Traduzido (e abreviado, e rapidinho, como de costume) do Spiegel, em alemão aqui.
Maravihosa jibóia
Dirk Kurbjuweit
Não há dúvida que este é o maior ajuntamento de espertalhões que existe no mundo inteiro. São 27 - não, são mais. Não apenas os chefes de estado, mas também os ministros dos negócios estrangeiros. Parecem tão inofensivos, assim sentados àquela mesa descomunal, a conversar uns com os outros, mas estão outra vez a preparar alguma. Estão outra vez a preparar secretamente algo Grande nas costas do povo. Há muito que trabalham nisso, tal como os seus antecessores o fizeram já. À revelia do povo de cada país estão a construir a União Europeia, e cada vez mais.
Há 50 anos que é assim: a política faz política contra o povo, e as pessoas só se dão conta disso quando se pergunta a um povo a sua opinião. Aconteceu recentemente na Irlanda, e os irlandeses deram um rotundo não à política dos espertalhões. Recusaram o tratado de Lisboa, assim lançando a União Europeia numa das suas numerosas crises.
Esse foi o grande tema do Conselho Europeu em 19 e 20 de Junho, quando os chefes de estado e do governo debateram sobre o modo de continuarem a fazer política contra o povo sem que este se dê verdadeiramente conta disso.
Na realidade, falaram sobre truques, questões levantadas aos juristas para conseguir fazer avançar o tratado apesar dos irlandeses.
Isto nunca seria dito assim, porque tem um som horrível e não parece Democracia. Mas: e se a razão estivesse do lado dos políticos, com as suas estratégias manhosas, e não do lado do povo, com a sua pretensa sabedoria?
(...)
O que é estranho é que o tratado de Lisboa pretendia tornar as estruturas mais eficientes e democráticas. Por dois anos e meio haveria um Presidente de Conselho, ou seja, um chefe na confusão, a Comissão Europeia ficaria mais pequena, e os representantes dos países e o Parlamento Europeu ganhariam mais poder. Os irlandeses recusaram um tratado que tornaria a Europa um pouco melhor. E porque todos os membros têm de o aceitar, esta decisão põe em causa o todo.
Até agora, a União lembra uma jibóia que está a digerir um vitelo: disforme, inerte - e, no entanto, ameaçadora. Tudo demora imenso tempo. Há 7 anos que se trabalha na estrutura, há 20 anos que os turcos esperam para poderem entrar. Até nas cimeiras em Bruxelas a atividade principal dos observadores é esperar. Demora sempre mais tempo que o planeado. (...) A Europa é demasiado complexa para qualquer calendarização. Em nenhum outro lugar se sente tão claramente como em Bruxelas esse difícil escoar do tempo. Uma pessoa quase se sente no ventre de uma pesada jibóia em digestão.
Muitas vezes a espera não compensa. A Europa não cria momentos de beleza e entusiasmo. Nos países, é diferente. É verdade que raramente a política oferece motivos para nos alegrarmos, mas nos países acontecem de vez em quando aqueles momentos em que parece haver uma reconciliação geral, em que se formam "comunidades agitadas" (Erregungsgemeinschaften), como o filósofo Peter Slterdijk lhes chamou.
O dia 19 de Junho ofereceu à Alemanha um desses momentos de agitação, durante o jogo de quartos de final contra Portugal. (...)
Estes momentos, no quais a maior parte dos alemães se sente feliz por ser alemão, não acontecem com a Europa. Não existem fora do âmbito da política. Mesmo que houvesse volta e meia um jogo entre uma equipa nacional europeia com Ronaldo, Ballack e Sneijder, que batesse por exemplo os chineses por 5:0, a reacção europeia seria outra. Esses momentos não podem existir na Europa porque falta a emoção geral. As emoções são resultado de uma história comum, e a história da Europa só desde há 60 anos deixou de ser uma história de opostos que se resolviam em grandes guerras.
A tentativa do "uns com os outros" nunca é tão espectacular como o "uns contra os outros" - seja nas guerras do passado, seja no futebol dos nossos dias. Na sala de conferências de Bruxelas vemos homens e mulheres que se cumprimentam amigavelmente, e é o primeiro-ministro irlandês, aquele que não fez os trabalhos de casa, quem recebe os cumprimentos mais afectuosos. Mas na Europa, isso não faz de um político um pária - quando muito, a vítima de excessiva indulgência.
É esta a imagem que a Europa dá para o exterior: amigável, pacífica. O que é motivo para desprezo - o continente feminino, Vénus entre os actores da política mundial. E contudo, esse é um motivo para que os adeptos da Paz sintam muito orgulho nesta União Europeia.
É natural que os debates que decorrem à porta fechada de Bruxelas não sejam espectaculares. Mas uma pessoa sente-se bem ao pensar que os representantes de 27 países, com quase 500 milhões de habitantes, se querem entender. Porque o que está em causa é o aumento do preço da energia e das matérias primas, a globalização explosiva, como Angela Merkel lhe chamou. E será que a Alemanha, a Lituânia ou a Irlanda querem ganhar esse desafio sozinhas, contra a China, a Rússia e os EUA?
