Em escala em Bruxelas, a caminho de Lyon, depois de uma noite de menos de quatro horas (como é que os to-dos fazem para se juntarem todos na véspera das saídas?), hoje estava decidida a não participar nos trabalhos da nossa Enciclopédia, mas quando vi qual era a palavra...
Ora bem: o que tem de ser tem muita força, noutro dia dormirei.
Jóias. Como qualquer minhota que se preze, também eu herdei o meu quinhão de jóias das avós. O ouro da família: cordão e fio, alfinete de libras, brincos, contas de Viana.
A minha avó guardava as suas jóias numa gaveta da mesa da sala de jantar, fechadas à chave. Também herdei essa mesa, e surpreendi-me com a sua fragilidade. Qualquer martelada bem dada arrombaria a gaveta, libertaria as jóias guardadas. Tanta gente entrou e saiu pelas portas daquela casa, sempre abertas, e nunca ninguém se lembrou de rebentar a fechadura pueril. Não era a chave que protegia as jóias das minhas avós - era o respeito que a família merecia e que cada visitante se merecia a si próprio.
Muitos anos mais tarde, comprámos uma ruína em Weimar, fizemos obras, e mudámos para a casa nova quando ainda havia pintores a fazer os últimos trabalhos. Todas as tardes lhes servia um café e bolachinhas na melhor varanda, na melhor louça (a culpa é daquela história do Lavrador da Arada que vinha num livro da escola primária: condicionou-me). Um deles, no caminho entre a varanda e o trabalho, roubou-me a carteira. Achei que a teria posto noutro sítio, não desconfiei. Nem sequer me lembrei que o Joachim se tinha queixado que na véspera lhe tinha desaparecido o desodorizante e o perfume. O dia chegou ao fim, os homens foram para casa, eu tive um pressentimento e fui ver a caixa das jóias: vazia!
O primeiro instante foi de choque, o segundo foi de alívio. Pensei: agora já posso ir para férias descansada, nunca mais vou ter medo que me roubem o ouro.
Algumas semanas mais tarde, na Romaria da Senhora da Agonia, vi as minhas jóias mil vezes ao peito de outras mulheres, e senti que não tinha perdido nada. Continuavam no mundo, algures. Só não estavam na minha caixa.
[Esta minha mania de não me deixar vencer pela adversidade ainda vai acabar mal. Estou mesmo a imaginar a cena: daqui a muitos anos, a Ceifeira a olhar-me com os seus olhos cruéis, e eu:
- Calha bem que me leves o corpo, já me andava a estorvar um bocadinho.
Ela a rir-se, malvada:
- Ha ha ha! Eu levo tudo, corpo e espírito!
- Pensas tu!, direi eu escarninha. Não sabes o que está do outro lado, ainda não morreste!
Ressabiada, vira-me as costas. Rejeitada dentro do corpo há muito divorciado de mim, pensarei então que afinal há um tempo para tudo, um tempo para viver e um tempo para morrer, e que até nem é má ideia deixar-me ir completamente, largar enfim os erros que acumulei ao longo da vida e me continuam a incomodar. Uma libertação. Apresso-me a chamá-la, digo-lhe que estava a brincar, peço-lhe que não se amofine.
- Queres, então?
- Quero, pois!
- Amigas para sempre?
- Para sempre.
E lá vou eu desta para melhor, convencida que vou feliz.]
29 outubro 2015
28 outubro 2015
subir à montanha
No ano passado repeti um post que escrevi em 2011. E aqui está ele de novo, só para dizer por onde vou andar nos próximos dias. Os amigos já avisaram que o tempo está lindíssimo, e podemos dar longos passeios.
(Repetido todos os anos, como um ritual, este meu post já parece o filme "dinner for one", que passa na televisão alemã várias vezes no dia 31 de Dezembro.)
(Repetido todos os anos, como um ritual, este meu post já parece o filme "dinner for one", que passa na televisão alemã várias vezes no dia 31 de Dezembro.)
dias de magia (2)
Primeiro dia
Chegar. No aeroporto, a enorme surpresa e a alegria de sermos recebidos por uma amiga que julgávamos em Portugal. Em casa, queijo e vinho pela noite adentro, conversas e risos.
E o olhar dos amigos: atento e perscrutador, procurando-me até ao fundo dos olhos - como fazia o meu pai, para concluir "pareces bem, cachopa".
Estou bem. Rodeada de gente que busca o chão dos meus olhos, estou o melhor possível.
Segundo dia
Amigos oferecem-se para trocar de quarto connosco - recebemos deles a floresta, as estrelas que nos entram pela janela.
Conversamos sobre as nossas vidas, as nossas angústias e alegrias. Falamo-nos e ouvimo-nos com confiança e atitude de profunda aceitação.
Aller en profondeur pour toucher l'universel.
Lá fora, a paisagem em tranquila transformação. A luz desliza pelas árvores, ilumina por dentro pedaços de amarelo e laranja. Não faço fotografias, não me quero perder da conversa. Uma mãe conta como diz o amor através da comida. Como, ao fim do dia, acolhe com aromas de bolo no forno essa filha que anda perdida em muito sofrimento. Como inventa um perfeito equilíbrio nas tartes de legumes para os filhos comerem no intervalo das aulas: pedaços de ternura na sacola.
Ce n'est pas le bout du tunnel, c'est aujourd'hui.
Depois do jantar, a música: uma canção de Clarika na voz de uma amiga e na sua guitarra (e que linda mensagem). George Brassens, les Croquants. Estamos na França, temos cinquenta anos e tanto que nos une.
Terceiro dia
Acordo cedo, agasalho-me à pressa e saio de máquina fotográfica na mão. Atravesso a floresta rapidamente, inquieta dos ruídos da noite (e se me aparece agora uma enormejavalia com javalizinhos?), inquieta de chegar demasiado tarde ao espectáculo da madrugada. Chego a tempo. O céu está tomado por uma poderosa carga de nuvens, o sol vai escalando os montes a custo, arde em pequenas nuvens tresmalhadas, mostra-se por uns minutos, encanta-me as árvores e o caminho da floresta com a sua luz rasa e dourada, e esconde-se de novo.
Ao pequeno-almoço:
- O que é um egoísta?
- É alguém que não pensa em mim.
- É alguém que não pensa em mim.
Mostro as fotografias, toda orgulhosa. O Joachim sugere "amanhã, podias experimentar a preto e branco".
"Amanhã?! Pensas que vai haver amanhã?"
Olho pela janela enorme, e não vejo paisagem, mas vida: árvores, pássaros, insectos. Vida intensa e densa, respiração.
Notre seule chance c'est l'ésprit de remise en question.
Quarto dia
Ao pequeno-almoço duas amigas, professoras, falam do trabalho com os alunos pequeninos. Como fazê-los tomar consciência do seu corpo? "O que se passa agora mesmo no teu corpo?" "A respiração!" "E o que é preciso para respirar?" "Reflectir!" "A sério?!", e a digestão, o coração que bate, "Tudo isso no meu corpo? tanta coisa!" O yoga infantil, a aprendizagem do corpo como caixa-de-ressonância, a aprendizagem do grupo na improvisação da música e na busca de um ritmo comum. Ouço-as, deliciada: a escola como local de prazer, de missão humanitária, de entrega com alegria.
À hora do lanche o nevoeiro abre, liberta a encosta verde do monte.
"Oh, que calma vai caindo".
Prier c'est d'abord cesser de faire autre chose.
Quand on demande à Dieu, la première réponse c'est la paix - même si le problème n'est pas résolu.
Depois do jantar, o jogo: sentados numa roda de cadeiras, temos de mudar de lugar permanentemente, tentando impedir que o que está de pé consiga sentar-se numa cadeira momentaneamente vazia. Temos cinquenta anos, dores de costas, e rimos e caímos das cadeiras, e damos connosco sentados nos joelhos dos outros, uma e outra vez, dizemos brejeiros que ça c'est angoissant.
Quinto dia
Levanto-me cedo. Saio para a floresta, já sem medo dos bichos da noite. O céu está limpo, hoje as nuvens estão pousadas no vale. O sol virá mais tarde, sinos de aldeias longínquas anunciam-no já, e eu espero: os pés encharcados do orvalho da floresta, as mãos geladas, o coração sereno, comovida de beleza.
Será que nos lembramos do que acontece de bom ao longo do nosso dia? Uma proposta: anotar diariamente cinco momentos bons. Mudar a perspectiva: do derrotismo para a consciência do bem que habita a minha vida.
No meio da fragilidade, perder o medo. Há um caminho de vida para mim - não um caminho de fuga às dificuldades, mas de acolher a minha vida, dizer-lhe "sim!" - não tenho outra vida senão esta que me foi dado viver neste dia. E é neste dia que posso acolher o "sim!" de Deus.
Criar sistemas anti-rotina: não estamos condenados a repetir. Podemos começar sempre.
S.Paulo: "sois filhos, e não escravos".
Antes da partida, trocamos informações.
Filmes: Et maintenant, on va où?; Habemus Papam; También la lluvia; We want sex equality; Louise-Michel; Poulet aux prunes; Lantana; El secreto de sus ojos; Le gamin au vélo; A separation; La Guerre est déclarée.
Livros: Pietro De Paoli; L'origine de la violence; Olivier Le Gendre (Confession d'un cardinal); Maurice Bellet (Minuscule traité acide de spiritualité); Madeleine Delbrêl (La joie de croire); Deux petits pas sur le sable mouillé; Une femme fuyant l’annonce.
