01 fevereiro 2023

o cometa verde

 

Parece pirraça: o cometa C/2022 E3 ZTF lembra-se de vir cá dar um ar da sua graça justamente quando há mais nuvens no céu, e a lua está demasiado luminosa. Já não nos bastavam as crises que temos no nosso planeta, agora até o universo começa a trocar o passo...

E logo este cometa, que não costuma vir cá muito: da última vez, ainda era no tempo dos neandartais. Se temos de esperar outro tanto para o ver de novo, mais vale ir buscar uma cadeirinha e pôr o Godot a passar em loop.

[ Eis que este post chega a uma encruzilhada: de facto, comecei a escrever com a ideia de partilhar a fotografia que tirei ontem ao "cometa" (atenção às aspas). Mas agora que falo nos neandartais, foge-me o dicurso para o humor negro: à velocidade a que estamos a andar para trás, daqui a nada estamos outra vez no tempo deles... Melhor voltar à piada pateta, que aquele humor negro não faz bem. ]

Como ia dizendo: ontem, à hora a que ia dormir, descobri que tinha parado de chover e o céu estava límpido e estrelado. Sentindo que o universo estava a querer emendar o erro de programação, fui logo em busca do cometa, claro. Não o encontrei - não sabia onde procurar nem o que procurar, e o luar estava excessivo (de onde se verifica que o luar dá mais jeito à literatura que à ciência). Fiquei uns momentos no terraço, cheia de frio, a fazer cara de "onde está o Wally?" e depois, já quase congelada, ocorreu-me que o cometa estava ali, algures, de certeza. Independentemente de eu o ver ou não, estava ali - e isso já me bastava. (Tem aqui matéria para fazer um estudo de correlação entre frio e pensamentos filosóficos profundos. Estava capaz de apostar que de dois graus negativos para baixo, de pijama e pés descalços, ultrapasso o Hegel a duzentos.)

Por descargo de consciência, tirei uma fotografia ao acaso. Esta manhã, quando olhei melhor para ela, descobri que o meu telemóvel me oferecera um cometa verde só para mim. Que aqui partilho convosco:


(Mais um prémio Nobel para a mesa do canto...)


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