18 julho 2007

em ritmo de férias



Ando cá desconfiada que os amigos que fazem este blogue comigo já não se lembram do password para escrever posts.
Pelo que é bem provável que esta casa fique em ritmo de férias até fins de Agosto.
Bom Verão para todos!

verão



Quando, se está bom tempo, o Verão em Weimar é muito agradável.



Et pourtant, cá vou eu para o Rally Portugal. Seis semanas.
Até depois!

o conforto de aeroportos no centro da cidade

Esta desgraça.

17 julho 2007

adenda ao post "cut&paste"

Devido a este post, que levanta uma questão muito pertinente, parece-me oportuno acrescentar o seguinte:

- O campo dos nazis chama(va)-se Buchenwald; o dos russos, nas mesmas instalações, chama(va)-se Sowjetisches Speziallager Nr.2 (campo especial soviético nº2). Os nomes, as datas históricas e os sobreviventes de um e outro raramente se misturam.

- Buchenwald abriu a 15 de Julho de 1937, e foi libertado a 19 de Abril de 1945. Durante esse período, por lá passaram 250.000 pessoas.
Embora fosse sobretudo um campo de trabalho, calcula-se que tenham morrido 56.000 pessoas (no post anterior arredondei para 60.000, número que ouvi algures).
Os registos do campo indicam 34.375 mortos. Este número não inclui os prisioneiros de guerra soviéticos sumariamente executados (por recurso a um truque cínico num pretenso consultório médico), os presos que a Gestapo assassinava no crematório (calcula-se cerca de 1.100), os que chegavam mortos nos transportes de evacuação dos campos de Leste quando a guerra começou a chegar ao fim, e as vítimas das marchas da morte, em Abril de 1945 (calcula-se um número entre 12.000 e 15.000, dos quais cerca de 11.000 seriam judeus).

- Em Agosto de 1945 os russos abriram o Speziallager Nr.2 Buchenwald, um dos 10 campos e 3 prisões usados para internar alemães (alguns criminosos nazis, bastantes membros e funcionários do NSDAP, funcionários do Estado, membros da Juventude Hitleriana, SS, polícias e oficiais do exército derrotado; também havia presos por denúncias, vinganças, trocas de identidade, ou vítimas de abusos de autoridade). Segundo os registos russos, entre Agosto de 1945 e Fevereiro de 1950, estiveram lá presas 28.455 pessoas.
Ainda segundo os registos oficiais russos, ao todo morreram no campo 7.113 pessoas. Vítimas de fome, frio, depressão (devido à falta de perspectiva e ao absoluto isolamento, que nem permitia que os prisioneiros recebessem notícias da família), epidemias.

Todas estas informações são facultadas pelo site de Buchenwald, em vários idiomas (aqui, em inglês).

Após a reunificação alemã, às instalações de museu de Buchenwald foi acrescentada uma nova exposição sobre o campo soviético. O director tem-se empenhado em desfazer alguns dos mitos que a propaganda comunista criou sobre o campo nazi e os heróis socialistas. Um desses mitos, talvez o mais famoso: a história de um rapazinho judeu que chegou ao campo escondido numa mala, e que foi salvo pelos destemidos camaradas, quando o seu nome já constava da lista do próximo transporte para Auschwitz. Foi salvo, sim: riscaram o nome dele, e puseram o de um ciganito.

Embora o horror nazi seja muito mais mediático, digamos assim, que o soviético, a exposição disponibiliza muita informação sobre esse período.

As questões levantadas pelo João Tunes são pertinentes, mas é preciso ter em conta que os alemães têm sido impedidos de chorar as suas vítimas. Esforços no sentido de lembrar que do lado dos civis alemães também houve horríveis sofrimentos, sobretudo entre os que fugiram ou foram expulsos do Leste, resultam sistematicamente num coro de protestos internacionais. Um dia destes contarei isto com mais detalhe. Nem queiram saber a quantidade de vezes que ouço: "tu podes dizer isso, não és alemã..."

