30 setembro 2011

até parece que Berlim não está linda de morrer neste princípio de Outono...




É que não consigo parar por aqui: ontem em Munique, daqui a bocadinho na Holanda, num castelo junto ao mar.
Lá vamos nós para o nosso encontro anual de família: três gerações, muita galhofa e alegria.
E como se isto não fosse programa suficientemente bom, parece que vem por aí o fim-de-semana mais quente dos últimos tempos.
A seguir é que não é tão engraçado: era suposto ficarmos uma semanita por Amesterdão e Haia, mas temos de voltar logo, para eu me sentar pacientemente junto à porta da rua, à espera que chegue o envelope do FedEx, para o enviar no mesmo instante para o consulado americano em Munique. Feito isto, volto cá e conto como foi. Prometido!

mal resolvo uma questão existencial, aparece-me a seguinte


Ontem tive finalmente a resposta à questão que há anos me atormentava: o que é que os escoceses têm debaixo das saias?
Aaaah, agora sei toda a verdade. Já posso dormir descansada!

Mas esta madrugada acordei de repente, com uma dúvida a latejar na cabeça:

- e as escocesas?

29 setembro 2011

1200 km para quatro horas e dez minutos

É oficial: preciso de uma máquina fotográfica minúscula, e muito boa, para levar sempre comigo.
Descobri isso esta manhã bem cedo, quando ia num comboio regional a caminho de Munique, imaginando com que palavras poderia descrever neste post a beleza da neblina pousada nos vales, a placidez com que abraçava os grossos troncos das árvores. Pensei de novo nisso hoje à tarde, ao atravessar uma Alemanha tocada pelo Outono: que pena não vos poder mostrar. Especialmente a Turíngia - ah, a Turíngia tem uma beleza especial. Ou as ruínas de antigos edifícios industriais um pouco por toda a antiga RDA: testemunhos dolorosos de aspectos mais sombrios da reunificação alemã.
E as vacas, as milhentas vacas que vi a sorrir nos prados? O que eu me lembrei do Cavaco Silva nesta viagem! Quem me dera ter podido fotografar para ele algumas dessas vacas alemãs, para que confirme que a Alemanha e Portugal são como países irmãos - que digo eu? países gémeos! - no que diz respeito às coisas realmente importantes!

Foi a primeira vez que estive em Munique na altura da Oktoberfest. Ao chegar à cidade, ao fim do dia, encontrei-a transformada pelas mulheres trajando Dirndl - em todas as cores, de saia até aos pés ou de minissaia, uns de (digamos assim) gola alta e outros quase sem gola (digamos assim). Uma beleza, com uma particularidade fantástica: transformam em pura sensualidade um ou outro quilito que uma mulher possa ter a mais. Duvido que os Weight Watchers tenham grande saída numa região onde as mulheres sabem fazer render tão grandiosamente o seu valor acrescentado...
E foi assim que eu - que sempre preconceituei que essa festa é uma palermice - me deixei conquistar pelos Dirndl e pelas Latzhosen (há maneiras tão giras de criar um estilo pessoal com os calções de pele e a camisa aos quadrados vermelhos!) e quase fui à Wiesn dar uma espreitadela.

Os amigos em casa de quem ficámos contaram histórias mirabolantes: a maior festa popular do mundo, 4,5 milhões de visitantes em dez dias, altíssimos preços, altíssimas gorjetas (uma empregada na Wiesn faz à vontade 15.000 euros em duas semanas - mas também lhe sai do corpinho). Deram-me a provar a cerveja feita especialmente para esta festa - era mesmo muito boa, com um teor de álcool mais alto. Quer dizer: lembro-me vagamente de me ter sabido muito bem...

Esta manhã fomos para o consulado americano. Quase quatro horas à espera, e para quê? Para nos mandarem para casa, porque a escola americana preencheu mal o I-20, disse que o Matthias vinha do Ghana. Percebe-se como é que aconteceu: no formulário online escolheram Germany, mas deixaram o cursor escorregar para a linha de baixo. Eu tinha esperança que eles iam corrigir à mão, e pôr um carimbo do consulado, porque está perfeitamente na cara que isto é um erro estúpido, mas eles não: volte para casa, escreva à escola, eles que lhe mandem novo formulário, você depois manda-nos a nós, e nós depois damos-lhe o passaporte com o visto. Porque se deixarmos isto passar assim, pode bem ser que depois não deixem o seu filho entrar no país, e o devolvam à Europa no mesmo avião em que foi. E sim, capazes disso são eles, isso sei eu muito bem.
Mas pelo menos não me obrigaram a provar que o miúdo vai mesmo regressar ao fim de três meses, como me tinham prevenido ao telefone - sabia eu lá provar uma coisa dessas? Prognósticos, só no fim do jogo.

Saímos do consulado à hora do almoço, e eu com aquela fisgada de ir espreitar a Oktoberfest, e comer um franguito grelhado, e verificar se a cervejinha era mesmo tão boa como me parecera no dia anterior. Telefonei a uma amiga para nos encontrarmos lá, mas entretanto o Matthias começou a fazer contas de cabeça ao primeiro comboio que saía em direcção a Berlim, e que tinha de chegar cedo a casa porque amanhã tem dois testes, e que ainda tinha de ver "les Choristes" para se preparar para o de francês, e eu - o que uma mãe não faz por um filho? - acabei a desistir da Wiesn e a reduzir o encontro com essa amiga para dez minutos a pé num fast food (não digo qual porque alguns leitores deste blogue eram bem capazes de criar uma petição contra mim...), enquanto trocávamos informações vitais à velocidade da luz.  
Depois despedimo-nos dela precipitadamente e enfiámo-nos a correr no comboio. Embalada no muita-terra-muita-terra (era um ICE), vim a pensar nesse mistério que são as amizades: costumo partir para as pessoas com confiança no melhor de si próprias, e coração aberto para as acolher tal como são. Já tenho sofrido grandes decepções, algumas muito dolorosas. Outras vezes, muitas mais, sinto-me recebida da mesma maneira - e desta abertura mútua nascem verdadeiros momentos de encontro. Como os dez minutos de hoje, que me iluminaram o dia.

28 setembro 2011

tão a correr tão a correr que nem tenho tempo de vir cá dizer que não tenho tempo para escrever

Estou de saída para Munique. Um saltinho de 1200 km por causa do visto, o que uma mãe não faz por um filho.
Nós cheios de stress, e a cidade em plena Oktoberfest, cheia de alegres foliões.
Vai ser bonito.

(se sobreviver, depois conto)

26 setembro 2011

havia um buraco na ilha, tra la la

Flag in the Wind

Alvíssaras: o José Bandeira agora em estrangeiro!

parece uma aldeia

No sábado passado havia maratona dos skaters e o Joachim participou. E eu também, a aplaudir, como de costume. Fui de metro até ao primeiro ponto combinado, e mal estava a sair da estação encontrei um amigo. Assim sem tirar nem pôr, como se isto fosse uma aldeia da qual eu conhecesse praticamente todos os habitantes.
Ah, que surpresa, e que tal?, o meu filho está a correr, estamos ali atrás, ai eu tenho de ficar por aqui, então adeus, e boa sorte para a tua maratona amanhã!
Os skaters são demasiado rápidos, não dá para os reconhecer. Desenrolei a bandeira que me é santo-e-senha, e mal a comecei a brandir apareceu o Joachim com o seu grupo de folgazões. São demasiado rápidos, já disse, nem deu para o gi'me five da praxe de quando ele corria a maratona.

Despachei-me para o segundo ponto combinado. Meia hora de caminhada, temendo chegar demasiado tarde. No caminho, passei por ruas bem do centro da capital que mais lembravam o ambiente de uma cidadezinha de província. Impressionante como no coração desta cidade de quase quatro milhões se encontram ruas tão sossegadas. Tirei algumas fotografias segundo a técnica de toca e foge. Outro dia voltarei lá com mais vagar. Mas o tempo ainda chegou para descobrir um B&B numa rua incrivelmente calma, a Bissingzeile, a cinco minutos do Kulturforum. Não sei se o serviço é bom, mas a localização é fantástica, e por isso aqui deixo o link, para os não amigos (porque os amigos sabem onde têm um quarto com vista para os telhados de Berlim).






No segundo ponto combinado tive mais tempo para apreciar o estilo dos skaters. Alguns eram fascinantes: deslizavam sobre o asfalto como os mais elegantes esquiadores nos Alpes. Pura delícia do olhar. Outros faziam a subida ajudando-se, ora puxando o de trás, ora empurrando o da frente.



Como se fosse uma aldeia, ouvi skaters que gritavam o meu nome. Era o grupo do Joachim, e acenavam freneticamente na direcção dele, numa boa-disposição de quem vai para a romaria. 
Fiquei com a sensação que na corrida dos skaters há muita mais alegria entre os corredores. Vão em grupos ou em pares, tocam-se, empurram-se, dizem piadas, riem-se. Bem diferente da maratona, onde cada um luta arduamente e sozinho, e salve-se quem puder.

Ontem foi a vez da maratona. Como sempre, havia quase um milhão de berlinenses na rua a animar os corredores, e nós com eles: fomos até à praça aqui perto de casa, no quilómetro 33. Ficámos entre um carro da rádio e uma bateria de samba, sentíamo-nos numa discoteca. Difícil não dançar enquanto batíamos palmas e gritávamos "go! go! go!" ou "Por-tu-gal!" quando passava um compatriota.
Mal acabáramos de assentar arraiais, alguém me tocou no ombro: era a mãe de um colega do Matthias. Eu bem digo que esta cidade parece uma aldeia...

