26 junho 2020
intramuros
estuda!
Fui estudar. E descobri que afinal andava muito enganada a respeito do Padre António Vieira e da sua defesa dos indígenas.
Cito:
"Depois de consolidarem o seu domínio sobre as primeiras parcelas de terra, as autoridades portuguesas, seculares e religiosas, definiram a forma como iriam lidar com os autóctones da América. Quanto aos indígenas que foram submetidos pelos portugueses, as autoridades coloniais trataram-nos como miserabile personae, como uma espécie de crianças ou de pessoas desprovidas de autonomia e de autossuficiência. Foram vistos como seres que careciam da tutela dos colonizadores, acabando por ser reduzidos a uma condição de menoridade, cívica, jurídica e política. No que respeita aos muitos povos indígenas que viviam nas vastas áreas que escapavam ao controlo dos conquistadores e que contra eles resistiam, foram encarados como "selvagens", "rebeldes" e inimigos."
"Não há dúvida de que, ao longo da sua vida, Vieira se destacou na defesa de certos povos indígenas e denunciou alguns abusos dos colonos. Contudo, é preciso notar que tais denúncias foram quase sempre uma boa ocasião – política – para Vieira reivindicar que, na relação entre colonos e indígenas, a tutora e a intermediária privilegiada, ou mesmo exclusiva, deveria ser a Companhia de Jesus, a ordem à qual ele pertencia.
Mas há um ponto comum a ambos os textos: o boneco escolhido em 2017 para simbolizar o Padre António Vieira será ou uma mentira (a crer no primeiro texto, que refuta a sua fama de protector dos indígenas) ou uma escolha completamente à margem do que é importante naquela figura histórica (a crer no segundo texto).
Assim já ninguém se zanga, e o Padre António Vieira tem a sua homenagem numa praça de Lisboa.
Ora então: deixem-me ser eu a fazer a homenagem! Faço metade do preço do Cabrita Reis. Pronto, está bem, faço metade do preço do autor do boneco que levanta a cruz acima dos indígenas infantilizados. E não se fala mais nisso.)
23 junho 2020
ainda a estátua do Padre António Vieira
Pelo debate que suscitou no facebook, suspeito que não deixei bem claro que a minha crítica não se dirige à homenagem ao Padre António Vieira, mas à faceta dele que escolheram homenagear.
Do tanto que o Padre António Vieira deu ao país e ao mundo, e que podemos eleger como exemplo - inclusivamente para a nossa época -, foram escolher justamente o papel de missionário, que é o que há de menos interessante nele, e de mais controverso no nosso tempo.
Imaginem que alguém de se lembrava de homenagear o Obama fazendo uma estátua dele a erguer um drone sobre crianças árabes: um drone no centro da homenagem, em vez do foco nos seus discursos, na sua atitude de diálogo internacional, na onda de esperança que trouxe ao mundo, ou no Obamacare.
Homenagear o Padre António Vieira com uma estátua que o mostra a erguer uma cruz sobre miúdos indígenas é uma escolha tão pouco adequada como a de pôr o Obama a erguer um drone sobre miúdos árabes.
Dirão: "uma cruz não é uma arma!"
E têm bastante razão. Mas:
(1) Hoje em dias temos muita informação sobre o que aconteceu aos povos indígenas durante o processo de evangelização, e da enorme destruição (de cultura, de organização social, de identidade, de vidas) - mesmo se involuntária - que resultou do sistema de missionação. Talvez as pessoas da época não soubessem e não conseguissem ver o que estavam a fazer, mas nós já o sabemos, e temos obrigação de pensar duas vezes antes de escolher os símbolos que queremos usar nos elogios que fazemos hoje a personagens históricas.