Quando há cerimónias para lembrar algum marco da história de Buchenwald, só convidam os sobreviventes do campo nazi - e ninguém teria coragem de juntar na mesma cerimónia as vítimas dos nazis e as vítimas dos russos (os supostamente criminosos nazis).
Ou de lembrar, perante aqueles sobreviventes, os SS que lá morreram...
Eis porque só citei os números de vítimas dos primeiros oito anos do campo: estava a ecoar os discursos feitos perante esses sobreviventes.


E para não chover mais no molhado, cá vou chover no período comunista. Contaram-me que um dos guias que mostra a prisão de Bautzen- uma das piores prisões da Stasi - controla sempre os travões do carro antes de o pôr em andamento. Nunca se sabe, diz ele, e ainda há por aí muita gente a quem não agrada que se diga mal da Stasi, e se mostre os locais onde torturavam, e conte como era.

De um lado os neo-nazis, do outro os velho-comunistas - alguém me diz onde é a saída de emergência deste filme surrealista?

vida simplex

Ando à procura de casa em Berlim, e encontrei uma bastante interessante em Zehlendorf.
Como não percebo nada de preços de imobiliários, escrevi um e-mail a um serviço camarário para que me dissessem o preço normal de terrenos para construção na rua em causa. Responderam-me no mesmo dia, informando que uma resposta por escrito tem de ser paga, mas se lhe telefonar para o número tal e tal me dão a resposta que quero gratuitamente. Telefonei. Atendeu logo um funcionário, que me disse logo que naquela rua e naquele número se calcula 300 euros por metro quadrado. Depois deu-me o número de telefone do colega que me pode dizer se posso construir mais um andar na casa. Liguei ao colega. Atendeu logo. Disse-lhe qual era o objecto, informou-me imediatamente que, devido à casa construída ao fundo do jardim, não é possível dividir o terreno, ficando assim a ser usado pelas duas casas, e que não é possível aumentar o sótão. Em contrapartida posso fazer varandas abertas quantas quiser, e até estaria disposto a tolerar um jardim de inverno, se for todo envidraçado e não tiver mais de 15 metros quadrados. Assim, simples, em cinco minutos.
E estou desconfiada que não fazem isto para ser simpáticos, mas por ser normal.

16 julho 2007

cut & paste

Fez agora 70 anos que chegou a Buchenwald o primeiro grupo de prisioneiros.

O campo de concentração começou por se chamar Ettersberg, nome que foi rapidamente mudado devido aos protestos de uma sociedade literária de Weimar, lembrando que Ettersberg está muito ligado a Goethe e a páginas importantes da literatura alemã. Da sorte dos prisioneiros nada se dizia na carta de protesto.
Será um caso de vão-se os dedos mas fiquem os anéis.

Este ano, os discursos foram peremptórios: durante muito tempo pensámos que Buchenwald era um momento irrepetível da História, mas o movimento neonazi está a ganhar cada vez mais força. É fundamental proibir a NPD e lutar com decisão contra o renascer do fascismo.

(Exagero? Enquanto estes discursos estavam a ser proferidos, um grupo de neonazis apareceu numa praia do leste da Alemanha e começou a provocar alguns dos banhistas, sobretudo alemães retornados da Rússia. Largavam tiradas xenófobas, e dispararam tiros para o ar.)



Os sobreviventes parecem cada vez mais cansados e tristes - razão tinha o Jorge Semprun ao lembrar, há 2 anos, que daqui a uma década todos os sobreviventes estarão mortos. E que cabe a nós manter a memória.

Perguntaram a um deles o que sente quando visita Buchenwald. Respondeu que é difícil andar pelo campo de concentração porque se lembra dos muitos horrores que aqui passou, e nem tem palavras para os descrever. Disse que começa a duvidar de que tudo isso tenha acontecido.