Primeiro vieram os das cadeiras de rodas. Corajosos!
Ao fim de algum tempo vimos um homem numa cadeira que rolava desesperadamente porque estava a ser perseguido por carros e motos da polícia. A multidão ensandeceu de entusiasmo, e eu pensei que vinha aí o Papa, mas não, era o Makau. Vinha sozinho, um largo minuto à frente das lebres que lhe deviam ritmar o passo. Imaginámos que ainda ia cair para o lado num dos quilómetros seguintes, mas correu sempre bem e bateu o recorde mundial. Uma das lebres ficou em segundo lugar.





O Haile desistiu pouco depois de passar por nós, tinha problemas de estômago, ou de respiração, ou sei lá o quê. Era o favorito da maratona, e também o meu, porque as pernas dele são bem mais bonitas que as do Makau (quase me lembram as do Joachim no tempo em que ia todos os dias de bicicleta para o trabalho em San Francisco, colina acima, colina abaixo, colina acima, colina abaixo).


E nós a aplaudir sem parar: o primeiro branco, a primeira mulher, o primeiro asiático, o primeiro velhote, o primeiro português (ai, esse não vi, estava a conversar com a minha conhecida), o primeiro homem a empurrar um carrinho de bebé, o primeiro que corria com uma prótese, o primeiro palhaço, etc. - e todos os outros. 
O quilómetro 33 é quando começa a doer mesmo. Mas alguns corredores arranjavam ainda força para nos fazer um sorriso ou um aceno, agradecendo o nosso entusiasmo. Outros achavam que era preciso animar o público, e faziam movimentos com os braços para nos dar alento: nós enchíamo-nos de brio e gritávamos com mais força.

Depois fomos para mais perto da bateria de samba, rimo-nos com alguns corredores que dançavam ao passar pelos músicos. Também nos rimos da cena de uma velhinha que andava devagar e tentou atravessar a rua com um cão que estava a morrer de medo. Então era assim: a velhinha com passos curtos e rápidos, a andar tac-tac-tac-tac pelo meio da multidão de corredores, puxando pela trela o cão que fincava as patas todas no chão e travava como podia.

Ao jantar, a Christina contou as suas aventuras como membro da equipa de apoio: o tipo especado no meio da rua que fazia de conta que nem ouvia os pedidos para voltar para o passeio, os turistas que se punham de costas para os corredores para que lhes fizessem uma fotografia com a maratona como cenário, o prazer que lhe dava animar as pessoas na língua delas, o português que ao quilómetro 38 ia a passo, e ela a caminhar com ele, "vamos lá, Portugal!", e ele a contar que já fez a maratona de Nova Iorque e várias em Berlim, e ela "já só falta um bocadinho, vá, recomece!" e ele recomeçou.

A primeira vez que participei nesta animação foi há vinte anos. Unter den Linden era ainda uma tristíssima avenida soviética, os prédios modernos eram ainda cinzentos e opressivos, mas na zona de Berlim Leste já tinham começado a surgir os primeiros cafés completamente loucos. Um amigo nosso, que corria a maratona pela nem ele sabia quantésima vez, para desenfastiar levou a bandeira que eu tinha na altura: uma bandeira enorme do Futebol Clube do Porto, que os meus irmãos tinham dado ao Joachim para esfregar melhor o sal na ferida daquele golo do Madjer em 1987.
E foi assim que uma bandeira do gloriuoso atravessou Berlim na primeira maratona após a queda do muro. Nesta cidade que às vezes me lembra uma aldeia.

25 setembro 2011

é o que dá proibirem os centros comerciais de abrir ao domingo

Fomos dar um passeio de bicicleta por Grunewald, a floresta aqui ao pé de casa, e estava cheia de famílias, e namorados, e amigos, e velhinhos, e jovens e crianças, e pessoas a passear com os cães. Um pandemónio de gente a gozar este belíssimo domingo de princípio de Outono.
Mais valia deixarem abrir os centros comerciais, assim ficávamos com a floresta só para nós...

Descobrimos sítios lindos. Não é só o passeio até ao lago Wannsee que vale a pena, toda aquela floresta vale bem um passeio. Vale bem um passeio todos os fins-de-semana!

Regressei a casa com um poema de Konstantin Wecker a passear dentro da minha cabeça, de uma velhíssima composição sua, que canta a capella (pode-se ouvir aqui um pouco):

Liebes Leben, fang mich ein,
halt mich an die Erde.
Kann doch, was ich bin, nur sein,
wenn ich es auch werde.

Gib mir Tränen, gibt mir Mut,
und von allem mehr.
Mach mich böse, mach mich gut,
nur nie ungefähr.

Liebes Leben, abgemacht?
Darfst mir nicht verfliegen.
Hab noch so viel Mitternacht
sprachlos vor mir liegen.



**

Tradução literal:

Querida vida, agarra-me
prende-me à terra
só poderei ser quem sou
se me souber devir.

Dá-me lágrimas, dá-me coragem
e, de tudo, mais.
Faz-me bom, faz-me mau
mas nunca mais ou menos.

Querida vida, combinado?
Não me podes fugir.
Tantas meias-noites
esperam mudas por mim.

24 setembro 2011

como uma canção de embalar

saltos


Ontem passei duas horas a sorrir em registo de baixo contínuo, interrompendo volta e meia o sorriso com enormes gargalhadas. Quando o filme chegou ao fim, apetecia-me ficar ali sentada para o ver de novo. Absolutamente kurzweilig.  

Todos aqueles saltos no tempo inspiraram-me para fazer mesmo mais: um salto no tempo e outro no espaço - para esta versão bem disposta de uma música cantada no filme (sugiro que façam também um salto no escuro - a música é boa, mas o vídeo é horrível, só mesmo para ouvir às escuras!):



E olhem como as coisas são na internet: ao procurar este vídeo apareceu-me um outro, a rir-se para mim com cara de convite para um passeio a uma golden age pessoal: ainda hei-de um dia cantar este dueto com um amigo querido. Talvez no Karaoke do Mauerpark?

23 setembro 2011

o Papa e eu em Berlim




Então foi assim: outro dia o Joachim estava a operar um senhor, e a meio da operação descobriu que era o secretário do arcebispo, e de faca na mão disse-lhe "eu precisava de 4 bilhetinhos para a missa do Papa..." e o outro gaguejou "sim... sim..." (Joachim: eu sei que tu sabes que eu sei que estou a inventar um bocadinho) e passados uns dias chegaram pelo correio os bilhetes para o relvado do Olympia Stadion. De modo que ontem lá fomos. O estádio cheio de gente que procurava o seu lugar no segundo anel, e eu a descer pela escadaria monumental que dá para o relvado, e a avançar pelo campo, e nunca mais vinha o meu lugar, até que finalmente o encontrei, bem à frente. Digamos que eu estava no lugar do penalty e a Angela Merkel no da baliza. Mas agora não me venham com perguntas esperançadas: é que nem tinha bola, nem tenho pontaria.
Mas aquela faquinha do Joachim faz milagres, é só o que vos digo.

Por ter andado a resolver problemas vários não pude assistir ao discurso do Papa no Parlamento. Enquanto ele falava, ia eu no comboio, apertada por um grupo de polacos que trazia uma imagem enorme da Virgem. Quase saí daquele para apanhar o comboio na direcção contrária, para muito longe daquilo tudo.
Quando cheguei ao estádio já o Papa vinha a caminho, e nos ecrãs decorria o programa de entreter o pessoal enquanto se espera. Um entrevistador apertava um membro da organização, sem dó nem piedade: "Consta que só o altar custou quase meio milhão de euros. É verdade? Justifica-se?"

Ao mesmo tempo ouviam-se aplausos frenéticos vindos das tribunas em frente às quais passava o novo arcebispo de Berlim. Eu olhava em volta, via com alguma estranheza as mulheres com o seu dirndl festivo, as bandeiras da Baviera, os cachecóis no ar, as imagens e os santinhos - e sentia que não tinha nada a ver com aquilo. À minha frente deslizavam dezenas de bispos, mais o pessoal de capa e estranho barrete típicos de obscuras associações de estudantes.

E de repente o estádio rebentou de excitação. Tinha entrado o Justin Bieber.
Ah, não, afinal era o Papa. Mas pela reacção do público juro que parecia o Justin Bieber. Ou os Beatles.
O papamóvel deu a volta ao estádio, devagarinho, de modo que eu pude vê-lo duas vezes a meia dúzia de metros de mim (sim, bastou-me ir de um lado para o outro do relvado), e lá ia ele, sorridente, acenando a todos, beijando as crianças que lhe enfiavam pela janela, benzendo as imagens e esculturas que erguiam para ele (e eu a pensar que já não temos idade para objectos transferenciais, nem fetiches destes).
Quando voltei ao meu lugar passei por um grupo de irmãos de Taizé, provavelmente os que estão a preparar o encontro de juventude do fim do ano, que estavam sorridentes e placidamente sentados, alheios àquele arraial. Por uns momentos pensei "isso mesmo, são dos meus!", mas depois caí em mim: eu era parte do arraial, até era a que corria com mais eficiência de um lado para o outro do relvado. 

Depois vimos o Papa em frente a uma mesa onde estava o livro de honra da cidade. Ao seu lado estava Klaus Wowereit, o recentemente reeleito presidente de Berlim. Que é homossexual e vive há largos anos com o seu companheiro, e diz que "es ist gut so". A linguagem corporal do Wowereit foi um dos momentos mais bonitos daquela tarde: atento, caloroso, amistoso. Vi uma ponte entre aqueles dois homens, e gostei.

Antes da missa começar fomos informados de que ia começar uma missa, e pediram-nos para nos abstermos de bater palmas, gritar "be-nedetto-oh-oh-oh", fazer "la ola", e assim.
Ainda bem que avisaram. A idade média do público naquele estádio era várias dezenas de anos inferior à dos que vejo todos os domingos na missa - desconfio que estava ali muita gente que raramente terá visto uma igreja pelo lado de dentro, e não saberia bem a diferença entre uma missa e um concerto rock.

