30 janeiro 2014

ah, e tal, a praxe é um importante rito de passagem, uma iniciação, uma preparação para a vida...

Em Stanford, os caloiros são recebidos assim:



Recebidos com esta palermice de paninhos quentes e ambiente caloroso, está-se mesmo a ver que aquela Universidade nunca há-de passar de uma cambada de meninos-da-mamã medricas e incapazes. Ainda nem conseguiram juntar meia centena de prémios Nobel, nem nada.
Incompetentes, é o que eles são todos.

ah, e tal, quem não quer a praxe pode sempre dizer "não" e não lhe acontece nada




Numa conversa no facebook, em resposta à minha pergunta

"desculpe perguntar sobre um detalhe: a sua filha que decidiu não entrar na praxe passou anos de isolamento? Afinal não entrar na praxe tem um custo? É que o pessoal pró-praxe está farto de afirmar que basta dizer "não" e não há problema nenhum."

recebi a seguinte resposta, assinada por Raquel Misarela:


Estudei em Tomar na Escola Superior de Tecnologia. 18 anos, sozinha, numa cidade que não conhecia, sem telemóvel (esperava religiosamente numa fila para o telefone público porque tal como na praxe a minha ideia de ter um telemóvel também era fixa... Se bem que essa mudou rapidamente :)). Ainda pensei tentar passar despercebida, era mais fácil, mas num meio tão pequeno, uns riscos pretos de meio metro nos olhos, calças à boca-de-sino nos anos 90 e molas da roupa na cabeça não passam assim tão despercebidos. Pré-adolescência tardia dirá a minha querida mãe! No primeiro dia tive logo um grupo de meia dúzia de grunhos de engenharia civil (...) a pôr de quatro e de olhos no chão os ditos caloiros à porta da primeira aula. Declarei-me anti-praxe. E tive quase 3 meses esses idiotas a baterem-me à porta de casa. Seguiram-me, conheciam uma rapariga que morava no apartamento e entravam todos os dias. Repito, todos os dias. Queriam que eu assinasse um papel para tornar "as coisas" oficiais... Bem lhes tentei explicar que se eu não lhes reconheço qualquer superioridade hierárquica ou qualquer tipo de poder nao podia nem ia assinar nada. Pedi o código da praxe. Estava a ser reformulado, diziam. E todos os dias diziam-me que ia ficar sozinha, que não ia ter amigos, que não podia usar traje, que não podia ir a festas, que depois ia querer praxar e não podia, que iam estar de olho em mim. E estiveram. Tentaram-me barrar regularmente o acesso às aulas. Vomitei várias vezes de nervoso no parque de estacionamento da escola. Mas acabaram por desistir. Eu não o ia fazer. A minha mãe exagerou quando disse que foram anos de isolamento. Não foram. Mas que mudou radicalmente a forma como passei por Tomar, mudou. Fiz amigos, alguns para a vida, integrei-me (vejam lá bem) e até conheci a cidade sem ter nhanhas despejadas pela cabeça, sem cartazes a chamar-me besta, ou sem ter de rastejar para regozijo de alguém. Mas mudou. 

Quanto às represálias e medos, ainda não percebi se foram uns anos (finais de 90) de "azares" e agora é tudo uma verdadeira maravilha integradora, que quando há qualquer problema, denúncia, agressão ou morte é qualquer coisa, caso de polícia, mas praxe nunca, ámen, ou se o facto de a minha mãe estar nas Letras também ajudava a ir sabendo o que se passava. As notícias de agressões, perseguições, gozo permanente eram constantes. Assim como as notícias de violações. No ano antes de ter entrado houve um caso de violação e agressão, penso que na agrária, de uma rapariga que se declarou anti-praxe. Foi deixada mais para lá do que para cá, nua, na casa de banho. Lembro-me que nas Letras um rapaz, borbulhento e pau de virar tripas, de uma aldeiazinha do interior, se declarou anti-praxe, mais para ser deixado em paz do que propriamente por convicção. Durante 4 anos foi perseguido por um grupo de estudantes das letras. Acabou por se enforcar. No dia a seguir esses filhos da p@&a entraram nas Letras de cordas no pescoço com gargalhadas sonoras. No mesmo ano,um grupo de estudantes mata à facada uma sem-abrigo... Arquivado. Reinava e reina a impunidade. Não é não... Pois 

Ah, mas já agora deixo aqui um exemplo de como o não é não...

 

(Parece-me que não entendi bem: por favor confirmem se nesta praxe de Coimbra - a tal Academia onde a praxe é boa - quando um aluno disse que não queria participar na praxe bateram-lhe, chamaram-lhe "paneleiro", vaiaram-no, disseram-lhe tudo aquilo de que ia ficar excluído se não participasse, e despediram-no com a cantilena "boa viage, vai pró caralho"; confirmem também se aqueles que assistiram a tudo isto de cabeça baixa e olhos no chão eram caloiros, ou, já agora, se este filme é uma grosseira manipulação, forjada por uma misteriosa conspiração para denegrir a imagem da Academia de Coimbra)


Pete Seeger (2)

Roubado por inteiro ao site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura:

Pete Seeger, um homem de fé
Não há muitos anos, quem passasse por uma das estradas que sai de Beacon, perto de Nova Iorque, poderia ter-se cruzado com um homem postado na berma, de pé, segurando um cartaz com a palavra "Paz". Esse homem era Pete Seeger. Mesmo após os 90 anos, costumava sair de casa durante cerca de uma hora, quando o tempo estava bom, para segurar o seu cartaz, simplesmente porque era uma coisa boa de ser feita.
Toda a minha vida gostei da música de Pete Seeger. Gostava da sua guitarra e do seu banjo. Gostava dos convites que lançava para cantarmos com ele. Gostava das coisas sobre as quais ele cantava. E a partir do que fui conhecendo da sua vida, gostava da sua lealdade.
Pete cantou em muitas igrejas, mas não era crente numa religião organizada. Acreditava na humanidade e no nosso poder de permanecermos juntos e fazermos do mundo um lugar melhor.
Era um pensador que tentou fazer o que estava certo. O obituário do jornal "The New Yoik Times" conta como ele lamentou ter feito um anúncio para os cigarros "Lucky Strike" com a banda "folk" Weavers. Possivelmente também se sentiu desconfortável com os discos de sucesso que obteve com o mesmo conjunto, mas a fama não durou tempo suficiente para arrependimentos.
Em 1955 foi intimado a depor perante o Comité de Investigação de Atividades Antiamericanas do Senado. Decidiu escolher um caminho perigoso ao não invocar a Quinta Emenda [que protege os cidadãos dos abusos da autoridade governamental] nem dizer o nome dos seus companheiros de viagem, depois de na mesma manhã e na mesma sala de audiência ter ouvido o realizador Elia Kazan a escolher a opção contrária.


