Esta é a semana em que, na escola dos meus filhos, se pode assistir às aulas.
Ontem estive na turma da Christina, para concluir que a falta de disciplina continua a ser um problema grave, e hoje passei a manhã com a turma do Matthias, para concluir que a falta de disciplina vai ser um problema monumental.
Sou uma precoce: ainda tão nova, e já com vontade de dizer "esta juventude!..."
E não estou só. Pelos comentários dos outros pais, fico com a sensação que um dia destes vão sugerir: "dê-lhes pancada, senhor professor, a ver se eles aprendem a aprender".
Eles não aprendem. Fazem tanto barulho, estão tão concentrados nas palhaçadas que fazem, que a aula não avança.
A professora de alemão, que é também professora de teatro, faz umas poses de diva que os acalmam por uns minutos.
A professora de biologia comentava com uma mãe "já tentei tudo, e até agora nada funcionou".
A professora de música passou a aula a interromper a canção que deviam aprender, para mandar um arrumar as chaves, mandar outro virar-se para a frente, mandar o terceiro cantar em vez de assobiar... (e hoje estava com sorte: um dos piores portou-se bem porque a mãe estava presente)
Note-se que estes miúdos são uma elite: os que conseguem entrar no "liceu", a via de ensino para os que têm melhores notas na escola primária. De fora já ficaram os estrangeiros com problemas de integração, ou que não dominam bem a língua, os alunos que não têm acompanhamento familiar adequado, os "pobres" cujos pais não conseguem dar o apoio necessário.
Uma das professoras da Christina resolveu o problema da disciplina com testes surpresa: se os alunos estão demasiado agitados, sai logo ali um teste. Ao fim de dois ou três testes surpresa, acabou-se a agitação.
Contaram-me que outra professora - directora de turma - pura e simplesmente cancelou a semana que a turma passaria num campo de férias. Disse-lhes que não a tinham merecido. E sei também de professores noutros liceus que dão um ritmo tal às aulas, que os alunos nem têm tempo para respirar, quanto mais para escrever bilhetinhos.
Quando falamos disto nas "tertúlias de pais" - reuniões mensais, um serão num café - a directora de turma tenta deitar água na fervura e apresenta argumentos para rejeitar estas propostas de "ponha-os com dono, senhora professora, bata-lhes se for preciso!".
Agrada-me que elas se passem assim para o lado dos meus filhos, mas desagrada-me que, no caso da turma da Christina, miúdos de 12 e 13 anos ainda não tenham percebido que a escola significa trabalho sério e não ocupação de tempos livres. E que a turma do Matthias vá exactamente pelo mesmo caminho.
Pergunto-me o que aconteceu na educação destas crianças, que não têm o menor respeito pelo professor.
***
Na semana passada houve de novo uma tragédia numa escola alemã: um antigo aluno, que durante o tempo de escolaridade fora acumulando humilhações e fracassos, entrou na escola armado como um rambo, e disposto a matar segundo uma lista que tinha preparado cuidadosamente.
E lá veio de novo a discussão sobre a necessidade de tornar a escola um lugar aprazível onde as crianças se possam desenvolver sem medo nem angústias.
Em suma: entre o oito e o oitenta, vamos andando no gume da navalha.
***
(Bastante a despropósito:)
Na aula de biologia, a professora perguntou o nome de alguns peixes de água salgada que fazem parte da alimentação humana.
O problema é que o mar fica a 600 km de Weimar, a rede de distribuição de peixe não tem nada a ver com a francesa, e estes miúdos, de peixe, só conhecem a versão alemã dos douradinhos da iglo. De modo que o único que levantou o braço foi o Matthias, depois de me lançar um olhar vitorioso, para responder: bacalhau!
Curiosamente, na aula da Christina a que assisti há 2 anos, a professora de biologia fez a mesma pergunta, e a Christina deu a mesma resposta. De tão orgulhosa, até se engasgou, e disse o nome em português.
Mais que um fiel amigo, o bacalhau é a nossa glória das aulas de biologia!
30 novembro 2006
29 novembro 2006
o meu teclado tem uma paciência...
Um amigo meu descobriu uma maneira de transformar o silício num supracondutor. Ainda não é facilmente aplicável à indústria, mas de momento anda toda a gente a falar disso (enfim, toda a gente que sabe para que é que isso serve).
No Natal, vou-lhe oferecer uma gravata para ele depois usar em Estocolmo. Nunca se sabe, e o melhor é estar prevenido.
O problema é a cor.