Terminou. Continua. Germina em nós.
todos diferentes, todos iguais
Ontem, em Berlim, vi um grupo de refugiados. Era uma família grande, estavam sentados num banco da estação de Friedrichsstrasse. Os miúdos apontaram para o Fox, muito contentes. Não parei porque ia carregadíssima e cheia de pressa, mas gostei daquele ar de normalidade: uma família sentada num banco à espera de um comboio, e as crianças entusiasmadas com um cão que passa. Gosto de sermos tão iguais.
Uma amiga contou-me como se apercebe da presença de refugiados: quando vê vários rapazes ou homens em grupo pela rua, andando devagar como se não tivessem um objectivo, ou quando demoram imenso tempo nos corredores do supermercado, tentando perceber os artigos expostos. Iguais a mim: é a figura que faço nos supermercados dos outros países.
Na semana passada estive em Erding, na Baviera. Contaram-me que prepararam parte de um aeroporto militar para acolher os refugiados que diariamente chegam em grande número a essa região. Os meus amigos foram ver as instalações, e ficaram com a sensação que tudo estava a ser organizado por pessoas com muita experiência e competência. Em meia dúzia de dias improvisaram quartos com capacidade para seis pessoas, mais as casas de banho e cozinhas. Até fizeram um caminho de peões ao longo da estrada, para as pessoas poderem ir ao centro da cidade sem correrem o risco de serem atropeladas. Tentam criar grupos por nacionalidade, etnia e religião, tentam alojar as famílias em divisões próximas. Cada pessoa que chega recebe um lugar, um conjunto de objectos de higiene individual, roupa de cama e toalhas. A comida é toda vegetariana, para evitar conflitos com hábitos alimentares. As questões logísticas parecem estar entregues a pessoas competentes, e saber isso permite acalmar um pouco os ânimos.
No entanto, os alemães com quem falei sentem-se inseguros. As mulheres, em especial, têm agora mais medo de sair à rua, fazer jogging na floresta, ir a certas ruas da cidade. As ruas estão diferentes, com aqueles bandos de homens ou rapazes parados, a olhar. Pobres refugiados: muito antes de sequer começarem a pensar em fazer alguma maldade, já despertam desconfiança. E não é por questões de preconceito, é simplesmente porque nas ruas alemãs não é costume haver grupos de homens parados, a ver quem passa. As ruas estão diferentes, e as pessoas não se sabem orientar no mundo que já não é bem o seu. Para baixar o nível de desconfiança, bastava informar os refugiados sobre o mal-estar que certos comportamento provocam - de facto, melhor seria dar-lhes a possibilidade de se ocuparem em algo útil e que lhes desse satisfação, misturá-los com a população alemã.
Para os refugiados que estão no aeroporto militar de Erding, é difícil avançar com projectos de ocupação do imenso tempo livre, porque se trata apenas de um alojamento temporário. Mal se arranje uma cidade que possa acolher aquelas pessoas, os autocarros levarão este grupo para a sua nova morada, os quartos serão limpos, o armazém encher-se-á com novas resmas de roupa de cama e produtos de higiene pessoal, e tudo ficará a postos para acolher os próximos refugiados que chegam do sul.
Mesmo assim, alguns conseguem ficar. Falaram-me de uma pensão, um sítio tão desagradável que nunca tinha clientes, cujo dono está a receber uma fortuna para alojar menores de idade. Os rapazes são visitados diariamente por assistentes sociais que tentam resolver os seus problemas e ajudar a fazer as compras no supermercado. A princípio, os assistentes sociais cozinhavam, mas os miúdos não comiam. Era impossível cozinhar ao agrado de todos. Parece que de momento a base da alimentação deles é tostas. Uma dessas assistentes contou que a maior parte dos miúdos são boa gente, mas há alguns mais rufias, que conseguem dar cabo do ambiente. Fico a imaginar aquela pensão de quartos velhos e sem conforto, os jovens sem o enquadramento de uma família que os escore e proteja, os assistentes sociais sem sequer falar as línguas deles.
Parece uma tarefa impossível, e o desalento faz o seu caminho: em que é que nos fomos meter?
Mas há pessoas como a Adriana Costa Santos, que foi para Bruxelas ajudar os refugiados, fala com eles, e conta as suas história no blogue "Chegada à paz". Leiam, leiam. Ela vai ao encontro das pessoas por trás dos seus problemas, desmonta o desconhecido e as desconfianças, e mostra que a proximidade é possível. O post de hoje comoveu-me. Refugiados, europeus? Seres humanos que se encontram na palavra e na escuta.
Contado pela Adriana, parece simples.
Uma amiga contou-me como se apercebe da presença de refugiados: quando vê vários rapazes ou homens em grupo pela rua, andando devagar como se não tivessem um objectivo, ou quando demoram imenso tempo nos corredores do supermercado, tentando perceber os artigos expostos. Iguais a mim: é a figura que faço nos supermercados dos outros países.
Na semana passada estive em Erding, na Baviera. Contaram-me que prepararam parte de um aeroporto militar para acolher os refugiados que diariamente chegam em grande número a essa região. Os meus amigos foram ver as instalações, e ficaram com a sensação que tudo estava a ser organizado por pessoas com muita experiência e competência. Em meia dúzia de dias improvisaram quartos com capacidade para seis pessoas, mais as casas de banho e cozinhas. Até fizeram um caminho de peões ao longo da estrada, para as pessoas poderem ir ao centro da cidade sem correrem o risco de serem atropeladas. Tentam criar grupos por nacionalidade, etnia e religião, tentam alojar as famílias em divisões próximas. Cada pessoa que chega recebe um lugar, um conjunto de objectos de higiene individual, roupa de cama e toalhas. A comida é toda vegetariana, para evitar conflitos com hábitos alimentares. As questões logísticas parecem estar entregues a pessoas competentes, e saber isso permite acalmar um pouco os ânimos.
No entanto, os alemães com quem falei sentem-se inseguros. As mulheres, em especial, têm agora mais medo de sair à rua, fazer jogging na floresta, ir a certas ruas da cidade. As ruas estão diferentes, com aqueles bandos de homens ou rapazes parados, a olhar. Pobres refugiados: muito antes de sequer começarem a pensar em fazer alguma maldade, já despertam desconfiança. E não é por questões de preconceito, é simplesmente porque nas ruas alemãs não é costume haver grupos de homens parados, a ver quem passa. As ruas estão diferentes, e as pessoas não se sabem orientar no mundo que já não é bem o seu. Para baixar o nível de desconfiança, bastava informar os refugiados sobre o mal-estar que certos comportamento provocam - de facto, melhor seria dar-lhes a possibilidade de se ocuparem em algo útil e que lhes desse satisfação, misturá-los com a população alemã.
Para os refugiados que estão no aeroporto militar de Erding, é difícil avançar com projectos de ocupação do imenso tempo livre, porque se trata apenas de um alojamento temporário. Mal se arranje uma cidade que possa acolher aquelas pessoas, os autocarros levarão este grupo para a sua nova morada, os quartos serão limpos, o armazém encher-se-á com novas resmas de roupa de cama e produtos de higiene pessoal, e tudo ficará a postos para acolher os próximos refugiados que chegam do sul.
Mesmo assim, alguns conseguem ficar. Falaram-me de uma pensão, um sítio tão desagradável que nunca tinha clientes, cujo dono está a receber uma fortuna para alojar menores de idade. Os rapazes são visitados diariamente por assistentes sociais que tentam resolver os seus problemas e ajudar a fazer as compras no supermercado. A princípio, os assistentes sociais cozinhavam, mas os miúdos não comiam. Era impossível cozinhar ao agrado de todos. Parece que de momento a base da alimentação deles é tostas. Uma dessas assistentes contou que a maior parte dos miúdos são boa gente, mas há alguns mais rufias, que conseguem dar cabo do ambiente. Fico a imaginar aquela pensão de quartos velhos e sem conforto, os jovens sem o enquadramento de uma família que os escore e proteja, os assistentes sociais sem sequer falar as línguas deles.
Parece uma tarefa impossível, e o desalento faz o seu caminho: em que é que nos fomos meter?
Mas há pessoas como a Adriana Costa Santos, que foi para Bruxelas ajudar os refugiados, fala com eles, e conta as suas história no blogue "Chegada à paz". Leiam, leiam. Ela vai ao encontro das pessoas por trás dos seus problemas, desmonta o desconhecido e as desconfianças, e mostra que a proximidade é possível. O post de hoje comoveu-me. Refugiados, europeus? Seres humanos que se encontram na palavra e na escuta.
Contado pela Adriana, parece simples.
um pouco da RDA
Uma amiga nossa, da região de Leipzig, vendeu a quinta onde passou toda a sua vida. Deu-se conta de que aquela propriedade começara a ser uma prisão, e que dá um trabalho para o qual ela já não tem nem força nem saúde.
No sábado passado combinou com um casal vizinho grelharem umas salsichas no pátio, enquanto queimavam a última tralha. Mas de repente o pátio começou a encher-se com outros vizinhos, amigos, família. Todos com cestos carregados de comidas e bebidas para um piquenique. Nós, que somos os seus novos vizinhos, também fomos.
Por entre salsichas e copos de vinho, os amigos contavam das muitas festas que ali fizeram na altura do Natal, improvisando decorações e jogos com o que havia, de volta de uma fogueira enorme. Os olhos deles brilhavam ao lembrar o gigantesco calendário de advento pendurado na porta do palheiro, as várias camadas de casacos que vestiam para suportar o frio. A nossa amiga também falou dessas festas, e do quanto significavam para eles, no tempo da RDA.
