31 agosto 2021

vacina covid: como ajudar os alemães ainda indecisos

Estou aqui a pensar num truque para aumentar o número de vacinados na Alemanha: o governo diz que quem quiser tem até 30 de Novembro para fazer as duas vacinas, e que no dia 1 de Dezembro todas as vacinas que ainda existirem neste país serão enviadas para oferecer a países do hemisfério sul.
Tiro e queda.

Moral da história: a inveja salva.


30 agosto 2021

de volta ao gineceu

O Vasco Barreto (logo ele!, hehehe) foi acusado de machismo estrutural por se propor a conversar com mulheres sobre o estilo da indumentária de uma ministra, e foi assim que fiquei a saber que esse tema está vedado aos homens. É pena: vou ter de combinar com ele tomarmos um café na clandestinidade para podermos trocar ideias sobre, por exemplo, a diferença de estilos de vestuário de uma Angela Merkel e uma Christine Lagarde. É certo que já debati esse tema no facebook, e na altura participaram homens e mulheres. Mas isso foi há uns anos. Em 2021 já não se pode. A não ser - se bem entendi o que lhe disseram no twitter - que os homens participantes na conversa tenham o cuidado de discutir previamente o que algum político (homem) vestiu. Só assim conseguem um visto que os autorize a conversar sobre estilos de roupa de uma mulher. 

A culpa disto tudo, em minha opinião, é dos raixparta dos homens da política, que podiam ousar um pouco mais, para haver o que dizer sobre o que vestem, em vez de assentarmos todas as baterias nas mulheres. Mas não: andam sempre com aqueles fatos escuros, aquelas camisas brancas, aquelas gravatas azuis (nos dias normais) e vermelhas (na campanha eleitoral). Excepto o assessor da Joacine, abençoadinho!, que escolheu uma toilette bastante feiosa para o seu primeiro dia no Parlamento, e assim nos ofereceu abnegadamente vários dias de discussão: saia plissada, camisa fechada até ao gasganete, pffff! 
(O apicultor que volta e meia vem cá resolver problemas com as nossas abelhas tem uns vestidos bem mais engraçados que aquilo.) (Vasco, falaste sobre a roupa do assessor da Joacine nessa altura? Se calhar ainda não prescreveu, e assim já ficavas autorizado a falar agora sobre a roupa daquela deputada.)

Este incidente lembra-me um outro, que aconteceu no início da plataforma Capazes, quando ainda se chamavam "Maria Capaz". Um dos homens que participavam no grupo foi tão mal tratado que às tantas perguntou se aquela era uma plataforma feminista ou uma plataforma feminina. E é aí que vejo o maior problema deste tipo de feminismo: ao pôr uma placa de "menino não entra" em certos temas, estamos a deslocar esse assunto para dentro de um gineceu - e nós com ele. O que é, obviamente, um empobrecimento. 

Além disso, é difícil explicar aos homens - que queiramos ou não perfazem cerca de 50% da nossa sociedade - porque é que têm de aceitar a mordaça que algumas pessoas lhes querem impor. Corre-se o risco de uns largarem em gargalhadas trocistas e outros - os que podiam ser aliados importantes na luta feminista - encolherem os ombros enquanto cantarolam:

 "vão sem mim que eu vou lá ter". 


A de Aveiro, B de Braga, C de Coimbra...

Nunca aprendi os nomes certos para soletrar em português. Em vez de A de Aveiro e B de Braga, era o que saía no momento - A de atãová, B de burro...

Também não aprendi na Alemanha, o que dá cenas um bocado gagas, porque os alemães não gostam de reinventar a roda quando a que já está inventada ainda funciona muito bem. E esta deles (A de Anton, B de Berta, D de Dora...) sempre me pareceu inventada há milénios. E funciona lindamente, especialmente para quem a usa (o que não é o caso de uma certa pessoa que eu cá sei, que fica com os neurónios a mil à hora ao mesmo tempo que gagueja e se pergunta "ai, como é que se diz atãová em alemão?").  

Pensava que existia há milénios, mas não: bem enganada estava. Isto tem mudado muito, e pelos piores motivos. Mal chegaram ao poder, os nazis retiraram da lista todos os nomes que pudessem parecer judaicos. Anton em vez de Albert (suponho que seria por causa do Einstein), Dora em vez de David, Siegfried em vez de Samuel, Zeppelin em vez de Zacharias. 

Ypsilon deu lugar a Ypern (Ypres). Talvez por ter sido nesta região da Flandres que se estreou a guerra química (1915: o exército alemão atacou nesse campo de batalha com cloro líquido) e se usou o gás mostarda pela primeira vez (1917)?

O judeu Nathan - personagem de um dos livros mais importantes do iluminismo alemão, "Nathan, o sábio", no qual Lessing faz a apologia da tolerância - é transformado em Nordpol (Pólo Norte). No programa "ttt - titel thesen temperamente" explicam que esta palavra era muito importante para os nazis, pois afirmavam que a cor de pele dos arianos provava que eram oriundos do norte; mais diziam que os alvíssimos arianos vindos do norte trouxeram com eles o fogo, e foram avançando e obrigando os de pele escura a recuar para sul. Até que os judeus se meteram pelo meio e estragaram tudo...

(E nós admirados por no nosso tempo haver quem acredite que a terra é redonda. Por aqui se vê que no tempo da "quarta classe antiga" as pessoas também acreditavam em qualquer patranha que lhes quisessem impingir.) 

Em todo o caso: hoje em dia ainda estão em vigor muitos dos nomes que os nazis introduziram nesta tabela. Alguns foram mudados no fim da guerra, mas os nomes judaicos continuam apagados. 

De momento há uma proposta para trocar os nomes próprios por nomes de cidades alemãs. Mas eu gostaria que reintroduzissem os nomes judaicos e também alguns nomes de estrangeiros que vivem neste país. Por exemplo: bem podiam trocar o Heinrich do H por Helena. 

(Enfim, era só uma ideia...)

Piadinhas à parte: nomes de cidades não está mal, mas parece-me que seria muito mais interessante usar nomes alemães e estrangeiros para reflectir a realidade da sociedade alemã. Embora seja mais uma daquelas ideias que ninguém quereria pôr em prática, por temer exaltar ainda mais os ânimos. Que isto parece haver uma correlação directa entre o planeta cada vez mais plano e as cabeças cada vez mais quadradas...

29 agosto 2021

enquanto isso, em Kabul...

Os taliban invadiram Kabul bem antes da altura prevista pelos incompetentes que governam o mundo, e este blogue entrou em letargia. Bem sei que corro o risco do ridículo, porque o planeta continua a girar à mesma velocidade independentemente do que escreva aqui, mas não tenho conseguido conciliar num só blogue os dois planos - o desta minha vida que continua amena, e o da tragédia afegã que corre a passos cada vez mais rápidos para o seu desfecho anunciado. 

Já comecei vários posts sobre a tragédia do Afeganistão, e perdem a actualidade mesmo antes de serem publicados. Simultaneamente, a minha vida berlinense recomeçou com a intensidade habitual - mas tenho uma espécie de prurido em escrever os textos do costume.

Como posso contar sobre as férias e o meu regresso a Berlim sozinha de carro (3 dias ao volante) e no post seguinte falar sobre o regresso ao futuro que ameaça as mulheres de Kabul? Como publicar as terríveis imagens dos afegãos no aeroporto, e a seguir escrever sobre o início da temporada na Filarmonia, ou resmungar sobre a seca na hortinha apesar de todos os dias haver previsão de chuva? Como posso partilhar fotos da reabertura da Neue Nationalgalerie e dos passeios com o Fox, e entremear com imagens de pessoas a cair de um avião?