Começou a chover em bátegas fortes. Distribuíram rapidamente capas de chuva ao pessoal que estava no relvado - aos VIPs. Para que conste: agora tenho uma capa da chuva igualzinha à da Angela Merkel! Hehehe. Mas fui mais rápida a enfiá-la. Aliás: eu e todos os outros. Igual a si própria, a chanceler alemã só começou a pôr a capa depois de todos já o terem feito, só quando já estava irremediavelmente encharcada de chuva.

Partes da missa foram ditas em latim. Ai a minha vida a andar para trás.
A música escolhida atravessou um milénio: desde o gregoriano, passando pelos cânticos ecuménicos de origem luterana, ao smooth jazz. Às vezes senti-me no hall de um hotel, ou a serpentear pela highway number one ao som do KKSF. Se me deixassem mandar teria usado outros critérios, mas como não me deixam mandar...
Enquanto cantávamos, os ecrãs gigantes mostravam os políticos: deu para ver que a primeira dama é católica praticante, sabia todos os cânticos de cor, enquanto a chanceler nem os da sua própria igreja conhece. Filha de pastor, e isto? É bem verdade que casa de ferreiro...

A homilia do Papa começou bem, e eu caí numa profunda meditação, da qual saí quando o Joachim me deu uma cotovelada. "Adormeceste?" "Não, que ideia! Ouvi as palavras todas, uma por uma!" - e era a pura verdade, ouvi-as todas, mas por algum motivo não consegui encontrar o elo de ligação entre elas. Talvez seja caso para ir consultar um neurologista.

As orações dos fiéis foram ditas por estrangeiros. O africano que fez a oração pelos políticos alemães disse-a de olhos fechados, muito concentrado. Muito bonito. Queria vê-lo mais tempo, mas a câmara saltou para a cara da Merkel, dos ministros, do presidente da república. Estavam atentos, valha-nos isso.

Depois veio a comunhão. Infelizmente não mostraram se o presidente Wulff e a sua belíssima Bettina, com quem casou depois de se divorciar da primeira mulher, foram comungar. Também não mostraram o Wowereit, que é de uma família católica. E muito menos revelaram se a Angela Merkel, que é protestante, comungou. Que chatice, tanto mediatismo tanto mediatismo, para afinal omitirem o essencial.
O Papa deu a comunhão a trinta pessoas escolhidas como amostra: jovens e velhos, pobres e ricos, saudáveis e doentes, alemães e estrangeiros. Como se já não bastasse a parte da missa em latim, as pessoas ajoelhavam em frente ao Papa, um acólito punha a bandeja de ouro por baixo da sua mão, a pessoa recebia a hóstia na boca. Quando chegou a vez do Wolfgang Thierse (o que eu gosto deste homem!) houve uma pequeníssima luta de poder, porque ele fazia questão de receber a hóstia na mão. Ganhou ele, e teve um efeito pedagógico, porque os seguintes puderam comungar como preferiam, sem partes gagas de "abra a boca, ó! e ponha-me essas mãozinhas para baixo".
No fim vieram os das cadeiras de rodas - um rapazinho, uma velhinha - e depois veio uma mulher jovem transportada numa maca. Esse foi o meu momento redentor: uma mulher com ar de quem não tem muita vida pela frente a fazer uma festa carinhosa no braço do Papa após receber a comunhão, o sorriso que ele lhe deu, o sorriso dos homens que a carregavam.
Esqueci a feira, as imagens, o smooth jazz, tudo. Só aquilo interessava: aquele momento de encontro, entre a fragilidade e a alegria.

Se me deixassem mandar, não teria feito nada assim. Nem altar de meio milhão, nem santinhos, nem capas e barretes, nem aplausos frenéticos para o Papa. O meu primeiro impulso seria correr com essa malta toda para fora do templo, para ficarem só os que têm lugar no meu oásis da Igreja Católica. Ora: ainda bem que não me deixam mandar, porque a verdadeira sabedoria consiste em arranjar espaço para todos. E naquele estádio houve espaço para todos. Também por isso teve de ser uma celebração heterogénea, em alemão e latim, com gregoriano e jazz, com gente como eu ao lado de senhoras de dirndl. É a nossa Igreja: católica.

No fim da missa os políticos saíram rapidamente, passaram a dois metros de mim. A Angela Merkel afinal ao vivo tem uma figura bonita, e eu a pensar que lhe retocavam sempre a imagem. Mas a melhor de todas era a Bettina Wulff, ai, a Bettina Wulff.

No comboio de regresso parecia o Pentecostes: uma algarviada de gente a falar em línguas diferentes. É o que dá  quando o Papa vem a uma cidade na qual 1 em cada 5 católicos é estrangeiro, e que fica a 80 km da Polónia.

inédito e nunca visto: um post onde se diz bem de um Banco

Pequeno update no folhetim "Matthias vai para a América": finalmente arranjámos uma escola que faz o favor de, por uma pequena prestação absolutamante exorbitante, nos guardar o rapaz até ao Natal.
(Por acaso pergunto-me isto: se nos EUA o Estado não é obrigado a garantir ensino gratuito a ninguém, e se as boas escolas são pagas a este preço, idem para os serviços médicos, que raio fazem eles aos impostos que o pessoal paga?! Também não são assim tão poucos...)
A I-20 já chegou, e começámos a tratar do visto para ele poder ir. Apesar de ficar menos de 3 meses, tem de o ter. *Suspiro*
O visto, nem queiram saber. Depois de muitas confusões (inclusivamente fazer uma fotografia com formato especial, 5 cm x 5 cm, e pôr "No" em milhentas perguntas do género "tenciona vir para os EUA para preparar um atentado terrorista?" ou "em visitas anteriores, andou metido com prostitutas?" etc. - e eu a dizer que "no" sem me lembrar de perguntar ao meu filho de 14 anos se sim ou se sopas, ainda vou arranjar um sarilho por perjúrio...), descobri que os residentes em Berlim podem acelerar ligeiramente o processo se pagarem o custo do visto directamente num Banco que há aqui. Dispunha-me já a atravessar a cidade para ir onde fosse preciso, quando descobri que praticamente basta atravessar a rua. (Eu hei-de ir ver como estavam as estrelas no dia em que nasci, garanto que hei-de ir ver isso!)
A senhora que me devia atender estava ao telefone, e fez-me sinal para me sentar. Enquanto esperava, deliciei-me com um cão que por lá andava: enorme, lindo, com focinho de bulldogue mas simpático, ar de calmeirão paciente amoroso e atento. Aaaah. Depois o cão foi-se embora,  a senhora desligou o telefone e virou-se para mim:
- Está com um ar tão abatido! O que se passa consigo? Como é que a posso ajudar?
Pois lá lhe expliquei o stress em que andamos, que queríamos mandar o miúdo para os EUA já ontem, e só temos data marcada para ir pedir o visto lá para 5 de Outubro, e que ando a tentar acelerar o processo e por isso ia ali pagar a inscrição para poupar dois dias. E ela explicou-me que provavelmente eu ia pagar uma taxa de 20 euros para fazer isso e não me adianta de nada, porque o pessoal do consulado em Berlim está todo doente e só estão a marcar para a partir do dia 10 de Outubro, e que quando muito eu teria uma hipótese se fosse a Frankfurt. E que, quando souber, em qualquer momento posso ir ter com ela para pagar esse dinheiro, mas também posso fazê-lo pela internet, que só demora dois dias, e tal. A seguir, virou o ecrã do computador para mim, para me explicar onde pagar online a taxa SEVIS, e assim pela mão dela parecia tudo tão fácil.
Depois falámos do cão, que é afinal uma mistura de muitas raças diferentes, neto de cães de combate, quem diria, e eu disse-lhe que havia de dizer aos meus filhos que passem por lá para se deliciarem um bocadinho com o bonacheirão do bicho, e ela disse que sim, eles que venham!, desejámo-nos mutuamente bom fim-de-semana, e eu saí do Banco tão encantada e tão de bem com a vida que o gajo com quem me cruzei ao atravessar a rua deve ter reparado, porque abriu um grande sorriso.

Já disse hoje que adoro viver em Berlim?

22 setembro 2011

há dias em que gosto muito da polícia

Hoje, por exemplo: ao subir a rampa de acesso à estação de Wedding reparei numa senhora de idade que estava a rapar ervas daninhas do passeio. "Que estranho", pensei, "não me digam que agora o Estado obriga mesmo os dependentes da segurança social a prestar serviço público? Nesta idade?"
Aparentemente não era nada disso, mas uma velhinha com as ideias um pouco baralhadas. Dois polícias terão talvez pensado o mesmo: foram ter com ela, o homem ficou de pé e a mulher polícia baixou-se para falar com a senhora olhos nos olhos.
Eu segui para o meu comboio. Nas escadas vi-as de relance: de cócoras ambas, no meio do passeio já bastante rapado, a sorrir uma para a outra.

o Governo Sombra voltou!

Aaah, finalmente posso passar a ferro.

Caramba, não sei o que é que o nosso gentil líder Cavácuo (*) anda a fazer, só tem olhinhos para a ruralidade, e não se lembra do resto da realidade do país, e das coisas importantíssimas que estão a acontecer. Que será que tanto lhe ocupa a cabeça, pois, que ainda não se lembrou de atribuir a estes excelentes governantes wannabe a comenda Fada do Lar?
É que ele são entre sete e dez camisas passadas, e chego ao fim e ainda estou a rir.


(*) "Cavácuo": quem terá inventado este fantástico trocadilho?


***

COMUNICADO À NAÇÃO

Colocado por governosombra em 20-09-2011 às 23h22

O Governo Sombra anuncia o seu regresso à antena da TSF, no próximo dia 23, pelas 18 horas, com as seguintes alterações:

1. Com o intuito de cortar na despesa, serão abertas apenas 3 garrafas de champanhe após a emissão, e não 4, como até aqui. Antes da emissão, mantêm-se as 7.