Há motivos para confiar nestes políticos. Embora na maioria das vezes a sua apresentação em Bruxelas nos faça desanimar do gosto na Europa.
Momentos europeus costumam ser assim: ainda durante o debate, Hans-Gert Pöterring, o presidente do Parlamento Europeu, é enviado para publicitar a causa comum. Pöterring tem o dom de, em menos de 10 minutos, mergulhar a assistência em coma vegetativo. Quem, recorrendo às últimas forças, consegue colocar uma questão, é desviado com virtuosa simpatia para a indefinição. Como não se recebem novidades, não há nada para escrever. Pöterring consegue fazer desaparecer a Europa.
Isto parece ser parte de uma estratégia. (...)
Mas às vezes acontece algo diferente. Às vezes, nestes dias de Bruxelas, acontece um momento de emoção. É rigorosamente proibido escrever sobre isso, porque aconteceu num encontro oficioso de Angela Merkel com jornalistas, à uma da manhã, quando ela regressava de um jantar com os colegas. Um raro momento, em que Angela Merkel se abriu e defendeu entusiasticamente o tratado de Lisboa, a União Europeia, a Democracia representativa. Dir-se-ia paixão.
Os jornalistas não aplaudem, nem sequer no estádio quando a Alemanha marca um golo, mas a seguir a este discurso bateram algumas palmas, por uns momentos, só o tempo de os jornalistas se darem conta que esse é um gesto absolutamente despropositado.
Mas, pssst, ninguém pode ter conhecimento deste belo arrebatamento. Para que não comece a pensar que a chanceler trabalha de todo o coração no aprofundamento da Europa, talvez até sabendo que o faz contra a vontade dos cidadãos.
Até à conferência de encerramento teve tempo de se acalmar. Ali está ela sentada, com aspecto cansado, a dizer "esta cimeira chegou a conclusões que, em minha opinião, nos permitem avançar". Imediatamente se instala o já familiar tédio de Bruxelas, tanto mais que Merkel não tem resultados concretos para anunciar. Os chefes de estado e governo divergiram numa ou noutra questão, conseguiram soluções de compromisso que permitem a todos não perder a cara, e oferecem aquilo que têm em abundância: tempo.
Dão tempo aos irlandeses para decidirem como continuar o processo. Dão tempo ao futuro presidente do Conselho, aos franceses e à Comissão Europeia para prepararem um programa contra os crescentes aumentos de preços da energia e dos produtos alimentares. A única coisa que se ouvirá da Europa, nos próximos meses, será o tiquetaquear de um relógio. Mas isto é, provavelmente, propositado.
"Tédio estratégico" poderia ser o conceito secreto da União Europeia. Sobretudo não atrair as atenções, e muito menos a agitação. Em vez disso, continuar, em silêncio e teimosamente, a despeito de se estar rodeado de desconfianças murmuradas.
Foi assim que os espertalhões criaram nas costas dos povos um mercado comum, o Euro, a extinção de muitos controles de fronteiras e, recentemente, uma política climática exemplar para todo o mundo. Tudo isto estava certo, e faz da Europa um continente onde é muito agradável viver. Oferece momentos monótonos e, no máximo, emoções negativas, mas - apesar da burocracia e outros déficits - é um balanço formidável.
Em referendos, a maior parte disto teria sido travado, ou até rejeitado. Democracia não significa confiança absoluta nos cidadãos. Às vezes o que é verdadeiramente Grande está melhor na mão dos políticos, e precisa de tempo.
Como com a jibóia. Após o longo processo de digestão, é sempre um ser muito mais animado, forte e belo.
****
Uma pessoa pergunta-se logo, como é lógico, porque é que a Angela Merkel não fala assim para todos. Eu também queria ouvir algum político a falar empolgadamente sobre a Europa!
Mas o artigo levanta algumas questões pertinentes.
Por exemplo, faz sentido deixar que as coisas da Europa sejam decididas a partir de uma lógica nacional/nacionalista/populista?
Estou em crer que, se os alargamentos fossem objecto de referendo nos países que já estão dentro, Portugal ainda agora estava à espera que os outros povos o deixassem entrar...
A expressão "coisas grandes" também dá que pensar.
Por um lado, parece que se está a passar um atestado de menoridade ao povo. Por outro lado, a gente vê o modo como os referendos são manipulados para todo o tipo de interesses alheios à própria questão do referendo, ouve o modo como o "zé povinho" (isto pode ser dito em qualquer outra língua) se pronuncia, e desconfia que os referendos seriam negativos, se estivesse em discussão, por exemplo:
- a Constituição alemã (sobretudo as partes relativas à tortura, à dignidade do ser humano inclusivamente a do estrangeiro inclusivamente a do muçulmano...)
- a reunificação alemã (por exemplo devido aos avisos do Lafontaine: olhem que vos vai custar muito dinheiro!)
- a integração na UE dos países de Leste ("deixamos de ter fronteiras que nos protejam daqueles ladrões?")
O meu avião sai daqui a duas horas, por isso fico-me por estes três exemplos.
A caixa de comentários está aberta, mas continua moderada. E como a moderadora está a sair para banhos, previno que pode demorar vários dias até que um comentário seja publicado. As minhas desculpas por isso, mas valores mais altos se alevantam! ;-)
Até Setembro - um bom Verão para todos!
17 julho 2008
15 julho 2008
14 julho 2008
floresta mágica
Há um momento em que a floresta do Varekai escurece e se enche de pirilampos.
Num relance regressei a uma outra floresta mágica, em Ilhabela, onde passámos uma tarde a brincar na Cachoeira da Lage. No regresso, já a floresta se preparava para a noite, centenas de pirilampos gigantes vieram ao nosso encontro, procuraram a nossa pele, transformaram o nosso caminho num deslumbramento de pontos cintilantes.
Quase temo voltar a um lugar onde fui tão feliz. Nem sei se prefiro voltar sem surpresa à magia dos pirilampos, ou correr o risco de eles faltarem ao encontro.
Num relance regressei a uma outra floresta mágica, em Ilhabela, onde passámos uma tarde a brincar na Cachoeira da Lage. No regresso, já a floresta se preparava para a noite, centenas de pirilampos gigantes vieram ao nosso encontro, procuraram a nossa pele, transformaram o nosso caminho num deslumbramento de pontos cintilantes.
Quase temo voltar a um lugar onde fui tão feliz. Nem sei se prefiro voltar sem surpresa à magia dos pirilampos, ou correr o risco de eles faltarem ao encontro.
varekai
Diz-se que não há amor como o primeiro, e não concordo.
Com uma excepção: o primeiro espectáculo do Cirque du Soleil que vi foi também o mais belo. La Nouba, em Orlando.
Depois desse, nunca mais nenhum circo me foi suficientemente bom. Os tradicionais deixam-me triste, e os mais elaborados (inclusivamente outras produções do Cirque du Soleil) não conseguem chegar ao nível do La Nouba.
Pois bem: desde ontem, tenho dois amores. Varekai.
Está em Berlim até fins de Agosto.
Uma floresta mágica, cheia de seres misteriosos, onde cai um pássaro ferido a quem roubam as asas.
E um artista que em criança teve poliomelite, e faz uma dança formidável nas suas muletas. Perfeito, belo, digno. Sem sombra de coitadinho.
Com uma excepção: o primeiro espectáculo do Cirque du Soleil que vi foi também o mais belo. La Nouba, em Orlando.
Depois desse, nunca mais nenhum circo me foi suficientemente bom. Os tradicionais deixam-me triste, e os mais elaborados (inclusivamente outras produções do Cirque du Soleil) não conseguem chegar ao nível do La Nouba.
Pois bem: desde ontem, tenho dois amores. Varekai.
Está em Berlim até fins de Agosto.
Uma floresta mágica, cheia de seres misteriosos, onde cai um pássaro ferido a quem roubam as asas.
E um artista que em criança teve poliomelite, e faz uma dança formidável nas suas muletas. Perfeito, belo, digno. Sem sombra de coitadinho.
12 julho 2008
este mundo complicado...
Uma conhecida minha é professora numa escola de ensino especial em Berlim.
Tem um aluno de 10 anos, filho de palestinianos, que já sabe o que quer ser na vida: mártir. Entrar para o Hamas, fazer-se explodir contra Israel.
A mãe dá-lhe todo o apoio.
No coração de Berlim.
Na semana passada, a Polícia foi mais uma vez à escola devido a um novo furto do rapazinho. A directora de turma foi a casa da família dele falar com os pais.
Os pais não estavam em casa. Só estavam os filhos mais velhos, que não sabiam de nada - nada de novo na relação daquela escola com aquela família.
Estavam acompanhados por um funcionário do serviço social, que pareceu à directora de turma estar numa atitude de demasiado companheirismo (não pedi detalhes).
Tudo isto levanta imensas questões.
Devemos ou não devemos dar o nome da mãe e do filho à polícia israelita, para que impeçam a sua entrada no país, já que se sabe quais são as suas intenções?
Devemos retirar aquela criança à mãe, para ser educada por uma família com princípios democráticos mais sólidos?
A dignidade humana é inviolável - já conhecemos o princípio fundamental.
O difícil é equacioná-lo na vida real.
Tem um aluno de 10 anos, filho de palestinianos, que já sabe o que quer ser na vida: mártir. Entrar para o Hamas, fazer-se explodir contra Israel.
A mãe dá-lhe todo o apoio.
No coração de Berlim.
Na semana passada, a Polícia foi mais uma vez à escola devido a um novo furto do rapazinho. A directora de turma foi a casa da família dele falar com os pais.
Os pais não estavam em casa. Só estavam os filhos mais velhos, que não sabiam de nada - nada de novo na relação daquela escola com aquela família.
Estavam acompanhados por um funcionário do serviço social, que pareceu à directora de turma estar numa atitude de demasiado companheirismo (não pedi detalhes).
Tudo isto levanta imensas questões.
Devemos ou não devemos dar o nome da mãe e do filho à polícia israelita, para que impeçam a sua entrada no país, já que se sabe quais são as suas intenções?
Devemos retirar aquela criança à mãe, para ser educada por uma família com princípios democráticos mais sólidos?
A dignidade humana é inviolável - já conhecemos o princípio fundamental.
O difícil é equacioná-lo na vida real.