Depois revelou a sua preocupação em relação ao renascimento da extrema-direita. Na Rússia, disse ele, já há muitos grupos que se reúnem para festejar o 20 de Abril, aniversário do Führer.

À saída, tivemos de abrandar o passo porque à nossa frente duas velhinhas caminhavam vagarosamente, de braço dado.
Alguém apontou para elas e revelou: a da direita veio para aqui de Auschwitz e Bergen-Belsen, a da esquerda veio de Theresienstadt.
Estranho assombro, quase vergonha, e querer falar com elas - mas dizer o quê?




O campo foi fechado pelos americanos em Abril de 1945. Oito anos, sessenta mil mortos.
Como a população de Weimar se fazia de novas, e que não, não tinha dado conta de nada, obrigaram os burgueses a subir à colina para enterrar os corpos.
Seis semanas mais tarde a Turíngia entrou no pacote que os russos receberam para abrir mão de parte de Berlim, e o campo foi reaberto pouco depois, para meter os "fascistas". Entre aspas, porque os processos eram muito aleatórios.
A população de Weimar continuou a não se dar conta do que ali se passava, até que, alguns anos mais tarde, Thomas Mann veio visitar a cidade e ousou perguntar o que estava a acontecer em Ettersberg. Fecharam o campo, e reabriram-no como museu - para lembrar o horror do tempo do fascismo...
Só depois da reunificação houve a coragem de lembrar que os russos fizeram nesse lugar o mesmo que os nazis.

"As pessoas morriam de medo de falar do campo russo", contou-me uma amiga. "Os avós contavam aos netos, muito em segredo. Mas os pais faziam questão de ignorar. Não se podia saber, era muito perigoso."

Aqui, há cinquenta, há vinte anos.

a Igreja Verde

Começo a acreditar que um mundo novo é possível, o lobo ao pé do cordeiro, etc.: este Verão, os Verdes andam em romaria pelas Igrejas, para falar sobre as nossas lógicas de consumo e o futuro do meio ambiente.
Organizam festas e debates no adro e no salão paroquial, mostram o documentário "We feed the world" (austríaco, feito há cerca de 3 anos - recomendo vivamente), sentam-se ao lado de teólogos para falar sobre a nossa responsabilidade perante a Criação.
Verdes, protestantes, católicos, público: e todos se entendem.

Por causa do documentário, que já conheço (na mesma semana vi esse e o "Uma Verdade Incómoda", foi um período quase tão difícil como quando andei a ler "Vaterland"), levei os miúdos à sessão. Estava lá uma turma do 9º ano com a sua professora de religião. Os deputados Verdes estavam todos contentes: para questionar os hábitos de consumo, é justamente este o público que querem atingir.

O debate começou com a apresentação de dois factos:
- Na Alemanha matam-se anualmente mil milhões de pintainhos machos, só porque galos não põem ovos.
- O pão que a cidade de Viena deita fora ao fim do dia é suficiente para alimentar Graz (a segunda cidade da Áustria).

O teólogo lembrou que, na cultura que escreveu o livro do Génesis, dar nome aos animais não significa propriedade, mas responsabilidade. Criticou duramente a lógica da produção industrial de animais, chamando a atenção para o valor intrínseco de um ser da Criação. Independentemente de pôr ovos ou não.

A deputada Verde apresentou uma comparação muito a propósito para o local. Até agora, dizia ela, havia dois tipos de atitude para proteger o meio ambiente - o protestante e o católico. O protestante prescinde: não consumo, pronto. O católico arranja bulas: anda de avião, mas paga voluntariamente uma taxa para o meio ambiente, para que alguém trate de equilibrar o excesso de emissão de CO2.
Ela sugeriu uma terceira possibilidade: cada um pensar melhor no que entende por "vida boa". Será que passa pela possibilidade de poder escolher entre 20 tipos diferentes de pão 10 minutos antes da loja fechar (que é o motivo porque em Viena há diariamente tanto excesso de pão)? Por ter acesso a morangos em Dezembro? Por várias férias anuais? Por um carro potente?

