30 novembro 2021

simplesmente Helena




Acabei de ser entrevistada para a RDP Internacional.

Só vos digo que eles estão é maluquinhos!

Então fazem-me uma entrevista para falar da minha vida, e só me dão 20 minutos?! Isso não dá nem para os primeiros quatro dias, entre o meu nascimento e o assassinato do JFK.

Já me arranjavam uma série radiofónica para eu contar tudo bem contadinho. Podia chamar-se "simplesmente Helena" - que tal?

[ Agora fico aqui a pensar quantas pessoas irão sorrir ao lembrar-se do "simplesmente Maria" que passava à hora do almoço, faz entretanto uns aninhos. ]


PS. No terceiro ou quarto episódio podia falar deste dia, quando o meu irmão me roubou a chupeta, que me deixou muito traumatizada.

--- ADENDA para os mais cuscos: APANHADOS NA REDE.


27 novembro 2021

ciganos

 


Em memória dos Sinti e Roma europeus vítimas da ideologia nazi (que os perseguiu e matou dizendo sobre eles o mesmo que um certo partido que conhecemos diz sobre os ciganos portugueses).

Memorial no Tiergarten, junto ao Parlamento Federal alemão.


25 novembro 2021

em beleza

 






Ontem terminaram os Portuguese Cinema Days in Berlin 2021. Em beleza, com a Metamorfose dos Pássaros.
Esta tarde fui ao jardim apanhar a salada para o jantar. (A ver se publico com mais frequência por aqui, agora que o maior stress já passou.)




20 novembro 2021

um Corão na minha casa

 


Ao arrumar o apartamento airbnb descobri entre os livros de decoração que por lá há uma edição de luxo a explicar o Corão. 

Então que é isto? Terá sido esquecimento, ou intencional?

Inclinei-me para intencional - ninguém mistura os seus próprios livros aos que estão pousados nos móveis a fazer de conta que é shabby chic - e senti-me invadida. Depois comecei a pensar quem terá sido - o egípcio que até trouxe um tapete para rezar? Era muito simpático e delicado, mas se calhar é assim que uma pessoa se engana... Ou terá sido um dos jovens que trabalhou numa start up e tinha um nome "estrangeiro"? Também era muito educado e simpático, mas...

Estava nesta dinâmica de largar os meus preconceitos todos contra algumas das pessoas que por cá passaram nos últimos tempos, e de repente lembrei-me que tenho nesse apartamento alguns livros infantis de que os meus filhos não gostaram muito, e não conseguimos vender numa das nossas garage sale (vá-se lá saber porquê...). Como não tenho onde pôr, deixei ficar por lá. Se alguém roubar, não me incomoda: assim como assim, são livros que não queremos. Entre eles, há vários de temas religiosos. O abecedário da Bíblia em inglês, objectos e histórias da Bíblia, coisas assim. 

E foi então que me caiu a ficha: para um muçulmano fervoroso, pode ser um pouco desconfortável dormir num quarto onde há uma série de lombadas a dizer Bíblia isto e Bíblia aquilo. Bem sei que é a minha casa, mas pode ser sentido como provocação, ou pelo menos vontade de missionar. 

Continua a parecer-me errado terem deixado aqui um Corão. Tanto mais que sinto um certo prurido em espetar com ele no contentor do papel. Mas esse gesto de alguém que por aqui passou, e era simpático e educado, permitiu-me sair da própria pele, e perceber como outros se podem sentir na minha casa. 


19 novembro 2021

lost in translation

 

Nem sei se vos diga, se vos conte...

Quando, no âmbito do Portuguese Cinema Days in Berlin 2021, preparámos a exibição do filme "Henrique de Malaca - um malaio e Magalhães", de Pedro Palma, achei que as comunidades espanhola, malaia, indonésia e filipina de Berlim haviam de gostar de saber disto. Para lhes dar a boa notícia, andei à procura deles pela net e descobri um sítio chamado "Internations".

Inscrevi-me.

Mas como não percebi a lógica daquilo, desisti - e escrevi às respectivas embaixadas (que para alguma coisa lhes pagam, não é assim?) (por acaso, devem pagar mal, porque não recebi resposta de nenhuma - excepto uma, simpática e imediata, do conselheiro cultural espanhol) (viva España!).

Pois bem: há dias recebi do Internations uma mensagem de um tipo dizendo o seguinte:

"Hello dear, how are you doing? I must admit that you are a really beautiful and charming woman, but I am after the beauty of the heart. I am new here, nice to meet you. I will love to know you more, you can drop your email here, or you can contact me through my email xxxxxx@gmail.com"

Como não era nem espanhol, nem malaio, nem indonésio, nem filipino (e como além disso a sessão do Henrique de Malaca já há muito que passou à história), não respondi. Agora, a sério, digam lá: eu mereço???




18 novembro 2021

Aaron

 


A mãe do Aaron e eu estivemos grávidas na mesma altura. De mim nasceu o Matthias, e dela nasceu um miúdo com síndrome de Ondine: quando adormece, deixa de respirar.

Podia ter-nos acontecido ao contrário (a vida é um passeio belíssimo na berma do abismo).

O Aaron passou o primeiro ano de vida nos cuidados intensivos, rodeado de apitos e luzes a piscar. Depois foi para casa, e enquanto dormia tinha de haver alguém acordado a velar pelo seu sono. Os pais suspeitam que volta e meia o cuidador tenha adormecido, e o Aaron tenha passado demasiado tempo sem oxigénio no cérebro.
A falta de calor humano no primeiro ano, e a eventual falta de oxigénio nos anos seguintes terão contribuído para fazer com que as capacidades mentais do Aaron sejam bastante mais reduzidas que as do Matthias.

Mesmo assim, não falha um aniversário da nossa família, pede fotografias para desenhar o nosso retrato, sabe sempre a nossa idade. Em termos de produtividade num mundo como o nosso, não é muito. Mas é ele a inscrever-se na vida, é ele a encontrar um sentido para o pouco que tem, é ele a mostrar ao mundo inteiro que o coração é mais importante que as capacidades mentais.
Há muita gente com alto QI a quem falta este básico.

Viva o Aaron! ❤



17 novembro 2021

58

 

Esta manhã acordei e pensei:
"58 anos. Se calhar já começavas a ganhar juízo..."
E logo a seguir:
"Naaa... não saberia ser de outra forma, portanto continua como está, que é como sei ser."
Atão vá. Cá vamos nós.

É bom andar por aqui.


12 novembro 2021

Portugal +



A novidade do dia é: chamaram-me “personalidade relevante “ num jornal! 

Está escrito. Embrulhem. ;)

(Infelizmente só me deixam falar 4 minutos. Se contar uma anedota que demora dois (li num manual de auto-ajuda que é sempre boa ideia contar uma anedota) depois só me sobram dois minutos para dizer ao que ando. Ainda bem, porque, como não sei ao que ando, só tenho de engonhar dois minutos antes de passar ao próximo orador. ;) )

Mas pronto: se me quiserem ver amanhã  a contar anedotas e a engonhar, é irem espreitar o Portugal+

https://bomdia.eu/este-sabado-celebre-portugal-com-o-bom-dia-em-dusseldorf/

em viagem

Estou num comboio a caminho de Düsseldorf. A cada nova paragem ouvimos uma voz bem-disposta a lembrar que somos obrigados a manter a máscara permanentemente sobre o nariz e a boca, e que quem não o puder ou quiser fazer será gentilmente ajudado a sair do comboio. E se gostar do género, para o efeito até se arranjam dois rapazes fardados. 

(Mais vale rir que encher-se de fúria por causa dos tantos que andam sem máscara nos transportes públicos, em atitude de desafio às ovelhinhas obedientes da ditadura)


O dia começou triste: enevoado e frio.