O Schröder usava muitas vezes gravatas vermelhas. É um tom que dá jeito para intimidar os adversários políticos, sobretudo quando se é mais baixo que a média. Só que, com aquele cromatismo crónico, uma pessoa acabava a pensar "caramba, melhor seria arranjares um psicólogo que te resolva os complexos".
A Angela Merkel andava sempre de fato cinzento ou preto. Nem sei como ganhou as eleições (acho que nem ela sabe), mas no entretanto começou a ousar outras cores. Até já foi vista de fato vermelho, convenhamos que é bem mais ousado que uma simples gravata - será que está a ter problemas de afirmação ainda maiores que o Schröder?
Por seu lado, parece que Marta Suplicy, a antiga prefeita de São Paulo, revelou que o segredo do sucesso é usar roupa interior vermelha.
Alguém deve ter traduzido este segredo para americano, porque uma vez um chefe daqueles best-of-the-best da UCSF rompeu as calças e os estagiários todos viram que tinha boxer-shorts de seda - vermelhos, pois.
E o homem sonae - lembram-se?, o homem de sucesso dos anos 80 - será que usava boxer-shorts vermelhos?
O que me lembra aquele truque para uma pessoa não se deixar atrapalhar em situações de assimetria de poder: imagina o adversário, esse Golias, em cuecas.
Mas, ora bem, lá se vai o respeito todo se nas reuniões de trabalho - isto sou eu a delirar - o pessoal começa a tergiversar por pensamentos assim. Pobre país.
Já me estou outra vez a perder.
A questão é: qual é a melhor cor para a gravata que se leva a Estocolmo?
E: se ele não receber convite da Academia, será por culpa do pessoal que escreve a cartinha de recomendação, que não terá usado roupa interior vermelha, esse elemento fundamental de sucesso?
O meu teclado tem cá uma paciência...
No Natal, vou-lhe oferecer uma gravata para ele depois usar em Estocolmo. Nunca se sabe, e o melhor é estar prevenido.
O problema é a cor.
O Schröder usava muitas vezes gravatas vermelhas. É um tom que dá jeito para intimidar os adversários políticos, sobretudo quando se é mais baixo que a média. Só que, com aquele cromatismo crónico, uma pessoa acabava a pensar "caramba, melhor seria arranjares um psicólogo que te resolva os complexos".
A Angela Merkel andava sempre de fato cinzento ou preto. Nem sei como ganhou as eleições (acho que nem ela sabe), mas no entretanto começou a ousar outras cores. Até já foi vista de fato vermelho, convenhamos que é bem mais ousado que uma simples gravata - será que está a ter problemas de afirmação ainda maiores que o Schröder?
Por seu lado, parece que Marta Suplicy, a antiga prefeita de São Paulo, revelou que o segredo do sucesso é usar roupa interior vermelha.
Alguém deve ter traduzido este segredo para americano, porque uma vez um chefe daqueles best-of-the-best da UCSF rompeu as calças e os estagiários todos viram que tinha boxer-shorts de seda - vermelhos, pois.
E o homem sonae - lembram-se?, o homem de sucesso dos anos 80 - será que usava boxer-shorts vermelhos?
O que me lembra aquele truque para uma pessoa não se deixar atrapalhar em situações de assimetria de poder: imagina o adversário, esse Golias, em cuecas.
Mas, ora bem, lá se vai o respeito todo se nas reuniões de trabalho - isto sou eu a delirar - o pessoal começa a tergiversar por pensamentos assim. Pobre país.
Já me estou outra vez a perder.
A questão é: qual é a melhor cor para a gravata que se leva a Estocolmo?
E: se ele não receber convite da Academia, será por culpa do pessoal que escreve a cartinha de recomendação, que não terá usado roupa interior vermelha, esse elemento fundamental de sucesso?
O meu teclado tem cá uma paciência...
28 novembro 2006
vêem como o Papa tem toda a razão?
...para que conste que usar preservativos só para ter prazer dá origem a muitos males.
Ah, já me ia esquecendo do contraditório:
E como não há dois sem três, e este - que já andou há algum tempo pela internet - está pra lá do lado de baixo do equador, onde, como é sabido, não existe pecado...
27 novembro 2006
quase parábola
Os pais da turma do Matthias
(pais da turma é aqui uma espécie de instituição sem a qual as escolas não sobrevivem...)
decidiram que na festinha de Natal todos os pais vão dar o mesmo presente (um bilhete para o cinema - por favor não contem a ninguém, que é surpresa) mas embrulhado de maneiras diferentes, pacotes grandes ou pequenos, feios ou lindíssimos.