(2) Como muito acertadamente se diz, cada tempo tem os seus próprios valores, e não podemos criticar o que aconteceu há quatro séculos com base nos valores do nosso tempo. Por isso mesmo escolhi a imagem de Obama a erguer um drone: no nosso tempo, muitos vêem os drones dos EUA ("polícia do mundo", "baluarte do sistema democrático") como meios necessários para instalar a paz, a estabilidade e a democracia em regiões que andam necessitadas disso. Independentemente da sua época, o que a cruz do Padre António Vieira e o drone do Obama têm em comum é o sofrimento que uns países levam a outros, iludidos de que estão a agir para o bem do mundo.
Além disso, mesmo havendo muita boa gente que aceita como algo positivo o papel de polícia do mundo que os EUA têm, os actos de violência contra populações civis árabes não são propriamente aquilo que eleva Obama acima da sua época. Do mesmo modo que o seu papel de missionário não é o que tornou o Padre António Vieira uma figura excepcional no seu tempo.
Só por cinismo alguém se lembraria de homenagear o Obama fazendo-o erguer um drone acima de crianças árabes. Pergunto: o que moveu as pessoas que em 2017 decidiram homenagear o Padre António Vieira mostrando-o a erguer uma cruz acima de crianças indígenas?
"E qual é o problema de levar aos povos a mensagem de Cristo?", perguntarão alguns.
Responderia que o problema é o método usado. A única maneira que reconheço como válida para transmitir a mensagem de Cristo é o exemplo: "vede como eles se amam". O único testemunho de Cristo que os missionários devem dar é o amor. A divulgação da fé cristã virá por acréscimo, se o testemunho de amor for convincente. Há cristãos que o conseguem fazer de forma admirável. E há outros que não têm em si o amor generoso e incondicional de Cristo, pelo que se limitam a dar uma cruz aos outros. Também por isso é lamentável terem escolhido representar o Padre António Vieira daquela forma: a cruz em vez do olhar atento ao sofrimento dos indígenas e em vez do coração compassivo e cheio de amor.
(Sim, bem sei que o Padre António Vieira cometeu erros. Mas se só homenagearmos pessoas 100% perfeitas no tempo delas e no nosso, o preço do bronze vai cair a pique. E a nossa auto-estima - tanto pessoal como colectiva - também.)
Chico e Criolo
O vídeo não é novo, mas o lamento continua tristemente actual - e, ao mesmo tempo, encanta-me assistir ao diálogo artístico destes dois.
Didier Squiban
Descobri o "meu" músico bretão para acompanhar este período sabático na região de Brest.
(O Tri Yann e o Alain Stivell vão poder descansar um bocadinho.)
22 junho 2020
se mexer, estraga
Depois gastámos imenso tempo a decidir se era para ir primeiro à praia apanhar bigorneaux ou se saíamos logo para Pont-Aven.
Diz-se: não mexa mais, que estraga.
Na Bretanha é mais assim: mexa quanto lhe apetecer, porque é sempre bom.
travelling
(Sim, ameaça chuva)
(Não, não me importo nem um bocadinho)
(E nós, vá, também.)
18 junho 2020
o caso da estátua do Padre António Vieira
No embalo da actual onda internacional de contestação ao racismo, o boneco do Padre António Vieira em Lisboa foi uma das estátuas vandalizadas. Li algumas das manifestação de repúdio deste acto, que me suscitam os seguintes comentários:
Como é possível que, das tantas opções para homenagear o melhor do Padre António Vieira, com uma leitura actual da importância da figura histórica e com uma linguagem estética contemporânea - só para ter uma ideia, veja-se o olhar desmedido e perplexo do D. Sebastião que o escultor João Cutileiro nos deu em 1973, ainda durante a ditadura -, como é possível, dizia, que tenham optado por fazer aquela espécie de bibelô de praça de aldeia?
Tal como foi feita, a estátua não parece uma homenagem, mas o aproveitamento desse pretexto para fazer um braço-de-ferro com o século XXI. Ninguém merece, e muito menos o Padre António Vieira.
Para já, pergunto: pichar aquela estátua é ofender a História de quem?