2. A duração do programa terá um aumento de 17%. O aumento é indexado ao da electricidade por se tratar de um programa extremamente brilhante.

3. Na sequência de uma rigorosa auditoria, os ministros João Miguel Tavares, Pedro Mexia e Ricardo Araújo Pereira descobriram que Carlos Vaz Marques tem um grande buraco escondido. Nessa medida, o coordenador do Governo Sombra será reconduzido no cargo, com confiança política reforçada.

Todo o elenco ministerial estará à disposição dos senhores jornalistas para esclarecimentos.

um presentinho para animar o dia ao nosso querido líder



Se ele estivesse ali presente, aposto que as vacas até dançavam.

(Adenda, porque já duas pessoas me perguntaram quem é o querido líder: Cavácuo.)

21 setembro 2011

mais uma variação sobre o tema "um olhar transformador"

Esta manhã vi na rua um homem que trazia duas crianças pela mão. Os pequenitos ainda tinham a cara enrodilhada de sono, e eram ligeiramente feiosos, pelo que olhei disfarçadamente para o pai para ver se teriam a quem sair. O homem reparou (um dia destes hei-de experimentar ao espelho que cara ponho quando tento olhar disfarçadamente) e começou logo a fazer bonito com os filhos.

Ora bem: eu às vezes não nasci ontem. Mais concretamente, neste caso, bem me lembro de como o Joachim gostava de ir com os miúdos (pequeninos e amorosos, claro, claro) para o mercado do sábado de manhã, e de como se banhava nos olhares gulosos que as mulheres lhes largavam.

De modo que estuguei o passo (sim, ia mais uma vez atrasadíssima) enquanto magicava quantos momentos especiais entre pais e filhos nascerão do simples olhar de mulheres avulsas que passam na rua.

20 setembro 2011

diversidade

O sábado estava lindo, transformado por uma luz que já anuncia o Outono, e decidimos aproveitar os últimos cartuchos do bom tempo para dar uma grande volta de barco. Saída na Friedrichstrasse, atravessando a Mitte:


A esplanada em frente ao Bode Museum estava animada, como de costume nestes dias de verão, com música e pares a dançar tango. Ou salsa?



No lugar onde dantes estava o Palácio da República há agora um descampado, e este "diamante" provisório, para informar sobre o megaprojecto da construção de uma cópia do antigo palácio do Kaiser e para recolher alguns fundos. No edifício da esquerda vê-se a única varanda que sobrou do palácio - não foi destruída em homenagem a Karl Liebknecht, que dali proclamou a sua república. E no paredão do rio lê-se: "democracia autêntica já!", "sapere aude!" e "indignai-vos!"

Continuámos em direcção ao sul: Friedrichshain e Treptow - bem dentro de Berlim Leste.
O barco vai deslizando silenciosamente pelo meio dos contrastes: ora extraordinárias obras de arquitectura e engenharia, ora vestígios de outros tempos e mundos, aqui e além barracões industriais convertidos em bar e centro cultural, tudo isso entremeado de graffiti bem-humorados. 









Meia volta, passagem de novo pela Friedrichstrasse, rumo a Berlim Ocidental.
Outra vez o diamante, agora iluminado (acho que vou sentir a sua falta quando o destruírem para construir aquele pastiche de palácio):


E o edifício dos grupos parlamentares, junto ao Reichstag:


Em Charlottenburg, o nosso bairro, a paisagem (vista quase às escuras) era muito mais homogénea e ordenada. Boring.
Por momentos pensei que seria bem mais interessante morar lá para os lados de Mitte, ou até na península de Stralau, tão linda e tão central, onde estão a construir inúmeras casas modernas. Mas depois lembrei-me da vizinha da frente, e de como nos vem trazer sumo quente de sabugueiro quando algum de nós tem gripe, lembrei a resposta que me deu quando lhe perguntei onde deixava os filhos durante os quatro dias em que saía de férias com as amigas ("vagou uma cave na Áustria", disse ela com uma piscadela de olhos). E pensei nos vizinhos do segundo andar, os que fizeram questão de pôr em frente à nossa porta uma pedra com o nome da mulher que aqui viveu nos anos 40, e daqui foi arrancada para ir ser assassinada em Auschwitz. Durante o verão tiveram uma conta bancária aberta para recolher fundos para pôr mais pedras dessas na nossa rua (são trinta nomes, trinta judeus que foram levados desta rua minúscula para os campos de concentração). Espalharam papéis por todos os prédios, explicando ao que iam e o número da conta. Agora há uma folha nova na entrada do nosso prédio: informam que receberam 1800 euros, podem encomendar metade dos memoriais devidos por esta rua. Eu leio, e pasmo de admiração por tudo: pela iniciativa, e pela resposta que os outros moradores deram.

Em suma: Mitte e Pankow são bairros animados e dinâmicos e tal, mas as pessoas do meu prédio e da minha rua não estão nada mal. Fico por cá.

sabem aquela história de o Natal ser sempre que um homem quer?



Pois bem: para quem gosta de música clássica, o Natal pode ser hoje.
A Filarmónica de Berlim está a dar preços especiais de acesso ao Digital Concert Hall:

- 14,90 euros para ter acesso durante um mês inteiro
- 9,90 euros para 48 horas, com direito a uma transmissão em directo

Podem ler mais e inscrever-se aqui.

(Agora vou ali ao espelho ver se me estão a nascer barbas brancas, ho ho ho!)

19 setembro 2011

óculos de Penafiel

Já é preciso ter muita vontade de ver as coisas por um determinado prisma para ler nos resultados das eleições de Berlim uma derrota da Merkel! Confesso que às vezes não há paciência, e ultimamente há cada vez menos paciência para as leituras que em Portugal se fazem sobre o que está a acontecer na Alemanha. Desculpem que vos diga sinceramente: it is not about you. 

O que aconteceu ontem: a CDU (que costuma ter péssimas cartas em Berlim) subiu ligeiramente; a SPD - apesar do Wowereit, um candidato de peso - baixou ligeiramente; os Verdes - que concorriam com a candidata que ia arrumar com o Wowereit - ficaram muito abaixo das expectativas e, surpreendentemente, muito atrás da CDU!
O grande perdedor foi a FDP, o partido que anda a meter nojo à Merkel, que saiu do parlamento berlinense. Se isto é uma derrota da Merkel...
O grande ganhador foi o partido dos Piratas, que parece estar para esta década como os Verdes para os anos oitenta do século passado.

A partir disto, concluir sobretudo que a Merkel sofreu uma derrota é mesmo ter vontade de enfiar os óculos de Penafiel a tapar a vista aos neurónios.

Quanto aos eleitores alemães castigarem os partidos que têm um discurso antieuropeu, só me ocorre dizer isto: deixem-me rir.
Ponham-se no lugar deles: os eurobonds vão onerar imenso o serviço da dívida alemã, porque a taxa de juro vai aumentar. A pergunta é: porque é que os contribuintes alemães - que mal sabem como vão poder pagar as suas próprias dívidas - têm de responder pelo pagamento da dívida de países que aldrabam as contas e parece que não estão a conseguir dominar a situação, mas que fazem questão de permanecer soberanos e independentes (o que eu não discuto, claro)? Porque é que a Alemanha é obrigada a passar cheques em branco aos outros países para pagar dívidas sobre as quais não tem o menor controle? Em nome de quê?
Claro que Portugal responderá que é a solidariedade, e que além disso a culpa desta situação é da Alemanha, que se enche de dinheiro à custa dos submarinos, da destruição propositada da nossa estrutura produtiva e do euro forte e tal. E os alemães que fizeram férias em Portugal perguntarão a que propósito se construiu entre a Figueira da Foz e a Nazaré uma auto-estrada com seis faixas de rodagem, e tal.

Uma outra coisa que os alemães não sabem, e espero que não venham a saber: o modo ofensivo como em Portugal se fala do seu sistema democrático e dos seus representantes sempre que a Merkel não faz imediatamente aquilo que os outros países querem. É que isto do respeito pela soberania alheia devia ser uma regra geral da Europa. Não estou a dizer que os outros países, os jornais dos outros países e as conversas de café dos outros países não podem criticar. Podem, e devem, e têm bons motivos para isso. Mas há um nível mínimo de informação, inteligência e civilidade que se exige. Se é que estamos todos empenhados na resolução dos problemas e na construção de uma Europa mais forte. 

O que me falta nesta discussão, de parte a parte, é a coragem de encarar com frontalidade os erros que cada país cometeu, bem como os erros e as fragilidades das políticas europeias. Também não estou a ver a vontade de entender a perspectiva alheia, e a procura em conjunto de uma solução para todos. Em vez disso, estamos todos entricheirados, cada um a tentar safar-se o melhor que pode, cada um a deitar as culpas para os outros. Assim não vamos lá.

18 setembro 2011

não é preciso que tenham pena dos alemães, mas...

Já me tinha esquecido do PEC alemão. Há uma eternidade, pouco antes de rebentar o problema das contas gregas, falou-se muito do pacote de austeridade que o governo alemão tinha de cumprir para equilibrar as suas contas. As pessoas gemeram um bocado, mas logo a seguir a Grécia entrou na actualidade com notícias tão terríveis que as notícias sobre o PEC passaram para segundo plano.
Na semana passada, uma conhecida minha que trabalha num consulado alemão algures por esse mundo, contou que lhe cortaram o décimo terceiro mês e o subsídio de férias, e que não sabem como pagar as rendas dos edifícios a partir do próximo mês. É que eles fizeram as continhas ao que era preciso para funcionar, e chegaram a, digamos, 180, mas de Berlim receberam 110 com um bilhetinho: "amanhem-se com isto". Não se conseguiram amanhar, de modo que Berlim anda agora a tentar juntar migalhas sobrantes de outros consulados para lhes pagar as rendas a partir de Outubro.
O PEC, pois claro. Está vivo, e recomenda-se.

