30 junho 2017

a paranóia no poder

Esta semana preenchi o formulário ESTA, para poder entrar nos EUA. Quando cheguei à pergunta (cito de memória) "A partir de 1.03.2011 esteve no Iraque, no Irão, na Síria, no Sudão, no Jemen, na Líbia ou na Somália?" pus uma cruzinha no "não" com um sentimento misto de alívio e sobressalto.
E se tivesse estado? Isso faria de mim automaticamente uma pessoa que não deve ser autorizada a entrar nos EUA?

Na Newsletter do Spiegel desta manhã, Dirk Kurbjuweit escrevia:

Começou. Esta manhã entrou em vigor uma parte da Proibição de Entradas de Donald Trump para cidadãos de seis estados de religião muçulmana: Irão, Líbia, Sudão, Jemen, Somália, Síria. É oficial: quem governa é a paranóia. Com algumas excepções, as pessoas destes países vão ser tratadas como se pudessem ser perigosas para os EUA. Alguém ainda se incomoda com isto? Temo que tenhamos chegado à zona de habituação. O eterno escândalo Trump tornou-se normalidade, como era de temer. Quando a situação se torna insuportável, após algum tempo encontra-se alívio na ideia de que podia ser ainda pior.

Quanto mais vejo, menos vontade tenho de apontar o dedo aos alemães dos anos trinta do século passado. Como é que foi possível eles terem permitido as leis raciais, por exemplo? Do mesmo modo que é possível isto estar a acontecer à nossa frente, e tornar-se realidade. E o Trump nem precisa de SS, SA, campos de concentração para a oposição, nada. Basta-lhe um decreto presidencial, e a Democracia que o elegeu.

assim não me entendo

Ainda a votação no Parlamento alemão para autorizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo: 
 
parece que TODOS os deputados de religião muçulmana votaram a favor.

Oh pá, isto é o fim do mundo. Então já não se pode confiar nos preconceitos?!
 

habemus Liebe!



30 de Junho de 2017: o Parlamento alemão aprova o casamento do mesmo sexo.

(imagem e título tirados daqui: https://daily.spiegel.de/…/ehe-fuer-alle-bundestag-stimmt-m…)

casamento para pessoas do mesmo sexo na Alemanha (2)

(foto)

Na segunda-feira passada Angela Merkel surpreendeu o país ao afirmar que a questão do casamento para pessoas do mesmo sexo é uma questão de consciência, libertando assim os deputados do CDU para votar como entenderem na sessão parlamentar de hoje. Destes, um em cada quatro votou hoje a favor.

Stefan Niggemeier (de cujo artigo tirei a fotografia) comentava ontem que a chanceler não fez uma inversão de rumo. Limitou-se a dar um passo para o lado, para sair do caminho.

Acabei de ouvir a declaração de Angela Merkel, explicando porque é que votou contra o casamento para pessoas do mesmo sexo. Para ela, casamento é entre um homem e uma mulher (mas parece-lhe bem que a lei sobre adopção seja modificada). Que diferença em relação ao discurso de Cameron sobre o mesmo tema!

Five years on, we're consulting on legalising gay marriage.
And to anyone who has reservations, I say: Yes, it's about equality, but it's also about something else: commitment. Conservatives believe in the ties that bind us; that society is stronger when we make vows to each other and support each other. So I don't support gay marriage despite being a Conservative. I support gay marriage because I'm a Conservative.

E assim vai a vida. Já fui espreitar três vezes ao terraço, mas não vi nenhum arco-íris. Parece que hoje é dia de fazer avançar o mundo sem a bengala da metafísica. Ou talvez não: o dilúvio que ontem afogou a cidade está a dar sinais fortes de abrandamento.

(Aproveito e vou passear o Fox, antes que o São Pedro decida dar a sua opinião sobre o tema que se segue, o da responsabilização do facebook pelos conteúdos de ódio e violência nas suas páginas.)


casamento para pessoas do mesmo sexo na Alemanha (1)


Esta manhã debateu-se no Parlamento alemão a possibilidade do casamento para pessoas do mesmo sexo. Quase todos os participantes insistiram na ideia de que não se está a tirar nada a ninguém, e, pelo contrário, se está a dar algo importante a muitas pessoas. Volker Beck (Verdes), que durante muitos anos insistiu na necessidade de fazer este debate, fala em passar da fase da tolerância à fase da aceitação.

O resultado da votação: 393 votos a favor, 226 contra, 4 abstenções.
Parabéns à Alemanha: deu mais um passo para melhorar o ar que se respira.

A Angela Merkel está neste momento a explicar porque é que votou contra. Já cá volto.

(fonte da foto e da notícia: aqui)


29 junho 2017

mais um bocadinho, e ainda me cruzo com um gondoliere...

Esta manhã, logo depois da volta que dei com o Fox, começou a chover valentemente, e continuou assim o dia todo.
Fui esperando até a chuva passar, esperando, esperando, e quando o bicho já estava há 7 horas sem ir à rua obriguei-o a sair para o que me pareceu um intervalinho no dilúvio. Intervalo de pouca dura: como, por preguiça, não levara o guarda-chuva, em menos de nada a chuva atravessou o meu impermeável e molhou-me toda. 
Quando estávamos a chegar a casa, uma vizinha passou por nós de carro. Parou, abriu a janela, olhou de alto a baixo para a minha figura completamente ensopada e disse: "coitadinho do Fox!"
Depois foi-se embora a rir da sua própria piada.
(Adoro a minha rua.)
Há bocadinho a Christina telefonou a dizer que a autoestrada se tinha transformado em rio, e a perguntar se o pai tinha chegado bem a casa. Sim: entrou em casa a dizer "nem imaginas o pandemónio que vai pela cidade".

Agora vou levar o Fox outra vez. Se me cruzar com um gondoliere, espero que venha com lanterna, para não me abalroar o cão.




(Nos filmes que vi sobre Berlim debaixo de água, gosto especialmente dos ciclistas que continuam a pedalar com a água por cima dos pedais. Berlinenses!)


num dia é o Lobo Antunes, no outro é o Salvador Sobral...

Comentando no facebook o meu post sobre o Lobo Antunes e o Dinis Machado, uma amiga dizia-me que agora queria ver como defendo o Salvador Sobral. Ora, esse é ainda mais fácil de defender, porque não dá a menor margem para dúvidas sobre aquilo ao que vem: é um brincalhão bem-disposto. Depois de o ter visto, após vencer o festival da Eurovisão, a interromper a canção para dizer à frente de 180 milhões de pessoas "na verdade, isto estava tudo comprado, pá", não podemos ter ilusões. O homem é assim, pronto.

Deixo aqui dois exemplos do seu estilo com o público: bem-disposto, espontâneo e sem filtros.




Ninguém é obrigado a gostar. Mas faz-me impressão esta onda de lhe querer impor uma formatação.
Um dia que seja para lhe criticar traços de mau carácter, falamos outra vez. Até lá, deixem-no em paz a ser quem é.

Tanto mais que: pode alguém ser quem não é? E que ganha o mundo em impor máscaras, formatações e normalizações às pessoas que se evidenciam em determinada área? E que nos deve o Salvador Sobral a nós, que dívida tão grande é essa que o deveria obrigar a sujeitar-se às formatações que lhe queremos impor?


Guardei o melhor para o fim: leiam este post que o Daniel Carrapa escreveu a propósito da dança sobre o gume da navalha que o Salvador Sobral inventou para a sua vida.



28 junho 2017

momentos únicos

Contou-me um casal amigo: no princípio da sua história de amor, em férias no Pantanal, entraram numa lagoa e um peixinho vermelho veio ao encontro deles. Muitos anos depois falavam - com olhos brilhantes e um sorriso enorme - da doçura desses momentos, da dança aquática dos três, do peixinho que se encostava à pele deles, se afastava e regressava. Mágico, diziam, e até se esqueciam de parar de sorrir.

Hoje foi a minha vez.

Fui passear o Fox, e um besouro veio ao meu encontro e foi ficando. Ora na orelha esquerda, bzzzzzzzz, ora na direita, bzzzzzzzzzzzzzzz, ora ensarilhado no meu cabelo, bzzz bzzzz bzzzzz bzz bzz bzz bzzzzz, ora ganhando distância, ora vindo direito a mim. Tão a direito, que se estampava. Ora no meu braço, bzzzzz zás!, ora na minha bochecha, bzzzzzzz bschlszás! E voltava à orelha esquerda, à direita, aos meandros do cabelo...

Em termos de interacção com o mundo animal, só me saem duques.




adeus mundo cruel que é hoje que vou de vela

Devo estar cansada de viver, porque só mesmo isso explica que me atreva a escrever contra as marés de fúria das redes sociais. Volta e meia, lá vou eu outra vez, e ai!, adeus mundo cruel, gostei muito deste bocadinho. 

Recentemente, foi a propósito de uma crónica de António Lobo Antunes sobre Dinis Machado, e da resposta da filha deste, Rita Machado


Deve ser defeito meu (pelo qual dou muitas graças), mas não consigo ver na crónica de Lobo Antunes qualquer maldade em relação a Dinis Machado e a António Marceneiro. Não sabendo nada da vida dos dois, a imagem deles nesta crónica é a de seres humanos na sua vertente de sofrimento, de dúvida, de desamparo. Uns tipos simpáticos, concluo eu, que já não tenho idade para acreditar em super-homens e pais-natal. 


Victor Gonçalves escreveu a propósito um texto muito interessante: Lobo Antunes e Dinis Machado, subsídios para mitigar uma possível polémica.

Recomendo a leitura do post completo, e copio para aqui o final:

Rita Machado, compreendo-te, admiro até a defesa arriscada e comovente que fazes do teu pai (um escritor de quem gosto muito), mas Lobo Antunes está acima da calúnia, ele cria mundos, tem esse enorme talento, e às vezes salpica de lodo barrento uma ou outra personagem, efeitos colaterais mínimos que nem Deus, tudo o leva a crer, conseguiu evitar.

Gosto muito deste final, mas não concordo inteiramente com ele. Quando leio Lobo Antunes, nunca o vejo a salpicar de lodo barrento uma ou outra personagem. O que vejo é o arqueólogo a atravessar a terra e o lodo para revelar ao mundo a beleza do que estava escondido. Nas crónicas em que fala da família, dos amigos, dos conhecidos, expõe seres humanos no esplendor da sua verdade - mesmo se feita de imperfeição -, sem lhes atingir a dignidade.

Criticam-me uma certa incapacidade de pensar mal das pessoas. Há até quem me chame ingénua. No caso, por não ser capaz de ver que Lobo Antunes é um sei-lá-o-quê, e por não me dar conta do desgraçado retrato que faz de Dinis Machado.


Até podem ter razão. E que me interessa? Também eu posso criar mundos ao dar o benefício da dúvida e ao fazer a escolha de não me concentrar no lado sombrio das pessoas. Prefiro o poder do Criador na intuição de quem escreveu o Génesis: o que sabe que na lama se esconde o milagre de um ser humano. 


(Mas claro que toda a regra tem excepção. Não abusem... ;) )


27 junho 2017

"droga"

Ontem, 26 de Junho, era o Dia Internacional contra o Abuso e Tráfico Ilícito de Drogas. Falou-se de droga na Enciclopédia Ilustrada (mas não propriamente do ponto de vista da luta contra a dita... soubesse eu quem são os administradores da casa, e já lhes fazia uma conversinha sobre então que é que é isto).

Não trago para aqui o link para uma página de culinária com erva, por causa das coisas, mas roubo um post que lá encontrei sobre música dos Beatles:

Vá lá, não se atropelem com a Lucy, também há estes eternos campos de morangueiros. Alguns críticos associaram a letra desta canção extraordinária ao consumo de LSD, facto não confirmado pelo autor, John Lennon (nos créditos: Lennon & McCartney). De um ponto de vista composicional, àparte os méritos melódicos e poéticos evidentes, chamo a vossa atenção para os sons invertidos sobrepostos e os pequenos loops (pequenos fragmentos musicais tocados ininterruptamente, criando novas texturas); estas técnicas estavam então na berra entre os pioneiros da música electro-acústica, e é sabido que os Beatles foram bastante sensíveis às inovações de compositores dessa corrente, particularmente Karlheinz Stockhausen.




Acrescento ainda o resultado de uma experiência feita nos anos 50, quando pediram a um pintor que retratasse o médico que o estava a observar durante uma trip de LSD:



E termino com o artista Bryan Lewis Saunders, que fez cinquenta auto-retratos sob influência de drogas diferentes. Neste link encontram-se muitos desses retratos.





os cristãos alemães tiveram uma ideia incrível para mote do seu encontro nacional este ano (sim, parece um clickbait, mas podem crer que é mesmo incrível)





A torre do sino junto à Igreja da Memória está em obras, e o andaime foi coberto com uma tela na qual inscreveram variações de uma citação do livro do Génesis: "tu vês-me":
Tu vês-me / vês-me? / é a mim que vês.

Essa frase foi o lema do Encontro de Cristãos deste ano - quando se comemora o quinto centenário da Reforma - e foi dita por Agar, mãe de Ismael.


A organização explica a escolha desta forma (e previno que o Speedy Gonzalez meteu a velocidade de cruzeiro):

Ser visto, ser tomado em consideração. Este anseio é importante, e para isso enviamos imagens de nós próprios para todo o mundo, por facebook e whatsapp. (...) Ver o outro está na base da relação, não apenas com Deus mas nas interacções com as pessoas. A dignidade humana como criação divina funda-se nesse ser visto por Deus. A história de Agar, da qual retiramos o lema deste encontro, é retomada tanto no Corão como no Novo Testamento. Para lá do contexto bíblico, a frase "tu vês-me" também serve nos nossos dias para exprimir reconhecimento, apreço e atenção pelo outro. (...)
Queremos estar muito atentos neste encontro: atentos às pessoas que não costumam ser vistas, numa cidade em que ricos e pobres estão separados por enorme distância; atentos àqueles que não acreditam em Deus, ou acreditam de forma diferente, aqui no Leste da Alemanha e numa cidade onde há tantas diferenças culturais, religiosas e filosóficas; atentos a uma Igreja que muda, porque tem de mudar
.

Mas vamos à história de Agar, nos capítulos 16, 17 e 21 do livro do Génesis.
Sara, a mulher de Abraão, que era estéril, sugeriu ao marido que engravidasse a escrava dela, a egípcia Agar, dizendo que criaria o filho como se fosse seu. Uma vez grávida, Agar começou a tratar Sara com desprezo. A situação entre as duas mulheres complicou-se de tal modo que Agar fugiu para o deserto, onde um anjo lhe deu ordem para voltar para casa, assegurando-lhe que ela daria à luz um filho a quem poria o nome de Ismael, e prometendo-lhe que multiplicaria a sua descendência até a tornar incontável. Mas também lhe revelou que o filho seria indomável, que estaria contra todos e todos estariam contra ele.
Agar perguntou "será que vi Aquele que me vê?" e nomeou o Deus que lhe falava: "tu és um Deus que me vê."
Voltou para a casa dos amos e deu à luz o filho, a quem Abraão deu o nome Ismael.
Anos depois, Deus fez com Abraão uma aliança, prometendo que dele nasceria o filho que daria origem a um povo. Também Ismael teria inúmera descendência, mas o povo escolhido seria o descendente de Isaac.
Sara engravidou e deu à luz Isaac. Na festa de desmame de Isaac exigiu de Abraão que expulsasse Agar e Ismael, para que este não tivesse parte na herança de Isaac. Abraão ficou muito chocado, mas Deus disse-lhe que obedecesse a Sara, e prometeu que protegeria Ismael e faria da sua descendência uma grande nação.

O que estas passagens do Génesis nos mostram é o nascimento simbólico do povo árabe, a partir de uma situação de profundo conflito e invejas familiares. Caso para dizer: estava escrito.

Dois detalhes:
- Na narrativa bíblica, que corresponde à perspectiva hebraica, Deus está atento aos árabes e ao destino desse povo.
- A grande festa dos cristãos alemães deste ano trouxe para o centro das atenções esse cuidado do Deus da Bíblia em relação aos árabes e por extensão a todos os povos que não são o "escolhido".












26 junho 2017

a saga continua

A saga continua: esta manhã recebi um e-mail que começava assim: "bonsoir, Helena". 
Pensei "olha, bonsoir escreve-se bonsoir e não bon soir!" e, respondi, muito contente por não iniciar a minha mensagem com um erro de ortografia:
"Bonsoir René"
Enviei. E só quando abri a mensagem seguinte, que começava com "bonjour Helena", me dei conta do erro.

Começo a desconfiar que não há cama suficientemente grande para tudo o que precisava de dormir...
 
 

25 junho 2017

isto hoje parece que vai ser difícil

Se calhar já voltava para a cama, de onde não deveria nunca ter saído. 

Acabei de reparar que cortei as unhas apenas de uma mão...


já foste!

Se querem saber tudo (se não querem, passem para o parágrafo seguinte): no sábado passado, dia da estreia mundial da ópera em que andei a trabalhar nos últimos dois meses, liguei o telemóvel no intervalo do almoço. Daí a nada estava a tocar. Era a Christina. "Ó mãe, saí para o jardim, a porta da casa bateu, e agora estou aqui descalça e o Fox está sozinho lá dentro!" O problema do Fox sozinho em casa é que tinha sido operado três dias antes, e estava sem o funil torturador. Não podia ficar várias horas a lamber os pontos sem ninguém o chatear. Como eu não tinha tempo de ir a casa e voltar a tempo do concerto, a Christina sugeriu encontrarmo-nos a meio do caminho. Foi a uma vizinha pedir uns sapatos emprestados, e encontrámo-nos no Zoo.

Com isso, perdi a horinha que tinha guardado para rever a partitura da ópera e assentar algumas ideias. De modo que ia sentada no autocarro, de regresso à Filarmonia, folheando o livro e repetindo febrilmente "oieoai falado, oieoai cantado 2 vezes e à segunda bates palmas", e coisas assim. O autocarro parou, um homem entrou e sentou-se ao meu lado. Cheguei-me mais para a janela para ele acomodar o corpanzil, e continuei a estudar.

- A senhora é música?, perguntou-me ele, em inglês.
- Não. Apenas amadora.
- Ah. Pensei que era música. É que eu sou. De Jazz.
Pelo ar com que o disse, imaginei que se consideraria uma autêntica lenda viva.
Sorri-lhe brevemente, larguei um "ah, que giro...", e espetei o nariz no livro.
- Se quiser, posso dar-lhe um CD.
- Obrigada... - voltei ao livro.
- Dou-lhe o meu número de telefone, você liga-me, e eu dou-lhe o CD.
Impaciente, passei-lhe um papel para as mãos, na esperança de que ele sossegasse depois de escrever o número (e agora não me chateiem, que eu estava a 35 minutos da estreia mundial e tinha a cabeça no oieoai cantado 2 vezes e à segunda bates palmas). Escreveu - com algarismos americanos - deu-me o papel, e estendeu a mão para um aperto. Estendi-lhe a minha (como quem estende um papel na esperança de que o outro sossegue depois de registar o seu número de telefone, e não me chateiem, que tinha a cabeça no aoeo em que fazemos uma vénia à rainha) e o gajo pousou delicadamente um beijo nas costas da minha mão.

- Já foste!, pensei eu, furiosa comigo própria por ter caído na armadilha. E depois semicerrei os olhos, e rosnei só para mim:
- Já foste, meu grande chato.

Largou-me a mão, e continuou:
- Tem aí o meu número de telefone, pode ligar-me, podemos tomar um café.

Apontei para o livro, e disse-lhe com firmeza que me estava a incomodar.   

Uma amiga minha, portuguesa, contou que quando veio morar para a Alemanha se perguntava o que haveria de errado com ela por não ser assediada na rua. Não estava habituada àquele sossego.
Eu, há quase trinta anos por estas terras, habituei-me bem demais. Tanto, que já nem sei desconfiar de gajos que começam uma conversa comigo no autocarro.

--

Caso estejam perplexos com os textos da ópera que cantei: era a história de uma viagem à lua - a língua do povo da lua era feita só de vogais: a o e i I (ai) o u.
Como não se entende o que eles dizem, a própria música tem de contar tudo. É uma bela ópera para crianças. Um dia destes disponibilizam no Digital Concert Hall, e eu ponho aqui o link.


24 junho 2017

se não agora, quando?



Maria da Fonte entre tempos cruzados

Pedro Adão e Silva (Expresso, 24.6.2017)

A sociedade transferiu-se em massa para o litoral, mas preservou uma nostalgia do território, uma ligação à terra que não corresponde à sua ocupação efetiva

Convém não exagerar na confiança moderna com que enfrentamos a natureza, sobretudo quando os próprios riscos já não são apenas naturais, mas manufaturados. Os antigos chamavam a esta arrogância húbris e lembravam que ela tendia a ser punida. É também essa a lição de Pedrógão Grande e, de quando em vez, é bom que nos recordemos que não é avisado perseguir a natureza, pois esta “regressa a galope”.
É certo que falhámos de forma monumental na prioridade — evitar a perda de vidas humanas —, mas como nada sei sobre combate a incêndios, chamo a atenção para um outro aspeto: por (in)ação, o território português transformou-se de forma radical num curto espaço de tempo, acentuando um padrão de propriedade que já era muito fragmentado.
Por força de uma modernização tardia e abrupta, o abandono do mundo rural foi, entre nós, repentino e intenso. Neste processo, o interior ficou mais vulnerável e a desruralização tornou-se uma força irreversível, sem que tenhamos sido capazes de reinventar a paisagem.
Esta modernização tardia encerra um paradoxo, que, aliás, o sociólogo (aqui a qualificação é relevante) Augusto Santos Silva identificou há décadas. A persistência de tempos cruzados, nos quais moderno e tradicional coexistem, sem que nenhum se sobreponha. Podemos alargar o conceito à forma como os portugueses se relacionam com o território, com consequências para a tragédia persistente dos incêndios.
Num ímpeto modernizador, a sociedade portuguesa transferiu-se em massa para o litoral, mas preservou uma nostalgia do território, uma ligação à terra que não corresponde à sua ocupação efetiva. Enquanto individualmente se tenta preservar um passado rural que já não existe, o Estado tem de gerir um país num limbo — não é nem abandonado nem ocupado. Num país pobre, os proprietários não têm dinheiro para conservar a sua propriedade, mas, como não vivem dela, a sua salvaguarda não é assegurada pela economia.
Pelo caminho, o que já era um problema, uma estrutura de propriedade muito fragmentada, acentuou-se (em 14 dos 18 distritos, a propriedade é, em média, meio hectare e estimativas conservadoras apontam para que 10% do território não tenha dono conhecido). Este processo criou terreno fértil para incêndios.
Que fazer? A solução pode encontrar-se entrincheirada entre dois polos: o Estado não pode ir longe demais na pressão sobre a propriedade privada (mesmo que apenas em sede fiscal), combatendo o abandono a que muitas terras estão votadas, mas também não pode dar incentivos que favoreçam o latifúndio (que concederia racionalidade económica). Um Governo que seguisse este caminho poderia ter de enfrentar uma Maria da Fonte do século XXI. Mas talvez a tragédia destes dias sirva para superar este emaranhado de interesses contraditórios, no qual o material (a propriedade) se mistura com o simbólico (a ligação à terra).

--

A análise de Pedro Adão e Silva, que trouxe do Expresso, é muito pertinente. Sinto-me mais optimista que ele em relação às possibilidades do Estado numa reforma da gestão das propriedades, e talvez até do próprio registo matricial. Se não for agora - agora que fomos testemunhas horrorizadas das consequências da nossa inércia - quando será possível mudar realmente? Este é o momento de lançar em Portugal uma reforma que permita uma racionalização económica do território agrícola e uma economia florestal em moldes que não ponham em risco a vida das pessoas e as suas casas.
Pessoalmente, não me incomodaria a ideia de um arrendamento compulsivo de longo prazo dos terrenos abandonados, e até da transferência da propriedade para o Estado, em caso de abandono efectivo durante um longo período de tempo.

E, desta vez, sei do que falo: contra mim falo.

23 junho 2017

"ágora"

A palavra proposta hoje na Enciclopédia Ilustrada era "ágora", e alguém falou em agorafobia. O que me lembrou um tipo concreto de medo de frequentar espaços abertos:




Quem de vocês, caras colegas enciclopedistas, não sentiu nunca o impulso de evitar entrar numa praça ou numa rua, por sabê-la cheia de coça-as-esquinas prontos a mandar bocas e assobios?
Conheço uma miúda que aos sete anos levava imenso tempo para comprar pão. Por causa de uns gajos que a chateavam no caminho mais directo para a padaria, via-se obrigada a fazer um desvio enorme e ir por outras ruas.
Os pais achavam graça à capacidade de desenrasque da miúda. Eu acharia mais graça que na nossa sociedade estas situações não fossem encaradas como um elemento normal do nosso espaço público. 



a Leste nada de novo

Traduzo um post que encontrei no blog do Wladimir Kaminer:


"Desculpe a pergunta: o senhor é o Wladimir Kaminer?" - o revisor do comboio reconheceu-me. "Adoro o seu humor, eu próprio venho da Silésia, ou seja, também sou estrangeiro, tenho muitos livros seus! Tenho Os Malditos da Taiga, o Soviestão, o A Leste Nada de Novo... Fantástico! Maravilha!"
Queria recomendar-lhe ainda o Guerra e Paz, outro dos meus livros, mas preferi ficar calado devido à falsa modéstia. Durante o resto da viagem fiquei a pensar no terceiro livro mencionado por ele. Vejamos: o primeiro é Konsalik, que escreveu mais sobre a taiga que a associação de escritores russos inteira. Na taiga de Konsalik, à sombra de cada árvore havia sempre uma Natascha. Ou uma Tamara ou uma Ninotschka. O segundo é o livro norueguês de Erika Fatland, um belo livro, cheio de vivacidade. E o terceiro? Que raio era aquilo? Chegado a casa, googleei e encontrei apenas isto: "A Leste Nada de Novo: ofertas e honrarias dos magistrados romanos no Leste do Império Romano, desde o final do séc. III a.C. até ao fim da época de Augusto".
O revisor do comboio devia ser um historiador do caraças.  