11 julho 2008
apontamentos sobre a eutanásia (2)
Gosto do modo como a deputada que escreveu o texto do post anterior desloca a questão da eutanásia da liberdade individual para a nossa responsabilidade em fazer com que os idosos gostem de estar vivos.
Acrescento ainda alguns pontos de uma conversa entre um jornalista que escreveu um livro onde contava o modo como acompanhou o seu irmão até à eutanásia, e um filósofo. Foi publicada há cerca de um ano numa revista alemã (na altura quis traduzir, mas agora já nem sei onde está a revista...).
O jornalista dizia: o meu irmão, em plena consciência, queria morrer. Como poderia eu negar-lhe esse desejo?
E o filósofo respondia: tinha de lhe dizer, e repetir à exaustão, que não concorda com isso, e que a sua ajuda é feita completamente a contragosto. O problema é que, numa sociedade onde há cada vez mais idosos e os seus cuidados ficam cada vez mais caros, legalizar a eutanásia pode significar um subtil convite aos mais velhos e aos doentes para se verem como algo facultativo na nossa sociedade, como um problema que se resolve antecipando a morte.
***
Em conversa a propósito da Terri Schiavo, os meus sogros afirmaram que não queriam ficar em coma durante todos aqueles anos, e que nós deveríamos desligar as máquinas. Tudo parecia muito simples, até que a minha sogra disse "e mesmo que eu, por trás de um corpo sem reacções, esteja consciente, não quero continuar a viver vendo como dou trabalho a toda a gente". Aí é que estragou tudo: como é que eu posso desligar uma máquina, sabendo que respondo ao seu desejo de não ser um fardo? Que espécie de relações familiares são essas, se eu mato a avó só porque ela não nos quer dar trabalho? Há aqui um limiar que eu não posso ultrapassar: aceitar a morte de alguém por comodismo meu.
***
Contaram-me de um pai de família, nos EUA, que era diabético e a quem foi diagnosticado um cancro incurável. O tratamento prolongaria a sua vida mas não o curaria, e a família seria obrigada a vender a casa para pagar os cuidados hospitalares nos últimos meses de vida do pai. Para não deixar a família na miséria, ele optou por deixar de tomar os medicamentos das diabetes, e morreu.
"A wonderful person", dizia a psicóloga do hospital, que o acompanhou, "we all cried when he died".
Mais um motivo para gostar de morar na nossa Europa solidária. E uma boa história para nos interrogarmos sobre o alcance da nossa solidariedade: quanto é que a sociedade está disposta a investir na dignidade da vida humana, para que as pessoas não façam contas à sua vida como se fossem um mero "centro de custos"?
***
A mesma revista que perdi tinha uma série de entrevistas com pessoas que iriam a Zurique para terem uma morte assistida. Numa delas, uma mulher, muito revoltada com a recusa da mãe em chegar ao ponto em que a filha lhe mudaria fraldas, dizia: "Um dia destes terei de fazer a viagem de Berlim a Zurique, para levar a minha mãe a morrer com hora marcada. De que vamos falar no caminho?"
Acrescento ainda alguns pontos de uma conversa entre um jornalista que escreveu um livro onde contava o modo como acompanhou o seu irmão até à eutanásia, e um filósofo. Foi publicada há cerca de um ano numa revista alemã (na altura quis traduzir, mas agora já nem sei onde está a revista...).
O jornalista dizia: o meu irmão, em plena consciência, queria morrer. Como poderia eu negar-lhe esse desejo?
E o filósofo respondia: tinha de lhe dizer, e repetir à exaustão, que não concorda com isso, e que a sua ajuda é feita completamente a contragosto. O problema é que, numa sociedade onde há cada vez mais idosos e os seus cuidados ficam cada vez mais caros, legalizar a eutanásia pode significar um subtil convite aos mais velhos e aos doentes para se verem como algo facultativo na nossa sociedade, como um problema que se resolve antecipando a morte.
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Em conversa a propósito da Terri Schiavo, os meus sogros afirmaram que não queriam ficar em coma durante todos aqueles anos, e que nós deveríamos desligar as máquinas. Tudo parecia muito simples, até que a minha sogra disse "e mesmo que eu, por trás de um corpo sem reacções, esteja consciente, não quero continuar a viver vendo como dou trabalho a toda a gente". Aí é que estragou tudo: como é que eu posso desligar uma máquina, sabendo que respondo ao seu desejo de não ser um fardo? Que espécie de relações familiares são essas, se eu mato a avó só porque ela não nos quer dar trabalho? Há aqui um limiar que eu não posso ultrapassar: aceitar a morte de alguém por comodismo meu.
***
Contaram-me de um pai de família, nos EUA, que era diabético e a quem foi diagnosticado um cancro incurável. O tratamento prolongaria a sua vida mas não o curaria, e a família seria obrigada a vender a casa para pagar os cuidados hospitalares nos últimos meses de vida do pai. Para não deixar a família na miséria, ele optou por deixar de tomar os medicamentos das diabetes, e morreu.
"A wonderful person", dizia a psicóloga do hospital, que o acompanhou, "we all cried when he died".
Mais um motivo para gostar de morar na nossa Europa solidária. E uma boa história para nos interrogarmos sobre o alcance da nossa solidariedade: quanto é que a sociedade está disposta a investir na dignidade da vida humana, para que as pessoas não façam contas à sua vida como se fossem um mero "centro de custos"?
***
A mesma revista que perdi tinha uma série de entrevistas com pessoas que iriam a Zurique para terem uma morte assistida. Numa delas, uma mulher, muito revoltada com a recusa da mãe em chegar ao ponto em que a filha lhe mudaria fraldas, dizia: "Um dia destes terei de fazer a viagem de Berlim a Zurique, para levar a minha mãe a morrer com hora marcada. De que vamos falar no caminho?"
apontamentos sobre a eutanásia (1)
Uma deputada dos Verdes, e vice-presidente do Parlamento Federal alemão, Karin Göring-Eckardt, escreveu num jornal diário berlinense um artigo muito interessante (tradução resumida e rapidinha, como de costume).
VIVER E DEIXAR VIVER
Suicídio e morte assistida não podem ser a solução
(em alemão, aqui)
Até onde vai a minha vida,
e onde começa a noite?
perguntava Rainer Maria Rilke, que sobre a morte nos deixou muitas páginas sombrias, e outras reconfortantes. Por estes dias há na Alemanha um aceso debate sobre a dignidade humana no fim da vida. O que é positivo, porque temos de falar sobre a vida e a morte, em vez de fazermos de conta que não é nada connosco.
O motivo que deu origem ao debate é assustador: uma reformada suicidou-se por medo do lar de terceira idade. De facto, cada vez mais idosos estão sozinhos ou são abandonados. As suas depressões e o seu cansaço de viver não são reconhecidos, ou são ignorados. Poucos idosos recebem tratamento de antidepressivos ou psicoterapia, porque aparentemente se aceita que tristeza, falta de energia e de esperança são características típicas da terceira idade. Muitas das pessoas mais velhas não recebem cuidados adequados. Demasiados moribundos são ainda mandados para os cuidados intensivos, onde o seu sofrimento é prolongado desnecessariamente.
Nenhum destes casos deveria ocorrer. Contudo, é insuportável que o suicídio ou a ajuda para morrer sejam vistos como a solução. Nunca poderemos dizer: se a tua vida te é um fardo, mata-te!
Se alguém formula um desejo de morrer, a pergunta a fazer é: Porquê? O que temos de mudar? O que posso fazer por ti?
Não se trata de um abuso e de uma limitação dos direitos e da liberdade, mas de uma maneira de agir profundamente humana.
Temos de tirar fundamento ao medo de ficar sozinho no fim da vida, ser mandado para um sítio qualquer ou tornar-se um fardo para os outros.
O que há a fazer para que se possa dizer a cada pessoa: tu poderás morrer em casa, ou num lar onde tratarão e cuidarão bem de ti. As tuas dores serão tão poucas quanto a Medicina o permite, e vais poder morrer quando chegar o momento.
Centrar-se nas próprias pessoas, perguntar-lhes o que querem ou precisam - é essa a condição primordial para que a vida tenha dignidade humana até ao fim. Uma pessoa não pode tornar-se num objecto, depositado num lar de terceira idade ou agarrado a máquinas das quais tudo depende. Em cada fase, um ser humano é um "outro", um indivíduo cuja vida pode ser, apesar da doença, uma vida boa. Cuidados geriátricos não podem ser apenas a prestação de um serviço mas a pergunta sempre renovada sobre o que é desejado. Quem aperta os lábios com força está a pronunciar-se de forma clara. Não se lhe pode instalar uma sonda no estômago, só porque isso poupa tempo. Para os que acompanham pessoas gravemente doentes ou em fase terminal, a exigência de estar permanentemente atentos aos seus desejos, com paciência e dedicação, é um difícil desafio. Mas é isto que conta e que desfaz o medo: alguém vai estar lá e vai ter tempo para mim. Alguém com quem poderei rir e chorar, fazer queixas e ficar em silêncio.
Obviamente será necessário criar as condições para isso. A maior parte das pessoas gostaria de poder morrer em casa. Mesmo que isso fique mais caro, tem de ser possível organizar. Os familiares que cuidam dos seus idosos precisam de apoio; os cuidados geriátricos têm de ser conciliáveis com os horários de trabalho. Os profissionais precisam de mais tempo para acompanhar convenientemente os idosos, e precisam de formação adequada. Se necessário, tem de ser possível recorrer a uma estação de cuidados paliativos ou a um hospício. As possibilidades da medicina paliativa ainda não são suficientemente conhecidas por muitos doentes, familiares e médicos. Uma boa terapia da dor permite uma despedida da vida consciente mas, em grande parte, sem dor.
Começa a ser urgente. É agora que temos de definir o rumo no sistema de saúde, nos cuidados geriátricos, no modo como a sociedade se relaciona com a agonia e a morte. No actual contexto, em que há cada vez mais idosos e os membros das famílias vivem cada vez mais distantes uns dos outros, os desafios crescem. No entanto, uma sociedade solidária e humana tem de assumir esta tarefa. Estar presente junto dos outros, mesmo no momento em que a morte se aproxima, é o maior serviço que as pessoas se podem prestar umas às outras.
