05 junho 2026

dançar com Siri Hustvedt

 




Agora que Siri Hustvedt anda por aí a apresentar "Fantasmas", o seu livro mais recente e mais dorido, recomendo muito que vejam este documentário.
A realizadora contou que estava em casa deles, a conversar com Paul Auster, quando Siri Hustvedt entrou, comentou algo que tinha lido, e começou a ler em voz alta para todos. Epifania.
Vi a estreia na Berlinale. No final, ao avançar para o palco pelo meio do público que aplaudia de pé, Siri fez algo que me acrescentou ao fascínio que sinto por ela: enfiou as mãos nos bolsos traseiros das calças, e caminhou com o seu passo elástico de quem sobrevoa o mundo para o ver melhor.

04 junho 2026

desaire

 

A Alemanha, o segundo país que mais contribui para a ONU, perdeu a corrida a um lugar no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
O país está em choque.
E de repente começam a pipocar teses explicativas por todos os lados (os diversos partidos, os jornalistas, a sociedade civil). Uns vêm de dedo no ar "eu bem avisei", muitos criticam a arrogância de ter acreditado que seria um vencedor natural, criticam a imagem de retrocesso que este governo tem dado numa série de áreas fundamentais, como, por exemplo, a energia e o clima, criticam a forma diletante como o processo foi conduzido.
Uma crítica, contudo, destaca-se das outras, pela frequência e intensidade. Pode resumir-se com as palavras de Adis Ahmetović, líder parlamentar do SPD (parceiro da coligação governamental) para assuntos internacionais:
«Temos de nos questionar com sinceridade sobre os sinais que a Alemanha tem enviado nos últimos anos. Quem se proclama guardião da ordem jurídica internacional não pode aplicar dois pesos e duas medidas no que diz respeito ao direito internacional.»
O facto de esta ser a leitura mais frequente do fracasso nas eleições de ontem é sinal de que a Alemanha sabe muito bem que o seu "silêncio ensurdecedor" está profundamente errado. Espero que este chumbo dê ao país o empurrão de que precisava para se repensar no que diz respeito à tradição de uma aliança cega, surda e muda com Israel, quaisquer que sejam as acções do governo desse país.

02 junho 2026

regresso ao futuro

 

As sondagens sobre as eleições no Estado de Sachsen-Anhalt apontam para a possibilidade de ter um governo AfD.
Segundo o Tagesspiegel, "as consequências seriam provavelmente mais visíveis no setor da educação: a AfD pretende autorizar o home schooling, acabar com a educação inclusiva, dar maior ênfase ao patriotismo, e proibir as bandeiras arco-íris nas escolas. As crianças de famílias de refugiados deverão ter aulas separadas. Serão retomados os intercâmbios escolares com a Rússia.
Também na polícia e na administração haverá mudanças. Estão previstos mais agentes da polícia, patrulhas de cidadãos e reestruturações nos ministérios. Os críticos temem pressão política sobre a administração pública, sendo que a AfD promete uma mudança de rumo fundamental.
O debate mostra que, em Sachsen-Anhalt, os apoiantes da AfD já não se preocupam apenas com a questão da migração. O que está em causa é o rumo que esse Estado deve seguir."

01 junho 2026

o Remigration Summit num jornal berlinense

 

Esta manhã, a newsletter do diário berlinense Tagesspiegel abria com um comentário sobre a Remigration Summit que decorreu em Portugal no sábado passado. Fui procurar notícias portuguesas sobre o que aconteceu na Figueira da Foz, e encontrei apenas esta pequena reportagem na TVI. Aparentemente, um evento com gente desta em Portugal não merece a atenção da nossa imprensa.
A newsletter do jornal berlinense dizia o seguinte:
"Cerca de 600 representantes da Nova Direita reuniram-se no fim de semana para uma «cimeira internacional sobre remigração». Entre os participantes: Martin Sellner, figura de destaque do Movimento Identitário e classificado como extremista de direita pelos serviços de informação alemães. Também esteve presente Greg Bovino, que, até à sua demissão como chefe da Agência de Proteção de Fronteiras norte-americana (ICE), foi temporariamente responsável pelas rusgas em massa contra imigrantes nos EUA, nomeadamente em Minneapolis.
O vice-presidente da AfD, Kay Gottschalk, e a deputada do Parlamento de Brandemburgo, Lena Kotré, também marcaram presença, apesar das instruções internas da liderança da AfD para que os políticos desse partido não apareçam ao lado de Sellner. Lena Kotré elogiou a gestão de Bovino, que durante semanas aterrorizou cidades e bairros inteiros nos EUA.
Os identitários de Sellner propagam o conceito de etnopluralismo: as sociedades dentro das fronteiras estatais devem ser etnicamente homogéneas, e as diferentes etnias do mundo devem viver, na medida do possível, separadas umas das outras. No Remigration Summit, Sellner exigiu uma paragem total da migração para a Europa e a expulsão de milhões de «não ocidentais». Em tempos, o político da AfD, Björn Höcke, propôs uma política de «crueldade bem temperada» e falou em partes da população que teriam de ser perdidas. Nada disto pode ser esquecido, tendo em conta os atuais picos de popularidade da AfD nas sondagens."

encontro internacional do ódio

 



Notícia: dn.pt

Guardem esta imagem.
Lembrem-se bem dela quando a vossa comida sobre rodinhas não chegar, quando não encontrarem ninguém para tratar dos vossos velhos ou dos vossos filhos, quando os hotéis e os alojamentos locais não tiverem quem lhes limpe os quartos, quando os restaurantes e cafés fecharem por falta de quem sirva, quando o preço dos morangos, framboesas e mirtilos disparar, quando for difícil chamar um uber ou bolt, quando a mercearia da esquina e a "loja do chinês" onde se encontra quase tudo fecharem. Quando as contas da Segurança Social descarrilarem de vez. Quando a falta de mão-de-obra for mais um factor de estrangulamento da já de si frágil economia portuguesa. Quando mulheres da vossa família forem perseguidas por serem "feministas", quando amigos vossos se sentirem inseguros na rua por terem determinada cor de pele ou forma de olhos, quando for de novo normal espezinhar de várias formas quem não corresponde à chamada norma.
Estes fanfarrões - e todos os da sua laia, esses canalhas especializados em ser fortes com os fracos - gostam de se fazer passar por patriotas, mas o que os move é um projecto de conquista de poder, custe o que custar - e quem paga o preço vamos ser todos nós. Já o estamos a pagar, aliás.