"A comunidade era o mais importante na vida", dizia ela. "A comunidade era tudo para nós", sublinhava.
De volta da fogueira, a sua pequena comunidade despedia-se dela e de mais um bocadinho da RDA que foi a deles e que morria nessa noite.
No sábado passado combinou com um casal vizinho grelharem umas salsichas no pátio, enquanto queimavam a última tralha. Mas de repente o pátio começou a encher-se com outros vizinhos, amigos, família. Todos com cestos carregados de comidas e bebidas para um piquenique. Nós, que somos os seus novos vizinhos, também fomos.
Por entre salsichas e copos de vinho, os amigos contavam das muitas festas que ali fizeram na altura do Natal, improvisando decorações e jogos com o que havia, de volta de uma fogueira enorme. Os olhos deles brilhavam ao lembrar o gigantesco calendário de advento pendurado na porta do palheiro, as várias camadas de casacos que vestiam para suportar o frio. A nossa amiga também falou dessas festas, e do quanto significavam para eles, no tempo da RDA.
"A comunidade era o mais importante na vida", dizia ela. "A comunidade era tudo para nós", sublinhava.
De volta da fogueira, a sua pequena comunidade despedia-se dela e de mais um bocadinho da RDA que foi a deles e que morria nessa noite.
"ironia"
Das ironias, a minha favorita é a auto-ironia. E a que mais odeio é a ironia usada como desculpa por esses que, para se esquivarem à enormidade que disseram, mandam para canto: "oh, era ironia - não me digas que não percebeste?!"
Uma saída de emergência que já me deu muito jeito em tempos idos, quando dizia enormidades sem dar conta ("em tempos idos", diz ela, hahaha), e os amigos perguntavam, perplexos: "isso é ironia, não é?" Eu respondia muito depressa "é, é!", mudava logo de conversa, e ia lamber as feridas da minha auto-estima para um cantinho discreto.
Entretanto, à medida que vou indo para velha, percebo que o desafio é saber morrer de pé. Ou sentada, no meu caso: à maneira dos kamikaze.
(Já disse hoje que adoro a auto-ironia?)
Uma saída de emergência que já me deu muito jeito em tempos idos, quando dizia enormidades sem dar conta ("em tempos idos", diz ela, hahaha), e os amigos perguntavam, perplexos: "isso é ironia, não é?" Eu respondia muito depressa "é, é!", mudava logo de conversa, e ia lamber as feridas da minha auto-estima para um cantinho discreto.
Entretanto, à medida que vou indo para velha, percebo que o desafio é saber morrer de pé. Ou sentada, no meu caso: à maneira dos kamikaze.
(Já disse hoje que adoro a auto-ironia?)
27 outubro 2015
um pouco de metajornalismo por dia, não sabe o bem que lhe fazia...
A propósito do post de ontem (o "44" e a "ex-namorada de Sócrates"), devo confessar que não sou melhor que os outros, apenas vivo numa sociedade que já viu até onde se pode descer quando se baixa a guarda, e por isso treina muito melhor cada cidadão para se manter alerta.
Se me deixassem mandar (hehehe), usava parte do telejornal para fazer metajornalismo. Bastava deixar de transmitir aquelas partes do autocarro dos jogadores de futebol e do "como é que se sentiu?", e já se ganhava espaço para ter uma pequena mesa redonda de gente do jornalismo, da sociologia e da filosofia (ou outros ramos dessas formações "improdutivas e inúteis") a analisar uma determinada notícia do ponto de vista dos valores subjacentes ou ausentes. Sem dizer o nome do autor da notícia, nem sequer o meio de comunicação onde apareceu - falar apenas de conteúdos.
(opá, opá, só de imaginar um programa desses, uma conversinha de palavras claras, simples e incisivas em horário nobre, já estou a babar)
Se me deixassem mandar (hehehe), usava parte do telejornal para fazer metajornalismo. Bastava deixar de transmitir aquelas partes do autocarro dos jogadores de futebol e do "como é que se sentiu?", e já se ganhava espaço para ter uma pequena mesa redonda de gente do jornalismo, da sociologia e da filosofia (ou outros ramos dessas formações "improdutivas e inúteis") a analisar uma determinada notícia do ponto de vista dos valores subjacentes ou ausentes. Sem dizer o nome do autor da notícia, nem sequer o meio de comunicação onde apareceu - falar apenas de conteúdos.
(opá, opá, só de imaginar um programa desses, uma conversinha de palavras claras, simples e incisivas em horário nobre, já estou a babar)
26 outubro 2015
o "44" e a "ex-namorada de Sócrates"
Ando há meses com vontade de dizer isto, e vai ser hoje: trocar o nome de uma pessoa por um número é uma estratégia para ferir deliberadamente a dignidade humana. Em termos simbólicos, chamar "44" ao José Sócrates não é muito diferente de lhe tatuar esse número no braço. Em termos simbólicos, repito. Durante meses, uma certa comunicação social usou e abusou dessa estratégia e não foi impedida, por quem de direito, de introduzir nos nossos costumes uma prática de raiz ideológica nazi.
Andamos iludidos, pensando que ser nazi é um problema "genético" que só assiste aos alemães (este "genético", ou o também muito usado "está-lhes na massa do sangue", vai beber à mesma ideologia, aliás). Os portugueses não correm o risco de ter deslizes desses, afinal de contas são um povo de brandos costumes. Brandas areias movediças onde nos vamos alegremente afundando.
Entretanto, à boleia da operação Marquês, o cerco à jornalista Fernanda Câncio aperta-se cada vez mais. Trocam-lhe o nome pela designação "ex-namorada" - o que, não sendo um número, é na mesma um ataque à sua alteridade e dignidade - e envolvem-na numa rede de insinuações torpes com base em coisa nenhuma. A mais recente que vi incluía-a na "teia de dinheiro de Sócrates". Será que tinha contas secretas, levou, trouxe, recebeu dinheiro? Não. Para o Correio da Manhã, para fazer parte da "teia de dinheiro de Sócrates" basta ter-lhe telefonado, e a uma das arguidas do processo.
Tudo isto seria ridículo se não ferisse irremediavelmente o bom nome de uma pessoa, e se não fosse mais um golpe no mínimo de decência que se exige a uma sociedade civilizada.
A "teia" do Correio da Manhã atinge muitas outras pessoas, mas falo apenas do que conheço. E o que conheço é uma jornalista cujos valores, capacidade de análise e de exposição admiro imenso, e que parece estar a ser vítima de pessoas dispostas a denegrir a sua imagem. Pergunto: com que objectivos?
Dei apenas dois exemplos. Não são únicos, infelizmente.
Há que estar alerta, porque na nossa comunicação social proliferam chouricinhos de pus que espalham o seu veneno em função de interesses que só eles próprios saberão, e envenenam-nos a todos, arrastando a pouco e pouco o nosso sentido de decência para um estado vegetativo.
Andamos iludidos, pensando que ser nazi é um problema "genético" que só assiste aos alemães (este "genético", ou o também muito usado "está-lhes na massa do sangue", vai beber à mesma ideologia, aliás). Os portugueses não correm o risco de ter deslizes desses, afinal de contas são um povo de brandos costumes. Brandas areias movediças onde nos vamos alegremente afundando.
Entretanto, à boleia da operação Marquês, o cerco à jornalista Fernanda Câncio aperta-se cada vez mais. Trocam-lhe o nome pela designação "ex-namorada" - o que, não sendo um número, é na mesma um ataque à sua alteridade e dignidade - e envolvem-na numa rede de insinuações torpes com base em coisa nenhuma. A mais recente que vi incluía-a na "teia de dinheiro de Sócrates". Será que tinha contas secretas, levou, trouxe, recebeu dinheiro? Não. Para o Correio da Manhã, para fazer parte da "teia de dinheiro de Sócrates" basta ter-lhe telefonado, e a uma das arguidas do processo.
Tudo isto seria ridículo se não ferisse irremediavelmente o bom nome de uma pessoa, e se não fosse mais um golpe no mínimo de decência que se exige a uma sociedade civilizada.
A "teia" do Correio da Manhã atinge muitas outras pessoas, mas falo apenas do que conheço. E o que conheço é uma jornalista cujos valores, capacidade de análise e de exposição admiro imenso, e que parece estar a ser vítima de pessoas dispostas a denegrir a sua imagem. Pergunto: com que objectivos?
Dei apenas dois exemplos. Não são únicos, infelizmente.
Há que estar alerta, porque na nossa comunicação social proliferam chouricinhos de pus que espalham o seu veneno em função de interesses que só eles próprios saberão, e envenenam-nos a todos, arrastando a pouco e pouco o nosso sentido de decência para um estado vegetativo.
25 outubro 2015
"fantasma"
A minha irmã herdou a casa da avó, e foi para lá viver com a família. À hora das refeições, quando estavam todos sentados à mesa, o esquentador do gás disparava sozinho, e o meu cunhado dizia:
- Pede à tua avó que nos deixe comer sossegados.
A minha irmã adorava aquela avó, suspeito que a ideia da sua presença lhe seria muito grata. Eu é que não gostava nada da história que contavam para nos consolar, de que quem morria ia para o céu e ficava de lá a olhar por nós. "Mesmo quando vou à casa de banho?", pensava eu, incomodada. Não me dava jeito nenhum ter avós e tios mortos que podiam não respeitar a minha privacidade.
Depois admiram-se que as pessoas se afastem da religião.