Até que a noite comece, é vida. Esta vida tem de ser, até ao fim, comunidade, dedicação e comunhão.
VIVER E DEIXAR VIVER
Suicídio e morte assistida não podem ser a solução
(em alemão, aqui)
Até onde vai a minha vida,
e onde começa a noite?
perguntava Rainer Maria Rilke, que sobre a morte nos deixou muitas páginas sombrias, e outras reconfortantes. Por estes dias há na Alemanha um aceso debate sobre a dignidade humana no fim da vida. O que é positivo, porque temos de falar sobre a vida e a morte, em vez de fazermos de conta que não é nada connosco.
O motivo que deu origem ao debate é assustador: uma reformada suicidou-se por medo do lar de terceira idade. De facto, cada vez mais idosos estão sozinhos ou são abandonados. As suas depressões e o seu cansaço de viver não são reconhecidos, ou são ignorados. Poucos idosos recebem tratamento de antidepressivos ou psicoterapia, porque aparentemente se aceita que tristeza, falta de energia e de esperança são características típicas da terceira idade. Muitas das pessoas mais velhas não recebem cuidados adequados. Demasiados moribundos são ainda mandados para os cuidados intensivos, onde o seu sofrimento é prolongado desnecessariamente.
Nenhum destes casos deveria ocorrer. Contudo, é insuportável que o suicídio ou a ajuda para morrer sejam vistos como a solução. Nunca poderemos dizer: se a tua vida te é um fardo, mata-te!
Se alguém formula um desejo de morrer, a pergunta a fazer é: Porquê? O que temos de mudar? O que posso fazer por ti?
Não se trata de um abuso e de uma limitação dos direitos e da liberdade, mas de uma maneira de agir profundamente humana.
Temos de tirar fundamento ao medo de ficar sozinho no fim da vida, ser mandado para um sítio qualquer ou tornar-se um fardo para os outros.
O que há a fazer para que se possa dizer a cada pessoa: tu poderás morrer em casa, ou num lar onde tratarão e cuidarão bem de ti. As tuas dores serão tão poucas quanto a Medicina o permite, e vais poder morrer quando chegar o momento.
Centrar-se nas próprias pessoas, perguntar-lhes o que querem ou precisam - é essa a condição primordial para que a vida tenha dignidade humana até ao fim. Uma pessoa não pode tornar-se num objecto, depositado num lar de terceira idade ou agarrado a máquinas das quais tudo depende. Em cada fase, um ser humano é um "outro", um indivíduo cuja vida pode ser, apesar da doença, uma vida boa. Cuidados geriátricos não podem ser apenas a prestação de um serviço mas a pergunta sempre renovada sobre o que é desejado. Quem aperta os lábios com força está a pronunciar-se de forma clara. Não se lhe pode instalar uma sonda no estômago, só porque isso poupa tempo. Para os que acompanham pessoas gravemente doentes ou em fase terminal, a exigência de estar permanentemente atentos aos seus desejos, com paciência e dedicação, é um difícil desafio. Mas é isto que conta e que desfaz o medo: alguém vai estar lá e vai ter tempo para mim. Alguém com quem poderei rir e chorar, fazer queixas e ficar em silêncio.
Obviamente será necessário criar as condições para isso. A maior parte das pessoas gostaria de poder morrer em casa. Mesmo que isso fique mais caro, tem de ser possível organizar. Os familiares que cuidam dos seus idosos precisam de apoio; os cuidados geriátricos têm de ser conciliáveis com os horários de trabalho. Os profissionais precisam de mais tempo para acompanhar convenientemente os idosos, e precisam de formação adequada. Se necessário, tem de ser possível recorrer a uma estação de cuidados paliativos ou a um hospício. As possibilidades da medicina paliativa ainda não são suficientemente conhecidas por muitos doentes, familiares e médicos. Uma boa terapia da dor permite uma despedida da vida consciente mas, em grande parte, sem dor.
Começa a ser urgente. É agora que temos de definir o rumo no sistema de saúde, nos cuidados geriátricos, no modo como a sociedade se relaciona com a agonia e a morte. No actual contexto, em que há cada vez mais idosos e os membros das famílias vivem cada vez mais distantes uns dos outros, os desafios crescem. No entanto, uma sociedade solidária e humana tem de assumir esta tarefa. Estar presente junto dos outros, mesmo no momento em que a morte se aproxima, é o maior serviço que as pessoas se podem prestar umas às outras.
Até que a noite comece, é vida. Esta vida tem de ser, até ao fim, comunidade, dedicação e comunhão.
10 julho 2008
episódio
Ontem à noite houve um debate sobre eutanásia na ARD (canal público alemão).
A questão está a agitar o país neste momento devido a um político ter assumido e divulgado que ajudou uma idosa a suicidar-se.
Os participantes no debate iam dizendo da sua justiça, e o debate estava a ser bastante rico - até ao momento em que o moderador resolveu encurralar o político. Começou por mostrar num breve filme o seu percurso político, a sua deriva populista, a sua necessidade de protagonismo. E depois, começou a interrogar: "será que o senhor fez isto para ter publicidade?"
