20 janeiro 2019

estrangeiros refugiados e nacionais sem abrigo

Copio para aqui um episódio que a Helena Ferro de Gouveia contou no facebook. Com histórias destas, como não acreditar na humanidade?

"Quando eu morava em Bona, duas ruas acima da minha havia (há ) um centro de acolhimento a refugiados. Na minha paróquia havia ( há) uma equipa de voluntários, da qual fazia parte, que os apoiava e ajudava a integrar na sociedade alemã. Um dia um sem abrigo alemão, que trazia todos os seus pertences num carro de mão ( também os há na Alemanha) veio ter comigo e perguntou-me: “como posso ajudar ?”. Face à surpresa que leu na minha cara disse : “eu tenho a minha vida aqui, apontou para o carrinho, tenho uma família que não vejo mas sei que está viva, estou no meu país”. Senti-me tão pequenina naquele momento face à nobreza daquele homem. Deixou-me um cobertor limpo, agradeci-lhe e ele saiu dali com um sorriso. Isto passou-se no pico da chegada dos refugiados sírios à Alemanha.
Para ajudar não é preciso muito, basta sentir."

Pensei num episódio que aconteceu perto da minha rua: um sem-abrigo estava a tentar dar uma camisola cor-de-rosa a um refugiado. Perguntava-lhe "o senhor não tem mulher?" Eu ia a passar com o Fox, e observava a cena. O refugiado não respondia nada. Nem devia estar a entender o que o homem queria. E então o sem-abrigo deu-me a camisola a mim. Explicou-me que se tinha enganado na cor quando a tirou no armazém para os sem-abrigo, e que não queria andar de cor-de-rosa, mas também não a queria deitar fora, porque era 100% algodão.

Nesta minha história, e na da Helena Ferro de Gouveia, há um ponto comum muito importante: os sem-abrigo são muito mais do que esses "coitadinhos amorfos" dos quais nos lembramos quando precisamos de encobrir as nossas posições egoístas e xenófobas.



1 comentário:

Marçal disse...

Anteontem à noite, com um frio de rachar (pelo menos para os padrões lisboetas), estava em frente a um edifício público de Alvalade um rapaz sem-abrigo e com um aspecto bastante normal, a falar com uma rapariga aparentemente interessada na sua situação presente. Mais tarde, quando voltei a passar por ele, estava já a dormir, encerrado numa "cabana" de cartão, descoberta, mas sob um recanto da entrada desse edifício. Ao lado, as suas duas muletas e uma imagem de N.ª Senhora, com um pedido de ajuda manuscrito. Talvez lhe consiga deixar hoje lá alguma roupa que já não use regularmente...

Noutra noite (curiosamente, também de Janeiro), há uns dois anos, descobri outro sem-abrigo, arrumador de automóveis, também em Alvalade, ali perto. Por uma breve e ocasional troca de palavras que tive com ele, enquanto se insinuava para me ajudar a arrumar o carro, percebi de repente que fôramos colegas de Liceu e, depois, até nos primeiros anos do Técnico (embora eu não me lembrasse já dele)! Fiquei ali alguns minutos à conversa, surpreendido, e ele contou-me resumidamente as sucessivas desventuras que o conduziram àquela situação. Despedi-me dele com um aperto de mão amigável e um "boa sorte, Colega" e durante alguns dias não deixei de pensar neste caso e em como isto da tômbola do "destino" nos pode atirar para paragens tão insuspeitadas, quando tudo na vida ainda nos parece normal e até risonho.