Em suma: será que, afinal, há limites para o "direito a ofender"?
5. Dizem: "esta gente ainda vai acabar a dar Portugal aos árabes"
Quanto a isso, estou descansada: já cá estão. Já cá estamos. Ou alguém pensa que a nossa pele trigueira é herança dos visigodos e dos suevos?
Se me é permitido brincar: todas, todas, não. Só as que for preciso...
Agora, a sério:
- É fundamental não deixar que se instale na nossa sociedade uma prática de facto consumado. Nem na realização das obras, nem na sua destruição. Serve para a bonecada colonialista que escolheram para representar o Padre António Vieira, serve para o conceito "Museu dos Descobrimentos", serve para um relicário do Salazar em Santa Comba, serve para esculturas de preço incompreensível encomendadas por um município qualquer. Em casos sensíveis como estes, enquanto não houver um mínimo de consenso não se faz (estou-me a lembrar do Memorial para os Sinti e Roma vítimas do nazismo, em Berlim, cuja obra se atrasou imenso porque não havia consenso sobre a inclusão da palavra "cigano" na placa explicativa).
- Esta querela da estátua não é mais que um campo de batalha por substituição, e está a distrair-nos do que é verdadeiramente importante. Entre outros: ouvir as pessoas, sensibilizar para as dificuldades da vida das minorias, encarar de frente a tralha ideológica que o Estado Novo nos deixou de herança.
- Mesmo reforçando e aprofundando o diálogo e o consenso democrático, haverá sempre algum extremista que decidirá afirmar a sua posição contra a da sociedade democrática, vandalizando uma estátua de algum famoso, uma obra de arte, um mural ou um Centro de Acolhimento de Refugiados. Que esses incidentes não nos desviem do nosso caminho, que é no sentido do fortalecimento do sistema e do diálogo democráticos.
algumas provocações a propósito de estátuas - a luta contra o racismo
Santuários esventrados: nesta minha longa passagem pela Bretanha ainda não encontrei uma única igreja medieval cuja entrada não seja um testemunho trágico do desvario dos tempos. E pode dizer-se que, apesar de tudo, estas igrejas de santos apeados e flechas destruídas ainda tiveram sorte. Da Abadia de Saint-Mathieu, por exemplo, restam apenas algumas paredes. Mas o fenómeno não é apenas bretão. Na Borgonha, a Abadia de Cluny - importantíssimo centro religioso e cultural da Idade Média - teve a mesma má sorte que a de Saint-Mathieu: foi vendida a um particular que fez dela pedreira. Do imponente conjunto arquitectónico, praticamente só sobrou o seu lugar. Aconteceu no centro da Europa, há pouco mais de duzentos anos.
Foi a Revolução Francesa, que se despenhou sobre a França com enorme violência, mas cujo resultado foi a implantação de um novo ideal de organização social, sintetizado no lema liberdade-igualdade-fraternidade.
Uma pessoa olha para aqueles nichos vazios, e pergunta-se em que é que os privilegiados do Antigo Regime estariam a pensar enquanto fruíam da sua douceur de vivre, alheios e insensíveis à situação incomportável em que o povo vivia. Não podiam ter chegado ao "liberté, égalité, fraternité" a bem?
Que ilusões e omissões permitiram a erupção de uma onda incontrolável de fanatismo que fez rolar tantas cabeças?
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Pergunto-me se o derrube e a pichagem de estátuas que actualmente estão a ter lugar em vários países são sinal de que a História continua o seu curso, e de que nenhuma sociedade está ao abrigo de novos conflitos sociais e de revoluções - com todos os seus inevitáveis excessos.
Traçando um paralelo entre o movimento revolucionário actual e a Revolução Francesa, pergunto: será que o "comam brioches" do nosso século é a ignorância e o desprezo com que se responde aos que alertam para as "microagressões", o "privilégio branco", o "racismo estrutural"? Será que nos salões de Luís XVI também comentariam "ai que maçada, hoje em dia não se pode dizer coisa nenhuma, que há sempre algum servo a sentir-se ofendido - cambada de snowflakes..."?