Entretanto a notícia do dia é esta: se as coisas correrem mal, pode ser que os contribuintes alemães tenham de entrar com 465 mil milhões de euros para salvar o euro. Em dinheiro vivo, se bem entendi. O que, dividido por 80 milhões, mais coisa menos coisa, dá quase 6.000 euros por pessoa. Só a minha família seriam 24.000 euros, uma ninharia.  Quer dizer: 18.000, porque eu não sou alemã. Talvez seja boa ideia não meter o processo para me naturalizar, afinal...

Russendisko (3)

Sobre Wladimir Kaminer, autor do meu mais divertido material de tradução, unanimemente proclamado pelas leitoras deste blogue (enfim, a que se pronunciou sobre este tema) como sendo "parecido com o George Clooney, mas mais bonito", de uma recensão na amazon.de:


Quando, no verão de 1990, a era Gorbatschow se aproxima do fim e Putin ainda não é presidente, mas um mero esbirro da KGB, na altura em que Helmut Kohl se catapulta para a História, um moscovita de 23 anos chamado Wladimir Kaminer decide mudar de vida. "Go West" é o lema - mas porquê procurar a distância, se o bilhete para Berlim-Leste custa apenas 96 rublos e não exigem vistos aos russos? E é assim que Kaminer se enfia no seu fato domingueiro azul celeste e entra num comboio, com o seu amigo Mischa, um pacote de cigarros russos e uma garrafa de vodka da marca "Adeus!". Do swidanija! Quarenta e oito horas mais tarde encontram-se, com uma ressaca, em Berlim-Lichtenberg: "Os primeiros berlinenses que conhecemos eram ciganos e vietnamitas. Ficámos logo amigos." Longe vão esses dias no centro de estrangeiros em Marzahn. Hoje, Wladimir Kaminer - o DJ, escritor e homem do teatro - é uma das estrelas no novo cenário multi-culti de Berlim. O jornal FAZ publica os seus textos nas "Páginas de Berlim" com tanto gosto como o taz, esse jornal ameaçado de extinção; e até na rádio: Kaminer modera um programa na SFB (O mundo de Wladimir). No Café Burger, que se tornou um agradável local de festas após ter sido tomado por Bert Papenfuß, o poeta de Prenzlauer Berg, Kaminer celebra mensalmente a sua "Russendisko" de má fama - o entendimento entre os povos e a internacional dos proletários, em tempos pregados por Wladimir Iljitsch Lenin, são experimentados na pequena superfície de dança, enquanto um beamer projecta  velhos desenhos animados e filmes de guerra soviéticos no papel de parede florido.
Russendisko foi o nome que Kaminer deu ao seu primeiro livro: 50 pequenos contos do quotidiano berlinense, que os suspeitos habituais do "Paris Bar" só conhecem de ouvir falar. Quem quer sobreviver aqui, tem de ser flexível: os turcos do stand de comidas da frente são afinal búlgaros, o funcionário certinho da repartição de emprego aparece à noite no bar de gays - e mesmo os contrabandistas de cigarros vietnamitas não são mais que um cliché criado pelos media: a maior parte deles vem do centro da Mongólia. Os heróis de Kaminer andam imensamente ocupados a tentar desenvencilhar-se na selva da cidade, por entre armadilhas do direito de asilo, intrigas amorosas e trabalhos obscuros. Por exemplo, Sasha, o estudante de línguas eslavas, que lava pratos no restaurante australiano de bifes de crocodilo; ou o "médico da rádio" ucraniano, que explica aos russos berlinenses o que podem fazer contra as borbulhas: "Eles falam em Clerasil, mas eu lembro-vos que a gasolina também resolve o problema." Não faltam as damas do sexo por telefone ("Desaperta as calças, vamos nostalgiar juntos!"), nem o anónimo requerente de asilo que, ao ver-se perseguido pela polícia, salta por uma janela providencial e desce por um cartaz dos Republicanos ("Coragem para escolher - vota nacional!").
Quem, ao ler estes relatos, conclui que Kaminer não passa de um farsante cínico, não percebeu nada. Para além de ser um excelente observador, Kaminer ama os seus estranhos índios da grande cidade, esses que levam muita pancada da vida mas nunca perdem a esperança. E, cá para nós: quem, como Kaminer, escreve não apenas em alemão, mas marrou esta língua pela cartilha soviética "O alemão dos alemães para autodidactas" - não pode ser um mau escritor, ah, que digo eu: não pode ser má pessoa. Portanto: compre Kaminer! E faça o que um guia turístico russo recomenda aos seus leitores como o máximo da emoção em Berlim: "Hasteie a sua bandeira pessoal no novo Reichstag - viver e conquistar Berlim!" 

17 setembro 2011

Knaben des Staats- und Domchor Berlin


Agarrem-me, que parece-me que vou ganhar mais um vício: os pequenos cantores do Staats- und Domchor Berlin dão regularmente concertos na Catedral.
O coro é excelente. Mas o que realmente me impressiona é a capacidade de organização e o dinamismo necessários para ter um coro destes a funcionar: recrutam rapazinhos entre os 5 e os 7 anos de idade que já tenham conhecimentos musicais, e que terão de sair poucos anos mais tarde, quando a voz começa a mudar.

16 setembro 2011

hoje há dez anos

Hoje há dez anos o Joachim estava a sair de San Francisco num dos primeiros aviões civis que voou após o atentado do onze de Setembro.
Ia com destino a um congresso na Argentina, e passava por Nova Iorque. Ao sobrevoar a cidade, o piloto inclinou o avião para que todos pudessem ver Manhattan, e disse "ladies and gentlemen, the skyline of New York - it will never be the same". E eles viram: a cratera fumegante.

Muitos pilotos e assistentes de bordo estavam ainda em casa, profundamente traumatizados. Alguns ainda nem sequer tinham conseguido regressar, depois da paragem forçada onde calhou, um pouco por todo o mundo, e tinham passado vários dias em abrigos improvisados, quase sem acesso a notícias ou informação sobre as suas próprias perspectivas de regresso. Nos primeiros dias de reinício de actividade, as companhias de aviação não obrigavam nenhum funcionário a voar contra a sua vontade.

De modo que o Joachim chegou a Nova Iorque e regressou algumas horas mais tarde, porque não havia pessoal para o levar para Buenos Aires. No avião para San Francisco um passageiro entrou e fez meia volta, em pânico, ao ver lá dentro dois passageiros com pele um pouco mais escura.

Como só havia uma hospedeira para fazer todo o serviço, o Joachim ofereceu-se para a ajudar. "Oh, you are so kind", exclamou ela, e mais uma meia dúzia  de superlativos, mas recusou. À saída, ofereceu-lhe uma garrafa enorme de champanhe francês gelado, embrulhado num guardanapo de pano, e mais uma rosa vermelha da primeira classe. Que o Joachim brandiu para mim alegremente quando o fui buscar ao aeroporto, muito aliviada não lhe ter acontecido nada enquanto sulcava os céus americanos. Em casa, brindámos a estes gestos que os humanos se oferecem no meio da aflição.

Poucas semanas mais tarde a Maria João e o Mário Laginha deram um concerto em San Francisco. Ela disse que estava muito contente por ter vindo, que todos lhe diziam que era asneira, que era perigoso, e que as notícias que recebiam na Europa eram uma catástrofe, mas que tinham decidido vir apesar de tudo - e a sala irrompeu em aplausos vindos do mais fundo do coração.

Por essa altura a minha empresa cortou os salários do pessoal - ou isso, ou mandar alguns de nós para a rua - porque havia menos encomendas de tradução. A economia estava a retrair-se. A colega francesa começou a almoçar o cheese burger do McDonald's, que custava um dólar. Eu comecei a fazer mais comida ao jantar, para trazer para o nosso almoço - o meu, e o da francesa. E a mulher do chefe, que também era assistente de voo e ficara retida num pavilhão desportivo durante quatro dias, algures na Gronelândia, deixou junto ao microondas um papel onde se lia "não aqueçam aqui peixe". Era a minha caldeirada, famosa em todas as Américas, e que bem nos sabia aquecida. Nojentinha, perdi logo a pena que tive dela durante a semana do onze de Setembro, faz hoje dez anos.

rota da seda

A Joana Lopes partiu pela rota da seda, e tem a delicadeza de contar - vão ver, vão ver: é ainda melhor do que eu imaginava!  

histórias de outro mundo



Sabem a anedota da velhinha que todos os dias rezava para ganhar a lotaria, e um dia o céu abriu-se e uma voz ribombou "ao menos compra uma cautela!"?
Pois eu, nem rezar nem comprar cautela: ontem à tarde estava em casa a pensar calmamente na morte da bezerra quando o telefone tocou e era uma amiga a oferecer-me um bilhete para a 8ª sinfonia de Mahler, na casa do costume, com o maestro do costume, com a orquestra do costume.
(Não digo os nomes porque há aí gente que se zanga sempre que eu uso a F-word...) (bom dia, Teresa!)

Se a qualidade de um concerto se pode medir pelo tempo de silêncio que o público se concede antes de desatar a bater palmas, foi isto de bom: dois minutos.

Os cantores (quase 300, contei-os rapidamente, por dúzias, "uma, duas, três, quê? já uma grosa?!", num momento em que estavam a cantar em latim e eu não percebia - depois dei-me conta que no programa tinha a letra traduzida - e depois dei-me conta que me tinha esquecido dos óculos em casa - e muito depois a minha amiga que arranja estes bilhetes milagrosos disse-me que podia ter usado os dela) estavam espalhados por vários terraços da sala, que parecia demasiado pequena para tantos músicos. Nas galerias laterais havia cerca de oitenta rapazinhos do Staats- und Domchor Berlin, todos aí pelos dez anos de idade, a cantar de cor - esta cidade não cessa de me surpreender!

Depois do concerto fomos ao after-party no bar dos músicos. Estava a abarrotar de gente estourada mas feliz. Conheci o contrabaixista mais jovem da Filarmónica, um venezuelano incrivelmente simpático chamado Edicson Ruiz, um músico tão especial que aos 18 anos já era membro desta orquestra. Uma pessoa com um ar tão alegre e positivo que até me deu vontade de aprender espanhol só para charlar um bocadinho com ele de volta de uma cervejinha e uma bretzel. Também andava por lá o professor do Simon Rattle, com um ar muito satisfeito (se a qualidade de um concerto se pode medir pelo ar satisfeito do professor do maestro, foi isto de bom: rasgadíssimo sorriso, palmadinhas nas costas de todos os músicos com quem se cruzava).

No bar encontrei também outra conhecida minha destas andanças. Segredou-me que tinha sentido que aquela música era só para ela. Então, como é? Eu é que estava no meio da sala, no centro daquela música toda só para mim! Não me digam que o Simon Rattle anda a fazer o mesmo a todas?! 

Ao fim do dia, a questão que se me coloca é esta: como estariam alinhados os astros no momento em que eu nasci? Não é normal ter tanta sorte.

***

No próximo domingo podem ver a transmissão deste concerto ao vivo no Digital Concert Hall.
E aqui têm uma belíssima introdução a esta obra, feita por Simon Rattle:


15 setembro 2011

passei a manhã a ler desgraças sobre Portugal, a Grécia e o Oettinger...

Valha-me um cafézinho e um intervalo para a futilidade.

Amy Winehouse

Serviço público para os residentes na Alemanha, que não conseguem ver este vídeo no youtube:


Tony Bennett featuring Amy Winehouse - Body and Soul from rockmoves on Vimeo.


Via sem-se-ver, de cujo post (do dia 14.09) copio o que se segue:

"Body and Soul", o dueto da cantora Amy Winehouse, recém-falecida, e do "crooner" norte-americano Tony Bennett é hoje revelado, dia em que a britânica faria 28 anos.

Os direitos da canção, gravada em março deste ano, em Londres, irão reverter a favor da Amy Winehouse Foundation, criada pela família da cantora, para ajudar os mais novos que tenham problemas com consumo de drogas.

14 setembro 2011

obsolescência programada



O filme tem mais de cinquenta minutos, pelo que vou resumir, que bem sei que a vossa vida não é só isto.
Em suma: para que a economia cresça, é preciso produzir cada vez mais. Produzir cada vez mais pressupõe que haja procura para essas quantidades. Uma maneira de provocar procura é fazer com que os produtos durem cada vez menos. Lâmpadas, meias de nylon, i-pods, impressoras, etc. - são exemplos de produtos concebidos de modo a ter - propositadamente! - um tempo de vida bastante curto.
Termina, como não podia deixar de ser, com a teoria do decrescimento, e uma citação de Gandhi: "no nosso mundo há recursos suficientes para suprir as necessidades de todos, mas não a cobiça de alguns".

Uma passagem do filme é particularmente interessante: no bloco comunista não havia recursos para desperdiçar, pelo que um princípio essencial da produção era conceber produtos tão resistentes e duráveis quanto possível. Na RDA havia uma fábrica de lâmpadas eléctricas que, ao contrário das ocidentais, eram feitas para durar muito. Quando apresentaram esse produto na Feira de Hannover, convencidos que arranjariam imensos clientes no Ocidente, os outros riram-se: "vocês querem perder o vosso emprego?" - e eles responderam: "não; queremos poupar as matérias-primas para termos este emprego durante muitos anos."
Após a reunificação alemã a fábrica foi fechada.
Este é mais um dos exemplos - que eu desconhecia, até hoje - do que correu mal entre as duas Alemanhas, por a RFA ter simplesmente imposto a sua lógica à RDA. O mundo teria lucrado se tivesse havido uma melhor articulação das duas lógicas, e mais abertura aos elementos positivos que a RDA trazia. E a Alemanha reunificada perdeu uma bela oportunidade de ser pioneira no mercado mundial dos produtos que o mercado futuro exigirá cada vez mais - em tempo de preocupações de sustentabilidade, de cada vez maior escassez de materiais de produção e de elevados custos de transporte.

13 setembro 2011

Russendisko (2)

Revisão da matéria dada: o famoso Wladimir Kaminer, o tal escritor russo berlinense que é como o George Clooney mas para mais bonito, faz todos os meses de DJ num café - é o famosíssimo Russendisko, que deu o nome ao seu primeiro livro.
Da primeira vez que tentámos ir, e já íamos a caminho, já quase a chegar lá, tocou o telemóvel da amiga que ia connosco, e era uma notícia tão trágica que mudámos de rumo.
Depois meteu-se o Verão.
No sábado passado íamos de novo a caminho da Russendisko, quando tocou o telemóvel e era o Matthias a dizer que tinha dores lancinantes de barriga, de modo que mudámos de rumo.
Ainda vou tentar uma vez - nem sei se por ousadia, se por irresponsabilidade. Contudo, se também à terceira vez o telemóvel tocar para mais uma dessas notícias que nos muda o rumo, só haverá uma conclusão a tirar: à medida que vou traduzindo o livro do Kaminer vou-me tornando, lenta mas inexoravelmente, numa das suas personagens.

(da próxima vez vou é sair para a Russendisko sem telemóvel)

a cidade surpreendente

Não, apesar do título roubado, não é o Porto.

São estes dois momentos deliciosos que encontrei no acatar:

Primeiro: Alfama, o matriarcado
Segundo: ...

12 setembro 2011

onde estava no dia 11 de Setembro de 2011?

No dia 11 de Setembro de 2011 acompanhei dois casais brasileiros em visita a Berlim.

Atendendo aos seus pedidos, o dia começou num bunker civil antiaéreo, melhor dizendo, num pseudo-bunker: nem à prova de gás nem à prova de bomba. Imaginando dezenas de pessoas fechadas em pequenos compartimentos subterrâneos, sem janelas e com as portas hermeticamente fechadas, sobre as suas cabeças o ruído das bombas, e na sala três velas, uma no chão, uma numa cadeira, a terceira perto do tecto. Quando a segunda se apagava, as crianças tinham de ser postas aos ombros dos adultos. Quando a terceira se apagava, todos tinham de sair imediatamente para a rua, para as bombas. Ou isso, ou morrer asfixiado. Passar à sala seguinte: a loucura dos últimos dias da guerra, os miúdos de 14 anos que recebiam um treino de seis horas antes de serem lançados com duas bazucas ao encontro dos tanques russos. Ou o veterano da primeira guerra mundial, que aos 69 anos saiu no seu uniforme do exército imperial, com a sua cruz de guerra, com o velho cantil das trincheiras onde tinha gravado o seu nome, e uma bazuca onde alguém colara um pequeno folheto de instruções de uso. Mais uma sala: a cidade em ruínas, as mulheres - esfomeadas, violadas, em luto pelos maridos e pelos filhos - que acarretavam toneladas de entulho em carrinhos de mão, em carrinhos de bebé.
Foi há seis décadas.       

Seguimos para Sachsenhausen, um campo de concentração que também funcionava como escola da SS. Dizem que era menos terrível que os outros, mas eu olho para aquilo e parece-me que o horror é como o infinito: um pouco mais, um pouco menos, continua a ser horror. 
- O que estão dizendo aqui nesta placa, Helena?
- "Zona neutra: atira-se para matar, sem aviso prévio"
- E aqui, o que estão dizendo aqui?
- Uma experiência: usaram dois prisioneiros para testar simultaneamente um novo submarino, minúsculo, e os estimulantes químicos para os manter acordados e operacionais durante quatro dias.
- E aqui?
Eu lia, e repetia aquelas atrocidades em português, uma por uma, sala após sala. Foi há seis décadas.

Regressámos a Berlim, passámos o muro na Bernauer Strasse, fiz um pequeno desvio para lhes mostrar o Checkpoint Charlie. Foi há duas décadas.

Deixei-os no hotel, fui respirar fundo para a Filarmonia.
Primeiro: Lohengrin. Aaaah. Fecha os olhos, esquece tudo.
Segundo: Anne-Sophie Mutter a tocar uma peça de música contemporânea, acompanhada por harpas que pareciam camiões indolentes e violinos muito semelhantes a microfones avariados. (eu sei, há-de haver algures uma porta por onde um dia entrarei e entenderei enfim tudo isto, mas de momento nem sei da porta nem da chave para a abrir)
Terceiro: uma peça extraprograma, em homenagem às vítimas do 11 de Setembro - Air, da suite nº3 de Bach. Interpretada com uma emoção tranquila, mais lenta do que nesta versão:



Quando pensava que nada poderia superar a beleza e a intensidade daquele momento, a Pittsburgh Symphony Orchestra começou a tocar a 5ª de Mahler, e eu zarpei no Titanic.

11 setembro 2011

11.09.2001

Pouco passava das seis da manhã, em San Francisco, quando o nosso telefone tocou: o meu sogro ligava da Alemanha, em choque, avisando-nos que estavam a atacar Nova Iorque.
Dez anos depois, é sobretudo isto que sobra na minha memória:

- Na televisão, essa inesquecível sequência de imagens, repetida à exaustão durante todo o dia: primeiro o par que saltava de uma das torres de mãos dadas, depois o grupo de palestinianos que dava vivas.

- A mensagem que nesse mesmo dia a directora deixou no "diário da escola", para os pais lerem:
For the sake of the future and the peace, please tell your children how is the life of the Palestinian people. We must walk in their moccasins to understand.

