O religionline abriu um debate, partindo de uma crítica ao discurso de Bento XVI em Auschwitz.
Embora o post seja antigo, parece-me que vale a pena retomar o assunto, para reflectirmos o nosso tempo.
Um dos pontos da crítica citada, de Daniel Jonah Goldhagen, diz o seguinte:
Benedicto exoneró injustamente a los alemanes de su responsabilidad en el Holocausto y atribuyó la culpa exclusivamente a "una banda de criminales" que "usaron y abusaron" del pueblo alemán, engañado y presionado, como "instrumento" de destrucción. Lo cierto es que los alemanes, en general, apoyaron la persecución de los judíos, y muchos de los cientos de miles que la llevaron a cabo eran ciudadanos corrientes que actuaban de buen grado. No se puede atribuir la culpa del Holocausto, por completo o incluso principalmente, a una "banda criminal". Ningún especialista alemán, ningún político alemán, se atrevería hoy a proponer el relato mitológico que hace Benedicto XVI del pasado.
Confesso que não me preocupa decidir se Bento XVI faz uma leitura correcta do que aconteceu há 60 anos.
Interessa-me muito mais realçar que, neste momento em que a História se está a repetir - com variações de dimensão e horror, mas igual nos princípios que são postos em causa -, o que dissermos sobre a responsabilidade dos alemães no Holocausto pode ser usado contra nós.
Concretamente:
- Há mais de quatro anos que conhecemos fotos de pessoas enfiadas em fatos laranja, guardadas em jaulas sob o sol de Cuba. Sabemos que Guantanamo é um lugar fora do tempo, sem perspectivas e sem lei. Contudo, a nossa vida continua pacatamente. E então: Guantanamo é da nossa responsabilidade, ou da de um grupo de criminosos que se apoderou do poder e usa e abusa do povo?
- Sabemos que os EUA enviam pessoas para interrogatório em países onde se pratica tortura - tortura a sério. Por outro lado, a definição de tortura foi alterada, para que certas práticas de interrogatório e amolecimento dos suspeitos possam ser aceitáveis em território nacional, ou praticadas por soldados americanos - no Iraque, por exemplo. Depois, achamos estranho que eles morram tanto de ataques cardíacos...
Os EUA continuam a ser um país amigo, um aliado. É culpa dos nossos governantes, ou responsabilidade nossa?
- Alguém tem dúvidas que a guerra do Iraque se inseriu numa estratégia de alargamento do espaço económico vital dos EUA? Após a tomada de Bagdad, e antes de o Iraque se ter tornado um inferno, vários países começaram a agitar-se para participarem no saque - mesmo os que tinham rejeitado a guerra. Qual é a nossa parte de responsabilidade nessa guerra? Ou a culpa é de um bando de criminosos que nos enganou?
Deveríamos cortar os laços com os EUA? Mas como, se estamos em plena guerra ao terrorismo, com o Bin Laden à solta, a al-Qaeda em regime de franchising?! Pois...
Se quisermos ser indulgentes com o nosso tempo, teremos de aceitar que o povo alemão do período nazi, assustado com o perigo comunista mesmo ao lado e o perigosíssimo cancro judeu infiltrado no país (propaganda dixit) não tinha condições para discernir e opor-se a um governante tão sedutor e carismático.
E já agora: quem de nós teria a coragem de esconder um estudante árabe, sabendo que ele andava a fugir à CIA, para não ir parar a Guantanamo?
"Ah, a CIA terá as suas razões para o prender..." - mesmo sabendo que muitos dos que estão em Guantanamo não têm culpas?
A SS também tinha razões para prender os judeus - e eram razões tão boas, que extravasaram as fronteiras do país: a taxa de extinção de judeus na Holanda foi superior à da Alemanha, os franceses também se apressaram a colaborar nas deportações, Salazar castigou duramente o diplomata que salvou milhares de judeus, e os Aliados não se apressaram nada a libertar Auschwitz ou, ao menos, a bombardear a linha de comboio que lhe dava acesso.
Estarei a comparar os judeus de Auschwitz com terroristas árabes?
Importa notar que ninguém sabe se os prisioneiros de Guantanamo são terroristas. Se fosse fácil provar isso, não haveria necessidade de lhes criar um estatuto especial. Até que seja provada a sua culpa, não passam de suspeitos de um regime - e que regime! (será que lhes podemos chamar "bando de criminosos"?)
Em Guantanamo, como outrora em Auschwitz, estão presos seres indesejáveis, alegadamente perigosos, bodes espiatórios sujeitos a um sistema que não os respeita como seres humanos.
Não é um campo de exterminação de massas, como foi Auschwitz. Guantanamo, mais em estilo morte lenta, é um campo de extermínio dos princípios de respeito absoluto pela pessoa humana - fundamentais para que Auschwitz nunca mais se repita.
***
Responsabilidade? Nós temos conhecimento dos horrores do nosso tempo, mas continuamos a tratar da vidinha.
Os alemães daquela época não tinham acesso à informação e estavam sujeitos a uma máquina totalitária de propaganda e perseguição. E mais: o horror foi premeditadamente dividido em pequenas tarefas, quase inócuas, para que ninguém se sentisse responsável.
É certo que nenhum especialista ou político alemão se atreveria a fazer este relato do passado. E não é por inverosimilhança, mas por pudor: os alemães habituaram-se a não discutir a questão da responsabilidade, arcando mudos com o peso do Holocausto. Talvez comece a ser tempo de mudarem as bases do discurso.
E é com certeza tempo de deixarmos de falar das responsabilidades dos outros, para assumirmos a nossa.
07 julho 2006
private agenda
A casa ainda não está pronta, mas vamos mudar na mesma. Na segunda-feira. Ai.
Tenho passado os dias a limpar o que já está pronto. Limpar?! Tenho a sensação que não faço outra coisa senão espalhar o pó em camadas uniformes.
Timing é connosco: daqui a nada saímos para um fim-de-semana com a turma do Matthias e as respectivas famílias. É a despedida com honra dos miúdos da quarta classe (como será que isto se chama agora?). A turma tem alunos da primeira à quarta classe, e a despedida dos mais velhos é sempre um acontecimento importante. Como se eu andasse muito desocupada, deram-me um papel principal nos festejos: chefe das bruxas. Ainda tenho de inventar truques de magia e um disfarce.
A partir de segunda feira não temos internet. Dizem que é apenas durante uma semana - a ver vamos.
E no dia 19 vamos para Portugal.
Ou seja: pode ser que a parte alemã deste blogue só cá volte a picar o ponto lá para Setembro.
Para já, para já, vamos ao que interessa: o jogo Portugal/Alemanha, que vamos ver com todo o pessoal da escola. Levamos t-shirts da Alemanha e bonés de Portugal.
Finalmente um jogo em que todos os golos vão ser bons.
(Sim, eu sou a Mata Hari deste Mundial)
Tenho passado os dias a limpar o que já está pronto. Limpar?! Tenho a sensação que não faço outra coisa senão espalhar o pó em camadas uniformes.
Timing é connosco: daqui a nada saímos para um fim-de-semana com a turma do Matthias e as respectivas famílias. É a despedida com honra dos miúdos da quarta classe (como será que isto se chama agora?). A turma tem alunos da primeira à quarta classe, e a despedida dos mais velhos é sempre um acontecimento importante. Como se eu andasse muito desocupada, deram-me um papel principal nos festejos: chefe das bruxas. Ainda tenho de inventar truques de magia e um disfarce.
A partir de segunda feira não temos internet. Dizem que é apenas durante uma semana - a ver vamos.
E no dia 19 vamos para Portugal.
Ou seja: pode ser que a parte alemã deste blogue só cá volte a picar o ponto lá para Setembro.
Para já, para já, vamos ao que interessa: o jogo Portugal/Alemanha, que vamos ver com todo o pessoal da escola. Levamos t-shirts da Alemanha e bonés de Portugal.
Finalmente um jogo em que todos os golos vão ser bons.
(Sim, eu sou a Mata Hari deste Mundial)
05 julho 2006
asilo politico
Estive no centro de candidatos a asilo político, numa sessão de apresentação dos candidatos ao conselho de estrangeiros de Weimar.
Seriam umas quarenta pessoas numa sala relativamente pequena, e uma confusão de Babel: o que se dizia era traduzido para árabe, persa, russo, inglês, e o que mais calhasse. E vice-versa, para alemão. Tudo aos gritos, porque alguns aproveitavam a presença de representantes da Câmara para exporem os seus problemas pessoais, e outros aproveitavam estarem sentados para começarem a comparar supermercados e preços (informações vitais para quem vive de um rendimento mínimo e está excluído da sociedade).
Ao fim de uma hora, já vários tinham abandonado a sala, completamente descontrolados: ou a gritar contra aquela confusão, ou em choro desesperado.
O centro é composto de vários blocos de apartamentos onde moram famílias oriundas de países em crise, que pediram asilo político à Alemanha e estão há espera de uma decisão. Enquanto esperam não podem trabalhar. Simplesmente esperam - há 3 meses, há 5 anos, há 12 anos. Alguns chegam com traumas profundos da perseguição e da tortura (e são tratados por psicólogos que precisam de tradutores...), outros fugiram simplesmente da fome ("simplesmente"!).
A falta de perspectivas faz com que muitos deles adoeçam gravemente.
As necessidades básicas estão asseguradas, mas falta um contexto social que os enquadre de forma positiva.
Algumas famílias falam a mesma língua dos vizinhos mas não se entendem com eles - iranianos e iraquianos, por exemplo.
Quase ninguém tem interesse em conviver com os companheiros de destino, cujo único denominador comum é o infortúnio.
Para piorar, durante a sessão um dos candidatos começou a fazer discurso eleitoral, prometendo que o conselho de estrangeiros resolve todos os problemas. Que irresponsabilidade!
O problema é de ordem legal e financeira: não há nem vontade nem dinheiro para resolver os problemas dos desgraçados do resto do mundo, e os que cá chegam são mantidos indefinidamente neste limbo, até que os conflitos na terra deles se resolvam. A taxa de aprovação de candidatos a asilo político é muito baixa, e o processo muito moroso.
Saí do centro com a sensação habitual de impotência.
Ocorreu-me que há um triste simbolismo na sua localização: exactamente a meio caminho entre Weimar e Buchenwald.
Seriam umas quarenta pessoas numa sala relativamente pequena, e uma confusão de Babel: o que se dizia era traduzido para árabe, persa, russo, inglês, e o que mais calhasse. E vice-versa, para alemão. Tudo aos gritos, porque alguns aproveitavam a presença de representantes da Câmara para exporem os seus problemas pessoais, e outros aproveitavam estarem sentados para começarem a comparar supermercados e preços (informações vitais para quem vive de um rendimento mínimo e está excluído da sociedade).
Ao fim de uma hora, já vários tinham abandonado a sala, completamente descontrolados: ou a gritar contra aquela confusão, ou em choro desesperado.
O centro é composto de vários blocos de apartamentos onde moram famílias oriundas de países em crise, que pediram asilo político à Alemanha e estão há espera de uma decisão. Enquanto esperam não podem trabalhar. Simplesmente esperam - há 3 meses, há 5 anos, há 12 anos. Alguns chegam com traumas profundos da perseguição e da tortura (e são tratados por psicólogos que precisam de tradutores...), outros fugiram simplesmente da fome ("simplesmente"!).
A falta de perspectivas faz com que muitos deles adoeçam gravemente.
As necessidades básicas estão asseguradas, mas falta um contexto social que os enquadre de forma positiva.
Algumas famílias falam a mesma língua dos vizinhos mas não se entendem com eles - iranianos e iraquianos, por exemplo.
Quase ninguém tem interesse em conviver com os companheiros de destino, cujo único denominador comum é o infortúnio.
Para piorar, durante a sessão um dos candidatos começou a fazer discurso eleitoral, prometendo que o conselho de estrangeiros resolve todos os problemas. Que irresponsabilidade!
O problema é de ordem legal e financeira: não há nem vontade nem dinheiro para resolver os problemas dos desgraçados do resto do mundo, e os que cá chegam são mantidos indefinidamente neste limbo, até que os conflitos na terra deles se resolvam. A taxa de aprovação de candidatos a asilo político é muito baixa, e o processo muito moroso.
Saí do centro com a sensação habitual de impotência.
Ocorreu-me que há um triste simbolismo na sua localização: exactamente a meio caminho entre Weimar e Buchenwald.
mais ruína
Por zanga às nossas ex-inquilinas - desempregadas a quem o Estado paga todas as despesas básicas, e com trabalhos não declarados para pagar o carro novo em frente à porta y otras cositas más -, decidimos que nunca mais nos faríamos cúmplices deste vampirismo.
Fizemos as obras na casa sem recorrer a um único biscateiro.
(Biscate, mas que lindo eufemismo)
Agora, que a casa está praticamente terminada e nós já vamos no segundo empréstimo suplementar, uma amiga recomendou-nos um pintor muito bom e muito barato para arranjar o apartamento de onde vamos sair. Ele veio, deu um orçamento: entre 800 e 900 euros. Perguntei "com factura?", e ele, tentando disfarçar: "ah, isso era preço de amigo, por vir com essa recomendação, mas se quer com factura, são 1.600 euros."
Outro que está desempregado, e trabalha todos os dias de sol a sol sem fazer os descontos devidos.
Acabámos por resolver de outra maneira - o apartamento vai ser pintado pelos novos inquilinos.
Mas que a tentação foi enorme, lá isso...
***
Assim, o Estado Social não vai longe. Há cada vez menos gente a contribuir como deve, e há cada vez mais necessitados oficiais. Cinco milhões de desempregados, muitos dos quais recebem do Estado pão, habitação, saúde, educação (e vários etc.) - o que estaria muito bem, se fossem realmente desempregados, e não gente que suga o sistema e ainda põe cara de vítima.
É facílimo arranjar pessoal que trabalhe clandestinamente, o que nos arruina um pouco menos e arruina o Estado um pouco mais.
Sem um novo sentido de responsabilidade, este sistema não vai longe.
***
Ouvi um gestor da Daimler-Benz, que trabalhou nos EUA, contar que uma das diferenças fundamentais entre a Alemanha e os EUA é a moral fiscal. Numa festa alemã, é normal ouvir pessoas contarem os truques mais ou menos legais que usam para fugir ao fisco. Quem fizer o mesmo numa festa americana, depara com ouvintes tão horrorizados como se estivesse a contar algo do género: "Eu ontem ia pela rua, vi uma velhinha trôpega que levava a carteira aberta e o envelope com o dinheiro todo da reforma à vista; passei por ela, tirei-lhe o envelope da carteira, e a pateta nem percebeu!"
Fizemos as obras na casa sem recorrer a um único biscateiro.
(Biscate, mas que lindo eufemismo)
Agora, que a casa está praticamente terminada e nós já vamos no segundo empréstimo suplementar, uma amiga recomendou-nos um pintor muito bom e muito barato para arranjar o apartamento de onde vamos sair. Ele veio, deu um orçamento: entre 800 e 900 euros. Perguntei "com factura?", e ele, tentando disfarçar: "ah, isso era preço de amigo, por vir com essa recomendação, mas se quer com factura, são 1.600 euros."
Outro que está desempregado, e trabalha todos os dias de sol a sol sem fazer os descontos devidos.
Acabámos por resolver de outra maneira - o apartamento vai ser pintado pelos novos inquilinos.
Mas que a tentação foi enorme, lá isso...
***
Assim, o Estado Social não vai longe. Há cada vez menos gente a contribuir como deve, e há cada vez mais necessitados oficiais. Cinco milhões de desempregados, muitos dos quais recebem do Estado pão, habitação, saúde, educação (e vários etc.) - o que estaria muito bem, se fossem realmente desempregados, e não gente que suga o sistema e ainda põe cara de vítima.
É facílimo arranjar pessoal que trabalhe clandestinamente, o que nos arruina um pouco menos e arruina o Estado um pouco mais.
Sem um novo sentido de responsabilidade, este sistema não vai longe.
***
Ouvi um gestor da Daimler-Benz, que trabalhou nos EUA, contar que uma das diferenças fundamentais entre a Alemanha e os EUA é a moral fiscal. Numa festa alemã, é normal ouvir pessoas contarem os truques mais ou menos legais que usam para fugir ao fisco. Quem fizer o mesmo numa festa americana, depara com ouvintes tão horrorizados como se estivesse a contar algo do género: "Eu ontem ia pela rua, vi uma velhinha trôpega que levava a carteira aberta e o envelope com o dinheiro todo da reforma à vista; passei por ela, tirei-lhe o envelope da carteira, e a pateta nem percebeu!"
ai os meus sais
"Agora que dois dos meus três favoritos secretos, o Brasil e a Alemanha, estão fora, só me resta Portugal para salvar a honra da pátria"
- pensei eu ontem, depois daquele inacreditável segundo golo, e logo a seguir:
"Honra da pátria?! Maldita globalização, que me está a obsoletar o léxico!"
Vimos o jogo num ecrã gigante em Ettersberg. O pessoal já estava tão alegrote antes do jogo que cantou o hino alemão em cânone. Pelo menos, foi o que me pareceu.
