22 fevereiro 2018
notícias da Berlinale e, para não variar muito, daquelas palavras começadas por F
Este ano não vi muitos filmes da competição, mas estava capaz de apostar que o documentário Eldorado, do suíço Markus Imhoof, vai levar o Urso de Ouro.
Outro filme que me correu bem hoje foi Becoming Astrid, de Pernille Fischer Christensen, sobre a Astrid Lindgren. Encantador. Encantadora.
O último do dia é que estragou tudo: pensava eu que ia ver um Bollywood, com cores e danças e tudo, e saiu-me uma espécie de catálogo de experiências sexuais queer, e de uma agressividade atroz. Garbage! Já nem no cinema indiano se pode confiar?...
Salvou-me o Simon Rattle, que nunca falha. E também o Barenboim ao piano, no concerto nº1 para piano e orquestra de Béla Bartók. Gostei imenso do diálogo entre o seu piano e a percussão, no segundo andamento (no vídeo: começa a 10:03).
Para que conste: no dia 22 de Fevereiro de 2018 Barenboim tocou como encore "La Fille aux Cheveux de Lin" na Filarmonia de Berlim, e não houve uma única pessoa a tossir na sala. Se isto não é um sinal sério do fim do mundo...
Depois do concerto fui a toda a velocidade para casa, para ir passear o Fox. Sim, voltou! Mas só por um dia. No autocarro, uma amiga comentava que as fotos do post anterior davam a entender que o Fox se tinha ido embora definitivamente. Não, nada disso. Eu é que estou a reagir à maneira de cão: de cada vez que ele se afasta, sinto-me como se fosse para sempre.
Daqui a nada levanto-me para ir dar a primeira voltinha do dia com ele, e depois, à hora a que o sol aparece ao fundo da Westfälische Straße, saio para a correria dos filmes. Quem corre por gosto...
Etiquetas:
Berlinale,
filarmonia de Berlim,
fox news
18 fevereiro 2018
empty nest
- da série: "Fox à maneira de Kaspar David Friedrich" -
Na semana passada, o Matthias mudou do apartamento onde estava para outro onde permitem animais domésticos. Hoje, a Christina mudou do seu pequeno apartamento na nossa casa para um apartamento partilhado, mais perto da sua universidade. E como eu ando na maratona da Berlinale, e a seguir vou fazer férias em Portugal, o Matthias veio buscar o Fox - mais as tigelas, mais a cama -, para ir viver com ele na casa nova.
O Joachim avisou-me ao telefone: "a casa ficou vaziíssima".
Vaziíssima.
Os filhos, a gente habitua-se. Sabemos desde o princípio que nascem de nós para a vida deles. De facto, começámos a habituar-nos quando eles se despedem calmamente no infantário, ou quando saem de bicicleta para longe do nosso olhar, ou quando entram na escola e começam a combinar programas com os amigos. Também ajuda o facto de terem passado um ano no estrangeiro, e de estarem há muito com um pé - ou ambos - fora de casa. Já o cão, é mais difícil. Os cães vêm para ficar. Aquela sua entrega incondicional e inteira enche o espaço doméstico, muda a nossa maneira de estar em casa e impõe ritmos. Hoje à noite, por exemplo: está um frio de rachar, mas senti que me faltava alguma coisa por não ir dar a última volta do dia com o Fox.
Os miúdos às vezes queixam-se que eu faço mais festa ao Fox que a eles. Respondo-lhes a rir que eles não vêm aos saltos pelas escadas abaixo, a abanar o rabo todos contentes, só por eu ter regressado após cinco minutos no jardim. Hoje à noite foi muito esquisito entrar em casa e não ser recebida com alegria.
Também vai ser esquisito ir passear pelo bairro sem o Fox. Ou se acaba aqui uma original carreira de fotógrafa dos lagos do bairro, ou irei acrescentar-me ao grupo daquelas pessoas que até agora me pareciam suspeitas por andarem a passear por ali sem terem um cão.
12 fevereiro 2018
teologia das palavras cruzadas
Frei Bento Domingues, incisivo como sempre, sobre a frase já famosa de D. Manuel Clemente nas suas orientações para os "recasados" da diocese de Lisboa:
(clicar sobre a imagem para ver melhor)
(ou seguir este link)
(clicar sobre a imagem para ver melhor)
(ou seguir este link)
"pichagem"
#Pichagem com risco de vida.
Durante o período nazi houve em Berlim, entre muitos outros, um grupo de resistência chamado “Onkel Emil” (tio Emílio), que incluía vários médicos (um deles seria mais tarde chefe da Ginecologia no Charité, e obrigado a tomar decisões difíceis sobre interrupção da gravidez – o que era proibido – de mulheres violadas pelos soldados soviéticos) e o maestro Leo Borchard (que seria o primeiro maestro dos Filarmónicos de Berlim após a guerra, e morreria duas semanas após a sua nomeação, devido a um estúpido mal-entendido: tinha ido jantar a casa de um oficial inglês, este estava a levá-lo a casa, no meio da conversa sobre Bach não reagiu de forma adequada a um sinal de um soldado americano, e este disparou para os ocupantes do carro, matando o músico).
Adiante.
Uma das acções do grupo foi espalhar pela cidade de Berlim a palavra “Nein” (não) pouco antes do fim da guerra.
Traduzo (muitíssimo rapidamente) algumas das passagens do diário de Ruth Andreas-Friedrich, que também fazia parte do grupo:
“Berlim, terça-feira, 17 de Abril de 1945
Na Berlim bombardeada não é fácil formular determinados desejos de consumo. Especialmente nos casos em que é preciso que o desejo seja imediatamente satisfeito. A resposta habitual “volte daqui a duas semanas”, quando procuramos desesperadamente produtos para pintar, deixa-nos doidos. Finalmente, numa pequena rua lateral, encontra-se o que se queria. Uma rapariguinha melancólica pousa no balcão três caixas do melhor giz para pintar. “Que estranho”, diz ela pensativamente, “trabalho aqui há cinco anos. E nunca vendi tanto giz como hoje. É a sétima pessoa que mo vem comprar.” – “Que estranho... de facto...”, respondo eu e desapareço rapidamente da loja. Coincidências sem importância podem deitar a perder grandes projectos!
Em casa apreciámos o saque. Frank tinha o melhor de tudo: quatro latas cheias de tinta de óleo vermelha. “Roubei no armazém de uma empresa de propaganda”, contou-nos. “Penso que deve ser usada para esse mesmo objectivo.”
Mal anoiteceu, cada um de nós foi inspeccionar a sua área. “
Não traduzo a parte em que ela conta como fixaram bem cada um dos locais onde queriam escrever, para serem capazes de fazer a pichagem mesmo em plena escuridão. A seguir recolheram-se à cave durante o alarme nocturno, de onde só saíram às três da manhã.
“Berlim, quarta-feira, 18 de Abril de 1945
Estamos de novo um metro debaixo da terra, pensativos e a passar em revista pela milésima vez a acção da noite. O último avião inglês retirou-se às duas da manhã. Os outros moradores arrastam as suas malas pelas escadas. As portas vão-se fechando uma a uma. Se ao menos já estivessem na cama! Têm uma tendência fatal para registar os ruídos no andar de cima. Por fim, deixamos de ouvir barulho nos outros apartamentos.
(...) A lua já baixou. As ruas estendem-se à nossa frente como tubos escuros. O último ocupante dos abrigos aéreos já regressou a casa. Tudo está tão silencioso que o barulho dos pneus da bicicleta no asfalto nos parece insuportável. Cinquenta metros antes da primeira casa da nossa “rota”, escondemos as bicicletas atrás de um monte de entulho. “Se alguém reparar em nós, paramos e beijamo-nos”, diz-me Frank. “Namorados parecem sempre inofensivos.” (...) Hesitante, dou alguns passos para a direita. Os meus dedos batem no canto de um marco de correio. De dentes cerrados, escrevo precipitadamente N-Ã-O na pala que cobre a abertura. O giz chia. Deve ser assim que os cegos se sentem quando estão a escrever. Viro-me. Quero sussurrar “Olha, funciona!”, mas Frank já não está ali. (...) Os nossos olhos começam a habituar-se à escuridão. As manchas das paredes e das montras vêem-se cada vez mais facilmente. Não – Não – Não. Ou tudo, ou nada. Pintamos e escrevemos com toda a energia. Nas bermas do passeio e nos postes, em portões de jardim e colunas de publicidade. Onde quer que o olhar se demore, inscrevemos “não” como um selo colorido.
