31 janeiro 2017

"E as crianças que nascem num Bairro ilegal não têm os mesmos direitos que as outras crianças?"

Partilho o apelo de uma amiga:

O 2. Torrão é um Bairro de barracas, ilegal, com mais de 40 anos, localizado a 25km de Lisboa, na zona da Trafaria - Almada.

O Bairro sobrevive sem quaisquer infraestruturas básicas (água canalizada, electricidade, saneamento) e em situação de pobreza extrema (fome, frio e todo o tipo de carências).

A Associação Cova do Mar instalou, no Bairro 2. Torrão, a Fábrica dos Sonhos, para ajudar as crianças a crescer e a sonhar. Falamos de um universo de 100 crianças carenciadas, com as quais se tem desenvolvido um trabalho de apoio continuo: estudo orientado, apoio aos trabalhos escolares, colônia de férias, actividades educativas, distribuição de donativos (alimentação, roupas, brinquedos..). Um trabalho muito importante e reconhecido pela comunidade.

Contudo, a Associação perdeu o apoio financeiro das Instituições locais, sem o qual não consegue sobreviver, com a justificação de que está a trabalhar num bairro ilegal.

- E as crianças que nascem num Bairro ilegal não têm os mesmos direitos que as outras crianças ?

- Negar ajuda a crianças desfavorecidas só porque vivem num Bairro ilegal, não é desumano?

O espaço físico/geográfico é somente uma moldura das relações humanas. O argumento de Bairro ilegal (para a não atribuição de apoios) tende, apenas, a mascarar as divergências de interesses e a induzir uma leitura imóvel da situação.

Só os seres humanos podem agir e transformar o mundo. Cada acção individual envolve a sociedade como um todo. É nesta lógica que a Fábrica dos Sonhos quer intervir. Democratizando a implementação dos processos, numa dinâmica que privilegia as relações humanas no interior da comunidade.


A Fábrica dos Sonhos quer ajudar as CRIANÇAS que vivem no Bairro ilegal de barracas do 2. Torrão (há 40 anos ignorado) a terem esperança num futuro melhor!

É esta a voz que queremos ecoar. É esta a voz que queremos fazer crescer, porque

...somos os nossos sonhos!

Se se identificar com esta causa, assinar a petição e tiver disponibilidade para a divulgar - em nome de todas as crianças - muito obrigada!



"leck mich im arsch" (atenção: post com bolinha branca)

"Leck mich am Arsch", "lambe-me no cu" - nas formas abreviadas: "lambe-me" ou "podes-me" - é uma expressão muito usada em alemão para exprimir repúdio e desprezo por alguém, para dar um tema por encerrado, para manifestar surpresa ou alegria ou como quem diz "a propósito", entre outros. É uma espécie de "fuck off", só que, como já aqui se disse, em alemão os palavrões são mais da área dos excrementos que da sexualidade.
Investiguei um pouco a origem. Chamam-lhe "saudação suábia", ou "a frase de Götz", depois de Goethe a ter posto na boca de Götz von Berlichingen (3º acto, quando está cercado no seu castelo: "Diz ao teu comandante que tenho o devido respeito por sua majestade imperial. Quanto a ele, diz-lhe que me pode lamber no cu.")

Mozart (como não?) pegou no tema para fazer um cânone, com o texto "lambe-me no cu, depressinha, depressinha", que a editora alterou para (em tradução ainda mais rápida que de costume) "Sejamos alegres! / Não adianta resmungar! / Rezingar, rosnar é perda de tempo, / é o maior fardo da vida. / Por isso, sejamos alegres!"



Durante muito tempo, pensou-se que o cânoe "Leck mir den Arsch fein recht schön sauber" ("lambe-me o cu com fineza e bem limpinho") seria também de Mozart, mas acabou por se descobrir que a música era de Wenzel Trnka von Krzowitz ("Tu sei gelosa, è vero") e só a letra era (oh, que grande surpresa!) de Mozart.

De onde virá essa expressão?
Uma hipótese será o costume medieval de exprimir a submissão indicando a diferença de níveis pela latitude do beijo - pés, fímbria do manto, joelho, mãos, etc.).
Outra hipótese está ligada à crença arcaica de mostrar as nádegas nuas para afastar um perigo ou um ser indesejado (monstro, bruxa, praga).

Uma das gárgulas da Igreja Matriz de Caminha é um homem a mostrar as nádegas nuas. Durante muito tempo pensei que seria para chatear os espanhóis (embora não esteja virada para Espanha, mas isso são detalhes sem importância neste tempo de factos alternativos). Agora, pergunto-me se essa igreja terá sido construída por suábios...
Estou a brincar, mas estou a falar a sério: talvez haja uma ligação entre esse tipo de gárgulas, os suevos que atravessaram a Europa para se instalarem junto ao nosso Atlântico, e a saudação suábia.  Que em Portugal acabou por se transformar (lá está a passagem da analidade para a sexualidade) para "chupa!"


entretanto, ali ao lado...

Ontem, na Enciclopédia Ilustrada, a palavra mágica foi "palavrão".
Os contributos foram tantos e tão bons que, se me deixassem mandar, não mudava a palavra até ao fim da semana.

(Se me deixassem mandar no PNL, dava a ler nas escolas uma antologia com muito deste material.) (Não, não escolheria o mero desbragamento, como as mentes mais perversas estão a pensar. Seria perda de tempo dar a ler a adolescentes aquilo que eles já conhecem de gingeira.)


30 janeiro 2017

para quem se pergunta o que pode fazer para ajudar os refugiados, aqui estão algumas indicações muito simples

Partilho um apelo da Mariana Vareta no facebook. Gostei muito de ler porque, para além de relatar a terrível situação nos campos de refugiados na Grécia, nos mostra que há quem ajude com eficiência e indica como é que cada um de nós pode ajudar. Acrescento apenas que os Médicos sem Fronteiras também são um grupo importantíssimo no terreno, e darão bom uso ao dinheiro que lhes enviarmos.
Por favor, leiam e partilhem.



Ajuda humanitária distribuída no último mês pelos vários projectos apoiados pela  
Help Refugees na Grécia.

 
 A aquecer as mãos em fogões portáteis.


“Potential disruption due to extreme low temperatures”. É o aviso meteorológico para os próximos dias no Norte da Grécia, para onde parto na segunda-feira para mais 3 semanas de voluntariado com refugiados (para quem possa ficar baralhado, é verdade que já fui no dia 10, mas tive que voltar de urgência por razões pessoais).
Quando cheguei a Portugal em Agosto, depois de 4 meses na Grécia, já vinha com a ideia fixa de voltar no pico do Inverno. Já nessa altura prevíamos que, apesar de todos os apelos, os campos não iam ser preparados a tempo e ia ser outra vez um drama. Mal nós sabíamos que vinha aí o pior Janeiro das últimas décadas.
Durante os últimos meses, perdi a conta às vezes que me perguntavam “se aquilo por lá andava melhor” e eu pensava para mim mesma “meu deus... as pessoas estão mesmo a leste”. É mesmo a única vantagem desta vaga de frio: ser uma nova wake up call.
Sinceramente, ainda não percebi como é que não morre mais gente. Ainda há centenas de pessoas - bebés e crianças incluídos - a viver em tendas de pano montadas em cima de cimento húmido, dentro de fábricas geladas, com as portas e as janelas partidas. Muitas vezes não há água, porque os canos congelam e partem, e outras tantas não há eletricidade, porque os quadros não aguentam as dezenas de aquecedores e fogões portáteis com que as pessoas tentam desesperadamente combater o frio.
Queima-se de tudo para criar algum calor, até mesas e cadeiras, até combustíveis tóxicos que só pioram os (muitos) problemas respiratórios. Falta coragem para tomar banho ou lavar a roupa em água gelada, portanto as doenças de pele alastram no meio da sujidade envergonhada.
O sistema de saúde grego, que já estava praticamente colapsado, viu a crise dos refugiados provocar um aumento de 400% na procura de cuidados. Tudo o que não seja urgente ou gravíssimo fica numa lista de espera interminável (coisas tão simples como um gesso podem demorar quase uma semana). As mães são devolvidas às tendas 3 dias depois de uma cesariana, e os AVCs recebem alta assim que se aguentem numa cadeira de rodas - mesmo sabendo-se que só vão ter acesso a casas de banho portáteis montadas no exterior. Claro que qualquer gripe, neste contexto, é completamente desvalorizada. Das coisas que mais me impressionou foi um miúdo de 5 anos, encolhido num canto com dores de garganta, a chorar baixinho como quem já aprendeu que não adianta.
Os processos de asilo arrastam-se durante meses a fio, eternamente pendentes de respostas de uma Europa com cada vez menos vontade de ajudar. O medo está a ganhar à decência, e aos refugiados pouco adianta insistir que estão a fugir exatamente do mesmo fanatismo que nós tememos.
Quase um ano depois do fecho das fronteiras, a Europa ainda só acolheu cerca de 8 mil das mais de 60 mil pessoas que ficaram presas na Grécia. O continente mais rico do mundo prefere pagar para manter o problema à distância: pagar à Turquia para não os deixar chegar cá, pagar à Grécia para segurar os que chegaram, pagar muros para travar os que sobram. Uma fracção deste dinheiro seria mais do que suficiente para reforçar o sistema de asilo grego, fazer verificações de segurança rápidas e eficazes, priorizar os menores desacompanhados e os casos mais vulneráveis, distribuir os verdadeiros refugiados pela Europa e repatriar os que não fossem elegíveis. Quer dizer, estamos a falar de 60 mil pessoas. É pouco mais do que a lotação de um estádio de futebol. Uma coisa que se resolvia em menos de um mês, se houvesse essa vontade. Mas não. Em vez disso, há mais de 2000 crianças desacompanhadas à mercê de todo o tipo de exploração, há mulheres a prostituírem-se por comida e pessoas a suicidarem-se em campos sobrelotados. Relembro: isto passa-se na Europa do século XXI.
Tanto o governo grego como a Agência das Nações Unidas para os Refugiados (UNHCR) receberam dezenas de milhões de euros da União Europeia para prepararem os campos para o Inverno - idealmente, mudar as pessoas para contentores aquecidos ou alojamento formal, ou, quando isso não fosse possível, aquecer as fábricas onde as pessoas ainda estão em tendas, isolar o chão e garantir um fluxo consistente de água quente. Não sei onde é que esse dinheiro foi parar - mas garantidamente não foi onde devia. Mas ainda tiveram a distinta lata de divulgar um vídeo onde se congratulavam pelo sucesso da operação. “Uma comunicação chocante e completamente desconectada da realidade”, nas palavras dos Médicos sem Fronteiras - esses sim, com a independência que lhes é reconhecida, sempre a fazerem a diferença e a denunciarem quando é preciso . Este assunto irrita-me tanto que nem me vou alongar mais, mas quem quiser detalhes sobre o tema pode lê-los neste link (o Guardian é dos poucos que nunca largou esta crise): https://www.theguardian.com/…/thousands-of-refugees-left-in…
O que me leva ao que me traz aqui: pedir ajuda para os grupos de voluntários e pequenas organizações.
É muito importante que se perceba que, perante a lentidão das entidades oficiais, são estes grupos que andam a fazer a diferença - há cerca de dez dias, quando a UNHCR declarou que “nenhum funcionário devia ser obrigado a trabalhar naquelas temperaturas”, os voluntários andavam ao relento a distribuir roupa, cobertores e chá quente a refugiados com os dedos já azuis do frio.
É essencial que se saiba que a maior parte da ajuda providenciada nesta crise vem de milhares de donativos individuais, tão pequenos como 5 euros, que sustentam o trabalho das centenas de voluntários que são um verdadeiro fenómeno de coordenação e eficácia no terreno - se alguém andar à procura de um tema interessante para um mestrado em ciências sociais, por favor recomendem-lhes uma viagem à Grécia. Por mais meses que passem, não consigo deixar de ficar estupefacta com o profissionalismo e a rapidez de resposta desta comunidade. A maioria é gente como eu, que planeou ir um mês e nunca mais conseguiu vir embora. Viciados na sensação de estar no olho do furacão e fazer realmente a diferença todos os dias. A organização é impressionante, com centenas de pessoas em comunicação constante por facebook e whatsapp, numa partilha diária de recursos e informações que permite uma resposta quase imediata a qualquer tipo de questão. Os canos congelaram e é preciso distribuir água engarrafada? Cria-se uma equipa temporária que começa a tratar disso no mesmo dia. Há tendas encostadas num armazém de Salónica que são precisas em Lesbos? No dia seguinte estão a ser enviadas por ferry. A situação na Sérvia está ainda mais dramática que na Grécia? Reorientam-se recursos e envia-se um comboio de ajuda. Um grupo recebeu mais comida do que precisa para o seu campo? As sobras são canalizadas para os que trabalham com os sem abrigo. As mensagens chovem e as respostas também. Funciona literalmente assim - e apetece bater palmas todos os dias.
São os voluntários que distribuem roupa, sapatos, botijas, chá, fruta e legumes. Que constroem fornos seguros para evitar incêndios, instalam máquinas de lavar roupa para as pessoas não congelarem as mãos, e eletrificam um campo inteiro quando o quadro derrete com o esforço. Que alugam apartamentos para os casos mais críticos, como os recém nascidos, as vítimas de violação e os muito doentes. Que ajudam nos pedidos de asilo, os acompanham às entrevistas e arranjam advogados para os casos mais gritantes. Que levam refeições quentes e cuidados médicos aos refugiados que vivem na rua. Que transportam pessoas para o hospital quando as ambulâncias demoram eternidades, e ficam lá com elas para garantir que não há problemas de comunicação. Que entretêm as crianças, que dão aulas aos adultos, que distribuem presentes no Natal. É aos voluntários que a polícia pede ajuda quando há um motim, “porque eles a vocês ouvem-vos”. Basicamente, é aos voluntários que se deve aquilo não ser ainda muito pior do que é.
MAS. Isto só é possível com a vossa ajuda. Imensa gente me disse durante estes meses que adorava poder fazer o mesmo que eu, mas não podia deixar o emprego, a casa, a família. Mas acreditem: ficar e ajudar a financiar quem vai é tão ou mais importante do que ir. A maioria dos voluntários de longo termo está completamente falida. As últimas poupanças já se foram há muito tempo e estamos, mesmo, completamente dependentes de donativos para poder continuar.
O dinheiro é sempre a forma mais eficaz de ajudar, porque nos permite responder de imediato e rigorosamente à medida das necessidades - por exemplo, se hoje a temperatura cair a pique e forem precisos 20 fatos de neve para crianças dos 6 aos 10 anos, é muito mais provável encontrá-los numa loja do que no armazém que recebe as doações. Para além disso, tem a vantagem adicional de promover a economia local, o que ajuda a manter um clima de abertura à nossa presença. O envio de roupa, para além de ser caro, só é produtivo se for estritamente limitado ao que é necessário (para não criar problemas de armazenamento) e já partir organizado por peças, sexos e tamanhos, de forma a que, à chegada, baste descarregar para começar a distribuição. Mas felizmente, há dois grupos a tratarem disso em Portugal! Portanto incluí-os abaixo, na minha lista de 10 sugestões para quem quiser ajudar. Que começa com a minha conta bancária, seguida do meu projecto :) Mas também inclui outros grupos e organizações que são excelentes alternativas. Espero que encontrem alguma coisa com que se identifiquem! Façam-me só (outro) favor: não deixem para depois. Não pensem “Trato disto a seguir ao almoço / depois do jantar / quando voltar de fumar”. Se eu recebesse 5€ por cada pessoa que me disse (genuinamente!) “Opá! Queria tanto ter contribuído, mas passou-me e agora já estás cá...” - podia voltar para a Grécia de Porsche.

