27 maio 2026

Passos Coelho e o "deslaçamento"

O Passos Coelho, a falar do nosso "destino comum" e da "história que trazemos connosco", até me lembra o funcionário da Câmara Municipal do Porto que não queria autorizar um projecto ao Siza Vieira porque "aquela casa não condizia com o estilo das outras casas da rua".
E o Siza Vieira: "Mas refere-se à casa da esquerda, ou à da direita?"
Qual é a história que trazemos connosco? A dos manuais do Estado Novo? Ou a que reconhece a dignidade e os direitos dos povos que invadimos e explorámos?
Por que valores se orienta o nosso "destino comum"? Pelos de um Eduardo Lourenço ou pelos de um político com a coluna vertebral de uma alforreca?
Quem somos "nós"? "Nós" somos os que partem numa flotilha de apoio à população de Gaza, ou as pessoas da Serra de São Paio que esconderam o "Palito" durante 34 dias depois de este ter assassinado duas mulheres da família?
Lembram-se de José Cid a dizer que os transmontanos não são Portugal, ou do Henrique Raposo a falar dos alentejanos?
(Somos a casa da direita, ou a da esquerda, ou todas elas naquela rua do Porto?)
Cuidado com o uso do "nós". É uma ilusão que serve às mil maravilhas para manipular uma sociedade, e lançar os menos precavidos por caminhos muito errados.
E já que falou em História: quando éramos nós a "deslaçar" a terra deles, estava bem, mas quando são "eles" a vir trabalhar para a nossa terra, está mal?
Na realidade, não tenho medo que os imigrantes venham "deslaçar" seja o que for, porque o que somos já é o produto de movimentos milenares de intercâmbio de sociedades e culturas. A nossa língua (haverá mais pátria que a língua?) tem inúmeras palavras dessas culturas com as quais contactamos - e continua a evoluir, conforme as novidades e as necessidades. A nossa música e todas as artes dialogam constantemente com o exterior - com os "outros". Os nossos próprios emigrantes "deslaçam" a nossa cultura: vejam-se as "casas do brasileiro", as "maisons dos franciú", a culinária e a música que os nossos "retornados" trouxeram de África.
Fechar a porta da migração seria abrir um capítulo radicalmente diferente na nossa história: de país de emigrantes e imigrantes, passamos a povo fechado dentro das suas fronteiras.
(E é melhor nem perguntar se nómadas digitais e vistos gold também "deslaçam", ou se o medo do "deslaçamento" tem sobretudo a ver com a cor da pele e a conta bancária.)
O único "deslaçamento" que devemos impedir é o do código penal. Basta cuidar que as leis se apliquem a todos de igual forma. De resto, não importa se uns dançam vira e outros samba, se uns cantam fado e outros mornas, se uns comem carne de porco e outros são vegetarianos. Dentro dos limites de um enquadramento legal comum, há espaço para todos.
(Para terminar, um momento de comédia: já vi um taxista português a queimar um vermelho, e logo a seguir a zangar-se muito com os ciclistas indianos que não respeitam as nossas regras...)
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Do Público:
"Uma palavra ainda para a imigração, com Passos a considerar que a Europa se “está a deslaçar” com os movimentos migratórios, “que são demasiado intensos”. “Não conseguimos viver sem os imigrantes, mas também não conseguimos viver com a quantidade de imigrantes que não se aculturam, que não se integram, que não estão disponíveis, digamos assim, para se identificar com aquilo que nós podemos chamar a idealização do nosso destino comum, que é feita na base de uma história que nós trazemos connosco”, atirou."

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