Vamos silenciosamente de casa em casa. “Pst – pouco barulho! Polícia!” Estamos imóveis como colunas de pedra. A patrulha nocturna passa por nós em passos regulares. “Encosta-te à parede”, sinaliza Frank. Aperto-me contra as pedras como se quisesse penetrar nelas. Cheira a pó e madeira queimada. Que não nos vejam! As solas dos soldados batem pesadamente nas pedras da calçada. A ponta de um sobretudo toca-me o joelho. Retenho a respiração. Graças a Deus, não nos viram! Os seus olhos vazios olham em frente, como se fossem sonâmbulos. (...) A leste, o céu começa a ganhar cor. Temos de nos apressar se quisermos terminar antes do amanhecer. Na praça da Câmara, a coluna de publicidade do partido está em cima de um alto pedestal. Grita em parangonas ao mundo que “os judeus são a nossa perdição”. Quatro degraus. Entreolhamo-nos com precaução. Não será já demasiado claro? “Não me interessa, vou arriscar!”, diz Frank. Salta para os degraus. Como um cão assustadiço, fico à espreita. Cinco ruas desembocam na praça. Cinco fontes de perigo. Ao longe, aproxima-se o primeiro S-Bahn. Que não apareça ninguém! Que não apareça ninguém! A minha testa está coberta de suor. Frank trabalha como um profissional. Com demasiada lentidão para a minha paciência, mergulha o pincel na lata de tinta. Olho para aquele cartaz horrível. “Os judeus são a nossa perdição!” Frank começa a usar o pincel. Um pedaço de tinta vermelha cai – “como se fosse sangue”, é o que me ocorre. “Os judeus são a nossa perdição!” N-Ã-O! O protesto de Frank ,em traços largos como uma mão, ilumina o cartaz. Aprecia o seu trabalho como se fosse um artista. “Anda!”, insisto eu, “anda!”
Já amanhece. O casaco do Frank está em tal estado que parece que acabou de esfaquear um porco. O balde de tinta está vazio, os últimos bocadinhos de giz mal chegam para escrever mais alguns “não” magrinhos.”
Mais um pequeno salto na tradução. Vão para casa, pelo caminho vêem que os outros também trabalharam muito bem. Ao pegar nas bicicletas aparecem duas ratazanas, e ela dá um salto, enojada. O Frank ri-se dela. “As mulheres são assim. Arriscas a tua vida contra os nazis. Mas sobes a uma mesa quando vês um ratinho.” Passam pelas primeiras pessoas a caminho do trabalho. Em casa, encontram Leo Borchard, que está muito satisfeito. Conseguiu gastar toda a tinta que tinha, e estava capaz de pintar mais cinquenta ruas. Não foi apanhado a pintar, mas se tivesse sido, estava prevenido: levava no bolso um documento forjado por ele onde se lia que estava a realizar uma acção de propaganda ao serviço da organização de estrangeiros do NSDAP, e exigindo que o ajudem a desempenhar essa tarefa. No dia seguinte saem à rua para ver o resultado da acção. Por todos os lados há gente a esfregar, a lavar, a limpar. Os donos das lojas bem se esforçam para limpar as montras, mas a tinta a óleo não sai. Nas montras onde há uma folha a informar que a loja está temporariamente fechada devido a alistamento no exército, os “não” brilham com ainda mais intensidade. Frank descobre um rapaz que está a escrever algo antes do “não”: “Capitulação? Não! Rendição? Não!” A irritação dos dois só desaparece quando se dão conta de que mais ninguém lhes deturpou a intenção. Pedalam pela cidade, cada vez mais contentes. O Ku’damm, esse, está uma obra-prima. Não houve uma única montra que escapasse. Para onde quer que olhem, vêem o protesto escrito num branco luminoso. Na casa aonde vão buscar os folhetos que distribuirão nessa noite há um vaivém de pessoas com ar feliz. Os folhetos dizem:
“Berlinenses! Soldados, homens e mulheres! Conheceis a ordem do tresloucado Hitler e do seu cão de fila Himmler, para que defendamos as cidades até ao fim. Quem ainda obedece às ordens dos nazis é um idiota ou mau-carácter. Berlinenses! Segui o exemplo dos vienenses! Os trabalhadores e soldados vienenses conseguiram evitar um banho de sangue na sua cidade escondendo-se ou resistindo abertamente. Deve Berlim sofrer como Aachen, Colónia e Königsberg?
NEIN!
Escrevei o vosso „não!“ por todo o lado. Criai células de resistência nas casernas, nas fábricas, nos bunkers de protecção aérea! Atirai para as ruas os retratos de Hitler e dos seus cúmplices! Organizai a resistência armada!”
--
Já traduzi para este blogue outros excertos do Diário de Ruth Andreas-Friedrich.
Podem ler aqui:
http://conversa2.blogspot.de/2011/09/partir-de-hoje-vamos-retaliar.html
http://conversa2.blogspot.de/2007/12/para-o-tempo-de-natal-1.html
http://conversa2.blogspot.de/2010/05/em-berlim-ha-65-anos.html
http://conversa2.blogspot.de/2007/11/fui-apanhada.html
--
Já traduzi para este blogue outros excertos do Diário de Ruth Andreas-Friedrich.
Podem ler aqui:
http://conversa2.blogspot.de/2011/09/partir-de-hoje-vamos-retaliar.html
http://conversa2.blogspot.de/2007/12/para-o-tempo-de-natal-1.html
http://conversa2.blogspot.de/2010/05/em-berlim-ha-65-anos.html
http://conversa2.blogspot.de/2007/11/fui-apanhada.html
"ouro" (2)
[ Enquanto ainda é dia 9 no Peru;)
mais um post rápido sobre #ouro ]
[ Queria escrevê-lo ontem, mas andei o tempo todo a hesitar, "não me digas que vais contar outra vez essas histórias que já toda a gente ouviu várias vezes?!", mas é mais forte do que eu, e portanto: ]
Post tipo carro vassoura para apanhar as histórias que por aí tenho largado sobre o ouro que me passou ou não passou pelas mãos:
1. Na altura em que eu comecei a ler os livros dos Cinco e dos Sete, o meu pai vendeu a "quintinha minhota" do pai dele, que significava muito para a miúda de sete anos que eu era. Na última visita que fiz à casa, combinei com o meu irmão olharmos para tudo com muita atenção, porque podia haver um tesouro escondido e se o encontrássemos já não era preciso vender a casa. Assim fizemos, mas não encontrámos nada. A casa foi vendida, o novo dono começou a fazer obras, e logo encontraram um pote cheio de libras de ouro. Há tempos falei com o homem que o encontrou. Disse-me que estava numa caixa de areia, numa das lojas do piso térreo, por baixo das escadas do alçapão. Ele pensou "que coisa tão esquisita, esta caixa com areia - deixa cá ver o que tem dentro", meteu a mão, e bateu no pote. Lembro-me perfeitamente (enfim, penso que me lembro) dessa caixa, e do nojo que senti ao olhar para ela. Da próxima vez, hei-de ler os livros dos Cinco com mais atenção.
2. Uma vez mudei para uma casa onde ainda havia pintores a trabalhar. O camião trouxe as nossas tralhas, e eu trouxe as coisas de valor no nosso carro. Um dos pintores era um tarefeiro temporário da empresa de pintura, e veio a descobrir-se que era gatuno. Penso mesmo que seria cleptomaníaco, porque começou por roubar o desodorizante e o perfume do Joachim, que já iam a meio. O Joachim achou estranho essas coisas desaparecerem da casa de banho e eu respondi que se calhar os teria perdido no meio dos caixotes, de modo que quando eu lhe telefonei no dia seguinte a dizer que o meu porta-moedas tinha desaparecido, e a pedir para ele cancelar os cartões, ripostou que eu devia procurar melhor no meio dos caixotes. E foi aí que caiu a ficha: fui ao sítio onde tinha deixado as minhas caixas com as coisas mais valiosas, e faltava todo o ouro das minhas avós minhotas. O gatuno cleptomaníaco, digamos assim, tinha visto exactamente os volumes que eu trouxera de carro, e onde os deixara.
Ora bem: o meu middle name é "sempre em pé" - só pode ser. Ao descobrir que os cordões, os brincos, os trancelins, tudo tudo tudo tinha desaparecido, o meu primeiro impulso foi: "olha, agora já posso ir de férias descansada, já não temo que alguém entre em casa para me roubar o ouro".
Umas semanas mais tarde assisti ao desfile das mordomas nas festas da Senhora da Agonia, em Viana do Castelo. Ao ver todas aquelas peças iguais às que me tinham roubado, fiquei em paz com essa perda. Senti que tudo isso ainda estava no mundo. Já não numa gaveta minha, mas por aí.
3. Quando a minha filha nasceu, uma grande amiga ofereceu-lhe uma pulseirinha de ouro dizendo-me, com uma piscadela de olho, que aquilo provavelmente não serviria para nada à bebé, mas quando chegasse aos 15 anos ia dar muito jeito para trocar por droga. A pulseirinha ainda aí anda (por sorte o palerma do pintor não a roubou). Das duas, três: ou não precisou, ou então a mesada era tão alta que dava para todas as despesas, ou então dong dong dong estão a bater as doze horas, tenho de me calar imediatamente porque daqui a nada o ouro transforma-se numa abóbora.
--
Comentários de colegas enciclopedistas:
I. Um belo dia foram dois homens lá a casa mudar o papel de parede, anos setenta,talvez. A paginas tantas foi preciso afastar o baú dos lençóis e a minha mãe comentou que era muito pesado mas não era o baú das libras!
Resposta imediata:
- Pois não, essas, (o ouro) já nos caíram na cabeça ao tirar a sanefa da entrada !