Portanto, FORMAS DE AJUDAR:

1) Transferência bancária para a minha conta pessoal (aberta exclusivamente para donativos, que tanto posso canalizar para o meu projecto como para outros grupos / organizações / necessidades que me pareçam pertinentes e/ou prioritárias. Opção adequada para quem confiar no meu bom senso e não quiser recorrer a transferências internacionais, cartões de crédito ou Paypal)
IBAN: PT50 0023 0000 4543 4724 729 94
Banco: ActivoBank
Nome: Mariana Vareta
País: Portugal

2) Apoiar a Mobile Info Team for Refugees - www.facebook.com/mobileinfoteam
Este é o meu projecto, que começou quando percebemos que, logo a seguir à comida e à roupa, o que os refugiados mais queriam era informação. Visitamos vários campos por semana, tiramos dúvidas sobre o processo de asilo, ajudamos na preparação das entrevistas e fazemos pontes com advogados. Também temos uma página no Facebook, onde publicamos notícias, desfazemos rumores e respondemos a perguntas em árabe e farsi. Temos dois refugiados tradutores a viver connosco em permanência e, desde que começámos a trabalhar, já conseguimos acelerar dezenas de casos (que já estão quentinhos na Alemanha ou na Suécia, em vez de congelados na Grécia). Também damos formação a outros voluntários, principalmente de campos onde não conseguimos chegar.
Somos 8 a 10 pessoas (o número varia) a viver num T3, onde dormimos em colchões no chão e cozinhamos mil e uma versões de leguminosas, porque carne e peixe são um luxo raro. Gastámos 50€ (a loucura!) num frigorífico tão velho que dá para espreitar lá para dentro - o que é uma vantagem inegável quando se está a planear o jantar. Não temos máquina de lavar roupa, nem sofá, nem televisão. Almoçamos e jantamos em mesas e cadeiras de plástico. Trabalhamos 12 horas por dia, 6 dias por semana, e só paramos ao domingo porque já percebemos que, se não o fizermos, começamos a andar à pancada. Quando precisamos mesmo de uma cerveja ao fim do dia, sai obviamente do nosso bolso e não dos donativos. Isto tudo para dizer que rentabilizamos MESMO BEM o dinheiro que nos dão - só o usamos para pagar a renda, as contas de água e luz, a comida e a gasolina (fazemos centenas de quilómetros por semana).
Donativos por cartão de crédito ou Paypal através do site https://mobileinfoteam.blogspot.pt/p/donate.html, ou por transferência bancária internacional para a nossa fundação:
Stichting Mushkila Kabira
IBAN: NL76 INGB 0007 3490 21
BIC: INGBNL2A

3) Apoiar a Get Shit Done Team - www.facebook.com/The-Get-Shit-Done-Team-304001796641127/
Para além de terem um nome genial, fazem um trabalho incrível como oficina móvel. Isolam campos inteiros, constroem portas e janelas, instalam fornos e máquinas de lavar, e pelo meio ainda arranjam tempo para salvar cães bebés de tempestades de neve e encontrar-lhes novos donos.

4) Apoiar a Hot Food Idomeni - www.facebook.com/Hotfoodidomeni
Como o nome indica, começaram em Idomeni, mas neste momento são dos poucos a distribuir comida quente aos refugiados que vivem nas ruas de Belgrado. Aquelas filas intermináveis que andamos a ver no Telejornal? São para o camião deles.

5) Apoiar a Intervolve - www.facebook.com/InterVolve-219418945063168
Equipa super dinâmica, que prioriza um dos campos mais complicados (Softex) mas também intervém em vários outros.

6) Apoiar a Help Refugees - www.facebook.com/HelpRefugeesUK
Uma das ONG mais importantes na crise dos refugiados. Ajudam um sem número de projectos em toda a Europa, incluindo vários dos referidos acima. O armazém principal em Salónica, de onde parte a maior parte da ajuda para os campos em volta, é gerido por eles.

7) Apoiar a Are You Syrious - https://www.facebook.com/areyousyrious/
Escrevem a newsletter diária que é a referência de toda a gente que trabalha com refugiados. Começaram no verão de 2015, como uma iniciativa civil para ajudar na rota dos Balcãs, e hoje são uma ONG com mais de 200 voluntários em vários países.

8) Mandar roupa para a Grécia - Campanha "Tem Frio?" - https://www.facebook.com/events/252564715166484
Pontos de recolha no Porto e em Lisboa, com transporte já garantido. Até ao dia 25 de Janeiro, aceitam roupa interior para todos os tamanhos e idades, especialmente para homens; roupa interior térmica para homem e mulher, tamanhos S e M; calças de fato de treino para homem e mulher, tamanhos S e M; botas de inverno de boa qualidade, tamanhos 40 a 45; gorros, luvas e cachecóis para homem e roupa de neve. O destino é o armazém referido acima.

9) Mandar roupa para a Sérvia - Campanha "Sobre_Viver na Sérvia" - https://www.facebook.com/events/597387673800844/
Pontos de recolha no Porto, em Lisboa, Coimbra, Évora, Castelo Branco e Proença a Nova. Até ao dia 28 de Janeiro, aceitam roupa quente, casacos, calçado, cobertores, sacos cama, meias quentes, luvas, gorros e roupa térmica. Também precisam de encontrar uma empresa que faça o transporte até à Sérvia, por isso todas as ideias e contactos são bem-vindos.

10) Partilhar este post (idealmente com umas palavrinhas vossas para garantir o engagement). E os links para estas equipas, e as notícias desta crise, e tudo o que seja possível para evitar que estas pessoas sejam esquecidas. Outra vez.

Agradecimentos finais: aos meus pais por me receberem outra vez em casa, qual adolescente aos 39 anos, depois de eu deixar o meu apartamento para “partir sem prisões”, e pelo apoio incondicional, mesmo quando as minhas opções os assustam. E a todos os que ligaram, mandaram mensagens ou apareceram no funeral da avó Zica. Foi uma senhora épica e deixa muitas saudades. Obrigada.


 Cestos vazios no final da distribuição de frutas e legumes. Créditos: InterVolve


 Distribuição de emergência de cobertores no campo de Softex. Créditos: InterVolve


 A The Get Shit Done Team em acção. Créditos: InterVolve

Voluntários distribuem ajuda no campo de Softex. Créditos: InterVolve.



29 janeiro 2017

o escândalo do Museu da Segunda Guerra Mundial na Polónia



(fotos)



Novinho em folha, ainda antes da data de abertura oficial, o Museu da Segunda Guerra Mundial em Gdańsk vai fechar para remodelações. O partido que chegou ao poder na fase de construção do museu não concorda com o conceito do museu, e faz questão de escrever a História à sua maneira.

O conceito, que estava a ser desenvolvido pelo director Pawel Machcewicz, era mostrar e debater o que aconteceu na Polónia naquela época negra: a invasão e o terror sob a ocupação alemã, a resistência e o sofrimento da população, mas também o anti-semitismo e o colaboracionismo. O governo não gostou e, para se poder ver livre deste director, resolveu unir dois museus e nomear outro director, mais receptivo da versão dos ultra-conservadores.

Pawel Machcewicz não admite que o ministro da Cultura ou o partido no governo lhe ditem o que é "polaco" e "patriótico", e despediu-se com um teimoso canto do cisne: este fim-de-semana, abriu as portas do museu para as pessoas poderem ver o que vai desaparecer muito em breve. Os bilhetes esgotaram rapidamente.



quase influencer

Ai! Acabei de perceber que entre "amigos" e "seguidores" são quase 2000 pessoas que me lêem no facebook!