Um participante cortou-lhe a palavra: "estamos aqui para debater um assunto muito sério, e não para fazer julgamentos em praça pública!"
O moderador insistiu: "mas o senhor não acha que este político agiu assim por uma estratégia de propaganda?"
"Recuso-me a responder a essa questão", foi a resposta. "Não me compete julgar as motivações de terceiros, e o que possa pensar sobre isso guardo para mim. Estamos aqui para discutir a eutanásia, e não para rebaixar uma pessoa."
Por estas e por outras é que tenho uma grande confiança na Democracia alemã.
A questão está a agitar o país neste momento devido a um político ter assumido e divulgado que ajudou uma idosa a suicidar-se.
Os participantes no debate iam dizendo da sua justiça, e o debate estava a ser bastante rico - até ao momento em que o moderador resolveu encurralar o político. Começou por mostrar num breve filme o seu percurso político, a sua deriva populista, a sua necessidade de protagonismo. E depois, começou a interrogar: "será que o senhor fez isto para ter publicidade?"
Um participante cortou-lhe a palavra: "estamos aqui para debater um assunto muito sério, e não para fazer julgamentos em praça pública!"
O moderador insistiu: "mas o senhor não acha que este político agiu assim por uma estratégia de propaganda?"
"Recuso-me a responder a essa questão", foi a resposta. "Não me compete julgar as motivações de terceiros, e o que possa pensar sobre isso guardo para mim. Estamos aqui para discutir a eutanásia, e não para rebaixar uma pessoa."
Por estas e por outras é que tenho uma grande confiança na Democracia alemã.
09 julho 2008
os intocáveis
Contou-me Reuven Moskowitz, um judeu muito activo para a Paz entre Israel e a Palestina, que o diálogo entre cidadãos dos dois povos é visto com maus olhos por parte de alguns grupos palestinianos. Chega-se a matar os colaboracionistas - sendo que não é preciso muito para ser considerado "colaboracionista".
Os únicos que estão acima dessa regra são os familiares dos mártires, que pela morte daquele se tornam intocáveis. Com eles é possível estabelecer contacto e tentar pequenos gestos de Paz na base das comunidades.
Facto que torna esta decisão de expulsar os familiares dos terroristas uma triste ironia, uma espécie de tiro no pé...
Os únicos que estão acima dessa regra são os familiares dos mártires, que pela morte daquele se tornam intocáveis. Com eles é possível estabelecer contacto e tentar pequenos gestos de Paz na base das comunidades.
Facto que torna esta decisão de expulsar os familiares dos terroristas uma triste ironia, uma espécie de tiro no pé...
impressionante
Se o "Imagens com Texto" precisasse de um subtítulo, poderia ser: "entre o lazer e o prazer nos detalhes".
Impressionante a quantidade de informação que o j.j. amarante nos oferece a partir de uma simples nota de um yuan!
Impressionante a quantidade de informação que o j.j. amarante nos oferece a partir de uma simples nota de um yuan!
08 julho 2008
a frase do dia
"Eu era muito ligado ao seu pai, nos ficheiros da PIDE andávamos sempre juntos"
Disse-me um sacerdote idoso, com quem falei hoje.
E eu que nem sabia que o meu pai era conhecido para aqueles lados!
Sinto-me: "quase famosa"...
Disse-me um sacerdote idoso, com quem falei hoje.
E eu que nem sabia que o meu pai era conhecido para aqueles lados!
Sinto-me: "quase famosa"...
07 julho 2008
where the Hell is Matt?
"a silly dance in 42 countries that will make you grin like a fool" (encontrado aqui)
Where the Hell is Matt? (2008) from Matthew Harding on Vimeo.
É muito mais que grin like a fool: é comover-se ao ver gente do mundo inteiro unida numa dança pateta.
Where the Hell is Matt? (2008) from Matthew Harding on Vimeo.
É muito mais que grin like a fool: é comover-se ao ver gente do mundo inteiro unida numa dança pateta.
04 julho 2008
então ficamos assim:
O Eduardo Pitta faz críticas a restaurantes de luxo, e o João Gonçalves faz uma análise comparada dos pregos no prato servidos em Mem-Martins.
Neste mundo há lugar para todos, e assim ficamos todos muito bem servidos.
Por mim, dou já um contributo para os clientes das tascas, e, mais concretamente, dos restaurantes de frangos em Berlim.
Depois de algumas incursões pelos frangos de churrasco na vizinhança, na altura em que ainda não tinha cozinha, cheguei a uma triste conclusão: devem deitar algum produto químico nos frangos que lhes dá um aroma delicioso, apesar de ainda estarem meio crus. Sim, é um aviso: não comprem frangos grelhados em Berlim!
Em toda a Berlim? Não! Uma pequena loja resiste ao inimigo, e fica na Sonnenallee, numa zona que já tem bastante ar de gueto. É aí que servem um franguinho para muçulmano nenhum deitar defeito. O resto (as batatas fritas, a coca cola - acho que não vende cerveja) podem esquecer. Mas o franguinho, aaaah, o franguinho!
Tempos houve em que eu achava que, para saber qual era o melhor restaurante de uma terra, devia perguntar a um polícia. Não se riam: seria a minha intuição feminina a adivinhar a ASAE...
