13 fevereiro 2026

uma sociedade assim

 

Moro em Berlim há quase vinte anos, e ontem, pela primeira vez (que me lembre), um autocarro arrancou no momento em que eu estava a chegar à porta. Mas convenhamos: era a porta de trás, se calhar o condutor nem me viu.
Em todo o caso: jeito não deu, confesso, mas lembrei-me logo que era a primeira vez em vinte anos. Adiante.
Hoje, perdi o meu autocarro por muito. Entrei no seguinte, um expresso, que só apanhou o que me dava jeito na última paragem antes de irem cada um para o seu lado. Tentei a minha sorte: sair pela porta da frente, e correr para entrar pela porta de trás no autocarro da minha rua. O condutor parou o autocarro, viu-me ali ao lado dele, e disse que não podia sair por aquela porta. Expliquei-lhe o problema.
E ele - tãtãtãtãããããããã - carregou num botão e disse: "colega, espere aí um bocadinho, tenho aqui uma passageira para o seu autocarro". E depois abriu a porta da frente para eu sair.
Se querem saber tudo: acho que era um desses imigrantes turcos, ou sírios, ou sei lá o quê. Falava alemão com algum sotaque.
Um desses que vêm de países que "não têm a nossa cultura", ou lá como se diz.
Não pensem que os condutores alemães são mais antipáticos. Já tive um que me viu a correr para o autocarro e me fez sinais de luzes, como quem diz "calma, calma, eu espero por si".
Estão bem uns para os outros: no Natal, sempre que vejo um autocarro com um condutor "desses que não são da nossa cultura", sinto-me profundamente grata: os condutores de autocarro da cultura muçulmana trabalham muito mais no Natal, para os seus colegas da cultura cristã poderem passar esses dias com a família. E depois, quando o Ramadão chega ao fim, trocam.
Adoro viver numa sociedade assim.

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