15 fevereiro 2026

qual seria a sua resposta?


Sobre o grande escândalo do Wim Wenders na Berlinale 2026 a dizer que "o cinema não é política, o cinema é o contrapeso da política", convido todos a ver essa parte da entrevista, que começa neste vídeo a 18'37''. Em síntese: Jornalista 1: Que espera da Berlinale 2026 num mundo rodeado de guerras? Os filmes podem mudar o mundo? Wim Wenders: Sim, os filmes podem mudar o mundo. Não de forma política, nenhum filme mudou as ideias dos políticos, mas podemos mudar as ideias das pessoas sobre como deviam viver. Neste planeta, há uma grande discrepância entre pessoas que querem viver a sua vida e governos que têm outras ideias. Penso que os filmes entram no espaço desta discrepância. Temos esperança que sim.

Jornalista 2: Como lhes parece que os filmes podem mudar nestes tempos negros que estamos a viver? Tricia Tuttle (resumo): O cinema permite-nos a empatia, permite-nos entrar na pele do outro, ver o mundo pelos olhos de outra pessoa. Os filmes mudam o nosso ponto de vista - o que é algo muito difícil de fazer apenas com diálogo. Wim Wenders: Não se aprende nada assistindo apenas aos noticiários. Aprende-se muito mais com um filme onde se viu uma pessoa na sua situação, o seu sofrimento, e como preferiria viver. O cinema tem um poder notável de compaixão e empatia. Os noticiários não têm empatia. A política não tem empatia. Mas o cinema tem. E esse é o nosso dever.

Jornalista 3: Mudar o mundo... Este festival não acontece num vácuo. A Berlinale como instituição tem mostrado solidariedade com as pessoas no Irão, na Ucrânia, mas nunca com a Palestina. Mesmo hoje em dia. Perante o apoio do governo alemão ao genocídio em Gaza e o seu papel como maior financiador da Berlinale, pergunto: os senhores, como membros do júri, apoiam este tratamento selectivo dos direitos humanos?

[ Passo a pergunta aos leitores deste post: que é que respondiam, se estivessem no lugar daquele júri? Não respondiam nada, porque nem sequer estavam ali sentados como membros do júri, uma vez que não querem ter nada a ver com "um governo cúmplice de genocídio"? Lavavam daí as vossas mãos? O festival decorria sem vocês (e portanto também sem filmes que mostram ao mundo como é a vida dos palestinianos)?

Ou respondiam: "Malditos sionistas! Genocídio! Fim ao regime de Netanyahu! From the river to the sea!" - sabendo muito bem que iam provocar o maior escândalo de sempre da Berlinale, e que provavelmente seria o fim deste festival? Ou respondiam o possível, algures entre o oito e o oitenta? Por exemplo: ] Tricia Tuttle: O júri quer responder? Penso que também gostaríamos de falar sobre os filmes no festival.
Jornalista 3: Como disse, os filmes também são política, como acabaram de dizer. Ewa Puszczyńska: Os filmes não são políticos naquilo que me parece que é a sua acepção. Os filmes são sobre empatia, tentar entender, formar as suas próprias ideias. Pôr-nos esta questão é um pouco unfair. Usámos a frase "mudar o mundo", mas estamos a tentar falar com as pessoas, com cada um dos espectadores, para os pôr a pensar. Mas não podemos ser responsáveis pelo que eles vão decidir. Deviam decidir apoiar Israel? Ou apoiar a Palestina? Podíamos falar sobre o Senegal e muitas outras questões, e você falou apenas da maior, mas há muitas outras guerras onde está a ser cometido genocídio, e não falamos sobre isso. Portanto: é uma questão muito complicada, e é um pouco unfair perguntar-nos a nós o que achamos ou não achamos, se apoiamos ou não, se falamos com os nossos governos ou não. Falando por mim: voto, uso os meus direitos como cidadã da Polónia, da Europa e do mundo, participo em marchas, apoio as causas que acho que devo suportar. Mas os outros elementos do júri podem tomar outras decisões. Penso que pôr-nos uma pergunta destas e esperar que demos a "resposta de tipo geral" não é fair. Wim Wenders: Não podemos ocupar o espaço da política. Temos de ficar fora da política, porque se fizéssemos filmes dedicadamente políticos, entrávamos no espaço da política. Mas nós somos o contrapeso da política. Nós somos o oposto da política. Temos de fazer o trabalho das pessoas e não o da política. [ Antes que comece a berraria, mais algumas ideias: - Aquela pergunta do jornalista não se destinava a ajudar o povo palestiniano. Destinava-se apenas a encurralar o júri e a directora da Berlinale, esfregar-lhes a hipocrisia na cara? Um herói... A Berlinale tem mostrado filmes importantíssimos sobre o sofrimento do povo palestiniano, e tem havido - tanto nos filmes que mostram como no discurso - gestos fortes de solidariedade com a população de Gaza. Mas enquanto os responsáveis não disserem no palco do festival "genocídio" e "apartheid!", os justiceiros não descansam. Mesmo que seja a última batalha que ganham, e mesmo que isso só piore ainda mais as perspectivas do povo palestiniano.
- Foi na Berlinale que vi praticamente todos os filmes - absolutamente dilacerantes - que conheço sobre a situação do povo palestiniano. Em 2024, No Other Land ganhou o primeiro prémio (e o discurso de um dos realizadores, o israelita, onde falou em genocídio e apartheid provocou um escândalo enorme; na altura, temeu-se a saída de alguns patrocinadores e o fim dos apoios estatais; de facto, a Berlinale está cada vez mais pobre). Em 2005, a própria Berlinale financiou a realização do filme Paradise Now - outro escândalo enorme. Este ano, traz Chronicles from the Siege, onde, apesar de não o dizerem, tudo grita "Gaza". - O massacre do Hamas em 2023 tinha um objectivo claro: virar o mundo contra Israel. E caímos como uns patinhos: dividimo-nos entre "e tu, és contra o Hamas?" e "e tu, és cúmplice do genocídio?" Pelo caminho, ficou a pergunta essencial: "e nós, o que podemos fazer para dar ao povo palestiniano a vida digna que lhe foi roubada, e continua a ser roubada todos os dias?" (Dou uma ajudinha: gritar "genocídio!" virado para o governo alemão não ajuda.) Como ficou pelo caminho a consciência de que fomos nós, os europeus, quem atirou os judeus para aquela terra - séculos e séculos de perseguições terríveis, aliada a um pensamento colonialista que reduzia judeus e árabes a meros peões de um jogo onde só os interesses dos europeus contam. Mas esquecemos tudo isso, e apontamos agora o dedo - oh, o nosso dedo tão limpo, tão íntegro, tão ético e tão cheio de boa consciência - aos "malditos sionistas". Como se eles tivessem aterrado na Palestina vindos de Marte. Como se a tragédia de Israel na terra dos palestinianos fosse um fenómeno inteiramente alheio à Europa. - Pergunto ao jornalista que atirou aquela pergunta: se, por causa da sua provocação, a Berlinale desaparecesse, ou se perdesse a diversidade, a tensão e a liberdade que, apesar de tudo, ainda tem, os palestinianos iam ficar melhor ou pior? - Já agora: perguntem à Leni Riefenstahl se a arte deve ser política. ]

Sem comentários: