30 maio 2026

a herança do cinema

 Wim Wenders, há pouco, ao receber o seu prémio no Deutscher Filmpreis (em tradução bastante livre):

"Sessenta anos! [a fazer filmes] Pude trabalhar com pessoas que aprenderam a sua arte no tempo do cinema mudo. Trabalhei com actores que já tinham feito filmes com Fritz Lang. Trabalhei com um assistente de câmara que, aqui em Berlim, filmou “Menschen am Sonntag” como assistente do lendário Eugen Schüfftan, que inventou a câmara móvel – com todos os truques de imagem que se podem fazer com ela, que ainda hoje são usados. Pude trabalhar com pessoas dessa geração, é uma recordação incrível. A minha experiência profissional vai até essa longínqua fase da história do cinema. Depois veio o vídeo, e o vídeo digital, e tudo o que hoje é possível, inclusivamente 3D. Uma viagem fantástica.
[...] Não quero contar toda a minha vida, mas há algo que é muito importante para mim dizer aqui hoje. Em 1975 recebi o meu primeiro prémio desta academia com “Falsche Bewegung”. O filme recebeu seis prémios, e o jovem que eu era então ficou radiante. E depois a FSK considerou o filme aconselhável para maiores de 12 anos, e anunciou-o como “particularmente valioso”. No entanto – e é isto que quero dizer hoje – é um capítulo difícil da minha vida. Tem uma cena polémica, com uma Nastassja Kinski de 13 anos de peito nu, que eu hoje não teria de modo algum filmado. Hoje sei mais, muito mais. Há outras sensibilidades, vivemos num mundo completamente diferente do que era há cinquenta anos. Não acuso o homem de 29 anos que eu era nessa altura: fez um filme no seu tempo – e eu sempre quis fazer filmes que tocam o Zeitgeist. Não acuso esse jovem realizador, mesmo sabendo que não voltarei a fazer o mesmo. Mas a questão que aqui se levanta tem a ver com todos os que estão nesta sala: como lidar com a herança do cinema? Podemos, estamos autorizados, devemos talvez cortar uma cena quando ela fere uma das minhas actrizes, pela qual tive e tenho a maior consideração? Pode-se cortar? Pode-se encurtar um filme posteriormente? Sinto que me debato sozinho com esta questão, e não sei o que decidir. É uma questão moral – mas a moral também diz respeito à nossa herança cinematográfica e à maneira como lidamos com o nosso tempo. Podemos mudar hoje um filme que já tem 42 anos? O meu amigo Steven Spielberg fez isso uma vez. Nas cenas do E.T. onde as crianças procuram o extraterrestre juntamente com soldados armados até aos dentes, trocou as armas destes por walkie-talkies e coisas do género. E agora, dez anos mais tarde, diz que está muito arrependido de o ter feito. São questões muito difíceis. Tu, Ilker Çatak, talvez daqui a vinte anos te vejas também na situação de o teu “Cartas Amarelas” já não ser compatível com o Zeitgeist. Ou “Olhar o Sol”. Isto diz respeito a todos nós. Como lidamos com a questão? Qual das responsabilidades tem mais peso? Se calhar agora estraguei-vos a noite. [risos] Ficaria muito feliz se a Deutsche Filmakademie criasse um espaço de debate sobre este tema, especialmente com pessoas das gerações mais jovens, no qual eu pudesse participar. Não quero continuar sozinho com ele. Porque se eu fizer alguma coisa – imaginemos que corto aquela cena do filme – será um precedente que vai ter repercussões para todos vocês. Quero debater. Não quero que me deixem sozinho com esta questão.

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