Mas divago. Este não é seguramente o limiar de uma revolução com o ímpeto da Revolução Francesa. Os oprimidos não são em número suficiente para lhe dar essa dimensão. O lugar da maioria nos "salões de Versalhes" continua cinicamente assegurado.
(De muito maior alcance, contudo, serão os conflitos quando a crise climática se abater em cheio sobre nós. Infelizmente, já não teremos de esperar muito para ver.)
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Lido algures:
Porque é que dizem "o racismo que matou George Floyd é terrível, mas é inadmissível que os manifestantes ataquem e destruam propriedade privada e monumentos, e temos de tomar medidas imediatas contra isso", em vez de dizer "o ataque e a destruição da propriedade privada e dos monumentos é terrível, mas o racismo que matou George Floyd é inadmissível, e temos de tomar medidas imediatas contra isso"?
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(Repare-se nos últimos momentos do vídeo: quando uma Kimberley Jones emocionalmente exausta desaba nos braços de uma amiga)
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Há exageros na actual luta para nos alertar para o racismo estrutural da nossa sociedade? Há. Muitos, e alguns bem graves, porque abalam valores básicos das sociedades modernas e democráticas - nomeadamente a liberdade de expressão e artística.
Compreendo a preocupação de quem fala em ataque à cultura, à liberdade de pensamento e de expressão. Compreendo quem teme que em breve se comece a queimar livros, e cita Heinrich Heine: «Não era senão um prelúdio; onde se queimam livros, terminar-se-á por queimar pessoas».
Compreendo tudo isso, mas: o problema é que já estão a queimar as pessoas. Nos EUA, a média anual dos últimos cinco anos é de cerca de mil assassínios de base racista perpetrados por polícias. Mil pessoas, anos após ano. As pessoas já estão a arder - de facto, estão a arder há mais de quatro séculos - mas a maioria de pele branca não repara, entretida que está a proteger os ilimites da sua liberdade de expressão. Não repara nem quer reparar que muitos dos seus livros, dos seus filmes, das suas obras de arte e das suas palavras são uma humilhação constante para um determinado grupo, reforçam os sentimentos de superioridade e os preconceitos da maioria contra uma minoria, e contribuem para perpetuar uma ordem racista na sociedade.
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De um lado temos: o assassínio de George Floyd (um polícia a matar, três a ver e a manter a ordem pública). O assassínio de Philando Castile, em frente à sua filha de 4 anos. O assassínio de Ahmaud Arbery: um linchamento no ano da graça de 2021. O cinismo desta resposta de um branco a um trabalhador negro: "You know what? You’re probably right. You deserve more. But why would I ever give it to you, when I can get you for this?"
Do outro lado temos: os privilegiados da ordem social que pratica a opressão dos outros. A defender os seus livros e os seus filmes, as suas estátuas e a sua versão da História, os seus símbolos, as suas coisas, as suas liberdades, a sua douceur de vivre.
Em vez de começar hoje mesmo a reconhecer e a corrigir o imenso crime perpetrado dia após dia durante mais de quatro séculos contra os escravos africanos e os seus descendentes, agitam a bandeira dos seus direitos e das suas liberdades. Os seus direitos antes dos direitos dos outros.
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Pergunto: o facto de sabermos que em 2020 Shola Richards só se atreve a passear no seu bairro na companhia das filhas e do cão, porque se passeasse sozinho os brancos daquela rua iam sentir-se ameaçados e isso bastaria para o assassinarem, não nos provoca uma imensa vergonha e não nos impele a tomar todas as medidas possíveis para corrigir essa situação?
Pessoalmente, sinto uma vergonha profunda - e é essa vergonha que me impede de chamar ridículas às acções contra o Tom Sawyer, o Mocking Bird e o Gone With the Wind.
No dia em que Shola Richards puder passear sossegadamente na sua própria rua sem que os vizinhos o vejam automaticamente como um desigual e como um vulto ameaçador, provavelmente também esses filmes e esses livros serão deixados em paz.
Até lá, teremos de ouvir, debater, alertar, educar, e fazer as concessões necessárias para tornar o mundo igualmente respirável para todos.
(Não, não estou a propor que queimem todas as cópias de Gone With the Wind como retaliação pelo assassínio de George Floyd. Estou apenas a dizer: se doesse à maioria mesmo a sério, tão a sério como dói à minoria, o problema já tinha sido resolvido há muito.)
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Quando Oskar Maria Graf se deu conta de que os seus livros não faziam parte da lista negra dos nazis, não tinham sido atirados às fogueiras, e, pelo contrário, eram recomendados pelo regime, escreveu: "O conjunto da minha vida e da minha obra dá-me o direito de exigir que entreguem os meus livros às imaculadas chamas da pira, em vez de caírem nas mãos sujas de sangue e nos cérebros pútridos do bando de assassinos de uniforme castanho."
"Queimem os meus livros!": um grito de decência e de defesa dos mais altos valores.
Nos tempos que correm, ninguém pediria tanto. Basta assinalar o conteúdo racista de um filme, trocar no livro uma palavra estigmatizante e insultuosa pela sua inicial com asterisco, escrever um prefácio crítico (sim, há muita gente de bem que precisa que lhe façam um desenho), mudar uns quantos nomes de ruas e deixar o registo da razão da troca, levar certas estátuas para o museu a que têm direito e onde serão devidamente contextualizadas.
Melhor seria mudar de vida, e começar hoje mesmo a reconhecer o mal que fizemos e fazemos às minorias, e a unir esforços para corrigir o que tem de ser corrigido urgentemente, em vez de nos enterrarmos em trincheiras de "nós" e "eles", que só nos conduzirão ainda mais depressa para tempos desvairados.
17 junho 2020
incontinências do carácter
Partilho um texto do Vasco Pimentel no facebook. Esta maravilha de síntese sobre a questão da ofensa:
Eu nunca me ofendi.
Com nada, rigorosamente nada.
Não fico ofendido, pronto.
Falta-me o chip, suponho (faltam-me outros, eu sei, ninguém os tem todos).
Por vezes, isso sim, fico com a vaga ideia de que alguém tentou ofender-me. Sim, tenho a certeza, já aconteceu. Isso eu noto. Já que leio & converso sobre o assunto, parece-me ser capaz de identificar o gesto.
A minha reacção, no entanto, é sempre a mesma - e é involuntária, insisto: o gesto da pessoa que tentou ofender-me leva-me imediatamente a classificá-la. A ela, à pessoa. Fico a saber (foi ela que me forneceu a informação) que é burra, ou má, ou que sofre de um problema qualquer que a aflige. As consequências do gesto sobre a minha pessoa são inexistentes, nulas.
"Não passas dum imbecil", por exemplo. Sabendo eu que sim, passo dum imbecil, que sou outras coisas (passo de...), e que, por acaso, essa até nem é uma delas, a frase anula-se a si própria, sem necessitar de desencadear primeiro um processamento que passe pela humilhação, a dúvida ou a tristeza. Eu não sou imbecil, tal como já não era antes, tal como não serei depois. Nada se alterou, portanto.
É como se alguém te mija para cima, e depois te acusa de teres mijo a escorrer pelas calças abaixo. Eu tenho, sim senhor, mas quem mijou na rua & para cima dos outros foste tu (tu agora já não és tu, é o parvalhão que mija). Isso permite-me concluir o que eu tiver de concluir sobre a TUA pessoa. É estúpido concluíres o que quer que seja sobre a MINHA, visto eu poder provar que o mijo não me escorre espontaneamente pelas calças abaixo. Já contigo é bem diferente, visto que eu posso concluir, sem esforço, que tu, sim, mijas para cima das pessoas. Fico a saber isso, e di-lo-ei a quem me apetecer. Conclusão, só há UMA pessoa que sai prejudicada. E essa pessoa não é, não PODE ser eu. O mijo pelas calças abaixo não me atormentará sem mais um segundo da minha vida. A tua, porém, fica marcada para todo o sempre.
Tenho que ler mais sobre isso de "ficar ofendido", porque visivelmente não percebo nada do assunto.
The End.
Vasco Pimentel, aqui.
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Dois apontamentos à margem:
- Gostei muito da imagem do ofensor como um animal que marca o seu território às mijinhas: a ofensa como instrumento de delimitação de território e afirmação de poder.
(Que coisa tão ante-pré-histórica, que grande macaquice!)
(O que me lembra a expressão de uma amiga: "Isto não é o meu circo, isto não são os meus macacos.")
- Tenho a certeza absoluta que o Vasco Pimentel não escreveu a pensar nos chamados "snowflake", mas para o caso de alguém interpretar mal o texto, convém notar que a ausência desse "chip" só é possível em relações simétricas. Quando se trata de ofensas a pessoas que são quotidianamente sujeitas a humilhações e perseguições devido à sua condição de pertença a uma minoria, dizer-lhes que não se devem ofender e que a ofensa fica com quem a pratica seria insensibilidade e cinismo.
16 junho 2020
isto não é a minha praia

Esta não vai ser "a minha praia", mas tem-me dado muitas alegrias. Embora ontem o universo tenha resolvido dar-me com uma mão e tirar com outra: depois das festivas compras para um jantar extraordinário (até para quem já está há três meses na Bretanha), e do telefonema de uma amiga querida enquanto caminhávamos em direcção ao mar, presenteou-nos com uma chuvada apenas dois graus abaixo de dilúvio. Agora sei porque é que o Astérix tinha medo que o céu lhe caísse em cima da cabeça.
Mas esta manhã, durante o pequeno-almoço com croissants de manteiga com sal, olhámos pela janela e ali estava o universo a oferecer-nos um arco-íris, e a pedir desculpa pelos incómodos do dia anterior.
Amigos como sempre, pá. Mas não te estiques muitas vezes, ouviste?
15 junho 2020
"é porque gosto muito de ti, minha filha", diz o Universo
Bem queria fazer uns posts com algum jeito sobre esta Bretanha fascinante que tenho andado a descobrir, mas não há condições: um casal amigo veio de visita, e lá vou eu de novo para a estrada, quase sem tempo para descarregar as fotos do fim-de-semana mágico que tivemos.
Deixo apenas um adianto:
12 junho 2020
enfants gâtés
A Bretanha a ser a Bretanha. E nós, enfants gâtés, perplexos sem saber o que aconteceu à Bretanha que nos deu três meses seguidos de tempo excelente, e sem saber o que fazer aos nossos planos de fim-de-semana.
Se calhar devíamos ir antes a Ouessant. Diz que "qui voit Ouessant voit son sang", e que nos dias de tempestade até as casas de granito se vergam ao vento.
Ou então, aceitar a vida como ela é. Se estamos na Bretanha, seremos capazes de saborear o mercado de Morlaix com chuva, de andar a apanhar navalhas na praia com chuva, de passear em Bréhat e Ploumenac'h com chuva.
É a Bretanha, stupid.
Nada que não se resolva com umas boas galochas e um impermeável.
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Correcção: a Troménie de Locronan é no segundo domingo de Julho.
10 junho 2020
Plomodiern
Confesso: foi por mero acaso que descobrimos Plomodiern: era a terra onde encontrámos o apartamento mais barato com vista para o mar. A praia de dois quilómetros em frente ao apartamento não nos pareceu nada mal. Na própria tarde em que chegámos percorremo-la de ponta a ponta. O regresso é que foi difícil, porque a maré subiu, e de repente todas as pessoas ficaram umas em cima das outras numa faixa estreita de areia. Vestimos os fatos de banho, e regressámos pelo mar.