Por causa de uma parte do filme, especialmente chocante, onde se vêem os pintainhos em tapetes rolantes, a cair de uma banda para outra e a piar desesperados, e também por causa das carecadas monumentais que andam a fazer na Amazónia para plantar soja para as nossas galinhas industriais (nos últimos 30 anos destruíram a floresta de um território equivalente à França e a Portugal) o Matthias perguntou que tipo de frangos deve comprar, e onde. A resposta foi: bio, da região, a um preço justo. Já nos lixou uma semana de férias, que o Matthias nunca mais vai engolir carne sem certificado de garantia, e estes consumos responsáveis pagam-se caros.
Mas, como dizia a deputada com um brilhozinho quase perverso nos olhos, "também podemos consumir menos carne".

Depois do debate houve um buffet, e por lá ficámos em amena cavaqueira com o teólogo e os organizadores. A sala já estava quase vazia, as travessas enormes continuavam cheias de comida bio. Tratámos de dar um exemplo para Viena: os últimos participantes agarraram nos sacos, de plástico biodegradável, que os Verdes tinham trazido para distribuir os seus folhetos, e encheram-nos com comida. Passámos o fim-de-semana a roer cenouras, nabos, talos de funcho.

E depois, quando íamos embora, vimos um dos deputados dos Verdes a entrar num valente BMW com motorista e matrícula de Berlim. Preferia tê-lo visto a entrar num comboio ou num Prius.

Embora este BMW com um Verde dentro me dê algum alívio: em matéria de defesa do meio ambiente, cada um sabe de si, e faz o que pode.

11 julho 2007

futebol, para variar

Será que me dão um jobzinho como mascote do Benfica, nesta sua fase rosa?



(a fotografia está um bocado desfocada, mas asseguro que o bicho não é uma galinha recheada de hormonas, é mesmo uma águia)

10 julho 2007

a redenção vem de onde menos se espera

A minha filha comentou que uma amiga nossa não é muito boa mãe.
Quem diria!
Pois se ela até vai de carro levar e buscar a filha à escola...

Mas a Christina diz que não: não fazem as refeições juntos, e ela deixa os filhos demasiado tempo à frente da televisão e do computador.

Será a minha redenção de mãe desnaturada, ou síndroma de Estocolmo?

verão de Weimar

Adoro o verão de Weimar:
eu vou de férias para Portugal, e ele fica aqui a regar-me as plantas.

09 julho 2007

os franceses mais bonitos



Está na Neue National Galerie de Berlim uma exposição com peças do Metropolitan Museum of Art (de momento em obras) que dá pelo belo nome de "Os franceses mais bonitos vêm de Nova Iorque". Título muito mais apetitoso que "Met em Berlim" ou "Pintura francesa do século XIX", ora viva o marketing.

Franceses também os há em Berlim. Aliás, o primeiro museu a expor um Manet era berlinense.
Só foi azar o director (era suíço, às tantas isto é um elemento importante para o relato) desatar a comprar franceses quando se pretendia que ele apoiasse a arte alemã. Um incómodo. Acabou por ser afastado do cargo, e por ter de vender à pressa a última remessa chegada de França. Liebermann, um pintor abastado que encabeçava o grupo dos pintores não-alinhados (a Berliner Secession), comprou-lhe um Cézanne ("Os Pescadores, cena fantástica"). Mas, como Liebermann era judeu e Cézanne não era propriamente do agrado dos nazis, o quadro foi enviado para os EUA com a parte da família que escapou ao Holocausto, e foi assim que acabou no Met em NY. Voltou agora, para rever os cenários da sua juventude, estava com um ar contentinho.

Seja como for, em Berlim está uma exposição magnífica do Met. A Alte Nationalgalerie bem tentou misturar alguns dos seus quadros, lembrar ao público de Berlim que "nós também temos franceses", mas o pessoal do marketing do Met não é parvo. Que isto não é só cultura, isto é sobretudo publicidade.

Se me pedissem a opinião, quando acabasse esta exposição começava logo outra, no mesmo espaço talqualmente, com a mesma organização de épocas e tendências, para mostrar os franceses de Berlim. Chamar-lhe-ia "Ich bin ein Berliner!", ou algo do género. Mas não me pedem a opinião, é o azar deles, e em vez disso criam uma exposição paralela na Alte Nationalgalerie, com o inspiradíssimo nome "França na Alte Nationalgalerie". Wow.
A ver se lhes mando uma garrafita de vinho do Porto, talvez ajude à criatividade.

***

Fui lá com uma amiga. Apontámos para duas horas. Ao fim das duas horas ainda nem tínhamos chegado a meio da exposição. Ficámos mais uma. E mais outra. E com vontade de ficar o dia todo.

Na última sala tem um Modigliani. Jeanne Hébuterne, para variar. Ela está grávida, olha para nós, ou para o pintor, com aqueles olhos de um azul-turquesa indescritível. Pouco tempo depois de pintar este quadro, Modigliani morre de tuberculose. Jeanne, em fase avançada de gravidez, suicida-se.
A exposição conta esta e outras histórias. Mais ainda que mostrar os tais franceses bonitos, os belíssimos quadros, conta das vidas.

Também em inglês.

transportes públicos e outras emoções

Berlim em dia de dilúvio.
Enquanto faço horas para ir conhecer a portuguesa mais luminosa daquela capital, entro no comboio que dá a volta à cidade e vou olhando pela janela. Os telemóveis tocam, as pessoas atendem. Em turco, espanhol, italiano. Que diferença em relação a Weimar (onde, como dizia um miúdo francês, "são todos loiros")!

No metro, à hora de ponta, entra um homem de negócios pendurado no telemóvel. Fala muito alto, tem de tomar decisões urgentes. Pergunta "Consigo tenho esta segurança durante três dias?", e outro passageiro responde "Comigo, não..."
Despede-se: Tschüß!. Os outros passageiros também: Tschüüß! Tschüüüß! Tschüüüüß! Tschüß!
Gargalhada geral.
Acho que vou gostar desta cidade.

Apanho o comboio para Wannsee.
A carruagem está quase vazia. Sento-me a uma janela, espero.
Uma mulher cheia de energia entra, atira-se para um dos bancos, parece um terramoto. Olho para ela: sapatos de salto alto muito elegantes, bermudas e trench-coat, tudo ton sur ton. Penso na minha filha: vai adorar esta cidade.
O comboio começa a andar, o telemóvel da chiquérrima toca. Deve ser uma chamada de longa distância, porque se fosse de Berlim, com aquele vozeirão bastava-lhe abrir a janela e falar - metade da cidade ouviria facilmente.
Daí a pouco entram dois rapazes, talvez turcos. Um ouve música no seu MP3, o outro encosta o aparelho ao ouvido. Vamos rodando ao som de uma música oriental (não sei como definir, o Edward Said que não me ouça).
A energética chiquérrima levanta-se e dirige-se ao rapaz em tom autoritário e agressivo:
- Ponha os auscultadores!
- Não tenho auscultadores, responde ele calmamente.
- Então desligue isso!, grita ela.
O rapaz baixa o som, a energética volta para o seu lugar e comenta com a senhora da frente que isto é impossível, que é um abuso obrigar toda a gente a ouvir aquela música horrível, que isto e que aquilo.

Observo a cena, incrédula. Uma alemã disfarçada de senhora a ter comportamento de terrorista, e um jovem, talvez turco, extremamente educado e muito mais pacífico do que eu seria se estivesse na situação dele.
Já não há respeito pelos meus preconceitos?!

