Sobre a mais recente manobra dos partidos de direita que dizem defender os valores cristãos, juntamente com o alforreca faz-de-conta-que-é-beato, entretidos em jogadas políticas à custa de algumas das pessoas mais vulneráveis da nossa sociedade, partilho este texto de Paulo Azevedo (que enocntrei no seu mural do Facebook):
"Eu juro que achei que a lei que tinhamos sobre a possibilidade de transição de género abrangia crianças. A propaganda é lixada e não me informei sobre os exatos contornos (os casos que segui, profissionalmente, já estavam próximos dos 18). A única coisa que é possível, antes dos 16 anos, é a utilização de bloqueadores da puberdade; e mesmo isso passa por avaliação e acompanhamento da saúde mental e da endocrinologia. Não é a pedido, e eu sou a favor de acompanhamentos psicológicos robustos, sem a obsessão das escalas, sem patologização e com um conhecimento aprofundado da subjetividade de cada um. O risco da ‘moda’, ou da transição de género ser um sintoma-porta de saída para outros sofrimentos é, assim, diminuto. Não é zero, mas isso não existe.
A esmagadora maioria dessas pessoas não está bem com o género biológico em que nasceu e isso não é, garantidamente, um capricho. Para a maioria, é tão claro como eu saber que sou um homem. Se eu já o sabia na infância e adolescência, por que raios alguns não saberão que estão no género errado, com uma clareza equivalente? Daqui a 5 e 10 anos avaliar-se-ia, como fizemos com a liberalização das drogas, que os mesmos de sempre tanto criticaram e que correu muito bem.
Do meu ponto de vista, uma sociedade deve assumir alguns riscos, a favor do que está certo. E o que está certo é o respeito pela autodeterminação. Das pessoas, como dos povos. Tal como na eutanásia, em qualquer uma destas questões há o risco de algo correr mal. Mas também há autênticas epidemias de doenças físicas e mentais e suicídios e destruição de famílias, todos os dias, por causa deste sistema económico que consome e cospe o ser humano; e não me parece que ele esteja a ser muito posto em causa.
O que se passa, então, no lado da reação? Porque razão acham que o governo deve substituir-se à pessoa e à família, nessas decisões? Encontro três motivos principais: o medo (tão comum àquela ‘zona’ política), a incapacidade de compreender algo que revolucione a ‘ordem natural das coisas’ do seu mundo interno e uma gritante falta de empatia pelo diferente de si (na verdade são só 2, porque a falta de empatia é medo). Acrescentem-se tendências de dominação sobre os outros (medo) e textos com 2000 anos (autoridade delegada). Perda de poder sobre o desenho social.
A pessoa transgénero não vai desaparecer só porque alguns, ou até muitos, acham mal. Como os homossexuais não desapareceram. Resta saber se queremos, como sociedade, aliviar-lhes um pouco a existência ou se valorizamos mais o nosso senso comum. O senso comum não é sinónimo de verdade, é uma convenção anti-estremecimentos.
A única conclusão que me ocorre é: metam-se nas vossas vidas e façam coisas fixes com os vossos filhos. E ouçam-nos, em vez de só falarem."
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