Como escrever sobre o asco (é a palavra) que sinto pelos políticos que andaram a dificultar deliberadamente a fuga daqueles que acreditaram na promessa de modernizar o país e por causa disso têm agora a cabeça a prémio - e a seguir comentar que a máquina de lavar a louça que comprei há tempos é tão económica tão económica tão económica que acaba por não lavar a louça bem como devia?

Como explicar (até a mim própria) que é possível sentir uma apreensão sincera ao abrir o twitter, por saber que vou ser confrontada com imagens terríveis, e passar depois para o instagram e desatar a distribuir coraçõezinhos entusiasmados pelas férias dos meus amigos?

A verdade é que enquanto o "sonho americano" em que alguns afegãos acreditaram se tornou um horroroso pesadelo, a nossa vida nesta parte da Europa continua como antes: as férias e o trabalho, a família e os amigos, os propensos à cretinice a instrumentalizar a tragédia afegã para tentar encurralar ou ridicularizar adversários, os egoístas empedernidos a afirmar que "eles não são dos nossos" e devem ficar num dos países vizinhos ("eles":justamente os afegãos que acreditaram no horizonte que nós lhes prometemos e participaram na construção de uma sociedade à imagem das ocidentais, mesmo que isso implicasse fechar os olhos aos tantos erros cometidos pelos ocupantes).

Sim, tudo na mesma: apesar da vergonha que sinto pela traição mortal que o Ocidente de que faço parte cometeu contra tantos afegãos e contra a sua credibilidade como defensor dos direitos humanos, a minha vida continua igual ao que era. E dou-me conta de que seria até hipócrita manter este blogue mudo de vergonha e choque enquanto eu, eu propriamente dita, continuo a viver como sempre. 

Por isso recomeço: dois dedos de conversa sobre o que nos desaquieta, o que nos faz rir e o que dá que pensar, o que nos choca e o que nos alegra. Sobre a vida tal como nos vai acontecendo: na sua imensa variedade.


15 agosto 2021

15 de agosto de 2021 - por quem dobram os sinos?

Hoje é o dia 15 de agosto de 2021, Berlim está linda de sol e verão, pela janela aberta chegam-me os gritos alegres das crianças que brincam à solta na rua, faço piadas sobre comer chocolate e adiar o início da dieta. 

É também o dia em que Kabul caiu nas mãos dos taliban, e a Alemanha acordou sobressaltada - pensava-se que demorariam ainda entre 2 e 3 semanas a chegar à capital, e afinal precisaram apenas de meia dúzia de dias. A informação, esta manhã, era de que iam começar amanhã a evacuação dos alemães que ainda estão na cidade. A troça no twitter não se fez esperar: "ao domingo não se trabalha na Alemanha..." As críticas e os apelos também estão a chegar em força: como é possível a Alemanha não estar em condições de iniciar imediatamente as operações (tanto mais que sabia perfeitamente o que ia acontecer) e, mais grave ainda, como é possível que deixe para trás os cidadãos afegãos com quem trabalhou ao longo destes 20 anos, e que ninguém duvida que nos próximos dias vão ser cruelmente assassinados pelos novos senhores da cidade?
(Ah, se deixassem o twitter mandar...)   

Como tantas vezes nestes tempos de informação omnipresente, sinto o coração apertado pela desmesurada tragédia que se abate sobre aquele país - mas ao mesmo tempo saboreio o meu almoço de domingo e todas as pequenas alegrias que se me oferecem. Uma espécie de esquizofrenia que me (nos) deixa a salvo de sucumbir ao sofrimento do mundo?   

Pergunto-me ainda: porque me aflijo tanto com Kabul, se nem sei o nome das regiões de onde os taliban nunca chegaram a sair? Provavelmente - é com vergonha que o reconheço - porque é em Kabul que estão os últimos ocidentais, e era em Kabul que tínhamos ancorado a esperança de levar os nossos valores àquela sociedade. Hoje o "meu" Afeganistão foi derrotado - o Afeganistão que ensaiava passos de liberdade religiosa, de liberdade de expressão, de direitos iguais para as mulheres, de respeito pelos LGBT...