Fico com uma vontade enorme de dizer à mulher que estava a achar a música agradável, muito mais agradável que os urros dela ao telemóvel, e que ela não tinha nada que estragar os prazeres dos outros. Quero dizer ao rapaz - que entretanto já desligou o gravador - o quanto aprecio a educação e o civismo dele. Mas não digo nada. Preparo-me para sair, sorrio ao rapaz (espero que ele tenha percebido que era um sorriso tipo "oh pá, paciência, ele há malucas" e não tipo velha gaiteira com tendências pedófilas, "olá, bonitão!").

Saio para a chuva a pensar qual será a melhor maneira de intervir em situações de conflito como esta.
Penso numa história que me contaram há anos: num convento que organiza retiros e encontros de reflexão teológica, durante um almoço alguém começou a falar com o vizinho da frente sobre música clássica. O da frente não conhecia Brahms, e o especialista admirou-se de tal maneira que todo o refeitório ouviu: "O quêêêê?! Você não conhece Brahms? Mas como é possível?!"
Um silêncio incomodado na sala, o visado muito vermelho, o musicólogo perplexo.
Da outra ponta da mesa, uma voz agradável: "Estou a ver que o senhor sabe imenso sobre Brahms. Pode contar-nos algumas coisas sobre ele?"

Quem me dera saber fazer assim.

06 julho 2007

esprit d’escalier

Parece que vamos trocar estas escadas:




por estas:




Ou talvez não.

03 julho 2007

A propósito dos clamores que já se levantam perante o projecto de alterar a legislação laboral, perguntava Eduardo Pitta (http://daliteratura.blogspot.com/2007/06/sacco-vanzetti.html) quem é que trabalha hoje só oito horas por dia.

Aqui, neste país atrasado onde vivo, diria que há muita gente: ainda outro dia os trabalhadores da VW se fartaram de protestar por lhes aumentarem a carga horária semanal para 27 horas (sim, também pensei que tinha lido mal) e, na semana passada, os da Telecom aceitaram um aumento de 34 para 38 horas. Estavam muito desconsolados.

Tempos houve em que acreditávamos que o avanço tecnológico ia reverter a favor dos trabalhadores, na forma de redução dos horários. E os horários foram realmente reduzidos, permitindo um considerável aumento da qualidade de vida. Há vinte anos, quando comecei a conhecer melhor a Alemanha, surpreendeu-me uma sociedade com tempo para o lazer diário: rush hour às quatro da tarde, gente a quem sobrava diariamente tempo para um hobby, desporto, ler, brincar com os filhos.

Quando, recentemente, a turma da minha filha participou num programa de troca com uma escola francesa, as críticas que se ouviram denotavam claramente a diferença de modelos sociais: diziam os alunos alemães, de 12 e 13 anos, que os miúdos franceses passam o dia na escola, quase não têm tempo para brincar, em casa sentam-se em frente à televisão ou ao jogo de computador, e - cúmulo dos cúmulos! - a seguir ao jantar os pais não se sentam a jogar com os filhos.

Apesar dos sindicatos e da riqueza económica, também na Alemanha a situação está a mudar. Há quem trabalhe muito mais que 8 horas por dia, e com
contratos que não prevêem a recuperação das horas extraordinárias. Nos sectores que conheço melhor, o software (com enorme concorrência dos indianos) e a medicina, há cada vez mais descontentamento. Os médicos, com horários de trabalho absurdos, estão a abandonar o país ou o emprego no hospital/consultório. Aqui, na parte leste da Alemanha, há cada vez menos médicos e as distâncias para consultar um especialista estão a ficar cada vez mais longas (nada que os médicos ucranianos e búlgaros não possam remediar...).

Tudo indica que nos vamos despedir paulatinamente das grandes conquistas da classe operária.

Mas queremos realmente voltar ao tempo da revolução industrial?
Como será a nossa sociedade quando as pessoas não tiverem tempos de lazer, os pais não tiverem tempo para acompanhar os filhos?

É muito mais que uma questão de lei do trabalho.
É sobre a sociedade que queremos ser.