10 fevereiro 2018

Nina Hagen, Brecht, Berliner Ensemble

Em 2017, um mês antes de o Berliner Ensemble mudar de director e deixar de existir como a cidade já se habituara a vê-lo, fomos ver a Nina Hagen a dar o seu último concerto de homenagem a Brecht no seu famoso teatro.

Devo dizer que à parte uma das canções favoritas da infância dos meus filhos ("Du hast den Farbfilm vergessen") e de um "Quem será milionário" para VIPs no qual ela fez um figurão (muito culta, algo louca, extremamente divertida), pouco sabia da Nina Hagen. Mas queria muito vê-la ali, no teatro do Brecht, a cantar à maneira dela as canções que todos conhecemos.

Não desapontou. Tem a voz mais cansada, está (é?) um pouco caótica, às vezes fez-me pensar que não gostaria de partilhar casa com ela porque ia ser demasiado desassossego, mas encantou-me desde o primeiro momento, quando contou que aos onze anos comprava os bilhetes mais baratos da casa, os de 55 pfennig, para assistir às peças de teatro de Brecht. Na última fila da galeria mais alta, aprendeu tanto que começou a ter boas notas a História, para grande surpresa dos seus professores. "O Brecht!", dizia ela, "Está tudo ali nas suas peças de teatro, estamos todos lá."

Fez-nos rir ao apresentar os músicos da banda, especialmente os dois músicos "da Trumpsilvânia". 

Encantou-me também a sua fragilidade tão humana. A sua capacidade de asnear, tão igual à minha. Disse: "Sabem que há um documentário que mostra Hitler e a sua Eva na Argentina? Passou há dias. Abram os olhos." Disse: "Sabem que os chineses têm o maior parque solar marítimo do mundo?" (eu sabia, também tinha lido o Spiegel nessa manhã). "Abram os olhos", disse ela. "Se não nos pomos finos, todos os outros passam à nossa frente."

Aquela a quem chamam "a rainha do punk" - humana e frágil como nós.

Partilho alguns vídeos desse concerto. A qualidade de imagem e de som é péssima, mas dá para terem uma ideia do que foi Nina Hagen a cantar Brecht.



Na "Lied von der Unzulänglichkeit des menschlichen Strebens" enganou-se a meio, tentou de novo, e ficou muito contente por ter conseguido (oh! gosto tanto desta mulher!):



Entre duas canções, um apelo ao novo director, para que tome consciência da sua responsabilidade social perante aquela casa. Para que, por exemplo, mantenha a sala da Helene Weigel e não deixe que o arquivo do Berliner Ensemble saia do teatro, e insiste: "precisamos disto, é a nossa História - e foi a minha melhor escola, a minha escola de História". E depois arranca com uma voz completamente diferente, e canta Die Moritat von Jackie Messer:



O último vídeo é mesmo só pela tristeza que senti ao ver cair o pano naquele momento de viragem da casa de Brecht:




1 comentário:

francisco júnior disse...

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