22 junho 2017

o que as pessoas trazem consigo

O Joachim telefonou: "chego daqui a vinte minutos e os amigos pintores também vão passar pela nossa casa, mas não é preciso fazer nada para eles". Gosto imenso desses amigos, pelo que fui à quintinha buscar rúcula para uma grande salada, e esmerei-me na sopa de tomate fria. Mais umas fatias de pão velho ("adoro pão velho", disse a amiga, que é a da dicotomia vestido/groselha - como não gostar de quem exclama assim "adoro pão velho!"?), e uns biscoitos para compor a coisa ("que biscoitos maravilhosos! que ervas têm?", como não gostar etc.), ficou composto o jantar.

Pelo meio falou-se de exposições e de modelos, prometeram-me um ulmeiro descendente do nobre centenário que se exibe junto ao palacete da colónia de artistas, e rimos com a ideia de fazer brownies com manteiga enriquecida (para bom entendedor...) só para impressionarmos os nossos filhos.

E às tantas o nosso amigo, de 75 anos, começou a contar:

Quando a guerra estava a chegar ao fim, fugimos aos russos pelo Mar Báltico. Muitos anos mais tarde, a minha mãe ainda tinha pesadelos que lhe traziam de novo o pavor de entrar com os filhos num barco sabendo que, apesar de a vitória dos aliados  já ser certa, só metade das embarcações chegava ao seu destino, porque as outras eram atacadas e naufragavam.

"Entrar num barco sem saber se se chega vivo ao outro lado, como os africanos que no nosso tempo se lançam ao Mediterrâneo. Que desespero leva as pessoas a fazer uma coisa assim?", comentámos.

O nosso barco não foi atacado, e conseguimos chegar à aldeia da minha avó materna. Como éramos família, não nos consideraram refugiados. 

Eram tempos de muita escassez. A minha avó disse-me: "quando estiveres na casa dos teus primos, à mesa tens de fazer como eles. Se não comerem mais, não te serves outra vez." Eu fazia como os meus primos, e a minha tia dava-me a comida que sobrava, para levar para casa. Eu escondia tudo nos bolsos da bata, e contrabandeava para a minha mãe e o meu irmão, debaixo do nariz inquisidor da avó. 

Ninguém nos disse que não podíamos ir à fruta dos lavradores, e foi assim que matámos muita fome. Um dia, nas aventuras habituais com os meus amigos, descobrimos umas peras maduras num pomar fechado, e foi decidido que era eu quem as ia buscar, por ser o mais alto do grupo. Com a ajuda deles consegui empoleirar-me no muro, e quando me preparava para descer para o outro lado, vi que o dono estava lá em baixo a olhar para mim. "Desce desse muro, aqui para o meu lado", disse ele. "Anda descansado, que não te faço mal." Apanhou ele próprio as melhores peras da árvore, para mim e para os meus amigos, e abriu o portão para eu sair. Soube depois que o lavrador tinha perdido os seus dois filhos na frente Leste. 

Fui para a escola primária com cinco anos, e fui muito bem tratado. Como era muito magro, davam-me sempre o dobro da porção normal de pãezinhos de passas e de leite chocolatado. Ainda hoje adoro pãezinhos de passas. Mas o melhor de tudo era a oficial inglesa que trazia a comida. Tinha um uniforme de saia caqui, collants finos com costura na parte de trás da perna, e aquele boné em forma de barquinho. Nunca tinha visto nada tão bonito e elegante! Apaixonei-me por ela. Depois apaixonei-me pela minha professora. Queria casar com ela, e não me importava nada de passar a ter um filho ligeiramente mais velho que eu, e outro ligeiramente mais novo.

O meu pai era químico, físico e engenheiro. Em vez de o mandarem para a guerra, obrigaram-no a trabalhar na investigação de armas de aviões. Quando viu a guerra a chegar ao fim foi entregar-se aos ingleses, mas estes, ao verem que ele vinha do sector russo, mandaram-no para trás. Por sorte, o acordo de Potsdam previa que todos os prisioneiros de guerra ligados à aviação ficavam sob a alçada dos aliados ocidentais. Ao fim de umas semanas, os russos reenviaram-no aos ingleses, e ele acabou por se poder juntar à família. Ofereceram-lhe empregos formidáveis. O melhor de todos era no Canadá: o triplo do salário que recebia na Alemanha, dois carros, duas viagens à Alemanha todos os anos, escola paga. Mas a minha mãe não quis ir. Ficámos na Alemanha.

Surpreendo-me sempre com a quantidade de História que os alemães trazem consigo.


21 junho 2017

groselhas (2)



Atão, vá: caso aconteça a alguém de dar uns vestidos a uma amiga, e ela para agradecer oferecer um cesto de groselhas, pode-se sempre fazer um bolo a partir de uma receita para muffins de groselha e canela. Esta:

açúcar amarelo      - 100 g
açúcar                    -  50 g
sal                          - 1/2 colher de chá
canela                    - 1 colher de chá 
farinha                   - 250 g
fermento                - 2 colheres de chá
manteiga derretida - 100 g
leite                        - 100 ml
ovos                       - 2
groselhas (frescas ou congeladas) - 150 g

Misturar os ingredientes secos numa tigela. Misturar os ingredientes líquidos noutra tigela. Juntar a mistura de sólidos com a de líquidos. Deitar numa forma e misturar levemente as groselhas distribuídas uniformemente.

Vai ao forno a 200º até estar pronto.

Fica tão bom que não sobra nada para a fotografia.

Por sorte eu, precavida, tirei uma fotografia quando ainda estava dentro do forno:



a responsabilidade da imprensa na propagação do ódio

Sobre o ataque terrorista da segunda-feira passada em Londres, as primeiras notícias que li em português (como esta, da TSF, entre outras) informavam que uma carrinha atropelara peões perto de uma mesquita. O que é verdade, sem dúvida. O problema é que esta notícia, ao omitir uma parte importantíssima dos factos (foi contra muçulmanos, movido por ódio islamofóbico), produziu automaticamente no leitor a ideia de se tratar de mais um ataque de terroristas islâmicos, e reforçou a ideia de que "estamos cercados". Pode argumentar-se que os jornais teriam publicado apenas a informação que consideravam fidedigna. No entanto, antes de ler as páginas em português, já eu soubera pelo Spiegel que se tratava de um ataque terrorista contra muçulmanos. Este desfasamento na informação é estranho, porque normalmente os meios de comunicação social portugueses são mais rápidos que os alemães.

Penso na importância das primeiras impressões, e pergunto-me como é que as pessoas vão arquivar esta informação. Ficará registada como um ataque dos terroristas islâmicos contra "nós"? Ou será que conseguirão corrigir a primeira impressão, e memorizar a diferença? É que desta vez são os "nossos" que estão a usar os mesmos métodos e o mesmo ódio para os atacar a "eles".

Os nossos meios de comunicação social - e falo em especial dos alemães - dão muito palco aos ataques de terroristas islâmicos, e quase ignoram os ataques de grupos nacionalistas que põem em risco a vida ou o bem-estar de estrangeiros que vivem entre nós. Por esse motivo, sentimos que vivemos sob ameaça, mas não nos damos conta das ameaças que pairam sobre os nossos vizinhos cuja nacionalidade, religião ou cor de pele é diferente da nossa. Mais ainda: criticamos (e bem) o erro de termos tolerado durante demasiado tempo o fundamentalismo islâmico, esquecendo que temos uma tolerância muito maior em relação à extrema-direita. Tolerância essa que grassa em toda a sociedade e nas instituições. Os jornais não se dão ao trabalho de informar sobre actos violentos da extrema-direita, e a polícia ignora demasiadas vezes essa possibilidade - como no caso do grupo neonazi alemão que entre 2000 e 2007 matou dez pessoas, quase todas de origem turca, e que só por acaso foi descoberto. Durante todo esse tempo a polícia não pôs sequer a hipótese de se tratar de terrorismo de extrema-direita, porque partia do princípio de que aqueles assassinatos seriam "coisas lá das máfias dos turcos".