Muitos anos mais tarde, o filho de uma amiga nossa, que passou um mês connosco e dormia num quarto junto à entrada do sótão, contou-me que viu um fantasma parado à sua porta, a olhar com um ar triste. Mas ele já sabia o que fazer com fantasmas, e pô-lo a andar. Volta e meia o fantasma regressava, e ele mandava-o de volta pelo mesmo caminho.
Fiquei curiosa, e passei a deixar a porta do quarto aberta, mas nunca vi o fantasma - o meu quarto era no rés-do-chão, talvez ele não gostasse dos andares mais terra-a-terra. Ou então talvez eu adormecesse cedo demais (é cá um mau hábito que tenho, tinham de me ter visto ontem a cabecear ao volante entre Leipzig e Berlim, e ainda nem eram 10 da noite...), e o fantasma passava a noite à porta do meu quarto a ver-me ressonar a sono solto. Não admira que tivesse um ar triste e desolado: isto não é vida!
- Pede à tua avó que nos deixe comer sossegados.
A minha irmã adorava aquela avó, suspeito que a ideia da sua presença lhe seria muito grata. Eu é que não gostava nada da história que contavam para nos consolar, de que quem morria ia para o céu e ficava de lá a olhar por nós. "Mesmo quando vou à casa de banho?", pensava eu, incomodada. Não me dava jeito nenhum ter avós e tios mortos que podiam não respeitar a minha privacidade.
Depois admiram-se que as pessoas se afastem da religião.
Muitos anos mais tarde, o filho de uma amiga nossa, que passou um mês connosco e dormia num quarto junto à entrada do sótão, contou-me que viu um fantasma parado à sua porta, a olhar com um ar triste. Mas ele já sabia o que fazer com fantasmas, e pô-lo a andar. Volta e meia o fantasma regressava, e ele mandava-o de volta pelo mesmo caminho.
Fiquei curiosa, e passei a deixar a porta do quarto aberta, mas nunca vi o fantasma - o meu quarto era no rés-do-chão, talvez ele não gostasse dos andares mais terra-a-terra. Ou então talvez eu adormecesse cedo demais (é cá um mau hábito que tenho, tinham de me ter visto ontem a cabecear ao volante entre Leipzig e Berlim, e ainda nem eram 10 da noite...), e o fantasma passava a noite à porta do meu quarto a ver-me ressonar a sono solto. Não admira que tivesse um ar triste e desolado: isto não é vida!
24 outubro 2015
chegada à paz
Parece-me que vou contrair um novo vício na internet: o "chegada à paz", blogue da Adriana Costa Santos, uma jovem portuguesa que decidiu largar o sofá para ir ajudar os refugiados. Ela explica porquê, e copio para aqui o seu primeiro post:
A secretária do meu quarto está virada para uma grande parede branca. Conheço os seus riscos de cor, de tantas vezes que me sentei a olhar para ela, de caderno em branco e caneta destapada, prestes a tomar grandes decisões. Numa noite, daquelas que não ficam na memória, ali estava eu, impaciente em relação ao futuro e à espera que uma resposta proviesse da cal. Tinha-me licenciado e resolvera parar de estudar um ano para pensar no resto da minha vida. Enquanto refletia, de computador fechado, os meus amigos do Facebook dividiam-se em opiniões extremas, sem qualquer fundamentação, quanto à grande questão dos refugiados sírios. Usavam e abusavam de termos como invasão, terrorismo e fundamentalismo, disparavam com “eles querem é rebentar com a Europa”, “agora vamos ter de pôr as nossas mulheres de burka”. Naturalmente, surgiam também vozes de apoio e compaixão, e, por todo o lado, centenas de portugueses disponibilizavam-se para receber refugiados nas suas casas. Estava na hora de fazer alguma coisa. Mais do que ler e entender a fundo a guerra na Síria e a crise humanitária a que assistíamos, concluí que o contexto em que me encontrava era o ideal para dar uma ajuda concreta, em qualquer parte da Europa.
Não tenho filhos, nem responsabilidades, tenho um trabalho, mas só para pagar as saídas à noite, não tenho nada a perder. Posso ajudar estas pessoas, aplicar os valores de solidariedade e tolerância que o projeto europeu me ensinou, e que prega, mas não pratica. Uma amiga falou-me do campo de refugiados de Bruxelas e ofereceu-me alojamento em sua casa. Perfeito. Decidi fazer a minha parte. Vou.
Não sei o que me espera, sei que vou dar e receber, aprender, crescer e fazer parte desta História. Sei que serão precisos muitos mais braços, no sítio para onde vou e em todos os campos que, na Europa, se opõem aos muros e às fronteiras, tentando dar esperança e dignidade aos que são iguais a nós e fogem de uma guerra que também é nossa.
Agora é a minha vez de contar ao mundo o que se passa e dar a conhecer a minha versão, pura e dura, dos acontecimentos, mantendo-me fiel aos princípios que me guiam, e com o único objetivo de promover a tolerância, a justiça e a paz.
(Talvez seja da idade, ou das hormonas, ou da mudança do tempo, mas estas coisas comovem-me.)
A secretária do meu quarto está virada para uma grande parede branca. Conheço os seus riscos de cor, de tantas vezes que me sentei a olhar para ela, de caderno em branco e caneta destapada, prestes a tomar grandes decisões. Numa noite, daquelas que não ficam na memória, ali estava eu, impaciente em relação ao futuro e à espera que uma resposta proviesse da cal. Tinha-me licenciado e resolvera parar de estudar um ano para pensar no resto da minha vida. Enquanto refletia, de computador fechado, os meus amigos do Facebook dividiam-se em opiniões extremas, sem qualquer fundamentação, quanto à grande questão dos refugiados sírios. Usavam e abusavam de termos como invasão, terrorismo e fundamentalismo, disparavam com “eles querem é rebentar com a Europa”, “agora vamos ter de pôr as nossas mulheres de burka”. Naturalmente, surgiam também vozes de apoio e compaixão, e, por todo o lado, centenas de portugueses disponibilizavam-se para receber refugiados nas suas casas. Estava na hora de fazer alguma coisa. Mais do que ler e entender a fundo a guerra na Síria e a crise humanitária a que assistíamos, concluí que o contexto em que me encontrava era o ideal para dar uma ajuda concreta, em qualquer parte da Europa.
Não tenho filhos, nem responsabilidades, tenho um trabalho, mas só para pagar as saídas à noite, não tenho nada a perder. Posso ajudar estas pessoas, aplicar os valores de solidariedade e tolerância que o projeto europeu me ensinou, e que prega, mas não pratica. Uma amiga falou-me do campo de refugiados de Bruxelas e ofereceu-me alojamento em sua casa. Perfeito. Decidi fazer a minha parte. Vou.
Não sei o que me espera, sei que vou dar e receber, aprender, crescer e fazer parte desta História. Sei que serão precisos muitos mais braços, no sítio para onde vou e em todos os campos que, na Europa, se opõem aos muros e às fronteiras, tentando dar esperança e dignidade aos que são iguais a nós e fogem de uma guerra que também é nossa.
Agora é a minha vez de contar ao mundo o que se passa e dar a conhecer a minha versão, pura e dura, dos acontecimentos, mantendo-me fiel aos princípios que me guiam, e com o único objetivo de promover a tolerância, a justiça e a paz.
(Talvez seja da idade, ou das hormonas, ou da mudança do tempo, mas estas coisas comovem-me.)
23 outubro 2015
queimar etapas
Gostava de poder queimar algumas etapas, e ir já às próximas eleições. O acordo histórico entre os partidos de esquerda mudou inteiramente os hábitos do jogo na Democracia portuguesa. Estou muito curiosa para ouvir a opinião do povo português perante a possibilidade real de um governo de coligação à esquerda. Também estou muito curiosa sobre o que acontecerá no seio do PS.
Tempos interessantes.
Percorreremos, contudo, todas as etapas previstas pela Constituição, e também será muito interessante observar o comportamento dos partidos. Fico a torcer para que os partidos de esquerda dêem provas de não ser o bicho-papão de cujos ataques o actual presidente da República tem de proteger os portugueses. Fico a sonhar uma Democracia adulta, sem linhas a demarcar o espaço desconhecido onde há monstros e começa o fim do mundo.
Observo em silêncio (ou quase).
Tempos interessantes.
Percorreremos, contudo, todas as etapas previstas pela Constituição, e também será muito interessante observar o comportamento dos partidos. Fico a torcer para que os partidos de esquerda dêem provas de não ser o bicho-papão de cujos ataques o actual presidente da República tem de proteger os portugueses. Fico a sonhar uma Democracia adulta, sem linhas a demarcar o espaço desconhecido onde há monstros e começa o fim do mundo.
Observo em silêncio (ou quase).
22 outubro 2015
não faças a outros como gostarias que te fizessem a ti
No domingo à noite, já bem tarde, saí para mostrar o Festival of Lights a uma convidada nossa. Chovia aquela chuva mole que se mistura com o frio e desperta em nós um irresistível amor pelo sofá, mas era o último dia do festival e ela queria mesmo ir ver.
Na paragem do autocarro havia duas senhoras à espera. Pensando na quantidade de vezes que esperei ali e desejei que alguém me desse uma boleia até ao centro da cidade, parei o carro e perguntei se queriam que as levasse, já que ia fazer boa parte do percurso do autocarro, em vez de continuarem ao frio.
Ficaram surpreendidas, quase chocadas, e uma respondeu de rompante:
- Não está nada frio!
Toma, e aprende. Querias ajudar, e o resultado foi pôr duas mulheres numa situação desconfortável, obrigadas a inventar desculpas completamente estúpidas, e tudo.