Ainda temos de aprender algumas coisas sobre desconfinamento, praias e marés.
Já a caminho de Plomodiern tínhamos parado numa padaria em Argol, uma terrinha minúscula também ela fora do mapa turístico, e ficámos surpreendidos com a riqueza do enclos paroquial. Um magnífico portal, em cujo centro se vê o rei Gradlon a cavalo.
Moral da história: it's a men's world, é só o que vos digo. Quando as cenas metem água, numa a mulher salva o homem, na outra o homem deita a mulher a perder. É verdade que aquela Dahut não havia de ser flor que se cheirasse, mas também houve um grão-vizir que fazia mais ou menos o mesmo que ela, e o pior que lhe aconteceu foi arranjar uma mulher inteligente e lindíssima que lhe contava histórias antes de adormecer. Já a Dahut, coitada, parece que se transformou em sereia e anda pela baía de Douarnenez feita alma-penada.
Entretanto, as primeiras conclusões para os turistas na Bretanha são estas: desconfiem dos vossos guias turísticos. Provavelmente não vos contam nem da missa a metade. E procurem as padarias centrais de todas as localidades por onde passarem: pode ser que descubram uma igreja quinhentista extraordinária. E bom kouign-amann.
A igreja do centro de Plomodiern é assim (e nós que só queríamos ir espreitar o mercado da terrinha...):
Serão sinal de um novo dilúvio prestes a despenhar-se sobre nós?
É aqui, em Plomodiern, que começa a história de São Corentim, e da sua relação com o rei Gradlon. São Corentim era um eremita no sopé do Menez Hom, e tinha num poço um peixe mágico: se o santo lhe tirava um pedaço para o almoço, em chegando à hora do jantar o peixe já estava outra vez como novo, pronto a dar mais um bocado. E assim sucessivamente, refeição após refeição.
Um dia o rei Gradlon foi à caça para aqueles lados, e perdeu-se. Cheio de fome, foi bater à porta do São Corentim, que lhe deu uma boa posta do seu peixinho. Ficaram bons amigos. Anos mais tarde, depois de perder Ys e criar a nova capital, o rei agradecido viria a nomeá-lo para ser o primeiro bispo de Quimper, assim lhe dando entrado no clube dos sete santos fundadores.
São Corentim teve foi muita sorte de ter vivido naquele tempo, porque se fosse hoje, em vez de um lugar de bispo o que conseguia era um trinta e um nas redes sociais por andar a consumir o bicho em vez de o entregar à Ciência.
Ora bem: isto sou eu a dar a minha opinião. Porque se em vez de ser para dar a minha opinião fosse para tentar perceber alguma coisa do que estou a falar, num instante descobriria que a imagem do peixe que se dá e não acaba nunca é, muito provavelmente, uma alegoria do cristianismo e da partilha do corpo de Cristo, que apresenta aqui ecos do milagre da multiplicação dos peixes. Suspeitaria que aquele bocado de peixe que São Corentim deu ao rei Gradlon marca simbolicamente a conversão deste ao cristianismo. E que aquela história de amores, desamores, desencaminhamentos e perdições do rei cristão e da rainha fada é uma metáfora dos desencontros no processo de cristianização dos pagãos.
Tudo isto é Plomodiern. E a praia: enorme. Linda. Cheia de medusas azuis, de estranhas algas que me pareceram a princípio restos de garrafas de plástico, centenas de gaivotas, milhões de pulgas da areia e um grupo de pilritos destemidos que procuravam o jantar na margem gentil da maré baixa.
E o tempo?, perguntarão. Tivemos direito a dias cinzentos e a dias radiosos. A vento, a chuva, a calor. Banhos de mar a uma hora, camisolas e casacos a outra. A variedade da paleta bretã.