Para dar uma imagem fidedigna da realidade, é essencial que a comunicação social trate estes ataques com o mesmo impacto que dá aos dos fundamentalistas islâmicos, e que esteja extremamente atenta para não alimentar involuntariamente preconceitos e medos. No caso deste atentado, era fundamental corrigir as notícias - a começar pelos títulos - mal se tivesse confirmado a motivação do seu autor. É também muito importante que haja informação sobre o que acontece de positivo nas comunidades de estrangeiros, em vez de informar apenas sobre os casos que delas dão uma imagem negativa. Por exemplo, que se dê mais relevo ao gesto do imã da mesquita junto à qual foi feito este atentado em Londres, que até à chegada da polícia protegeu com o seu próprio corpo o autor do atentado, não deixando que a multidão enfurecida lhe fizesse mal. Um dia que alguém venha com uma conversa do género "estes muçulmanos não são como nós, não se querem integrar e não respeitam as nossas leis", podemos lembrar este caso.

Que esta tragédia sirva ao menos para ver com mais clareza o que está em causa, e que a comunicação social tenha isso em conta quando faz as notícias: o problema não é a religião ou o contexto cultural, o problema é o ódio. O ódio que existe do nosso lado como do lado dos outros, e que mata. O ódio que pode ser involuntariamente alimentado por uma comunicação social movida por interesses de sobrevivência económica, e por isso obrigada a concentrar-se nos títulos que vendem melhor. Ora, o que vende melhor é quando nós somos as vítimas, e não quando as vítimas são outros. E o que vende melhor é o que reforça os nossos preconceitos. A questão é que, em última análise, a missão do jornalismo não é a sobrevivência económica - é a informação isenta e responsável. Se perderem isto de vista, acabarão por perder tudo. A começar pelos direitos e privilégios do jornalismo, que só se justificam com o cumprimento das suas imprescindíveis funções. 

--

Quase a propósito: porque é que não nos passa pela cabeça organizar uma manifestação para explicar que não somos todos farinha do mesmo saco, nem somos todos perigos potenciais para as outras culturas ou religiões, mas exigimos isso dos muçulmanos quando há um atentado fundamentalista islâmico? 


a insularidade ataca de novo

Hoje é o dia internacional da música, Berlim está cheio de grupos musicais por todos os cantos e esquinas (aconselharam-me muito o "Canto e Terra", na zona da Kollwitzplatz), e eu em casa a correr atrás do atraso do costume!

Já não é insularidade - é degredo.

20 junho 2017

groselhas






Dei a uma amiga uns vestidos que já não me servem, mas não queria dar a uma Humana qualquer para serem vendidos por um preço muito inferior ao seu valor. Fiquei contente por ela ter gostado deles. Já me bastava isso, mas não: ela fez questão de me agradecer com uma caixa enorme de groselhas que apanhou no seu quintal.

A minha reacção foi muito elegante: "ai! groselhas! não sei cozinhar isso."
(Escusam de comentar)

Explicou-me que posso fazer omoletes, ou doce.

Perguntei a uma vizinha se queria uma caixa enorme de groselhas. Ela disse que adorava o fruto, mas já tem imensos no seu jardim, e que eu podia fazer uma sobremesa impecável com iogurte e quark.

Fiz um bolo com 300 g de groselhas, que era uma receita de muffins. Ainda tenho um quilo de groselhas para despachar. Alguém me pode dar sugestões de receitas simples e rápidas?

(Também agradeço sugestões sobre como soltar as groselhas do ramo sem ser uma a uma, num trabalho interminável.)

(Espero que a minha amiga não ande agora na rua dela a perguntar quem quer uns vestidos que lhe deram talicoisa.)


propostas para as florestas portuguesas (mais um post de pescada)

Para não ser menos que os outros, deixem-me falar do que não sei: depois de assistirmos com horror às trágicas consequências do que tem sido feito na área dos recursos florestais, e tendo consciência que esta desgraça se pode/vai repetir em breve noutras regiões do país, que acham da ideia de reconverter os terrenos que já foram apanhados pelo fogo, reintroduzindo a antiga floresta portuguesa, essa que existia antes do desvario da monocultura do pinheiro e do eucalipto?

Continuando a falar sem saber nada, proponho que:
 
- Não seja permitido plantar pinheiros ou eucaliptos nos terrenos ardidos - particularmente nos terrenos próximos de zonas habitadas.
- Haja um plano (com jeito, até podia ser apoiado pela UE) para plantar nos terrenos ardidos as árvores de espécies tradicionais portuguesas (e especialmente as menos propensas à propagação de incêndios).
- Os produtores de pinheiro e eucalipto sejam obrigados a plantar barreiras de ciprestes que impeçam a propagação do fogo para lá das propriedades que exploram, ou pelo menos a ter um seguro que cubra os custos de um incêndio que tenha sido transportado pelas suas árvores.
Gosto particularmente da ideia do seguro: se os produtores forem responsabilizados pelos danos e tiverem de tomar medidas para estar em condições de cobrir os prejuízos, as contas da rentabilidade da produção de pinheiro e eucalipto passam a incorporar todos os custos, e não apenas os da produção. 
 
(Onde é que me posso inscrever na lista de candidatos a Secretário de Estado das Florestas? Bem sei que já tenho dez milhões à minha frente, mas não custa nada tentar.)

19 junho 2017

sem palavras

O dia em que abres o Spiegel de manhã para ver o que está a acontecer no mundo, e aparecem imagens horrorosas do teu país, e o título: "Portugal: aldeias cercadas por chamas. Muitos mortos."

Ficas sem palavras. Compreendes finalmente o valor do silêncio perante o horror.

(E não te sai da cabeça uma frase que leste há anos: "Portugal é um campo de combustíveis a céu aberto.")








17 junho 2017

vou à lua e volto já



Hoje é o dia da estreia mundial da ópera "a Trip to the Monn", de Andrew Norman.

Podia contar muita coisa, mas não tenho tempo, porque antes de sair para os últimos preparativos ainda tenho de levar o Fox ao seu passeio, e ir comprar dois baldes enormes para a sardinhada que estamos a organizar para amanhã no Monbijou park. Inventam tantas teorias, e ainda ninguém se lembrou de inventar uma de círculos do tempo sobrepostos, para eu poder fazer três ou quatro coisas ao mesmo tempo. Quer dizer, isso já eu faço. Mas dava-me jeito se pudesse fazer descansadamente cada uma dessas coisas, num círculo diferente do tempo.

(Chama-se agenda, Heleninha. Basta não pôr duas coisas na mesma linha.)


Aqui podem ler um pouco sobre este projecto. Amanhã, às onze da manhã (dez em Portugal), passam em directo e gratuitamente no Digital Concert Hall. Se me quiserem reconhecer no meio daqueles lunáticos todos vestidos de branco, estou no grupo de bipolares que desce as escadas da direita. Devo ser a oitava a contar do fim.

Lunáticos, bipolares? Resumindo, é assim: um grupo de terráqueos chega à lua, e os lunáticos reagem com desconfiança. Por sorte a Pocahontas lá do sítio explica-lhes que não é preciso ter medo, e todos fazem uma grande festa, na qual a princesa explica aos visitantes como vivem os lunáticos e o medo que têm de um monstro que os persegue. Tudo vai em boa paz, até que aparece o monstro da lua e as coisas começam a correr mal. A boa vontade transforma-se imediatamente em ódio. Oh, estes lunáticos de fracas convicções, sempre predispostos a fazer de mob atrás de um líder qualquer que fale mais grosso!

A música tem passagens belíssimas, e a encenação está muito boa.

Escusado será dizer que estou a gostar imenso de participar neste projecto - mesmo se ando sempre a correr de um lado para o outro, e se faço tudo com uma décima de segundo de atraso porque ainda não tive tempo de decorar a partitura e a coreografia.







(tirei todas as fotos do site da Filarmonia de Berlim)


15 junho 2017

há gente que precisa mesmo de um desenho...