Os presentes vão ser sorteados com a ajuda de um jogo de dados: sai o 1 podes tirar trocar o teu presente com outro qualquer, sai o 2 todos passam o presente para a pessoa à esquerda, sai o 3 a pessoa à direita troca o presente contigo, etc.
Vamos ver os miúdos todos aplicados a tentar ficar com o melhor presente em circulação.
Depois abrem os pacotes, e...
...até consigo ouvir o assobio do balão a perder o ar de repente.
Ffffffffffuuuuuuuuuiiiiiiiiiii.
Dava uma parábola.
(pais da turma é aqui uma espécie de instituição sem a qual as escolas não sobrevivem...)
decidiram que na festinha de Natal todos os pais vão dar o mesmo presente (um bilhete para o cinema - por favor não contem a ninguém, que é surpresa) mas embrulhado de maneiras diferentes, pacotes grandes ou pequenos, feios ou lindíssimos.
Os presentes vão ser sorteados com a ajuda de um jogo de dados: sai o 1 podes tirar trocar o teu presente com outro qualquer, sai o 2 todos passam o presente para a pessoa à esquerda, sai o 3 a pessoa à direita troca o presente contigo, etc.
Vamos ver os miúdos todos aplicados a tentar ficar com o melhor presente em circulação.
Depois abrem os pacotes, e...
...até consigo ouvir o assobio do balão a perder o ar de repente.
Ffffffffffuuuuuuuuuiiiiiiiiiii.
Dava uma parábola.
26 novembro 2006
Mário Cesariny (1923 - 2006)
24 novembro 2006
mortinha por chegar a 2007
Sim: estou mortinha por chegar a 2007 porque comprei um calendário lunar formidável que me vai organizar a vida toda.
A ideia é que as fases da lua influenciam a nossa vida, e devemos estar atentos ao momento propício para cada actividade.
Em 2007 será assim:
01.01: Arejar a casa.
02.01: Arejar a casa.
03.01: Adubar.
04:01: Regar as plantas de interior. Adubar as flores. Lavar a roupa.
05.01: Cortar o cabelo. Limpar as janelas. Podar as árvores de fruta.
06.01: Cortar o cabelo. Limpar as janelas. Podar as árvores de fruta.
07.01: Cortar o cabelo. Limpar as janelas. Podar as árvores de fruta.
08.01: Cortar o cabelo. Fazer uma permanente. Mudar a terra dos vasos.
etc.
No dia 18 de Janeiro posso cortar as unhas (bem preciso será!) e tratar da pele, e no dia 6 de Março limpo a casa.
A 22 de Março devo plantar sebes e árvores, e espero até 30 de Março para plantar a relva.
Li com toda a atenção: de 1 de Janeiro até 6 de Março só me mandam arejar a casa, mas não mandam limpar.
Hehehe, tenho uma desculpa formidável - que com as fases da lua não se brinca, já diziam os antigos.
Caso alguém esteja a ficar com vontade de ter inveja: pois não seja por isso.
Aqui vai de presentinho um calendário lunar em inglês.
Se moram em Portugal não se esqueçam de mudar o fuso horário (Time Zone: GMT), e pronto. Ficam a saber quando devem adubar os campos, fazer bolos e biscoitos, cortar as unhas e acabar com um mau hábito (fui ver: 20.12 e 18.01).
(O problema é saber o que é um mau hábito, visto da lua)
***
Voltando à terra: para os amigos que começam a ver 2007 chegar sem sinais do habitual calendário familiar, estão abertas as inscrições até 28.11.06. Quem quer este lindo calendário, com colunas para cada membro da família?
Respostas na caixa de comentários, ou via e-mail.

A ideia é que as fases da lua influenciam a nossa vida, e devemos estar atentos ao momento propício para cada actividade.
Em 2007 será assim:
01.01: Arejar a casa.
02.01: Arejar a casa.
03.01: Adubar.
04:01: Regar as plantas de interior. Adubar as flores. Lavar a roupa.
05.01: Cortar o cabelo. Limpar as janelas. Podar as árvores de fruta.
06.01: Cortar o cabelo. Limpar as janelas. Podar as árvores de fruta.
07.01: Cortar o cabelo. Limpar as janelas. Podar as árvores de fruta.
08.01: Cortar o cabelo. Fazer uma permanente. Mudar a terra dos vasos.
etc.
No dia 18 de Janeiro posso cortar as unhas (bem preciso será!) e tratar da pele, e no dia 6 de Março limpo a casa.
A 22 de Março devo plantar sebes e árvores, e espero até 30 de Março para plantar a relva.
Li com toda a atenção: de 1 de Janeiro até 6 de Março só me mandam arejar a casa, mas não mandam limpar.