Em vez disso, Pete Seeger disse firmemente aos membros do Comité que teria todo o gosto em falar das músicas que cantava, mas nada lhes diria sobre as pessoas que as tinham composto, que as cantavam com ele ou que iam aos concertos ouvi-las. Chegou mesmo a propor ao Comité a discussão da canção "Study War No More (Down by the Riverside)", mas os investigadores não estavam interessados nessa cantiga.
Nesse tempo, Pete e a sua mulher, Toshi, tinham três crianças, e o cantor que morreu esta terça-feira, aos 94 anos, arriscou-se não só a ir para a lista negra, como também a ser acusado devido ao testemunho que prestou. Durante sete anos viveram com a ameaça de Pete ser preso, até que o caso foi arquivado.
Ao longo desse período, Pete aceitou todos os trabalhos que lhe propunham, viajando por todo o país para cantar em creches, escolas e círculos de costura de senhoras, enquanto que Toshi geria as suas digressões e educava as crianças na cabana de madeira que ambos tinham construído. Toshi também não ficava nada a dever à lealdade.
Esta manhã, ao escrever, oiço a minha atual música favorita de Pete Seeger, "Precious friend". É então que me recordo de "Old devil time", e as lágrimas caem-me por todos os dons que Pete e Toshi nos deram. E ainda não vos falei do barco à vela "Clearwater" que ele construiu para alertar para a limpeza do rio Hudson. A vida de Pete Seeger foi fé em ação.




Ir. Mary Ann McGivern
In National Catholic Reporter
Trad./adapt.: rjm
© SNPC (trad.) | 30.01.14

Michael Wolf - fotógrafo



Deixo aqui o link, mas cada um entre por sua própria conta e risco. Aviso já que cria habituação - e se a troika sabe, ainda me acusam de sabotagem da produtividade portuguesa.

29 janeiro 2014

Pete Seeger

O Pete Seeger morreu, e não consigo deixar de pensar na última vez que o vi: a cantar, feliz, perante uma multidão emocionada. Foi a 19 de Janeiro de 2009, na festa "We are One" para celebrar a investidura de Barack Obama como presidente dos EUA. Éramos tão novos nesse tempo...
Não foram precisos muitos anos para nos vermos confrontados com a nossa ingenuidade. Que terá pensado Pete Seeger desde então? Ter-se-á arrependido da alegria naquele longínquo Janeiro?
E que lugar há para as canções que aprendemos com ele? Entre o "we shall overcome" e a amargura, qual deixaremos ganhar dentro de nós?
"A time for peace, I swear it is not too late" - ainda há lugar para a confiança de Pete Seeger?

Eis uma resposta: When people asked the perennially upbeat Seeger if he ever got discouraged, he would reply: "I say 'the hell with it' every night around 9:30, then get up the next morning. Besides, if you sing for children, you can't really say there's no hope."








neger, neger, schornsteinfeger

(foto)

Hans-Jürgen Massaquoi, filho de uma alemã e de um liberiano, conta num livro autobiográfico - "Neger, Neger, Schornsteinfeger" - como foi crescer na Alemanha nazi com pele e cabelo de mulato. De algum modo teve sorte, porque o sistema se esqueceu de prever tratamentos drásticos para pessoas com o aspecto dele: foi humilhado e gozado pelos outros, foi excluído de praticamente tudo por não ser ariano, mas conseguiu escapar com vida ao desvario nazi.

Um dos aspectos mais curiosos do livro é a sua enorme vontade de pertencer à Juventude Hitleriana.

Encontrei no youtube um filme feito para a televisão alemã, a partir desta história. Infelizmente numa versão bastante irritante, com uma voz automática sobreposta em inglês.



28 janeiro 2014

rir é o melhor remédio






concerto de homenagem a Claudio Abbado



No sábado passado havia no foyer da Filarmonia um retrato enorme de um Abbado jovem e sorridente, junto a uma mesa com flores e dois livros, para as pessoas deixarem um sinal de si. Estava repleto de agradecimentos, em muitas variações de emoção e idioma.

O director lembrou num curto discurso a gratidão da orquestra e a admiração que todos sentiam por aquele maestro, e pediu um minuto de silêncio. Nem tosses se ouviram. Também não houve tosses durante o Adagietto da 5ª de Mahler - provavelmente por o ar estar muito mais húmido que de costume.

Zubin Mehta dirigiu essa peça com brilho e uma muito digna contenção. Seguiu-se Anton Webern, Sechs Stücke für Orchester op. 6b, de que não gostei tanto, e o concerto para piano nº 5 Es-Dur op. 73, com o Rudolf Buchbinder, que adorei.



O Buchbinder, o Buchbinder! Com aquela cabeleira e aquela energia, levava-me a imaginar o próprio Beethoven ali sentado. Nas partes sem piano cantava, virado para a orquestra, "pom-pom-pom-tararara!", e dançava no banco, como se a música fosse dele e tivesse muito orgulho nela. Um espectáculo. Depois virava-se para o teclado e tocava com a alma e virtuosismo, o pom-pom-pom-triliri todo nos dedos. Uma beleza.

Como não encontrei o Rudolf Buchbinder na net a tocar este concerto, deixo-o aqui com um concerto de Brahms:




27 janeiro 2014

dia internacional em memória das vítimas do Holocausto (dia da libertação de Auschwitz)

"Memória dos Campos" - filme de Hitchcock sobre o Holocausto:



Do ZAP:

“Memória dos Campos” é conhecido como o documentário nunca visto de Alfred Hitchcock sobre o Holocausto.  A película, realizada em 1945 para mostrar aos alemães as atrocidades nazis e vetada pelos aliados devido à brutalidade das suas imagens, está finalmente pronta para ser mostrada ao público. 
Em 1945, Alfred Hitchcock ficou em choque. O “mestre do suspense” ficou tão horrorizado ao ver as imagens da chegada das tropas aliadas aos campos de concentração, no fim da Segunda Guerra Mundial, que ficou uma semana sem conseguir voltar aos estúdios. Em seguida, empenhou-se na produção do filme, que editaria as imagens chocantes para mostrar aos alemães a dimensão dos horrores do Holocausto.
No entanto, as autoridades britânicas consideraram o filme tão forte que não permitiram o seu lançamento oficial. Numa época em que as potências vencedoras estavam interessadas em reconstruir a Alemanha, uma obra que  apontasse o dedo e atribuisse responsabilidades à população alemã em geral, de forma tão poderosa, não seria a melhor solução.
O jornal Independent conta que as bobines de ”Memória dos Campos“, como se chamou a obra, ficaram durante anos armazenadas no Museu Imperial da Guerra. Em 1984, uma versão incompleta foi projectada no Festival de Cinema de Berlim. No ano seguinte, foi transmitida nos EUA, pela cadeia de televisão PBS, uma versão de baixa qualidade.
Foi apenas para os 70 anos da libertação da Europa do poder nazi, que se completam em 2015, que o museu decidiu restaurar o filme de forma a mostrá-lo, oficialmente, ao mundo.

acossados

Será exagero estabelecer um paralelo entre estudantes universitários, que aceitam ser objecto de troça em brincadeiras indignas para poderem pertencer ao grupo, e jovens profissionais, que aceitam estágios sem vencimento, ou empregos com vínculos precários e salários de miséria para poderem entrar na vida profissional?

Olho para tudo isto, e vejo os filhos do nosso tempo: acossados na vida académica, acossados na vida profissional. E que dizer da sociedade que encolhe os ombros perante este oportunismo à margem de qualquer ética?


(Do PúblicoNos dias seguintes ao seu funeral foram à sua universidade, foram ao hotel de luxo onde ela estava a estagiar. E essa é outras das razões por que querem que se escreva este texto. Catarina Soares já não existe, mas sentiram que no sítio onde estava a estagiar é como se ela nunca tivesse existido. O que presenciavam que é todos os dias se levantava às 6h30 para estar em Lisboa às 8h e sair às 16h e que no final de estágio iria receber uma remuneração simbólica que a ajudaria a comprar um iphone; à noite estava a acabar as últimas cadeiras da licenciatura em Turismo. Queriam receber o que lhe era devido e doar o dinheiro a uma instituição, mas era como se Catarina fosse "invisível, não havia uma ficha com os dados dela, não tinham a morada dela”. Querem que a morte da filha sirva “pelo menos de alerta contra os estágios não remunerados que supostamente dão experiência e currículo, mas que mais não são do que trabalho escravo”. Custa-lhes saber que a filha ia trabalhar no dia de Natal porque o chefe lhe tinha dito “que é nesse dia que se ganha mais”, quando nunca tiveram intenção de lhe pagar.)

26 janeiro 2014

mais alguns apontamentos sobre a praxe

Cinco mitos em torno das praxes - Rui Bebiano.

A abjecção das praxes - Pacheco Pereira

A praxe não tem lugar num mundo civilizado - José Gomes André, um texto publicado já em 2007

Há abuso nas praxes? As praxes são o abuso. - Daniel Oliveira

A praxe é uma coisa muito estranha - reportagem de Fernanda Câncio no DN

Memórias incómodas e rasura do tempo: Movimentos estudantis e praxe académica no declínio do Estado Novo - Miguel Cardina

Adenda:

As praxes e o poder - Elísio Estanque

***

Sobre a praxe boa e a praxe má, resta-me acrescentar que os defensores da "praxe boa" me lembram - guardadas as devidas distâncias - aqueles alemães que, quando eram vítimas da prepotência dos da SS ou da Gestapo, protestavam: "se o Führer tivesse conhecimento disto, vocês estavam fritos!"


códigos de conduta para as bestas



Encontrei o que se segue no facebook, no mural de uma professora:

Amanhã vou começar as minhas aulas de 10º ano explicando aos alunos que eles são umas BESTAS que devem cumprir estes deveres:


a) Comparecer a todos os eventos organizados pela sua ILUSTRE PROFESSORA;
b) Ser moderado no uso da palavra, respondendo apenas quando interpelada;
c) Deverá ser servil, obediente e resignada;
d) A besta não tem opinião sobre a matéria;
e) A besta de modo curial terá que ser peremptória quanto á sua abstinência a actos
de onanismo e reflexos misóginos ou apandríacos;
f) A besta não ri, logo não mostra os dentes;
g) A besta não olha nos olhos;
h) A besta não fuma;
i) A besta terá que se manter sempre num plano inferior ao dos praxantes;
j) A besta mostrar-se-á sempre respeitosa para com a INSIGNE PERSONA, tanto
verbalmente como através da sua linguagem corporal;
k) A besta tem de ser solidária para com as outras bestas, acompanhando-as na praxe sempre que não esteja sob outra praxe;
l) A besta não reclama;
m) Se a besta não se encontrar em períodos lectivos, estará automaticamente convocada e sob praxe;
n) A besta nunca pode falar mais alto que um INSIGNE PERSONA;
o) A besta canaliza todo o seu potencial vocal para aclamar vorazmente o seu curso;
p) A besta suplica para ser mais praxada;
q) A besta não fala ao telemóvel, excepto com expressa autorização dos praxantes;
r) A besta deve zelar pelo bem-estar dos seus praxantes , disponibilizando-se sempre
para aumentar o seu conforto;
s) A besta nunca anda sozinha na rua;
t) A besta ocupa sempre o último lugar de uma fila;
u) A besta deverá cumprimentar respeitosamente todo e qualquer estudante universitário desta Instituição;
v) A besta é modesta e humilde;
w) A besta aproveita a sua ignorância para procurar conhecimento
x) A besta está familiarizada com os princípios de cavalheirismo e gentileza e pratica-
os;
y) A besta faz-se acompanhar de indumentária humilde e sem adornos;
z) A besta é conhecedora da hierarquia da praxe e do seu código.