A propósito deste post, sobre o uso de tomate no plural, várias pessoas me vieram perguntar o que era isso do figo. Ora bem: às vezes há pessoas que precisam mesmo que lhes façam um desenho...


 (foto 1: KunstNet)


 (fotos 2 e 3: Zypern1000)

Em italiano, "fica" significa "figo" e "vulva" (mas não experimentem isso em casa, porque é calão grosseiro). Já se disserem "Feige" a alemães para se referir ao que já sabem, vão dar-se um ar levemente poético e prazenteiro. Em Viena, "mit der Feige hausieren" ("levar o figo de casa em casa") é uma expressão idiomática para prostituir-se.

E agora entra D.H. Lawrence em cena para explicar mais detalhadamente, nas palavras com que Herberto Helder o entendeu:
(e aqui no original)


Figos

A maneira correcta de comer um figo à mesa
É parti-Io em quatro, pegando no pedúnculo,
E abri-Io para dele fazer uma flor de mel, brilhante, rósea, húmida,
desabrochada em quatro espessas pétalas.

Depois põe-se de lado a casca
Que é como um cálice quadrissépalo,
E colhe-se a flor com os lábios.

Mas a maneira vulgar
É pôr a boca na fenda, e de um sorvo só aspirar toda a carne.

Cada fruta tem o seu segredo.

O figo é uma fruta muito secreta.
Quando se vê como desponta direito, sente-se logo que é simbólico:
Parece masculino.
Mas quando se conhece melhor, pensa-se como os romanos que é
uma fruta feminina.

Os italianos apelidam de figo os órgãos sexuais da fêmea:
A fenda, o yoni,
Magnífica via húmida que conduz ao centro.

Enredada,
Inflectida,
Florescendo toda para dentro com suas fibras matriciais;
Com um orifício apenas.

O figo, a ferradura, a flor da abóbora.
Símbolos.

Era uma flor que brotava para dentro, para a matriz;
Agora é uma fruta, a matriz madura.

Foi sempre um segredo.
E assim deveria ser, a fêmea deveria manter-se para sempre
secreta.

Nunca foi evidente, expandida num galho
Como outras flores, numa revelação de pétalas;
Rosa-prateado das flores do pessegueiro, verde vidraria veneziana
das flores da nespereira e da sorveira,
Taças de vinho pouco profundas em curtos caules túmidos,
Clara promessa do paraíso:
Ao espinheiro florido! À Revelação!
A corajosa, a aventurosa rosácea.

Dobrado sobre si mesmo, indizível segredo,
A seiva leitosa que coalha o leite quando se faz a ricotta,
Seiva tão estranhamente impregnando os dedos que afugenta as
próprias cabras;
Dobrado sobre si mesmo, velado como uma mulher muçulmana,
A nudez oculta, a floração para sempre invisível,
Apenas uma estreita via de acesso, cortinas corridas diante da luz;
Figo, fruta do mistério feminino, escondida e intima,
Fruta do Mediterrâneo com tua nudez coberta,
Onde tudo se passa no invisível, floração e fecundação, e maturação
Na intimidade mais profunda, que nenhuns olhos conseguem
devassar
Antes que tudo acabe, e demasiado madura te abras entregando
a alma.

Até que a gota da maturidade exsude,
E o ano chegue ao fim.

O figo guardou muito tempo o seu segredo.
Então abre-se e vê-se o escarlate através da fenda.
E o figo está completo, fechou-se o ano.

Assim morre o figo, revelando o carmesim através da fenda púrpura
Como uma ferida, a exposição do segredo à luz do dia.
Como uma prostituta, a fruta aberta mostra o segredo.

Assim também morrem as mulheres.

Demasiado maduro, esgotou-se o ano,
O ano das nossas mulheres.
Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.
Foi desvendado o segredo.
E em breve tudo estará podre.
Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.

Quando no seu espírito Eva soube que estava nua
Coseu folhas de figueira para si e para o homem.
Sempre estivera nua,
Mas nunca se importara com isso antes da maçã da ciência.

Soube-o no seu espírito, e coseu folhas de figueira.
E desde então as mulheres não pararam de coser.
Agora bordam, não para esconder, mas para adornar o figo aberto.
Têm agora mais que nunca a sua nudez no espírito,
E não hão-de nunca deixar que o esqueçamos.

Agora, o segredo
Tornou-se uma afirmação através dos lábios húmidos e escarlates
Que riem perante a indignação do Senhor.

Pois quê, bom Deus! gritam as mulheres.
Muito tempo guardámos o nosso segredo.

Somos um figo maduro.
Deixa-nos abrir em afirmação.


Elas esquecem que os figos maduros não se ocultam.
Os figos maduros não se ocultam.

Figos branco-mel do Norte, negros figos de entranhas escarlates do Sul.
Os figos maduros não se ocultam, não se ocultam sob nenhum clima.
Que fazer então quando todas as mulheres do mundo se abrirem na
sua afirmação?
Quando os figos abertos se não ocultarem?


D. H. Lawrence
in As Magias
tradução de Herberto Helder

14 junho 2017

ora cá estamos nós outra vez







Ora cá estamos nós outra vez: o Fox aliviado de um tomatinho, e nós aliviados de 600 euros.
Ou seja: ora cá estamos nós outra vez, e todos bastante grogues.

--

Como Berlim tem apenas uns quatro milhões de habitantes, claro que havia de me cruzar com um vizinho no veterinário. Tinha levado um dos seus cães para fazer uma biopsia, por causa de um tumor no maxilar inferior. Agora têm de decidir se cortam metade do maxilar ao cão, ou quê.
Senti-me embaraçada ao lembrar a minha choradeira da manhã. Parecia aquela vez que estive internada num hospital por causa de um nódulo sem importância nenhuma, e aproveitei o hotel de pensão completa para gozar a vidinha sem os afazeres de casa. Estava a correr muito bem, mas foi só até ao momento em que meteram no meu quarto duas mulheres com cancro e entre nós se ergueu um nevoeiro pesado.


o uso da palavra tomate no plural

Encontrei no facebook um pequeno debate sobre o uso da palavra tomate no plural.
Uma purista da lógica gramatical argumentava - e bem! - que se diz "um quilo de + singular" quando é para tirar uma parte de algo inteiro (um quilo de abóbora, um quilo de queijo) e "um quilo de + plural" quando se trata de várias unidades (um quilo de queijinhos, um quilo de bananas).

O problema, dizem, é que o plural de tomate pode ter uma leitura brejeira, e portanto é aconselhável que se diga no singular, "um quilo de tomate".

Portanto, é como quem diz... Como se as leituras brejeiras só afectassem os tomates!
- Queria três pepinos/cenouras/courgettes.
- Três?! Não lhe basta um?!
Além disso, se é para evitar a leitura brejeira, então o melhor era deixar de comprar "um quilo de bananas" (ou de banana), e passar a pedir "daqueles frutos amarelos curvos"...
E figos, nem sei como é que se atrevem a dizer essa palavra em público. E ostras.
Adiante.

O meu problema é que quando digo "um quilo de tomate" desconfio que toda a gente repara naquilo que eu evitei cuidadosamente dizer. É o tal elefante no meio da sala. Mal por mal, digo logo: ó senhor Manuel, pese-me se faz favor um quilo desses elefantes em cacho!


o pobrezinho do coitadinho do desgraçadinho




Esta manhã levei o pobrezinho do coitadinho do desgraçadinho do Fox à clínica veterinária para ser operado. Tem um testículo que não desceu, e é preciso tirar antes que se lembre de começar a fazer estragos a sério.

O veterinário explicou-me tudo o que lhe vão fazer, e tudo o que pode correr mal. O Fox esteve o tempo todo debaixo da minha cadeira, cheio de medo. Assinei a concordar com tudo, depois a assistente pegou na trela do Fox, eu disse "até já" e ele foi a trotar ao lado dela até ao fundo do corredor.

Espero que o parque de estacionamento não tenha câmaras de filmar, não me apetece nada que andem por aí filmes de mim a chorar baba e ranho por entre carros.

(Espero que os meus se mantenham com saudinha - se isto é assim com o cão, como será se for um filho ou um marido...)


12 junho 2017

"nívea"

Ontem, a palavra do dia na Enciclopédia Mágica era "nívea". Atrasei-me por causa de umas coisas e outras, e só escrevi o meu post hoje. Isso dá direito a multa, que é paga em minis.
(Esta minha vida é um stress.)



