24 março 2026

fale com elas

 


Por estes dias, tenho-me lembrado muito daquela rábula do Ricardo Araújo Pereira na altura em que se andava a debater a descriminalização do aborto:
"Ah, que é que havemos de fazer hoje? Vamos ao cinema? Não, hoje acho que prefiro ir fazer um aborto."

Alguém com um mínimo de noção acha que uma pessoa vai ao registo mudar o nome e o sexo assim só porque não lhe ocorreu nada mais interessante para fazer nesse dia?

Qual é, especificamente, o problema com a lei anterior, que querem agora alterar? Estou a falar da lei concreta, e não do que pensam que a lei diz.

E recomendo muito, como o Paulo Azevedo recomendava no post que publiquei anteriormente, que falem com as pessoas, em vez de falarem delas. Como fez o João Costa (artigo no Expresso):

"Em 2018, fui chamado a legislar sobre os direitos das crianças e jovens trans. Fui apanhado no mais puro desconhecimento. Perante isto, tinha três hipóteses: sair do processo, legislar apenas guiado pelas minhas convicções, fossem elas preconceitos ou crenças, ou escolher a via mais trabalhosa. Fui por esta última. Quis ouvir e conhecer. Recebi pais e mães, falei com professores e educadores, falei com especialistas (clínicos e outros), conheci jovens e adultos trans. Ouvi as suas histórias de vida, sobretudo os pais que foram surpreendidos por, nalguns casos, terem filhos que, aos 2 anos de idade, choravam porque não eram quem lhes diziam ser. Ouvi a violência dos nomes apagados por não haver como os nomear, a punição associada, o medo da partilha de alguns espaços. Percebi que, como diz a OMS, não estávamos perante pessoas doentes e que, sobretudo, ninguém se atira para um caminho tão violento por estar a seguir uma moda ou uma ideologia. Pessoalmente, foi a maior lição sobre o exercício difícil da empatia. Tive de ver o mundo pelos olhos daqueles jovens e das suas famílias e nunca poderei agradecer-lhes suficientemente o quanto me fizeram crescer como pessoa.

Saiam da bancada da Assembleia da República, saiam do pedestal de superioridade em que se colocaram e deem-se ao trabalho de conhecer o outro. O ódio que cospem é apenas fruto da incapacidade de conhecer.

Não se pense que não conheço esse desconhecimento. Também eu já achei que as pessoas trans eram estranhas, doentes ou bizarras. Apenas porque nunca me tinha dado ao trabalho de estudar, de as conhecer, de com elas trabalhar, de através delas entender e sentir a dificuldade da sua vida."

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Uma nota pessoal: aos seis anos, a minha filha tinha uma amiguinha que se vestia de rapaz, só fazia brincadeiras de rapaz, odiava tudo o que estava conotado com meninas, e tinha um ar profundamente zangado e infeliz. Não sei o que lhe aconteceu entretanto. Mas sei que teria uma enorme angústia se um filho meu estivesse a passar por isto. E vocês: que sociedade e que leis gostariam de ter, se uma filha vossa aos seis anos mostrasse que estava profundamente infeliz no sexo que lhe foi atribuído?


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