(Viram os unicórnios na Porta de Brandeburgo? Sou eu e as minhas boas intenções, triste vida...)
21 outubro 2015
"besta"
Hoje é dia de B de besta na nossa enciclopédia particular. O meu contributo:
Enquanto espero que alguém vá buscar frases "bestiais" ao Eça, conto que quando Goethe chegou a Weimar (senhores administradores, podem saltar já para a última frase deste texto, é lá que aparece a palavra "besta") o palácio ducal tinha sofrido mais um incêndio, mais um de muitos (era um palácio muito fugaz, ou, melhor dizendo, fogaz) e ainda fumegava. A corte espalhara-se por aposentos provisórios, estava literalmente desinstalada. Há quem diga que foi esse facto que permitiu a Goethe - jovem, genial e sem jeito nenhum para punhos de renda e jogos palacianos - rasgar caminhos culturais revolucionários naquela cidadezinha de província.
Um dos seus primeiros projectos foi a transformação do parque do Ilm. Se me deixassem mandar, ficava como estava: um belo jardim de desenho barroco, cortado por canais e pontes - mistura de Veneza com o mapa quadriculado das cidades americanas. Mas o duque e o seu amigo Goethe queriam um parque com um ar natural, um jardim à inglesa, com caminhos e rios sinuosos, pontes e casas pitorescas, árvores frondosas, ruínas.
Ruínas. Em Weimar sempre houve muitas ideias para pouco dinheiro, e a ruína desta fotografia é bom exemplo do modo como conseguiam make ends meet. Um autêntico três em um: para embelezar o parque à maneira inglesa construíram a ruína de um palácio remoto, reutilizando o entulho do palácio ardido, e fazendo umas lindas janelas muito úteis para os exercícios de tiro, nomeadamente dos atiradores de besta, cuja associação à época já ia no terceiro centenário (e chegou ao quinto, mas depois tropeçou nos nazis primeiro e nos soviéticos a seguir, e lá se foi).
16 outubro 2015
mouvement perpetuel
Esta manhã tem sido assim: convido o Fox a ir à rua, ele olha para a chuva lá fora, deita-se no seu cesto e faz-me olhinhos de "lamento, mas vejo-me obrigado a declinar o seu amável convite". Vou trabalhar mais um bocado, depois volto lá, "Foooox, vamos... À RUAAAA!", e ele olha outra vez para a chuva lá fora, deita-se no seu cesto, e...
15 outubro 2015
época de inaugurações
Esta semana inaugurei com pompa a época dos gorros e dos cachecóis. Mas esqueci-me de inaugurar a época das luvas, de modo que estou vai não vai para inaugurar a época do chá de gengibre com canela.
(em contagem decrescente para inaugurar a época dos vestidos sem meias) (pois: é assim que uma pessoa se põe velha...)
pedido de ajuda: professores de português no Porto
Pediram-me que divulgasse este pedido. Muito resumido: trata-se de uma cidadã líbia que mora no Porto e precisa urgentemente de aprender português. Infelizmente não tem dinheiro para pagar as aulas. O resto da história está contada aqui.
Alguém conhece um/a professor/a de português (como língua estrangeira) que tenha algum tempo e gosto de ajudar?
14 outubro 2015
"wir spielen alle" - ciclo de sinfonias de Beethoven na Filarmonia de Berlim
O meu ciclo Beethoven começou na semana passada com a sétima, e terminou ontem com a quinta. Não podia ter sido melhor. Ontem, então, foi um fechar como quem abre para outra dimensão. Tocaram toda a quinta sinfonia em arcos vertiginosos - passei-a numa montanha russa, excepto no terceiro andamento, quando saí com o ET numa bicicleta a voar sobre Berlim.
A sétima foi tocada no primeiro concerto a que assisti, neste ciclo, e esteve igualmente extraordinária. Os músicos viveram o crescendo do último andamento com tal energia que - aposto com quem quiser - no final da sinfonia estavam a tocar em pé. Eu ouvi-a em alvoroço: comemorava-se os 25 anos da reunificação alemã, e não conseguia deixar de pensar nesta mesma sinfonia que Barenboim ofereceu aos alemães de Berlim Leste poucos dias depois da queda do muro.
Assisti a todos os concertos nos bancos do coro, hipnotizada pelo Simon Rattle. Está melhor que nunca, e surpreendi-me amiúde a sorrir, encantada: momentos em que dirigia apenas com as sobrancelhas, momentos em que se limitava a um olhar de sublime prazer. Outras vezes, temi que a batuta lhe saltasse da mão e voasse até aos confins da sala. Leveza e densidade, lirismo e energia. Vai deixar esta orquestra em 2018, e já sinto saudades. Decidi que vou tentar não perder nenhum dos seus concertos nestes anos que restam - e quero assistir a todos sentada nos lugares do coro, neste frente a frente irresistível.
À minha frente estava uma senhora que conheci na longa espera da caixa, e me contara que anda com uma fotografia do Rattle na carteira. Ali estava ela, e esteve a sorrir o tempo todo, que eu bem vi. A lambisgóia!
13 outubro 2015
"táxi"
(Palavra de hoje lá na enciclopédia alternativa: "táxi")
Ai, que se começo a contar histórias de táxis toda a gente vai atrás, e como todos temos muitas para contar, depois de amanhã a estas horas ainda cá estamos, e depois passam-me uma multa por incitamento à indisciplina e ao caos, mas o que tem de ser tem muita força e portantos...
1. Uma amiga minha ia cheia de pressa pela avenida de Gaia, em direcção ao Porto, quando viu aproximar-se um mercedes preto. Fez-lhe sinal de paragem, entrou, e perguntou:
- Vai para o Porto?
- Vou.
- Pode-me levar à rua tantos de tal?
- Com todo o gosto.
Quando lá chegaram, ela perguntou quanto era.
- Nada, minha senhora. Isto não é um táxi.
2. Fui ao Zoo de Lisboa com os miúdos, pequeninos, e à saída resolvi apanhar um táxi. Entrei no primeiro da fila, acomodei os miúdos, e ao dizer a morada olhei para o taxista e apanhei um susto: tinha a cara e os braços cheios de cicatrizes, e um ar que não associo imediatamente a um bom pai de família. Pior ainda: no compartimento junto às mudanças tinha um maço enorme de notas - dinheiro vivo! - enroladas. Ora bem: o que é que uma mãe deve fazer numa situação destas? Não tive coragem de lhe dizer "desculpe, afinal vamos a pé", e fiquei à espera do destino fatal.
Por sorte a viagem correu normalmente. Não sei o que teria sido a minha vida se tivesse acontecido alguma desgraça depois de eu ter sido demasiado delicada para ousar um "desculpe, vamos a pé".
A viagem correu bem, e ele contou-me histórias mirabolantes de ter sido criado por ciganos, e das cenas de pancadaria e das cicatrizes, e disse-me que tinha o dinheiro ali à vista para o pessoal perceber logo que ele era mesmo tolo, e que era melhor não se meterem com ele. Também andava armado, disse. Uma faca, uma pistola, e muito know-how de mãos.
Ele ia falando, e eu ia-me sentindo cada vez mais segura. Sou o cão do Pavlov da síndroma de Estocolmo.
3. Entrámos na Bolívia pelo aeroporto de Santa Cruz, ao fim da madrugada. Apanhámos um táxi para ir para o outro aeroporto, onde apanharíamos o avião que nos levaria a Sucre. O táxi: um cabo de vassoura para segurar a porta da bagageira enquanto metíamos as malas, o tablier todo esventrado sem mostradores, as poucas peças que tinha pareciam coladas com cuspe. Mas andava. Trepidando e gemendo, lá nos levou ao outro aeroporto da cidade - já posso dizer que fui testemunha de um milagre que durou meia hora. E a cidade está cheia deles, porque à nossa volta vimos imensos táxis num estado ainda pior.
Daí a pouco, sentados no meio das nossas malas, à espera que alguém nos soubesse dizer se e quando saía um avião para Sucre, abri o guia turístico e li: "Quem chega a Santa Cruz vindo do Planalto Boliviano surpreende-se com a riqueza e o nível de desenvolvimento da cidade, que nos faz lembrar a Europa".
4. Alguns taxistas, aqui em Berlim, ficam furiosos quando me vêem aparecer com o cão. "Não me avisou que tinha um cão!", resmungam. Entretanto, finalmente, percebi: são muçulmanos.
Não tem que saber: sempre que chamo um táxi, aviso que vou levar um cão. A integração vive do conhecimento e do respeito mútuo.
Ai, que se começo a contar histórias de táxis toda a gente vai atrás, e como todos temos muitas para contar, depois de amanhã a estas horas ainda cá estamos, e depois passam-me uma multa por incitamento à indisciplina e ao caos, mas o que tem de ser tem muita força e portantos...
1. Uma amiga minha ia cheia de pressa pela avenida de Gaia, em direcção ao Porto, quando viu aproximar-se um mercedes preto. Fez-lhe sinal de paragem, entrou, e perguntou:
- Vai para o Porto?
- Vou.
- Pode-me levar à rua tantos de tal?
- Com todo o gosto.
Quando lá chegaram, ela perguntou quanto era.
- Nada, minha senhora. Isto não é um táxi.
