A Christina está a preparar a viagem como quem anuncia que somos os VIPs do coração dela. Pensa no que cada um de nós mais gostaria, prepara surpresas, corre as agências de viagens em busca do melhor do melhor do melhor. Diz-me: lago Titicaca, comboio entre Puno e Cusco ("Ah!, exclama o Joachim, todo contente, "uma das linhas panorâmicas mais famosas do mundo!" - eu nem sonhava, mas ela está muito mais à frente, e trata de reservar lugares no lado certo do comboio). Diz-me "descer de bicicleta a estrada da morte" e eu veto. Diz ao irmão e ao pai "paragliding" - os olhos deles ficam a brilhar, acho que esta não vou conseguir vetar. Diz passeio de barco na bacia do Amazonas, diz Pampa: não imagino o que seja, como será - regressaremos desta viagem outros, muito mais ricos. Diz que o nosso hotel em Sucre é maravilhoso. Que vamos fazer uma daquelas viagens intermináveis de autocarro, e que já resolveu o problema dos sacos-cama.
Faz tudo isso para nós, e o maior presente não é o seu trabalho e o entusiasmo que nele põe, mas esta revelação: a nossa filha cresceu e está-se a tornar uma mulher maravilhosa.
Quanto mais leio, mais me parece que só sei que nada sei. O sobressalto à volta do Chipre deu-me uma grande lição: cuidado com o modo como adjectivamos (malditos mercados, malditos bancos), cuidado com o que desejamos (hair cuts nas dívidas públicas dos países, os bancos deviam era ir todos à falência). A realidade mostra-se bem mais complexa e dolorosa do que as nossas tiradas simplistas quando olhamos apenas para um ponto da questão.
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Helena, Quando li o seu post fiquei com a sensação de algo não batia certo, tal como só 20% dos depósitos estarem nas mãos dos russos. Acabei de ler um artigo do Krugman que fez as contas e que também teve o mesmo feeling. http://krugman.blogs.nytimes.com/2013/03/21/cyprus-the-sum-of-all-fubar/ Outro aspecto que refere no post seguinte - a proveinência de 1/3 do financiamento por parte dos bancos cipriotas, não é uma medida inédita. A Irlanda teve um programa de montantes superiores ao nosso, com a particularidade de que 1/4 desse valor veio de uma contribuição interna. Ambas crises, Irlandesa e Cipriota, se devem a crises de sectores financeiros que possuem dimensões muito superiores aos PIBs dos respectivos países. Por mim, o ideal deixava-se falir os bancos em questão e segurar os depósitos até 100 000 euros aos residentes, com intervenção do BCE, o que se deveria ter feito ao BPN. Há mais bancos no mercado. Mantinha-se o principio da segurança dos depositantes de acordo com que foi estabelecido em 2008. 100000 euros, por banco e por titular, quem tiver mais do que isso, que diversifique os bancos. Quem tiver muito mais do que isto, que invista na economia local. Quem tiver muito mais do que isto, e o colocar num depósito a prazo num só banco, que se responsabilize pelo risco que tomou no remanscente dos 100 000 euros. A regra não é de hoje, é de 2008 e vem escrita em todos os contratos de depósito. Outro aspecto, se os Russos não tivessem culpa na crise criada, porque prometeram adiantar de imediato 2,5 mil milhões de euros? (empréstimo que ameaçam não efectuar caso aceitem o plano Europeu). Quanto ao desamparo europeus nos últimos nove meses, O BCE tem vindo a comprar obrigações cipriotas nos OMTs. Por essas e por outras, Draghi merecia um pedacinho no céu (só não o deve ter ainda porque ainda não conseguiu que PT tb tivesses direito aos OMT, mas aos poucos ele está a consegui-lo e não o Gaspar como tanto nos querem fazer crer) Na semana passada no Les Echos vi um artigo muitíssimo interessante sobre a geopolítica do conflito cipriota. Na eventualidade de chipre poder extrair gás, isto só acontecerá lá para 2019. Entretanto a Gazprom, face ao insucesso constante da europeização da turquia, tem aproveitado a insatisfação turca perante os europeus e acentuado as suas acções de prospecção no sul da Turquia. A construção do gasoduto que traga gás do Norte de África para a Europa, perante os conflitos jihaidistas cada vez mais é uma miragem. No entanto no mediterrâneo, onde as descobertas têm sido mais frutíferas, a Turquia tem a maioria das probabilidades de se tornar o melhor spot. Há algumas empresas europeias que têm licenças, mas a Rússia tem intenção de monopolizar a distribuição e tem vindo a adquirir algumas posições europeias. Resta Chipre, que ironicamente possui as reservas mais rentáveis no lado turco, e algumas menos rentáveis no lado grego. Para as empresas europeias de Extração de gás, que na sua maioria tb já investiram na Turquia, poderem extrair em Chipre, fragilizariam o seu poder negocial perante os Turcos. A Gazprom, segundo Les Echo, pode estar a fazer jogo duplo, de promessa de prospecção em Chipre, mas face a um impasse turco, poderão deixar CHipre em Standby, o que me faz lembrar um pouco a eterna promessa da extração de petróleo em São Tomé e Príncipe. A Europa, essa... fica assim encurralada energeticamente pelos Russos. Aí os eternos receios alemães perante uma crise inflacionária terão razão de ser.
É tudo demasiado complicado e perigoso para se tomar um partido por um lado ou por um outro. Depois de ler o artigo do Les Echos, que não estou a encontrar, fiquei com a sensação de que perder 6% num depósito a prazo era mesmo um mal menor.
Parece-me que vou ter de deixar aqui o fato de mergulho - era suposto levar metade da mala vazia para trazer coisas da Christina, e já está atafulhada só com as minhas...
Páscoa em Copacabana, comecei a fazer as malas: roupa interior de ski, fato de mergulho - diz que a água é mesmo gelada. E o biquini, que a esperança é a última a morrer...
Tenho estado a tentar compreender porque é que não me choquei tanto com a condição imposta ao Chipre, de ser o próprio país a arranjar 1/3 do montante pedido ao grupo euro. Não vou chover no molhado sobre tirarem quase 7% às pequenas poupanças, e não vou averiguar se a ideia de taxar os depósitos foi imposição europeia ou proposta do governo cipriota. O que me interessa agora é perceber porque é que a mim, pessoalmente, não incomoda a ideia de parte da solução ser encontrada no próprio país, e de taxarem as poupanças dos particulares. Mais: porque é que, quando ouvi falar sobre a medida para o Chipre, não fiquei com medo de que a seguir vão taxar as minhas próprias poupanças? É fácil: porque já antes sabia que isso me pode acontecer - corrijo: que provavelmente isso me vai acontecer. Desde a falência dos bancos islandeses que sei que nada é seguro no sistema bancário. Até antes disso: na primeira vaga da crise financeira, quando vários bancos alemães estavam prestes a falir, o governo foi às caixas de poupança (as Sparkassen) buscar todas as suas reservas. Quem me contou foi um amigo, director numa Sparkasse: "Andámos nós estes anos todos a trabalhar com critérios e responsabilidade, enquanto os outros usaram o dinheiro como se estivessem no casino; agora viu-se o resultado, e a Merkel veio-nos extorquir as nossas reservas de segurança, dois mil milhões de euros, dizendo que temos de ser solidários. Paga o justo pelo pecador, e não há nada a fazer." Uma pessoa ouve isto, ouve repetidamente a história de que as poupanças dos particulares têm sensivelmente a mesma dimensão da dívida do Estado e que em algum momento vai ser necessário fazer um reajustamento, e vai-se habituando mesmo à ideia de que, neste país, "intocável" não é um atributo absoluto da propriedade privada. Se for necessário, para evitar um mal ainda maior, irão com certeza taxar-me as poupanças, e o que mais se lembrarem.