Código da Praxe da Universidade do Algarve (aqui: http://www.aaualg.pt/images/stories/codigo_de_praxe_ualg.pdf)

MAS dir-lhes-ei que podem recusar:


Obtenção do Estatuto de Objector à Praxe
1. O Caloiro que deseje adoptar este estatuto deverá apresentar um pedido de desvinculação da Praxe ao Conselho de Veteranos.
2. Este documento deverá ter inscrito o nome, número mecanográfico e curso do Caloiro , estar assinado em conformidade com o Bilhete de Identidade e ser acompanhado de uma fotografia actualizada.
3. O Conselho de Veteranos convocará posteriormente os requerentes para uma reunião na qual os ditos exporão o seu caso particular.
4. Após deliberação, no caso de haver deferimento do pedido, o Conselho de Veteranos deverá munir o signatário com um “Decretus Desvinculatus”, no qual se atesta do estatuto do portador, bem como informar a Academia da nova condição do dito, por publicação em “Decretus ”, juntamente com uma fotografia do mesmo.
5. O desrespeito do Estatuto de Objector à Praxe, seja por parte do Objector, seja por parte de terceiros, implica procedimento por parte do Conselho de Veteranos. A pena sumária está prevista para os casos de flagrante delito.
6. O Estatuto de Objector à Praxe acompanhará o aluno ao qual foi conferido até ao dia em que o Criador decida chamá-lo à sua presença.

CONTUDO, alertá-los-ei para as consequências:


Artigo 2º - Ao Objector à Praxe Está Expressamente Proibido:
1. Praxar, assistir ou colaborar em qualquer forma de praxe.
2. Ser praxado.
3. Usar Traje Académico.
4. Participar activamente na Semana do Caloiro, nos Jogos Populares, na Semana Académica, na latada ou e no Cortejo Académico.
5. A desvinculação da Praxe é um acto único, final e irrevogável.

Código da Praxe a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (aqui:http://www.aautad.pt/doc/codigo_de_praxe.pdf)

Vai-me parecer que será uma aula muito instrutiva, produtiva e, espero, eficaz, quanto à clarificação dos valores que se aceitam, ou recusam, no que às praxes diz respeito.

(curiosamente, na página da wikipedia onde encontrei estes códigos, os links para as da universidade de coimbra e porto já não funcionam... podia ter feito busca por eles, mas não me apeteceu: são todas a mesma merda. elucidativa, tenebrosa, assustadora merda.)

Comentário posterior:
entretanto já googlei e descobri, 1, que a do porto é cópia da de coimbra, 2, que a de coimbra tem mais artigos que a constituição portuguesa.

contributos para um cadastro da praxe em Portugal

1. Encontrado num comentário no facebook do Público:


2001 - Diogo Macedo morre no decorrer de praxe violenta. Ergue-se muro de silêncio da parte do grupo responsável pela praxe, e a Lusíada de Famalicão é condenada pelo tribunal

2003 - Caloiros do Técnico simulam assalto a um banco da CGD em Oeiras

2008 - Caloira de 18 anos acusa aluno mais velho de a violar no "Enterro da Gata" na UM

2009 - Escola Agrária de Santarém - alunos condenados por barrarem cara de aluna com excrementos de porco.

2010- Caloiro de Turismo ferido em praxe acaba com tímpano furado

2012 - Caloira acaba no hospital de Beja depois de praxe com prognostico reservado 2007 - Caloiros agredidos em tribunal de praxe; foram-lhes rapados os pelos púbicos e um deles acaba com o escroto rasgado, na Universidade de Coimbra

2012 - Conselho de Veteranos de Coimbra suspende oito estudantes por causa de praxes//Praxe suspensa em Coimbra após agressão a duas alunas que se recusam participar da praxe

Até quando Sr Presidente?
Até quando AR? Até quando Conselho de Reitores?
Até quando Direcções Académicas?
Chega. Definam regras claras, uniformes, dialogadas, escrutinadas, verificáveis. Definam penalizações académicas e cíveis para condutas impróprias. Defendam e legislem sobre a privacidade e a livre escolha dos estudantes.



2. Encontrado num texto de opinião de Jorge Fiel, no Jornal de Notícias:

O aluno [Diogo Macedo] da Lusíada de Famalicão que morreu por ter levado uma pancada na cabeça quando fazia flexões; a estudante de Gestão do Politécnico de Beja que morreu na sequência de uma paragem cardiorrespiratória que sofreu quando estava a ser praxada; o aluno da Escola Superior Agrária de Coimbra que ficou paraplégico por ter sido lançado de cabeça para baixo num escorrega; para que estas e outras vítimas das praxes (...) não sejam esquecidas, é preciso que políticos e autoridades académicas ponham um ponto final a este anacronismo estúpido.


praxe e totalitarismo



(foto)

Recupero parte do post que publiquei há dias (the third wave), e acrescento algumas perguntas:

Em 1967, numa High School de Palo Alto, o professor Ron Jones fez uma experiência com os seus estudantes, para lhes explicar como foi possível a população alemã ter embarcado no desvario nazi. Traduzo da wikipedia alemã: o professor criou um "movimento" dirigido por ele de forma totalitária, baseado numa disciplina de ferro e punição de todas as infracções às regras. O sentimento de comunidade entusiasmou os alunos, e atraiu até alunos de outras turmas. Jones reconheceu mais tarde que a obediência cega dos alunos lhe deu um prazer especial. Para quebrar a dinâmica própria que a experiência estava a desenvolver, terminou tudo ao quinto dia, e mostrou aos alunos os paralelos que havia entre esse "movimento" e as organizações de juventude nazis.
Mais tarde, Jones escreveu um livro relatando a sua experiência, a que chamou The third wave.

Bem sei que à lei de Godwin se devia acrescentar uma segunda: quando, na internet, alguém diz "nazi", essa afirmação é desvalorizada com a chacota "pronto, lá vem este outra vez com o Godwin!".  Mesmo sabendo isso, arrisco: quanto há de semente de totalitarismo nas praxes académicas que deixamos acontecer em Portugal?

- Uniformes: check.
- Disciplina e obediência: check.
- Exagerado espírito de comunidade que entorpece a ética e a consciência da própria dignidade: check.
- Orgulho de pertencer a essa comunidade: check.

Que mais é preciso? Quais são as diferenças entre o que acontece na praxe e as organizações de carácter totalitário? Dizer-se que não servem um regime político ditatorial chega a ser desculpa?


praxe e mocidade portuguesa: descubra as diferenças




1.
Na mocidade portuguesa, o chefe assumia as consequências das ordens que dava.
Na praxe, alguns praxados assinam um termo de responsabilidade para assumir as consequências do que possa acontecer quando estiverem a obedecer às ordens do chefe. (v. investigação da Ana Leal na tvi)


2.
Na mocidade portuguesa, tentava-se incutir na mocidade o espírito de sacrifício, de disciplina, de hierarquia e de devoção patriótica.
Na praxe, não há lugar para a devoção patriótica, vá lá, ao menos isso.