Este post ainda é sobre "nívea", e vai atrasado, mas a infracção calha bem porque ultimamente não tenho tido tempo para andar aqui feita polícia, e o nosso stock de minis está a atingir mínimos históricos. Ora, tendo em conta o calor que faz, e o almoço dos enciclopedistas já no próximo fim-de-semana (enfim, não de todos, porque marcaram o almoço para um lugar muito à desamão aqui de Berlim), há que dar de beber às gentes, e portanto escrevo um post em contramão.

Queria falar do creme nívea que a minha mãe espalhava em generosas camadas nas costas dos cinco filhos. Grande seca essa: espalhar e ser espalhado. De modo que éramos aviados em pinceladas fartas, e depois andávamos pela praia com ar de quem caiu num balde de tinta branca. Muitos anos depois vim a saber que o Nívea não presta para nada em termos de protecção contra cancro da pele. Ah! Isso pensam eles! A camada que a minha mãe nos punha era uma muralha intransponível, hehehe.
 

Isso era o que queria contar, esse meu trauma de infância (já disse que era uma seca monumental?) mas depois fui à procura de uma figurinha para aqui deixar, e descobri que há tempos a Nívea foi para tribunal defender a exclusividade do seu azul. É que a cor é um elemento fundamental para o reconhecimento do produto, e nenhuma empresa quer ter a concorrência a ir à boleia do seu esforço de instalação no subconsciente dos consumidores. Em tempos foi a Milka que exigiu para si o monopólio das pastas de chocolate em papel lilás (e ganhou: quando um miúdo disse que achava que as vaquinhas que davam o leite para aquele chocolate eram de cor lilás) (estou a brincar, não foi por causa do miúdo) (mas é verdade: há mesmo miúdos que acham que as vacas são dessa cor - é o que faz serem mimados com chocolates em vez de serem postos na vida real a mungir vacas e assim) (ai, cala-te boca, que hoje é o dia mundial contra o trabalho infantil).

Voltando ao azul Nívea: o tribunal mandou fazer um inquérito para ver qual era a marca associada a produtos de cosmética em tom azul. Mais de metade das pessoas disseram "nívea!" e foi assim que a empresa ganhou o processo. 


Isto estamos aqui, estamos no fim do mundo: se agora até os processos da Justiça são assunto para referendo!...



garota de Ipanema




A vizinha bateu à minha porta, já vinha de fato de banho. Por causa do calor insuportável, recebi-a em trajes menores: uma combinação branca de linho bordada, daquelas que as nossas avós usavam há cem anos. Sabiam muito, as nossas avós.

"Queres ir ao lago?"
"Claro que sim!" - em menos de um minuto desarranjei-me e saí com ela pela rua. Mais à frente, parámos a convidar os vizinhos que estavam alapados no jardim. Mais uma campainhada à esquerda e outra à direita, e formou-se um grupo de mulheres em fato de banho, toalha à volta do corpo, e chinelos de dedo. Elas é que iam assim - a minha vizinha e eu, que já somos profissionais disto, temos um vestido e umas sandálias de ir ao lago.

Contei-lhes de quem mora perto da praia no Rio de Janeiro, e vai pela rua em biquíni e páreo. Concluímos: "somos as garotas de Ipanema!"
Muitas gargalhadas no princípio da tarde de domingo na ruas sossegadas do meu bairro, à sombra das árvores frondosas.


Depois entrámos na água fresca - e que bem nos soube! - e elas foram dar a volta ao mundo. Eu fiquei por ali a nadar em estilo livre sem sair do sítio, para não me afastar demasiado do Fox. O verde da vegetação banhava-se nas covas largas da água, e as flores brancas dos nenúfares erguiam-se sobre mim. Tenho de arranjar maneira de levar uma boa máquina fotográfica para debaixo da água.



10 junho 2017

assim não dá



Ando há uma semana para contar do concerto da Nina Hagen no teatro do Brecht. Hoje pus-me a ouvir os filmes piratas que fiz, e estou na dúvida se ponho na internet ou não. Por um lado, não sei se é proibido. Por outro lado, não sei se ela merece. Também não sei se querem mesmo ver a Nina Hagen perdida na fragilidade dos humanos: a voz cansada, as frases lentas. Mas a verdade é que, mesmo que quisesse contar e mostrar, não tinha tempo.

Há dias apanhei um gajo no lago em flagrante de fotografar os nenúfares. Eh, lá! Então agora os pobres também já andam de camisa lavada?! Mas não o atirei ao lago, nem disse que aqueles nenúfares são todos meus, nem lhe mostrei as vinte mil fotografias que tenho como prova, nem nada. Queria pô-las todas aqui, para que conste, mas - lá está - não tenho tempo.



Esta semana entraram-me cá em casa dois artistas de circo. Ando há dois dias para contar aos pais de um deles os detalhes todos que as suas saudades me pedem, mas não tenho tempo. Ontem levaram-me ao Chamäleon a ver o show dos amigos. Garanto que se fosse a mãe de alguns daqueles, me levantava e desatava a gritar "desce já daí para baixo! se cais, partes-te todo, meu palerma! não foi para isso que te criei! andei eu nove meses a comer produtos biológicos para tu nasceres com saúde e para quê? para quê? para estares agora aí em risco de te espatifares todo! mais me valia ter andado no Happy Meal e coleccionar os brinquedos das meninas para te pôr no berço, sempre ficavas um rapaz mais sossegado!"
E foi uma sorte na sala não haver moscas, porque passei o tempo todo de boca aberta. Vou dar uma velhinha formidável, cuidado comigo...
Gostei muito deste "Scotch & Soda". A música bem-humorada, a qualidade dos acrobatas, e a mudança de paradigma: se havia exibição da beleza do corpo nu, era a do corpo masculino.

A caminho do show tirei uma série de fotografias engraçadas na S-Bahn. Se tivesse tempo, trabalhava-as um bocadinho (enquanto ouvia a Nina Hagen a cantar o Alabama Song), e punha aqui. Mas não tenho tempo, nem sossego, porque se me entregasse ao trabalho das fotografias ia ser com a consciência pesada de não estar a aprender os detalhes todos da ópera. Hoje tivemos ensaio com a orquestra, e eu ainda estou muito perdida. Uma vergonha: estar no palco da filarmonia a fazer play back. Mas faço aqueles balanços de andar na lua (a ópera é sobre uma viagem à lua) com muita aplicação. Tanta aplicação, que tenho os músculos num estado lastimoso. A première é de hoje a oito, e por este andar ainda vou para lá de cadeira de rodas.

E também há por aí umas fotos engraçadas de um meio-dia de férias que tirei ontem, para dar graxa ao grande chefe da Destreza das Dúvidas, que veio visitar os súbditos. Punha-as aqui, mas, lá está: não tive tempo, porque estive a conversar com os vizinhos para desfazer os vbad vbivbes que espalhei na semana passada. Desfiz, mas da pior maneira possível: ficou combinado que o vizinho que faz questão de trazer as bandas paga do seu bolso o prejuízo que houver, e se for preciso alguém ir preso, vai ele. Ora, esta decisão é que é mesmo tão bad vibes que até acerto nos vv e nos bb.

Contava mais trapalhadas, mas tenho o Fox aqui ao lado a fazer aquela cara de "ó mulher, anda para a cama que são horas de ir dormir!"

Em suma, é isto: a vida real anda-me a atrasar cada vez mais a da bloga. Como é que os outros bloggers conseguem?


o erro de Newton


o erro de Newton

dizem os físicos
que dois corpos
não podem ocupar

o mesmo espaço
ao mesmo tempo

estão errados

num abraço
podem

num abraço
devem

--

Descaradamente roubado ao Xilre, só para dizer que acho lamentável esse blogue não ter uma caixa de comentários e mais o coraçãozinho do facebook, para poder marcar lá que gosto imenso de quase todos.

(Pensando bem, é melhor assim: ia apanhar uma tendinite de tanto repetir o mesmo gesto. Obrigadinha, ó Xilre! Sempre a pensar em tudo.)


09 junho 2017

bad vibes

A festa de vizinhos da minha rua vai na terceira edição, e começou a dar problemas, porque metade dos organizadores querem que isto permaneça um simples convívio de vizinhos (com cerveja e salsichas grelhadas, e um pequeno palco para o pessoal da rua vir mostrar o que sabe - desde o pequenito de fraldas a cantar o hino do clube do pai dele até às bandas das pessoas que aqui vivem) e outros querem uma coisa cada vez mais em grande. Na última reunião, um dos vizinhos disse que a sua banda não pode actuar, mas que arranjou em troca quatro bandas que vêm tocar de graça, e "só" tínhamos de pagar os 500 euros para a técnica. Ainda tentei argumentar que isso nos afasta do espírito da festa, e que eu quero conversar e saltar à corda com os vizinhos, não quero passar a tarde a ouvir bandas, e patati patata, mas eles estavam eufóricos com a ideia de ter quatro bandas a actuar de graça, e eu, num daqueles meus momentos de pura patetice, cedi à vontade da maioria.