No entretanto já tive oportunidade de me dar conta que os meus gostos mudaram, mas os dos polícias não.
Tentei um novo segmento, perguntei a um palestiniano empregado de café, e o resultado foi aquela churrasquinha na Sonnenallee.
Também não era bem isso.
De momento estou nesta fase: gostos tão finos quanto o budget para restaurantes. Gosto de frequentar bons restaurantes, mas só dá para comer uma sopinha ou (nos dias de festa: e) uma sobremesa.
Por exemplo a 3000 m de altitude, em Piz Nair, uma sopa de pêra abacate com milho. De esquiar por mais.
Ou as sobremesas em Muottas Muragl. Nesse restaurante não aconselho o risotto, que me pareceu um bocado farinhento. Enfim, talvez o problema não fosse do risotto, mas meu, que estava a comer um menu de 80 euros e por isso esperava que tudo fosse fenomenal, pelo menos. É o que dá quando pessoas deste mundo fazem uma incursão no outro.
Às vezes vou para a Friedrichsstrasse apreciar as russas no Quartier 206. Vejo-as tão novas, tão bela figura, estilo tão caro, a entrar naquelas lojas que nem sequer põem os preços na montra, e dá-me para a inveja, "não foste tu quem ganhou esse dinheiro todo, minha grande lambisgóia", penso eu com os meus botões H&M.
Mas ultimamente ocorreu-me que podem ser supermodelos, sim, onde será que elas compram os trapinhos?, e que a minha inveja ainda é um sentimento mais feio que de costume.
Podia continuar a desconversar por aqui mais meia hora, mas tenho de fazer as malas e antes disso o almoço (beringelas com borrego às três pancadas, especialidade minha), e o comboio é já daqui a hora e meia, aimêdês.
Bom fim de semana!
Neste mundo há lugar para todos, e assim ficamos todos muito bem servidos.
Por mim, dou já um contributo para os clientes das tascas, e, mais concretamente, dos restaurantes de frangos em Berlim.
Depois de algumas incursões pelos frangos de churrasco na vizinhança, na altura em que ainda não tinha cozinha, cheguei a uma triste conclusão: devem deitar algum produto químico nos frangos que lhes dá um aroma delicioso, apesar de ainda estarem meio crus. Sim, é um aviso: não comprem frangos grelhados em Berlim!
Em toda a Berlim? Não! Uma pequena loja resiste ao inimigo, e fica na Sonnenallee, numa zona que já tem bastante ar de gueto. É aí que servem um franguinho para muçulmano nenhum deitar defeito. O resto (as batatas fritas, a coca cola - acho que não vende cerveja) podem esquecer. Mas o franguinho, aaaah, o franguinho!
Tempos houve em que eu achava que, para saber qual era o melhor restaurante de uma terra, devia perguntar a um polícia. Não se riam: seria a minha intuição feminina a adivinhar a ASAE...
No entretanto já tive oportunidade de me dar conta que os meus gostos mudaram, mas os dos polícias não.
Tentei um novo segmento, perguntei a um palestiniano empregado de café, e o resultado foi aquela churrasquinha na Sonnenallee.
Também não era bem isso.
De momento estou nesta fase: gostos tão finos quanto o budget para restaurantes. Gosto de frequentar bons restaurantes, mas só dá para comer uma sopinha ou (nos dias de festa: e) uma sobremesa.
Por exemplo a 3000 m de altitude, em Piz Nair, uma sopa de pêra abacate com milho. De esquiar por mais.
Ou as sobremesas em Muottas Muragl. Nesse restaurante não aconselho o risotto, que me pareceu um bocado farinhento. Enfim, talvez o problema não fosse do risotto, mas meu, que estava a comer um menu de 80 euros e por isso esperava que tudo fosse fenomenal, pelo menos. É o que dá quando pessoas deste mundo fazem uma incursão no outro.
Às vezes vou para a Friedrichsstrasse apreciar as russas no Quartier 206. Vejo-as tão novas, tão bela figura, estilo tão caro, a entrar naquelas lojas que nem sequer põem os preços na montra, e dá-me para a inveja, "não foste tu quem ganhou esse dinheiro todo, minha grande lambisgóia", penso eu com os meus botões H&M.
Mas ultimamente ocorreu-me que podem ser supermodelos, sim, onde será que elas compram os trapinhos?, e que a minha inveja ainda é um sentimento mais feio que de costume.
Podia continuar a desconversar por aqui mais meia hora, mas tenho de fazer as malas e antes disso o almoço (beringelas com borrego às três pancadas, especialidade minha), e o comboio é já daqui a hora e meia, aimêdês.
Bom fim de semana!
03 julho 2008
02 julho 2008
Regina Spektor
Uma amiga apresentou-me esta cantora.
No youtube os vídeos dela já foram vistos por milhöes de pessoas - mais uma vez a interessada é a última a saber...
Para o caso de eu ser a penúltima a saber, aqui väo alguns vídeos:
No youtube os vídeos dela já foram vistos por milhöes de pessoas - mais uma vez a interessada é a última a saber...
Para o caso de eu ser a penúltima a saber, aqui väo alguns vídeos:
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