Com licencinha, vou passar uma escova no cabelo. Até já.


algoritmo

 

O facebook está a abusar! Que me veja a comprar um vestido de um certo tipo e comece a pôr publicidade para vestidos semelhantes de outras empresas, ainda vá. Mas que me veja a ir ver quem me pediu amizade, para descobrir que é um daqueles distribuidor de santinhos, e agora me esteja a sugerir entrar para o grupo "ungidos de deus ❤ ❤ ❤" cujos membros estão "numa relação com Jesus"...
- ó Zuckerberg!!! Mais juízo nessa cabecinha, homem!

desumanidade e cinismo

Foi com certeza mera coincidência, mas acertou em cheio: a 27 de Janeiro, Dia Internacional da Memória das Vítimas do Holocausto, Trump assinou um decreto presidencial para proibir por tempo indeterminado a entrada no país de refugiados sírios, congelar por quatro meses a entrada de refugiados provenientes de outros países e fechar as fronteiras por três meses a pessoas de sete países muçulmanos - mesmo as que têm autorização de residência nos EUA. Também anunciou que vai dar prioridade à entrada de refugiados cristãos. O decreto entrou imediatamente em vigor, pelo que quem já estava num avião a caminho dos EUA foi barrado no aeroporto de chegada.

Contra esta sinistra lógica do "nós contra os outros", dou a palavra a um israelita, Chemi Shalev:




(Para quem não sabe: o St. Louis era o navio que saiu de Hamburgo em Maio de 1939 com 937 passageiros a bordo, quase exclusivamente judeus que tentavam escapar à Alemanha nazi. Iam para Cuba, mas não puderam desembarcar porque esse país tinha acabado de mudar as regras de vistos. Também não os deixaram desembarcar nos EUA. Regressaram à Europa, e foram acolhidos in extremis pelo Reino Unido, a Bélgica, os Países Baixos e a França. Quando a guerra começou e a Alemanha invadiu os países vizinhos, essas pessoas foram de novo capturadas nas redes do seu cruel inimigo. 254 morreram vítimas do Holocausto.)

A explicação dada para estas medidas é proteger os americanos contra ataques terroristas. Não querem "importar" terroristas islâmicos. Sendo assim, pergunta-se porque é que resolveram bloquear a entrada de pessoas da Síria, do Irão, da Líbia, da Somália, do Iémen, do Iraque e do Sudão, que são países sem qualquer ligação aos terroristas envolvidos em ataques nos EUA desde o 11 de Setembro, e, em contrapartida, não impuseram qualquer limitação aos países ligados a esses terroristas (Arábia Saudita, Egipto, Emirados Árabes Unidos, Líbano, Rússia e Paquistão). Curiosamente, Trump tem interesses empresariais em três destes países: Arábia Saudita, Egipto, Emirados.

[ADENDAS, a 31.01.2017:
1. Os sete países a que este decreto diz respeito foram escolhidos pelo governo de Obama. As excepções ao seu Visa Waiver Program, que criaram entraves a pessoas de determinados países, ou com dupla nacionalidade mas que tivessem visitado esses países depois de 2011, foi muito criticado e sujeito a algumas alterações. Mas é um facto que os sete países em causa foram escolhidos quando Obama estava no poder - o que me obriga a retirar a acusação de não terem sido escolhidos outros devido a interesses empresariais de Trump.

2. A quem diz que Obama fez o mesmo que Trump, e só não foi criticado por ser o Obama, faço notar que:
- foi muito criticado (e com razão);
- apesar dos países excluídos do Visa Waiver Program, mais de 40% dos 86.000 refugiados que entraram nos EUA no ano fiscal de 2016 eram provenientes de alguns desses sete países (Síria, Somália, Irão e Iraque);
- há uma diferença entre mudar as regras para concessão de vistos e alterar abruptamente as regras do jogo, apanhando inteiramente desprevenidas as pessoas já em trânsito para os EUA;
- há uma diferença entre a medida em si, e o contexto em que surge: as medidas - criticáveis - de Obama não tiveram nos sectores ultraconservadores, islamofóbicos e racistas o impacto electrizante das de Trump.

Ler ainda: Sorry, Mr. President: The Obama Administration Did Nothing Similar to Your Immigration Ban ]  

Está a acontecer à nossa frente. E eu começo a perceber melhor uma frase que li de alguém que viveu nos anos trinta na Alemanha. Dizia que de repente as pessoas começaram a voltar-se para o lirismo, a fazer poemas sobre a natureza, coisas assim. Esta semana tive algumas vezes vontade de deixar de ver o noticiário e de ler os jornais. A rapidez e a dimensão da desumanidade e do cinismo dão vertigens.


the handmaid


(The Handmaid / A Criada / Die Taschendiebin)

Não sei para que é que ando nas redes sociais. Tanta conversa, tanta conversa, e ninguém me avisou para ir ver este filme! É só La La La, e Silêncio, e mais sei lá lá lá o quê, mas se aparece algo novo ficam muito caladinhos.

Já estou quase a concordar com aquele pessoal que não frequenta mas critica muito: cambada de inúteis, as redes sociais...

Então, vá, digo eu: vão ver, mas tenham o cuidado de apertar o cinto de segurança, que este filme é de loopings.
(De loopings, sim, mas como diria o diácono Remédios com uma lágrima sincera ao cantinho do olho: no final o amor tudo vence...) (Ponho-me com estas gracinhas com vários sentidos e desdobramentos, ponho, e depois admiro-me de a vida me correr mal lá nas redes sociais...)



diga bom dia com kitsch


Uffff! Parece que o Trump tirou o fim-de-semana para dar folga à caneta dos assinanços. Dos assassinanços de tantas das conquistas que julgáramos parte indiscutível do nosso futuro...

Aproveito o momento de sossego para partilhar um bocadinho de kitsch, com votos de bom domingo para todos.

(Recebi esta foto numa newsletter de um catálogo de jardinagem, "Garten XXL" (XXL, o meu jardim, hihihihihihi hohohohoho hahahahahaha) mas não sei quem é o autor deste kitschzinho.)

(Hoje o dia está mais ou menos assim, mas sem branco nas árvores. Tão bonito, que voltei a sair sem luvas. Um dia aprendo, e até lá enfio as mãos nos bolsos até quase lhes abrir um buraco ali para os lados dos joelhos.)



28 janeiro 2017

Dicionário do Cidadão Preocupado



Coincidências: depois de traduzir para este blogue um texto que falava do papel fulcral das pessoas especialistas em "palavreado", descubro que acabou de sair um dicionário que analisa as palavras usadas pelos "cidadãos preocupados". "Cidadãos preocupados" é um eufemismo que descreve os manifestantes do movimento Pegida e os apoiantes da AfD, e foi inventado pelos próprios.

No programa que informava sobre a nova publicação, justificava-se a sua importância: as palavras transmitem e alimentam determinadas maneiras de ler o mundo, e por isso mesmo é fundamental analisar e desmontar o léxico particular de certas dinâmicas da nossa sociedade.

Do índice, que passo a seguir, destaco "Ficki-Ficki-Fachkräfte", um dos exemplos que foi dado. Significa algo como "ajudante fucky-fucky", e dá dos refugiados a imagem de trabalhadores indiferenciados e tarados sexuais.
  
Suspeito que é mais um caso de "agarrem-me, que lá vou eu". Estou muito curiosa para ver o que dizem de "mulher alemã", "reconquista", "estranho no meu próprio país", "identidade", "exército invasor", "mordaça", e tantos outros.

!!1!1!! • 89 • Abendland • Afrikaner • Ahu! • Altmedien • Altparteien • Angst • Antifa • Antifa e.V. • Asylant • Asylforderer • ?Asylindustrie • Asylkritik • Atheismus • Aufwachen • Aussterben • Bahnhofsklatscher • BRD GmbH • Bürger • Bürgerwehr • Christentum • ­christlich-jüdisch • Cui bono? • D-Mark • Danke, Merkel! • Demokratie • deutsche Frau • deutsche Sprache • Deutschland GmbH • Diktatur • direkte Demokratie • Ehre • Entvölkerung • Erika • etablierte Parteien • Euro • Europa • Extremismus • Fachkräfte • Fakten • Familie • Faschismus • Feminismus • Ficki-Ficki-Fachkräfte • Flüchtling I • Flüchtling II • Flüchtlingskrise • Flüchtlingslawine • Flüchtlingswelle • Freiheit • fremd • fremd im eigenen Land • Frieden • Frühsexualisierung • Gastfreundschaft • Gemeinschaft • Gender • Genderwahn • Gewalt • GEZ • Grenze • großer Austausch • Grundgesetz • Gummimuschi • Gutmensch • Heimat • Identität • Integration • Invasionsarmee • Islam • Islamisierung • Islamkritik(-er) • Klartext • kleiner Mann • Koran • Krieg • Kultur • Kulturbereicherer • Kulturkreis • Lindwurm • links • linksversifft • Lügenpresse • Maasmännchen • Mainstream • Manipulation • Männerhorden • Männlichkeit • Mauer • Maulkorb • Mausrutscher • Meinungsfreiheit • Merkeldiktatur • ­Merkeljugend • Minderheitenterror • Mitte • ­Multikulti • Muslim • Nation • Nazi • Nazikeule • Neger • passdeutsch • Patriotismus • ­Plünderung • Plüschpimmel • Political Correctness • Polizei • ­prorussisch • Rapefugees • Rasse • Rassismus • rechts • Rechtsstaat • Reconquista • Schande • Scharia • Schießbefehl • Schreikinder • Schuldkult • schwul • Sexismus • Smartphone • Sorge • Souveränität • Spaziergang • Staat • Statistik • Straßenkampf • ­Südländer/Südeuropäer • Systemling • Tabubruch • Terror • Thymos • Toleranzfaschismus • Überfremdung • Umerziehung • Umvolkung • Untergang des Abendlandes • USA • Verfassung • Verschwulung • ­Verteidigung • Volk • völkisch • Volksgemeinschaft • Volkstod • Volksverdünner • Volksverräter • Wahrheit • Weihnachten • Wende • Werte • Wirtschaftsflüchtling • Zigeunerschnitzel • Zionisten • Zitate

27 janeiro 2017

o trabalho da memória


AFTER from Lukasz Konopa on Vimeo.

Alguns dos turistas deste filme lembram-me uma cena muito estranha a que assisti em Buchenwald: uma visitante aninhou-se entre dois fornos crematórios, e sorriu para o fotógrafo. Ela a sorrir, com a cabeça à altura das portas abertas para os fornos onde queimaram milhares de corpos de perseguidos, torturados e assassinados. Há gente que não percebe.

no dia em que se comemora a libertação de Auschwitz

Recapitulemos: uma das estratégias dos nazis para conquistar votos passou pela identificação de um grupo como inimigo da pátria. Uma vez instalados no poder, foram tirando cada vez mais direitos a esse grupo: proibição de exercer determinados empregos, nomeadamente na função pública ou nas áreas da saúde e da cultura; expropriações das empresas e dos bens pessoais; proibição de casar com os "arianos" - entre muitos outros. Um dos lemas mais importantes era "proteger os nossos interesses, não lhes dar dinheiro a ganhar". Não contente com uma retórica que fragilizava os judeus e os expunha a explosões de violência, o regime usava as suas forças policiais para dar o exemplo de ataques, destruição e perseguição. Depois de uma primeira fase, em que expulsava os judeus do país, o regime decidiu-se pela solução final: o extermínio.

No dia em que se comemora a libertação de Auschwitz, duas inquietações:

- O Holocausto não começou nas câmaras de gás. Começou muito antes, quando se identificou um grupo como o inimigo, e se começaram a tirar às pessoas cada vez mais direitos de cidadania. A partir de que momento é que se torna evidente que estamos a assistir à repetição de algo que pensáramos para sempre irrepetível?

- Vemos sinais muito preocupantes de estar a acontecer algo semelhante nos EUA contra os mexicanos e contra os muçulmanos, mas hesitamos em usar determinadas palavras para acusar o que vemos. Será que, no que diz respeito a violações da dignidade humana, se pode afinal fazer tudo, excepto câmaras de gás?

Um desabafo: começo a compreender melhor como é que 1933 foi possível, e como é que as pessoas de bem se sentiam ao ver tudo aquilo acontecer. Da próxima vez que alguém quiser dizer "os alemães, esses nazis", olhe-se bem ao espelho e pergunte-se o que é que fez para impedir no nosso mundo de hoje a repetição dos passos dados pela Alemanha nos anos 30. E não é só nos EUA. O muro do México já existe há muito tempo numa fronteira europeia - em Melilla.

Um desafio: perante o que está a acontecer nos EUA, só há uma resposta - aprofundarmos os valores que dizemos nossos, e lutar realmente por eles. Desde as capitais europeias até Melilla, Lampedusa, Kos e a fronteira entre a Sérvia e a Hungria. O mínimo que podemos fazer é uma manifestação de muitos milhões, em toda a Europa, contra os egoísmos nacionais e a favor da defesa dos valores sobre os quais queremos construir um mundo viável - esse mundo que queremos deixar aos nossos filhos.


despachar os nazis com palavreado

(O Speedy Gonzalez dedica esta tradução aos meus amigos das áreas da Sociologia, da História, da Filosofia e de todas essas - como agora é corrente dizer-se - "tretas que só servem para queimar o dinheiro do contribuinte e vão-trabalhar-ó!-seus-inúteis!". Os links no texto traduzido são todos para textos em alemão.)
(Texto do Spiegel Online)



Usar as ciências humanas contra a extrema-direita


Despachar os nazis com palavreado


O problema da extrema-direita é que, de facto, eles não são burros. São eloquentes, e nunca dizem com clareza o que pensam. Por isso mesmo é tão importante entender correctamente o que dizem. 






Há cerca de onze anos fiz na Universidade um exame de Lógica onde, entre outras questões, se colocava o seguinte problema: "Nenhum gato tem dois rabos. Um gato tem um rabo mais do que nenhum gato. Portanto, um gato tem três rabos." A minha tarefa era explicar porque é que a conclusão não funcionava. Nesse mesmo dia era o funeral da minha professora de Filosofia, por causa de quem eu tinha começado aquele curso. E ali estava eu com um gato de três rabos, sem saber se tudo aquilo não passava de um enorme disparate.

Hoje em dia, ao ler as notícias, tenho a sensação de há muitas histórias com gatos de três rabos e poucas pessoas que explicam porque é que não é assim. O mais tardar desde que Trump ganhou as eleições, mas de facto desde há mais tempo, desde que a extrema-direita começou a ganhar velocidade, chegou a hora das chamadas "áreas de formação em palavreado". São elas as ciências humanas, sobre as quais se diz que não servem para nada a não ser para palavrear. Têm fama de estarem de costas voltadas para o mundo, e de serem elitistas. Actualmente, estas expressões costumam ser usadas como acusação, por parte da direita. Diz-se, por exemplo, que a esquerda não conhece os verdadeiros problemas das pessoas, as necessidades dos que estão lá em baixo, tudo isso.

Isto não acontece por acaso. Deixando de lado a questão de que "estar de costas voltadas para o mundo" não tem de ser necessariamente um insulto, porque os mundos em que certas pessoas vivem não são lugares para nos sentirmos em casa, estas acusações assentam numa reacção de defesa semelhante. É o medo de não conseguir acompanhar um mundo cheio de diversidade e em mudança, e o medo de que explicações simples já não bastem. As explicações simples raramente bastam. Tornar-se adulto implica dar-se conta de que o mundo é complicado.

Um curso de palavreado permite reconhecer o palavreado nos outros

O problema com a extrema-direita não costuma ser resultado de erros de lógica, ou de burrice ou de não estudarem ciências humanas. O que não falta nas chefias da AfD são pessoas com curso e doutoramento. Björn Höcke era professor de História antes de se tornar o flanco da direita de um partido da extrema-direita. Ele sabe do que fala, e sabe exactamente como posicionar o seu discurso ao milímetro dentro dos limites da liberdade de expressão, de modo a provocar um escândalo sem se chegar a um processo.

O que também se aprende nos chamados "cursos de palavreado" é ser capaz de dar resposta até a nazis inteligentes. Quem estuda um curso de palavreado aprende a reconhecer o palavreado dos outros. Porque a nova extrema-direita não diz "nós somos profundamente misantrópicos e odiamos as minorias, queremos recolher-nos a um mundo do tamanho do útero do qual viemos, ó mãeeeeee." Pelo menos não dizem isso com estas palavras. Dizem-no de forma muito mais eloquente e mascarada, de modo a que as pessoas não se envergonhem de os seguir.

O meu desejo é que, em todos os lugares onde a extrema-direita ganha força, pessoas que tenham feito um dos chamados cursos de palavreado sejam capazes de se lembrar do que andaram a aprender na Universidade. Algumas das frases da extrema-direita perdem a sua força em confronto com o simples bom senso, mas este pode ser treinado e não é imune a armadilhas. Nós aprendemos a desmontar argumentos e metáforas, sabemos da importância de ter conceitos em vez de eco e fumo, conhecemos exemplos históricos sobre aonde certos desenvolvimentos podem levar, conhecemos outros modelos de sociedade também possíveis, e conhecemos muito bem algumas utopias. Devemos usar tudo isto, e já.

De momento fala-se muito em verdade. "Fake news", "factos alternativos" e o seu contrário: a verdade. Como se fosse claro. Nada disso é claro, porque há mais teorias sobre a verdade que dedos numa mão. Talvez uma frase seja verdadeira se descrever o mundo como ele é, mas talvez isso não seja possível. Talvez uma frase seja verdadeira se um grande número de pessoas concorda com ela, mas temos exemplos horríveis que refutam essa teoria. Talvez uma frase seja verdadeira se for recebida por meio de uma revelação divina, mas isso raramente acontece. Talvez uma frase seja verdadeira se não for contradita por muitas outras - mas é impossível eliminar da vida todas as contradições. O curioso é que há muitas teorias sobre a verdade, e em algumas delas é possível falar da "minha verdade" e da "tua verdade", mas isso não torna melhor o bullshit relativo aos "factos alternativos". 

Trump quer arrasar as ciências humanas - porque elas o ameaçam

Há limites. E temos de os pôr em evidência antes que se torne aceitável ignorá-los. É certo que não foi possível parar a Alemanha dos nazis com argumentos. Mas talvez tenhamos aprendido alguma coisa que possamos agora usar, antes que se chegue tão longe de novo.

De momento discute-se novamente se se pode bater nos nazis, ou até se se deve. Richard Spencer é o líder do chamado "Movimento Alt-Right", um grupo de neonazis que não querem que lhes chamem neonazis. Durante os protestos contra o Trump, Spencer foi atacado quando dava uma entrevista. O filme do ataque multiplicou-se na internet com diversas músicas de fundo, e tornou-se famoso. O que não melhora as coisas. Satisfaz alguns baixos instintos das pessoas, e pode contribuir para a ainda maior radicalização da extrema-direita. Parabéns! Antes de começarmos a atacar os nazis, devíamos usar todas as outras possibilidades que temos para os tornar inofensivos.

O novo presidente dos EUA, Trump, não se pronunciou em público sobre o nazi esmurrado. Mas pouco depois da sua tomada de posse soube-se que Trump tenciona eliminar os apoios estatais às Humanidades e à Arte. Uma jogada de xadrez que conhecemos de regimes autoritários. Trump não as ataca por as achar aborrecidas. Mas porque se sente ameaçado por elas, muito mais que por um murro na cara.


25 janeiro 2017

quem é que andava por aí a afirmar que machismo e feminismo é tudo a mesma coisa, só de sinal contrário?...

A quem andava por aí a dizer que feminismo e machismo é tudo a mesma coisa, dois desenhos para perceber a necessidade do feminismo, e o tanto que ainda está por fazer.








Mas eu não iria tão longe como as mulheres do segundo desenho, que eu não sou dessas...

Para mim bastava (como propus durante o debate do segundo referendo para a IVG em Portugal) proibir o aborto e obrigar o pai da criança, no caso de uma mulher querer abortar, a ficar responsável a 100% pelo seu filho logo após o nascimento deste. Confesso que não pensei muito no bem-estar de uma criança que vem à vida nestas condições, mas aqueles cavalheiros também não devem ter pensado nas consequências da sua decisão, pelo que estamos quites. Em todo o caso: se uma gravidez não desejada tivesse consequências muito sérias para o resto da vida do homem que gerou um filho sem o querer, e não apenas para a mulher, suspeito que o Trump não seria tão lesto a lutar pela defesa desse alto valor que é vida. E nem sequer estou a discutir o valor da vida, estou apenas a alertar para a hipocrisia e a assimetria.


os sons de Berlim

Um projecto da Konzerthausorchester em homenagem a Berlim: a orquestra reinventa os sons da cidade.

Têm aí a curry wurst, o Trabi e o Christopher Street Day (que é capaz de ser o mais berlinense de todos).









E todos os outros aqui: S-Bahn e U-Bahn * Zoo * Parque infantil * Artesãos * Campo de TempelhofCabine de fotografia


sonoplastia


 
Já passei tantos sábados de inverno assim (os patos na água gelada, o trenó na neve, os miúdos animados como se o frio lhes cantasse ao sangue) mas faltava-me esta música.

Agora vejo que tenho a sonoplastia da minha vida muito atrasada...


24 janeiro 2017

retalhos da vida de um tradutor (2)

A propósito do meu post anterior, falaram-me de uma entrevista com Bérengère Viennot - uma tradutora que também se queixa da duríssima tarefa de traduzir Trump.

Vale muito a pena ler o artigo "Pour les traducteurs, Trump est un casse-tête inédit et désolant", que ela escreveu (texto em francês) (e reparem no primeiro título, no próprio link: traduire-trump-mourir-un-peu), e a entrevista "Lost in Trumpslation"  (texto em inglês).
A minha vontade era copiar tudo para este post, mas vou-me limitar a passar meia dúzia de frases do artigo em francês sobre o trabalho de traduzir, por um lado, e os dotes de retórica do Trump, por outro, e a recomendar muito a leitura da entrevista em inglês. Esta última repete parte da análise do primeiro texto, refere a dificuldade do trabalho do tradutor e das suas exigências éticas e linguísticas, e alarga a análise para a questão da retórica dos políticos franceses e o perigo da subtileza nos discursos nacionalistas.


De déclaration-choc en tweet assassin, le discours et le ton de Trump s’est répandu et j’ai été amenée à le lire, l’écouter et le traduire de plus en plus. Et puis il a été élu. Le rythme des traductions de ses discours a accéléré. Et je me suis mise à me demander: mais comment je vais traduire ça?
Ce n’est pas une question de compréhension. Trump est extrêmement facile à comprendre. Contrairement à son prédécesseur, il n’emploie pas le second degré, ne fait jamais la moindre référence culturelle et il n’a pas encore prononcé de très long discours. En outre, il utilise un vocabulaire très simple, comparable, à la louche, à celui qu’est censé posséder un élève américain niveau 5e.

(...) Son manque de vocabulaire apparaît évident très vite; dès lors qu’il s’agit de parler d’autre chose que de sa victoire, il s’accroche désespérément aux mots contenus dans la question qui lui est posée, sans parvenir à l’étoffer avec sa propre pensée. Ce qui donne ce genre de choses:Question du journaliste: J’aimerais beaucoup que vous me disiez comment vous comptez gérer ce groupe de gens, qui ne sont peut-être pas réellement majoritaires mais qui ont certaines attentes vis-à-vis de vous, et qui sont mécontents à cause du pays et de son approche raciale. Ma première question est la suivante: avez-vous l’impression d’avoir tenu un discours qui les a particulièrement galvanisés, et comment allez-vous gérer cela?
Trump: Je ne crois pas, Dean. Tout d’abord, je ne veux pas galvaniser le groupe. Je ne cherche pas à les galvaniser. Je ne veux pas galvaniser le groupe, et je veux désavouer le groupe. Ils, encore une fois, je ne sais pas si c’est les journalistes ou quoi. Je ne sais pas où ils étaient il y a quatre ans, et où ils étaient pour Romney et McCain et tous les autres qui se sont présentés, donc je ne sais pas, je n’avais rien comme élément de comparaison. Mais ce n’est pas un groupe que je veux galvaniser, et s’ils sont galvanisés je veux me pencher sur la question et savoir pourquoi.

(...) La pauvreté du vocabulaire est frappante, quel que soit le contexte. Dans cet extrait mais aussi dans la plupart des interventions de Trump, il passe son temps à répéter les mêmes mots ou expressions en boucle. Que cette pénurie de vocabulaire reflète une pauvreté de pensée que les analystes politiques pourront commenter est une chose. En revanche, en tant que traductrice, Trump me met dans une situation embarrassante. Je ne traduis pas des mots, je traduis des pensées. Des situations, des personnalités, des moments. Et j’emballe tout cela dans un vocabulaire, un champ sémantique qui en français devra créer chez le lecteur la même impression, la même réflexion que celles qui ont été suscitées chez le lecteur d’origine. 


(...) Lors d’un entretien conduit le 10 novembre par un journaliste de Fox News, Trump a déclaré: «You know, I’m, like, a smart person. I don’t have to be told the same thing in the same words every single day for the next eight years.» Ce qui signifie «Vous savez, je suis, heu, un gars malin. J’ai pas besoin qu’on me redise la même chose avec les mêmes mots tous les jours pendant huit ans, hein»

(...) Quel que soit le lieu ou le moment, s’il n’a pas un texte écrit à l’avance, Trump parle comme au café du commerce. Par conséquent, adieu les grandes phrases, les jolies tournures, le vocabulaire fleuri, l’intelligence de la langue. À partir de maintenant et pour les quatre (huit?) prochaines années, je vais devoir faire dans l’efficace, le concret, la politique gouailleuse, si je veux rester fidèle à l’original. Et je dois rester fidèle à l’original, pas seulement à son vocabulaire mais à son ton et à son intention. C’est une des prémisses de la traduction.

(...) En fonction des choix de traduction de ceux qui seront chargés de transmettre la parole de Trump, il sera possible de le faire passer pour un sombre crétin, un crétin tout court, un orateur moyen ou un beau parleur. Vous ne le croyez pas? Et si j’avais plutôt écrit cela: «Vous savez, mes capacités mentales sont assez conséquentes. Il sera inutile de me répéter continuellement les mêmes instructions au cours des huit prochaines années.» Avouez que ça ne fait pas la même impression. Pourtant, le message est le même.

(...) On aurait pu croire que pendant sa campagne, Trump utilisait un vocabulaire basique pour toucher un électorat le plus vaste possible, et notamment celui qui se sent ordinairement exclu de la politique et méprisé par les élites; l’Américain simple qui veut qu’on lui parle franchement. C’est une stratégie valable à mon sens, respectable même car en démocratie les représentants sont censés toucher tout le monde, du plus instruit au moins éduqué.

Mais, dans le cas de Trump, ce n’était pas une stratégie; il est évident que son vocabulaire limité traduit une pensée étriquée. Et le fait que le leader de la plus grande puissance occidentale tienne un discours politique simpliste, pauvre et sans aucune sophistication est plutôt alarmant. En termes de politique, car il sera aisément manipulable, mais aussi parce qu’il est susceptible de donner le ton à une parole politique plus générale. En gros, le risque est celui d’un nivellement par le bas du discours et de la pensée des dirigeants qui s’aligneraient sur le niveau de Trump. Car comme il aime à le répéter, après tout, il a gagné.


23 janeiro 2017

retalhos da vida de um tradutor

Para fazer um bom trabalho da tradução é preciso entender o texto e o seu autor. O trabalho do tradutor é, antes de mais, de enorme atenção. E o de um tradutor simultâneo é ainda mais difícil, porque para ser bem feito obriga a uma grande rapidez de avaliação das pessoas e das situações.

Norbert Heikamp faz há dezenas de anos interpretação simultânea de discursos de políticos em directo na TV. Foi ele quem traduziu na televisão alemã o discurso da tomada de posse do Trump (*). Numa entrevista ao Spiegel fala da dificuldade do seu trabalho, nomeadamente com Trump. Traduzo (rapidinho) metade da entrevista:

Spiegel Online: O que é tão difícil no trabalho com os políticos?

Heikamp: Repare no Barack Obama a discursar: a cabeça move-se da direita para a esquerda. Ele lê do teleponto, e por isso fala mais depressa do que se estivesse a discursar sem texto escrito. Muitos políticos fazem isso, o que torna o nosso trabalho muito difícil. Só aguentamos cerca de 15 minutos, depois tem de ser outra pessoa a fazer o trabalho. E o que é especialmente difícil é quando a pessoa diz o contrário do que se esperava.

Spiegel Online: Por exemplo?

Heikamp: Quando Boris Johnson, a seguir ao voto no Brexit, disse que não queria ser o novo primeiro-ministro, traduzi o que ouvi mas estava inquieto: será que ouvi bem? Ou quando Silvio Berlusconi disse, a seguir ao terramoto, que os italianos não se importavam de viver em tendas, porque já conhecem isso das férias. Uma pessoa pergunta-se: será que ele disse mesmo algo tão cínico? No caso de Trump, tenho permanentemente esses problemas.

Spiegel: Que problemas, no caso de Trump?

Heikamp: Trump pode arruinar a fama de um bom tradutor, porque contradiz-se frequentemente em pouquíssimo tempo, o que pode levar o ouvinte a pensar: "mas que disparates está este tradutor a dizer?" Trump faz afirmações diametralmente opostas aos seus ministros, e salta de um tema para outro. Começa por ralhar contra os assassinos que, segundo ele, há na indústria farmacêutica, para logo a seguir falar do comércio livre. Faz associações espontâneas, é absolutamente imprevisível. O tradutor tem de estar extremamente atento. 

Spiegel Online: Trump é a excepção?

Heikamp: De certo modo, sim. A maior parte dos políticos cuidam de ter um discurso racional. Apresenta-se um problema e procura-se uma solução. Trump, ao contrário, espalha inúmeras granadas de fumo. Semeia deliberadamente a incompreensão. Isso ultrapassa os nossos hábitos de raciocínio. É como no dadaísmo. Não se pode prever o que vem a seguir. O que torna a tradução extremamente difícil.

Spiegel Online: A linguagem de Trump é frequentemente rude. Para si, é difícil repetir essa linguagem?

Heikamp: Parece-me muito importante traduzir, por exemplo, as frases sexistas de Trump como "ir-lhes à rata" - mesmo se não digo essas frases com gosto. Mas é assim que fica claro que tipo de homem é, e como age.



(*) Agora é que me lembro que devia ter visto a tomada de posse na televisão alemã! Ia ficar a saber como é que na Alemanha se deve dizer "great" e "big". Quer dizer: como é que um presidente da república alemão diria "great" e "big". E podia fazer o mesmo para francês, espanhol, português. Ia aprender imenso. Ou talvez não, talvez não haja correspondência desses conceitos para o presidente-da-repúbliquês dos outros países. Enfim, espero que não haja. Era uma tragédia se agora todos os presidentes desatassem a querer fazer o seu país great again. A Península Ibérica, por exemplo: lá voltávamos ao tratado de Tordesilhas. Mas não sei se os espanhóis desta vez se deixavam enganar. Lá está: a História repete-se como farsa - desta vez davam-nos os Açores, e já íamos com sorte. Mas ficavam com a parte do mundo que inclui o Trump, hehehe, sempre queria ver como é que diziam ao Trump que great, o que se chama great, é sob a égide do rei e senhor Dom Filipe de Espanha. 

três mil anos

Do "morning briefing" do Spiegel, hoje:

Hoje começa a primeira semana de trabalho regular de Donald Trump. Poder-se-ia começar a contar a partir deste dia uma nova era da Política. A anterior durou pelo menos três mil anos, e estava profundamente ligada a dois conceitos: instituições e diplomacia. Até agora, eram estas as fundações da Política: as instituições no interior (contra a anarquia) e a diplomacia no exterior (para evitar guerras).
Os Estados e sistemas estatais modernos desenvolveram-se num longo processo de afinação destes conceitos, com alguns retrocessos mas, no seu conjunto, com grandes avanços. Trump despreza as instituições (Washington!) e não quer saber dos princípios básicos da diplomacia (Twitter). 