II. Acerca da perda de ouro da família. Um dia na clínica a mãe deu-me um saquinho com um lenço de papel dentro eu pensei que seria para deitar no lixo e deitei (deitei o ouro da avó que ficou internada na clínica no lixo, acho que ninguém acredita que o deitei no lixo).
mais um post rápido sobre #ouro ]
[ Queria escrevê-lo ontem, mas andei o tempo todo a hesitar, "não me digas que vais contar outra vez essas histórias que já toda a gente ouviu várias vezes?!", mas é mais forte do que eu, e portanto: ]
Post tipo carro vassoura para apanhar as histórias que por aí tenho largado sobre o ouro que me passou ou não passou pelas mãos:
1. Na altura em que eu comecei a ler os livros dos Cinco e dos Sete, o meu pai vendeu a "quintinha minhota" do pai dele, que significava muito para a miúda de sete anos que eu era. Na última visita que fiz à casa, combinei com o meu irmão olharmos para tudo com muita atenção, porque podia haver um tesouro escondido e se o encontrássemos já não era preciso vender a casa. Assim fizemos, mas não encontrámos nada. A casa foi vendida, o novo dono começou a fazer obras, e logo encontraram um pote cheio de libras de ouro. Há tempos falei com o homem que o encontrou. Disse-me que estava numa caixa de areia, numa das lojas do piso térreo, por baixo das escadas do alçapão. Ele pensou "que coisa tão esquisita, esta caixa com areia - deixa cá ver o que tem dentro", meteu a mão, e bateu no pote. Lembro-me perfeitamente (enfim, penso que me lembro) dessa caixa, e do nojo que senti ao olhar para ela. Da próxima vez, hei-de ler os livros dos Cinco com mais atenção.
2. Uma vez mudei para uma casa onde ainda havia pintores a trabalhar. O camião trouxe as nossas tralhas, e eu trouxe as coisas de valor no nosso carro. Um dos pintores era um tarefeiro temporário da empresa de pintura, e veio a descobrir-se que era gatuno. Penso mesmo que seria cleptomaníaco, porque começou por roubar o desodorizante e o perfume do Joachim, que já iam a meio. O Joachim achou estranho essas coisas desaparecerem da casa de banho e eu respondi que se calhar os teria perdido no meio dos caixotes, de modo que quando eu lhe telefonei no dia seguinte a dizer que o meu porta-moedas tinha desaparecido, e a pedir para ele cancelar os cartões, ripostou que eu devia procurar melhor no meio dos caixotes. E foi aí que caiu a ficha: fui ao sítio onde tinha deixado as minhas caixas com as coisas mais valiosas, e faltava todo o ouro das minhas avós minhotas. O gatuno cleptomaníaco, digamos assim, tinha visto exactamente os volumes que eu trouxera de carro, e onde os deixara.
Ora bem: o meu middle name é "sempre em pé" - só pode ser. Ao descobrir que os cordões, os brincos, os trancelins, tudo tudo tudo tinha desaparecido, o meu primeiro impulso foi: "olha, agora já posso ir de férias descansada, já não temo que alguém entre em casa para me roubar o ouro".
Umas semanas mais tarde assisti ao desfile das mordomas nas festas da Senhora da Agonia, em Viana do Castelo. Ao ver todas aquelas peças iguais às que me tinham roubado, fiquei em paz com essa perda. Senti que tudo isso ainda estava no mundo. Já não numa gaveta minha, mas por aí.
3. Quando a minha filha nasceu, uma grande amiga ofereceu-lhe uma pulseirinha de ouro dizendo-me, com uma piscadela de olho, que aquilo provavelmente não serviria para nada à bebé, mas quando chegasse aos 15 anos ia dar muito jeito para trocar por droga. A pulseirinha ainda aí anda (por sorte o palerma do pintor não a roubou). Das duas, três: ou não precisou, ou então a mesada era tão alta que dava para todas as despesas, ou então dong dong dong estão a bater as doze horas, tenho de me calar imediatamente porque daqui a nada o ouro transforma-se numa abóbora.
--
Comentários de colegas enciclopedistas:
I. Um belo dia foram dois homens lá a casa mudar o papel de parede, anos setenta,talvez. A paginas tantas foi preciso afastar o baú dos lençóis e a minha mãe comentou que era muito pesado mas não era o baú das libras!
Resposta imediata:
- Pois não, essas, (o ouro) já nos caíram na cabeça ao tirar a sanefa da entrada !
II. Acerca da perda de ouro da família. Um dia na clínica a mãe deu-me um saquinho com um lenço de papel dentro eu pensei que seria para deitar no lixo e deitei (deitei o ouro da avó que ficou internada na clínica no lixo, acho que ninguém acredita que o deitei no lixo).
11 fevereiro 2018
"ouro" (1)
Mais da Enciclopédia Ilustrada:
A tradição de pintura religiosa bizantina pintava o céu com ouro. O mais precioso dos metais como símbolo de um lugar de transcendência, e também como símbolo da valiosa morada de Deus, dos santos e dos que têm a sorte de viver a sua eternidade junto deles. Há inúmeros quadros medievais de Maria, por exemplo, em que o seu chão é o nosso mundo, e o céu é dourado. Deixo aqui um quadro de Duccio (1255-1319) como exemplo. Giotto, seu contemporâneo, foi o primeiro pintor italiano a afastar-se da tradição bizantina e a pintar o céu em azul. Esta evolução dever-se-á também à revolução de São Francisco, que traz a natureza para o centro do religioso.
Quase um milénio depois, surge na Borgonha uma comunidade ecuménica. É Taizé, para onde todas as semanas se dirigem milhares de jovens das Igrejas católica, evangélica e ortodoxa. Talvez por respeito à tradição bizantina e para regressar simbolicamente a um tempo anterior às várias divisões dos cristãos, ou talvez apenas por ser uma cor festiva e alegre, muito própria do ambiente que se vive em Taizé, o altar está revestido com grandes faixas de pano cor de laranja.
"O cor de laranja é o ouro dos pobres", disse-me um dos irmãos.
[ Troca de comentários com uma colega enciclopedista:
- Klimt reproduz, precisamente, nos seus quadros dourados, esta época.
- Bem, sei pouquíssimo de Klimt, mas não o imaginava nada a fazer uma leitura teológica do quotidiano, e a ver a transcendência divina no retrato de uma burguesa, no beijo de dois amantes, no carinho de uma mãe. Mas sim, pode ver-se esse dourado nessa perspectiva.
- O divino no seu sentido mais lato. ]
A tradição de pintura religiosa bizantina pintava o céu com ouro. O mais precioso dos metais como símbolo de um lugar de transcendência, e também como símbolo da valiosa morada de Deus, dos santos e dos que têm a sorte de viver a sua eternidade junto deles. Há inúmeros quadros medievais de Maria, por exemplo, em que o seu chão é o nosso mundo, e o céu é dourado. Deixo aqui um quadro de Duccio (1255-1319) como exemplo. Giotto, seu contemporâneo, foi o primeiro pintor italiano a afastar-se da tradição bizantina e a pintar o céu em azul. Esta evolução dever-se-á também à revolução de São Francisco, que traz a natureza para o centro do religioso.
Quase um milénio depois, surge na Borgonha uma comunidade ecuménica. É Taizé, para onde todas as semanas se dirigem milhares de jovens das Igrejas católica, evangélica e ortodoxa. Talvez por respeito à tradição bizantina e para regressar simbolicamente a um tempo anterior às várias divisões dos cristãos, ou talvez apenas por ser uma cor festiva e alegre, muito própria do ambiente que se vive em Taizé, o altar está revestido com grandes faixas de pano cor de laranja.
"O cor de laranja é o ouro dos pobres", disse-me um dos irmãos.
[ Troca de comentários com uma colega enciclopedista:
- Klimt reproduz, precisamente, nos seus quadros dourados, esta época.
- Bem, sei pouquíssimo de Klimt, mas não o imaginava nada a fazer uma leitura teológica do quotidiano, e a ver a transcendência divina no retrato de uma burguesa, no beijo de dois amantes, no carinho de uma mãe. Mas sim, pode ver-se esse dourado nessa perspectiva.
- O divino no seu sentido mais lato. ]
"Brecht" (2)
Esta Enciclopédia Ilustrada está cada vez pior: agora já nem preciso de ler os
posts dos outros para me desgraçar, basta-me tentar preparar eu própria
um post – e aumenta de novo a lista dos livros que quero ler! Desta vez
são as Histórias do Senhor Keuner, na edição mais recente que inclui os
textos encontrados na Suíça. Lá vou eu para a livraria...
“Herr Keuner” é o „senhor Ninguém“, se pronunciarmos o nome com um leve dialecto. É um conjunto de textos curtos, que #Brecht foi escrevendo ao longo de trinta anos, de 1926 a 1956, a par com outros trabalhos e ligados a eles. O senhor K. reflecte o pensamento de Brecht e expõe-no em diálogos muito sintéticos. Alguns exemplos:
O esforço do melhor
„Em que está a trabalhar?”, perguntaram ao senhor K. “Estou a esforçar-me imenso, preparo o meu próximo erro.”
A questão sobre a existência de Deus
Alguém perguntou ao senhor K. se Deus existe. O senhor K. respondeu: “Aconselho-te a reflectir sobre se mudarias o teu comportamento caso Deus existisse. Se não mudares, podemos esquecer esta pergunta. Se mudares, então posso ajudar-te um pouco mais dizendo-te que já tomaste uma decisão: precisas de ter um Deus.”
O reencontro
Um homem que o senhor K. já não via há muito cumprimentou-o do seguinte modo: “Não mudou nada!” “Oh!”, disse o senhor K., e empalideceu.
