22 junho 2026

manhã de sábado (2)

 

No facebook, uma amiga comentou o meu texto "manhã de sábado" (publicado aqui) propondo uma outra maneira de olhar para o que me aconteceu. Partilho, porque é impressionante: os factos são os mesmos, mas a maneira de os ler e de reagir a eles é quanto basta para ter uma manhã de sábado deliciosa ou muito irritante. [ Já agora: quem acham que corre mais risco de votar nos partidos que querem dar cabo disto tudo? A pessoa que interpreta com optimismo, ou a pessoa que vê agressões em tudo? ]

Versão portuguesa ou pessimista:
Manhã de sábado: fui comprar espargos e morangos à roulotte que os vende à entrada da floresta. Uns frascos de compota de morango puseram-se a rir para mim todos oferecidos, e o senhor "têm 75% de fruta", e eu "então levo dois, mas se não for bom venho cá na próxima semana pedir o dinheiro de volta" e ele "vem na próxima semana, vem, mas é para comprar mais dois!"
A senhora atrás de mim riu-se.
Paguei com o cartão, fui para o carro, e o marido da senhora estava a bloquear o meu carro, o sacana, aparece sempre um sacana destes que não pensa nos outros, agora percebo riso da senhora, era de mim que ela estava a rir, buzinei e ele recuou um bocadinho com o carro dele para eu poder tirar o meu, ele depois ainda se pôs a dizer coisas como se eu não fosse capaz de tirar o carro sozinha, não querem ver, se calhar era toxico-dependente, agradeci duas vezes não fosse o sacana riscar-me o carro ou perseguir-me com o carro dele, e fui ao resto da minha vida nesta manhã: devolver garrafas, comprar duas ou três coisitas para comer.
Não sei como, mas quando vou dos espargos para o supermercado arranjo sempre de entrar na rua errada, e ter de ir dar uma volta enorme. Estes serviços camarários são muito incompetentes, nem a sinalização conseguem fazer bem, até parece que é preciso um curso superior para pôr uma tabuleta e aposto que agora até têm um curso superior, e são filhos da irmão da prima, cambada de nepotistas. Acertei à segunda, devolvi as garrafas, fiz as minhas compras, e quando estava a chegar a minha vez na caixa apareceu a senhora que estivera atrás de mim nos espargos, e avisou-me que o meu cartão não tinha sido aceite. Não querem lá ver que esta andou a seguir-me, não fosse eu deixar o vendedor de espargos sem a massa. "Se quiser", disse ela, "pode lá voltar e pagar". ("Se quiser" - tão simpática!, pensei para comigo sardonicamente, se eu disesse alguma coisa ainda ela chamava o marido, e se andam a seguir-me são capazes de tudo).
Disse-lhe que sim, claro que ia, e ao ver o marido dela atrás do carrinho pensei se não seria melhor agradecer uma terceira vez, não fosse o tipo bloquear-me aqui também, e por isso comentei: "vou, apesar de desta vez não ter ninguém para me ajudar a tirar o carro!" Eles riram. Eu suspirei de alívio: ufa, livrei-me destes loucos, desta vez correu bem.
Fui salvar o dia ao senhor dos espargos, que ficou muito agradecido, disse ele, mas bem lhe vi na cara aquela expressão de censura que dizia "a caloteira, o que ela queria era levar sem pagar, da próxima não lhe aceito o cartão. E voltei para casa a resmungar para comigo e aliviada ao ver o verdíssimo verde do meu bairro, e a pensar como queria chegar a casa e fechar a porta na cara daquela gente toda, os sacanas, isto sair de casa é um perigo., ou, pelo menos, uma chatice. Tive de dar lugar ao autocarro para reentrar na rua, depois da paragem, porque os incompetentes da câmara não sabem planear o trânsito e compram autocarros que têm dificuldade nas curvas em ruas tão estritas, deve ser mais um primo que tem uns autocarros para vender e as pessoas que se desenrasquem, querem lá saber se nos atrasamos; e o condutor ainda me fez sinais com os piscas, o idiota; só não levou duas buzinadelas porque estou com pressa e não quero que o tipo faça a manobra ainda mais devagar, ou pare o autocarro para me vir pedir satisfações. Mas que manhã! Para onde quer que olhasse: gente manhosa.
Agora: não sei como é que há quem pense que é Deus, é o universo, é lá o quê, que existe e dá sinais. Como é possível numa cidade tão grande, depois de todas as voltas que dei, acabar por me encontrar na caixa do supermercado com a senhora que estava a comprar espargos na roulotte à entrada da floresta só se explica porque ela me seguiu assim que percebeu que o meu cartão não tinha sido aceite e queria apanhar-me para me confrontar com o calote. Se eu não tivesse sido simpática e dito que ia já ao homem pagar, ainda tinha feito uma peixeirada logo ali na bicha do supermercado!

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