Depois caí em mim, e comecei a fazer contas. Se isto correr mal, é bem capaz de custar 100 ou 200 euros, ou mais, a cada família. Sem contar as multas que nos arriscamos a apanhar se correr tão mal que nos venham chatear por termos organizado um grande evento sem ter obtido todas as autorizações necessárias, desde "uso do espaço público" até "venda de bebidas", passando pelo ruído, e pelos regulamentos sanitários para servir comida (e ainda bem que a ASAE alemã é um bando de dorminhocos - fosse com a ASAE portuguesa, e estávamos feitos ao bife).


De modo que, quando caí em mim, escrevi a todos dizendo que tínhamos de pensar melhor a decisão, e que espalhar por aí flyers a dizer que vamos ter comidas, bebidas e muitas bandas é andar a oferecer de bandeja centenas de provas a um eventual inimigo, e que não quero pagar do meu bolso, e que só participo nisto depois de saber quem se assume como responsável caso as autoridades venham cá investigar o que andamos a fazer.

Desde então, ouvi de tudo: que não custa nada cada um pagar 100 euros, que escuso de complicar o que é simples, e que vai correr tudo bem, e que ando a espalhar bad vibes.

Bad vibes! Bad vibes!

Em primeiro lugar: no meu tempo isto chamava-se Gestão dos Riscos e dos Custos.

Em segundo lugar:  como se atrevem a dizer "bad vibes" a uma gaja do Porto, fuôssssca-se?!!! É que não admito! Podem-me chamar tudo, mas "bad vibes" não admito!
É que, de cada vez que falo disso, entaramelo-me toda: vad bives, vad vives, bad bibes, bad bives.


08 junho 2017

normalidade

Vinha no Spiegel (e no facebook, aqui e aqui): uma mulher irritou-se com o conteúdo de um texto dos trabalhos escolares da filha de seis anos, e reescreveu-o.

Admito que alguém venha protestar contra "a brigada do politicamente correcto, que até os mais inócuos textos de escola quer criticar e alterar" e "até parece que não temos problemas mais importantes para resolver". 

Pergunto: que ideia de normalidade queremos passar às nossas crianças? A normalidade do texto original, ou a do texto corrigido?

Responderão: "Pois é, mas como quase nenhum pai assume os seus deveres de educador, ao apresentar o segundo texto vai-se dar à maior parte das crianças a sensação de que a sua família está errada."

Pois é... de facto, essa não me tinha ocorrido. Então está bem: tendo em conta o superior interesse da criança, o primeiro texto é o melhor, porque impede a criança de perceber que o pai lhe está a falhar, e deita a culpa para a mãe. Como culpar a mãe está em sintonia com o procedimento habitual da sociedade, a criança não estranha e, pelo contrário, sente que na escola estão atentos aos motivos da sua tristeza. Que pena a minha filha já não estar em idade de frequentar a escola primária, era mesmo esta a escola que devia frequentar: sempre se ia preparando melhor para o que se espera dela quando for mãe.

(Joga pedra na Geni! / Joga bosta na Geni! / Ela é feita pra apanhar! / Ela é boa de cuspir!)





07 junho 2017

lágrimas e sangue



Falei há dias da peça de homenagem que Stravinsky escreveu para Rimsky-Korsakow após a morte deste que era, para o jovem compositor, mais que um mestre e amigo: quase pai.

Tenho estado a ouvi-la em repeat. Toca-me cada vez mais. Imagino o compositor a escrever cada nota pesada de perda e de saudade. Com quanto sangue, com quantas lágrimas as terá escrito?



25 anos


No mês que vem o Joachim e eu comemoramos 25 anos de casamento. Quando calhou aos meus pais, chamava-se "bodas de prata", e eles - aos meus olhos de então - eram muito mais velhos do que nós somos hoje com a mesma idade. Não sei que me parece, "bodas de prata" - ainda estamos a anos-luz disso.

Quando estava a preparar o convite para a festinha que queremos fazer com os companheiros de jornada, bloqueei. Andei semanas e semanas em busca do registo certo, mas hesitava, escrevia, riscava, reescrevia. Até que fui buscar a caixa de sapatos onde guardamos as fotos do casamento (sim: depois disso a vida acelerou tanto que ainda não tivemos tempo de organizar tudo num lindo álbum) (talvez arranjemos tempo um dia, lá para os 120 anos, e estando mais ou menos entrevadinhos) e reli o convite. Estava lá tudo: a ideia, o registo certo, e nós. Inspirada por aquela aparição, num instante completei o texto que me tinha andado a fugir. 

Deve ter havido um curto-circuito numa curva do tempo, mas soube-me bem: esses que éramos nós há 25 anos a levar-nos pela mão e a indicar o caminho a estes que somos nós hoje.

(A foto é a do convite em 1992)



06 junho 2017

excesso de delicadeza

No sábado passado fomos ao concerto da Nina Hagen no teatro de Brecht (a ver se conto ainda hoje) e a Christina levou um amigo sírio, que é músico.

Aviso já: aquele homem cativou-me desde o primeiro instante. Tem um ar sensível, um sorriso aberto, e é extremamente bem-educado. É um músico muito bom, mas quando toca com a Christina não tenta nunca pôr-se em primeiro plano - um excelente team-player: atento, competente, sensível, delicado.

E foi justamente sobre a sua delicadeza que falámos no fim do concerto da Nina Hagen. Sem querer, ele tinha dado um pontapé numa caneca de cerveja vazia pousada na borda do passeio. O meu marido pegou na caneca e pousou-a na mesa mais próxima dessa esplanada, avisando as pessoas lá sentadas que o fazia para evitar que se partisse e se espalhassem cacos pela rua. O nosso amigo sírio sorriu às pessoas dessa mesa e fez-lhes uma vénia profunda para agradecer a boa vontade.

Assustei-me. Pensei que este homem se vai dar mal na sociedade alemã, que é muito directa e tem "mentalidade de cotovelo" (no sentido de acotovelar os outros para passar à frente). A sua delicadeza vai parecer submissão, vão-no comer vivo, pensei.

Disse-lhe: tu és demasiado bem-educado para os berlinenses.
Respondeu: achas? É a minha maneira de estar neste mundo. Semeio sorrisos. Se as pessoas sorrirem de volta, fico contente. Se não aceitarem o meu gesto, paciência. Mas vale a pena tentar.

Avisei-o para estar muito atento, não fosse dar-se o caso de alguém confundir boa educação com atitude submissiva - e ainda agora estou a pensar nessa conversa. Devia ter-lhe dito? Devia ter ficado calada? E como será ser refugiado num país europeu? Se for como os berlinenses (directo, um pouco abrutalhado, competitivo) vão dizer que é mal-agradecido, impositivo e malcriado. Se for extraordinariamente polido, como é, não o vão respeitar. E alguns até são capazes de desconfiar de tanta simpatia, por não bater certo com o preconceito "refugiado = machista que trata mal as mulheres = terrorista".

De cada vez que falo com ele, meto água. Por exemplo, quando vínhamos a regressar do concerto deles em Leipzig, e me perguntou o que achava da sua casa. A casa dele foi em tempos uma loja. A única janela que tem é a da montra, pintada de branco. Normalmente vivem lá quatro pessoas, mas se aparecem outros refugiados a pedir abrigo, também lá ficam. E muitas vezes os meus filhos vão fazer música com eles no estúdio da cave, e dormem ali em vez de voltarem para casa a meio da noite. Os meus filhos e o Fox, que é a mascote deles todos. Disseram-me, a rir, que a segunda língua do Fox é o árabe.

Perguntou o que é que eu acho da sua casa, e eu fiquei sem saber como dizer que acho horrível terem um quarto com os vidros pintados de branco, e uma cozinha sem janelas. De modo que balbuciei: "é bom ter uma casa assim grande e com espaço para acolher os amigos, mas gostava de vos ver numa casa com mais luz e ar fresco..." e acrescentei muito depressa que era uma grande sorte poderem ter o estúdio na cave onde dantes era o armazém da loja.

Ele com excesso de boa educação, eu com excesso de sinceridade. Cada qual carrega a sua idiossincrasia.