Se o senhor K. amasse alguém
“Que faz”, perguntaram ao senhor K., “quando ama alguém?” “Faço um esboço dessa pessoa“, respondeu o senhor K. „e tento que se lhe assemelhe.” “O esboço?“ „Não“, disse o senhor K., „a pessoa.“
“Herr Keuner” é o „senhor Ninguém“, se pronunciarmos o nome com um leve dialecto. É um conjunto de textos curtos, que #Brecht foi escrevendo ao longo de trinta anos, de 1926 a 1956, a par com outros trabalhos e ligados a eles. O senhor K. reflecte o pensamento de Brecht e expõe-no em diálogos muito sintéticos. Alguns exemplos:
O esforço do melhor
„Em que está a trabalhar?”, perguntaram ao senhor K. “Estou a esforçar-me imenso, preparo o meu próximo erro.”
A questão sobre a existência de Deus
Alguém perguntou ao senhor K. se Deus existe. O senhor K. respondeu: “Aconselho-te a reflectir sobre se mudarias o teu comportamento caso Deus existisse. Se não mudares, podemos esquecer esta pergunta. Se mudares, então posso ajudar-te um pouco mais dizendo-te que já tomaste uma decisão: precisas de ter um Deus.”
O reencontro
Um homem que o senhor K. já não via há muito cumprimentou-o do seguinte modo: “Não mudou nada!” “Oh!”, disse o senhor K., e empalideceu.
Se o senhor K. amasse alguém
“Que faz”, perguntaram ao senhor K., “quando ama alguém?” “Faço um esboço dessa pessoa“, respondeu o senhor K. „e tento que se lhe assemelhe.” “O esboço?“ „Não“, disse o senhor K., „a pessoa.“
"Brecht" (1)
Ainda o tema Brecht na Enciclopédia Ilustrada:
Esta manhã, ao procurar uma foto de Bertolt #Brecht,
deparei-me com uma lista das suas nacionalidades. É apenas um detalhe,
mas simboliza bem as condições inseguras em que foi obrigado a viver.
Brecht nasceu em 1898 na Alemanha imperial. Assistiu à passagem da monarquia para a república. Em 1924 – em plena república de Weimar - mudou-se para Berlim, para o meio de escritores e gente do teatro. Nessa década aproximou-se muito do partido comunista. A partir de 1930 os nazis começaram a dificultar-lhe o trabalho cada vez mais. Com a chegada dos nazis ao poder, em 1933, viu uma peça sua ser interrompida, e os organizadores serem acusados de alta traição. Uns dias depois, umas horas após o incêndio do Reichstag e pouco antes de lhe queimarem os livros, fugiu: Praga, Viena, Zurique, Paris, e finalmente Dinamarca, onde passou com a família os cinco anos seguintes. Em 1935 os nazis retiraram-lhe a nacionalidade alemã. Permaneceria apátrida até 1950, quando a Áustria lhe deu um passaporte. Em 1941 conseguiu um visto para fugir da Dinamarca para os EUA. A viagem foi feita por Moscovo e Wladiwostok. Com a entrada dos EUA na guerra, Brecht – que estava nos EUA para fugir aos nazis – foi considerado “enemy Alien” e passou a ser observado pelo FBI. A 30 de Outubro de 1947 compareceu perante uma comissão do McCarthismo, onde afirmou que nunca pertencera ao partido comunista. No dia seguinte partiu para Paris, e daí para Zurique. A Suíça foi o único país que lhe deu autorização de residência. A Alemanha Ocidental, que estava ocupada pelos americanos, recusou-lhe a entrada. Atraído pela entrada em funcionamento de vários teatros em Berlim Leste, Brecht aceitou um convite para ir para a RDA, em 1948. Zurique, contudo, continuava a ser a cidade onde queria viver. Mas quando a Suíça lhe recusou uma autorização permanente de residência, Brecht voltou para Berlim Leste. Em 1950 a Áustria concedeu a Helene Weigel e a Brecht a nacionalidade austríaca, pondo fim à sua condição de apátridas que já durava dez anos. Esse gesto provocou um enorme escândalo, em especial porque eles não estavam interessados em ficar nesse país. Pouco depois, a RDA concedeu-lhe também a nacionalidade.
Na sequência do massacre de 17 de Junho de 1953, Brecht escreveu ao governo uma carta onde reafirmava a sua lealdade ao partido, mas também analisava as causas dos confrontos e fazia sugestões para o governo corrigir os seus próprios erros. O governo publicou parte dessa carta no jornal – melhor dizendo: apenas a parte em que Brecht reafirmava a sua lealdade ao partido. Brecht tentou defender-se, mostrando a carta na sua totalidade, mas já não conseguiu impedir a desconfiança e os danos. Os teatros da Alemanha Ocidental deram início a um boicote das suas peças.
Marginalizado na Alemanha Ocidental, alvo de desconfiança e ele próprio desconfiado do regime da RDA, de novo apanhado num jogo de forças no qual não passava de um peão. Retirou-se para a sua casa em Buckow, a uma hora de Berlim, onde se dedicou inteiramente à escrita. Foi nessa época que escreveu o poema que sugere ao governo que demita o povo e eleja outro.
Em 1954 iniciou o trabalho no famoso teatro berlinense que passaria a ficar ligado ao seu nome, e aí trabalhou a um ritmo insuportável, até morrer em 1956, aos 58 anos de idade. No seu funeral ninguém falou – como ele tinha pedido.
Junto algumas fotos da casa em Buckow, que foi feita para um escultor e por isso tem uma sala com pé direito duplo e uma janela enorme virada para o lago.
Brecht nasceu em 1898 na Alemanha imperial. Assistiu à passagem da monarquia para a república. Em 1924 – em plena república de Weimar - mudou-se para Berlim, para o meio de escritores e gente do teatro. Nessa década aproximou-se muito do partido comunista. A partir de 1930 os nazis começaram a dificultar-lhe o trabalho cada vez mais. Com a chegada dos nazis ao poder, em 1933, viu uma peça sua ser interrompida, e os organizadores serem acusados de alta traição. Uns dias depois, umas horas após o incêndio do Reichstag e pouco antes de lhe queimarem os livros, fugiu: Praga, Viena, Zurique, Paris, e finalmente Dinamarca, onde passou com a família os cinco anos seguintes. Em 1935 os nazis retiraram-lhe a nacionalidade alemã. Permaneceria apátrida até 1950, quando a Áustria lhe deu um passaporte. Em 1941 conseguiu um visto para fugir da Dinamarca para os EUA. A viagem foi feita por Moscovo e Wladiwostok. Com a entrada dos EUA na guerra, Brecht – que estava nos EUA para fugir aos nazis – foi considerado “enemy Alien” e passou a ser observado pelo FBI. A 30 de Outubro de 1947 compareceu perante uma comissão do McCarthismo, onde afirmou que nunca pertencera ao partido comunista. No dia seguinte partiu para Paris, e daí para Zurique. A Suíça foi o único país que lhe deu autorização de residência. A Alemanha Ocidental, que estava ocupada pelos americanos, recusou-lhe a entrada. Atraído pela entrada em funcionamento de vários teatros em Berlim Leste, Brecht aceitou um convite para ir para a RDA, em 1948. Zurique, contudo, continuava a ser a cidade onde queria viver. Mas quando a Suíça lhe recusou uma autorização permanente de residência, Brecht voltou para Berlim Leste. Em 1950 a Áustria concedeu a Helene Weigel e a Brecht a nacionalidade austríaca, pondo fim à sua condição de apátridas que já durava dez anos. Esse gesto provocou um enorme escândalo, em especial porque eles não estavam interessados em ficar nesse país. Pouco depois, a RDA concedeu-lhe também a nacionalidade.
Na sequência do massacre de 17 de Junho de 1953, Brecht escreveu ao governo uma carta onde reafirmava a sua lealdade ao partido, mas também analisava as causas dos confrontos e fazia sugestões para o governo corrigir os seus próprios erros. O governo publicou parte dessa carta no jornal – melhor dizendo: apenas a parte em que Brecht reafirmava a sua lealdade ao partido. Brecht tentou defender-se, mostrando a carta na sua totalidade, mas já não conseguiu impedir a desconfiança e os danos. Os teatros da Alemanha Ocidental deram início a um boicote das suas peças.
Marginalizado na Alemanha Ocidental, alvo de desconfiança e ele próprio desconfiado do regime da RDA, de novo apanhado num jogo de forças no qual não passava de um peão. Retirou-se para a sua casa em Buckow, a uma hora de Berlim, onde se dedicou inteiramente à escrita. Foi nessa época que escreveu o poema que sugere ao governo que demita o povo e eleja outro.
Em 1954 iniciou o trabalho no famoso teatro berlinense que passaria a ficar ligado ao seu nome, e aí trabalhou a um ritmo insuportável, até morrer em 1956, aos 58 anos de idade. No seu funeral ninguém falou – como ele tinha pedido.
Junto algumas fotos da casa em Buckow, que foi feita para um escultor e por isso tem uma sala com pé direito duplo e uma janela enorme virada para o lago.
10 fevereiro 2018
Nina Hagen, Brecht, Berliner Ensemble
Em 2017, um mês antes de o Berliner Ensemble mudar de director e deixar de existir como a cidade já se habituara a vê-lo, fomos ver a Nina Hagen a dar o seu último concerto de homenagem a Brecht no seu famoso teatro.
Devo dizer que à parte uma das canções favoritas da infância dos meus filhos ("Du hast den Farbfilm vergessen") e de um "Quem será milionário" para VIPs no qual ela fez um figurão (muito culta, algo louca, extremamente divertida), pouco sabia da Nina Hagen. Mas queria muito vê-la ali, no teatro do Brecht, a cantar à maneira dela as canções que todos conhecemos.
