17 junho 2013
13 junho 2013
uma data duplamente histórica
12 de Junho de 2013: dia em que o presidente da República da Alemanha lançou a primeira pedra do que virá a ser, daqui a mais ou menos 500 mil milhões de euros, um belo pastiche do palácio do Kaiser no centro do Berlim. O palácio tinha sido danificado na segunda guerra mundial, e depois o regime comunista reduziu-o a pó, por motivos ideológicos. Só sobrou a varanda de onde o Karl Liebknecht proclamou a República.
(foto encontrada aqui, onde há muitas mais imagens deste edifício)
No que eram as traseiras da antiga residência do Kaiser fizeram o Palácio da República, muito gostava eu de saber porque é que o fizeram nas traseiras. Talvez para poupar os governantes da RDA ao olhar perscrutador dos deuses gregos e romanos na rotunda do Altes Museum, mesmo em frente da parte nobre do antigo palácio? Espertinhos! O Kaiser, coitado, é que não se lembrou disso. Não admira que passasse a vida refugiado em Potsdam: não é fácil governar com os deuses da Antiguidade a espreitarem por cima do nosso ombro. Como se já não bastasse a catedral protestante! (Pode ser que eu esteja a confundir épocas e imperadores, mas é por uma boa causa: dá-me jeito à narrativa)
Depois da queda do muro disse-se que o Palácio da República estava cheio de amianto, e que era preciso fazer obras para o retirar. Devia ter mesmo muito amianto, porque no fim das obras não sobrou absolutamente nada. Mas foi por motivos técnicos e não ideológicos, que com a saúde da população não se brinca. Já com a saúde mental, enfim, como direi... Não havia necessidade de humilhar assim o povo da RDA.
No mesmo dia em que se deu início a esta magnífica obra, uma escavadora entrou no nosso terreno e começou a mexer terra ó pra lá e ó pra cá. A ver se no Natal estamos na casa nova! (e se a nossa empreitada tem muito menos algarismos que a do palácio)
Obras na Alemanha, é assim: quatro meses antes de lançarmos a primeira pedra (vá, a primeira pá de terra) já estávamos a decidir onde e quantos interruptores e tomadas queremos. Praticamente só falta escolher a cor do chão e dos azulejos. Nada de "já agora" - que é isso que encarece a obra e deita grãos de areia na engrenagem. Amanhã vou deitar fora todas as revistas de arquitectura que por aí tenho. Não me vá dar uma inspiração extemporânea...
quais 1.300 euros de multa, quais quê
Não tenho tempo para traduzir isto, mas o mais importante são as imagens: manifestantes alemães a exibir um profundo desprezo pelo presidente da República (os sapatos no ar: uma imagem que chocou o país; as pessoas a gritar "tem vergonha!"; o cartaz a dizer que ele cola melhor que Patex). Ninguém foi multado.
Em Dezembro de 2011, a comunicação social começou a falar do caso dos juros bonificados por especial favor. A 22 de Dezembro ele foi à televisão pedir desculpa e reconhecer que tinha cometido erros. Depois meteu-se o Natal, o que lhe deu uma folguinha, mas a 16 de Fevereiro, dada a gravidade de vários indícios, foi pedido o levantamento da sua imunidade. No dia seguinte ele estava a abandonar o cargo.
não temos medo dos medrosos
Simpatizo muito com o sr. Carlos Costal: no momento em que perde a cabeça e comete um crime que - nestes tempos em que o poder político se sente tão inseguro - é gravíssimo, diz (segundo os informadores à paisana - volta, STASI, estás perdoada) "chulo" e "malandro", em vez de dizer o habitual "filho da puta".
No facebook há uma página para fazer uma vaquinha que pague os 1300 euros da multa. Para já, pedem que se "goste" da página. Depois dirão como vão recolher o dinheiro. Que venha por aí um movimento, e que seja este o seu santo e senha: "não temos medo dos medrosos".
PS. (à atenção da Presidência da República)
Recentemente, na Alemanha, por causa do favor de uns juros ligeiramente mais baixos no crédito para compra de uma casa, e por ter tentado pressionar um meio de comunicação social, o presidente da República foi obrigado a demitir-se. Normalmente estas coisas resolvem-se imediatamente, mas a Angela Merkel andava muito ocupada com a crise do Euro e não tinha cabeça para mais esse problema (isto sou eu a pensar). Durante as poucas semanas entre a notícia do negócio obscuro e a renúncia ao cargo houve um aceso debate público, no qual se chegou a afirmar que cada dia que ele se mantinha no cargo era um retrocesso e um golpe para a Democracia. Houve várias manifestações em frente ao palácio presidencial, nas quais os alemães agitavam sapatos no ar, em sinal do mais absoluto desprezo por aquele presidente. Não foi preciso polícias à paisana denunciarem - as próprias televisões filmavam e passavam no horário nobre. Ninguém foi preso, ninguém pagou multa.
O presidente saiu, finalmente, e trataram logo de mudar a lei que concede a ex-presidentes uma boa reforma, além de gabinete, secretária e motorista - para que os contribuintes não estejam a pagar a quem sai nestas condições.
Mas afinal quais foram os graves erros que ele cometeu e justificaram tanto desprezo e tamanho castigo?
Estes: com a ajuda de um amigo banqueiro, comprou uma casa a juro ligeiramente mais baixo que o corrente - o que é gravíssimo, porque um político não pode dever favores a empresários (não preciso de continuar a fazer o desenho, pois não?); e quando soube que ia sair nova reportagem sobre o caso, telefonou ao director de um jornal pedindo que a notícia saísse só após o seu regresso à Alemanha, já que andava em visita oficial no estrangeiro e a essa distância não podia reagir. Infelizmente o director não estava, e ele deixou um recado muito exaltado no atendedor automático de chamadas. "Só por ser tão burro", diziam os alemães, "já não merece ocupar aquele lugar".
No facebook há uma página para fazer uma vaquinha que pague os 1300 euros da multa. Para já, pedem que se "goste" da página. Depois dirão como vão recolher o dinheiro. Que venha por aí um movimento, e que seja este o seu santo e senha: "não temos medo dos medrosos".
A nossa voz vale mais que isso: 1300 para pagar a multa
PS. (à atenção da Presidência da República)
Recentemente, na Alemanha, por causa do favor de uns juros ligeiramente mais baixos no crédito para compra de uma casa, e por ter tentado pressionar um meio de comunicação social, o presidente da República foi obrigado a demitir-se. Normalmente estas coisas resolvem-se imediatamente, mas a Angela Merkel andava muito ocupada com a crise do Euro e não tinha cabeça para mais esse problema (isto sou eu a pensar). Durante as poucas semanas entre a notícia do negócio obscuro e a renúncia ao cargo houve um aceso debate público, no qual se chegou a afirmar que cada dia que ele se mantinha no cargo era um retrocesso e um golpe para a Democracia. Houve várias manifestações em frente ao palácio presidencial, nas quais os alemães agitavam sapatos no ar, em sinal do mais absoluto desprezo por aquele presidente. Não foi preciso polícias à paisana denunciarem - as próprias televisões filmavam e passavam no horário nobre. Ninguém foi preso, ninguém pagou multa.
O presidente saiu, finalmente, e trataram logo de mudar a lei que concede a ex-presidentes uma boa reforma, além de gabinete, secretária e motorista - para que os contribuintes não estejam a pagar a quem sai nestas condições.
Mas afinal quais foram os graves erros que ele cometeu e justificaram tanto desprezo e tamanho castigo?
Estes: com a ajuda de um amigo banqueiro, comprou uma casa a juro ligeiramente mais baixo que o corrente - o que é gravíssimo, porque um político não pode dever favores a empresários (não preciso de continuar a fazer o desenho, pois não?); e quando soube que ia sair nova reportagem sobre o caso, telefonou ao director de um jornal pedindo que a notícia saísse só após o seu regresso à Alemanha, já que andava em visita oficial no estrangeiro e a essa distância não podia reagir. Infelizmente o director não estava, e ele deixou um recado muito exaltado no atendedor automático de chamadas. "Só por ser tão burro", diziam os alemães, "já não merece ocupar aquele lugar".
12 junho 2013
dois pianos na Filarmonia
Ontem havia dois pianos no foyer, e os pianistas Hendrik Heilmann e Nikolaus Resa.
1. Sonata para dois pianos D-Dur KV 448, de Mozart.
2. Jeux d'enfants op.22 de Georges Bizet
- e que pequena maravilha este "petit mari, petite femme!":
3. Danças eslavas op.46 e op.72, de Antonin Dvorák:
(agarrem-me, que eu ponho-me a ouvir esta música e dá-me vontade de não sei quê, sair por aí em piruetas ou sorrir com uma lagrimita no canto do olho, ou os dois ao mesmo tempo, sabe-se lá) (sou eu, e um bebé que veio dentro da mãe - tanto dançou, que ela conduziu as mãos do pai ao encontro daquela alegria, e de repente só ali estavam eles os três, e a música)
(gosto muito das expressão do pianista que toca os graves, mas o Hendrik Heilmann ontem conseguia ter ainda mais graça: tem um ar muito expressivo e doce, quase zen - isto, se "zen" é compatível com sentir e transmitir cada pedacinho da alma de cada nota, com uma intensidade e graça que arruma comigo)
Depois atravessei a rua e entrei na Staatsbibliothek zu Berlin, para ler livros sobre Parajanov.
O Bruno Ganz não passou por lá. Ou então andou por outros andares, ou então perdi algures os meus olhos de criança.
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filarmonia de Berlim,
viver em Berlim
mudança de ramo
Recentemente dei um salto brutal na minha carreira: agora trabalho na caixa da Russendisko, a original, no Café Burger. Sou a que põe carimbos no pessoal - eu bem digo que o céu é o limite!
Passam-me todos pelas mãos: os casais, as mulheres sozinhas, as mulheres em pares, os homens sozinhos e os homens em pares, os grupos, os bêbedos, os que se atiram a tudo o que mexe (inclusivamente a desgraçada que só mexe o suficiente para lhes pôr o carimbo no braço, "ah, aí não, tenho uma ideia melhor" - e levantam a t-shirt, para eu os carimbar no peito, hahaha, exibicionistas de plano B, coitados)
É impressionante a quantidade de casais em que cada um paga a sua entrada. As minhas colegas da caixa tentam reeducar o povo, viram-se para o homem que estende uma nota e perguntam: "paga para os dois?" Mas por essa altura já a mulher está numa agitação febril a tentar encontrar cinco euros nos confins da sua bolsa.
No intervalo vou conversando com as colegas. Uma é russa de uma ilha mais ou menos japonesa, a outra é russa do Azerbaijão. São muito divertidas, eu distraio-me com as conversas, troco tudo e carimbo as pessoas erradas.
É um carimbo de tinta transparente, visível com luz negra. Eu carimbo, eles olham para a pele, põem cara de não percebo, já eu estou de lanterna apontada para lhes mostrar as estrelinhas e a palavra "Russendisko". Alargam os olhos, exclamam "ah", "oh", "wow" ou o que calhar, alguns riem, outros sorriem - parecem crianças, e é bom vê-los assim.
Duvido que mais alguém leve tantos sorrisos por minuto como eu, nesses sábados.
Gosto muito da política da discoteca: entram todos, menos os demasiado bêbedos. Nada de fitas por causa da roupa e do estilo, da idade, do aspecto físico, sei lá quê. No sábado passado houve duas despedidas de casamento (já vinham alegrotes) e vários aniversários. Estava um ambiente óptimo.
Os seguranças são simpáticos. Um deles consegue algo prodigioso: sem tirar os olhos da rua, repara em quem está a tentar entrar sem pagar e vai atrás dessa pessoa. Além disso, não sei se já disse, é muito simpático. Sim: precisei de chegar a esta idade para achar graça a seguranças russos com cara de serem capazes de fazer mudanças de pianos atirando-os da rua para a varanda do andar certo... (ainda estou para saber se é a famosa sabedoria que vem com a idade, se é senilidade precoce)
Infelizmente não me pagam, mas posso entrar de graça e dançar quanto me apetece. Também me dão bebidas se eu quiser, mas como depois tenho de levar o carro para casa bebo apenas água.
10 junho 2013
Berlim vai sempre à frente: festeja-se o dia de Portugal a 9 de Junho
convém lembrar que os filhos da puta também têm direitos
Não, não: nada do que pensaram. Hoje não vou fazer de advogado do diabo de ninguém.
Vem a propósito desta campanha (site de onde roubei o texto e as imagens que se seguem) - extraordinariamente certeira no modo de perspectivar o problema e de chamar a atenção para ele.
Suspeito que foi a última vez que usei a expressão "filho da puta". Não é que a usasse com frequência, mas estas imagens tornam mais evidente o seu carácter absurdo e violento.
(Já agora: porquê "filho da puta" e não "filho de um gajo que precisa de ir às putas?" - igualmente errado, porque continua a ser absurdo e violento no que diz respeito às pessoas que nascem nesse contexto. Mas: se é para estigmatizar, porquê escolher a profissão da mãe e não a burgessice emocional do pai?)
Vem a propósito desta campanha (site de onde roubei o texto e as imagens que se seguem) - extraordinariamente certeira no modo de perspectivar o problema e de chamar a atenção para ele.
Suspeito que foi a última vez que usei a expressão "filho da puta". Não é que a usasse com frequência, mas estas imagens tornam mais evidente o seu carácter absurdo e violento.
(Já agora: porquê "filho da puta" e não "filho de um gajo que precisa de ir às putas?" - igualmente errado, porque continua a ser absurdo e violento no que diz respeito às pessoas que nascem nesse contexto. Mas: se é para estigmatizar, porquê escolher a profissão da mãe e não a burgessice emocional do pai?)
These Prostitute Posters Aren’t What They Seem
At first glance, they just look like sexy street art.
Prostitution is legal in Argentina.
But it is basically unregulated and unprotected.
So recently, a national sex workers union launched a sly street art campaign in Buenos Aires.
Around the corner from the sexy fantasy image was the reality, and a startling statistic.
Copy translation: “86% of sex workers are mothers. We need a law to regulate our work.”
Copy translation: “86% of sex workers are mothers. We need a law to regulate our work.”
AMMAR is Argentina’s Sex Workers Association.
See all the full images below.
An excellent idea, and a sure award-winner at Cannes later this month (or next year).
Ad agency: Ogilvy & Mather, Buenos Aires.
talent- talant
Vejo no Valkirio que Elisabete Matos será hoje condecorada com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.
TALANT DE BIEN FAIRE quer dizer talante, desejo ou vontade de bem fazer, e exorta a um esforço pessoal de perfeição. Não tem nada a ver com a corrupção que, por facilidade, se dá à palavra “talant”, substituindo-a por “talent”, cujo sentido apontaria para uma qualidade própria intrínseca e independente da vontade ou do esforço de quem a possui. (daqui)
No caso, penso que se podia abrir uma excepção, e escrever: talent-talant de bien faire.
Era merecido.
08 junho 2013
traições
Pastiche (com a minha filha em marca d’água)
No mais fundo de mim,
eu sei que tenho de ser traída, filha
Tudo porque já não és
um retrato parado
no fundo dos meus olhos.
Tudo porque já sabes
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Nem por isso, às vezes, as palavras que te digo
deixam de ser duras, filha,
e o nosso amor deixa de ser construção
incondicional.
Tudo porque guardo as rosas brancas
que apertavas junto ao coração
no retrato da moldura.
Deves lembrar como ainda amo as rosas,
que enchem as horas dos sonhos.
Sou eu agora quem esquece muita coisa;
esqueço que as tuas pernas cresceram,
que todo o teu corpo cresceu,
e até o teu coração
ficou enorme, filha!
Olha — queres ouvir-me? —
quantas vezes ainda és a criança
que adormece nos meus olhos;
quantas vezes aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que me deste
ainda oiço a nossa voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...
Mas — eu sei como quem sente —
a noite é enorme
e todo o teu ser cresceu.
Saíste da moldura,
deste às aves os teus olhos a beber,
No fundo, não me esqueci de nada, filha.
Guardo a tua voz dentro de mim.
como guardo as rosas.
Boa viagem. Aguardar-te-ei sempre
como quem espera pelas aves.
03.03.2013
***
Gosto muito deste pastiche, como ela lhe chamou. Os dois últimos versos comovem-me, de tão certeiros e ternos.
Mas continuo a tropeçar na palavra "traição" - e parece-me que é hoje que me vou desentender com o Eugénio de Andrade (que engraçado: "desentender-se com" - o desacordo é diálogo).
- Mas que traição, ó homem?!
Traição era o que faziam as nossas avós, quando decidiam que o filho primogénito tinha de ser padre; ou os nossos avós, que destinavam os filhos a determinada profissão (ou clube de futebol...)
Traição é o que fazem os pais hoje em dia, quando desenham os filhos numa pintura familiar naïf e ficam desapontados por eles mostrarem que são pessoas reais, e não figurantes de filmes cor-de-rosa.
Mais do que traição aos filhos, é uma traição à própria lógica da vida.
O Khalil Gibran é que sabe:
Os vossos filhos
Não são vossos filhos:
São filhos e filhas
Do chamamento da própria Vida.
Vêm por vosso meio
Mas não de vós;
E apesar de estarem convosco,
Não vos pertencem.
Podeis dar-lhe o vosso amor;
Mas não os vossos pensamentos:
Porque eles têm pensamentos próprios.
Podeis acolher os seus corpos;
Mas não as suas almas:
Porque as suas almas
Habitam a casa de amanhã
Que não podeis visitar,
Nem sequer em sonhos.
Podeis esforçar-vos por ser como eles;
Mas não tenteis fazê-los como vós.
Porque a vida não vai para trás,
Nem se detém com o ontem.
Sois os arcos, e os vossos filhos
As setas vivas projectadas.
O Arqueiro vê o alvo no caminho do infinito,
E reteza-vos com o seu poder
Para que as setas
Possam voar depressa para longe.
Que a vossa tensão na mão do Arqueiro
Seja de alegria.
Porque assim como Ele ama
a seta que voa,
Também ama o arco que fica.
***
Regressa em Agosto - e nós estamos como quem espera pelas aves.
A traição é não percebermos que eles nos nasceram aves.
can you hear me now?
- E como soubeste tu deste filme, Heleninha?
- Porque foi com algo semelhante que abriram ontem a notícia das escutas do Obama na ARD. As televisões públicas alemãs não cessam de me supreender com o modo como apresentam as notícias. E ainda há quem diga que o livro mais pequeno do mundo é um que se chama "Mil Anos de Humor Alemão".
06 junho 2013
correio das ilhas (III) 22
PS - Em 2009 percorremos milhas sem fim em busca da Via Láctea no deserto de Chaco. Tinham-nos prometido este mundo e o outro, e afinal demos com um céu cheio de nuvens. Em 2012 pensei muito nisso quando, num sossegado terraço perto de Monsaraz, explorávamos aquela festa de estrelas.
Fomos nós ao outro lado do mundo, quando o universo afinal vem ter connosco em Portugal!
Fomos nós ao outro lado do mundo, quando o universo afinal vem ter connosco em Portugal!
correio das ilhas (III) 21
Monte Alerta
Olá Rita,
olá Carla,
ando há quase um ano para vos contar a descoberta que fizemos no Verão passado no Alentejo. Mas, já se sabe como é, uma coisa e outra, e acabo por deixar o importante para depois do urgente e do que de momento me prende mais a atenção. Vai agora. Faz de conta que este postal se perdeu no correio e foi descoberto agora.
Na realidade, era só para dizer isto: o artigo que lemos no Die Zeit (I, II), e nos levou a esse recanto do Alentejo, peca por defeito. Não diz a sensação de tranquilidade ao entrar no Monte Alerta, o tempo parado e nós com ele. Muito menos fala do bolo de azeite que lá servem ao pequeno-almoço (saia um bolo de azeite inteiro para a mesa do canto, aquela mais junto à piscina, se faz favor), nem conta que a raposa que lá apareceu é quase da casa. Não diz a magia de nós deitados em enormes bean bags, sob um céu no qual se acendem as estrelas, cada vez mais.
Também omitiu a intensidade que tudo ganha à nossa volta quando remamos numa canoa às escuras - os sentidos alerta para maneiras novas de beleza. E a sopa de coentros que esperava por nós ao fim da jornada: sopa de coentros comida em pé, à luz das velas, no meio de um alvoroço de rãs e cigarras.
Magia é a palavra certa. Tanta, que até o Matthias esqueceu que estava a fazer férias sozinho com os cotas, e se divertiu à grande.
Ja marcámos para este ano. Queremos repetir. Desta vez andaremos nos rápidos do Guadiana durante o dia, e prometeram-nos fogo de artifício a acompanhar a sopa de coentros. Quero ver se a Vitória exclamará de novo, durante a massagem "Ai! Tanta pressa nestes tornozelos!" Porque eu tentei trazer um pouco deste Alentejo tranquilo para a minha vida no coração de Berlim, garanto que tentei. Mas começa a ser tempo de voltar, e fazer revisão da matéria dada. Placidez.E vocês: querem vir também? (o bolo de azeite chega bem para nós as três - e até para quatro, se uma certa Cristina que encomendou este postal - olá, Cristina! - se tentar também a vir)
"Ora então, boa noite!" (2)
(continuação da tradução deste artigo do semanário Die Zeit, sobre o programa "Dark Sky" no Alentejo)
Por enquanto, o maior sucesso deste processo de escurecimento foi a certificação do Alentejo como "Starlight Tourism Destination". Esta classificação é atribuída pela Starlight Foundation, uma fundação criada com o apoio da UNESCO e sede em Tenerife, que luta por um céu realmente escuro e com estrelas nítidas, e defende o "direito humano a ver estrelas". O céu nocturno de uma "Starlight Tourism Destination" só pode ter nuvens em metade dos dias do ano, no máximo, e não pode descer abaixo de determinado nível, definido como mínimo aceitável de escuridão. Além disso, tem de haver ofertas de astronomia. O Alentejo foi a primeira região do mundo inteiro a receber esta certificação.
Na noite seguinte, são as estrelas que estão no meu programa. Apolónia deixa-me no Monte Alerta, uma propriedade apenas a alguns quilómetros de Monsaraz, muito perto da barragem do Alqueva. Actividades anunciadas para hoje: stargazing e spa. Por spa entende-se uma massagem à meia-noite, o que me parece, desde logo do ponto de vista conceptual, algo muito promissor.
Vitória recebe-me calorosamente. A sua bisavó já aqui vivia, quando a casa pouco mais era que um celeiro. O seu pai, em contrapartida, gostava da cidade - era um empresário famoso em Lisboa. Vitória fazia uma vida de filha de boas famílias - até que se cansou disso. Regressou à terra dos seus antepassados e arranjou o Monte Alerta a seu gosto. As paredes estão pintadas em tons laranja e cobertas com tapeçarias, nos quartos há móveis antigos. Na casa há até um pequeno auditório com palco - uma ideia de negócio que não resultou. Esperava-se que houvesse aqui encontros de gestores, pequenos simpósios de médicos. Mas eles não vieram. Hoje em dia, Vitória partilha o seu reino com turistas, e o hóspede sente-se imediatamente como se fosse da família. Alguém que pode dormir uma soneca à tarde, para estar preparado para a noite.
A noite começa com stargazing, na casa do vizinho Vasco, que é astrónomo amador e tem um telescópio de metro e meio de comprimento e 30 cm de diâmetro. Ao fim de alguns minutos vejo-me obrigado a concluir que, além de cavaleiro inexperiente, sou um astrónomo amador sem grande préstimo. Qualquer outro teria sabido que a observação das estrelas é absolutamente incompatível com a lua cheia. Antes da viagem, o astrónomo tem de olhar para o calendário lunar!
No Chile, em noites de lua nova no escuríssimo deserto de Atacama, pode-se contar 8000 estrelas. Mas quem se puser a procurar estrelas numa grande cidade, numa noite qualquer, rapidamente chega ao fim da contagem - muitas vezes nem meia centena encontra. Quando a lua brilha, não encontramos no céu sobre a casa de Vasco mais estrelas do que no céu nocturno de Hamburgo. Resultado: nada de Via Láctea, nada de estrelas cadentes. O máximo que consegui ver pelo telescópio foi Saturno com os seus anéis e luas. Irritado, chego à conclusão que o maior poluidor luminoso de todos é a lua.
Se há algo a aprender com os alentejanos, é a sua serenidade em relação à vida e à sua terra. Porque, na realidade, o alentejano não é lento como o caracol. É simplesmente sereno. Vitória não se preocupa minimamente ao ver que o luar lhe está a estragar uma das suas dark sky activities mais importantes. E por estar cansada, sugere que a minha tão desejada massagem à meia-noite seja adiada para a manhã seguinte. Esta atitude é contagiosa. Com uma rodela de chouriço na mão ainda tento atrair uma raposa mansa que anda por ali em busca da comida dos gatos, e consigo que chegue a quase um metro de distância. Depois aceno um adeus à lua, que já começa a ter a forma de uma batata, e vou dormir.
No dia seguinte: um pequeno-almoço excelente, piscina, banho de sol. E depois o fantástico tratamento de Vitória, com uma análise breve mas muito clara sobre os meus problemas físicos e emocionais mais importantes (de que só menciono aqui uma palavra-chave: mais humildade!). Dou-me conta de que começam a despontar pensamentos heréticos: fazer férias no Alentejo com programa apenas diurno também seria formidável. Mas isso é um mero rescaldo do meu fiasco na observação das estrelas. Além disso, ainda me espera a noite das noites!
A terceira noite na terra do céu escuro. Canoagem no Guadiana. O meu guia chama-se Francisco. É professor de desporto e tem uma pequena empresa, de nome ligeiramente inchado: "Break! Momentos Fantásticos". Vão-me buscar a um ponto abaixo da barragem do Alqueva. O céu já começa a ficar alaranjado, a terra ganha tons pardos. Remamos com a corrente e contra o vento. Foi boa ideia ter posto calções de banho, porque nos molhamos bastante. O que não é problema, porque mesmo neste princípio de Verão a água já está quase tão quente como na banheira: 26 graus. O rio fica cada vez mais escuro. As árvores da margem ganham contornos fantasmagóricos. O silêncio pousa na água. Um cão ladra - ou será um lobo? Por cima das nossas cabeças planam grous. Repentinamente ouço barulho na água, e um barbo gordo salta para a canoa. Do tamanho do meu braço! E salta à volta das minhas pernas nuas. Em pânico, atiro-o borda fora. O Francisco desata a rir por causa do passageiro clandestino e da minha reacção pouco profissional. Tinha dado um jantar perfeito! Depois mostra-me a Cassiopeia, o Escorpião e o Leão. É um facto: nesta terra percebem mais de estrelas do que na nossa.
Quando finalmente a canoa está de novo para terra, nada mais me prende: salto para o caldo morno, ponho-me a boiar de costas, e deixo-me deslizar com a corrente. Dark sky - isso mesmo! Hoje a lua só virá dentro de uma hora. É uma maravilha estar dentro da água quente e escura, e concentrar-se apenas a saborear as estrelas.
Mergulho em grandes pensamentos. Sobre luz, sombra e escuridão. Sobre um Deus que disse "haja luz!" Sobre o medo alemão de que a luz se apague. Sobre a luz da civilização, o iluminismo e a razão. E sobre a eterna atracção do sombrio romantismo.
Por enquanto, o maior sucesso deste processo de escurecimento foi a certificação do Alentejo como "Starlight Tourism Destination". Esta classificação é atribuída pela Starlight Foundation, uma fundação criada com o apoio da UNESCO e sede em Tenerife, que luta por um céu realmente escuro e com estrelas nítidas, e defende o "direito humano a ver estrelas". O céu nocturno de uma "Starlight Tourism Destination" só pode ter nuvens em metade dos dias do ano, no máximo, e não pode descer abaixo de determinado nível, definido como mínimo aceitável de escuridão. Além disso, tem de haver ofertas de astronomia. O Alentejo foi a primeira região do mundo inteiro a receber esta certificação.
Na noite seguinte, são as estrelas que estão no meu programa. Apolónia deixa-me no Monte Alerta, uma propriedade apenas a alguns quilómetros de Monsaraz, muito perto da barragem do Alqueva. Actividades anunciadas para hoje: stargazing e spa. Por spa entende-se uma massagem à meia-noite, o que me parece, desde logo do ponto de vista conceptual, algo muito promissor.
Vitória recebe-me calorosamente. A sua bisavó já aqui vivia, quando a casa pouco mais era que um celeiro. O seu pai, em contrapartida, gostava da cidade - era um empresário famoso em Lisboa. Vitória fazia uma vida de filha de boas famílias - até que se cansou disso. Regressou à terra dos seus antepassados e arranjou o Monte Alerta a seu gosto. As paredes estão pintadas em tons laranja e cobertas com tapeçarias, nos quartos há móveis antigos. Na casa há até um pequeno auditório com palco - uma ideia de negócio que não resultou. Esperava-se que houvesse aqui encontros de gestores, pequenos simpósios de médicos. Mas eles não vieram. Hoje em dia, Vitória partilha o seu reino com turistas, e o hóspede sente-se imediatamente como se fosse da família. Alguém que pode dormir uma soneca à tarde, para estar preparado para a noite.
A noite começa com stargazing, na casa do vizinho Vasco, que é astrónomo amador e tem um telescópio de metro e meio de comprimento e 30 cm de diâmetro. Ao fim de alguns minutos vejo-me obrigado a concluir que, além de cavaleiro inexperiente, sou um astrónomo amador sem grande préstimo. Qualquer outro teria sabido que a observação das estrelas é absolutamente incompatível com a lua cheia. Antes da viagem, o astrónomo tem de olhar para o calendário lunar!
No Chile, em noites de lua nova no escuríssimo deserto de Atacama, pode-se contar 8000 estrelas. Mas quem se puser a procurar estrelas numa grande cidade, numa noite qualquer, rapidamente chega ao fim da contagem - muitas vezes nem meia centena encontra. Quando a lua brilha, não encontramos no céu sobre a casa de Vasco mais estrelas do que no céu nocturno de Hamburgo. Resultado: nada de Via Láctea, nada de estrelas cadentes. O máximo que consegui ver pelo telescópio foi Saturno com os seus anéis e luas. Irritado, chego à conclusão que o maior poluidor luminoso de todos é a lua.
O alentejano não é lento - recusa o stress
Se há algo a aprender com os alentejanos, é a sua serenidade em relação à vida e à sua terra. Porque, na realidade, o alentejano não é lento como o caracol. É simplesmente sereno. Vitória não se preocupa minimamente ao ver que o luar lhe está a estragar uma das suas dark sky activities mais importantes. E por estar cansada, sugere que a minha tão desejada massagem à meia-noite seja adiada para a manhã seguinte. Esta atitude é contagiosa. Com uma rodela de chouriço na mão ainda tento atrair uma raposa mansa que anda por ali em busca da comida dos gatos, e consigo que chegue a quase um metro de distância. Depois aceno um adeus à lua, que já começa a ter a forma de uma batata, e vou dormir.
No dia seguinte: um pequeno-almoço excelente, piscina, banho de sol. E depois o fantástico tratamento de Vitória, com uma análise breve mas muito clara sobre os meus problemas físicos e emocionais mais importantes (de que só menciono aqui uma palavra-chave: mais humildade!). Dou-me conta de que começam a despontar pensamentos heréticos: fazer férias no Alentejo com programa apenas diurno também seria formidável. Mas isso é um mero rescaldo do meu fiasco na observação das estrelas. Além disso, ainda me espera a noite das noites!
A terceira noite na terra do céu escuro. Canoagem no Guadiana. O meu guia chama-se Francisco. É professor de desporto e tem uma pequena empresa, de nome ligeiramente inchado: "Break! Momentos Fantásticos". Vão-me buscar a um ponto abaixo da barragem do Alqueva. O céu já começa a ficar alaranjado, a terra ganha tons pardos. Remamos com a corrente e contra o vento. Foi boa ideia ter posto calções de banho, porque nos molhamos bastante. O que não é problema, porque mesmo neste princípio de Verão a água já está quase tão quente como na banheira: 26 graus. O rio fica cada vez mais escuro. As árvores da margem ganham contornos fantasmagóricos. O silêncio pousa na água. Um cão ladra - ou será um lobo? Por cima das nossas cabeças planam grous. Repentinamente ouço barulho na água, e um barbo gordo salta para a canoa. Do tamanho do meu braço! E salta à volta das minhas pernas nuas. Em pânico, atiro-o borda fora. O Francisco desata a rir por causa do passageiro clandestino e da minha reacção pouco profissional. Tinha dado um jantar perfeito! Depois mostra-me a Cassiopeia, o Escorpião e o Leão. É um facto: nesta terra percebem mais de estrelas do que na nossa.
Quando finalmente a canoa está de novo para terra, nada mais me prende: salto para o caldo morno, ponho-me a boiar de costas, e deixo-me deslizar com a corrente. Dark sky - isso mesmo! Hoje a lua só virá dentro de uma hora. É uma maravilha estar dentro da água quente e escura, e concentrar-se apenas a saborear as estrelas.
Mergulho em grandes pensamentos. Sobre luz, sombra e escuridão. Sobre um Deus que disse "haja luz!" Sobre o medo alemão de que a luz se apague. Sobre a luz da civilização, o iluminismo e a razão. E sobre a eterna atracção do sombrio romantismo.
05 junho 2013
"Ora então, boa noite!" (1)
No princípio do Verão passado o semanário Die Zeit trazia um artigo sobre o programa "Dark Sky" no Alentejo. Lemos no avião, a caminho de Portugal, e logo ali decidimos que tínhamos de ir conhecer.
O que se segue é a tradução (rapidinha, rapidinha) desse artigo.
Com uma nota prévia da tradutora: vimos com estes que a terra talicoiso, e tal, e garantimos que é ainda melhor do que aqui está descrito. Imperdível.
É uma noite quente de lua cheia no Alentejo, e três homens passeiam a cavalo. São alazões orgulhosos e altos, que os levam pelo terreno acidentado. Não se ouve qualquer ruído da civilização. Apenas a canção monótona das cigarras.
Passam por oliveiras retorcidas que terão mais de mil anos. Na berma do caminho, pedras megalíticas erguem-se contra o céu iluminado pelo luar, testemunhas mudas de uma história de ocupação ainda mais antiga. A iluminação ténue, o vento morno e o sossego quase inquietante fazem com que por momentos acreditemos que tudo pode ser possível: um ataque repentino de guerreiros romanos ou visigodos, cavaleiros árabes que surgem de trás de um arbusto, a entrada marcial de um grupo de templários.
A fortaleza de Monsaraz, com as suas torres e muralhas, desenha-se no horizonte, sobre uma elevação, banhada numa luz amarelada e pálida. É a guardiã do Guadiana, o rio que ali marca a fronteira com a Espanha. Há um par de anos barraram a sua água neste lugar, cerca de 200 km a leste de Lisboa, para fazer o lago do Alqueva - e surgiu a maior barragem da Europa. Contudo, os cavaleiros nocturnos não vieram para ver o lago. Pouco antes de Monsaraz, viram para os estábulos de betão caiado da Casa Saramago, numa aldeia chamada Telheiro.
"Muito bem", diz Tiago, numa mistura insondável de elogio e troça, "já tinha um ar muito profissional". Tiago é o meu professor de equitação. Da sela de toureiro, especialmente alta, deixo-me deslizar para o chão, e tiro o capacete suado. Depois dou umas palmadinhas no pescoço do meu cavalo Paciência, este milagre de mansidão. Digo-lhe em voz alta "Obrigado", e penso: sobrevivi! Afinal de contas, tinha sido a primeira vez que me pus em cima de um cavalo. E à meia-noite!
Aprender a montar na escuridão da noite é uma ideia pouco convencional. O professor não pode ver se o aluno, que só sabe andar de mota, carrega tanto tempo no travão do cavalo que ele acaba por meter a marcha atrás. Contudo, não vim até aqui para me tornar um perfeito cavaleiro. Vim para conhecer uma nova atracção turística muito especial no interior de Portugal, a "Dark Sky Route". À volta da barragem do Alqueva, os agentes de turismo uniram-se para oferecer um programa às escuras. A atracção: poder finalmente voltar a saborear uma noite realmente escura, com o céu estrelado, a Via Láctea e as estrelas cadentes. E também observar o universo com telescópios, ao lado de astrónomos amadores, escutar animais noctívagos com guias - e, como contei, fazer hipismo.
O Paciência livrou-se da sela, e já foi esfregado. Vou a cambalear até ao meu quarto na Casa Saramago, e despacho num ápice mais algumas moscas. Depois caio na cama, muito satisfeito. É tranquilizador saber que cada albergue que participa na "Rota do Céu Escuro" tem de oferecer mais do que um programa nocturno (como o Francisco, que é produtor de azeite e tem este night horse riding) e mais que binóculos e telescópio e conhecimentos básicos de astronomia. O - talvez - melhor de tudo é que os hóspedes, depois de uma noite tão rica de experiências, no dia seguinte podem dormir à vontade. A hora de saída pode ser bem mais tarde que o habitual. Na manhã seguinte rebolo para fora da cama às onze da manhã, e dão-me sem reclamar um pequeno-almoço fulminante.
À tarde a Apolónia vem-me buscar de carro. É devido a esta mulher, pequena e enérgica, que o Alentejo aparece hoje nos circuitos de viagens com a sua Dark Sky Route. A Genuineland, uma organização não lucrativa privada chefiada por Apolónia, assumiu a tarefa de criar conceitos turísticos inovadores para ajudar regiões rurais empobrecidas da Europa. Regiões como o Alentejo, que se estende entre o centro de Portugal e o Algarve, e é considerado pobre, atrasado e com pouca oferta cultural. No Verão tem um calor abrasador que pode ir acima dos 50 graus. A comida consiste basicamente em azeite, alho e pão velho. E se se pergunta por eventos culturais recebe-se um longo silêncio, que finalmente dá lugar à palavra: tourada. Uma região de onde se foge. E é isso mesmo que acontece. Em nenhuma região de Portugal se assiste a tão forte debandada do interior. Lembra um pouco a Frísia Oriental - tanto mais que também há anedotas de alentejanos. Como esta: numa corrida entre um caracol e um alentejano é costume ganhar o caracol, mas desta vez perdeu porque foi desqualificado - fez duas falsas partidas.
Desde 2008, a organização dirigida por Apolónia tenta desenvolver a região. Nesse ano, Genuineland teve a ideia de atrair turistas com a escuridão da noite alentejana. Justamente com aquilo que nos faz pensar em pobreza: mal um país começa a enriquecer, as suas cidades, ruas e fachadas cobrem-se de luz. Paralelamente, letreiros luminosos fazem prova de prosperidade.
Quem atravessa as aldeias no carro com Apolónia ganha uma perspectiva completamente nova. "Ali à frente, aquele candeeiro redondo", diz ela, e aponta para uma lanterna típica dos pátios, "tem de desaparecer. A maior parte da luz vai para o céu! É poluição luminosa." Uma expressão praticamente desconhecida ainda há dez anos. A iluminação desenfreada de fachadas, praças, bairros inteiros, auto-estradas: tudo isso leva ao desaparecimento da noite do tempo dos nossos bisavós - com aquele céu estrelado brilhante, que hoje em dia quase só conhecemos de simulações no Planetário. Há gerações a crescer sem alguma vez terem visto uma estrela cadente.
Imagino a Apolónia a deambular durante a noite e a atirar sobre os candeeiros. No fundo, ela tem razão na sua luta por um céu com estrelas: a poluição luminosa global é um problema cultural - e cada fonte de luz confunde os animais noctívagos, ou pode até ser-lhes uma armadilha. A ausência da noite também afecta os humanos: provoca distúrbios nos níveis hormonais, com consequências para a saúde ainda não estudadas. Além disso, esta iluminação geral do globo representa um gigantesco desperdício de energia.
"Monsaraz, por exemplo", diz Apolónia, "a quantidade de luz que irradiava ainda há poucos anos! As pessoas deviam reconhecer logo as suas muralhas e torres." Foi necessário um processo demorado e até um novo presidente da Câmara para fazer avançar o projecto "céu escuro". Last but not least, a crise financeira deu uma ajudinha à Apolónia - menos luz significa menos despesas camarárias. Monsaraz tem agora uma iluminação tímida. E em muitas localidades à volta da barragem do Alqueva os candeeiros da rua apagam-se à meia-noite. Apolónia afirma (e quem a conhece acreditaria nisso imediatamente) que se pusessem mais algum projector luminoso para a muralha de Monsaraz, lhe bastava um telefonema para o fazer apagar logo no dia seguinte.
(continua)
O que se segue é a tradução (rapidinha, rapidinha) desse artigo.
Com uma nota prévia da tradutora: vimos com estes que a terra talicoiso, e tal, e garantimos que é ainda melhor do que aqui está descrito. Imperdível.
Ora então, boa noite!
No Alentejo, em Portugal, os turistas gostam de tactear no escuro: equitação, canoagem ou wellness depois do pôr-do-sol - debaixo de um céu com Selo de Qualidade.
É uma noite quente de lua cheia no Alentejo, e três homens passeiam a cavalo. São alazões orgulhosos e altos, que os levam pelo terreno acidentado. Não se ouve qualquer ruído da civilização. Apenas a canção monótona das cigarras.
Passam por oliveiras retorcidas que terão mais de mil anos. Na berma do caminho, pedras megalíticas erguem-se contra o céu iluminado pelo luar, testemunhas mudas de uma história de ocupação ainda mais antiga. A iluminação ténue, o vento morno e o sossego quase inquietante fazem com que por momentos acreditemos que tudo pode ser possível: um ataque repentino de guerreiros romanos ou visigodos, cavaleiros árabes que surgem de trás de um arbusto, a entrada marcial de um grupo de templários.
A fortaleza de Monsaraz, com as suas torres e muralhas, desenha-se no horizonte, sobre uma elevação, banhada numa luz amarelada e pálida. É a guardiã do Guadiana, o rio que ali marca a fronteira com a Espanha. Há um par de anos barraram a sua água neste lugar, cerca de 200 km a leste de Lisboa, para fazer o lago do Alqueva - e surgiu a maior barragem da Europa. Contudo, os cavaleiros nocturnos não vieram para ver o lago. Pouco antes de Monsaraz, viram para os estábulos de betão caiado da Casa Saramago, numa aldeia chamada Telheiro.
"Muito bem", diz Tiago, numa mistura insondável de elogio e troça, "já tinha um ar muito profissional". Tiago é o meu professor de equitação. Da sela de toureiro, especialmente alta, deixo-me deslizar para o chão, e tiro o capacete suado. Depois dou umas palmadinhas no pescoço do meu cavalo Paciência, este milagre de mansidão. Digo-lhe em voz alta "Obrigado", e penso: sobrevivi! Afinal de contas, tinha sido a primeira vez que me pus em cima de um cavalo. E à meia-noite!
Aprender a montar na escuridão da noite é uma ideia pouco convencional. O professor não pode ver se o aluno, que só sabe andar de mota, carrega tanto tempo no travão do cavalo que ele acaba por meter a marcha atrás. Contudo, não vim até aqui para me tornar um perfeito cavaleiro. Vim para conhecer uma nova atracção turística muito especial no interior de Portugal, a "Dark Sky Route". À volta da barragem do Alqueva, os agentes de turismo uniram-se para oferecer um programa às escuras. A atracção: poder finalmente voltar a saborear uma noite realmente escura, com o céu estrelado, a Via Láctea e as estrelas cadentes. E também observar o universo com telescópios, ao lado de astrónomos amadores, escutar animais noctívagos com guias - e, como contei, fazer hipismo.
"Ali à frente, aquele candeeiro redondo - tem de desaparecer!"
O Paciência livrou-se da sela, e já foi esfregado. Vou a cambalear até ao meu quarto na Casa Saramago, e despacho num ápice mais algumas moscas. Depois caio na cama, muito satisfeito. É tranquilizador saber que cada albergue que participa na "Rota do Céu Escuro" tem de oferecer mais do que um programa nocturno (como o Francisco, que é produtor de azeite e tem este night horse riding) e mais que binóculos e telescópio e conhecimentos básicos de astronomia. O - talvez - melhor de tudo é que os hóspedes, depois de uma noite tão rica de experiências, no dia seguinte podem dormir à vontade. A hora de saída pode ser bem mais tarde que o habitual. Na manhã seguinte rebolo para fora da cama às onze da manhã, e dão-me sem reclamar um pequeno-almoço fulminante.
À tarde a Apolónia vem-me buscar de carro. É devido a esta mulher, pequena e enérgica, que o Alentejo aparece hoje nos circuitos de viagens com a sua Dark Sky Route. A Genuineland, uma organização não lucrativa privada chefiada por Apolónia, assumiu a tarefa de criar conceitos turísticos inovadores para ajudar regiões rurais empobrecidas da Europa. Regiões como o Alentejo, que se estende entre o centro de Portugal e o Algarve, e é considerado pobre, atrasado e com pouca oferta cultural. No Verão tem um calor abrasador que pode ir acima dos 50 graus. A comida consiste basicamente em azeite, alho e pão velho. E se se pergunta por eventos culturais recebe-se um longo silêncio, que finalmente dá lugar à palavra: tourada. Uma região de onde se foge. E é isso mesmo que acontece. Em nenhuma região de Portugal se assiste a tão forte debandada do interior. Lembra um pouco a Frísia Oriental - tanto mais que também há anedotas de alentejanos. Como esta: numa corrida entre um caracol e um alentejano é costume ganhar o caracol, mas desta vez perdeu porque foi desqualificado - fez duas falsas partidas.
Desde 2008, a organização dirigida por Apolónia tenta desenvolver a região. Nesse ano, Genuineland teve a ideia de atrair turistas com a escuridão da noite alentejana. Justamente com aquilo que nos faz pensar em pobreza: mal um país começa a enriquecer, as suas cidades, ruas e fachadas cobrem-se de luz. Paralelamente, letreiros luminosos fazem prova de prosperidade.
Quem atravessa as aldeias no carro com Apolónia ganha uma perspectiva completamente nova. "Ali à frente, aquele candeeiro redondo", diz ela, e aponta para uma lanterna típica dos pátios, "tem de desaparecer. A maior parte da luz vai para o céu! É poluição luminosa." Uma expressão praticamente desconhecida ainda há dez anos. A iluminação desenfreada de fachadas, praças, bairros inteiros, auto-estradas: tudo isso leva ao desaparecimento da noite do tempo dos nossos bisavós - com aquele céu estrelado brilhante, que hoje em dia quase só conhecemos de simulações no Planetário. Há gerações a crescer sem alguma vez terem visto uma estrela cadente.
Imagino a Apolónia à noite a atirar sobre os candeeiros
Imagino a Apolónia a deambular durante a noite e a atirar sobre os candeeiros. No fundo, ela tem razão na sua luta por um céu com estrelas: a poluição luminosa global é um problema cultural - e cada fonte de luz confunde os animais noctívagos, ou pode até ser-lhes uma armadilha. A ausência da noite também afecta os humanos: provoca distúrbios nos níveis hormonais, com consequências para a saúde ainda não estudadas. Além disso, esta iluminação geral do globo representa um gigantesco desperdício de energia.
"Monsaraz, por exemplo", diz Apolónia, "a quantidade de luz que irradiava ainda há poucos anos! As pessoas deviam reconhecer logo as suas muralhas e torres." Foi necessário um processo demorado e até um novo presidente da Câmara para fazer avançar o projecto "céu escuro". Last but not least, a crise financeira deu uma ajudinha à Apolónia - menos luz significa menos despesas camarárias. Monsaraz tem agora uma iluminação tímida. E em muitas localidades à volta da barragem do Alqueva os candeeiros da rua apagam-se à meia-noite. Apolónia afirma (e quem a conhece acreditaria nisso imediatamente) que se pusessem mais algum projector luminoso para a muralha de Monsaraz, lhe bastava um telefonema para o fazer apagar logo no dia seguinte.
(continua)
03 junho 2013
fora de época
Esta manhã, enquanto trabalhava na declaração de impostos, andei a explorar o Facebook em busca de música dos amigos. Encontrei no mural do Vítor Santos Lindegaard uma canção que me cativou. Gostei de tudo: a voz, a concertina, a melodia, a calma. Estavam-me a contar uma história - mas qual?
Um pouco mais tarde, o Vítor passou-me uma tradução feita por um colega do Speedy Gonzalez (a internet está cheia de gente boa, é o que vos digo!):
(...) Chegou o Pepe Rápido com uma tradução bastante deselegante, mas que dá para compreenderes de que se trata. É preciso dizer também que Benny Andersen usa esta Rosalina como personagem recorrente das suas canções, um bocado como as Leonores e Nises clássicas, mas era de facto o nome da sua mulher, Cinthya Rosalina.
O sol boceja, sonolento, atrás de uma árvore.
E as sombras vão ficando roxas e alongadas
A lua aparece. Esté em miguante.
Digo eu: "Já deve ser tarde."
"Não," diz a Rosalina, "é o verão que acabou.
A partir de agora, é cada vez mais outono, minuto a minuto"
Ah, sim - ah sim, ah sim, ah sim.
O dia torna-se uma sombra de si mesmo.
E o sol foi substituído por uma lua delgada.
Mas continua a ser bonito, isto aqui.
Então, antes de nos irmos embora, ficamos um bocado de pé.
Envelhecemos, dou-me de repente conta disso.
Está fresco, aqui em Hjortekærsvej.
Ah, sim - ah sim, ah sim, ah sim.
Todos os anos fico triste e melancólico
Nesta altura, quando o verão chega ao fim.
O dar-se conta do passar dos anos.
Das folhas que caem no calendário da vida.
Envelheço dez anos em dez minutos.
E o céu fica sombrio e a lua branca amarelada.
Ah, sim - ah sim, ah sim, ah sim.
Passo em revista a minha vida
Mas só me lembro das coisas parvas.
A lua é de repente engolida por uma nuvem.
A minha resistência vai diminuindo.
Digo: "Rosalina, vamos voltar para trás.
Temos de pensar na minha idade".
Ah sim ‒ ah sim, ah sim, ah sim.
E diz a Rosalina: "Sabes uma coisa?
Espero que o outono venha depressa.
O outono sempre me trouxe força e alegria.
Tenho a impressão de que paro no verão.
As cores do outono têm brilho e temperamento ‒
Sinto-me sempre renascer!”
Ah, sim - ah sim, ah sim, ah sim.
Sai-me o peso do coração.
Imaginem - a Rosalina é minha mulher!
Sinto uma leveza nas pernas.
Quase que começo a voar.
As estrelas apontam constelações no país e na cidade.
A noite ainda é uma criança, o mundo ainda é novo!
Ah, sim - ah sim, ah sim, ah sim.
Porquê olhar para trás quando se quer antes olhar em frente?
Eu e Rosalina apanhamos o Grande Carro para casa.
Ah, sim - ah sim, ah sim, ah sim.
*
Parece-me que esta canção de Outono me vai ficar de todas as épocas.
Como esta outra, que fala de neve - perfeita até para as doces noites de Agosto:
02 junho 2013
apontamentos de uma visita
(Com fotos roubadas à prima-prisma, outras minhas. Vão sem identificação do autor, fica tudo em família)
1.
O concerto com Rattle e a Filarmónica: Pierre Boulez e Brahms. Na primeira parte, as Notations de Pierre Boulez. Estávamos sentadas nos bancos do coro, mesmo por trás da orquestra, o que foi uma sorte porque quase chegámos ao lado de dentro dessa música. Além disso, a Notations II tem um impressionante swing na percussão, que acontecia a meio metro de nós.
(com Pierre Boulez a dirigir)
Parece que a troika também deu na Filarmonia, porque já estão a recorrer a instrumentos musicais que nem à Orquestra Sinfónica de Kinshasa lembraria...
Depois do intervalo fomos para um dos blocos laterais. Era Bruckner, sinfonia nº 7 - queríamos ouvir naquelas cadeiras confortáveis, que nos fazem sentir como na nossa própria sala de estar. Esta sala lembra-me sempre um ovo: redonda, aconchegante, envolvente.
2. Neue National Galerie:
3. E por falar no tempo...
Estava a chover tanto que as fotografias pareciam a preto e branco. Refugiámo-nos na Academia das Artes, junto à porta de Brandemburgo. A comida era sofrível, o serviço péssimo. Mas os cartazes à nossa volta animavam bem o tempo de espera.
4. A caminho do Parlamento parámos no memorial, recentemente inaugurado, que lembra a perseguição nazi aos Sinti e Roma. As palavras de um antigo presidente da República não deixam dúvidas:
5. As salas das comissões parlamentares - mais que um símbolo, uma exigência de transparência na política:
6. Berlim sempre em reinvenção:
7. O museu de arte contemporânea, Hamburger Bahnhof:
Neste momento tem uma extensa exposição de Martin Kippenberger.
Numa das primeiras salas, a escultura "Martin, vai para o canto e tem vergonha!" intimidou-me tanto que nem me aproximei.
Algumas salas à frente ri-me com os seus candeeiros de rua, e com a ironia destes títulos:
Na colecção permanente do museu encontrei um bocadinho de Portugal, pelo olhar de Beuys:
1.
O concerto com Rattle e a Filarmónica: Pierre Boulez e Brahms. Na primeira parte, as Notations de Pierre Boulez. Estávamos sentadas nos bancos do coro, mesmo por trás da orquestra, o que foi uma sorte porque quase chegámos ao lado de dentro dessa música. Além disso, a Notations II tem um impressionante swing na percussão, que acontecia a meio metro de nós.
(com Pierre Boulez a dirigir)
Parece que a troika também deu na Filarmonia, porque já estão a recorrer a instrumentos musicais que nem à Orquestra Sinfónica de Kinshasa lembraria...
Depois do intervalo fomos para um dos blocos laterais. Era Bruckner, sinfonia nº 7 - queríamos ouvir naquelas cadeiras confortáveis, que nos fazem sentir como na nossa própria sala de estar. Esta sala lembra-me sempre um ovo: redonda, aconchegante, envolvente.
2. Neue National Galerie:
Todos falam do tempo.
Nós não.
3. E por falar no tempo...
Estava a chover tanto que as fotografias pareciam a preto e branco. Refugiámo-nos na Academia das Artes, junto à porta de Brandemburgo. A comida era sofrível, o serviço péssimo. Mas os cartazes à nossa volta animavam bem o tempo de espera.
4. A caminho do Parlamento parámos no memorial, recentemente inaugurado, que lembra a perseguição nazi aos Sinti e Roma. As palavras de um antigo presidente da República não deixam dúvidas:
5. As salas das comissões parlamentares - mais que um símbolo, uma exigência de transparência na política:
6. Berlim sempre em reinvenção:
7. O museu de arte contemporânea, Hamburger Bahnhof:
Neste momento tem uma extensa exposição de Martin Kippenberger.
Numa das primeiras salas, a escultura "Martin, vai para o canto e tem vergonha!" intimidou-me tanto que nem me aproximei.
(daqui - the Paris Review, Susan Kippenberger on "Kippenberger", artigo em inglês)
"Elite"
"Helmut Newton para pobres"
Na colecção permanente do museu encontrei um bocadinho de Portugal, pelo olhar de Beuys:
Joseph Beuys, 1921 - 1986
Bacalhau + martelo para surdos, 1959 + 1960
(surdos? em que surdos estaria ele a pensar?) (e: martelo para surdos?!...)
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