Tinham uma mesa para apostas. Ainda pensei ir lá apostar 5 euros no 1-0 para a Itália. Não que a Itália fosse a minha preferida, mas porque tinha a certeza que mais ninguém tinha apostado essa possibilidade. Contudo, preferi ficar quieta: sei lá se o lucro daria para me pagar um enterro bonitinho...
Já começaram a tentar consolar-me sobre o resultado do jogo de hoje à noite. Explicam-me que, em tempo de Volta à França, o pessoal anda todo dopado: não admira que corram como o Speedy Gonzalez e pareçam ubíquos.
- pensei eu ontem, depois daquele inacreditável segundo golo, e logo a seguir:
"Honra da pátria?! Maldita globalização, que me está a obsoletar o léxico!"
Vimos o jogo num ecrã gigante em Ettersberg. O pessoal já estava tão alegrote antes do jogo que cantou o hino alemão em cânone. Pelo menos, foi o que me pareceu.
Tinham uma mesa para apostas. Ainda pensei ir lá apostar 5 euros no 1-0 para a Itália. Não que a Itália fosse a minha preferida, mas porque tinha a certeza que mais ninguém tinha apostado essa possibilidade. Contudo, preferi ficar quieta: sei lá se o lucro daria para me pagar um enterro bonitinho...
Já começaram a tentar consolar-me sobre o resultado do jogo de hoje à noite. Explicam-me que, em tempo de Volta à França, o pessoal anda todo dopado: não admira que corram como o Speedy Gonzalez e pareçam ubíquos.
04 julho 2006
histórias de uma ruína
Há um ano, mais mês menos mês, comprámos uma casa centenária.
Nada como comprar uma casa velha e com inquilinos para fazer uma pós-graduação na escola da vida.
Já contei as peripécias com os inquilinos. Não vou contar as peripécias com os arquitectos. Pensando bem, conto, e resume-se a isto: amigos, amigos, negócios à parte.
E cá vão peripécias da obra:
I.
Recuperar uma casa num mundo que, até há 15 anos, estava do lado de lá da cortina de ferro, é um manancial de descobertas: os terríveis materiais usados no período comunista, a falta de cuidado na preservação da casa, a desconfiança mútua em relação às técnicas dos "Wessis" e dos "Ossis".
Ou o dia em que andei a inspeccionar as instalações sanitárias e o arquitecto criticava "esta torneira até parece trabalho de russo!" e o canalizador se defendia, olhando para mim de esguelha, "não sabia que os russos trabalham tão bem!" e eu pensava "será que o sorriso de Monalisa me está a sair bem compostinho?"
II.
O momento mais difícil foi quando descobrimos o Schwamm.
Nem sei como dizer isso em português. O Porto Editora traduz para "bicho da madeira", de onde se prova que o Porto Editora nunca comprou uma casa alemã com 100 anos e Schwamm.
É uma espécie de fungo com longas veias, que se instala na madeira e a corta em cubinhos (ok, reconheço que isto é um exagero geométrico); as "veias" vão buscar a água às partes da casa que estejam mal vedadas e alimentam assim o fungo, que se espalha pelas madeiras. Um dia a casa desaba, e percebe-se que tinha Schwamm.
Como este da foto, que só esteve activo um ano:


O electricista descobriu uma trave corroída no chão do andar de mansarda, e as obras tiveram de parar, para procurar o local onde a praga estaria activa.
Tiraram as paredes que serviam de forro do telhado, levantaram o soalho para ver o estado dos barrotes.
Um belo dia, o carpinteiro diz-me assim: "encontrámos hoje o Schwamm, e logo num sítio onde não contávamos nada com ele".
Lá estava o fungo, nojento e vivo, a destruir o chão do que será o quarto do Matthias, no vão entre a parede e o telhado muito inclinado.
E sobre o fungo, naquele sítio onde "não contávamos com ele", pairava um fantoche imundo com um sorriso trocista: um diabo.
Até esse momento, pensei sempre que não era supersticiosa.
Mas quero ver quem aguenta o sangue-frio ao descobrir um diabo trocista no sítio onde cresce, inverosímil, uma das maiores ameaças de uma casa antiga.


Disseram-me para não ligar, disseram-me para pedir ao padre que fosse benzer o edifício e encharcar o diacho em água-benta, disseram-me para perguntar aos entendidos por que motivo há 100 anos alguém se lembraria de emparedar um diabo de trapos, disseram-me para vender a casa porque só nos vai dar más surpresas, e disseram-me que até já havia um interessado em Munique.
Em desespero de causa, pedi ajuda aos amigos brasileiros. Que devia pegar numa vela branca, envolver-lhe o pé em mel, e pô-la a arder debaixo do boneco, disseram. Contudo, comentaram outros, se macumba funcionasse, os jogos de futebol na Bahia acabavam todos empatados.
Preparei a vela, mas não tive coragem de a pôr na casa, sujeita ao olhar - também trocista - dos operários. O demo continuava lá, suspenso de uma trave, e a vela continuava na nossa cozinha, indecisa como eu.
Ao fim de alguns dias o diabo desapareceu. Ninguém sabe como - às tantas, está agora a sorrir trocista numa loja de antiquário.
As madeiras foram substituídas, as paredes de tijolo foram queimadas e impregnadas para eliminar as "veias".
A casa está a ficar como nova, e linda (será preciso fazer aqui uma declaração de interesses?).
Mas ficou um sobressalto: "que mais irá-me acontecer?"
Nada como comprar uma casa velha e com inquilinos para fazer uma pós-graduação na escola da vida.
Já contei as peripécias com os inquilinos. Não vou contar as peripécias com os arquitectos. Pensando bem, conto, e resume-se a isto: amigos, amigos, negócios à parte.
E cá vão peripécias da obra:
I.
Recuperar uma casa num mundo que, até há 15 anos, estava do lado de lá da cortina de ferro, é um manancial de descobertas: os terríveis materiais usados no período comunista, a falta de cuidado na preservação da casa, a desconfiança mútua em relação às técnicas dos "Wessis" e dos "Ossis".
Ou o dia em que andei a inspeccionar as instalações sanitárias e o arquitecto criticava "esta torneira até parece trabalho de russo!" e o canalizador se defendia, olhando para mim de esguelha, "não sabia que os russos trabalham tão bem!" e eu pensava "será que o sorriso de Monalisa me está a sair bem compostinho?"
II.
O momento mais difícil foi quando descobrimos o Schwamm.
Nem sei como dizer isso em português. O Porto Editora traduz para "bicho da madeira", de onde se prova que o Porto Editora nunca comprou uma casa alemã com 100 anos e Schwamm.
É uma espécie de fungo com longas veias, que se instala na madeira e a corta em cubinhos (ok, reconheço que isto é um exagero geométrico); as "veias" vão buscar a água às partes da casa que estejam mal vedadas e alimentam assim o fungo, que se espalha pelas madeiras. Um dia a casa desaba, e percebe-se que tinha Schwamm.
Como este da foto, que só esteve activo um ano:


O electricista descobriu uma trave corroída no chão do andar de mansarda, e as obras tiveram de parar, para procurar o local onde a praga estaria activa.
Tiraram as paredes que serviam de forro do telhado, levantaram o soalho para ver o estado dos barrotes.
Um belo dia, o carpinteiro diz-me assim: "encontrámos hoje o Schwamm, e logo num sítio onde não contávamos nada com ele".
Lá estava o fungo, nojento e vivo, a destruir o chão do que será o quarto do Matthias, no vão entre a parede e o telhado muito inclinado.
E sobre o fungo, naquele sítio onde "não contávamos com ele", pairava um fantoche imundo com um sorriso trocista: um diabo.
Até esse momento, pensei sempre que não era supersticiosa.
Mas quero ver quem aguenta o sangue-frio ao descobrir um diabo trocista no sítio onde cresce, inverosímil, uma das maiores ameaças de uma casa antiga.


Disseram-me para não ligar, disseram-me para pedir ao padre que fosse benzer o edifício e encharcar o diacho em água-benta, disseram-me para perguntar aos entendidos por que motivo há 100 anos alguém se lembraria de emparedar um diabo de trapos, disseram-me para vender a casa porque só nos vai dar más surpresas, e disseram-me que até já havia um interessado em Munique.
Em desespero de causa, pedi ajuda aos amigos brasileiros. Que devia pegar numa vela branca, envolver-lhe o pé em mel, e pô-la a arder debaixo do boneco, disseram. Contudo, comentaram outros, se macumba funcionasse, os jogos de futebol na Bahia acabavam todos empatados.
Preparei a vela, mas não tive coragem de a pôr na casa, sujeita ao olhar - também trocista - dos operários. O demo continuava lá, suspenso de uma trave, e a vela continuava na nossa cozinha, indecisa como eu.
Ao fim de alguns dias o diabo desapareceu. Ninguém sabe como - às tantas, está agora a sorrir trocista numa loja de antiquário.
As madeiras foram substituídas, as paredes de tijolo foram queimadas e impregnadas para eliminar as "veias".
A casa está a ficar como nova, e linda (será preciso fazer aqui uma declaração de interesses?).
Mas ficou um sobressalto: "que mais irá-me acontecer?"
quem a ler...
...até deve pensar que sou a maior especialista mundial de Gil Vicente.
Hihihi.
Desde que ninguém me pergunte nada, fico-me bem com esta fama.
Obrigadinha pelos exageros, Laura!
(e só cá para nós, muito baixinho: não percebo nada de Gil Vicente; limitei-me a ler a introdução que vinha na minha Farsa de Inês Pereira e a resumi-la num tom que pudesse cativar - estou para o Gil Vicente como o teatro de variedades para o King Lear...)
Hihihi.
Desde que ninguém me pergunte nada, fico-me bem com esta fama.
Obrigadinha pelos exageros, Laura!
(e só cá para nós, muito baixinho: não percebo nada de Gil Vicente; limitei-me a ler a introdução que vinha na minha Farsa de Inês Pereira e a resumi-la num tom que pudesse cativar - estou para o Gil Vicente como o teatro de variedades para o King Lear...)
03 julho 2006
ai!
Acabei de ser entrevistada por um jornal regional, na qualidade de única portuguesa de Weimar (ao que consta), para mandar umas bocas sobre o mundial de futebol. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde seria inevitável, e foi agora.
A jornalista, que me conhece de outros carnavais, começou logo por se pôr do meu lado, dizendo que a sua equipa favorita é a portuguesa, porque os portugueses cozinham tão bem (isto sim, é um critério futebolístico), e eu só por causa disso prometi-lhe logo uns bolinhos de bacalhau, da próxima vez que ousar essa empreitada. Parece-me que percebo agora melhor os tais valores propriamente femininos da Associação Mulheres em Acção, referidos pelo Miguel Silva.
- E então, que me diz sobre o próximo jogo de Portugal?
- Eu acho que bem podem mandar a equipa portuguesa para casa e deixar ficar só o guarda-redes, que ele sozinho dá conta do recado.
- E além do guarda-redes, qual é o seu jogador português preferido?
- hummmm
(e a toda a pressa pensava: eu gosto do Cristiano Ronaldo e do Deco, dos outros não sei quase nada, o Figo, enfim, já foi mais bonito mas a idade não perdoa a ninguém, e além disso fez um passe bom no primeiro jogo mas desde então raramente o vi, por isso é melhor não dizer nada, e o Deco não é bem português, quer dizer, se nos blogues portugueses se andam a rir dos jogadores alemães que são polacos eu é melhor fazer de conta que não sei nada sobre o Deco, e o Cristiano Ronaldo, aimêdês, o rapaz joga bem mas é muito instável, tem os nervos à flor da pele, aposto que lhe pedem para mostrar um cartão de identidade qualquer antes de o deixarem entrar em campo porque com aquele ar de desequilíbrio afectivo ainda se teme que seja vítima de trabalho infantil e é escusado andar a falar destas misérias nacionais, por isso o melhor é calar-me e não falar do Cristiano Ronaldo, aimêdês, além disso, isto é só palha para encher um jornal regional, eles não estão à espera que saia daqui uma grande tirada filosófica, e convinha fazer-lhes um gostinho ao orgulho nacional, afinal de contas é boa educação ser simpática na minha qualidade de convidada, e como é que respondo agora?)
e disse:
- O meu jogador português preferido? Se o Ballack fosse português...
Alea jacta est.
A ver vamos como é que a jornalista vai traduzir para papel as reticências e os risos.
Por sorte, este jornal não é o Expresso, que gosta de ignorar o tom irónico para fazer notícias sérias.
Ai, já me ia esquecendo: ...
A jornalista, que me conhece de outros carnavais, começou logo por se pôr do meu lado, dizendo que a sua equipa favorita é a portuguesa, porque os portugueses cozinham tão bem (isto sim, é um critério futebolístico), e eu só por causa disso prometi-lhe logo uns bolinhos de bacalhau, da próxima vez que ousar essa empreitada. Parece-me que percebo agora melhor os tais valores propriamente femininos da Associação Mulheres em Acção, referidos pelo Miguel Silva.
- E então, que me diz sobre o próximo jogo de Portugal?
- Eu acho que bem podem mandar a equipa portuguesa para casa e deixar ficar só o guarda-redes, que ele sozinho dá conta do recado.
- E além do guarda-redes, qual é o seu jogador português preferido?
- hummmm
(e a toda a pressa pensava: eu gosto do Cristiano Ronaldo e do Deco, dos outros não sei quase nada, o Figo, enfim, já foi mais bonito mas a idade não perdoa a ninguém, e além disso fez um passe bom no primeiro jogo mas desde então raramente o vi, por isso é melhor não dizer nada, e o Deco não é bem português, quer dizer, se nos blogues portugueses se andam a rir dos jogadores alemães que são polacos eu é melhor fazer de conta que não sei nada sobre o Deco, e o Cristiano Ronaldo, aimêdês, o rapaz joga bem mas é muito instável, tem os nervos à flor da pele, aposto que lhe pedem para mostrar um cartão de identidade qualquer antes de o deixarem entrar em campo porque com aquele ar de desequilíbrio afectivo ainda se teme que seja vítima de trabalho infantil e é escusado andar a falar destas misérias nacionais, por isso o melhor é calar-me e não falar do Cristiano Ronaldo, aimêdês, além disso, isto é só palha para encher um jornal regional, eles não estão à espera que saia daqui uma grande tirada filosófica, e convinha fazer-lhes um gostinho ao orgulho nacional, afinal de contas é boa educação ser simpática na minha qualidade de convidada, e como é que respondo agora?)
e disse:
- O meu jogador português preferido? Se o Ballack fosse português...
Alea jacta est.
A ver vamos como é que a jornalista vai traduzir para papel as reticências e os risos.
Por sorte, este jornal não é o Expresso, que gosta de ignorar o tom irónico para fazer notícias sérias.
Ai, já me ia esquecendo: ...
viver em LA


O meu caminho para a casa nova estava cortado por uma equipa de filmagem, que se instalou na ponte em frente ao palácio ducal para filmar uma cena da ponte para o parque.
(O parque, mandado fazer por Goethe à maneira dos ingleses, é no centro da cidade e de tal modo grande que se diz que Weimar é um parque onde fizeram uma cidade.)
Pediram-me para esperar um bocadinho, e
"Ena", pensei eu, "isto até parece Los Angeles! Não se pode ir a lado nenhum, que não se dê com uma equipa de filmagem."
Daí a nada chegou um grupo de senhoras idosas (os reformados adoram Weimar - a idade média aqui deve ser de, pelo menos, 98 anos...), que começaram a fazer perguntas sobre o filme.
- Chama-se "um dia banal", e é sobre a morte, respondeu um dos ajudantes.
- Ai, é sobre a morte?, disse uma das velhinhas. Quando vem para as salas de cinema? Esse tema interessa-me muito!
A mim também, mas não tem urgência.
Consola-me saber que, até agora, todos conseguiram. Não hei-de ser mais incapaz que os outros.
***
Vamos mudar no dia 10.
A nossa nova rua é assim:


O bairro onde ainda moramos não é muito diferente. De facto, Weimar tem vários bairros deste género, entremeados por parques enormes, e um centro de trânsito muito condicionado. De modo que, ao ler este post do Miguel Vale de Almeida, compreendi inteiramente o que diz sobre o caos urbanístico.
E direi mesmo mais: no ano passado fui de Weimar directamente para Lisboa, e foi um choque terrível - carros em cima dos passeios, imensa lata, excesso de construção, quase nenhum espaço verde. Como é que as pessoas conseguem viver nessas condições?
Bem sei que é incorrecto comparar uma cidade de 60.000 habitantes com uma metrópole como Lisboa. A questão, contudo, mantém-se: como é possível viver numa cidade assim?
E as cidades portuguesas de 60.000 habitantes: o que é que correu tão mal, para que as cidades pequenas copiem os erros das grandes? Quem é responsável por esse excesso de prédios e pela ausência de espaços verdes em cidades onde a malha urbana podia ser bem mais solta?
Ou será que o pessoal gosta de viver em volières?!
E depois, cúmulo da ironia, os acabamentos de luxo: casas de banho com 6 m², revestidas a mármore. Corredores com 1 m de largura, forrados a azulejos conventuais.
"Ena", penso eu, "isto até parece Los Angeles: é só fachada."
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