Penso no texto de John Donne: "Ninguém é uma ilha isolada; cada pessoa é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer pessoa diminui-me, porque sou parte da humanidade. E é por isso que não deves perguntar por quem os sinos dobram: eles dobram por ti."

Se a tragédia do Afeganistão me dói tanto hoje, suspeito que é por essa espécie de torrão que está a ser arrancado à Europa. 

(Eis como em duas penadas consigo subverter a ideia universalista de John Donne - e vou passear o cão, que não tem culpa nenhuma, e já está farto de esperar.) 


em flagrante

O Fox veio passar uns dias cá em casa (coitadito - sente-se sempre muito desgraçadinho quando está longe do Matthias), pelo que recomeçaram os meus passeios diários. Ao passar descansadamente junto a um terraço sobre o lago, ouvi chamar: "Helena! Estás cá?"

Era a minha professora de zumba e outras torturas várias, que estava a preparar a sua sessão das manhãs de domingo. É claro que eu tinha visto as mensagens no grupo whatsapp, mas fiz-me de morta. E nem reparei que o lugar já não era o jardim da professora, mas aquele lugar público onde costumo passear com o Fox. 

Apanhada em flagrante: eu, e mais tudo o que o Cadbury i sus amiguitos me têm acrescentado desde o início da pandemia. 

No próximo domingo não escapo. Agora só tenho de decidir se arranjo de apanhar uma gastroenterite de cinco dias seguidos, ou se vou comprar roupa de desporto um tamanho acima. 

Aceito sugestões. 



13 agosto 2021

socorro!

SOCORRO!
Estou a ser atacada por um Cadbury gigante!
Nestes momentos, a minha força de vontade põe-se sempre na alheta, e deixa-me aqui sozinha a lutar contra um inimigo muito mais poderoso que eu.
Sou uma vítima.
 
 

paredes-meias

(fonte: DW)
 

 
 
Faz hoje 60 anos que a população de Berlim Leste acordou fechada dentro de um muro.
(Bem sei que quem estava dentro do muro eram os de Berlim Ocidental, mas esta prisão tinha paredes convexas.)
 
Por coincidência, hoje vou festejar o aniversário de uma amiga no antigo corredor da morte, numa casa construída junto à cicatriz da cidade: trechos onde retiraram as paredes de betão, e transformaram em rua a antiga estrada dos guardas da fronteira.
(Os postes de iluminação ficaram, que já estavam no sítio certo - e são eles que nos lembram quotidianamente que aquela rua é diferente da outras.)
 
Uma cicatriz de 160 km, que uma década após a queda do muro foi transformada no Mauerweg, o "caminho do muro": um circuito à volta da cidade, quase todo sobre a antiga faixa murada, que pode ser facilmente percorrido a pé ou de bicicleta, em etapas servidas pelos transportes públicos.
(Outra maneira de ir a Fátima ou a Santiago de Compostela.)

Penso no muro, e logo me ocorre um dos momentos altos deste meu ano, quando descobri a beleza das cerejeiras em flor numa alameda de quase 2 km de comprimento em Teltow, e me espantei com a minha capacidade de passear extasiada e feliz ali mesmo onde antes se disparava a matar sobre quem passava. Contradições?
 
Em Berlim, vive-se paredes-meias com a História. E a alegria é possível, mesmo quando se habita nos cenários que testemunharam horrores, e em cada lugar nos é lembrado o que ali aconteceu. Talvez por isso mesmo: porque a memória de um passado terrível nos prova que nada é para sempre. De certo modo, esta cidade indómita é também uma "cidade das luzes" - iluminada por tantos que em cada época lutaram e arriscaram a própria vida para pôr algum travão às injustiças dos poderosos, e nos confirmam a esperança de que "há sempre uma candeia / dentro da própria desgraça / há sempre alguém que semeia / canções no vento que passa".