Hehehe, tenho uma desculpa formidável - que com as fases da lua não se brinca, já diziam os antigos.
Caso alguém esteja a ficar com vontade de ter inveja: pois não seja por isso.
Aqui vai de presentinho um calendário lunar em inglês.
Se moram em Portugal não se esqueçam de mudar o fuso horário (Time Zone: GMT), e pronto. Ficam a saber quando devem adubar os campos, fazer bolos e biscoitos, cortar as unhas e acabar com um mau hábito (fui ver: 20.12 e 18.01).
(O problema é saber o que é um mau hábito, visto da lua)
***
Voltando à terra: para os amigos que começam a ver 2007 chegar sem sinais do habitual calendário familiar, estão abertas as inscrições até 28.11.06. Quem quer este lindo calendário, com colunas para cada membro da família?
Respostas na caixa de comentários, ou via e-mail.

20 novembro 2006
The Immigration Debate
Receita para a Helena:
Inscreve-te no YouTube.
Adiciona o Blog à conta que o YouTube te oferece, seguindo as instruções que te são dadas.
Escolhe o filme e...
Post!
Vês? É fácil!
Aproveito para tentar dissuadir-te do projecto de emigrar para a terra dos Índios e do Touro Zangado.
eh... eh... eh...
Receita para a Helena:
Inscreve-te no YouTube.
Adiciona o Blog à conta que o YouTube te oferece, seguindo as instruções que te são dadas.
Escolhe o filme e...
Post!
Vês? É fácil!
Aproveito para tentar dissuadir-te do projecto de emigrar para a terra dos Índios e do Touro Zangado.
eh... eh... eh...
aventuras internéticas
...como é que se faz para pôr aqui a janela do youtube?
Enquanto não descubro (isto é um eufemismo para dizer: enquanto a Céu não me ensina) aqui vai, à unha:
a palavrinha com S, e que eu não escrevo por extenso para ao site meter não lhe dar um fanico
***
A propósito: uma conhecida minha andava à procura de companheiro por anúncio. Escreveram vários, ela combinou encontro com o que lhe pareceu mais interessante - e saiu-lhe um colega de trabalho, com quem ela se cruzava no corredor várias vezes por dia.
Foi um encontro muito curto.
Enquanto não descubro (isto é um eufemismo para dizer: enquanto a Céu não me ensina) aqui vai, à unha:
a palavrinha com S, e que eu não escrevo por extenso para ao site meter não lhe dar um fanico
***
A propósito: uma conhecida minha andava à procura de companheiro por anúncio. Escreveram vários, ela combinou encontro com o que lhe pareceu mais interessante - e saiu-lhe um colega de trabalho, com quem ela se cruzava no corredor várias vezes por dia.
Foi um encontro muito curto.
11.11 - 11h11m11s
Às 11 horas, 11 minutos e 11 segundos do dia 11 de novembro começa o carnaval em Colónia.
Calhou de nesse dia estarmos lá e querermos ir visitar a catedral (consta que se encontram lá sepultados os 3 reis magos, e nós, que somos como S. Tomé...).
Para quem não sabe, fica o aviso: é o pior dia para tentar chegar à catedral, porque é preciso abrir caminho por entre milhares de palhaços, cowboys, fauna diversa, gangsters, coelhinhas playboy e muitos outros - alguns deles a cambalear de bebedeira ainda antes do meio-dia. Tudo animado por grupos de samba, bandas e realejos.
Depois de muitos encontrões e gincanas para evitar os cacos das garrafas de cerveja, conseguimos entrar na famosa Kölner Dom.
Estava apinhada de diabos, todos com ar muito pio e recolhido.
Não sei se tire conclusões.
***
Ao avançar pelas ruas do centro, ia soltando exclamações "ah!" e "oh, que bonito!" e "quem me dera que houvesse lojas assim em Weimar" - até que me apercebi que estava a falar demasiado alto e a fazer figura de provinciana.
Até que me apercebi que estava a fazer figura do que sou...
***
De momento este blogue anda com um ritmo muito lento. O problema é que eu não sou como o Garcia Marquez, que consegue viver para contar. Sou mais das duas uma: ou a vivo, ou a conto.
Calhou de nesse dia estarmos lá e querermos ir visitar a catedral (consta que se encontram lá sepultados os 3 reis magos, e nós, que somos como S. Tomé...).
Para quem não sabe, fica o aviso: é o pior dia para tentar chegar à catedral, porque é preciso abrir caminho por entre milhares de palhaços, cowboys, fauna diversa, gangsters, coelhinhas playboy e muitos outros - alguns deles a cambalear de bebedeira ainda antes do meio-dia. Tudo animado por grupos de samba, bandas e realejos.
