26 março 2026

condenar a escravatura

 



Encontrei esta imagem num post do Facebook onde se falava da proposta que o Gana fez na ONU, para considerar o comércio escravo no Atlântico o maior de todos os crimes contra a Humanidade. A autora informava ainda que a proposta prevê também indemnizações e devoluções, e criticava-a por deixar de fora as práticas de escravização no interior de África e na Ásia, que, em parte, perduraram até aos nossos dias.
A primeira ideia que me ocorre é que querer determinar qual é "o maior crime de sempre" é um exercício tão arriscado quanto desnecessário. Quem leva a medalha de ouro, a de prata e a de bronze nesta competição entre raptar pessoas e condená-las a ser propriedade de outrém, fazer listas com nomes de crianças para as meter em câmaras de gás, ou violar sistematicamente as mulheres de uma terra conquistada, para além de tantos outros crimes contra a Humanidade? Venha o diabo e escolha... O argumento "e sou só eu? cadê os outros?" também me suscita algumas dificuldades. É verdade que não foi a Europa quem inventou a escravatura, e esta já era prática corrente em muitos outros lugares. Mas, em primeiro lugar, o que outros fizeram não me isenta da minha responsabilidade pelo que fiz e pelas consequências do que fiz. Em segundo lugar, as práticas da escravatura não são iguais em todos os lados, e a praticada pelos europeus nas rotas do Atlântico foi particularmente brutal e desumanizante.
Na votação na ONU, os países europeus abstiveram-se. EUA, Argentina e Israel votaram contra. Reparei, em particular, no voto do Brasil, que foi muito corajoso: se é certo que pode deitar as responsabilidades para Portugal até à independência, a verdade é que o novo país manteve todo o sistema. Nem libertou os escravizados que já lá estavam, nem os libertou ao menos da hereditariedade da escravatura, nem mandou parar os navios negreiros. É um dos poucos que dá o passo de assumir abertamente o peso do seu passado.
Em suma: Penso que não podemos apontar o dedo a outros para escapar à nossa própria responsabilidade. O sistema esclavagista do Atlântico - com as suas características próprias: sistema massivo, profundamente racista, altamente violento e com passagem da condição de escravos de pais para filhos - é um crime contra a Humanidade, e temos de nos confrontar com o que os nossos países fizeram e as consequências que ainda hoje condicionam a vida dos descendentes das vítimas. Esse trabalho de confronto com a nossa História deve incluir também aqueles que, no continente africano, capturavam seres humanos para vender aos europeus. Também eles fizeram parte do sistema.
E penso que, depois de aprovar esta proposta, havia que apresentar, logo a seguir, uma outra proposta de condenação do sistema de escravatura que ocorreu e, em certos casos, ainda ocorre em África e na Ásia.

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