3.
A mocidade portuguesa era sujeita a uma preparação baseada em fórmulas inspiradas na orgânica militar, de modo a educar os jovens na admiração das virtudes militares e dar-lhes as condições de resistência física como as de resistência moral para poderem ser bons soldados sempre que a Pátria precise de utilizá-los nesta nobre função.
Os praxados são sujeitos a fórmulas inspiradas na orgânica militar, de modo a... ? de modo a quê?!


4. Hinos

Hino da mocidade portuguesa (lá vamos, cantando e rindo, etc., pátria! serás celebrada, e por nós serás erguida, erguida ao alto da Vida!)

Músicas da praxe, exemplos encontrados na net (nós somos melhores que os outros, tralali, nós montamos as moças melhores que os outros, tralali, os outros são todos maricas, e nós é que temos de nos dar ao trabalho de montar as moças deles, tralala)


5.
(continuem vocês)


praxe - alguns aspectos jurídicos

De Sofia Vieira, no Controversa Maresia



portugal é triste

por Vieira do Mar, em 25.01.14
As praxes são uma merda, uma bosta asquerosa. Deviam ser TODAS proibidas; mesmo as praxes "giras", "consentidas" pelos caloiros. Porque a maioria dos caloiros não "consente" nada, nem sabe o que isso seja. Os caloiros são muitas vezes miúdos que vêm da santa terrinha para Lisboa e outras "cidades grandes", sentindo-se de parte nenhuma. O seu maior desejo é arranjar "amigos", enturmar-se com os futuros colegas e fazer parte de qualquer coisa, por forma a sentir-se seguros e, já agora, a arranjar uns testes copiados ou já feitos pelos mais velhos, que os tomam sob a sua "protecção".
Nem todos  os praxados são fracos de espírito ou vêm das berças, e há sempre quem goste de apanhar, mas o seu dito "consenso" acaba por ser um pouco irrelevante: como é irrelevante que um ucraniano de dois metros e cem quilos ou um português enfezado sejam apanhados a conduzir com 1,50 de álcool por litro no sangue e o efeito seja muito mais inabilitante (e portanto, perigoso de facto) no segundo que no primeiro: ambos cometem exactamente o mesmo crime e apanham com a mesma lei na lombeira. 
As praxes deviam ser encaradas pela Lei como aquilo que geralmente são: um negócio de gente burra e estúpida que não acaba o curso nem que  bebesse toda a matéria por uma palinha; gente maldosa, inconsciente ou mesmo psicopata; manipuladora e socialmente inútil,  que faz a terceiros coisas humilhantes, traumatizantes, muitas vezes dolorosas e, por vezes, fatais. Isto tudo em nome de uma "troca" abjecta: a aceitação social pelo grupelho estudantil de quem se encontra numa posição "inferior", fruto da chegada ao desconhecido.
Ah pois e não sei quê, eu quando entrei para o curso de remador em banheiras fui muito bem tratado, a praxe foi gira, levaram-nos a conhecer as instalações e a cidade, fizemos piqueniques nas salas de aula, o meu protector ajudou-me imenso... Isto, meus amigos, não é PRAXE: é a maneira NORMAL como todos os estabelecimentos de ensino superior deveriam receber os seus caloiros e integrá-los nas suas hostes, nada mais. De forma não humilhante, porreira, instrutiva, com uma malandrice inóqua aqui e ali que reforça os laços entre todos. Praxe é o distorcer de um qualquer ritual cujas origens já se perderam, onde é dado de mão beijada a anormais o poder de   chatear, humilhar e magoar terceiros.
Ora, da última vez que eu vi no Código Penal, isto era crime. Mas a questão das praxes é juridicamente lixada, à conta do suposto "consentimento" do praxado, que pode ser expresso ou implícito, livre ou forçado, proveniente de chantagem, coerção, coacção, da pressão social, da falta de auto-estima, da cobardia, da inconsciência, ingenuidade ou mesmo da própria sua própria taradice.
O fenómeno das praxes obriga obviamente  a uma Lei Especial. Como quando foi cá o Europeu e se fez a Lei sobre os comportamentos anti-desportivos, como invasão de estádios, instigação à violência colectiva, etc. Porque são situações muito específicas para as quais o Código Penal, a lei geral, é manifestamente insuficiente.
Aqui passa-se o mesmo. Em primeiro lugar, legislar com muito cuidade sobre o alegado "consentimento" (que, no Código Penal, pode afastar a punição do crime). Particularizar esta cena, já! Individualizar as situações que podem funcionar como forma de "pressão" que insta os caloiros a alinhar e a consentir em práticas que os prejudiquem, sob qualquer forma. Que situações? Fácil: promessas ilegais de sucesso escolar, ameaças de qualquer espécie, chantagem, coacção, coerção, instigação. E quaisquer situações equivalentes, de natureza física ou psicológica, nos quais a vítima veja a sua liberdade de determinação diminuída (conceito já existente e muito aplicável em processo crime).  
Depois, era tudo corrido a eito,  TODOS responsabilizados: duxs, meios duxs, aspirantes a duxs, trolls, ogres e duendes, bem como as faculdades (muito importante) que permitissem este tipo de actividades nas suas instalações ou que delas tivessem conhecimento mesmo que noutros lugares (a participação às autoridades tornar-se-ia obrigatória).
Deixariam de ser permitidas associações, reuniões, manifestações relacionadas com praxes, ilegais como as dos cabrões dos nazis cabeças rapadas (e não me venham com a merda do direito à liberdade de expressão e de associação que espeto-vos já na tromba com seis mortos no meco, ao mesmo tempo que podem enfiar a Constituição pelo dito acima, para uma melhor sensação). Qualquer manifestação pública de humilhação idiota, mesmo que consentida (lá está), como aquelas que vejo durante meses (meses?!) nos jardins do Campo Grande, como prostações, elevações, calhamaços nos braços, orelhas de burro, gritos de guerra et all, punida como crime público, para não obrigar a queixas por parte dos praxados, caso em que estariam obviamente fodidos para a vida, que esta gentalha não brinca em serviço e anda há muitos anos a virar frangos.
Criar uma task force especial, pelo menos nos primeiros tempos, que deverá incluir polícia, MP, psicólogos e o caralhinho mais que for preciso, para garantir o conhecimento da nova lei por parte das bestas e das suas potenciais vítimas, bem como a efectiva entrega à Justiça das primeiras. O objectivo: acagaçar os que têm como modo de vida acagaçar os outros. Porque neste momento, como se vê, é uma palhaçada: ora é amnésia selectiva, ora para a semana vai contar tudo, ora a faculdade não fala, ninguém fala, há pactos de silêncio. Pactos de silêncio?! Mas isto é a Omertá, foda-se?!
Isto leva-me a pensar em escumalha que se sente acima da Lei, e se calhar com razão. Da Lusófona ( e já mais em concreto) não sai nada de bom, sempre na crista dos media pelas piores razões. Não pode ser coincidência. Sei que a promiscuidade de poderes neste caso é eufemismo.  Reitores, ministros, muito dinheiro a passar de mãos, basta olhar para o quadro geral. E estas coisas estão todas ligadas.
Processo administrativo? Tudo começou como um processo administrativo. Seis miúdos estão à noite numa praia e são "levados" por uma onda, como se a culpa fosse da onda. Só mais tarde acordam as consciências para a suspeita de crime. Vários crimes possíveis, aliás, para quem está dentro da matéria, acredito que negligentes. Mas crimes. Tardou a conversão em processo crime, nem que por dois dias, tardou, é uma questão de bom senso. Desde a primeira notícia que se torna óbvio que houve ali, pelo menos, negligência(s) que conduziram a seis mortes.
As mesmas suspeitas que já levaram outras situações de "praxe", algumas com consequências mortais (sim, já morreram mais miúdos por causa desta anormalidade, ao longo dos últimos anos), a outros processos crime, embora que eu saiba sem resultados relevantes. Como disse, o alegado "consentimento" das vítimas é um calhau na engrenagem legal, mete muito de psicológico e de circunstancial, e o nosso cérebro é um labrinto lixado de percorrer.
Embora acredite que, depois desta tragédia aberrante, alguma coisa vai ter de mudar. Na Lei. Porque já se percebeu que, com a que temos agora, e ao contrário do dux sobrevivente, esta questão concreta vai morrer na praia. Cada um dos intervenientes diz, contradiz-se, cala-se e, basicamente, faz o que quer para safar o coiro. E tudo lhes será permitido, é o trauma, é o trauma, e são os direitos civis. Os psicólogos e psiquiatras, com a ajuda dos media, vão ser as estrelas da companhia. A verdade do que aconteceu tornar-se-á secundária. Os pais dos miúdos, quebrados pela dor, vão acabar por ceder,  ou tornar-se numa espécie de "mães do rui pedro", de quem todos têm pena mas cuja fé não partilham.
Este caso, pelo andar da carruagem e com a conivência de todos os que nela circulam, não tem grandes hipóteses.  Há demasiados recursos legais à mão de muito bons advogados, que não vão rejeitar mais umas horas de fama. As responsabilidades diluir-se-ão no barulho das luzes. Era preciso gente com poder e com tomates para agarrar nesta tragédia como exemplo e dar a volta ao prego.  Ok, ok, estamos em Portugal, por momentos, esqueci-me.  Mais vale dar a tragédia como suicídio colectivo e arquivar já os autos. E, com uns recursozitos, fazer-se jurisprudência e ficar-se logo com uma minuta para casos futuros.
Infelizmente, em poucos anos, o mais provável é termos apenas mais uma desgraça remota a acrescentar aos anais da nossa história de porteiras, legisladores, e políticos cobardolas, que convivem alegramente com a sua própria "amnésia selectiva".
Portugal é triste.

Adenda: ainda não vi a famosa reportagem que deu na tevê.

deixemos o Meco à polícia e às famílias das vítimas, e cuidemos nós da praxe

Há dias, sob o efeito dos rumores de que a tragédia do Meco podia estar ligada à praxe, escrevi um post sobre a cegueira da nossa sociedade em relação a estas práticas de totalitarismo.
Alertaram-me, e com toda a razão, para a precipitação desse comentário: não podemos tirar conclusões e exigir medidas a partir de meras suspeitas (estas em grande parte alimentadas, e até inflacionadas, por uma comunicação social desejosa de exibir o sangue na calçada, para vender mais). Tenho lido textos de uma enorme violência contra o único sobrevivente, o tal "dux". Não quero ir por aí.
Este passo em falso, contudo, tem um aspecto positivo: os rumores deram origem a investigações e revelações chocantes sobre as praxes. Hoje sabemos muito mais sobre a realidade das praxes do que sabíamos a 15 de Dezembro de 2013.
Não é preciso esperar pelo resultado das investigações sobre o que se passou no Meco, e muito menos fazer um julgamento popular do sobrevivente, para falar sobre as praxes. Aliás: este debate, para ser racional e profícuo, tem de ser todo feito à margem da tragédia do Meco. Não estamos a procurar um culpado para aquela tragédia - isso é coisa para a polícia e os tribunais. Mas queremos aproveitar o conjunto de informações que surgiu após esta tragédia para um debate, exigente e responsável, sobre o que se passa hoje nos meios estudantis.

"Apontamentos sobre a praxe" será o marcador para alguns factos, ideias, comentários - meus e encontrados por aí.


25 janeiro 2014

que seria de mim sem a internet?



Está um dia lindo, lindo, lindo: sol e um céu azul imaculado sobre a neve que cobre Berlim.
Levei o Fox à rua, e como o dia está lindo, lindo, lindo, nem me lembrei do gorro, do cachecol e das luvas. Houve um momento em que esfreguei as orelhas e me pareceu que estalaram, como pequenas placas de gelo.
Regressei a casa, fui à internet e vi: 10 graus negativos. Ah, bom, assim já me entendo.


24 janeiro 2014

um templo sem religião

Burning Man, Nevada - todos os anos, no princípio de Setembro.
Estão-me a desafiar para ir este ano (não percam o próximo referendo neste blogue).


The Temple (Filmed at Burning Man) from Already Alive on Vimeo.


Now that many in our society have moved beyond traditional religion, how do we move past tragedy? How do we mark the exciting events in our lives and how do we deal with life's inevitable trials? Some people who face these questions find the answer in the most unlikely of places, Burning Man. "The Temple" explores modern spirituality in a contemplative and personal manner touching on the ideas of self-discovery, letting go, and meaningful human connection that transcends simply a party in the desert.


então pronto, vou fazer um referendo sobre coisas que não vos dizem respeito (parece que agora é moda)

Olá meu bom povo,
é o seguinte: tenho uma semana para decidir como vai ser a cozinha, e está-me a dar aquela angústia do guarda-redes antes do penalty.
Ali por alturas de Setembro as coisas iam às mil maravilhas - um amigo até se deu ao trabalho de fazer desenhos bonitos para eu ver como ia ser aquilo que tinha sonhado, e tudo. Mas na semana passada o meu irmão (este) veio cá, subiu ao andar onde vai ser a cozinha, e pôs-se a dizer o que me anda a repetir há uns cinquenta anos, "és muito trenga, moça!", e que tenho de escolher entre um espaço realmente bonito ou uma cozinha-tipo-coiso e uma salinha-tipo-coiso, e que até dói uma sala daquelas ficar dividida em duas coisinhas-tipo-coiso, e que a única maneira de resolver a questão com dignidade é apostar no design. Eu insistia e gemia "ai a minha rica cozinha aberta escondida!" e "não me destruas os sonhos!" - mas ele permaneceu inflexível.
Depois de muitas negociações e muitos "não sejas trenga, moça!" (desconfio que levei por tabelinha por causa de todos os seus clientes que também insistem no "e é 2 cm para a esquerda ou para a direita?" e "seria preferível cinza escuro ou antracite claro?") lá me deixou com uma nova ideia de cozinha nas mãos.

Portanto, a pergunta do referendo é:

Concorda que a Helena deve fazer a cozinha nº2 e o irmão dela é muito bom arquitecto mas é um chato descomunal que a devia tratar melhor?

Aqui estão as descrições das duas cozinhas:

* Cozinha nº 1:

Aberta, mas com armários de cerca de 1,10 m de altura a separar a parte de cozinha da de comer, para que quem está sentado não veja a desarrumação que vai na cozinha.

Nota: esta semana decidimos que não vamos fazer a lareira (que ainda se vê nos desenhos desta cozinha). Se quiserem, também posso fazer um referendo para isso ("Concorda que a Helena deve fazer uma lareira no 3º andar da casa, e o marido é quem carrega a lenha e limpa o pó aos livros?")








* Cozinha nº 2:

Aberta, completamente. Com a parede do fundo coberta de armários altos, e um nicho para poder pousar as máquinas (de café, torradeira, etc.). Na perpendicular à parede dos armários há uma mesa de uns bons cinco metros de comprimento, composta por várias mesas iguais (que podemos deslocar para a varanda ou usar como sideboard, em caso de festas, por exemplo) e um bloco com o fogão e a pia. O tampo das mesas é em madeira de carvalho, como as portas dos armários do bloco.
Nestes desenhos ainda não se vê a parte das mesas (imaginem-nas alinhadas pelo bloco, com a mesma largura e o dobro do comprimento, e com a altura da parte do bloco onde está o fogão)








San Francisco, 14 de Abril de 1906



Quatro dias antes do terramoto.

Um passeio de dez minutos ao longo da Market Street, uma rua cheia de gente louca. Ultrapassagens selvagens, inversões de marcha à maluca, pessoas e carros de cavalo a passar à tangente em frente ao carro eléctrico... Ah, adrenalina!
Depois inventaram regras de trânsito, semáforos, tiques de segurança - e foi preciso inventar também a montanha russa e outros disparates, para compensar aquilo que a cidade já não podia oferecer no quotidiano das ruas. Assim se mostra como o capitalismo manipulou os poderes do Estado para transformar a adrenalina em negócio.

(Helena Araújo, 18 a Economia Urbana e 20 a Teorias Conspirativas)

23 janeiro 2014

mais música



Não sei que é que fizeram, que esta hora passou em 15 minutos...

E mais um presentinho: Claudio Abbado e a 9ª de Mahler com acesso gratuito na medici até 31 de Janeiro. Mais uma hora e meia que passa a voar.
Todos os concertos deviam acabar como este: com dois minutos de comovido silêncio.

Adenda (de um comentário a este post): Abbado e a sinfonia nº8 de Schubert na BBC 3 mas só até 26 de Janeiro.

Adenda 2 (idem): hoje (24 de Janeiro) a tarde da BBC 3 será dedicada aos últimos concertos dirigidos por Abbado em Lucerna (Brahms, Schönberg, Schubert and Bruckner). Das 14h às 16h30 (hora de Londres), aqui: http://www.bbc.co.uk/programmes/b03q5fy2 (Presumo que ficará disponível durante 7 dias pouco depois de terminar a emissão, como é habitual na BBC Radio.)

Mais um comentário, mais uma adenda (que não falte nada aos leitores deste blogue!):
Com tanta adenda, já nem sei se devo dizer que se podem ouvir integral e gratuitamente nove dos álbuns de Abbado na Deutsche Grammophon na 'rádio online' da editora: http://deutschegrammophon-web.snowite.fr/catalogPlayer/deutschegrammophon/deutschegrammophon.php?collectionID=1

(O separador no topo da página pode passar despercebido, de tão apagado que é.)

22 janeiro 2014

e agora com licencinha: vou dar música ao Pedro Mexia

Mais concretamente, a este post no Malparado.








O QUE É


obrigado Deus por este dia tão
incrível: pelo espírito verdejante e lépido das árvores
e um genuíno sonho azul de céu; e por tudo
o que é natural o que é infinito o que é sim

(eu que estava morto estou de novo vivo,
e este é o aniversário do sol; o aniversário
da vida, do amor e das asas: e do feliz
enorme acontecimento que é a terra)

como é que provando tocando ouvindo vendo
e respirando alguma – levantada do «não»
de todo o nada – simples criatura pode
duvidar do teu inimaginável Eu?

(agora os ouvidos dos meus ouvidos estão atentos e
agora os olhos dos meus olhos estão abertos)


[e.e. cummings, versão PM]
.

ainda Claudio Abbado



Ainda, e sempre. Avisou-me o Paulo que no Digital Concert Hall há vários concertos com o Claudio Abbado e a Filarmónica de Berlim que se podem ver gratuitamente.
Já estou a ouvir o Requiem de Brahms - obrigada, Paulo.