Depois de muitos encontrões e gincanas para evitar os cacos das garrafas de cerveja, conseguimos entrar na famosa Kölner Dom.
Estava apinhada de diabos, todos com ar muito pio e recolhido.
Não sei se tire conclusões.
***
Ao avançar pelas ruas do centro, ia soltando exclamações "ah!" e "oh, que bonito!" e "quem me dera que houvesse lojas assim em Weimar" - até que me apercebi que estava a falar demasiado alto e a fazer figura de provinciana.
Até que me apercebi que estava a fazer figura do que sou...
***
De momento este blogue anda com um ritmo muito lento. O problema é que eu não sou como o Garcia Marquez, que consegue viver para contar. Sou mais das duas uma: ou a vivo, ou a conto.
15 novembro 2006
quimeras e miragens
A propósito da notícia de que cientistas ingleses querem cruzar células humanas com células de vaca (em espanhol aqui), recomeçou na Alemanha a discussão sobre as "quimeras" (criaturas com partes de animais e partes humanas).
Pessoalmente, considero positivas as muitas reacções que são instintivamente contra - de tanto racionalizar e relativizar, parece que estamos a perder, passe a ironia, o nosso lado animal.
Por este andar, a Antropologia que se cuide e trate de reajustar a sua matriz epistemológica à da Zoologia.
(E porque não? Afinal de contas, se compararmos o que se gasta na Europa em produtos para animais domésticos, e o montante entregue para o combate à fome, ou se virmos alguns cães e gatos tratados como se fossem o filho mais novo da família, ou se virmos certos anúncios de comida para gatos, ficamos com dúvidas sobre as diferenças entre uns e outros...)
Os gregos diziam que quando os deuses se querem rir dos homens realizam os seus desejos.
Que deus se estará a rir perdidamente, quando oferecem a mulheres inglesas que sofrem de esterilidade a possibilidade de fecundação artificial em troca da doação de alguns dos seus óvulos para esta experiência? Sim, que a extracção dos óvulos é uma operação complicada e dolorosa, e como não havia muitas mulheres dispostas a participar no avanço da ciência, foi necessário encontrar uma solução criativa.
E sai mais um cartoon: o capitalista de bata branca.
Querer fazer a experiência de maternidade/paternidade ou querer ser saudável são desejos normais.
Mas a nossa sociedade deve realmente pagar qualquer preço por isso?
Parece-me que nos alienamos cada vez mais em nome da realização dos nossos desejos.
No fim, teremos tudo - e seremos escravos.
***
Olha, meu filho, vês ali aquela vaquinha de olhos azuis? É uma meia-irmã tua.
Pessoalmente, considero positivas as muitas reacções que são instintivamente contra - de tanto racionalizar e relativizar, parece que estamos a perder, passe a ironia, o nosso lado animal.
Por este andar, a Antropologia que se cuide e trate de reajustar a sua matriz epistemológica à da Zoologia.
(E porque não? Afinal de contas, se compararmos o que se gasta na Europa em produtos para animais domésticos, e o montante entregue para o combate à fome, ou se virmos alguns cães e gatos tratados como se fossem o filho mais novo da família, ou se virmos certos anúncios de comida para gatos, ficamos com dúvidas sobre as diferenças entre uns e outros...)
Os gregos diziam que quando os deuses se querem rir dos homens realizam os seus desejos.
Que deus se estará a rir perdidamente, quando oferecem a mulheres inglesas que sofrem de esterilidade a possibilidade de fecundação artificial em troca da doação de alguns dos seus óvulos para esta experiência? Sim, que a extracção dos óvulos é uma operação complicada e dolorosa, e como não havia muitas mulheres dispostas a participar no avanço da ciência, foi necessário encontrar uma solução criativa.
E sai mais um cartoon: o capitalista de bata branca.
Querer fazer a experiência de maternidade/paternidade ou querer ser saudável são desejos normais.
Mas a nossa sociedade deve realmente pagar qualquer preço por isso?
Parece-me que nos alienamos cada vez mais em nome da realização dos nossos desejos.
No fim, teremos tudo - e seremos escravos.
***
Olha, meu filho, vês ali aquela vaquinha de olhos azuis? É uma meia-irmã tua.
14 novembro 2006
E parto dentro de momentos...
...apesar de haver momentos em que dentro a dor não parte sem dor...
No nosso quinto ano em Weimar, começa a ficar cada vez mais claro que um dia destes vamos à vida para outras bandas.
Não é que me dê muito jeito - com os miúdos satisfeitos na sua vida escolar, e justamente agora que o destino nos emprestou uma casa fabulosa - mas Deus põe e o mercado de trabalho diz poing.
Aviso aos amigos que queiram conhecer Weimar:
até ao fim deste ano lectivo ainda garanto quarto de visitas com esta paisagem.
A partir de Agosto, logo se verá que vistas temos para oferecer:
Austrália? USA (agora já se pode outra vez, hehehe)? Suíça? Áustria? Dinamarca? França?
...Ou até: Alemanha.


E sobre a vista, adianto que o que se vê ao fundo da rua é o centro histórico de Weimar - o palácio ducal, a igreja de Herder, o casario por onde andaram os who's who da cultura clássica alemã. Do lado direito, quase ao cimo da encosta, vê-se uma torre que foi construída pelos russos para lembrar as vítimas de Buchenwald (o que chega a ser divertido, tendo em conta que os americanos fecharam o campo e os russos o reabriram logo a seguir, com nova gerência e outros inimigos da nação, mas serviço inalterado). O campo de concentração fica do lado de lá do cume. Quem quiser fazer umas reflexões instantâneas sobre miséria e grandeza do género humano, venha cá passar umas horitas a esta janela.
***
E parto dentro de momentos, é verdade, e já estou com saudades disto.
Até pareço os estudantes de Coimbra a piangear na hora da despedida...

No nosso quinto ano em Weimar, começa a ficar cada vez mais claro que um dia destes vamos à vida para outras bandas.
Não é que me dê muito jeito - com os miúdos satisfeitos na sua vida escolar, e justamente agora que o destino nos emprestou uma casa fabulosa - mas Deus põe e o mercado de trabalho diz poing.
Aviso aos amigos que queiram conhecer Weimar:
até ao fim deste ano lectivo ainda garanto quarto de visitas com esta paisagem.
A partir de Agosto, logo se verá que vistas temos para oferecer:
Austrália? USA (agora já se pode outra vez, hehehe)? Suíça? Áustria? Dinamarca? França?
...Ou até: Alemanha.


E sobre a vista, adianto que o que se vê ao fundo da rua é o centro histórico de Weimar - o palácio ducal, a igreja de Herder, o casario por onde andaram os who's who da cultura clássica alemã. Do lado direito, quase ao cimo da encosta, vê-se uma torre que foi construída pelos russos para lembrar as vítimas de Buchenwald (o que chega a ser divertido, tendo em conta que os americanos fecharam o campo e os russos o reabriram logo a seguir, com nova gerência e outros inimigos da nação, mas serviço inalterado). O campo de concentração fica do lado de lá do cume. Quem quiser fazer umas reflexões instantâneas sobre miséria e grandeza do género humano, venha cá passar umas horitas a esta janela.
***
E parto dentro de momentos, é verdade, e já estou com saudades disto.
Até pareço os estudantes de Coimbra a piangear na hora da despedida...

06 novembro 2006
Desiderata
Caminha placidamente por entre o ruído e a pressa, e lembra-te da paz que existe no silêncio.
Tenta, na medida do possível, estar de bem com todos.
Exprime a tua verdade com tranquilidade e clareza.
Escuta quem te rodeia, inclusive as pessoas desinteressantes e incultas; também elas têm uma história para contar.
Evita gente conflituosa e agressiva, que tanto mal faz ao espírito.
Se te comparares com outros, poderás tornar-te amargo ou arrogante, pois haverá sempre alguém melhor e pior do que tu.
Regozija-te com as tuas conquistas e os teus projectos.
Mantém vivo o interesse pela tua carreira, por mais humilde que seja; é um verdadeiro bem, nesta época de constante mudança.
Sê prudente nos teus negócios – o mundo está cheio de armadilhas.
Mas não feches os teus olhos à virtude que existe em teu redor, nem às pessoas que defendem os seus ideais e lutam por valores mais altos – a vida está cheia de heroísmo.
Sê tu próprio. Acima de tudo não sejas falso nem cínico em relação ao amor, que face a tanta aridez e desencanto, se mantém perene como uma haste de erva.
Aceita com serenidade a passagem do tempo, sabendo que deixas graciosamente para trás as coisas da juventude.
Cultiva a força de espírito, para te protegeres de azares inesperados.
Mas não te atormentes a imaginar o pior. Muitos medos nascem do cansaço e da solidão.
Mantém uma autodisciplina saudável, mas sê benevolente contigo mesmo.
És um filho do Universo, como as árvores e as estrelas; tens todo o direito ao teu lugar no mundo.
Poderá não ser claro para ti, mas a verdade é que o universo está a evoluir como previsto.
É importante, assim, que estejas em paz com Deus, seja qual for a tua concepção d’ Ele, e em paz com a tua alma, sejam quais forem os teus anseios e aspirações no ruidoso tumulto da vida.
Apesar de todos os enganos e desilusões, vivemos num mundo bonito. Alegra-te.
Luta pela tua felicidade.
Max Ehrmann
tradução encontrada aqui
Tenta, na medida do possível, estar de bem com todos.
Exprime a tua verdade com tranquilidade e clareza.
Escuta quem te rodeia, inclusive as pessoas desinteressantes e incultas; também elas têm uma história para contar.
Evita gente conflituosa e agressiva, que tanto mal faz ao espírito.
Se te comparares com outros, poderás tornar-te amargo ou arrogante, pois haverá sempre alguém melhor e pior do que tu.
Regozija-te com as tuas conquistas e os teus projectos.
Mantém vivo o interesse pela tua carreira, por mais humilde que seja; é um verdadeiro bem, nesta época de constante mudança.
Sê prudente nos teus negócios – o mundo está cheio de armadilhas.
Mas não feches os teus olhos à virtude que existe em teu redor, nem às pessoas que defendem os seus ideais e lutam por valores mais altos – a vida está cheia de heroísmo.
Sê tu próprio. Acima de tudo não sejas falso nem cínico em relação ao amor, que face a tanta aridez e desencanto, se mantém perene como uma haste de erva.
Aceita com serenidade a passagem do tempo, sabendo que deixas graciosamente para trás as coisas da juventude.
Cultiva a força de espírito, para te protegeres de azares inesperados.
Mas não te atormentes a imaginar o pior. Muitos medos nascem do cansaço e da solidão.
Mantém uma autodisciplina saudável, mas sê benevolente contigo mesmo.
És um filho do Universo, como as árvores e as estrelas; tens todo o direito ao teu lugar no mundo.
Poderá não ser claro para ti, mas a verdade é que o universo está a evoluir como previsto.
É importante, assim, que estejas em paz com Deus, seja qual for a tua concepção d’ Ele, e em paz com a tua alma, sejam quais forem os teus anseios e aspirações no ruidoso tumulto da vida.
Apesar de todos os enganos e desilusões, vivemos num mundo bonito. Alegra-te.
Luta pela tua felicidade.
Max Ehrmann
tradução encontrada aqui
05 novembro 2006
neste preciso momento...
...estão a dissecar o Schröder, com ele vivo a espernear quanto pode, no programa Sabine Christiansen (ARD).
De um lado o ex-chanceler (como é que ele aceitou participar nisto?!) e do outro representantes de vários segmentos da sociedade alemã (partidos, empresários, etc.), que o vão acusando e aproveitam para lavar aquelas roupinhas que andavam há muito atravessadas.
Tenho pena do Schröder: é um jogo muito desigual.
Mas fico contente pela Democracia: responsabilização.
De um lado o ex-chanceler (como é que ele aceitou participar nisto?!) e do outro representantes de vários segmentos da sociedade alemã (partidos, empresários, etc.), que o vão acusando e aproveitam para lavar aquelas roupinhas que andavam há muito atravessadas.
Tenho pena do Schröder: é um jogo muito desigual.
Mas fico contente pela Democracia: responsabilização.
02 novembro 2006
olho por olho
Um jornal dinamarquês encomendou caricaturas que representassem Maomé, para mostrar aos muçulmanos que cá do nosso lado há liberdade de expressão e nós não temos medo deles. Convém não esquecer que o episódio se insere numa deriva populista dinamarquesa, e no velho truque de arranjar um bode expiatório (no caso, os muçulmanos que lá residem) para ganhar eleições.
Seguiu-se um braço de ferro entre representantes das duas posições (de um lado os ofendidos, e do outro os ofendedores e os nós-não-temos-nada-a-ver-com-isso), que acabou com inúmeras cenas de violência desenfreada (e muito manipulada) e alguns mortos.
A expressão "depois das caricaturas" já entrou no nosso léxico como um novo marco nas relações entre o Ocidente e o Islão.
Entretanto, o Irão arranja um espelho para o Ocidente: pergunta-nos "como é essa história da liberdade de expressão?" e encomenda caricaturas sobre o Holocausto. Olho por olho, ladrão que rouba ladrão...
Já foi decidido quem são os vencedores. Os cartoons já andam na internet.
Participaram também cartoonistas ocidentais: franceses, brasileiros, etc.
