11 março 2026

O velho, o rapaz, e o burro – variações sobre um vestido

 



Primeira variação: o preço
O vestido Valentino da Margarida Maldonado Freitas é uma ofensa a quem ganha o salário mínimo. Mas se ela tivesse ido à tomada de posse do marido com um vestido da Primark, ai e tal, que não tem noção e não sabe respeitar a Casa da Democracia. Pior: anda vestida com roupa feita por mão-de-obra escrava no Bangladesh, a bandida!
Podia ter mandado fazer um vestido parecido numa modista das Caldas. Nesse caso, ai e tal, que parola provinciana, que vergonha para o país, aparece nesta cerimónia vestida com uma imitação fraudulenta. Até parece que o marido não ganha o suficiente para lhe pagar um vestido que não seja contrafação. Ai, ela também não ganha mal?! Se tem dinheiro suficiente para comprar melhor, porque vem então vestida com um vestido daqueles tipo vírgula noventa e nove cêntimos? Quem é que ela quer enganar? Será que decidiu vir ao Parlamento “brincar aos pobrezinhos”, como a outra da Comporta? Isso é uma grande ofensa contra quem ganha salário mínimo!
(Sobre o preço do vestido ser uma afronta a quem ganha salário mínimo, pergunto: têm noção de quanto custa vestir o Parlamento de festa com cravos vermelhos no 25 de Abril? Seria talvez melhor pôr lá só uma jarrinha com meia dúzia de cravos, porque afinal o que conta é o símbolo, e não é preciso ofender as pessoas que ganham salário mínimo? E, afinal, os ministros devem ir trabalhar de mota, em vez de carro com motorista? E querem propor que o presidente da República passe a andar de Tuk-tuk, que sempre é mais compatível com o salário mínimo dos portugueses?)
Segunda variação: o design
Ai e tal, porque não levou um vestido de um estilista português? Se levasse um estilista português, “olhamesta, deve pensar que é a princesa de Gales, ou influencer, que grande convencida!” Ai e tal, como se atreve ela a incluir um elemento português numa criação do Valentino? Ai os direitos de autor!
E porquê este corte atemporal, tão formal e distante? Estamos no século XXI, será que ela não notou?
Terceira variação: o material
É português? Porque não é português? Tinha de ser tão grosso? Não poda ser mais fino? Que mau cair!
E porquê corações de Viana em vez de botões de cortiça alentejana? Ai os favoritismos regionias! Então o marido não disse que queria ser o presidente de todos os portugueses? Não estou a ver nada...
E porque não botões de um estilista português com materiais de ponta da ciência têxtil portuguesa? Porquê apontar para o folclore em vez de apontar para o futuro? Portugal é tão inovador nos têxteis, porque não aproveitou ela para ser uma montra do melhor que Portugal tem para dar ao mundo?
Quarta variação: o efeito no corpo
Cai mal. Assenta mal. Põe-na mais assim e mais assado. Parece uma isto, parece uma aquilo.
Não me alongo nesta variação, todos sabemos do que estou a falar.
Contraponto:
Alguém olhou para os sapatos dos homens, e verificou se eram da feira de Barcelos ou feitos à mão em Budapeste? Alguém verificou o cair dos fatos, a fazenda? A cor das gravatas, o corte, o material, o preço? Os óculos dos homens: alguém verificou? As meias? Os cortes de cabelo? As unhas? Alguém gastou tempo a discutir se o corte dos fatos era arrojado ou clássico? Se as cores eram modernas ou sensaboronas? Se já repetiram o fato noutra ocasião?
(Alguém comentou o facto de se verem tantos homens e tão poucas mulheres na sessão do Parlamento?)
Fuga:
“Joga pedra na Geni. Ela é feita para apanhar, ela é boa de cuspir.”
Já sabemos como vai ser o futuro de Margarida Maldonado Freitas: ela, que até recusou ser “primeira dama”, vai andar sempre mal vestida, seja o que for que vestir. Porque é feita para apanhar, e além disso dá-nos mesmo muito gozo cuspir.
Mais grave ainda: as vozes que mais alto cantam “joga pedra na Geni” são femininas.
Quando aprenderemos a deixar as mulheres, e o que vestem, em paz? A não esfaquear as nossas irmãs pelas costas?
Coda:
Vir a público criticar como nos apetece aquilo em que outros gastam o seu dinheiro vai tornar o nosso mundo um lugar ainda mais irrespirável.

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