2. Fui ao Zoo de Lisboa com os miúdos, pequeninos, e à saída resolvi apanhar um táxi. Entrei no primeiro da fila, acomodei os miúdos, e ao dizer a morada olhei para o taxista e apanhei um susto: tinha a cara e os braços cheios de cicatrizes, e um ar que não associo imediatamente a um bom pai de família. Pior ainda: no compartimento junto às mudanças tinha um maço enorme de notas - dinheiro vivo! - enroladas. Ora bem: o que é que uma mãe deve fazer numa situação destas? Não tive coragem de lhe dizer "desculpe, afinal vamos a pé", e fiquei à espera do destino fatal.
Por sorte a viagem correu normalmente. Não sei o que teria sido a minha vida se tivesse acontecido alguma desgraça depois de eu ter sido demasiado delicada para ousar um "desculpe, vamos a pé".
A viagem correu bem, e ele contou-me histórias mirabolantes de ter sido criado por ciganos, e das cenas de pancadaria e das cicatrizes, e disse-me que tinha o dinheiro ali à vista para o pessoal perceber logo que ele era mesmo tolo, e que era melhor não se meterem com ele. Também andava armado, disse. Uma faca, uma pistola, e muito know-how de mãos.
Ele ia falando, e eu ia-me sentindo cada vez mais segura. Sou o cão do Pavlov da síndroma de Estocolmo.
3. Entrámos na Bolívia pelo aeroporto de Santa Cruz, ao fim da madrugada. Apanhámos um táxi para ir para o outro aeroporto, onde apanharíamos o avião que nos levaria a Sucre. O táxi: um cabo de vassoura para segurar a porta da bagageira enquanto metíamos as malas, o tablier todo esventrado sem mostradores, as poucas peças que tinha pareciam coladas com cuspe. Mas andava. Trepidando e gemendo, lá nos levou ao outro aeroporto da cidade - já posso dizer que fui testemunha de um milagre que durou meia hora. E a cidade está cheia deles, porque à nossa volta vimos imensos táxis num estado ainda pior.
Daí a pouco, sentados no meio das nossas malas, à espera que alguém nos soubesse dizer se e quando saía um avião para Sucre, abri o guia turístico e li: "Quem chega a Santa Cruz vindo do Planalto Boliviano surpreende-se com a riqueza e o nível de desenvolvimento da cidade, que nos faz lembrar a Europa".
4. Alguns taxistas, aqui em Berlim, ficam furiosos quando me vêem aparecer com o cão. "Não me avisou que tinha um cão!", resmungam. Entretanto, finalmente, percebi: são muçulmanos.
Não tem que saber: sempre que chamo um táxi, aviso que vou levar um cão. A integração vive do conhecimento e do respeito mútuo.
entretanto, na Costa Rica...
Este post é só para os amigos que andam há que meses intrigados sem saber o que aconteceu ao Matthias, e que eu nunca mais contei nada, e assim.
Está bem, obrigados. Regressa à Alemanha em fins de Janeiro. Desconfio que vai regressar ainda melhor do que partiu. Um dia destes traduzo os posts do blogue dele, para melhorar a qualidade do meu.
pobrezinhos mas felizes
Devo ter entendido alguma coisa mal, porque o que li neste texto do Angus Deaton, ontem distinguido com o prémio Nobel da Economia, é que a austeridade não tem de ser inimiga da felicidade de um povo. O importante é que a pobreza não desça abaixo de determinado limiar, diz ele, se bem entendi.
Ora bem: isto não é o prémio Nobel da Economia, isto é o prémio Nobel da Paz Social.
E agora vou ser má: se deixarem os pobrezinhos lavar os dentes com a água a correr, e comer bife de vaca ao domingo, se lhes derem bilhetes de transportes públicos para irem visitar os netos, está tudo bem.
Ora bem: isto não é o prémio Nobel da Economia, isto é o prémio Nobel da Paz Social.
E agora vou ser má: se deixarem os pobrezinhos lavar os dentes com a água a correr, e comer bife de vaca ao domingo, se lhes derem bilhetes de transportes públicos para irem visitar os netos, está tudo bem.
"Las vidas emocionales no son completamente ajenas al dinero. Si yo fuera tan pobre que no pudiera visitar a mis nietos, sería muy infeliz. En general, la falta de dinero -la pobreza- puede interferir gravemente en nuestras vidas emocionales, seguramente porque no tengamos suficiente ni siquiera para hacer vida social, comer con los amigos o practicar deporte con ellos. Pero más allá de eso, el dinero no importa tanto.
Son buenas noticias, y supone también una advertencia. La advertencia de que los programas de austeridad deben diseñarse para proteger a los más desfavorecidos, porque la pobreza puede arruinar gran parte de lo que importa a la gente. Pero si eso se logra, por más que la gente percibe la austeridad con enorme fastidio, hay muchas menos razones para preocuparse por la felicidad. La gente seguirá siendo igual de feliz (o infeliz) que antes, se preocupará quizá un poco más, pero no por ello estará más triste, o más enfadada, y disfrutará igual de sus vidas. La austeridad es mala -ya lo creo que lo es-, pero no tiene por qué destruir nuestros placeres diarios."
12 outubro 2015
já era caso para terem pena de mim, ou talvez não, ou talvez sim, ou talvez não...
Esta manhã, quando fui passear o Fox, já havia geada no nosso caminho.
Mas o outono está lindo, e parece que o Christo agora está a trabalhar ao fundo da minha rua.
(Em Portugal a acontecer uma revolução por via democrática, e esta aqui a falar do tempo, tsss tsss tsss...)
(Em Portugal a acontecer uma revolução por via democrática, e esta aqui a falar do tempo, tsss tsss tsss...)
09 outubro 2015
o fim é o princípio
Porque será que na Alemanha se chama "dia livre" ao dia com mais stress de todos, aquele em que se tenta terminar o trabalhinho todo antes de zarpar para a liberdade?
E porque é que chamam "fim" aos dois dias melhores da semana?
Bom fim-de-semana!
(Era mesmo só para avisar que vou passar dois dias e meio a fazer esta figura)
"onda"
Houve um momento na minha vida em que, por uma vez sem exemplo, soube perfeitamente o que queria quando me perguntaram que presente me haviam de dar. Estava a umas semanas de festejar o cinquentenário (ei! não era cinquentenário, era só 50 anos, apenas um mais que 49) e queria algo realmente especial: a Rachel's Wave do Matthew Cusik.
Tinha visto a fotografia - dessa e de outras ondas semelhantes - numa galeria na Fasanenstrasse, e estava fascinada. O Matthew Cusik fez uma colagem a partir de um mapa-múndi, e depois fotografou. Em tamanho grande, via-se bem que na espuma da onda se juntavam bocadinhos da Antárctida e do Árctico, do Pacífico e da Índia, alguma areia do Saara, coral das ilhas.
Queria uma onda. Essa. Mas custava 300 euros (entretanto duplicou o preço, triste vida) e o Joachim perguntou-me se não seria mais razoável pedir a um pintor amigo nosso que pintasse uma onda. Gosto muito dos seus trabalhos, e é verdade que uma fotografia cem vezes repetida não é o mesmo que uma tela original, e se os amigos já estavam a fazer uma vaquinha... Como eu na altura era muito nova, concordei. Encomendámos a onda ao nosso amigo, que se sentiu capaz de meter o meu Atlântico numa tela. Começou a pintar, fomos ver o seu trabalho: era tudo muito bom mas nenhuma daquelas ondas era a minha. Suspeitei que ela não saberia o que é lutar contra ondas gigantescas, com tamanha carga de adrenalina e gozo que nem se repara que são geladas. Além disso, aquele azul não era o meu azul, e aquela areia não era a minha areia.
(A palavra de ontem na nossa enciclopédia era "onda")
Tinha visto a fotografia - dessa e de outras ondas semelhantes - numa galeria na Fasanenstrasse, e estava fascinada. O Matthew Cusik fez uma colagem a partir de um mapa-múndi, e depois fotografou. Em tamanho grande, via-se bem que na espuma da onda se juntavam bocadinhos da Antárctida e do Árctico, do Pacífico e da Índia, alguma areia do Saara, coral das ilhas.
Queria uma onda. Essa. Mas custava 300 euros (entretanto duplicou o preço, triste vida) e o Joachim perguntou-me se não seria mais razoável pedir a um pintor amigo nosso que pintasse uma onda. Gosto muito dos seus trabalhos, e é verdade que uma fotografia cem vezes repetida não é o mesmo que uma tela original, e se os amigos já estavam a fazer uma vaquinha... Como eu na altura era muito nova, concordei. Encomendámos a onda ao nosso amigo, que se sentiu capaz de meter o meu Atlântico numa tela. Começou a pintar, fomos ver o seu trabalho: era tudo muito bom mas nenhuma daquelas ondas era a minha. Suspeitei que ela não saberia o que é lutar contra ondas gigantescas, com tamanha carga de adrenalina e gozo que nem se repara que são geladas. Além disso, aquele azul não era o meu azul, e aquela areia não era a minha areia.
Entretanto, os anos passaram e trouxeram com eles uma espécie de doçura. Olho para estas ondas e penso que a de baixo não está nada mal, não senhor, e talvez fosse boa ideia ir falar de novo com ele.
Mas ontem vi que a Maria Leonardo publicou uma onda no facebook dela, e é muito melhor que qualquer mar do Gerhard Richter. Fiquei a olhar para essa onda poderosa e surda pensando "agarrem-me, que..."
E assim vai a vida.
Vai e vem, vai e vem, rebenta e recomeça. Sem sair do sítio, sempre renovada, sempre bela.(A palavra de ontem na nossa enciclopédia era "onda")
08 outubro 2015
um dia destes ainda me pagam para me tornar alemã
Fui ao Lunchkonzert. Cheguei quinze minutos antes da hora, mas as portas já estavam fechadas. Antes de mim tinham chegado 1.500 pessoas, não deixavam entrar mais ninguém. E logo com o Varian Fry Quartett, e logo com um quarteto de Brahms! Grande azar.
A caminho da porta principal, para esperar que abrissem a caixa, vi passar um músico com quem precisava de falar urgentemente, e fui ter com ele. Como ele estava sem tempo, entrámos os dois no edifício, e eu fui dizendo ao que ia enquanto subíamos as escadas. Conversa feita, ele foi à vida dele, e eu dei comigo dentro da Filarmonia, mesmo ao lado da porta que me levaria directamente para a sala onde decorria o concerto que eu queria muito ver.
Hesitei, disse-me "regras são regras!", voltei para trás e saí para a rua.
Conheço muitos alemães que não teriam feito isto. Um dia destes ainda me pagam para eu me tornar alemã - subo-lhes o nível!
(A verdade é que uma pessoa faz uma coisa destas e sente-se um bocadinho burra. Que mal fazia?, etc. etc. - maldito Kant, grande metenojo.)
--
Fiquei em frente à porta principal à espera que a abrissem no fim do concerto, para ir para a fila da caixa. Algumas pessoas saíram (parvas! ao fim de cinco ou dez minutos!), mas os porteiros não deixaram entrar ninguém. Dantes deixavam as pessoas esperar dentro da casa, junto aos pilares da zona reservada do foyer. Não era perfeito, mas sempre se podia ouvir a música ao longe. Além disso, sempre que saía alguém deixavam entrar outras pessoas. Mas era tamanha a barulheira de conversas, tão desagradáveis os encontrões e os gritos "eu! eu! eu!" sempre que alguém saía, o estrondo dos sapatos apressados a chegar perto dos músicos, o clac clac clac a ecoar em toda a sala, era tudo tão caótico e degradante que a Filarmonia decidiu tornar as regras muito mais rígidas. A partir do momento em que a sala está cheia, não entra mais ninguém. Nem que saiam centenas de pessoas, não entra mais ninguém. Só no fim do concerto abrem as portas - e aí podemos aproveitar os aplausos para correr para o palco e ouvir os encores.
De modo que fiquei 45 minutos em frente à porta fechada, vi sair dezenas de pessoas, e pensei com irritação nos palermas que abusaram de tal modo que conduziram a esta proibição. Afinal, havia um bom motivo para eu não entrar na sala pela porta dos fundos: o mundo é mais fácil e agradável quando as pessoas respeitam voluntariamente as regras e se respeitam mutuamente, em vez de abusar ao ponto de se imporem regras mais rígidas e controles mais apertados.
Desta vez não corri para o palco no fim do concerto. Queria ir para a fila da caixa, comprar bilhetes para o ciclo Beethoven desta semana. A música do encore soava ao longe, mas mal a ouvia, porque estava toda a gente na conversa. Inclusivamente os que tinham assistido ao concerto.
Não entendo as pessoas que dizem que gostam de música, mas se põem a falar e a incomodar quem quer ouvir. Grandes parolos.
O Kant teria com certeza uma palavrinha a dizer sobre isto. E suspeito que concordaria com ele.
07 outubro 2015
"manteiga"
"Manteiga" era a palavra de ontem na enciclopédia divertida do facebook onde ultimamente tenho andado a gastar o tempo que tenho e que não tenho.
--
Que pena a palavra mágica já não ser manteiga. Queria ter escrito ontem, mas a vida real meteu-se-me de permeio, e ao fim do dia já estava demasiado cansada para vir cá contar daquela vez que comi cinco pães com manteiga ao lanche, e a empregada me proibiu de comer mais um que seja, mas eu estava com fome e estava-me a saber tão bem, e além disso já tinha acontecido o 25 de Abril e não havia motivo para ter respeitinho pela autoridade, pelo que comi o sexto, e ela ficou tão furiosa que atirou o meu copo de leite pela cozinha fora (muitos anos depois uma psicóloga havia de explicar ao meu filho "quando os teus pais fazem coisas que te parecem patetas, é porque não sabem como lidar com aquela situação" - e eu vi o olhar dele a iluminar-se, finalmente o mundo fazia sentido, e podia continuar a gostar dos pais). Ui, a nossa empregada era uma mulher, ui!, daquelas cuidado com ela. Eu tinha 11 anos, e todas as semanas tinha de limpar as janelas da casa inteira. Em compensação, os rapazes tinham uma vidinha descansada. A minha irmã, aos 7 anos, era conhecida no talho porque pedia assim: "queria 1 kg de carne de estufar mas não me engane senão a minha empregada bate-me". Trazia a carne para casa, e ia limpar as casas de banho. Um dia era preciso falarmos muito a sério desta violência quotidiana contra as crianças, que provavelmente fez parte da história de nós todos. Ou quase todos.
Mas queria falar de manteiga, e dos scones dos Cinco a sair do forno, barrados com manteiga. Lá em casa descobrimos a receita de scones no livro do Pantagruel, e aos sábados e domingos, quando o pão se acabava (pudera, com gente a comer cinco e seis pães num lanche só...) era o que fazíamos. Adaptávamos a receita aos ingredientes que havia em casa, variava sempre. Talvez por isso tenha agora a mania de açambarcar, para que nunca me faltem em casa os ingredientes para todas as receitas do Pantagruel. O Joachim protesta: "achas que a guerra começa amanhã?", mas o meu inconsciente lá sabe como se arranjar com os traumas de não ter ovos para fazer uns scones ao domingo à tarde. Os nossos scones ficavam como pedras, mas quentes e barrados com manteiga (quando a havia), hummmm. Além disso, a fome é boa cozinheira, como dizem os alemães. Muitos anos mais tarde, convidei uma amiga para um brunch, e fiz esses scones. Depois ela convidou-me para um lanche, e fê-los à maneira dela, fofos como bicos de pato (ui, don't get me started on bicos de pato!). Comi-os com muito prazer e alguma vergonha, lembrando o ar discreto dela enquanto ia roendo os da minha infância. Já tenho um teste infalível para ver se os amigos são bons: observar a cara que fazem ao comer os meus scones.
Mas pronto, a palavra de hoje já não é manteiga, pelo que nem conto isso, nem falo de short bread, nem de fudge, nem deixo aqui uma receita de brownies que tem tanto de manteiga como de chocolate. Ainda anteontem fui dar desses brownies aos trolhas de uma obra aqui perto, nem queiram saber porquê, e eles agradeceram muito. Eu também lhes agradeço muito poder passar pela obra e cumprimentarmo-nos mutuamente como pessoas civilizadas, mas a palavra de hoje não é piropo.
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Que pena a palavra mágica já não ser manteiga. Queria ter escrito ontem, mas a vida real meteu-se-me de permeio, e ao fim do dia já estava demasiado cansada para vir cá contar daquela vez que comi cinco pães com manteiga ao lanche, e a empregada me proibiu de comer mais um que seja, mas eu estava com fome e estava-me a saber tão bem, e além disso já tinha acontecido o 25 de Abril e não havia motivo para ter respeitinho pela autoridade, pelo que comi o sexto, e ela ficou tão furiosa que atirou o meu copo de leite pela cozinha fora (muitos anos depois uma psicóloga havia de explicar ao meu filho "quando os teus pais fazem coisas que te parecem patetas, é porque não sabem como lidar com aquela situação" - e eu vi o olhar dele a iluminar-se, finalmente o mundo fazia sentido, e podia continuar a gostar dos pais). Ui, a nossa empregada era uma mulher, ui!, daquelas cuidado com ela. Eu tinha 11 anos, e todas as semanas tinha de limpar as janelas da casa inteira. Em compensação, os rapazes tinham uma vidinha descansada. A minha irmã, aos 7 anos, era conhecida no talho porque pedia assim: "queria 1 kg de carne de estufar mas não me engane senão a minha empregada bate-me". Trazia a carne para casa, e ia limpar as casas de banho. Um dia era preciso falarmos muito a sério desta violência quotidiana contra as crianças, que provavelmente fez parte da história de nós todos. Ou quase todos.
Mas queria falar de manteiga, e dos scones dos Cinco a sair do forno, barrados com manteiga. Lá em casa descobrimos a receita de scones no livro do Pantagruel, e aos sábados e domingos, quando o pão se acabava (pudera, com gente a comer cinco e seis pães num lanche só...) era o que fazíamos. Adaptávamos a receita aos ingredientes que havia em casa, variava sempre. Talvez por isso tenha agora a mania de açambarcar, para que nunca me faltem em casa os ingredientes para todas as receitas do Pantagruel. O Joachim protesta: "achas que a guerra começa amanhã?", mas o meu inconsciente lá sabe como se arranjar com os traumas de não ter ovos para fazer uns scones ao domingo à tarde. Os nossos scones ficavam como pedras, mas quentes e barrados com manteiga (quando a havia), hummmm. Além disso, a fome é boa cozinheira, como dizem os alemães. Muitos anos mais tarde, convidei uma amiga para um brunch, e fiz esses scones. Depois ela convidou-me para um lanche, e fê-los à maneira dela, fofos como bicos de pato (ui, don't get me started on bicos de pato!). Comi-os com muito prazer e alguma vergonha, lembrando o ar discreto dela enquanto ia roendo os da minha infância. Já tenho um teste infalível para ver se os amigos são bons: observar a cara que fazem ao comer os meus scones.
Mas pronto, a palavra de hoje já não é manteiga, pelo que nem conto isso, nem falo de short bread, nem de fudge, nem deixo aqui uma receita de brownies que tem tanto de manteiga como de chocolate. Ainda anteontem fui dar desses brownies aos trolhas de uma obra aqui perto, nem queiram saber porquê, e eles agradeceram muito. Eu também lhes agradeço muito poder passar pela obra e cumprimentarmo-nos mutuamente como pessoas civilizadas, mas a palavra de hoje não é piropo.
agarrem-me, que tive mais uma ideia fantástica para melhorar a vida política em Portugal...
Mas desta vez é só uma provocação. Não é como a proposta que fiz ontem de confrontar as pessoas com uma questão muito clara: "quero participar na vida política do meu país, ou quero - por decisão inteiramente livre e voluntária - assumir-me como cidadão de segunda, desses que pagam impostos mas desprezam o seu direito de influenciar as escolhas políticas do país?"
A proposta-provocação é esta: cada vez que um partido faz o contrário do que prometeu durante a campanha eleitoral, ou defendeu na legislatura anterior enquanto oposição, perde um deputado para o partido que prometeu fazer isso, ou que o fez quando estava no governo.
Por exemplo: um partido está no governo e diz que é preciso cortar o 13º mês. Um partido da oposição diz "o povo não pode sofrer mais, não se pode cortar o 13º mês, há limites para o sofrimento!" Se na legislatura seguinte é este o partido que está no poder, e corta o 13º mês, perde logo ali um lugar no parlamento, que é dado ao outro partido. O mesmo se diga para baixar reformas, fechar escolas, aumentar o IVA, meter amiguinhos como assessores, etc.
Vá, é só uma provocação. Mas que apetece, lá isso...
A proposta-provocação é esta: cada vez que um partido faz o contrário do que prometeu durante a campanha eleitoral, ou defendeu na legislatura anterior enquanto oposição, perde um deputado para o partido que prometeu fazer isso, ou que o fez quando estava no governo.
Por exemplo: um partido está no governo e diz que é preciso cortar o 13º mês. Um partido da oposição diz "o povo não pode sofrer mais, não se pode cortar o 13º mês, há limites para o sofrimento!" Se na legislatura seguinte é este o partido que está no poder, e corta o 13º mês, perde logo ali um lugar no parlamento, que é dado ao outro partido. O mesmo se diga para baixar reformas, fechar escolas, aumentar o IVA, meter amiguinhos como assessores, etc.
Vá, é só uma provocação. Mas que apetece, lá isso...
06 outubro 2015
proposta infalível para reduzir o abstencionismo a uma margem residual
(imagem)
Muito simples: quem não vota deixa de ser considerado eleitor.
Depois das eleições, são apagados dos cadernos eleitorais os nomes dos eleitores que não foram votar. Para recuperar o direito de voto, a pessoa vai-se inscrever de novo, e explica porque é que faltou.
Quem faltar 3 vezes (mesmo que intercaladas), tem de fazer x horas de serviço de utilidade pública para recuperar o direito de voto. Por exemplo: passar o dia das eleições a ajudar pessoas com mobilidade reduzida a ir votar. Ou: trabalhar o dia inteiro numa mesa de voto.
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Os detalhes:
- Cada eleitor leva uma fotocópia do seu cartão de identificação, ou preenche um formulário junto da mesa de voto, para receber um carimbo como comprovativo de que votou. Quem vota por correspondência, recebe a folha comprovativa juntamente com o boletim de voto, que faz carimbar nos correios no momento em que entrega a carta.
- Quando o nome é apagado dos cadernos eleitorais, envia-se uma carta a informar a pessoa em causa.
- O voto por correspondência tem de ser uma possibilidade real.
- O processo de inscrição dos emigrantes tem de ser facilitado. É absurdo que uma pessoa se veja obrigada a tirar um dia de férias e a deslocar-se centenas de quilómetros para se inscrever no Consulado, ou informar sobre alguma modificação. Tem de ser possível fazer esse tipo de registos na própria autarquia de residência, ou até na autarquia de origem, em Portugal. Ou seja: em vez de obrigar as pessoas a ir ao serviço público português mais próximo, promover a comunicação entre serviços (inclusivamente entre os serviços públicos portugueses e estrangeiros).
05 outubro 2015
a República ultrajada
Usando a linguagem que os machos ibéricos compreendem: para a RTP, a República portuguesa não merece o respeito devido a uma mãe, uma filha, uma irmã. Então está bem.
Usando a linguagem que as pessoas civilizadas compreendem: para a RTP, a dignidade da República portuguesa não é inviolável. Pelo contrário, qualquer rufia de meia tigela em qualquer esquina pode reduzi-la a um objecto passível de posse e manipulação. Então está bem.
Pensando melhor, talvez isto seja um aviso ao estado da nossa Democracia. Mas confesso que é preciso pensar muito para atingir o sarcasmo...
(Já agora, alguém me explica porque motivo é que o Presidente da República não assiste às comemorações oficiais? Foi operado de urgência a um tumor galopante, ou quê?)
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Adenda, devido ao facto de terem retirado o vídeo: era um spot sobre o dia da República, com uma voz masculina a mandar piropos à imagem da República, "acreditas em amor à primeira vista, ou tenho de passar aqui outra vez?", "se cair já tenho aonde me agarrar", e coisas assim. Depois vinha uma frase sobre a República estar velhinha mas ainda boa para as curvas (não me lembro da frase exacta) e terminava com um gajo a mandar uma assobiadela à estátua.
Segunda adenda: há aqui uma cópia do vídeo.
Deixo a transcrição:
"- Acreditas em amor à primeira vista, ou tenho de passar aqui outra vez?
- Os teus pais devem ser piratas. És cá um tesouro..."
- Ó anjo, doeu-te muito quando caíste do céu?
- Se cair, já sei onde me agarrar!
Apesar dos seus 105 anos, a República continua muuuiiito bem conservada.
Transmissão das comemorações oficiais da implantação da República, hoje de manhã na RTP1.
Fiuuu, fiuuuuu!"
perplexidade
Para mim, o pior dos resultados de ontem foram as reacções de algumas pessoas. Entendo a frustração, entendo a perplexidade, entendo o impulso de querer sair do país. Mas fiquei realmente chocada com desabafos que passavam ao povo um atestado de burrice, de masoquismo ou de um estado de identificação afetiva e emocional com o sequestrador. Pior ainda quando esses comentários vêm de pessoas que elogiam muito o povo quando este vota como elas acham que devia ter votado.
A Democracia não é isto. E esperava mais de quem partilha os meus ideais de um país mais solidário e justo.
E agora? É arregaçar as mangas, e continuar a trabalhar. Se a ideia de um Estado com responsabilidades sociais não é suficientemente forte para as pessoas votarem nela, ou se as pessoas não acreditam que haja um partido capaz de defender esses valores, falhámos algures. Se os ventos não correm de feição para os mais desprotegidos da nossa sociedade, mais teremos de trabalhar para lhes mudar o rumo.
(Também eu fiquei perplexa com o facto de tantas pessoas terem votado em partidos que se orgulham de ter ultrapassado a troika pela direita. E a alta taxa de abstenção entre as pessoas jovens em cuja Educação o país tanto investiu, nomeadamente as que emigraram, incomoda-me particularmente.)
E agora? É arregaçar as mangas, e continuar a trabalhar. Se a ideia de um Estado com responsabilidades sociais não é suficientemente forte para as pessoas votarem nela, ou se as pessoas não acreditam que haja um partido capaz de defender esses valores, falhámos algures. Se os ventos não correm de feição para os mais desprotegidos da nossa sociedade, mais teremos de trabalhar para lhes mudar o rumo.
(Também eu fiquei perplexa com o facto de tantas pessoas terem votado em partidos que se orgulham de ter ultrapassado a troika pela direita. E a alta taxa de abstenção entre as pessoas jovens em cuja Educação o país tanto investiu, nomeadamente as que emigraram, incomoda-me particularmente.)
04 outubro 2015
local do crime
Baixei-me para apanhar umas castanhas da Índia que estavam no passeio e me dão muito jeito para atirar às traças, e nesse preciso momento, zás!, uma castanha caiu da árvore, fez ricochete no passeio e foi direita ao meu olho.
(Já nem preciso de cair das escadas nem nada para arranjar um olho negro!)
(Tendo em conta que fui atacada pelo castanheiro do vizinho, será que ainda entra na categoria de violência doméstica?)
03 outubro 2015
lua de ferrugem
Ontem à noite houve fogo de artifício perto do meu bairro. Ia eu com o Fox na rua, e de repente zishhhhhhhh pum zishhhhhhhhh pum!, o céu em festa e o cão a morrer de medo. Viemos para casa. Fui à varanda para fotografar, mas quando lá cheguei já tinha acabado tudo. Estava apenas a lua. E que lua! Cor de ferrugem, como no dia do eclipse. A culpa deve ser de agora haver água em Marte, tanta humidade no Universo anda-nos a oxidar os planetas.
E porque é que havia fogo de artifício?, perguntarão. Também eu perguntei. Era o Artemis, um bordel enorme, que festejava 10 anos de existência. Fui agora mesmo espreitar o site, wow, diz que é um spa erótico, e é o primeiro site alemão que vejo com tradução para turco, chinês e japonês, entre outros. Parece que o pessoal internacional gosta muito de frequentar spas.
Em todo o caso, Berlim: um bordel chega aos 10 anos de existência, e faz uma grande festarola, com fogo de artifício para a cidade.
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