Risota geral do lado iraniano: é que alguns dos cartoonistas ocidentais têm de manter o anonimato, porque temem pena de prisão.
E os jornais ocidentais: será que vão publicar os cartoons?
Há dois elementos que me assustam muito nestas histórias:
- nos dois lados, o diálogo entre as culturas está a baixar para o nível da sarjeta;
- nos dois lados, escolhem-se bodes expiatórios (os muçulmanos, os judeus) para agitar as sociedades e conseguir vantagens políticas.
E um elemento que me satisfaz: a qualidade do cartoon que ganhou o prémio.
(Confesso que estava à espera de muito pior)


Pode ter duas leituras, mas nenhuma delas demonstra anti-semitismo primário, ou põe em causa o Holocausto. Quando muito, relativiza-o pela comparação com outras situações.
O meu lema é: há vida inteligente do lado de lá.
(Desculpem, eu sei: é uma Lapalissade. Mas nestes tempos de guerra ao terror temos andado um bocado alheados disso.)
***
Queria ainda lembrar que quando o Ocidente protestou contra a aplicação da Sharia, que obrigava à lapidação de uma mulher, não houve bandeiras queimadas, nem embaixadas atacadas, nem mortos. E até a "adúltera" se salvou.
Mas hoje, "depois das caricaturas", será que o Ocidente tem o mesmo poder de persuasão e capacidade apelativa?
Seguiu-se um braço de ferro entre representantes das duas posições (de um lado os ofendidos, e do outro os ofendedores e os nós-não-temos-nada-a-ver-com-isso), que acabou com inúmeras cenas de violência desenfreada (e muito manipulada) e alguns mortos.
A expressão "depois das caricaturas" já entrou no nosso léxico como um novo marco nas relações entre o Ocidente e o Islão.
Entretanto, o Irão arranja um espelho para o Ocidente: pergunta-nos "como é essa história da liberdade de expressão?" e encomenda caricaturas sobre o Holocausto. Olho por olho, ladrão que rouba ladrão...
Já foi decidido quem são os vencedores. Os cartoons já andam na internet.
Participaram também cartoonistas ocidentais: franceses, brasileiros, etc.
Risota geral do lado iraniano: é que alguns dos cartoonistas ocidentais têm de manter o anonimato, porque temem pena de prisão.
E os jornais ocidentais: será que vão publicar os cartoons?
Há dois elementos que me assustam muito nestas histórias:
- nos dois lados, o diálogo entre as culturas está a baixar para o nível da sarjeta;
- nos dois lados, escolhem-se bodes expiatórios (os muçulmanos, os judeus) para agitar as sociedades e conseguir vantagens políticas.
E um elemento que me satisfaz: a qualidade do cartoon que ganhou o prémio.
(Confesso que estava à espera de muito pior)


Pode ter duas leituras, mas nenhuma delas demonstra anti-semitismo primário, ou põe em causa o Holocausto. Quando muito, relativiza-o pela comparação com outras situações.
O meu lema é: há vida inteligente do lado de lá.
(Desculpem, eu sei: é uma Lapalissade. Mas nestes tempos de guerra ao terror temos andado um bocado alheados disso.)
***
Queria ainda lembrar que quando o Ocidente protestou contra a aplicação da Sharia, que obrigava à lapidação de uma mulher, não houve bandeiras queimadas, nem embaixadas atacadas, nem mortos. E até a "adúltera" se salvou.
Mas hoje, "depois das caricaturas", será que o Ocidente tem o mesmo poder de persuasão e capacidade apelativa?
« Justice pour Anna Politkovskaïa »
Nous exigeons la création d’une commission d’enquête internationale pour établir la vérité sur l’assassinat d’Anna Politkovskaïa, le 7 octobre 2006 à Moscou. Nous demandons que la justice soit rendue dans la plus grande transparence et que l’impunité des assassins de journalistes cesse enfin.
Texto da organização Reporters sans Frontières.
Quem quiser participar no abaixo-assinado, pode fazê-lo aqui.
Também pode ler na mesma página mais algumas informações.
Por exemplo: desde que Putin chegou ao poder, em Março de 2000, já foram assassinados 21 jornalistas. A maior parte desses crimes está ainda por esclarecer.
Texto da organização Reporters sans Frontières.
Quem quiser participar no abaixo-assinado, pode fazê-lo aqui.
Também pode ler na mesma página mais algumas informações.
Por exemplo: desde que Putin chegou ao poder, em Março de 2000, já foram assassinados 21 jornalistas. A maior parte desses crimes está ainda por esclarecer.
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