- O medo servido com precisão e zelo, o modo como nos deixámos transtornar. O medo nos transportes públicos ("o que será que aquele moreninho tem no saco?"), na nossa rua ("o que está a fazer um balão perdido no nosso jardim da frente? será que tem anthrax dentro?"). As conversas alarmistas com os amigos ("em Stanford há vírus perigosos à mão de semear, qualquer um os pode largar sobre a população!", "roubaram os planos da rede de abastecimento de água da Bay Area!" - e de repente o Costco cheio de garrafões de água, produto que eu nunca vira lá antes). A rapidez com que voltámos ao normal após termos arrumado a televisão na cave e cancelado a assinatura do jornal diário.

- A onda de patriotismo que invadiu os nossos filhos: a Christina (7 anos) a declamar orgulhosamente e de cor I pledge allegiance to the flag of the United States of America, and to the republic for which it stands, one nation under God, indivisible, with liberty and justice for all, o Matthias (4) a soltar uma exclamação alegre e reverente ao ver uma fotografia à entrada de um hospital: "look! our president George W. Bush!"
(foi quando decidimos regressar à Europa)

- A subida de tensão na Pacifica Radio, os apelos desesperados para que o país não embarcasse na aventura oportunista do bando à volta de Bush. Os americanos - mesmo os de San Francisco! - cada vez mais divididos.

Hoje queria ter o tempo livre para ficar a ouvir esta transmissão: "911's footprint on America ten years later".

10 setembro 2011

russendisko



Rita, ó Rita!
Vamos lá hoje? Eu tenho encontro marcado com o meu berlinense russo preferido (por acaso é o único que conheço). Só não decidi ainda se lhe dou um Deolinda original ou uma cópia de "Por este rio acima", mas vou.

Jorge, queres vir também? Tens até às dez da noite para ensaiar bem os passos dos homens, ó aqui:



E mais uma musiquinha, para irmos treinando todos:

09 setembro 2011

ora aqui está uma reflexão profunda sobre sistemas escolares



A saga continua: finalmente arranjámos uma escola americana que não disse logo que não ao Matthias. Já enviámos os papéis (50 dólares só para se dignarem olhar para eles) e já começámos a descobrir o fundo roto da carteira: como é que vamos pagar três meses de escola privada nos EUA?

É nestes momentos que nos damos conta de como é bom viver na Europa. Ou melhor: de como ainda é bom viver na Europa - provavelmente os nossos netos vão ter condições de escolaridade bem diferentes.

Entretanto, outro amigo apareceu-nos com uma proposta irrecusável: em vez de meter o rapaz três meses numa escola de Oregon, mandá-lo para o Canadá uns dias, para frequentar a escola de circo que prepara os artistas do Cirque du Soleil. E depois ir fazer férias com essa família no Vermont, em pleno Indian Summer. E depois ir com eles para San Francisco, que fica deslumbrante no Outono. O pai é professor de inglês, só temos de dizer à escola do Matthias que ele vai para os EUA fazer um curso intensivo de inglês em regime de homeschooling. O que é verdade. E nos fica mais barato que meter o rapaz numa escola privada.

Ai! Até eu queria ir aprender inglês assim!

De modo que estamos a considerar desistir da inscrição na escola, e passar directamente para o plano B.

(e se eu fosse também? com o que poupamos na escola privada, bem podíamos ir os dois passear durante um mesito feliz) (acorda, Heleninha, olha para o fundo roto da carteira, Heleninha) 

***

Aos amigos que perguntam se o Matthias não é muito novo para estas andanças: na Alemanha, é bastante frequente mandar miúdos desta idade (14 ou 15 anos) passar um semestre ou mesmo um ano lectivo no estrangeiro. Entre os nossos conhecidos há vários que foram para a Irlanda, os EUA ou a Austrália.
No caso do Matthias, o risco é mais que calculado: tanto na Califórnia como em Oregon, ficaria sempre na casa de amigos que o conhecem e de quem ele gosta imenso. 

08 setembro 2011

e porque não?

Vai por aí uma discussão acesa sobre a proposta do bastonário da Ordem dos Médicos de cobrar impostos acrescidos na fast-food para financiar o SNS. Eu cá acho bem - na linha do "utilizador/pagador", porque não?

No caso, até fazia uma proposta um pouco diferente: que o dinheiro dos impostos da fast-food ajudasse a sustentar uma cadeia de "soparias": stands de sopas nutritivas e saudáveis, vendidas a preço mais acessível que a tal comida pouco saudável - em vez de entregar o dinheiro ao SNS, aplicava-o na profilaxia. Também podia ser 50% para cada um, "soparias" e SNS. Ou 45% para cada um, e 10% para mim, que tive a ideia. (hehehe)

A questão exige um debate alargado sobre os limites da liberdade individual e os custos da solidariedade social. Infelizmente, o contexto de profunda crise em que vivemos torna todas estas questões bem mais - ahem - fracturantes. Facilmente se pode cair no ataque pessoal: porque é que eu tenho de pagar os custos do tratamento do cancro que o meu vizinho apanhou por ser fumador compulsivo? Ele responderá: e porque é que eu paguei as operações e a fisioterapia que o teu marido fez devido aos seus acidentes no desporto de alto risco que é o futebol? Venha a guerra civil.

Voltando à questão inicial: devemos criar impostos especiais para os comportamentos que implicam um risco de saúde, enviando esses montantes directamente para o SNS? Desde impostos acrescidos sobre produtos nocivos para a saúde (açúcar, sal, gorduras, fritos, vinhos, tabaco, etc.) (pensando bem, vinhos e azeite não, por causa do tal milhão de portugueses...) (eh, lá, se saio da análise ceteris paribus isto fica um bocado complicado) até um suplemento-hospital nas multas por excesso de velocidade e no preço das motorizadas? Sem esquecer de multar as escolas que criem situações de crianças a transportar quase metade do seu peso em livros? E, já agora, impor mecanismos automáticos que desliguem as televisões e os computadores de casa ao fim de, digamos, duas horas por dia? Ou até: aborto compulsivo se o feto tem uma doença grave que vai custar muito dinheiro à sociedade?

É melhor não divagar mais. Em meia dúzia de frases já me espalhei à grande: a partir de uma ideia que parecia boa (o princípio do utilizador/pagador) num instante avancei para uma situação de controle social (abusador(?)/pagador) com todos os ingredientes para criar um ambiente de desconfiança e ódio.

Mas o debate continua por fazer: como articular liberdade individual e solidariedade social? Onde se traça a fronteira entre a lógica de gestão de recursos escassos e o risco do totalitarismo?

consequências nefastas da parceria Assírio & Alvim com a Porto Editora

O Tolan, aqui.

(Alto! Porque é que me estou a rir?)

07 setembro 2011

de Inuvik a Ushuaia em bicicleta

O Idílio chegou ao fim da sua viagem, e escreveu o post que se segue.
Li-o, muito contente por ele, mas também cheia das questões que este post me suscita:  como se terá soltado o cérebro do Idílio enquanto as pernas libertavam o veneno láctico? Como é que as imagens dos que lhe são próximos terão passado por um crivo estreito, um líquido revelador, um escrutínio que não convocámos, nem desejámos? E será que, no final dessa viagem, se sente outro, tão distante do ser ingénuo que iniciou a pedalada? (*)

Um dia destes pergunto-lhe. Ou arranjo quem lhe pergunte, que a insularidade de Berlim atrasa-me muito estas conversas. 

(*) Espero que tenham reparado que estava a parafrasear o Luís Januário. 


Terça-feira, 6 de Setembro de 2011


Ushuaia, por fim o fim...

Ushuaia, 06 de Setembro de 2011
Por fim, o fim... Treze meses e meio depois, trinta mil quilómetros percorridos, mil novecentas e quarenta horas a pedalar, cheguei a Ushuaia, “a cidade mais austral do mundo”, como se auto-intitula. Não era um sonho, como tantos me foram perguntando ao longo do percurso; tão pouco era uma “missão”; muito menos uma obsessão. Era tão-somente o desejo de viver a vida com intensidade, para além do quotidiano e da rotina, para além do estereótipo ocidental: nascer-estudar-trabalhar(“carreirar”)-reformar-se-morrer; de conhecer para além da porta de casa, do jornal, da revista, do documentário, da imagem trabalhada, seleccionada, “censurada”; de sentir. De viver outras vidas na minha própria vida. E não me desiludi, nem por um momento lamentei a decisão e estou absolutamente seguro de ter tomado poucas decisões tão acertadas na vida. Vivi muito nestes “poucos” meses. Sinto ter vivido mais de uma vida neste pouco mais de um ano. Vivi cada dia – não digo cada hora, para não exagerar nem parecer exagerado – mas senti-me transbordar tantas vezes… e nesses momentos gritava, cantava, assobiava, gargalhava, insultava, pedalava desabridamente até sentir os músculos arderem de esforço, e sentia-me flutuar, transcender-me, violar as regras físicas e pertencer a outro universo – estava louco, louco com o prazer de ser livre e poder ser louco; louco por existir, ter plena consciência de existir, sentir o prazer de existir e o sabor único da vida. Mas esta viagem não passaria de um efémero desfile de (belíssimas) paisagens e quilómetros, sem a marca profunda, tantas vezes emotiva e indelével de largas dezenas de crianças, mulheres e homens com quem me cruzei. Não os vou buscar para este epílogo, mas enquanto escrevo, os seus olhares desfilam no meu olhar; as suas vozes soam aos meus ouvidos; a sua tristeza ou alegria, pesam-me na alma – é nestes momentos que gostava de crer na vida para alem da morte, e poder esperar reencontrar cada olhar, cada voz, cada sorriso, especialmente os tristes, cada mão que apertei, cada abraço que partilhei. A todos os que me cumprimentaram, acenaram, buzinaram, deram sugestões e informações – umas vezes certas, outras erradas mas, estou seguro, sempre bem intencionadas; a todos os olhares, sorrisos, calorosos abraços, intensos apertos de mão, amistosas conversas, votos de boa viagem, boa sorte, êxito; a todos os que me acolheram, alimentaram, abriram a porta de casa e até das próprias vidas; a todos, um enorme e fraterno abraço e um eterno obrigado. A todos os que tiveram paciência para, por mais de 110 000 vezes, so far, “provar” do bacalhaudebicicletacomtodos e, em especial, aos que foram deixando lisonjeiros e estimulantes comentários, um enorme obrigado. Aos meus amigos, não preciso de lhes agradecer – por isso somos amigos… À minha família, agradecerei pessoalmente.
Sem tapete vermelho... P.S. a viagem chegou ao fim, mas ainda há mais duas ou três receitas para os interessados em bacalhau: norte do Chile, centro do Chile(?) e Argentina… estão praticamente concluídos.

o céu sobre Berlim


Vista do meu quarto, a meio do dia...