Três mil anos parecem ter sido extintos. Trump faz uma política sem base. A ruptura na História não podia ser mais dura.

Dirk Kurbjuweit

22 janeiro 2017

detalhes




Ainda na minha onda de masoquismo, reparei num pormenor curioso ligado ao presente que a nova primeira dama oferece à que está a sair: a Nancy Reagan é que sabia fazer as coisas - recebe o presente e esconde-o elegantemente atrás das costas para ficar bem na fotografia. A Michelle Obama recebe o presente e não sabe o que há-de fazer. O marido agarra na caixa e sai da cena, para o entregar a alguém que esteja por perto, enquanto ela fica à frente, a fazer as honras da casa.

Depois volta, o Trump entra na Casa Branca todo pimpão, e tanto o Barack como a Michelle têm o mesmo impulso: acolher e proteger a Melania.  O Obama deixa-se ficar para trás, até o Trump perceber que está a marchar sozinho.

[ ADENDA: Por uma questão de justiça, e depois de ver a cena por outra perspectiva, tenho de retirar a acusação sobre o Trump entrar na Casa Branca sozinho. É o Obama quem põe o Trump a andar para dentro de casa, depois manda seguir as senhoras, e deixa-se ficar para trás. Podem ver aqui, a partir de 5:30.]




rise, rise against the dying of the light

AVISO: este post contém masoquismo em doses cavalares.

Descubra as diferenças:


1.





2.






3.
Ia pôr aqui o discurso do Obama na tomada de posse em 2009 e o do Trump em 2017, mas não ponho. É que o aviso ali em cima é para masoquismo em doses apenas cavalares, e não elefânticas, baleeiras - ou planetárias.
E já que menciono elefantes e baleias, espécies cuja sobrevivência depende de políticos com consciência da sua responsabilidade na preservação do nosso planeta: na sexta-feira passada, mal terminou o juramento do Trump, foram eliminadas do site da Casa Branca todas as referências ao aquecimento global e aos esforços desenvolvidos pelo governo de Obama para responder a esse desafio.


Do not go gentle into that frightening night
Rise, rise against the dying of the light



21 janeiro 2017

21.01.2017 marcha das mulheres em Berlim



Diversidade, generosidade, harmonia.

Gostei de passar esta hora no meio de pessoas assim, falar com elas, ver que não estou sozinha, enternecer-me com a criatividade e o sentido de humor.
  
Ao sair, deparei-me com um pequeno memorial. Só então me lembrei do risco de atentados terroristas. Se havia ali polícias, não vi. Berlin, Du bist so wunderbar!








20 janeiro 2017

ara mateix, 75 anos depois da Conferência de Wannsee

 

"I. No dia 20 de Janeiro de 1942 em Berlim, Am Großen Wannsee, 56/58, teve lugar uma reunião sobre a solução final da questão judia, na qual participaram: "

Começa assim a acta da reunião da Conferência de Wannsee. Esta reunião tinha sido prevista para 9 de Dezembro de 1941, mas teve de ser adiada devido ao ataque japonês a Pearl Harbor e a entrada dos EUA na guerra. Já antes desse ataque os judeus tinham sido considerados o maior perigo para o mundo dos delírios nazis, em particular por estarem - alegadamente - do lado dos bolcheviques. Mas aquelas cabeças sinuosas conseguiam ir bem mais longe em termos de incoerência e construção de ficções. Poucos dias depois da entrada dos EUA na guerra, Goebbels escreveu no seu diário que Hitler tinha avisado os judeus que seriam destruídos se provocassem de novo uma guerra mundial, e que isso não era uma ameaça vã. "A guerra mundial está aí, a exterminação dos judeus tem de ser a consequência necessária. Esta questão tem de ser vista sem qualquer sentimentalismo."

Em Janeiro, Heydrich envia um convite a responsáveis de vários serviços administrativos para um encontro numa bela mansão em frente ao lago Wannsee, "uma reunião seguida de pequeno-almoço".







Era uma reunião estratégica, que tinha como objectivos deixar claro que o processo de extinção do povo judeu, já em curso, estava na mão da SS, e combinar procedimentos de modo a aumentar a eficácia da máquina. Para conquistar a boa vontade dos serviços envolvidos na "solução final", organizaram uma reunião num lugar paradisíaco, seguida de uma refeição, em vez de convocarem para uma reunião na central da SS em Berlim. O poder da máquina nazi tinha as suas limitações, e em alguns casos não era possível nem suficiente dar ordens - o regime via-se obrigado a recorrer a outros métodos para convencer alguns responsáveis do aparelho estatal da necessidade do empreendimento, e fazê-los sentir-se parte natural da máquina e responsáveis pelo seu absoluto sucesso.

Uma reunião seguida de pequeno-almoço em frente ao lago Wannsee - com papas e bolos se enganaram os tolos. O que teria sido a "solução final" se os convidados responsáveis dos serviços tivessem alegado uma gripe nesse 20 de Janeiro? Se tivessem usado o seu poder para ir metendo grãos de areia na engrenagem? Quando do horror nazi teria sido poupado ao mundo se, naquele tempo, cada pessoa decente tivesse sabido resistir em vez de desviar o olhar?

Por coincidência, hoje toma posse como presidente dos EUA um homem que já demonstrou não respeitar muitos dos valores que considerávamos básicos e incontestáveis no nosso mundo, e sentimo-nos impotentes, chocados e assustados. Tememos um retrocesso da História, sentimo-nos ameaçados pela sombra de novas e ainda mais terríveis guerras. Que estará ele a preparar contra os mais frágeis da nossa sociedade? Que será ele capaz de fazer ao nosso mundo?

Lembremos este detalhe importante da História: mesmo o poder de Hitler e da máquina do terror nazi eram limitados. O futuro não está todo na mão dos poderosos. Basta de choraminguices e medos. Ainda estamos a tempo de nos apercebermos da nossa responsabilidade e da nossa força. É hora de nos treinarmos no uso dos nossos poderes, estar atentos, resistir aos engodos, e decidir segundo a nossa consciência. "Que tudo está por fazer, e tudo é possível."

Por estes dias, impossível não lembrar "Ara Mateix", de Miquel Martí i Pol:
(a tradução para espanhol vem a seguir)

I som on som; més val saber-ho i dir-ho
i assentar els peus en terra i proclamar-nos
hereus d'un temps de dubtes i renúncies
en què els sorolls ofeguen les paraules
i amb molts miralls mig estrafem la vida.
De res no ens val l'enyor o la complanta,
ni el toc de displicent malenconia
que ens posem per jersei o per corbata
quan sortim al carrer. Tenim a penes
el que tenim i prou: l'espai d'història
concreta que ens pertoca, i un minúscul
territori per viure-la. Posem-nos
dempeus altra vegada i que se senti
la veu de tots solemnement i clara.
Cridem qui som i que tothom ho escolti.
I en acabat, que cadascú es vesteixi
com bonament li plagui, i via fora!,
que tot està per fer i tot és possible.
(...)
Convertirem el vell dolor en amor
i el llegarem, solemnes, a la història.


Ahora mismo


Mejor saber que estamos donde estamos,
fijar los pies en tierra y proclamarnos
herederos de un tiempo de renuncias
en el que el ruido ahoga las palabras
y la vida en espejos deformados.
de nada valen quejas ni añoranzas,
ni la melancolía displicente
puesta como jersey o por corbata
al salir a la calle. Poseemos
apenas el espacio de la historia
concreta que nos toca, y un minúsculo
lugar para vivirla. Nuevamente
pongámonos en pie y que nuestra voz
solemnemente y clara vuelva a oírse.
Que todos puedan escuchar quien somos.
y al final, que se vista cada uno
como bien le parezca y ¡a la calle!
que todo está por hacer y todo es posible.
(...)
Cambiamos en amor el dolor viejo
y a la historia, solemnes, lo legamos.