Não desapontou. Tem a voz mais cansada, está (é?) um pouco caótica, às vezes fez-me pensar que não gostaria de partilhar casa com ela porque ia ser demasiado desassossego, mas encantou-me desde o primeiro momento, quando contou que aos onze anos comprava os bilhetes mais baratos da casa, os de 55 pfennig, para assistir às peças de teatro de Brecht. Na última fila da galeria mais alta, aprendeu tanto que começou a ter boas notas a História, para grande surpresa dos seus professores. "O Brecht!", dizia ela, "Está tudo ali nas suas peças de teatro, estamos todos lá."
Fez-nos rir ao apresentar os músicos da banda, especialmente os dois músicos "da Trumpsilvânia".
Encantou-me também a sua fragilidade tão humana. A sua capacidade de asnear, tão igual à minha. Disse: "Sabem que há um documentário que mostra Hitler e a sua Eva na Argentina? Passou há dias. Abram os olhos." Disse: "Sabem que os chineses têm o maior parque solar marítimo do mundo?" (eu sabia, também tinha lido o Spiegel nessa manhã). "Abram os olhos", disse ela. "Se não nos pomos finos, todos os outros passam à nossa frente."
Aquela a quem chamam "a rainha do punk" - humana e frágil como nós.
Partilho alguns vídeos desse concerto. A qualidade de imagem e de som é péssima, mas dá para terem uma ideia do que foi Nina Hagen a cantar Brecht.
Na "Lied von der Unzulänglichkeit des menschlichen Strebens" enganou-se a meio, tentou de novo, e ficou muito contente por ter conseguido (oh! gosto tanto desta mulher!):
Entre duas canções, um apelo ao novo director, para que tome consciência da sua responsabilidade social perante aquela casa. Para que, por exemplo, mantenha a sala da Helene Weigel e não deixe que o arquivo do Berliner Ensemble saia do teatro, e insiste: "precisamos disto, é a nossa História - e foi a minha melhor escola, a minha escola de História". E depois arranca com uma voz completamente diferente, e canta Die Moritat von Jackie Messer:
O último vídeo é mesmo só pela tristeza que senti ao ver cair o pano naquele momento de viragem da casa de Brecht:
Devo dizer que à parte uma das canções favoritas da infância dos meus filhos ("Du hast den Farbfilm vergessen") e de um "Quem será milionário" para VIPs no qual ela fez um figurão (muito culta, algo louca, extremamente divertida), pouco sabia da Nina Hagen. Mas queria muito vê-la ali, no teatro do Brecht, a cantar à maneira dela as canções que todos conhecemos.
Não desapontou. Tem a voz mais cansada, está (é?) um pouco caótica, às vezes fez-me pensar que não gostaria de partilhar casa com ela porque ia ser demasiado desassossego, mas encantou-me desde o primeiro momento, quando contou que aos onze anos comprava os bilhetes mais baratos da casa, os de 55 pfennig, para assistir às peças de teatro de Brecht. Na última fila da galeria mais alta, aprendeu tanto que começou a ter boas notas a História, para grande surpresa dos seus professores. "O Brecht!", dizia ela, "Está tudo ali nas suas peças de teatro, estamos todos lá."
Fez-nos rir ao apresentar os músicos da banda, especialmente os dois músicos "da Trumpsilvânia".
Encantou-me também a sua fragilidade tão humana. A sua capacidade de asnear, tão igual à minha. Disse: "Sabem que há um documentário que mostra Hitler e a sua Eva na Argentina? Passou há dias. Abram os olhos." Disse: "Sabem que os chineses têm o maior parque solar marítimo do mundo?" (eu sabia, também tinha lido o Spiegel nessa manhã). "Abram os olhos", disse ela. "Se não nos pomos finos, todos os outros passam à nossa frente."
Aquela a quem chamam "a rainha do punk" - humana e frágil como nós.
Partilho alguns vídeos desse concerto. A qualidade de imagem e de som é péssima, mas dá para terem uma ideia do que foi Nina Hagen a cantar Brecht.
Na "Lied von der Unzulänglichkeit des menschlichen Strebens" enganou-se a meio, tentou de novo, e ficou muito contente por ter conseguido (oh! gosto tanto desta mulher!):
Entre duas canções, um apelo ao novo director, para que tome consciência da sua responsabilidade social perante aquela casa. Para que, por exemplo, mantenha a sala da Helene Weigel e não deixe que o arquivo do Berliner Ensemble saia do teatro, e insiste: "precisamos disto, é a nossa História - e foi a minha melhor escola, a minha escola de História". E depois arranca com uma voz completamente diferente, e canta Die Moritat von Jackie Messer:
O último vídeo é mesmo só pela tristeza que senti ao ver cair o pano naquele momento de viragem da casa de Brecht:
a confiança e a alegria dos cristãos ou o respeito pela lei dos fariseus?
Agora, falando mesmo a sério sobre as orientações da hierarquia da Igreja Católica para reintegrar os casais "recasados" nas comunidades: a diferença nas posturas da Diocese de Braga e da de Lisboa mostra uma Igreja Católica portuguesa dividida entre ousar os caminhos da confiança em Cristo e da alegria cristã, ou permanecer no respeito fariseu pela lei.
Nos tempos que correm, numa sociedade em que ir à igreja deixou de ser um acto com carácter de obrigação social e se tornou cada vez mais uma escolha voluntária nascida da sede de espiritualidade, querer pertencer a uma comunidade devia ser já em si prova suficiente de Fé e de querer orientar os passos pela bússola de Jesus Cristo. Nos Evangelhos há vários relatos de pessoas que procuram ver Jesus de longe, ou tocar-lhe no manto, e a quem ele diz: "a tua Fé salvou-te". Pergunto a D. Manuel Clemente se não lhe basta, como prova de Fé, que as pessoas "recasadas" queiram continuar no seio de uma comunidade, queiram baptizar os filhos e educá-los como cristãos.
Por mero acaso, encontrei recentemente no youtube um nocturno de Chopin em versão para violoncelo. Enquanto ouvia, parei inadvertidamente no texto do dono da página, que era o violoncelista. Nunca pensei encontrar no youtube uma lição de Fé tão comovente. Está lá tudo: os descalabros da vida, a culpa, a dúvida, e a reconciliação consigo próprio nascida da certeza do amor de Deus.
Deixo aqui o texto (e podem ouvir a música no vídeo que está aqui).
É por aí. É por esses caminhos da Fé que se avança como cristão. Estas coisas não se resolvem com regras sobre mais cama ou menos cama.
(Quando muito, alguns poderiam resolver algumas coisas com um bocadinho de divã)
(Ai! Tinha dito que ia falar mesmo a sério. :( )

THIS IS MY STORY
If I should have a daughter, I will name her Grace. I was taught the song "Amazing Grace" as a young boy, and growing up I got that word "grace" stuck in my head. When I was born, my dad counted my fingers and toes because he was so afraid that I'd be a deformed baby. So when I came out a normal baby, my mom held me in her arms and wept. My parents always tell me, "Matthew, you are God's miracle. You are God's grace."
But I never really appreciated that I was God's miracle until my baby brother Daniel died. Daniel's brain didn't separate into right and left hemispheres because of a genetic disorder that's also in my genes. This was passed on to me by my father, passed on to him by my grandfather.
Doctors expected that I would be born with Down Syndrome or autism, and if my dad had his way, I would have been aborted too. But by God's merciful grace, I was born alive. He didn't know that, inside the darkness of my mother's womb, I was not alone. I was never alone. God was there with me, protecting me from harm.
My parents had made the painful decision of aborting Daniel because of that genetic disorder, and felt guilty about it. I had so many unanswered questions. Questions I felt, but couldn't even speak, because there were no words to express them. Part of me felt that I shouldn't have been born.
When I was 17, I ran away from home because I felt that something was missing. Was there something my parents weren't telling me? Why did I feel I had no right to exist? Why did I spend more time wanting to end my life than live it?
We all keep secrets. My dad confessed that besides the risk I would be born with a genetic disorder, he wanted my mom to have an abortion so he could hide his guilt and shame. He was already married when my mom became pregnant, and his wife at the time was also pregnant with my half-brother, Timothy.
I have learned through personal experience that music is used by God to heal the human spirit. During a piano competition, as I played Beethoven's "Pathetique", tears suddenly streamed down the face of my dad. I'll never forget what he said: "Matthew, you played with such powerful emotions because you're alive by God's grace. And the world would not have heard your music if I'd aborted you. So I asked God to forgive me, and I also wanted to ask your forgiveness."
For many years, my dad was stuck in a place called disgrace. This is how he described his disgrace: "Most days, I know that God has forgiven me. But there are some days that I don't feel I'm worthy of having God forgive me of my sins. I feel like a failure. I feel like I've let God down, and I can't seem to forgive myself." My dad was finally able to forgive himself when grace brought forgiveness and healing to his relationship with Timothy.
Growing up, I shared my dad's guilt and remorse. I felt guilty that he chose to be with me, and that my half-brother, Timothy, grew up without a father. Part of me felt that our dad should have stayed with him, maybe even that I shouldn't have been born. I carried the guilt, humiliation, and shame over the sins of my dad, and it was when the pain was too much to bear that God's grace healed me.
Grace really strikes us when we accept, with unwavering trust, that our sins have not only been forgiven, but forgotten, washed away in the blood of the Lamb. Whatever disgraces might make us ashamed, we just need to remember that all have been crucified with Christ.