06 setembro 2011

um domingo berlinense

I.

A data estava há muito marcada no calendário: se queria bilhetes para um concerto no princípio de Novembro, tinha de ir para a porta da Filarmonia no domingo 4 de Setembro. E fui. Cheguei quase uma hora antes da abertura da bilheteira, e já havia uma boa centena de interessados. Bom, pensei eu, concertos há muitos, não irão todos para o que me interessa.
Atrás de mim, duas senhoras falavam sobre a Filarmonia. E qual será o melhor lugar, e espera aí um bocadinho que eu vou ali fotografar o edifício. E eu a pensar "turistas? mas que estarão elas a fazer nesta fila, tencionam ficar em Berlim até Novembro?" e cheia de vontade de lhes contar coisas giras da arquitectura do edifício, mas aguenta-te e calateboca, que não és a Madre Teresa do turismo berlinense. Ah, isso é que era bom: nem dez minutos demorou, e já estávamos em animada conversa, e elas já sabiam tudo sobre a arquitectura do edifício (tudo o que eu sei, entenda-se), e eu já me surpreendera por elas terem vindo de propósito de Hamburgo a Berlim para comprar os bilhetes do meu concerto - uma delas festeja o aniversário nesse dia e quer fazer um fim-de-semana especial com os amigos. Contei-lhes das visitas guiadas à Filarmonia, marcaram logo uma para o grupo, e dei-lhes algumas indicações para o resto do dia. Deliraram com a ideia de ir assistir ao karaoke no Maeurpark, "ai era isso mesmo que nós sonhámos, algo realmente especial de Berlim". Por essa altura já o senhor da frente entrara na conversa, para lhes explicar as vantagens e desvantagens de cada bloco. O C, nem pensar: a acústica é boa, mas o som chega-nos sem volume. Os blocos K e H, se não tem cantores, são óptimos (ah, mais um apreciador dos dotes de bailarino e mimo do Simon Rattle!).
Chegou a nossa vez. Eu escolhi os meus bilhetes uns segundos antes das senhoras de Hamburgo, e levei quatro dos últimos bilhetes no bloco K. O H já estava esgotado. Ai, será que lhes estraguei a festa? No dia 4 veremos - se estiverem sentadas ao meu lado, é porque tudo correu o melhor possível.

II.

Mais um ovo de Colombo: quando as embaixadas se mudaram de Bona para Berlim, para poupar dinheiro os países escandinavos e a Islândia construíram as suas embaixadas num belo complexo comum, ao qual não falta uma "casa comunitária" aberta ao público, com espaço para exposições, concertos, seminários e até a cantina das embaixadas. Depois de alguém se lembrar disso, é óbvio. Porque é que Portugal e a Espanha...? Ou todos os países de língua oficial portuguesa...?
A quem interessar possa: fica no Tiergarten, a comida tem um toque escandinavo, e o almoço anda pelos 5 euros. Melhor que isso, só mesmo do outro lado da rua, no restaurante do Hotel Pestana (os almoços são ligeiramente mais caros, mas é um óptimo restaurante e não uma cantina self service).
No domingo havia lá festa, e que festa: no grande pátio interior, diversos stands mostravam produtos de design desses países, distribuíam informações, vendiam comidas típicas. Ao fundo do pátio tinham instalado um palco onde cada país exibia alguns dos seus melhores artistas. Por exemplo: cantores de ópera, ou artistas de circo. E  Felix Zenger, um beatboxer genial e sorridente, de uma simplicidade desarmante.

Felix Zenger assegura a - digamos - percussão deste trio:



E neste programa explica como trabalha - reparem bem na performance a partir do minuto 4:40 - não é que seja um grande cantor, mas é sensacional.





III.

No fim desta semana vou acompanhar durante alguns dias médicos brasileiros que manifestaram interesse no tema "Medicina e III Reich". De modo que passei a tarde de domingo em Sachsenhausen, entre o pavilhão de patologia e as barracas onde se relata o papel da medicina no sistema do terror. Quando uma pessoa pensa que já sabe tudo, o abismo revela-se afinal ainda mais fundo. Ainda mais insuportavelmente fundo: as pseudo-autópsias para iludir a escolha de uma causa de morte entre as oito previstas, a esterilização por motivos de etnia ou de suposta doença genética - realizada nos hospitais civis por imperativos legais, a castração dos homossexuais, realizada no próprio campo de concentração - também por motivos legais. Sim, que todo o sistema assentava na legalidade. A Justiça, essa, se por lá passou foi metida na barraca das mulheres trazidas de Ravensbrück para servirem no bordel do campo.


IV.
Trinta e cinco quilómetros a sul de Sachsenhausen, no Ku'damm, havia festa. Para comemorar o 125º aniversário desta avenida, um grupo francês passeava pela avenida animais fantásticos, com enormes bocarras, que se lançavam sobre o público em voo picado. Os abocanhados gritavam como se estivessem na montanha russa, os outros riam-se e faziam fotografias. Uma festinha simples, mas - como sempre - os berlinenses enchiam a rua, bem-dispostos e foliões.

Berlim.






 


Adenda, só por causa de um leitor atento:
- Em Sachsenhausen havia uma pequena câmara de gás, de 2,5 por 3,5 m. Pergunto-me por que motivo a terão construído, já que este era um campo de prisão e trabalho, e não de extermínio.

-
-
- Deixei algumas linhas em branco, porque vou mudar muito de assunto.
- O domingo acabou com um Sousão 2004, da quinta do Vallado, que estava fantástico.As batatinhas assadas também, a carne - ahem - podia estar melhor. As uvas tintas encerraram muito bem a jantarada.


sem receita



Vídeo e letra descaradamente roubados à Ana Vidal. Leiam todo o post, vale muito a pena

SEM RECEITA

Primeiro, lenta e precisamente,
arranca-se a pele
esse limite com a matéria.
Mas a das asas melhor deixar
pois se agarra à carne
como se ainda fossem voar.
As coxas, soltas e firmes,
devem ser abertas
e abertas vão estar
e o peito nu
com sua carne branca
nem lembrar
a proximidade do coração.
Esse não.
Quem pode saber
como se tempera um coração?

Limpa-se as vísceras,
reserva-se os miúdos
para acompanhar.
Escolhe-se as ervas,
espalha-se o sal,
acende-se o fogo,
marca-se o tempo
e, por fim, de recheio,
a inocente maçã,
que tão doce, úmida e eleita
nos tirou do paraíso
e nos fez assim:
sem receita.

05 setembro 2011

melodia sentimental

Uma pessoa percorre o youtube à procura de quem cante isto bem, realmente bem, e - não tem dúvida - volta ao amor primeiro:



Melodia Sentimental

Composição Dora Vasconcellos / Heitor Villa-Lobos

Acorda, vem ver a lua
Que dorme na noite escura
Que surge tão bela e branca
Derramando doçura
Clara chama silente
Ardendo meu sonhar
As asas da noite que surgem
E correm o espaço profundo
Oh, doce amada, desperta
Vem dar teu calor ao luar
Quisera saber-te minha
Na hora serena e calma
A sombra confia ao vento
O limite da espera
Quando dentro da noite
Reclama o teu amor
Acorda, vem olhar a lua
Que dorme na noite escura
Querida, és linda e meiga
Sentir meu amor e sonhar.

from google with love

Freddie Mercury faria hoje 65 anos. 

ecce homo



Esmagador: não apenas a sensibilidade do artista, a escolha do momento perfeito, as cores. Muito mais que isso: somos nós, em carne viva.

(Obrigada, António)

03 setembro 2011

então é assim - mas podia ser pior

Hoje tive um acidente de automóvel. O primeiro em quase trinta anos de condução, vá lá. Bati no carro da frente, e com tanta sorte que foi mesmo ao lado da esquadra da Polícia, não tivemos de esperar nada. Não houve feridos, e a minha vítima era muito simpática (além de colega de trabalho de um compadre meu). Um homem justo: quando o polícia perguntou como é que aquilo tinha acontecido, ele disse "o da frente travou a fundo, eu travei a fundo, esta senhora catrapum". E atencioso: no fim, quando me preparava para entrar no carro, perguntou-me se tinha a certeza que estava em condições de conduzir. Já não se fazem vítimas assim!
A princípio achei que não seria nada de muito grave. Mas depois descobri que o motor do meu carro agora tem uma nesguinha por onde pode espreitar o céu.
Em suma: tenho o capot do carro todo empenado, e o meu amor-próprio também.

vamos chamar o vento

Na voz da Miriam Makeba:



Na voz da Mônica Salmaso:




(e, como dizia o outro: eu tenho dois amores...)

02 setembro 2011

Mônica Salmaso



Este vídeo foi-me sugerido por um novo comentador, Carlos Azevedo, num post anterior.
Fiquei rendida.

Será que já disse hoje que o maior orgulho deste blogue são os seus leitores? Pois para que conste!



E cá vamos nós para o prazer: