da nossa ajuda não são seres humanos de segunda, e muito menos reféns da nossa generosidade. Se queremos que os refugiados se integrem, temos de treinar em conjunto algumas regras básicas: intangibilidade da dignidade humana, igualdade perante a lei. A melhor maneira de ensinar é dar o exemplo.
Surpreende-me a falta de confiança nos seus próprios valores que a Europa tem revelado. Serão eles tão frágeis e abstrusos que uma vaga de imigração correspondente a menos de 1% do total da população os pode pôr em causa e até destruir? Temos tão má impressão dos nossos modelos de vida e de sociedade, que não acreditamos que eles possam ser atraentes para quem vem viver entre nós?
Acredito que, muito pelo contrário, se soubermos ser o que dizemos que somos, os nossos novos concidadãos saberão orientar-se neste quadro. De facto, o maior desafio não é ensinar-lhes os nossos princípios e regras - é nós próprios termos consciência deles, e saber conceder aos recém-chegados a mesma margem de tolerância que concedemos aos nacionais. De certo modo, a crise dos refugiados pode ser uma oportunidade para a Europa tomar consciência de si própria e reencontrar-se consigo.
Recentemente, numa mesa de café, ouvi alemães queixarem-se da "invasão". Naquele tom exaltado de quem tem a coragem de afrontar o politicamente correcto, acusavam a dificuldade de trabalhar nas salas de aulas com alunos que não falam alemão e não respeitam as professoras, a esperteza de alguns refugiados que "chegam cá cheios de exigências", o "só estão interessados no nosso rico dinheirinho", os "inúmeros casos de abusos sexuais, que nenhum jornal se atreve a publicar" - os queixumes habituais, com o habitual refrão de estamos perdidos, vem aí o fim do mundo.
Não entendo: então uma escola com dezenas de professores adultos não é capaz de dizer a um adolescente que ganhe juízo? E qual é a dificuldade de dar a um refugiado aquilo a que ele tem direito, e fazer-lhe ver que há limites legais e processuais para atender os seus desejos e necessidades? O que leva pessoas de uma sociedade - tão avançada e com tanta maturidade democrática como esta - a inventar um papão para poder exibir um medo irracional e infantil?
À mesa do café, respondi que me sinto nos antípodas desses medos, e que o meu problema é outro: é sentir-me egoísta por ter uma casa de férias que quase não é usada quando há tantas pessoas a viver em condições dramáticas. Ou o desconforto perante o número cada vez maior de casas vazias, usadas para especulação. Como é possível brandirmos os valores cristãos e humanitários da herança europeia, e pormos a protecção da propriedade privada acima da ajuda humanitária? Perguntei-lhes: o que impede o Estado de requisitar as casas vazias para alojar refugiados? Desde que as liberte mal sejam realmente necessárias, e faça as obras de recuperação que for preciso, não vejo nisso qualquer inconveniente. Além de ter uma grande vantagem: em vez de se criar guetos de refugiados, as pessoas são distribuídas uniformemente pelas cidades, uma condição sine qua non do sucesso na integração.
Olharam-me incrédulos: eu, como estrangeira, não me devia pôr a dar conselhos aos alemães sobre as regras, a política e a gestão da propriedade privada deles. Olharam-me com ar de "volta para a tua terra!"
(Um divã de psicanalista junto a esta mesa de café seria uma bela medida de saúde pública: os meus amigos tratavam a sua Angst, e eu a minha angústia da rejeição.)
Vou estudar com atenção a letra do "eu tenho dois amores", pode ser que aprenda lá algum truque para gerir o problema. Ou isso, ou uma conversinha com Hegel, para discutirmos um sistema de trialéctica.)
O que mais me custa, nestes 26 anos de Alemanha - mais ainda que a falta de sol e de mar -, é quando as pessoas me dizem que eu, como estrangeira, não posso dizer ou fazer certas coisas. Não acontece muito, mas sempre que mo dizem é desagradável e doloroso. Logo a mim, que estou tão bem no centro do meu mundo, vêm dizer que não posso criticar, não posso sugerir, não posso pisar o risco? Como é que lhes passa pela cabeça que eu posso ser menos que eles?!
Traumatizaram-me. E deve ser por causa deste trauma profundo que estremeço sempre que se diz que os refugiados que não cumprirem as nossas regras devem ser sumariamente recambiados para a terra deles. Que estranho conceito de dignidade humana e de liberdade são os nossos, se apomos permanentemente uma espada de Dâmocles sobre pessoas que estão num terrível estado de dependência e fragilidade? E como será viver permanentemente sob essa ameaça? Atravessas no vermelho - volta para a tua terra! Largas um piropo a desconhecidas - volta para a tua terra! Roubas um telemóvel - volta para a tua terra! És indisciplinado na sala de aulas - volta para a tua terra, e leva a tua família contigo! Andas de bicicleta no passeio - volta para a tua terra! Mandas bocas homofóbicas - volta para a tua terra!
Vamos com calma. Melhor será ficar assente que daqui não sai ninguém, e que as pessoas que precisam da nossa ajuda não são seres humanos de segunda, e muito menos reféns da nossa generosidade. Se queremos que os refugiados se integrem, temos de treinar em conjunto algumas regras básicas: intangibilidade da dignidade humana, igualdade perante a lei. A melhor maneira de ensinar é dar o exemplo.
Surpreende-me a falta de confiança nos seus próprios valores que a Europa tem revelado. Serão eles tão frágeis e abstrusos que uma vaga de imigração correspondente a menos de 1% do total da população os pode pôr em causa e até destruir? Temos tão má impressão dos nossos modelos de vida e de sociedade, que não acreditamos que eles possam ser atraentes para quem vem viver entre nós?
Acredito que, muito pelo contrário, se soubermos ser o que dizemos que somos, os nossos novos concidadãos saberão orientar-se neste quadro. De facto, o maior desafio não é ensinar-lhes os nossos princípios e regras - é nós próprios termos consciência deles, e saber conceder aos recém-chegados a mesma margem de tolerância que concedemos aos nacionais. De certo modo, a crise dos refugiados pode ser uma oportunidade para a Europa tomar consciência de si própria e reencontrar-se consigo.
Recentemente, numa mesa de café, ouvi alemães queixarem-se da "invasão". Naquele tom exaltado de quem tem a coragem de afrontar o politicamente correcto, acusavam a dificuldade de trabalhar nas salas de aulas com alunos que não falam alemão e não respeitam as professoras, a esperteza de alguns refugiados que "chegam cá cheios de exigências", o "só estão interessados no nosso rico dinheirinho", os "inúmeros casos de abusos sexuais, que nenhum jornal se atreve a publicar" - os queixumes habituais, com o habitual refrão de estamos perdidos, vem aí o fim do mundo.
Não entendo: então uma escola com dezenas de professores adultos não é capaz de dizer a um adolescente que ganhe juízo? E qual é a dificuldade de dar a um refugiado aquilo a que ele tem direito, e fazer-lhe ver que há limites legais e processuais para atender os seus desejos e necessidades? O que leva pessoas de uma sociedade - tão avançada e com tanta maturidade democrática como esta - a inventar um papão para poder exibir um medo irracional e infantil?
À mesa do café, respondi que me sinto nos antípodas desses medos, e que o meu problema é outro: é sentir-me egoísta por ter uma casa de férias que quase não é usada quando há tantas pessoas a viver em condições dramáticas. Ou o desconforto perante o número cada vez maior de casas vazias, usadas para especulação. Como é possível brandirmos os valores cristãos e humanitários da herança europeia, e pormos a protecção da propriedade privada acima da ajuda humanitária? Perguntei-lhes: o que impede o Estado de requisitar as casas vazias para alojar refugiados? Desde que as liberte mal sejam realmente necessárias, e faça as obras de recuperação que for preciso, não vejo nisso qualquer inconveniente. Além de ter uma grande vantagem: em vez de se criar guetos de refugiados, as pessoas são distribuídas uniformemente pelas cidades, uma condição sine qua non do sucesso na integração.
Olharam-me incrédulos: eu, como estrangeira, não me devia pôr a dar conselhos aos alemães sobre as regras, a política e a gestão da propriedade privada deles. Olharam-me com ar de "volta para a tua terra!"
(Um divã de psicanalista junto a esta mesa de café seria uma bela medida de saúde pública: os meus amigos tratavam a sua Angst, e eu a minha angústia da rejeição.)
25 fevereiro 2016
reincidir
Dido e Eneias, com coreografia de Sasha Waltz.
Belíssimo, ainda mais que da primeira vez.
Em suma: mais um vício.
como se fosse uma apresentação
Meu único e grande amor,
casei-me.
Começava assim a carta que um rapaz enviou à amiga de uma amiga minha. O que já me ri por conta disto. Mas eis que me dou conta de andar a fazer a mesma figura: o facebook, mais a "enciclopédia ilustrada" no facebook, e agora a Destreza das Dúvidas. É difícil gerir este meu único e grande amor - o Dois Dedos de Conversa, e sobretudo o que devo aos seus leitores - e as escapadinhas que tenho andado a fazer por aí.
Ontem publiquei o primeiro post na Destreza das Dúvidas. Embora tenha algumas histórias que já aqui contei (e o que eu gosto de fazer amigos novos, para poder recontar as minhas histórias!), publico-o também no Dois Dedos de Conversa. Porque vocês sabem que o primeiro amor nunca esquece, e que se a vida me levar por outros caminhos acabarei por descobrir que todos eles, sem vocês, são ínvios, etc. etc. etc.
Ora então, ecce post:
Quando mudámos de Weimar para Berlim, inscrevemos a nossa filha adolescente numa escola católica. Foi conselho de uma amiga, directora de uma escola confessional. Que a miúda ficava mais acompanhada nesta cidade de quatro milhões, e que a escola era muito bem frequentada e tinha um ambiente protegido, patati-patata. Para quem vinha de uma cidade de 60.000 habitantes, onde todos se conhecem e acompanham atentamente a vida dos outros, aqueles argumentos pareceram-me pertinentes. Depois de terminar o secundário e deixar essa escola, a nossa filha desenganou-nos cruelmente: "escola católica = elite = dinheiro. São os melhores sítios para criar novos consumidores de droga, ó meus queridos e ingénuos paizinhos!"
A minha amiga contava histórias mirabolantes sobre as famílias que procuram essas escolas. Como a de ter perguntado aos pais de um miúdo com milhentos nomes próprios como é que ele queria ser chamado e os pais, magnânimos: oh, não é preciso complicar, "senhor duque" basta. Infelizmente, contou a minha amiga, descobriu-se que já não havia mais nenhuma vaga.
Em todo o caso: um belo dia, pouco depois da nossa chegada a Berlim, dei comigo no fim de uma reunião de pais a comer pizza em frente a uma duquesa muito simpática, que se chamava Mary e se fazia tratar por tu. Seguiu-se um convite da Mary para um pequeno-almoço na sua casa. Fiz uma bola de Lamego, e fui. À mesa, era a única plebeia. Todas as outras senhoras eram condessas, marquesas, duquesas, sei lá. Também havia uma princesa, e vinha vestida com jeans confortáveis, botas de couro e um camisolão velho e largo cheio de borbotos. Já não se fazem princesas como antigamente, no tempo do Walt Disney. O pequeno-almoço foi óptimo. A bola de Lamego foi muito louvada, anotaram a receita (sou a Catarina de Bragança da Alemanha: daqui a uns séculos o mundo falará da tradição alemã de fazer um pequeno-almoço de amigas com bola de Lamego). Como ia dizendo: foi um pequeno-almoço óptimo, elas iam contando as suas histórias e eu ia descobrindo pelas entrelinhas que a nobreza alemã é como as bruxas espanholas: ninguém acredita nelas, pero que las hay, pero que las hay. Também contei as minhas histórias, imensas coisas interessantíssimas da área da sociologia no tempo de Jesus Cristo, e elas estavam pasmadas, até parecia aquela cena de Jesus no meio dos doutores do templo. Depois não sei que aconteceu, nunca mais devem ter tomado pequeno-almoço, coitadas, porque não recebi nenhum convite.
Voltei a cruzar-me com a Mary no Estádio olímpico, durante a missa do Papa Bento XVI. Calhou de nós, os plebeus, termos convite para os lugares VIP mesmo atrás da Angela Merkel, e os duques estarem no terceiro anel. Às vezes desconfio que Deus é um grande cínico. Ou distraído. Ou republicano.
Alguns anos mais tarde, faz agora algumas semanas, vesti-me confortavelmente e fui com o cão distribuir pela cidade folhetos para um evento dos Portugueses em Berlim. Ao passar pelo consulado tive tanto azar que me cruzei com o novo Embaixador, e mais azar ainda: fomos logo ali apresentados. Ele de uma elegância impecável, no seu sobretudo cognac, e eu feita princesa alemã: camisola larga e cheia de borbotos, jeans velhas, e as minhas botas favoritas, iguaizinhas às da Laura Ingalls. O cão, esse, estava um autêntico príncipe encantado antes de lhe darem o tal beijo. Parecia um cão de sem-abrigo com a trela velha e cheia de emendas, do tempo em que a roía para ir à sua vidinha em vez de esperar por nós (é um rafeiro português independente e cheio de personalidade). Como se não fosse já suficientemente mau, da segunda vez que me cruzei com o Embaixador estava vestida de minhota. Não sei se ele me dará uma terceira oportunidade.
Para o caso de um dia, por sorte, me ser permitido reajustar a imagem perante o novo Embaixador, estou preparada: já comprei uma trela nova para o cão. Numa loja cara e tudo, um luxo. Agora, quando o deixo à porta do supermercado, venho repetidamente espreitar à porta, não vá alguém querer roubar a trela de marca e levar o rafeiro agarrado. Estava capaz de inventar uma nova modalidade de fitness: põe um saco de cebolas no carro das compras, vai à porta do supermercado. Põe dois litros de leite no carro das compras, vai à porta do supermercado. Põe um pacote de arroz no carro das compras, ...
E assim vai a vida, em Berlim. Vai e vem, vai e vem, e a cada coisa pergunta que nome tem.
casei-me.
Começava assim a carta que um rapaz enviou à amiga de uma amiga minha. O que já me ri por conta disto. Mas eis que me dou conta de andar a fazer a mesma figura: o facebook, mais a "enciclopédia ilustrada" no facebook, e agora a Destreza das Dúvidas. É difícil gerir este meu único e grande amor - o Dois Dedos de Conversa, e sobretudo o que devo aos seus leitores - e as escapadinhas que tenho andado a fazer por aí.
Ontem publiquei o primeiro post na Destreza das Dúvidas. Embora tenha algumas histórias que já aqui contei (e o que eu gosto de fazer amigos novos, para poder recontar as minhas histórias!), publico-o também no Dois Dedos de Conversa. Porque vocês sabem que o primeiro amor nunca esquece, e que se a vida me levar por outros caminhos acabarei por descobrir que todos eles, sem vocês, são ínvios, etc. etc. etc.
Ora então, ecce post:
Quando mudámos de Weimar para Berlim, inscrevemos a nossa filha adolescente numa escola católica. Foi conselho de uma amiga, directora de uma escola confessional. Que a miúda ficava mais acompanhada nesta cidade de quatro milhões, e que a escola era muito bem frequentada e tinha um ambiente protegido, patati-patata. Para quem vinha de uma cidade de 60.000 habitantes, onde todos se conhecem e acompanham atentamente a vida dos outros, aqueles argumentos pareceram-me pertinentes. Depois de terminar o secundário e deixar essa escola, a nossa filha desenganou-nos cruelmente: "escola católica = elite = dinheiro. São os melhores sítios para criar novos consumidores de droga, ó meus queridos e ingénuos paizinhos!"
A minha amiga contava histórias mirabolantes sobre as famílias que procuram essas escolas. Como a de ter perguntado aos pais de um miúdo com milhentos nomes próprios como é que ele queria ser chamado e os pais, magnânimos: oh, não é preciso complicar, "senhor duque" basta. Infelizmente, contou a minha amiga, descobriu-se que já não havia mais nenhuma vaga.
Em todo o caso: um belo dia, pouco depois da nossa chegada a Berlim, dei comigo no fim de uma reunião de pais a comer pizza em frente a uma duquesa muito simpática, que se chamava Mary e se fazia tratar por tu. Seguiu-se um convite da Mary para um pequeno-almoço na sua casa. Fiz uma bola de Lamego, e fui. À mesa, era a única plebeia. Todas as outras senhoras eram condessas, marquesas, duquesas, sei lá. Também havia uma princesa, e vinha vestida com jeans confortáveis, botas de couro e um camisolão velho e largo cheio de borbotos. Já não se fazem princesas como antigamente, no tempo do Walt Disney. O pequeno-almoço foi óptimo. A bola de Lamego foi muito louvada, anotaram a receita (sou a Catarina de Bragança da Alemanha: daqui a uns séculos o mundo falará da tradição alemã de fazer um pequeno-almoço de amigas com bola de Lamego). Como ia dizendo: foi um pequeno-almoço óptimo, elas iam contando as suas histórias e eu ia descobrindo pelas entrelinhas que a nobreza alemã é como as bruxas espanholas: ninguém acredita nelas, pero que las hay, pero que las hay. Também contei as minhas histórias, imensas coisas interessantíssimas da área da sociologia no tempo de Jesus Cristo, e elas estavam pasmadas, até parecia aquela cena de Jesus no meio dos doutores do templo. Depois não sei que aconteceu, nunca mais devem ter tomado pequeno-almoço, coitadas, porque não recebi nenhum convite.
Voltei a cruzar-me com a Mary no Estádio olímpico, durante a missa do Papa Bento XVI. Calhou de nós, os plebeus, termos convite para os lugares VIP mesmo atrás da Angela Merkel, e os duques estarem no terceiro anel. Às vezes desconfio que Deus é um grande cínico. Ou distraído. Ou republicano.
Alguns anos mais tarde, faz agora algumas semanas, vesti-me confortavelmente e fui com o cão distribuir pela cidade folhetos para um evento dos Portugueses em Berlim. Ao passar pelo consulado tive tanto azar que me cruzei com o novo Embaixador, e mais azar ainda: fomos logo ali apresentados. Ele de uma elegância impecável, no seu sobretudo cognac, e eu feita princesa alemã: camisola larga e cheia de borbotos, jeans velhas, e as minhas botas favoritas, iguaizinhas às da Laura Ingalls. O cão, esse, estava um autêntico príncipe encantado antes de lhe darem o tal beijo. Parecia um cão de sem-abrigo com a trela velha e cheia de emendas, do tempo em que a roía para ir à sua vidinha em vez de esperar por nós (é um rafeiro português independente e cheio de personalidade). Como se não fosse já suficientemente mau, da segunda vez que me cruzei com o Embaixador estava vestida de minhota. Não sei se ele me dará uma terceira oportunidade.
Para o caso de um dia, por sorte, me ser permitido reajustar a imagem perante o novo Embaixador, estou preparada: já comprei uma trela nova para o cão. Numa loja cara e tudo, um luxo. Agora, quando o deixo à porta do supermercado, venho repetidamente espreitar à porta, não vá alguém querer roubar a trela de marca e levar o rafeiro agarrado. Estava capaz de inventar uma nova modalidade de fitness: põe um saco de cebolas no carro das compras, vai à porta do supermercado. Põe dois litros de leite no carro das compras, vai à porta do supermercado. Põe um pacote de arroz no carro das compras, ...
E assim vai a vida, em Berlim. Vai e vem, vai e vem, e a cada coisa pergunta que nome tem.
24 fevereiro 2016
há muito tempo que não dou música neste blogue
De momento, é o bailado Sheherazade, de Rimsky-Korsakov que toca em repeat. Se tivesse uma bucket list, escrevia mais uma linha: ver este bailado num palco, interpretado por uma boa companhia.
Sem bucket list, o desejo suspende-se num lugar difuso.
Tanto melhor: em vez de riscar de uma lista, vou-me deixando surpreender pela vida, e acrescentando à página da alegria.
Ontem fui ao Lunchkonzert na Filarmonia. Era um almoço de negócios, que os meus parceiros são do melhor, combinam almoços de negócios na Filarmonia (mais uma coisa que nunca escreveria numa bucket list, e me dá uma cor feliz à vida).
Começou com Tristia, de Vallée d'Obermann, de Franz Liszt. Eles a tocar, e eu a chorar copiosamente, porque ainda estou com a Berlinale flu, e tentava controlar a tosse de tísica.
Ia apanhando uma desidratação com tanta lágrima, mas ganhei: nem uma tossidela.
A peça é maravilhosa. Pode ser ouvida aqui.
Mas acaba depressa demais. Bem podia continuar assim durante cinco horas. Aqui. Mais uma vez. E outra. E outra. E outra. E outra.
Depois de Liszt, Robert Schumann: trio para piano nº 1 em ré menor op. 63. Partilho o terceiro andamento, o meu favorito, numa versão com ruído, mas com a alma toda de músicos excelentes:
E que mais? Ah, já me esquecia: o almoço de negócios correu bem.
Sem bucket list, o desejo suspende-se num lugar difuso.
Tanto melhor: em vez de riscar de uma lista, vou-me deixando surpreender pela vida, e acrescentando à página da alegria.
Ontem fui ao Lunchkonzert na Filarmonia. Era um almoço de negócios, que os meus parceiros são do melhor, combinam almoços de negócios na Filarmonia (mais uma coisa que nunca escreveria numa bucket list, e me dá uma cor feliz à vida).
Começou com Tristia, de Vallée d'Obermann, de Franz Liszt. Eles a tocar, e eu a chorar copiosamente, porque ainda estou com a Berlinale flu, e tentava controlar a tosse de tísica.
Ia apanhando uma desidratação com tanta lágrima, mas ganhei: nem uma tossidela.
A peça é maravilhosa. Pode ser ouvida aqui.
Mas acaba depressa demais. Bem podia continuar assim durante cinco horas. Aqui. Mais uma vez. E outra. E outra. E outra. E outra.
Depois de Liszt, Robert Schumann: trio para piano nº 1 em ré menor op. 63. Partilho o terceiro andamento, o meu favorito, numa versão com ruído, mas com a alma toda de músicos excelentes:
E que mais? Ah, já me esquecia: o almoço de negócios correu bem.
sinal de maturidade da Democracia
(foto)
Em 1990, quando foi preciso tomar uma decisão de grande impacto para o país, Kohl mentiu: afirmou que a reunificação alemã não teria custos.
Em 2015, quando foi preciso tomar uma decisão de grande impacto para o país, Merkel disse a verdade: estamos perante um desafio que vai ocupar toda a nação durante décadas.
23 fevereiro 2016
esta Ellen, este Obama...
O modo como ela reage à comoção é fantástico. E o modo como ele entra na brincadeira é fantástico.
Agarrem-me, que passava o resto do dia a pôr coraçõezinhos neste post.
(Quem preferir ler, em vez de ouvir: aqui)
22 fevereiro 2016
de boas intenções...
"OS ESTRANGEIROS ROUBAM-NOS OS EMPREGOS!!!"
"Papá... porque é que agora decidiste que queres trabalhar?"
À primeira vista tem graça. Mas logo soam os sinais de alarme: a seguir aos refugiados, o grupo mais atingido por esta crise são os mais pobres de cada país. Há menos disponibilidade dos serviços estatais para os atenderem e apoiarem, há menos dinheiro.
A luta contra o racismo e a xenofobia não pode ser feita com as mesmas armas do racismo e da xenofobia. Não podemos ceder à tentação de generalizar, e muito menos ridicularizar as pessoas de determinados grupos sociais, como - no caso - os desempregados de longa duração.
21 fevereiro 2016
Berlinale 2016 - dia 2
Se inteligência é a capacidade de aprender, de se adaptar a mudanças e de lidar com a complexidade, as filas dos bilhetes da Berlinale estão cheias de Einsteins. E eu mais Einstein que os outros todos: depois do fiasco da quinta-feira, passei a sair de casa de madrugada, com o Joachim. Ficava na 17 Juni, atravessava o Tiergarten a pé à hora mágica do nascer do sol, e chegava cedo à fila para a caixa que abre às 8:30. Em pé, consultava febrilmente as folhas do dia, anotando os filmes para os quais não é preciso ter bilhete, e fazendo planos alternativos para o caso de não haver mais lugares.
Filas da Berlinale, é do melhor: as pessoas conversam, comentam os filmes que vêem, as expectativas que têm... Uma festa. No meu primeiro dia conheci uma mulher que faz programação de filmes para crianças e jovens, e me contou do refugiado de 18 anos que tem a seu cargo. O rapaz esteve seis meses em Berlim à espera de se registar, e nada. Foi para um Estado vizinho, registou-se em dois dias. Agora vai ser penalizado por voltar para Berlim, em vez de ficar onde se registou: não terá apoio da Segurança Social durante dois meses. Ela encolhe os ombros: "fica na minha casa, pago eu o que for preciso". Falou de haver agora burqas em Charlottenburg, onde mora. Burqas! Entre as pessoas à nossa volta na fila, havia consenso: há limites. A nossa sociedade não pode permitir mulheres cobertas por burqas e niqabs. "E como é possível que venham a fugir dessa gente, e tragam os seus piores tiques?", perguntou alguém. "As mulheres de burqa vêm do Afeganistão. Mas a maior parte dos sírios não foge do Daesh - vêm a fugir ao Assad", foi a resposta.
Gostaria muito de ver estatísticas sobre isto: quem são, de que país vêm, de que fogem?
O tema mudou. Fiquei a saber porque é que não se deve usar o saco da Berlinale do próprio ano: é muito fácil haver uma troca. A programadora de filmes infantis contou o pânico de chegar a casa, e descobrir que as chaves estavam no saco que outra pessoa levou por engano. Também me revelaram um truque fantástico: as sessões da manhã para a imprensa nunca enchem completamente. É muito fácil para os simples acreditados irem à sessão das nove - e com sorte conseguem também lugar na do meio-dia. "Os jornalistas ainda estão a curar a ressaca da noite anterior", disseram.
Levantei os meus bilhetes, informei-me sobre as possibilidades de milagre para conseguir entrar no workshop da Meryl Streep no domingo de manhã, e fui comprar bilhetes para a família, na fila dos comuns mortais. Do que me fui lembrar! A fila não estava comprida, mas demorava imenso tempo, porque havia muitos turistas que tinham vindo para o fim-de-semana na Berlinale, e, quando chegavam à caixa, em vez de pedir "2 do 120011, 2 do 130012, etc.", perguntavam "o que é que ainda tem até domingo às 2 da tarde?", e depois "esse filme de que país é? e sobre quê?"
À minha frente estava um refugiado mergulhado no seu smartphone. Provavelmente aproveitava as 2 horas grátis de wifi no Arkaden da Potsdamer Platz. Volta e meia uma senhora de meia-idade, com um ar um pouco ansioso, vinha ter com ele, e dizia-lhe em inglês que filmes se tinham esgotado entretanto. Ele ouvia em silêncio, ela voltava para o seu posto de observação, ele voltava para o smartphone. E eu atrás dele, a pensar que depois dos horrores de teres de fugir, e de teres de atravessar a Europa em condições tão difíceis, chegas à terra prometida e ficas à mercê de uma boa e ansiosa alma que faz questão de te ajudar à sua maneira, quer queiras quer não.
Talvez não fosse o caso daqueles dois, talvez nem ele fosse refugiado nem ela ansiosa. Mas a questão permanece: o absoluto estado de dependência da boa vontade e da caridade alheia torna os refugiados ainda mais vulneráveis.
À tarde fui a uma competição de pitching organizada pelo Raindance. As pessoas têm dois minutos para contar ao público e ao júri a ideia do filme. Ao fim de minuto e meio toca um gongo, ao fim de dois minutos toca de novo, e se a pessoa continuar a falar, quem não quiser ouvir mais pode começar um aplauso lento. "A very british slow aplause", dizia o organizador. Também lhe podiam chamar mobbing, era horroroso. A pessoa apresentava o filme, dois membros do júri comentavam, o apresentador impedia qualquer espécie de diálogo, passava-se ao seguinte. Puro show. Teria a sua graça, se as pessoas não viessem com tantas esperanças de conseguir um apoio, e se não lhas destruíssem liminarmente. Por exemplo: o comentário dado à jovem de Hong Kong que apresentou uma história de emancipação feminina e sexual, uma história trágica e que fazia pensar, foi: "transforme isso numa curta cómica". Falei com ela no fim, disse-lhe que achava a sua história muito boa. Ela comentou que era dificílimo fazer um filme sobre este tema em Hong Kong, porque o mercado chinês não está nada receptivo.
A minha amiga teve mais sorte. O pitch dela foi muito aplaudido, e os membros do júri elogiaram-no bastante. Bem precisa: anda a juntar cinco milhões para fazer o seu filme.
Ao meu lado estava sentado um inglês que se mudou recentemente para Berlim. Realizador, autor, fotografia, actor. Fazia tudo. Queria que eu lhe dissesse quais eram os melhores filmes desta Berlinale. "De que tipo de filme gosta mais?", perguntei-lhe, tentando orientar-me entre os quatrocentos do festival. "De bons filmes", respondeu. Parvo. E ainda dizem que é fácil fazer small talk. Por sorte começaram os pitches. O meu vizinho era péssimo colega: ao fim de dois minutos, começava logo a bater palmas pausadamente. Parvo e antipático. Por causa das coisas, quando foi a vez dele, nem sequer o ouvi. O que foi asneira: um dia destes ainda faz o filme, e fica famoso, e eu tinha aqui uma roupinha suja para vender ao Correio da Manhã, mas nunca mais vou saber quem era, e que filme trazia.
Em todo o caso: a mim é que não apanham a fazer pitching. Prefiro ir lavar escadas para juntar dinheiro para fazer um filme...
Berlinale 2016 - dia 1
A minha Berlinale começou mal: na quinta-feira, em vez de ir buscar os bilhetes do dia seguinte às 7:30 da manhã, como quem se interessa, apareci a meio da tarde, e sem ter o programa estudado. Quando tinha finalmente decidido que filmes queria ver na sexta-feira, já não havia bilhetes disponíveis.
Mais me valia ter ido estudar o programa para a Audi Berlinale Lounge, um pavilhão instalado mesmo junto ao tapete vermelho. Assim, quando chegasse ao momento de vir embora de mãos vazias, pelo menos já estava na varanda a meia dúzia de metros dos VIP que chegavam para a cerimónia de abertura do festival.
Mas não. Acabei empoleirada entre dois canteiros ao fundo da praça, em equilíbrio precário, olhando para o écran gigante que mostrava o Ai Weiwei (tinha vindo fazer uma instalação no Gendarmenmarkt, cobrindo as colunas do Konzerthaus com coletes de salvação), a Meryl Streep (muito jeitosinha num vestido confortável e agasalhado) (estou em crer que as verdadeiras artistas são as que não se sentem obrigadas a passar frio no tapete vermelho da Berlinale), os irmãos Cohen, o George Clooney, e todos os outros. Melhor ideia, sem dúvida, era ir ver aquelas cenas em casa, confortavelmente sentada no sofá em frente à televisão, mas queria sentir o entusiasmo da multidão. Há algo embriagante no clamor alegre do público, nos gritos dos jornalistas, nos apelos dos coleccionadores de autógrafos.
Berlinale 2016 - Balada de um Batráquio
Faz um bocado de impressão estarem todos a falar do ouro para a curta "Balada de um Batráquio", louvando por ser ouro, por ser mulher e por ser tão jovem. E por ser portuguesa, claro.
O filme é mesmo curto. Se me deixassem mandar, tirava do telejornal meia dúzia de minutos de futebol e de peças tipo "como é que se sentiu?", e passava este filme em horário nobre. Para que todos saibam de que estão a falar.
É que o mais impressionante não é ser ouro para Portugal, nem para uma mulher, nem para uma jovem. O mais importante é que este filme é um bofetada muito bem dada nos nossos brandos costumes, e na cegueira com que convivemos diariamente com o racismo e a exclusão.
(Entrevista com a Leonor Teles a partir de 7:30)
Do programa da Berlinale:
BALADA DE UM BATRÁQUIO clip#01 from Uma Pedra no Sapato on Vimeo.
“Once upon a time, before people came along, all the creatures were free and able to be with one another”, narrates the voiceover. “All the animals danced together and were immeasurably happy. There was only one who wasn’t invited to the celebration – the frog. In his rage about the injustice, he committed suicide.” Something Romani and frogs have in common is that they will never be unseen, or stay unnoticed. In her film, young director Leonor Teles weaves the life circumstance of Romani in Portugal today with the recollections of a yesterday. Anything but a passive observer, Teles consciously decides to participate and take up position. As a third pillar, she establishes an active applied performance art that becomes integrated in the cinematic narrative. Thereby transforming “once upon a time” into “there is”. “Afterwards, nothing will be as it was and the melody of life will have changed”, explains a voice off-camera.
O filme é mesmo curto. Se me deixassem mandar, tirava do telejornal meia dúzia de minutos de futebol e de peças tipo "como é que se sentiu?", e passava este filme em horário nobre. Para que todos saibam de que estão a falar.
É que o mais impressionante não é ser ouro para Portugal, nem para uma mulher, nem para uma jovem. O mais importante é que este filme é um bofetada muito bem dada nos nossos brandos costumes, e na cegueira com que convivemos diariamente com o racismo e a exclusão.
(Entrevista com a Leonor Teles a partir de 7:30)
Do programa da Berlinale:
BALADA DE UM BATRÁQUIO clip#01 from Uma Pedra no Sapato on Vimeo.
“Once upon a time, before people came along, all the creatures were free and able to be with one another”, narrates the voiceover. “All the animals danced together and were immeasurably happy. There was only one who wasn’t invited to the celebration – the frog. In his rage about the injustice, he committed suicide.” Something Romani and frogs have in common is that they will never be unseen, or stay unnoticed. In her film, young director Leonor Teles weaves the life circumstance of Romani in Portugal today with the recollections of a yesterday. Anything but a passive observer, Teles consciously decides to participate and take up position. As a third pillar, she establishes an active applied performance art that becomes integrated in the cinematic narrative. Thereby transforming “once upon a time” into “there is”. “Afterwards, nothing will be as it was and the melody of life will have changed”, explains a voice off-camera.
18 fevereiro 2016
the Berlinale flu
Diz que há uma coisa que se chama "the Berlinale flu" e costuma revelar-se na quarta-feira da Berlinale.
Confirmo.
(e ainda queria ver 10 filmezitos, triste vida)
Confirmo.
(e ainda queria ver 10 filmezitos, triste vida)
se calhar é vício
Se calhar é vício: depois da ópera do ano passado, vou participar num coro de 1000 pessoas a cantar uma missa de Schubert no dia 22 de Maio na Filarmonia. Com o Simon Halsey a dirigir.
(Garanto que não percebo como tenho tanta sorte, mas não tenciono ir ao destino pedir o livro de reclamações)
17 fevereiro 2016
apontamentos da Berlinale
Quando tiver tempo, conto com mais vagar. Para já, alguns apontamentos mais ou menos soltos:
Ontem vi o Cartas da Guerra e o Eldorado XXI.
Queria dizer alguma coisa mais intelectual, mas só me ocorre: opá! opá! opá!
O Cartas da Guerra devia ter sido dobrado (e exigia uma tradução realmente literária), para as pessoas poderem ver também as imagens. Perde-se muito da sua riqueza por se estar a ler as legendas.
O Eldorado XXI deixa-nos sem palavras perante a imensidão das imagens, da dureza da vida, e do risco cinematográfico.
Não pude ver a estreia do Cartas da Guerra, só vi a repetição, sem a equipa. Mas vi a estreia do Eldorado XXI. É sempre um prazer ver a Salomé Lamas no palco. Um prazer da inteligência.
Hoje ouvi um manda-chuva da ARTE falar do Cartas da Guerra. Dizia ele, a propósito de nunca se saber à partida como é que o filme vai ser acolhido pelo público, que resolveram dar apoio ao Cartas da Guerra, pensando que seria um filme impossível de vender (preto e branco, literatura...) mas esteve na estreia, na Berlinale, e viu as pessoas a sair da sala com lágrimas nos olhos.
"Este filme vai vender", disse ele.
Dizem que vai vender especialmente no público feminino.
(Não contem ao Lobo Antunes, coitado. Ninguém merece, e muito menos ele.)
Falei com o manda-chuva da ARTE, concordou que o Cartas da Guerra não é um filme, é Cinema.
Disse-lhe que veja o Eldorado XXI. Fiquei de lhe mandar uma mensagem a lembrar o nome, quando ele tiver acalmado da Berlinale. Disse que não acalma nunca. Amanhã segue para a próxima batalha.
Esta Berlinale vai arrumar comigo, e ainda só vai a meio.
Hoje: manhã no Instituto Ibero-Americano para celebrar e debater o cinema da Península Ibérica e da América Latina. Eles gostam muito de incluir Portugal, Portugal é que não parece com muita vontade de se deixar incluir. Não encontrei lá nenhum português.
Bilhetes para os programas com a família. Um saltinho ao Arsenal para ver o Havarie (um filme francês, sobre - um doce para quem adivinhar... - refugiados).
Ir a casa resolver umas questões pendentes. Ensaio do coro.
Festa no Instituto Cervantes. (Com pisco sour! fiquei logo cheia de vontade de me tornar ibero-americana...)
No regresso, uma argentina com quem tenho andado nestas andanças perguntou-me pelo Cartas da Guerra, eu contei, falei nos textos do Lobo Antunes, ela perguntou se ele era bom.
- Muito bom!
- Como o García Márquez?
- Melhor!
(Acho que ainda se está a rir. Humpf. Também, ninguém a mandou exagerar no pisco sour.)
Tenho a sensação que metade dos filmes da Berlinale 2016 são sobre refugiados ou sobre a vida nos países de onde essas pessoas vêm. Dizem-me que o filme que vai vencer o Urso de Ouro vai ser o italiano sobre, adivinharam, refugiados. Por motivos políticos, dizem-me.
A ver vamos.
Ontem vi o Cartas da Guerra e o Eldorado XXI.
Queria dizer alguma coisa mais intelectual, mas só me ocorre: opá! opá! opá!
O Cartas da Guerra devia ter sido dobrado (e exigia uma tradução realmente literária), para as pessoas poderem ver também as imagens. Perde-se muito da sua riqueza por se estar a ler as legendas.
O Eldorado XXI deixa-nos sem palavras perante a imensidão das imagens, da dureza da vida, e do risco cinematográfico.
Não pude ver a estreia do Cartas da Guerra, só vi a repetição, sem a equipa. Mas vi a estreia do Eldorado XXI. É sempre um prazer ver a Salomé Lamas no palco. Um prazer da inteligência.
Hoje ouvi um manda-chuva da ARTE falar do Cartas da Guerra. Dizia ele, a propósito de nunca se saber à partida como é que o filme vai ser acolhido pelo público, que resolveram dar apoio ao Cartas da Guerra, pensando que seria um filme impossível de vender (preto e branco, literatura...) mas esteve na estreia, na Berlinale, e viu as pessoas a sair da sala com lágrimas nos olhos.
"Este filme vai vender", disse ele.
Dizem que vai vender especialmente no público feminino.
(Não contem ao Lobo Antunes, coitado. Ninguém merece, e muito menos ele.)
Falei com o manda-chuva da ARTE, concordou que o Cartas da Guerra não é um filme, é Cinema.
Disse-lhe que veja o Eldorado XXI. Fiquei de lhe mandar uma mensagem a lembrar o nome, quando ele tiver acalmado da Berlinale. Disse que não acalma nunca. Amanhã segue para a próxima batalha.
Esta Berlinale vai arrumar comigo, e ainda só vai a meio.
Hoje: manhã no Instituto Ibero-Americano para celebrar e debater o cinema da Península Ibérica e da América Latina. Eles gostam muito de incluir Portugal, Portugal é que não parece com muita vontade de se deixar incluir. Não encontrei lá nenhum português.
Bilhetes para os programas com a família. Um saltinho ao Arsenal para ver o Havarie (um filme francês, sobre - um doce para quem adivinhar... - refugiados).
Ir a casa resolver umas questões pendentes. Ensaio do coro.
Festa no Instituto Cervantes. (Com pisco sour! fiquei logo cheia de vontade de me tornar ibero-americana...)
No regresso, uma argentina com quem tenho andado nestas andanças perguntou-me pelo Cartas da Guerra, eu contei, falei nos textos do Lobo Antunes, ela perguntou se ele era bom.
- Muito bom!
- Como o García Márquez?
- Melhor!
(Acho que ainda se está a rir. Humpf. Também, ninguém a mandou exagerar no pisco sour.)
Tenho a sensação que metade dos filmes da Berlinale 2016 são sobre refugiados ou sobre a vida nos países de onde essas pessoas vêm. Dizem-me que o filme que vai vencer o Urso de Ouro vai ser o italiano sobre, adivinharam, refugiados. Por motivos políticos, dizem-me.
A ver vamos.
12 fevereiro 2016
a ARD a ser engraçadinha...
Isto é muito bom!
"Chancellor Merkel met today with renowned Human Rights Lawyer Amal Clooney to discuss the refugee crisis. Clooney was accompanied by her husband, an actor."
ARD (German Public News Service)
11 fevereiro 2016
Berlinale 2016 - quase a começar
"O que fizeste para conseguires a acreditação na Berlinale?", perguntou-me uma amiga.
"Preenchi a ficha de inscrição", respondi eu. Ela não conseguia parar de rir.
Só percebi o espanto quando me contaram que este ano houve 2.000 pedidos para acreditação que não foram atendidos.
Ontem começaram a dar os cartões. Entrei no espaço enorme dos serviços para acreditados sentindo-me muito pequenina. Nem meia dúzia de pessoas conheço no panorama do cinema alemão, com que cara vou andar naquelas festas deles? Enquanto esperava pela minha vez, pensei no que ouvi num workshop que fiz há tempos, um "survival guide for the Berlinale": ficar a um canto, de braços cruzados ou protegido pelo copo de vinho erguido à altura do peito, é má ideia. Vá falar com as pessoas. Vá conhecer as pessoas. Sem agenda. E, sobretudo, sem levar no bolso um DVD do seu filme ou do seu projecto!
Vá conhecer as pessoas, dizia ele. Decidi ir até ao café desse centro (tanto mais que os bolos que lá têm são fantásticos), sentar-me à mesa de alguém, meter conversa. Olhei para as mesas em busca de uma vítima que me interessasse, e... descobri lá um dos convidados do Cinemagosto de 2015. Inacreditável: não conheço pessoalmente nem meia dúzia de gente do cinema alemão (e, triste vida, já me esqueci da cara de quatro deles, um dia que encontre o Brad Pitt por aí hei-de perguntar-lhe como é que se desenrasca apesar desta terrível memória visual que ambos temos por sina) e ainda antes de receber os meus papéis já estou a dar com um deles!
A Berlinale 2016 começa bem.
Começa hoje. Ontem os operários estavam a trabalhar a toda a velocidade para preparar o tapete vermelho. Hoje vão passar por ele a Meryl Streep, o George Clooney e os irmãos Cohen.
PS: O saco deste ano é bem giro! Em feltro cinzento, com pega em couro.
(Eu é que andei a fazer figura de principiante: fui para lá com uma mochila cheia de papéis, regressei com a mochila e mais o saco a tiracolo. Isso não se lembraram eles de ensinar no workshop "survival guide for the Berlinale"! Vou já pedir o meu dinheiro de volta, que ontem a zona estava cheia de câmaras de televisão, e eu entrei logo a fazer figurinhas tristes.)
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