A quick run-down on the impressively stupid handling of the "Cyprus bailout" by the EU.
And, before we go on, we should note that the on-the-ground situation for visitors and tourists is perfectly fine – Cypriots are not prone to rioting and even though the banks are closed, the ATMs still work. We are all at work and things are otherwise proceeding normally.
First, some background that most people know partially but not completely:
1. The Cyprus sovereign has not been particularly profligate. Debt to GDP as late as last year was in the low 70% range, lower than Germany, etc. While the last Communist government ran unnecessary fiscal deficits, the new government was elected with a more or less ‘austerity’ orientation
2. The issues with the Cyprus sovereign have come from the bailout of the banking system.
The banking sector in Cyprus is being portrayed in the mainstream press as a monstrosity of risky banks for Russian mobsters. I think it is important to put it in context:
(a) Banking assets are about 7.1x GDP relative to the EU average of 3.5x GDP and similar to Ireland and Malta.
Luxembourg, by contrast, where Anglo-Saxon firms do their tax arbitrage has banking assets of 21x GDP. So, Cyprus’s exposure is similar to that of an economy that has large financial services sector, but that still has a real economy too. It is not Luxembourg nor the Cayman Islands nor the Bahamas nor the Channel Islands and so on.
(b) Further to this point, 20B of the 70B of deposits are non-EU (aka Russia/CIS) which, while meaningful (28%), hardly dominate the system
(c) The banks are almost 100% deposit funded (something that regulators across the world have been encouraging because deposits tend to be sticky if you take care of them).
3. Q: So, given all that, why do the banks need a bailout?
A: Primarily due to their exposure to Greece, Cyprus’s neighboring economy, both on the commercial side, but most importantly and most critically because of the Greek Government Bond EU restructuring (this accounts for about 40-50% of the capital needs) which Cyprus signed up for in the spirit of EU / Greek solidarity. It was understood at the time that there would be some protection in exchange for this later on otherwise, Cyprus should have taken a harder line at the time such as ensuring the that Greek branches get covered by the Greek bailout.
4. Not all the banks are in the same condition.
(a) Cyprus has two money-center type banks: Laiki (Popular) Bank and Bank of Cyprus.
(b) Laiki was purchased by a Greek vehicle (Marfin Investment Group) backed by Gulf money. Marfin’s purchase of Laiki took Laiki from being a fairly conservative local bank to being highly exposed to Greece. Laiki is definitely insolvent and needs to be restructured.
(c) Bank of Cyprus has been more conservative vis-a-vis Greece, but still has meaningful exposure. It is conceivable that, given time, Bank of Cyprus could survive.
(d) Beyond the main two banks, there is Hellenic Bank (a much smaller bank with much less Greek exposure), Cyprus Development Bank (no Greek exposure), the Co-ops (no Greek exposure) and the Cyprus subsidiaries of foreign banks (aka, Russian, English, etc banks), also with no Greek exposure.
(e) All the local oriented banks (BoC, Laiki, Hellenic, Coops) have exposure to the local real estate market that went through a bubble during the 2000-2009 period. This exposure however is not short-term and could be resolved over the period of years. It is a problem, not a crisis, and is offset by the fact that the two main banks have quasi-monopolistic earnings power locally. Given the time and some financial represssion (a la the United States) and the local issues would be manageable.
Now, let’s go to the current situation:
5. Three weeks ago, Cyprus elected a pro-EU, pro-Merkel, pro-austerity president (Anastassiades) to replace the anti-EU, anti-Merkel, anti-austerity president it previously had (Christofias). The population recognized the need for austerity and sent to Europe the person it believed would be the most acceptable to the troika.
6. Last Friday, on his first visit to the troika, Anastassiades was ambushed when the troika said to him: “Agree to depositor bail-in as part of the financial package or the ECB will cut off funding to Laiki on Tuesday”causing a surprise collapse of your banking sector.
Unsurprisingly he agreed under that 4am-in-the-morning pressure, though Parliament is now doing its democratic duty and pushing back. In the meantime, the banks are on ‘bank holiday’. The Troika is re-spinning the story, but all you need to do is read the newpaper articles from Saturday and the public statements on Saturday to see that this was the case.
7. Now, it is important to note that the Tuesday deadline is completely arbitrary. Cyprus applied for a bailout nine months ago and has a major bond payment this summer, so the only reason for the ‘rush’ was to ambush him on his first week on the job so to speak and force passage of the bill through Parliament before markets open. In the spirit of this ambush, Russia, which has been asked to restructure its sovereign loan to Cyprus, and has been told that they would be a part of any bailout found out about the approach in the newspapers which did not improve their mood.
The Important Stuff:
Now, let’s get to the meat of the situation. Most of the international analysis of the ‘bail-in’ has been, quite frankly, very sloppy, along the lines of ‘depositor bail-ins are not ideal, but Cyprus has naughty Russian money-launderers so serves them right – it is only fair that these fatcats pay for the bill’.
While superficially pleasing, this is misguided along half a dozen lines.
8. You never, ever, ever, hit insured depositors.
That damage is done and it is EU-wide. There is now precedent that in the EU, deposit insurance can be end-runned via a ‘wealth tax on the deposits you had in the bank at 4:59pm on Friday afternoon’. While this may be legally not a violation of deposit insurance (aka the bank did not fail, the government grabbed your money), it is a violation of the spirit and will be challenged both under the Cypriot constitution and the European Court of Human Rights.
It is also completely clear that this was not something that the Cyprus government invented – it was forced on them by the Troika. As late as the prior week, both the President and Minister of Finance said: “No depositor haircuts — this is the stupidest idea in the world for the EU”
Whether or not there is a bank run tomorrow in Spain, the system damage has been done — look for funding cost to rise for any risky EU bank next time there is a hint of a crisis. The funding costs will be orders of multiples higher than any ‘savings’ here.
9. You should basically never hit non-insured depositors either. For all its free market capitalism, the US extended $13T of guarantees to things like money-market funds to avoid outcomes like this. But in the EU, they are willing to risk lack of trust in the banks over 5B euros.
10. There is nothing resembling a proper order of default here. As far as I can tell, people who have not been wiped out yet include: bank shareholders, bank bond holders, sovereign bondholders.
The rationale, broadly speaking, of why they have not been hit is “It is hard and they might sue us” as if restructuring and insolvency was otherwise a dinner party or we might only save 1-2B that way (as if that is not meaningful in the context of a 5B haircut…)
11. What is even more absurd is that this is not a bail-in of Depositors of Bank A to rescue Bank A, but a bail-in of Depositors of Banks A-Z to rescue Depositors of Bank A (Laiki), B (Bank of Cyprus) and C (maybe some small amounts to the others).
This is one of the reasons that the Russians are howling mad. There are 3B dollars of Russian money in a subsidiary of VTB in Cyprus, a perfectly solvent Russian bank. As far as I can tell, they will be haircut in order to bail out Laiki, a bank that they never deposited money in. On the contrary, the depositors in Laiki’s branches in Greece (aka a totally insolvent bank in a much more insolvent sovereign) will not be haircut.
There is no conceivable creditor prioritization in which this makes sense nor does it teach you anything about moral hazard or fairness. In fact, the only thing it might teach you is: “only put deposits in countries that control their Central Bank” because there is no logic or analysis that could have predicted ex ante that a depositor in VTB-Cyprus was more likely to be haircut than a depositor in Laiki-Greece (the latter being 100x more risky than the former).
12. We should also address the “Money Laundering” point. There might be some true money laundering in Cyprus just like there is at dozens of Western banks (HSBC, Standard Chartered, and so on).
There are also legitimate tax reasons for investment in Russia to be routed through Cyprus (BP Russia is also a Cyprus company for example) for well-known and transparent tax treaty reasons, no different than Ireland, Luxembourg, Netherlands, Bahamas, Delaware, Nevada and so on. Someday the whole world financial system might be restructured so there is no tax arbitrage, but that day is not today and why the EU is so “concerned” on Putin’s behalf about whether or not Russian companies are tax-arbing their offshore operations is beyond me.
When the EU figures out how to prevent Google, Apple, Starbucks and friends from operating in their countries and routing all the earnings tax free to the Caymens through a double-Irish Dutch sandwich, then perhaps they can help Putin out with his tax collection work. In any case, Putin certainly does not seem to appreciate the ‘assistance’ here.
Germany is having a completely surreal domestic election discussion about not bailing out wealthy Russians as if this was the key issue at play here or even an issue at all. Put Laiki in resolution and treat it like a normal bank bankruptcy and see who wants to bail it out – you might be very surprised to see that the Russians do, in fact, want to buy it themselves.. In any case, it certainly does not suggest that we should blindly attack depositors in Cyprus banks whose only ‘crime’ using the same banks as people who may or may not have over-optimized their Russian tax bill any more than you should haircut a retail HSBC customer because HSBC facilitated Mexican drug cartel money.
13. “Large” Account holders:
The large account holders (large being defined as above 100K) are not just fat-cat hedge funds (as if 100K makes you a fat-cat) but the operating accounts of basically every business of size in Cyprus.
BoC and Laiki are the whole money center system of Cyprus and basically you cannot transact business in Cyprus if you are of any size and avoid them.
So, the chaos that is going to emerge when checking accounts, payroll accounts, escrow accounts, pensions, trusts, payments-in-transit and so on are arbitrarily haircut is going to be massive – both in disrupted business operations and small business bankruptcies, but also in thousands of legal disputes.
14. Even despite all the arbitrariness above, at least it solves the problem right???
Absolutely not. You will haircut 10% of deposits on day 1 to make up a capital shortfall and promptly watch 30% of the rest of the deposits flee the country, leading to a much bigger capital hole that Europe will have to fill.
In addition, this will severely cramp Cyprus’s main economic driver the last 2 years (selling real estate, tourism and accounting services to Russians) so any concept that it will make the debt “more sustainable” comes from a lunatic place in financial modeling. Cyprus is a 78% services-based economy. So, if you assume that GDP growth is exactly the same before and after you confiscate the assets of your clients, well, I have a solvent Cypriot bank to sell to you…
This is so obviously risky, that the more paranoid commentators believe it is a deliberate plan by Germany to end up as a multi-deca-billion creditor to Cyprus to which the pledging its oil and gas reserves is the only solution. I don’t think this is the case, but boy it is getting hard to believe that they are this short-sighted.
15. We are not suggesting that Cyprus should not feel austerity. If you want to do a wealth tax, then pass a wealth tax, calculate it properly (on wealth, not on liquidity on a given day) and collect it. Or issue subordinate government bonds tied to gas revenue to the local population. And restructure everyone below on the priority chain. And ask Russia to contribute to the bail-out as part of protecting its depositors. Or do a proper workout of Laiki (it is much easier to make the case to the Russians that depositors in Laiki should get haircut given that its financial insolvency has been common market knowledge for a while). And so on.
But don’t arbitrarily, in the dark of night, out of the sight of democratic processes, try to make a grab into the whole banking sector. It makes a mockery of rule of law and the Eurozone.
Ontem, o noticiário da noite na ZDF (heute journal) explicava que a não-aceitação das condições do grupo euro representa sobretudo um gesto de salvaguarda da honra e da dignidade dos cipriotas. Depois entrevistava o ministro das finanças alemão, que dizia que é ilógico meter dinheiro num país que insiste em prosseguir um modelo económico falido. Os cipriotas podem decidir não aceitar as condições do grupo euro, mas não podem obrigar este grupo a tomar decisões que para ele não fazem sentido. Finalmente, o locutor avisava que, apesar de o peso da economia cipriota no conjunto europeu ser de 0,2%, não se sabe bem que consequências podem advir de uma onda de insegurança no sistema financeiro, e o que poderia acontecer na já tão martirizada Grécia, principal parceiro do Chipre.
No noticiário da ARD (mais conservador), o mesmo ministro era entrevistado e dizia mais ou menos o mesmo. À pergunta "no caso da recusa cipriota das condições do programa, deixariam o país ir à falência?" ele respondeu (vou abreviar de uma forma grosseira) "essa questão está mal formulada - o Chipre já está na falência." Seguiu-se um comentário que sei que vai provocar celeuma, mas parece-me importante mostrar outras perspectivas. Passo a traduzir a opinião de Rolf-Dieter Krause, correspondente da ARD em Bruxelas:
Pacote de ajuda da UE recusado O Chipre joga - e espera que a Europa pague De algum modo podemos imaginar como é que o Chipre chegou a este atoleiro, do qual espera agora ser salvo. O Parlamento cipriota está a jogar, como fez durante décadas com o seu sistema bancário sobredimensionado - até ao seu descarrilamento. Já é surpreendente com que à-vontade o Estado espera que os contribuintes europeus assumam as consequências dessa jogatana. Subentende-se que haverá aqui um cálculo: a falência dos bancos e do Estado acarretaria danos à zona euro. Contudo, há muitas dúvidas a esse respeito. A falência só traria danos de vulto à Grécia, que seriam limitados com os mecanismos de protecção que já existem. Não, a presença do Chipre na zona euro é desejada - mas não é essencial, e não constitui um perigo para ela. Apresentação diletante do pacote de salvação Esse facto torna evidente a generosidade da oferta europeia, apesar de ter sido apresentada de forma tão diletante que provocou imediatamente uma reacção de medo. Sem ajuda exterior, os clientes dos bancos cipriotas iriam perder provavelmente todos os seus depósitos. Com esta ajuda, pelo menos salvam 90%. Outros rezariam uma acção de graças, mas no Chipre chama-se a isto "genocídio financeiro". Perdão, como disse? Se o grupo euro ceder neste ponto, perde toda a credibilidade e torna-se vulnerável a novas chantagens. Infelizmente, o ministro das finanças alemão não se exprimiu de forma suficientemente clara a este respeito. Ninguém deseja a falência do Chipre, mas se esse país faz tanta questão de avançar nesse rumo, não deve ser impedido. Seguir-se-iam dias turbulentos, mas suportáveis; para a higiene política na Europa seria muito positivo. Ia deixar bem claro que a responsabilidade pelo seu próprio destino não pode ser atirada para os outros. Começa a ser necessário deixar isso claro.
Parece que começa hoje, mas esqueceram-se de avisar a paisagem da minha janela. Ontem o noticiário da ARD falava de um fotógrafo que gosta de fotografar a natureza no inverno. Sortudo: se as coisas continuam como estão, este ano consegue trabalhar mais de nove meses no que gosta...
Uma reprodução de Angela Merkel e Nicos Anastasiades no Carnaval de Limasol, Chipre, em março de 2013.
AFP
O plano de ajuda lançado pelo Eurogrupo, tendo como
contrapartida um imposto sobre os depósitos bancários em Chipre,
suscitou violentas reações. A Alemanha é frequentemente acusada de ter
querido castigar um país em dificuldades. No entanto, não é a chanceler a
responsável pelos erros da ilha, recorda um economista.
A culpa por esta última crise do euro não é dos cipriotas, é
de Angela Merkel e do seu Governo, e não percam tempo à procura de
explicações. A culpa não é de um setor bancário hipertrofiado que chegou
a deter 128 mil milhões em ativos, num país com um PIB de 17 mil
milhões: é de Merkel.
A culpa não é dos bancos que não hesitaram em aceitar 21 mil milhões de oligarcas russos e outro tanto de milionários árabes (de difícil justificação), sem fazer perguntas, como chamaram a atenção, em novembro de 2012, os serviços secretos alemães.
Estavam a praticar o International Personal Banking e a "otimização
fiscal" e Merkel, em contrapartida, é de moral protestante.
A culpa não é sequer dos gestores que, por patriotismo (Chipre é
metade grego), investiram 50% – sim, 50% – em obrigações gregas, apesar
de saberem que corriam o risco de perder tudo. Não: é de Merkel.
A culpa não é de Sigmar Gabriel, o simpático líder social-democrata
alemão, que retirou à chanceler todas as hipóteses de bater em retirada:
"Não posso imaginar os contribuintes alemães a salvarem bancos
cipriotas, cujo modelo de negócio se baseia na ajuda à evasão fiscal”.
Não: a culpa toda é de Merkel, claro.
Acabar com a mama do sistema financeiro
Tão-pouco é do patético ex-Presidente cipriota, o comunista Dimitris
Christofias, um autocrata formado no Komsomol soviético (daí, talvez,
tantas contas russas), que nem sequer consultava os seus ministros, o
parlamento ou o Banco Central. The Guardian, um diário insuspeito de animosidade, acusou-o, em dezembro,
de conduzir o país "para uma situação lamentável". Foi Christofias quem
teimou em manter no porto o barco com armas para o Hezbollah, que
explodiu em 2011 e levou pelos ares a única central elétrica do país.
Também apoiou o presidente de um dos grandes bancos, o Marfin Laiki,
quando este transferiu a sua sede para a Grécia, apesar da oposição do
Banco Central. A sua última parvoíce foi não negociar a integração da
sua banca com a banca grega, quando foi decidido o famoso cancelamento
parcial. Aí, este génio da economia, afundou o país. Mas não: a culpa é
de Merkel.
Tão-pouco parece que a responsabilidade seja do brilhante sucessor, Nicos Anastasiades,
um dirigente fraco que aposta na cartada de "culpar a Europa por tudo o
que tenho de fazer". Anastasiades apoia-se em meias verdades para
depauperar os depósitos do seu povo, em vez de começar por apresentar a
fatura aos acionistas e aos credores dos bancos. Mas, claro, isso
implicaria acabar com a mama do sistema financeiro que criaram e do qual
esperam continuar a viver. Schäuble recordou ontem que o assalto aos
depositantes não é uma ideia alemã. Mas não: a culpa é de Merkel.
E é também de Merkel, por permitir que o tal Anastasiades jogue agora
com o prestígio da zona euro, como antes fez Papandreu. E porque, há
quatro anos, não foi firme e não vetou a entrada de Chipre na moeda
única. Porque se deixou enganar pela certificação da OCDE de que eram
cumpridas 40 normas antibranqueamento. E, já agora, de Christine
Lagarde, do FMI, que a apoiou. Recordam-se de quem entregou ao ministro
grego a lista de evasores fiscais,
aquela que se perdeu? O que não saberá Lagarde sobre a banca cipriota!
Mas não: a culpa é de Merkel. E é melhor que seja, porque qualquer outra
consideração deixar-nos-ia desprotegidos perante a nossa própria
ignorância.
Traduzo mais um artigo, desta vez do Deutsche Wirtschafts Nachrichten (um site informativo organizado por Michael Maier, bastante crítico em relação ao euro), sobre a posição do governo alemão em relação às medidas propostas para o Chipre:
Merkel: cobrança imposta no Chipre é um "bom passo"
A chanceler alemã Angela Merkel entende que a cobrança forçada a todos o cipriotas é uma condição para que "não sejam apenas os contribuintes dos outros países" a salvar o euro no Chipre.
Na conferência de delegados da CDU em Grimmen, Angela Merkel foi eleita por unanimidade para cabeça de lista de Mecklenburg-Vorpommern para as próximas eleições legislativas.
Merkel aproveitou a oportunidade para exprimir a sua posição perante a ajuda ao Chipre. Afirmou que é positivo que todos os que têm uma conta bancária no Chipre sejam chamados a contribuir para a resolução do problema. Desse modo, "os responsáveis são parcialmente envolvidos, e não apenas os contribuintes dos outros países". Merkel: "É um bom passo, que com certeza nos facilita a decisão de ajudar o Chipre."
Não comentou o facto de estar a identificar os pequenos aforradores cipriotas como "responsáveis" pela crise do euro no Chipre.
Numa entrevista à ARD, o ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble, defendeu a participação de todos os clientes dos bancos. Durante as negociações em Bruxelas, a Alemanha e o FMI deixaram ao critério dos cipriotas a decisão sobre a repartição dessa cobrança. Os cipriotas terão feito questão de cobrar também aos pequenos aforradores, para evitar que a economia começasse a vacilar. O presidente cipriota tinha dito no Sábado que a delegação tinha sido posta perante factos consumados.
As afirmações de Merkel e Schäuble revelam que eles estão dispostos a jogar a carta do nacionalismo nas próximas eleições legislativas: acreditam que o que mais irrita os alemães no processo de salvação do euro é os alegadamente preguiçosos do Sul estarem a ser salvos pelos alegadamente laboriosos alemães.
Os dirigentes da CDU estão a esquecer que os alemães sabem muito bem que esta permanente salvação do euro se destina a salvar os bancos e o sector financeiro. Na Grécia, mais de 80% dos "pacotes de ajuda" destinam-se ao serviço da dívida dos credores internacionais.
Os políticos precisam mais dos bancos do que os seus eleitores: os bancos ganham com a política europeia de dívidas. Apesar dos "programas de poupança" que duram já há vários anos, as dívidas dos Estados cresceram em vez de diminuir.
Neste programa de salvação do Chipre, contudo, desiste-se de todos os princípios básicos de um Estado de Direito.
Estas medidas provocaram na Alemanha uma forte insegurança. Círculos governamentais confirmaram ao Deutsche Wirtschafts Nachrichten que os alemães não precisam de temer pelos depósitos com as suas poupanças.
No idílio de Grimmen não foi ainda necessário que Angela Merkel desse tais garantias.
Na segunda-feira o euro estava a dar sinais claros de perda de valor na Ásia.
***
Traduzi este texto porque me pareceu interessante mostrar que na Alemanha também se encontra um discurso muito crítico em relação aos passos para salvar o euro.
Quanto ao conteúdo:
- Chamar "responsáveis" aos pequenos aforradores cipriotas é tão absurdo, que me pergunto se foi um lapso. É simplesmente inadmissível. Imagino que a Angela Merkel quisesse dizer "beneficiários" do programa de ajuda, e não "responsáveis da crise". Vou estar atenta a reacções a esta frase. Por enquanto, não encontrei nenhuma.
- Não tive ainda notícias dessa "forte insegurança" na Alemanha. Nem de uma corrida aos bancos, nem nada. Vou estar atenta. Na realidade, muito mais insegurança provoca o que tem acontecido nos últimos anos com frequência: mal o Parlamento autoriza um novo pacote de ajuda a um país em crise, surge uma crise noutro país, ou o que acabou de ser ajudado descobre que afinal precisa de ainda mais dinheiro, ou um país em crise vai a eleições e opta por votos de protesto que provocam um impasse político, etc. Tudo isto é muito mais assustador do que saber que em qualquer momento nos podem tirar parte dos depósitos bancários. Afinal de contas, já sabemos há anos que o euro corre o risco de desaparecer, com ele o sistema bancário, e com ambos todas as nossas poupanças e o bem-estar generalizado que temos gozado há muitos anos.
Neste momento, o capital que a Alemanha aplicou para ajudar os países da crise do euro já ultrapassa o total dos impostos federais num ano. O que aqui se diz é que até pode ser um bom negócio, se os países que receberam o dinheiro pagarem, devido aos juros. Mas se não pagarem...
O governo diz que o volume total envolvido (pelo qual os contribuintes alemães terão de responder) é 310 mil milhões de euros. Mas há quem faça outras contas, e diga que pode ir aos 771 mil milhões, ou até mais. (aqui, em alemão)
Estamos nisto.
A propósito da extorsão aos depositantes bancários no Chipre, começo por afirmar o meu repúdio pela taxa aplicada às pequenas poupanças: 6,75% a quem tem menos de 100.000 euros no banco, contra os 10% para depósitos acima daquele valor. Espero que corrijam essa enorme injustiça, estabelecendo um montante isento da taxa para proteger os pequenos aforradores, e aplicando taxas crescentes, conforme o total depositado.
Dito isto, confesso que as reacções que tenho lido a esta medida me surpreendem. Deixem-me fazer aqui algumas perguntas, a ver se entendo a lógica:
- É melhor tirar 10.000 euros a quem tem 100.000 no banco, ou 400 a quem passa um recibo verde de 1.000?
- No Chipre, os bancos estão em risco de ir à falência. Se isso acontecer, as pessoas vão perder todo o dinheiro que lá meteram. Se o Estado injectar dinheiro nos bancos para os livrar da falência, está a usar o dinheiro dos contribuintes para evitar que os depositantes bancários percam o seu dinheiro. É assim, não é? Na Islândia, o povo disse que não queria assumir essas dívidas, e os depositantes perderam todo o dinheiro que tinham nos bancos. As pessoas que estão contra a ajuda aos bancos cipriotas envolver uma cláusula de expropriação de 10% dos depósitos bancários também acharam mal que a Islândia se tenha recusado a pagar as dívidas bancárias aos clientes dos bancos falidos? Parece-me que, por uma questão de coerência, deviam exigir da Islândia que pagasse os depósitos mal parados até ao último cêntimo.
- A reestruturação da dívida grega (o corte de 50% da dívida e a redução dos juros sobre o restante) é um dos motivos para as graves dificuldades que os bancos cipriotas estão a passar, porque perderam mais de metade dos activos ligados a essa dívida. As pessoas que na altura disseram que era preciso envolver os credores na solução do problema da Grécia, agora, perante as dificuldades no Chipre, continuam a dizer que esse corte foi uma óptima ideia?
- Se não forem ajudados, os bancos cipriotas vão à falência - e os depositantes perdem todas as suas poupanças. Será que isto é uma amostra do que aconteceria à escala europeia (ou até mundial) se os Estados com dívidas descontroladas dissessem "que se lixem os mercados e os bancos, não pagamos"? Se nos custa que os depositantes dos bancos cipriotas percam estes 10%, que diríamos sobre os depositantes de todos os bancos europeus perderem 100%?
- Como se equaciona a solidariedade europeia? Que ajuda se deve dar a um país que tem funcionado como um paraíso fiscal, com inúmeras empresas que lá instalam caixas de correio para não pagarem os impostos devidos no seu país, e cujos depósitos bancários estão cheios de dinheiro sujo proveniente sobretudo da Rússia?
- Relativamente ao dinheiro sujo: a afirmação de um deputado socialista alemão, Carsten Schneider, "não usaremos o dinheiro dos contribuintes alemães para garantir os depósitos nos bancos cipriotas que resultam de obscuros negócios russos", é reprovável?
- Os bancos cipriotas devem ser salvos? Caso afirmativo: com o dinheiro de quem?
- Se o Chipre sair do euro e tentar sair desta crise com uma moeda nacional, como é que os depositantes dos bancos falidos vão recuperar os seus euros?
Comentário: a corrida às poupanças dos clientes bancários
Clientes bancários no Chipre: confiscação parcial das poupanças
Trata-se de justiça, mas também de pragmatismo: o Chipre tem de expropriar parte dos depósitos bancários do país, para reduzir as suas dívidas. Um passo na direcção certa. E agora começa a quarta fase da crise do euro.
Quando, daqui a umas décadas, os historiadores dividirem a crise do euro em segmentos, provavelmente falarão deste 16 de Março como o início da quarta fase. Por pressão dos outros estados europeus, o Chipre vê-se obrigado a expropriar parte dos depósitos bancários, fazendo-os participar no saneamento financeiro do país, que em grande parte foi arrastado para a crise devido ao seu sector bancário sobredimensionado. Uma imposição drástica, que não afecta apenas os oligarcas russos, que gostam de guardar o seu dinheiro na ilha mediterrânica, mas também as poupanças da classe média cipriota. Durante o fim-de-semana o Parlamento vai discutir à pressão as leis de expropriação, as contas bancárias serão congeladas. E a que cenas assistiremos na terça-feira, quando os bancos cipriotas reabrirem? Provavelmente cenas que normalmente associamos a estados sul-americanos em crise, e não aos estados do Sul da Europa.
Contudo, o envolvimento forçado dos aforradores é mais um passo na direcção de mais pragmatismo e mais justiça, que também estiveram presentes nos outros marcos da crise do euro.
- No princípio, na fase 1, dominava a crença de que a crise se resolveria com quadros de garantias e programas de austeridade. Por outras palavras: os contribuintes de toda a zona euro deviam assumir a carga total. Uma opção que em grande parte foi sugerida aos políticos pelo lobby da indústria financeira internacional. Esta opção lançou o Sul numa duradoura recessão e provocou desavenças entre os cidadãos do Norte e do Sul da Europa.
- A fase 2 começou com o primeiro corte na dívida grega. Com o reconhecimento - correcto - de que os credores também tinham de suportar parte da responsabilidade: todos os bancos e companhias de seguros que ao longo dos anos tinham descuidadamente concedido crédito aos países do Sul da Europa.
- A fase 3 foi marcada pelo entretanto lendário discurso de Mario Draghi, o chefe do Banco Central Europeu. No Outono de 2012 anunciou que os Estados que estão em processo de reformas receberão apoio do BCE sob a forma de compra ilimitada de títulos da dívida. Uma violação de todos os princípios monetáriostradicionais - mas que, a posteriori, se revelou ser a medida certa: o gesto pragmático numa situação de extrema necessidade.
Já se desenham as próximas quebras dos tabus
Chegou a vez da expropriação dos clientes dos bancos. Por enquanto, não representa mais que uma contribuição simbólica para a resolução da crise do Chipre, mas representa também o sinal certo: para os contribuintes da Europa, é uma questão de justiça que eles não tenham de suportar sozinhos os custos da crise. Só assim se consegue evitar que a crise do euro conduza a uma desconfiança europeiaainda maior.
É uma questão de justiça para os cidadãos, e de pragmatismo para os gestores da crise do euro. Os contribuintes, sozinhos, não conseguem salvar a Europa da armadilha das dívidas. Quem quiser resolver o problema da zona euro, tem de ir procurar dinheiro suplementar lá onde o pode encontrar: nos detentores de títulos, no BCE, nos clientes e - espera-se - em breve também nos proprietários dos bancos em crise, e ainda nos cidadãos milionários do Sul da Europa. Porque já se desenham as próximas quebras de tabus: na Espanha, milhares de milhões do ESM serão aplicados no saneamento dos bancos em crise, o que torna ainda mais importante o envolvimento dos accionistas e dos credores desses bancos. E os problemas da Itália poderiam ser aliviados se os seus cidadãos mais ricos fossem chamados a contribuir por meio de um imposto sobre a riqueza. Evitar recorrer a qualquer uma destas fontes de financiamento, por temer alegadas consequências catastróficas nos mercados financeiros, é uma posição que no passado já se mostrou frequentemente insustentável.
*** Alguns comentários dos leitores: * Já não é possível travar o fim do euro. Ainda este ano vai acabar. * Aha, fase 4. Nem ouso perguntar como será a fase 5, a fase 6 e a fase 7...
* Será que a Mamã & Cª conseguiram levar a sua avante? Será que a nova arma secreta da política da UE é a expropriação dos clientes bancários = cidadãos? Ora então, boa noite, UE + euro. Vamos é sair da união dos incapazes. Já.
* Por enquanto, os artigos sobre este tema ainda têm a palavra "Chipre". Curiosamente, já nem reparo nela. Prevejo uma lavagem ao cérebro na Alemanha, e o aforrador alemão obrigado a contribuir em nome da famosa "justiça". Será que o Spiegel Online e a Frau Merkel conseguirão aguentar até ao Outono de 2013 sem começarem a relacionar estes temas com a Alemanha? Basta ignorar no texto a palavra "Chipre", e já se pode aplicar ao povinho alemão.
* Sem querer alimentar preconceitos, as contas dos russos no Chipre podiam suportar um imposto mais alto. Pelo menos as contas de mais de um milhão de euros.
* Em vez de perseguir eficazmente os que fogem aos impostos, vai-se atrás dos pequenos aforradores segundo o princípio da igual distribuição. O entendimento dos políticos como "representantes do povo" mudou muito, graças aos lobbies financeiros.
* Vou é tratar de pôr o meu dinheiro na Suíça e comprar ouro. * Bem, parece que no Chipre preferem expropriar os pequenos aforradores, em vez de criar impostos permanentes e correctos sobre o capital. Parece que, depois desta contribuição pontual, o Chipre quer continuar atractivo para os depósitos dos milionários russos.
* A solução do problema dos bancos e estados falidos não pode ser assim tão difícil! As poupanças até 50.000 euros estão garantidas. Acima disso, quando mais dinheiro, maior a taxa de imposto. Ou alguém acredita que um magnata russo vai morrer de fome se em vez de dois mil milhões de euros só tiver vinte milhões na sua conta? Cidadãos, revoltai-vos! Assim não pode continuar.
* Infelizmente o autor deste texto esqueceu-se de referir que houve uma fase 0, quando os que provocaram a crise financeira receberam ajudas sem serem chamados a responder pelos seus erros.
Uma das condições impostas para o actual plano de ajuda financeira ao Chipre é um imposto de 9,9% sobre depósitos superiores a 100.000 euros. O Público explica como é que essa medida vai ser levada a cabo. Infelizmente, falta nesta notícia uma informação muito curiosa, dada ontem pelo noticiário da ZDF, Heute Journal (aqui, em alemão - clicar em "Analyse: Zyperns Vermögen"): os bancos centrais europeus fizeram um estudo sobre a distribuição das poupanças privadas nos países da Europa, e chegaram à conclusão que os bens privados nos países em crise têm um extraordinário volume, especialmente se comparados com países financeiramente mais estáveis.
Aparentemente, os bancos centrais não querem publicar esta análise antes de Abril - ou seja, antes de terminado o processo de ajuda ao Chipre - porque os números têm potencial explosivo. Mas alguns deles já são conhecidos - por exemplo, os valores da riqueza privada per capita, que andarão por:
Chipre: 86.000 euros
Espanha: 80.000 euros
Itália: 163.000 euros
Alemanha: 134.000 euros
Obviamente que se coloca a questão da distribuição: nos países em que há muita pobreza, há riquezas colossais nas mãos de um pequeno grupo.
Parece-me bem que no Chipre se crie tal imposto sobre os capitais. Parece-me mal que se afirme com tanta convicção que é caso único e que não vai alastrar a toda a Europa. Porque não?
E pergunto-me porque é que não se lembraram de fazer isto em Portugal, em vez de aumentarem o IVA e os impostos sobre os rendimentos do trabalho.
Há dias, o Eduardo Pitta citava Eugénio Lisboa no Da Literatura:
Há por aí menino que já se permite ousar tudo ou quase tudo: com passinhos de lã, a pouco e pouco, para não doer tudo de uma só vez, uma palavra aqui, outra acolá, vão-se estes, que nos legislam e governam, aproximando de dizer o inefável — que os idosos estão a mais, que custam demasiado, que empatam e impedem, só por existirem, a felicidade urgente dos mais novos... Primeiro, com alguma “delicadeza”, depois, com muito mais afoiteza, chega-se a isto: os idosos são afinal uma intolerável “peste grisalha”.
Fiquei a pensar nesta frase. A análise vem de encontro a uma intuição minha: num mundo em crise económica, que vive no endeusamento da eterna juventude, e com fundos cada vez mais limitados para os sistemas públicos de saúde, não há lugar para os velhos improdutivos e doentes. Se a eutanásia for permitida, como impedir os mais idosos de se sentirem quase convidados a desaparecer sem alarde por essa via?
Infelizmente, já temos outros exemplos das consequências perversas de medidas que vimos como melhorias. Por exemplo: sendo possível investigar o cromossoma 21 antes do nascimento, e sendo possível abortar por esse motivo, as mães que decidem levar a gravidez até ao fim podem ser vítimas de acusações cruéis, porque "isso (ver aqui o dedo esticado na direcção de uma criança com síndrome de Down) já se pode evitar".
Hoje, quando tanto se critica o novo Papa por ser contra a eutanásia, volto ao texto do Eugénio Lisboa. Talvez seja uma benção para as nossas sociedades haver alguém que nos obrigue a pensar mais sobre este assunto. Não é uma questão de permitir ou proibir a eutanásia - é o caminho e o contexto: que motivos levam uma pessoa idosa a querer morrer? está a decidir em plena liberdade, ou a ser mais ou menos pressionada por uma sociedade que de múltiplas formas a faz sentir-se um "peso morto"? a sociedade que lhe faculta ajuda para morrer assume sem qualquer margem para dúvidas a responsabilidade de lhe mostrar que a sua existência não é facultativa, e de lhe dar os meios para querer continuar viva?
Apontamentos para um perfil:
(...) Asceta e austero, o novo arcebispo ignora a pomposa
residência episcopal da capital argentina para viver sozinho num
pequeno apartamento perto da catedral e recusa carro com condutor em
detrimento do autocarro e do metro.
Apesar da saúde frágil – extraíram-lhe parte do pulmão
direito aos 20 anos – leva uma vida ascética e levanta-se às 4h30 da
manhã para um dia de trabalho que começa sempre pela demorada leitura
de uma imprensa a quem não deu mais que uma entrevista. O novo papa é
conhecido por falar pouco mas ouvir muito.
Grande leitor, sobretudo de romances russos, com
Dostoievsky à cabeça, e o seu compatriota Borges, aprecia também ópera e
é um fervoroso adepto do San Lorenzo, um dos grandes clubes da capital
argentina, fundado em 1908 por um padre.
Dos seus anos de pároco em Buenos Aires e na montanha
guardou um forte sentido pastoral. Não desdenha confessar regularmente
na sua catedral e faz tudo para estar próximo dos seus padres, para
quem abriu uma linha telefónica direta. Não é raro vê-lo tomar uma
sandes ao pequeno-almoço num restaurante com um dos seus sacerdotes.
Em 2009 não hesitou ir morar num bairro de barracas, em
casa de um dos seus padres, então ameaçado de morte pelos traficantes
de droga.
Em 2001 foi criado cardeal por João Paulo II. No mesmo
ano a sua humildade impressionou os participantes no sínodo sobre o
papel do bispo, em que foi relator adjunto, em substituição do cardeal
Egan, arcebispo de Nova Iorque, chamado à cidade por causa dos
atentados de 11 de setembro.
Tendo feito da pobreza um dos seus combates, este
crítico aceso do neoliberalismo e da globalização tornou-se uma
autoridade moral incontestável na Argentina e no exterior. Ao ponto de
ser hoje, num país onde a oposição política é quase inexistente, a
única verdadeira força a opor-se ao regime de Kirchner, de que não
cessa de denunciar o autoritarismo.
Em 2005 a imprensa aliada de Kirchner acusou o
padre Bergoglio, provincial dos Jesuítas durante a ditadura, de ter
denunciado dois dos seus religiosos, que foram presos e torturados.
Outros testemunhos, pelo contrário, lembram as energias que despendeu
para conseguir a sua libertação.
«Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes,
convertei-vos ao Senhor, vosso Deus,
porque Ele é clemente e compassivo,
paciente e rico em misericórdia» (Joel 2, 13)
Pouco a pouco acostumámo-nos a ouvir e ver, através dos
meios de comunicação, a crónica negra da sociedade contemporânea,
apresentada quase com perverso regozijo, e também nos acostumámos a
tocá-la e a senti-la em torno de nós e na nossa própria carne.
O drama está na rua, no bairro, na nossa casa e, por
que não, no nosso coração. Convivemos com a violência que mata, que
destrói famílias, aviva guerras e conflitos em muitos países do mundo.
Convivemos com a inveja, o ódio, a calúnia, o mundanismo no nosso
coração.
O sofrimento de inocentes e pacíficos não deixa de nos
esbofetear; o desprezo pelos direitos das pessoas e dos povos frágeis
não nos são tão distantes; o império do dinheiro com os seus efeitos
demoníacos como a droga, a corrupção, o tráfico humano - incluindo
crianças – a par da miséria material e moral são moeda corrente.
A destruição do trabalho digno, a emigrações dolorosas
e a falta de futuro unem-se também a esta sinfonia. Os nossos erros e
pecados como Igreja também não ficam fora deste panorama.
Os egoísmos mais pessoais justificados, e não por causa
disso menores, a falta de valores éticos dentro de uma sociedade que
faz metástases nas famílias, na convivência dos bairros, vilas e
cidades, falam-nos da nossa limitação, da nossa debilidade, e da nossa
incapacidade de transformar esta lista inumerável de realidades
destrutivas.
A armadilha da impotência leva-nos a pensar: Será que
faz sentido tentar mudar tudo isto? Podemos fazer algo diante desta
situação? Vale a pena tentá-lo se o mundo continua a sua dança
carnavalesca disfarçando tudo por um tempo? No entanto, quando a
máscara cai, aparece a verdade e, embora para muitos soe anacrónico
dizê-lo, reaparece o pecado, que fere a nossa carne com toda a sua
força destrutiva, desfigurando os destinos do mundo e da história.
A Quaresma apresenta-se-nos como grito de verdade e de esperança
certa que nos responde que sim, que é possível não nos maquilharmos e
esboçarmos sorrisos de plástico como se nada se passasse.
Sim, é possível que tudo seja novo e diferente porque
Deus continua a ser «rico em bondade e misericórdia, sempre disposto a
perdoar», e encoraja-nos a começar uma e outra vez.
Hoje, novamente, somos convidados a empreender um
caminho pascal até à Vida, caminho que inclui a cruz e a renúncia; que
será incómodo mas não estéril. Somos convidados a reconhecer que algo
não está bem em nós mesmos, na sociedade ou na Igreja, a mudar, a fazer
uma viragem, a convertermo-nos.
Neste dia, são fortes e desafiadoras as palavras do
profeta Joel: «Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes,
convertei-vos ao Senhor, vosso Deus». São um convite a todo o povo,
ninguém está excluído.
Rasguem o coração e não as roupas de uma penitência artificial sem garantias de futuro.
Rasguem o coração e não as roupas de um jejum formal e de cumprimento que nos continua a manter satisfeitos.
Rasguem o coração e não as roupas de uma oração
superficial e egoísta que não chega às entranhas da própria vida para a
deixar tocar por Deus.
Rasguem os corações para dizer com o salmista :
«pecámos». «A ferida da alma é o pecado: Oh pobre ferido, reconhece o
teu Médico! Mostra-lhe as chagas das tuas culpas. E uma vez que ele não
são ocultos os nossos pensamentos, faz-lhe sentir o gemido do teu
coração. Leva-o à compaixão com as tuas lágrimas, com a tua
insistência, importuna-o! Que ouça os teus suspiros, que a tua dor
chegue até Ele, de modo que, no fim, possa dizer-te: “O Senhor perdoou o
teu pecado”»" (S. Gregório Magno).
Esta é a realidade da nossa condição humana. Esta é a
verdade que pode se aproximarmo-nos da autêntica reconciliação… com Deus
e com os homens. Não se trata de desacreditar a autoestima mas de
penetrar no mais fundo do nosso coração e cuidar do mistério do
sofrimento e da dor que nos liga desde há séculos, milhares de anos...
desde sempre.
Rasguem os corações para que por essa fenda possamos olharmo-nos de verdade.
Rasguem os corações, abram os vossos corações, porque
só num coração rasgado e aberto pode entrar o amor misericordioso do Pai
que nos ama e nos cura.
Rasguem os corações diz o profeta, e Paulo pede-nos
quase de joelhos "deixai-vos reconciliar com Deus". Mudar o modo de
vida é o sinal e fruto deste coração reconciliado por um amor que nos
ultrapassa.
Este é o convite, frente a tantas feridas que nos
magoam e que nos podem levar à tentação de endurecermos: Rasgai os
corações para experimentar na oração silenciosa e serena a suavidade da
ternura de Deus.
Rasguem os corações para sentir o eco de tantas vidas rasgadas e que a indiferença não nos deixe inertes.
Rasguem os corações para poder amar com o amor com que
somos amados, consolar com o consolo que somos consolados e partilhar o
que recebemos.
Este tempo litúrgico que inicia hoje a Igreja não é só
para nós mas também para a transformação da nossa família, da nossa
comunidade, da nossa Igreja, da nossa pátria, do mundo inteiro.
São 40 dias para que nos convertamos à santidade mesma
de Deus; nos convertamos em colaboradores que recebemos a graça e a
possibilidade de reconstruir a vida humana para que todo o homem
experimente a salvação que Cristo nos ganhou com sua a morte e
ressurreição.
Juntamente com a oração e a penitência, como sinal da
nossa fé na força da Páscoa que tudo transforma, também nos dispomos a
começar como nos outros anos o nosso "Gesto quaresmal solidário”.
Como Igreja em Buenos Aires que marcha rumo à Páscoa e
que crê que o Reino de Deus é possível necessitamos que, dos nossos
corações rasgados pelo desejo de conversão e pelo amor, brote a graça e
o gesto eficaz que alivie a dor de tantos irmãos que caminham ao nosso
lado.
«Nenhum ato de virtude pode ser grande se dele não
resulta proveito para os outros… Assim pois, por mais que passes o dia
em jejuns, por mais que durmas sobre o chão duro, e comas cinza, e
suspires continuamente, se não fazes bem a outros, não fazes nada
grande». (São João Crisóstomo)
Este ano da fé que percorremos é também a oportunidade
que Deus nos dá para crescer e amadurecer no encontro com o Senhor que
se faz visível no rosto sofredor de tantas crianças sem futuro, nas
mãos trementes dos idosos esquecidos e nos joelhos vacilantes de tantas
famílias que continuam a dar o peito à vida sem encontrar ninguém que
as sustenha.
Desejo-vos uma santa Quaresma, penitencial e fecunda
Quaresma e, por favor, peço-vos que rezem por mim. Que Jesus vos
abençoe e a Virgem Santa vos proteja.
Gosto do nome: Francisco (mas qual deles?). Gosto que seja jesuíta. Gosto que tenham despachado a coisa para ter ficado decidido no dia 13.3.13. Não é que tenha qualquer importância, mas é uma data mais bonitinha que 14.3.13 e etc.
Não gosto do que li sobre o seu conservadorismo. Veremos.
E adorei uma gracinha em forma de comentários que li no facebook:
- Habemus papam.
- Quem será?
- É o menino cujo pezinho coube no sapatinho vermelho.
(A piadinha veio do Brasil - e nessa altura ainda não se sabia que o papa é argentino... veremos que piadas se seguirão.) Adenda:
Depois de ir à rua, o Fox ficou todo enlameado com aquela neve escura e pastosa que sobra quando o cenário romântico da cidade branca se começa a desfazer. Pensei: "levo-o ao jardim das traseiras da nossa casa, onde a neve ainda está alta e branquíssima, ele dá lá meia dúzia de saltos e fica limpinho como se tivesse sido lavado com Omo lava mais branco". Mas o maluco do cão descobriu que por baixo da neve há terra, e resolveu começar a escavar uma passagem para a Austrália.
Mais uma fantástica ideia que se estatelou na realidade.