Mas de repente o sol invadiu a paisagem: o verde dos campos, o amarelo das árvores, o azul nos meandros radiantes de um pequeno rio. 

Esta passagem abrupta de tons de cinzento para um catálogo de bisnagas do Van Gogh não é para corações fracos. Agarrem-me, que me está a dar uma coisa boa! 

09 novembro 2021

"pronto-a-vestir" - ascensão e queda do sector da moda berlinense



O ataque aos judeus alemães, preparado e perpetrado em todo o país pelos nazis no dia 9 de Novembro de 1938, teve no centro de Berlim um acto de poderoso carácter simbólico: do mesmo modo que em 1933 queimaram livros na praça em frente à universidade, em 1938 fizeram nova fogueira, a poucas centenas de metros dessa praça, para queimar tecidos e modelos do sector da moda berlinense, que se desenvolvera imenso ao longo do século anterior devido ao trabalho pioneiro de empresas de judeus. A intenção do regime nazi era renegar a moda berlinense, associada aos judeus, e abrir um capítulo novo na história do pronto-a-vestir: a "arianização" da moda, para a tornar mais tradicional e adaptada ao corpo da "parideira" que correspondia ao ideal feminino do mundo nazi. O texto que se segue, sobre a história do pronto-a-vestir berlinense, foi escrito com base nos seguintes artigos (em alemão): "breve história da indústria da moda berlinense", "como os nazis destruíram a cultura da moda alemã" e "por que motivo Berlim deixou de ser uma metrópole da moda". Recomendo que os abram para ver as imagens históricas. A fotografia que aqui partilho estava neste artigo.
A lei da emancipação judaica de 1812 abriu aos judeus a possibilidade de exercerem novas actividades económicas, nomeadamente dando-lhes autorização para terem lojas que anteriormente lhes estavam vedadas. Até então, muitos judeus viviam do trabalho de alfaiataria e do comércio ambulante com roupas usadas e objectos de retrosaria. Por força das circunstâncias, tornaram-se especialistas nessa área – o que lhes viria a ser muito útil no novo contexto de afrouxamento das proibições. Em 1837, dois irmãos judeus, David e Valentin Manheimer, abriram uma “oficina de trabalho com têxteis” na Jerusalemer Str. 17 em Berlim. Supõe-se que o terão feito com dinheiro ganho no Loto. Ao fim de dois anos, Valentin abandonou a oficina que fundara com o irmão, onde se faziam casacos de homem, e abriu a sua própria fábrica na Oberwallstrasse – a dois passos do palácio do Kaiser. Nela fabricava casacos de lã grossa em tamanhos estandardizados para senhora, que vendia a preços acessíveis a um novo grupo de clientes, a classe média. Um ovo de Colombo: as mulheres que não tinham dinheiro para pagar a uma modista viram ali a sua oportunidade de comprar roupa de qualidade e ao gosto da época. Valentin Manheimer recebeu a alcunha de “Rei dos Casacos”, e chegou até a exportar para a cidade de Nova Iorque. Mas não era o único. Pouco depois de Valentin ter dado início à sua nova empresa, Hermann Gerson instalou-se na mesma área para produzir pronto-a-vestir para homem e senhora com um grau de refinamento um pouco mais elevado que os seus colegas. Teve tanto sucesso que se tornou fornecedor da corte. O “Modebazar Gerson”, aberto em 1849, tinha fama de ser “a loja de manufacturas de mais bom gosto, mais fantástica e mais significativa de toda a Alemanha”, e diz-se que terá sido a primeira “Kaufhaus” berlinense. Mas outro judeu, Nathan Israel, queria para si esse título, afirmando que o seu armazém é que era o autêntico Harrods de Berlim.
O sucesso destes atraiu novos empresários. Em 1860, havia 20 firmas de confecções à volta da Hausvogteiplatz. Onze anos mais tarde, quando Berlim se tornou a capital do Reich, esse número já tinha duplicado. Perto do final do século, todo esse bairro vivia das confecções nas várias vertentes do negócio: produção de vestuário e respectivas matérias subsidiárias, comércio, marketing e vendas para outras regiões. A “Berliner Durchreise”, primeira feira da moda de que há história, foi iniciada nessa altura. Duas vezes por ano reuniam-se ali importadores europeus e de outros continentes para apreciar as últimas novidades da moda berlinense e para a exportar. Simultaneamente, Berlim enviava compradores a Paris, Londres, Milão e Viena para espreitarem o que a Haute Couture dessas cidades fazia, e adaptar à produção em série.
Estes produtos eram apresentados em ambientes cada vez mais requintados, enquanto, na outra ponta da cadeia, a produção funcionava em regime de outsourcing, repartida por mais de 600 alfaiates que recebiam os moldes e os tecidos para produzir as encomendas das empresas de vestuário. Estes, por sua vez, entregavam o trabalho a mulheres que, por preços miseráveis, costuravam as peças nas suas próprias casas, nos bairros pobres à volta de Berlim. O número de costureiras sazonais deve ter chegado a 100.000. A princípio cosiam tudo à mão, mas em breve se daria uma inovação importante para este sector.
Em 1856, o americano Isaac M. Singer pôs no mercado a primeira máquina de costura que se podia usar em casa. Sete anos depois, abriu a primeira fábrica de máquinas Singer em Frankfurt. O trabalho passou a ser feito à máquina, a capacidade produtiva aumentou significativamente. O aparecimento da máquina de costura teve um papel muito importante no sucesso deste negócio berlinense, que cresceu a ponto de nos anos 1920’ assegurar todas as necessidades do mercado de vestuário alemão. O sector das confecções era o terceiro sector económico mais importante de Berlim. Mas, ao contrário da Siemens e da AEG, não tinha fábricas para mostrar. As costureiras, fechadas em casa e obrigando os filhos a ajudar, eram tão exploradas como as actuais trabalhadoras de têxteis no Bangladesh – e igualmente invisíveis.
Também noutros países – Reino Unido, USA – se fazia roupa em tamanhos standard “ready to wear”. Mas as empresas de confecções de Berlim foram pioneiras na captação de um público feminino que até então dependia de Paris.
A época da República de Weimar foi o período áureo do sector da moda de Berlim. A cidade alargara-se para as localidades vizinhas, transformando-se numa metrópole que experimentava novas liberdades na frágil democracia. Surgiu o “Berliner Chic”, e um novo tipo de cliente: as funcionárias dos escritórios – independentes, sem filhos, com algum dinheiro e com vida social. As mulheres emancipavam-se, jovens desenhadoras de moda abriam os seus próprios ateliers e oficinas de chapéus. Estrelas de cinema e jornalistas de moda contribuíam para dar bom nome ao estilo berlinense. E deu-se uma reviravolta curiosa: a moda berlinense era divulgada por revistas que por vezes incluíam moldes que permitiam a mulheres com menos recursos fazerem em casa os seus próprios modelos. Desse modo, mesmo as mulheres de classes sociais com menos rendimentos podiam vestir com alguma elegância. Esta concorrência nas classes mais baixas não incomodava as grandes empresas de confecções, cujos negócios continuavam a ir de vento em popa.
A grande crise de 1929 pôs um travão a esta euforia. A empresa Manheimer fechou em 1931, a Hermann Gerson entrou em processo de falência. Pouco depois os nazis chegaram ao poder, e começaram a tematizar a questão de 90% das confecções de Berlim estarem na mão de judeus. Tudo na moda berlinense - que associavam aos judeus - os irritava: a emancipação feminina, a flexibilidade e a criatividade que andavam de mão dada com o espírito de Weimar, com as novas correntes artísticas, com a Bauhaus, etc. Era preciso criar uma “arte de vestir ariana”. Vestidos com pano para a barriga em vez da cintura estreita, tranças loiras em vez de corte à pagem, criança ao colo em vez de cigarro na mão. Magda Goebbels, que durante algum tempo foi a patrona do Instituto da Moda, viria a comentar com tristeza “com os judeus desapareceu também a elegância de Berlim”. A partir de 1935, os empresários judeus foram proibidos de publicar anúncios nas revistas. No Reichspogrom de 1938 destruíram deliberadamente as suas lojas e deitaram fogo aos seus tecidos atirados para o meio da Hausvogteiplatz. Tal como com a fogueira dos livros, pretendia-se aqui uma cisão. A propaganda nazi tratava a palavra “confecções” com tamanho desprezo, que esta deixou de se usar – até hoje. Muitas empresas foram expropriadas ou compradas por baixo preço aos judeus, para se tornarem “arianas”. Das 2.700 empresas que havia na zona da Hausvogteiplatz, só 98 existiam ainda em 1939. Dessas 98, só uma pertencia ao grupo de empresas pioneiras dos anos 30 do século anterior – e salvou-se porque o seu fundador, Rudolph Hertzog, era cristão.
A história das empresas de confecção de judeus termina com um capítulo macabro: prisioneiros de Auschwitz-Birkenau produziam vestuário para exportação.
Enquanto as empresas dos proprietários judeus eram destruídas, a de Rudolph Hertzog atravessava uma fase de franco crescimento. Entre 1936 e 1945 vendia, para além do vestuário para homens e senhoras, fardas e equipamento do partido. O neto do fundador afirmaria mais tarde, num tribunal de desnazificação, que sempre tinha sido muito comedido em termos partidários. De pouco lhe serviu: a empresa foi expropriada. No edifício, muito danificado pelos bombardeamentos, a RDA viria a instalar uma loja de vestuário para jovens e uma empresa de casamentos.
Curiosamente, o mundo da moda berlinense voltou à vida logo nos primeiros meses após a guerra. Recomeçaram a publicar revistas com moldes para fazer em casa, revistas essas que os aliados autorizavam porque aceitavam o argumento de que se tratava de “uma área importante da vida das mulheres” que devia continuar a existir apesar de “a sua realização material ser um pouco mais limitada do que antes”. Davam-se conselhos para upcycling: como fazer um casaco quente com um cortinado de feltro [imagino que fossem os cortinados necessários para escurecer as janelas no tempo dos bombardeamentos], ou como fazer um turbante com um resto de seda. O último grito da moda pós-guerra eram os vestidos de remendos.
Sem os antigos dinamizadores do fenómeno da moda berlinense – fugidos para outros países ou assassinados nos campos de concentração - a moda berlinense passou a inspirar-se no “new look” de Christian Dior. Já em 1946 se contavam 662 oficinas de confecção com 50.000 empregados. Regressou o sistema de entregar o trabalho ao domicílio. Os modelos eram desenhados em Berlim Ocidental, os tecidos vinham da RFA. A maior parte da produção era destinada à exportação. O bloqueio soviético obrigou a que toda esta actividade dependesse da ponte aérea. Düsseldorf e Munique foram ganhando cada vez mais importância como cidades da moda. A construção do muro deu a última estocada ao sector de confecções de Berlim.
Hoje em dia, quem sai da estação de metro na Hausvogteiplatz e sobe pelas escadas a leste, vê que nos degraus foram inscritos nomes de empresas, e anos. Algumas dizem “até 1939”. Chegando à praça, encontra três espelhos dispostos em triângulo, como nas cabines de prova. É uma homenagem aos empresários judeus que naquele local deram origem ao pronto-a-vestir e à indústria da moda berlinense, e cuja empresas - e a própria vida - foram destruídas implacavelmente pelos nazis.
Em 2018 - só em 2018! - fizeram em Berlim uma exposição que respondia à questão “porque é que Berlim não é uma cidade da moda como Paris ou Londres?”, e também: porque é que as empresas de moda do pós-guerra quiseram manter tão bem escondida a história da ascensão e da queda do fenómeno da moda berlinense? Chamava-se: "tecido em chamas - a moda alemã feita pelas empresas judaicas de confecções da Hausvogteiplatz".


04 novembro 2021

a lógica dos mártires

 



Não conheço a família, mas não me custa imaginar que estejam todos de acordo com esta estratégia de sacrificar os filhos em nome dos seus princípios, e que os miúdos se sintam uns autênticos heróis numa luta que é maior que eles e os eleva para um plano superior da nossa História.

Por sorte estes pais nasceram num contexto que lhes permite combater o poder do Estado - que eles sentem como opressor - sem saírem dos limites legais. Tivessem eles nascido num meio onde a luta pela defesa dos princípios toma outras formas, e não me admiraria que se orgulhassem de serem pais de bombistas suicidas. Uns como os outros: mártires.

Fica como apontamento para um estudo sobre a banalidade do fundamentalismo.


03 novembro 2021

"honradez"

 

Partilho, da Enciclopédia Ilustrada, um texto de Fernando Gomes sobre o tema "honradez": "Sendo a #honradez uma qualidade humana, a verdade é que não foi distribuída igualmente entre homens e mulheres.
Quando se fala de um homem honrado, imediatamente se lhe associam honestidade, justiça, carácter, integridade. Já a uma mulher honrada se ligam recato, decência, decoro, pudicícia, castidade.
Na nossa sociedade, portanto, a honradez do homem encontra-se vinculada a uma postura essencialmente intelectual e positiva, enquanto a da mulher se manifesta através da opressão de atitudes físicas (privação dos prazeres, moderação nas palavras e nos gestos).
Daí que os dicionários nos digam que um homem desonrado foi desacreditado, infamado, injustiçado; e uma mulher desonrada foi desflorada, desvirginada, violentada.
A diferença semântica no que à honra diz respeito está bem patente nos provérbios. Eis alguns com referências à mulher honrada:
Dai-me mãe acautelada, dar-vos-ei filha honrada;
Mulher honrada deve ser calada;
Mulher honrada não tem olhos nem ouvidos;
Mulher honrada é a menos falada.
Deles se conclui que a mulher honrada deve ser muda, cega e surda. Restam-lhe o sentido do tacto (para usar com parcimónia, claro) e o do gosto (certamente para acertar o tempero do jantarinho do marido). Tudo isto com o objectivo de que falem pouco dela.
Até quando?"

touradas



Partilho um texto do veterinário Vasco Reis que li já há algum tempo e me impressionou muito por dizer com todas as letras a verdade sobre as touradas: 


PERCURSO DO TOURO ANTES, DURANTE E DEPOIS DA TOURADA!

O touro vive uns 4 anos na campina habituado à companhia de outros da mesma espécie em espaço largo e com razoáveis condições. Terá já passado por momentos violentos de ferra, de tentas É escolhido para a lide numa tourada. Com ou sem sedação, apartam-no violentamente, com muito uso do bastão eléctrico, para uma manga e enfiam-no numa caixa apertada onde mal se pode mexer. A ansiedade provocada pelo aperto cresce em tremenda claustrofobia ao passar da liberdade e tranquilidade da campina para o "caixote" onde fica confinado, violentamente afastado da companhia importante dos outros bovinos a que o ligam laços emotivos. A seguir cresce o pânico do transporte. Depois a espera, com pouco ou nenhum alimento e bebida. Talvez sendo injectado, a ponta dos cornos será cortada, provavelmente, até ao extremo vivo e muito enervado, ficando extrema e dolorosamente sensível ao contacto. Para não sangrar, cauteriza-se a sangue frio. (Há touros que não resistem a esta operação e morrem de acidente cardiovascular provocado pelo sofrimento). Sofre outras acções destinadas a fatigá-lo, debilitá-lo, retirar-lhe capacidade para a lide. Mais tarde, a condução ao curro escuro da praça de touros. É empurrado a seguir para a arena (beco sem saída) suportando logo o enorme alarido da multidão e da música ruidosa (para se sobrepor ao seus berros), o que ainda mais o assusta, a visão ficando ofuscada pela luz do sol. Depois a provocação, o engano, o cravar das bandarilhas/arpões, que o ferem e magoam terrivelmente, através da pele, e não só, pois frequentemente também aponevroses, alguns músculos, tendões, vértebras, espáduas e, por vezes, até pleura e pulmão são atingidos, quando erroneamente cravado entre costelas. Tudo isto o faz sangrar e sofrer, o enfurece, magoa, deprime e esgota. Cavaleiros ou bandarilheiros massacram-no. Depois, exausto, fisica e psicologicamente, segue-se a (ou as pegas) pelos forcados, A seguir é retirado com as “chocas”. É amarrado e imobilizado por cordas em volta dos cornos. Brutalmente, tal como foram cravados, os ferros são agora retirados sem anestesia, arrancados ou por corte do couro.
No final de tudo isto, o animal é metido no transporte, esgotado, ferido e febril, em acidose metabólica horrível que o maldispõe e intoxica, até que a morte, habitualmente só alguns dias mais tarde, o liberte de tanto sofrimento. Frequentemente fica, até esse momento, encerrado em veículos de transporte num espaço exíguo, sabe-se lá com ou sem alimento e água e submetido a elevadas temperaturas.
E ninguém, independente, pode controlar isso.
PERCURSO DO CAVALO EXPLORADO NO TOUREIO!
O cavalo sofre esgotamento e terrível tensão psicológica ao ser usado como veículo, sendo dominado, incitado e lançado pelo cavaleiro e obrigado a enfrentar o touro, quando a sua atitude natural seria a de fuga e de pôr-se a uma distância segura.
À força de treino, de esporas que o magoam e ferem, de ferros na boca e da barbela - corrente de metal à volta da mandíbula, que o magoam e o subjugam, o cavalo arrisca morte por síncope/paragem cardíaca, ferimentos mais ou menos graves e, até, a morte na arena por ser atingido pelo touro.
OPINIÃO!
É difícil, senão impossível, acreditar que toureiros e cavaleiros tauromáquicos amem touros e cavalos, quando os submetem a violência, risco, sofrimento.
O mesmo se aplica aos aficionados, que aceitam isso
Questiono-me. porque se continua a permitir uma actividade que assenta na violência e no sofrimento público de animais, legalizado e autorizado por lei e até apreciado, aplaudido e glorificado por alguns?
Numa verdadeira democracia não deveria ser permitida nem legalizada a tortura de animais.
Vasco Reis,
Médico veterinário aposentado
Aljezur

01 novembro 2021

o outono nasce do chão?

 


Novo ditado popular: se queres ver o outono, larga cedo o sono.

Saber de experiência feito, porque ontem quis mostrar o outono em Potsdam ao fim do dia, e foi um fiasco que - sei-o já hoje - me vai acompanhar até ao fim do dia.

"Aqui podes imaginar o palácio Sans Souci e os seus terraços, depois em casa mostro-te as fotos / Aqui podes imaginar o Neues Palais, depois em casa vês como é / Ali é a Orangerie, um palácio enorme, mas nem a sombra se vê..."

Da próxima vez, vamos de madrugada.
Ou no verão.

(Ai, mas no verão vê-se muito mais, mas não se vê o outono...)
(Isto a vida aqui para os lados do pólo norte é um bocadinho complicada)
(No equador também não é mais fácil: a noite cai repentinamente a meio da tarde, não há hipótese alguma de imaginar palácios)
(Não era intenção, mas acabei de inventar uma metáfora contra a polarização que se está a instalar entre nós: "Amigos, nem tanto ao mar nem tanto à terra, façam como Portugal, esse país à beira-mar plantado a meio caminho entre o equador e o pólo norte, onde têm muito mais outono por dia.)