Though God does not ignore or encourage our sins, He doesn't withhold His love because there is sin in us either. As forgiven sinners, we are humbly aware that sin is precisely what's caused us to throw ourselves at the mercy of our loving Father. If we weren't sinners and didn't need mercy and grace, we'd have no way of experiencing God's relentless and passionate love. No matter what happens or what I do, He can't stop loving me.
But even the courage to accept that our heavenly Father loves us just as we are, and not as how we should be, is grace. Our receiving of His love itself is grace!
Everything that we are and have is grace. Our family is a living testimony to Romans 5:20 - "Where sin abounded, God's mercy and grace abounded all the more." God's amazing grace delivered our family from our disgrace. For us, grace is God's word for love, expressed through unconditional forgiveness.
I'm a trophy of God's grace. As a child of adultery, I rest in His grace to cover the scandal of my birth. I rest in His mercy to cover my shame. I rest in His love to cover my humiliation. I rest in His blood shed on the cross to cover my sins.
Nos tempos que correm, numa sociedade em que ir à igreja deixou de ser um acto com carácter de obrigação social e se tornou cada vez mais uma escolha voluntária nascida da sede de espiritualidade, querer pertencer a uma comunidade devia ser já em si prova suficiente de Fé e de querer orientar os passos pela bússola de Jesus Cristo. Nos Evangelhos há vários relatos de pessoas que procuram ver Jesus de longe, ou tocar-lhe no manto, e a quem ele diz: "a tua Fé salvou-te". Pergunto a D. Manuel Clemente se não lhe basta, como prova de Fé, que as pessoas "recasadas" queiram continuar no seio de uma comunidade, queiram baptizar os filhos e educá-los como cristãos.
Por mero acaso, encontrei recentemente no youtube um nocturno de Chopin em versão para violoncelo. Enquanto ouvia, parei inadvertidamente no texto do dono da página, que era o violoncelista. Nunca pensei encontrar no youtube uma lição de Fé tão comovente. Está lá tudo: os descalabros da vida, a culpa, a dúvida, e a reconciliação consigo próprio nascida da certeza do amor de Deus.
Deixo aqui o texto (e podem ouvir a música no vídeo que está aqui).
É por aí. É por esses caminhos da Fé que se avança como cristão. Estas coisas não se resolvem com regras sobre mais cama ou menos cama.
(Quando muito, alguns poderiam resolver algumas coisas com um bocadinho de divã)
(Ai! Tinha dito que ia falar mesmo a sério. :( )
Matthew John
If I should have a daughter, I will name her Grace. I was taught the song "Amazing Grace" as a young boy, and growing up I got that word "grace" stuck in my head. When I was born, my dad counted my fingers and toes because he was so afraid that I'd be a deformed baby. So when I came out a normal baby, my mom held me in her arms and wept. My parents always tell me, "Matthew, you are God's miracle. You are God's grace."
But I never really appreciated that I was God's miracle until my baby brother Daniel died. Daniel's brain didn't separate into right and left hemispheres because of a genetic disorder that's also in my genes. This was passed on to me by my father, passed on to him by my grandfather.
Doctors expected that I would be born with Down Syndrome or autism, and if my dad had his way, I would have been aborted too. But by God's merciful grace, I was born alive. He didn't know that, inside the darkness of my mother's womb, I was not alone. I was never alone. God was there with me, protecting me from harm.
My parents had made the painful decision of aborting Daniel because of that genetic disorder, and felt guilty about it. I had so many unanswered questions. Questions I felt, but couldn't even speak, because there were no words to express them. Part of me felt that I shouldn't have been born.
When I was 17, I ran away from home because I felt that something was missing. Was there something my parents weren't telling me? Why did I feel I had no right to exist? Why did I spend more time wanting to end my life than live it?
We all keep secrets. My dad confessed that besides the risk I would be born with a genetic disorder, he wanted my mom to have an abortion so he could hide his guilt and shame. He was already married when my mom became pregnant, and his wife at the time was also pregnant with my half-brother, Timothy.
I have learned through personal experience that music is used by God to heal the human spirit. During a piano competition, as I played Beethoven's "Pathetique", tears suddenly streamed down the face of my dad. I'll never forget what he said: "Matthew, you played with such powerful emotions because you're alive by God's grace. And the world would not have heard your music if I'd aborted you. So I asked God to forgive me, and I also wanted to ask your forgiveness."
For many years, my dad was stuck in a place called disgrace. This is how he described his disgrace: "Most days, I know that God has forgiven me. But there are some days that I don't feel I'm worthy of having God forgive me of my sins. I feel like a failure. I feel like I've let God down, and I can't seem to forgive myself." My dad was finally able to forgive himself when grace brought forgiveness and healing to his relationship with Timothy.
Growing up, I shared my dad's guilt and remorse. I felt guilty that he chose to be with me, and that my half-brother, Timothy, grew up without a father. Part of me felt that our dad should have stayed with him, maybe even that I shouldn't have been born. I carried the guilt, humiliation, and shame over the sins of my dad, and it was when the pain was too much to bear that God's grace healed me.
Grace really strikes us when we accept, with unwavering trust, that our sins have not only been forgiven, but forgotten, washed away in the blood of the Lamb. Whatever disgraces might make us ashamed, we just need to remember that all have been crucified with Christ.
Though God does not ignore or encourage our sins, He doesn't withhold His love because there is sin in us either. As forgiven sinners, we are humbly aware that sin is precisely what's caused us to throw ourselves at the mercy of our loving Father. If we weren't sinners and didn't need mercy and grace, we'd have no way of experiencing God's relentless and passionate love. No matter what happens or what I do, He can't stop loving me.
But even the courage to accept that our heavenly Father loves us just as we are, and not as how we should be, is grace. Our receiving of His love itself is grace!
Everything that we are and have is grace. Our family is a living testimony to Romans 5:20 - "Where sin abounded, God's mercy and grace abounded all the more." God's amazing grace delivered our family from our disgrace. For us, grace is God's word for love, expressed through unconditional forgiveness.
I'm a trophy of God's grace. As a child of adultery, I rest in His grace to cover the scandal of my birth. I rest in His mercy to cover my shame. I rest in His love to cover my humiliation. I rest in His blood shed on the cross to cover my sins.
09 fevereiro 2018
casados, recasados, abstinência sexual, e as parangonas pró escândalo
A propósito da sugestão do patriarca D. Manuel Clemente sobre casais "recasados" praticarem a abstinência sexual para poderem ser integrados na vida da sua comunidade cristã
[ uma pessoa escreve isto, e só lhe dá vontade de rir, e é para não chorar: será que vão pôr câmaras escondidas no quarto daquele casal? estão à espera que esse casal viva em tensão permanente, "ai não me dês um beijo que é pecado!", "ai, tira daí as mãos que por tua causa ainda vamos para o inferno!", "ai chega-te para lá, olha que se cedermos à tentação temos de nos ir confessar e rezar quantas avé-marias o padre quiser para podermos comungar de novo, ainda outro dia ele nos mandou rezar dois terços, se prevaricamos já outra vez levamos tantos pais-nossos que temos de meter dois dias de férias para cumprir a penitência" ]
[ isto não são recasados, isto são dois desgraçados em permanente situação de "ai-tu-não-me-tentes!" - que espécie de perversão, que espécie de ódio ao humano leva alguém a sugerir esta regra? ]
a propósito, dizia, da abstinência sexual dos recasados, o António Marujo escreveu, à sua habitual maneira de quem sabe, três textos:
1. A polémica que houve nos Estados Unidos devido à carta pastoral de Braga.
Destaco desse texto: "Ora, é precisamente isto que estes argumentos revelam não entender: as “responsabilidades pastorais” remetem para a ideia do pastor. E o bom pastor, como se lê no evangelho, é o que dá a vida pelas suas ovelhas. É aquele que é capaz de deixar as cinco ou dez ovelhas que (ainda) estão no redil e sair à procura daquelas que saíram porta fora ou ficaram à porta ou bateram com a porta ou a quem alguém bateu com a porta na cara. A misericórdia e a situação de cada pessoa são, no evangelho, atitudes centrais. E é a recuperação dessas ideias que a carta pastoral de Braga tenta propor. "
2. Uma comparação entre as orientações da Diocese de Braga (e entretanto também Aveiro e Viseu) e as da Diocese de Lisboa. Também em Portugal: uma Igreja dividida.
[ e de novo me dá vontade de rir: Braga, capital do turismo religioso - os casais lisboetas vão lá passar o fim-de-semana ou as férias, para poderem ter relações sexuais e a seguir ir à missa de consciência tranquila ]
[ e mandam postais para família e amigos em Lisboa: "estamos a gozar uns santos dias em Braga! Mas nem sabemos que tempo faz, porque temos estado no hotel a tirar as barriguinhas de misérias." ]
3. Uma crítica ao título pouco correcto no jornal Público: não é a Igreja, é apenas a Diocese de Lisboa.
Gostei muito do sarcasmo na frase final: "A responsabilidade social do jornalismo passa pelo rigor da informação. Mesmo no que à religião diz respeito."
[ uma pessoa escreve isto, e só lhe dá vontade de rir, e é para não chorar: será que vão pôr câmaras escondidas no quarto daquele casal? estão à espera que esse casal viva em tensão permanente, "ai não me dês um beijo que é pecado!", "ai, tira daí as mãos que por tua causa ainda vamos para o inferno!", "ai chega-te para lá, olha que se cedermos à tentação temos de nos ir confessar e rezar quantas avé-marias o padre quiser para podermos comungar de novo, ainda outro dia ele nos mandou rezar dois terços, se prevaricamos já outra vez levamos tantos pais-nossos que temos de meter dois dias de férias para cumprir a penitência" ]
[ isto não são recasados, isto são dois desgraçados em permanente situação de "ai-tu-não-me-tentes!" - que espécie de perversão, que espécie de ódio ao humano leva alguém a sugerir esta regra? ]
a propósito, dizia, da abstinência sexual dos recasados, o António Marujo escreveu, à sua habitual maneira de quem sabe, três textos:
1. A polémica que houve nos Estados Unidos devido à carta pastoral de Braga.
Destaco desse texto: "Ora, é precisamente isto que estes argumentos revelam não entender: as “responsabilidades pastorais” remetem para a ideia do pastor. E o bom pastor, como se lê no evangelho, é o que dá a vida pelas suas ovelhas. É aquele que é capaz de deixar as cinco ou dez ovelhas que (ainda) estão no redil e sair à procura daquelas que saíram porta fora ou ficaram à porta ou bateram com a porta ou a quem alguém bateu com a porta na cara. A misericórdia e a situação de cada pessoa são, no evangelho, atitudes centrais. E é a recuperação dessas ideias que a carta pastoral de Braga tenta propor. "
2. Uma comparação entre as orientações da Diocese de Braga (e entretanto também Aveiro e Viseu) e as da Diocese de Lisboa. Também em Portugal: uma Igreja dividida.
[ e de novo me dá vontade de rir: Braga, capital do turismo religioso - os casais lisboetas vão lá passar o fim-de-semana ou as férias, para poderem ter relações sexuais e a seguir ir à missa de consciência tranquila ]
[ e mandam postais para família e amigos em Lisboa: "estamos a gozar uns santos dias em Braga! Mas nem sabemos que tempo faz, porque temos estado no hotel a tirar as barriguinhas de misérias." ]
3. Uma crítica ao título pouco correcto no jornal Público: não é a Igreja, é apenas a Diocese de Lisboa.
Gostei muito do sarcasmo na frase final: "A responsabilidade social do jornalismo passa pelo rigor da informação. Mesmo no que à religião diz respeito."
será que só pensam nisso?
Li no Público: "Cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, aconselha a que, nos casos em que não possa ser declarada a nulidade do casamento anterior, deve ser proposto ao casal em situação irregular viver sem a prática de relações sexuais."
Esta proposta é tão absurda que até pensei que a culpa fosse da jornalista (o suspeito do costume, a par do tradutor). Mas não, parece que ele propõe mesmo isso.
Então: será que para o D. Manuel Clemente o essencial do casamento resume-se ao truca-truca?!
Tudo o resto que os recasados têm (amor, diálogo, cumplicidade, lealdade, sentido de responsabilidade um pelo outro até que a morte os separe) está bem, e não faz mal terem passado tudo isso do cônjuge anterior para o actual, deixando o primeiro a ver navios. Mas se tiverem truca-truca, está mal, e já não podem ir à comunhão.
Caramba, isto é tão revelador sobre o que vai naquelas cabecinhas! Todos sabemos que há uma certa tendência a sobrevalorizar o que não se tem, mas certas pessoas com responsabilidades na Igreja Católica deviam estar avisadas, e tentar disfarçar melhor.
Chega a ser embaraçoso para quem assiste.
**
Trouxe a fotografia do mural de facebook da Helena Ferro de Gouveia. Partilho também o texto que a acompanha:
Ao impossível ninguém é obrigado. As palavras não são minhas mas do teólogo Anselmo Borges da Sociedade Missionária Portuguesa.
Como católica apostólica romana sinto uma vergonha imensa de posições como a agora assumida pelo Cardeal Patriarca.
Onde está a misericórdia? O Amor ?
Enquanto a ICAR continuar encerrada num gélido, dogmático e burocrático castelo (de homens, porque menina não entra) vai continuar a afastar-se quer das pessoas, dos leigos, quer da Palavra. Se ao invés de diabolizar a sexualidade a aceitasse como uma dimensão essencial do humano faria um grande serviço a si própria e aos crentes. Aprenda-se com a Igreja Evangélica do norte da Europa, muito mais humana, adaptada e perto dos ensinamentos cristãos. Deixem de ser "príncipes da Igreja" e desçam à terra e ao contacto com os fiéis como Jesus fez.
08 fevereiro 2018
esta mulher: Anita Lasker-Wallfisch
No passado dia 31 houve no Parlamento alemão, como é habitual em Janeiro, uma sessão de homenagem às vítimas do Holocausto. O presidente do Parlamento, o nosso conhecido Wolfgang Schäuble, começou por afirmar que não se trata apenas de lembrar as vítimas e de ficar chocado com esta página da História, mas de tirar dela ensinamentos para o futuro. Perante uma assembleia onde há agora deputados do partido populista de direita, a AfD, que tem entre os seus membros alguns simpatizantes do negacionismo, Schäuble disse que todas as nossas certezas se desfazem em Auschwitz, e que a maior lição que se pode tirar do período nacional-socialista é a tomada de consciência da fragilidade da nossa sociedade civil e da nossa liberdade.
O comportamento dos deputados da AfD não causou surpresas: não aplaudiram quando Schäuble falou nos crimes de ódio praticados contra pessoas com um aspecto diferente dos alemães, ou até contra refugiados, e que decorrem num ambiente de indiferença e mesmo incitação. Em contrapartida, apressaram-se a aplaudir com entusiasmo quando Schäuble criticou aqueles que queimaram bandeiras de Israel nas recentes manifestações de pró-palestinianos contra a instalação da embaixada dos EUA em Jerusalém. Não aplaudiram quando ele disse que quem diz "povo" para se referir apenas a uma parte da população do país está a ferir os princípios básicos desta sociedade - e como poderiam aplaudir, se aquela crítica lhes era dirigida?
A seguir a Schäuble falou Anita Lasker-Wallfisch, sobrevivente de Auschwitz e de Bergen-Belsen. Esta mulher de 92 anos contou a sua história numa voz extraordinariamente segura e fresca. Ao seu relato acrescento aqui alguns detalhes que li na sua biografia.
Depois da deportação dos pais, ela e a irmã Renate ficaram num orfanato e faziam trabalhos forçados numa fábrica de papel onde também havia prisioneiros franceses. Para os ajudar a fugir, forneciam-lhes documentos falsos. Quando as suas actividades começaram a levantar suspeitas, fizeram documentos para si próprias, tentando fugir para França. Foram apanhadas. No caminho para a esquadra, engoliram o cianeto que o amigo Konrad Latte (que escapou ao Holocausto arrancando a estrela da sua roupa e misturando-se com a restante população; depois da guerra, criou a Berliner Barock-Orchester) lhes tinha dado em cápsulas, para aquela eventualidade. Por sorte, Konrad Latte não tinha tido a coragem de lhes dar o veneno, e trocara-o por farinha. Bem surpreendidas ficaram elas por não terem sintomas de envenenamento. O tribunal condenou-as a um ano de prisão. A pena tão pesada era um artifício de alguns juízes desse tempo: enquanto os judeus estivessem presos, não eram deportados. Anita acabou por ser enviada para Auschwitz sem a irmã, num grupo de presos de delito comum, o que lhe permitiu escapar ao processo de triagem para a câmara de gás. Para sua grande sorte, descobriram que sabia tocar violoncelo e meteram-na na orquestra de raparigas do campo. Foi assim que conseguiu escapar à máquina de destruição de Auschwitz.
Um dia, ao passar pelo monte de roupa deixado à entrada da câmara de gás pelas pessoas do transporte mais recente, reconheceu os sapatos da irmã Renate. Correu a chamar um responsável, dizendo que estava ali uma pessoa que sabia tocar violino e era fundamental para a orquestra, e conseguiu salvá-la no último momento.
Quando a frente oriental começou a aproximar-se de Auschwitz, os nazis levaram muitos dos prisioneiros para Bergen-Belsen, um campo sem câmaras de gás, mas com condições ainda mais extremas de doença e fome. Apesar do tifo e da fome, as duas irmãs conseguiram sobreviver, e estão hoje entre as últimas testemunhas vivas deste crime organizado contra a Humanidade.
Anita precisou de quase cinquenta anos para conseguir voltar à Alemanha. A partir de 1994 começou a fazer palestras neste país para dar o seu testemunho e conversar com as pessoas.
No Parlamento alemão, depois de contar a perseguição de que ela e a família foram vítimas no Holocausto, falou das fronteiras fechadas e da impossibilidade de fugir ao horror, e louvou o gesto - "generoso, corajoso, humano" - da Alemanha de abrir as fronteiras para acolher os perseguidos de hoje. Fez uma pausa, olhou para Angela Merkel. A sala toda aplaudiu - excepto os deputados da AfD.
[Faço uma pequena divagação: quem visita a cúpula do Parlamento pode ver uma exposição fotográfica sobre a história daquela instituição. Às fotografias dos deputados da República de Weimar seguem-se imagens do nazis no Parlamento. Numa delas, vêem-se os deputados nazis, todos com o uniforme do partido, de costas viradas para o plenário. Foi essa imagem que me ocorreu ao ver os deputados da AfD a recusar o aplauso a uma sobrevivente de Auschwitz que lembra que as fronteiras fechadas foram um dos factores que permitiu o assassínio de seis milhões de judeus, e que apela à generosidade para com todos os perseguidos deste mundo.]
Também falou da orquestra de raparigas de Auschwitz como um microcosmo do nosso mundo. Várias nacionalidades, uma autêntica torre de Babel. Por não entenderem a língua das outras, não se falavam. O silêncio e a incapacidade de comunicar alimentava as desconfianças de parte a parte. Estas mulheres passaram os dias negros de Auschwitz tocando a mesma música sem se entenderem. Só muitas décadas mais tarde é que ela falou pela primeira vez com uma das polacas da orquestra.
Apelou aos deputados: "falem uns com os outros, construam pontes!"
Referiu também um episódio muito desagradável que aconteceu em 2017. Num restaurante da Baviera, preparava com o filho de Hans Frank, governador-geral da Polónia e conhecido como "o carniceiro dos judeus", a palestra que iam dar para algumas escolas. Um cliente do restaurante ouviu aquela conversa e dirigiu-se à mesa deles furioso, para criticar eles estarem a dar cabo do ambiente, que estava tão bom, com aquelas conversas sobre Auschwitz.
Perante os deputados da AfD, afirmou: "há cinco anos isto não teria sido possível na Alemanha. Tenham cuidado!"
A sessão inteira pode ver-se no vídeo do princípio do post, com tradução simultânea para inglês. No site do Parlamento, de onde trouxe o filme, também se pode ler o discurso de Anita Lasker-Wallfisch em alemão.
05 fevereiro 2018
é pró menino e prá menina
Sky Brown, Ocean Brown. Duas crianças.
Com estas modernices de não separar os miúdos por Barbies e bolas, uma pessoa fica sem saber quem é o menino, quem é a menina.
Numa entrevista, a miúda contava:
SH: Do people ever treat you differently because you're a girl skater?
SB: When I was smaller boys would snake me (cut in line or take my turn) in the surf or on my skateboard. It's definitely something I think about a lot.
I live in Japan and sometimes it feels like girls are meant to be quiet and stay indoors, but that has definitely motivated me to skate and surf harder and show the boys (and men) that girls can do whatever dudes can do, and it's worked. Now no one hassles me and instead I get a lot of support.
A entrevista é uma delícia. Uma miúda de oito anos a falar de como o skating pode ser importante para outras crianças esquecerem os seus problemas, e como ela própria se entende como pessoa que pode mudar o mundo:
Last year I went to a school for homeless children in San Diego and skated. These children aren't as lucky as me. Some don't have moms and dads.
Getting to skate with them was just awesome. They were so stoked, and a lot of the girls had never tried before but they wanted to after seeing me skate. I taught them how to push and do ollies. It was fun for me to see them forget about troubles and just enjoy skateboarding.
04 fevereiro 2018
esta mulher
A descrição da chegada ao campo de concentração é das passagens mais pungentes do livro. A mãe e os dois irmãos são enviados para um camião, Gertrude é enviada noutra direcção e perde o pai de vista. Procura sem cessar a sua família, até que uma desconhecida lhe diz "vês aquele fumo ali?" Ergue a mão, hesitante, e aponta a chaminé por trás das barracas. "As pessoas que iam naquele camião já foram todas gaseadas e cremadas". A mãe e os dois irmãos - isso torna-se claro para Gertrude naquele momento - foram assassinados.
Gertrude Pressburger descreve a vida no campo de concentração. Como é humilhada e torturada. Como se entrega ao seu destino. E como não deixa que lhe roubem a dignidade. Por exemplo, quando uma das guardas atirou restos de uma maçã para o meio das mulheres famintas. As prisioneiras começaram a lutar pelo caroço de maçã, mas Gertrude nem se mexeu. "Que se passa contigo? Não queres lutar pela maçã?", perguntou a SS, surpreendida. "Não sou nenhum cão", responde Gertrud. O pai tinha-lhe dito uma frase que a marcara: "Ergue a cabeça, e não te rebaixes nunca à condição de servo."
"Não sou nenhum cão". É uma rapariga de 16 anos, cheia de fome, em Auschwitz. "Não sou nenhum cão".
Gertrude Pressburger tinha dez anos quando a sua família começou a fugir aos nazis. Em Setembro de 1938 foram de Viena para a Jugoslávia, depois para Itália. Até terem sido apanhados, seis anos mais tarde, e enviados para Auschwitz. Pouco antes do fim da guerra foi enviada para a Suécia, numa acção de troca de prisioneiros. Mais tarde, voltou a Viena, "a terra do inimigo". Foi um processo difícil, por não saber que resposta dar à pergunta que se colocava a cada pessoa que via: "e tu, no período nazi, de que lado estavas?"
Em Dezembro de 2016, com 89 anos, aceitou fazer um vídeo para a campanha de Alexander Van der Bellen, tentando impedir que Norbert Hofer, o populista próximo da extrema-direita, chegasse a presidente da Áustria.
Aqui está o vídeo, com legendas (fraquinhas) em espanhol. A memória da História que nos fala na voz desta mulher.
"Não sou nenhum cão". É uma rapariga de 16 anos, cheia de fome, em Auschwitz. "Não sou nenhum cão".
Gertrude Pressburger tinha dez anos quando a sua família começou a fugir aos nazis. Em Setembro de 1938 foram de Viena para a Jugoslávia, depois para Itália. Até terem sido apanhados, seis anos mais tarde, e enviados para Auschwitz. Pouco antes do fim da guerra foi enviada para a Suécia, numa acção de troca de prisioneiros. Mais tarde, voltou a Viena, "a terra do inimigo". Foi um processo difícil, por não saber que resposta dar à pergunta que se colocava a cada pessoa que via: "e tu, no período nazi, de que lado estavas?"
Em Dezembro de 2016, com 89 anos, aceitou fazer um vídeo para a campanha de Alexander Van der Bellen, tentando impedir que Norbert Hofer, o populista próximo da extrema-direita, chegasse a presidente da Áustria.
Aqui está o vídeo, com legendas (fraquinhas) em espanhol. A memória da História que nos fala na voz desta mulher.
01 fevereiro 2018
lava mais branco
Nos primeiros anos pós-guerra, na Alemanha, chamava-se "Persilschein" (talvez se pudesse traduzir como: "certificado Omo") aos documentos que os alemães suspeitos de serem nazis forjavam, para tentarem provar que essa suspeita não tinha fundamento. Ouvi muitas histórias que ridicularizavam os nazis anti-semitas que de repente iam de chapéu na mão pedir a um vizinho que assinasse um papel a contar que o nazi era muito boa pessoa e muito amigo dos judeus.
O governo polaco vai mais longe: proíbe as pessoas de falar em colaboracionismo com as forças de ocupação nazis. Desta é que as empresas de Persil e Omo não se lembraram: fazer uma lei para impor a brancura.
Não há branco mais branco que o definido nos termos da lei. E, já que escolheram esta maneira de lavar a roupa suja, talvez fosse boa ideia acabar também com os cursos de História. Ou pelo menos, tirar do currículo o séc.XX polaco. Uma vez que o actual governo polaco já decidiu qual é a verdade histórica, não é preciso perder mais tempo e mais dinheiro com isso.
Infelizmente, e como de costume, esta minha ideia não é original. O governo, previdente, já há tempos tratou de fechar o Museu da Segunda Guerra Mundial em Gdańsk, porque não gostou da forma como a exposição tratava a questão do - alegado!, apresso-me a acrescentar, porque não quero ir presa - colaboracionismo com os nazis. Ora: quem fecha um museu, fecha uma universidade - a minha proposta não chega a ser realmente original, como não são originais - abramos os livros de História, folheemos oito décadas para trás - as práticas do actual governo da Polónia.
O projecto de lei, que já passou a câmara baixa do parlamento polaco e me lembra imenso o que na Turquia se faz para impedir que se fale no genocídio arménio, diz o seguinte:
"Qualquer pessoa que, à revelia dos factos, atribui publicamente à nação polaca ou ao Estado polaco a responsabilidade ou a co-responsabilidade por crimes cometidos pelo III Reich, está sujeita a multa ou prisão até três anos. Isto também se aplica a crimes contra a humanidade e a paz, bem como crimes de guerra."
(E por causa desta lei vou ficar sem saber porque é que, depois da derrota dos alemães, tantos dos judeus polacos sobreviventes dos campos foram mortos quando tentavam recuperar os seus haveres e voltar às suas casas. Mas talvez seja melhor eu não falar sobre isto. A lei também se aplica a estrangeiros.) (A propósito: gostava de saber se o filme "1945", de Ferenc Török, passará alguma vez na Polónia. Foca um aspecto ainda muito silenciado do Holocausto: o anti-semitismo, a cobiça alheia, o oportunismo e a conivência dos povos. O filme conta uma história passada pouco depois do fim da guerra, numa aldeia húngara, quando corre a notícia da chegada iminente de dois judeus que ninguém conhece. A simples presença dos dois homens na aldeia basta para sacudir as consciências e as relações entre os seus habitantes. A agitação das pessoas da aldeia contrasta com a figura dos dois judeus que passam em silêncio pelas ruas - das imagens mais inesquecíveis que vi na Berlinale de 2017.)
Subscrever:
Comentários (Atom)