21 janeiro 2014

the third wave


(fotografia tirada deste post)

Ferreira Fernandes escrevia ontem sobre o nojo que são certas praxes académicas (copiei a sua crónica para o fim deste post). Compreendo-o bem, e de certo modo também entendo que todos tenhamos encolhido os ombros. Lembro-me do momento em que o fiz, em princípios dos anos 80. Andava no 2º ou no 3º ano da Faculdade, e participei em "piquetes" à porta da minha Faculdade, por iniciativa do Movimento Católico de Estudantes. Queríamos prevenir os caloiros sobre o que os esperava, e informar que não tinham de se sujeitar a isso, que mais lhes valia ir para casa, e voltar quando as aulas começassem normalmente. Pensávamos nós, no nosso triste bom senso, que eles faziam questão de entrar na Faculdade porque pensavam que iam perder alguma aula importante...
Só um nos deu ouvidos. Os outros riam, cheios de curiosidade. Dizíamos-lhes: "vão-vos estragar a roupa e cortar o cabelo, vão-vos humilhar". Quais quê. Algumas caloiras comentaram que não queriam perder isso nem por nada, e entraram, numa excitação galinácea. Desistimos de os avisar - "então está bem, se fazem questão..."
Ainda escrevi um texto de opinião para o jornal diocesano, perguntando porque é que a Igreja aceitava participar na fantochada da Bênção das Fitas (estivera na missa, numa catedral repleta de estudantes trajados a rigor que, ainda a cozer a bebedeira, agitavam as fitas cheios de entusiasmo mas nem o Pai-Nosso sabiam rezar). Depois encolhi os ombros.
Isto foi há mais de 30 anos, quando a nossa Associação de Estudantes estava a passar da esquerda para a direita, e a praxe - que nunca tinha existido naqueles termos no Porto - se começou a instalar. Com cada ano que passava, as maldades que faziam aos caloiros tornavam-se mais graves. Parecia-me que os alunos do segundo ano se queriam desforrar do que lhes tinham feito quando eram caloiros, e que o sadismo crescia de modo exponencial. As festas da Queima apimbaram-se cada vez mais. Em vez da crítica política a que me lembro tão bem de assistir, ao colo do meu pai, no fim dos anos 60, surgiu a ordinarice bem regada de cerveja.
Víamos, perguntávamos "onde é que isto vai parar?", e deixávamos andar.

Agora, parece que isto foi parar no horror de estudantes mortos na praia do Meco.

Visto a partir das experiências escolares que tenho feito na Alemanha, é ainda mais inacreditável.
Há dois anos houve um episódio de bullying na escola secundária onde o meu filho andava, envolvendo um grupo de finalistas e um pacto de silêncio. A escola não esteve com meias medidas: cancelou a cerimónia de entrega dos diplomas dos finalistas nesse ano - para todos, porque quem assiste passivamente também é cúmplice. No mesmo ano houve outro episódio de bullying, em que, durante uma aula de ginástica, dois alunos puseram a roupa de um colega no cesto dos papéis. Por um triz não foram todos castigados com a suspensão da viagem no fim do ano. O espectro do nazismo é ainda muito presente: quando, nas reuniões de pais, se falou destes incidentes, foram usadas as palavras que os alemães têm aprendido durante este árduo processo de confronto com a sua própria história. Disse-se, por exemplo, "Mitläufer": os que vão com os outros. As escolas não deixam por mãos alheias a sua responsabilidade de ver e mostrar onde estão os limites do aceitável.

De modo que, ao ler partes do despacho conjunto do reitor da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Mário Moutinho, e do administrador Manuel Damásio, datado desta segunda-feira (cito do Público: "a universidade determinou abrir um inquérito para aclaração dos factos que tiveram lugar durante o fim-de-semana em que ocorreram as mortes dos estudantes". (...) este é o momento em que "se impõe lançar luz sobre a génese do acontecimento", pelo que importa trabalhar no sentido do "cabal esclarecimento do que aconteceu naquela noite na praia do Meco") e ao ver como a Associação Académica Lusófona tentou sacudir a água do capote (cito de novo o Público: “A Académica Lusófona nada tem a ver com as Praxes Académicas, sendo essa actividade praticada e desenvolvida apenas pela COPA [Comissão Organizadora da Praxe Académica]”, respondeu a académica, por e-mail. “Neste momento, o responsável pela COPA é o Dux Honorário Fábio Jerónimo, pelo que ele é o único que pode responder às vossas questões - não temos qualquer tipo de contacto do mesmo”, acrescenta.) dá-me uma enorme tristeza. Então como é, meus senhores responsáveis das Universidades? Andamos a brincar aos Mitläufer, ou quê?

Se me deixassem mandar, era isto que fazia: este ano, proibia o uso do trajo académico na semana da Queima, e usava esse período para debater intensamente a questão da praxe, discutir princípios éticos e estabelecer regras. Nem desfiles, nem serenatas, nem cervejas, nem bênçãos das pastas, nem garraiada, nem nada. Debater, todos os dias, com todos. Participação obrigatória dos alunos em todos os debates e, em caso de falta, exclusão desse aluno, não apenas da sua, mas de todas as universidades portuguesas. (sim: estou mesmo furiosa)
E a Universidade Lusófona parava hoje mesmo tudo, para passar a pente fino as suas praxes, e só recomeçava a vida normal depois de tudo esclarecido. "Tudo" quer dizer: nem aulas, nem exames, nem sequer a secretaria a passar os documentos que permitam aos estudantes passar para outras universidades. Pacto de silêncio?! Se os adultos quisessem realmente, estas criançolas até em afinadíssima polifonia cantavam.

Há tempos andou por aí um filme chamado "A Onda". Houve quem dissesse que devia ser visto obrigatoriamente nas escolas, e houve quem criticasse. Retive esta frase, por ter tanto a ver com a realidade portuguesa: "Faltou no filme a figura do adolescente acossado, o filho do neoliberalismo, que se adaptou às imposições do mercado e corre do estágio para o ginásio e deste para o ensaio de teatro, porque sabe que é o único responsável pelo seu próprio devir." (Christoph Cadenbach, Spiegel Online, via Wikipedia)

Em 1967, numa High School de Palo Alto, o professor Ron Jones fez uma experiência com os seus estudantes, para lhes explicar como foi possível a população alemã ter embarcado no desvario nazi. Traduzo da wikipedia alemã: o professor criou um "movimento" dirigido por ele de forma totalitária, baseado numa disciplina de ferro e punição de todas as infracções às regras. O sentimento de comunidade entusiasmou os alunos, e atraiu até alunos de outras turmas. Jones reconheceu mais tarde que a obediência cega dos alunos lhe deu um prazer especial. Para quebrar a dinâmica própria que a experiência estava a desenvolver, terminou tudo ao quinto dia, e mostrou aos alunos os paralelos que havia entre esse "movimento" e as organizações de juventude nazis.
Mais tarde, Jones escreveu um livro relatando a sua experiência, a que chamou The third wave.

Bem sei que à lei de Godwin se devia acrescentar uma segunda: quando, na internet, alguém diz "nazi", essa afirmação é desvalorizada com a chacota "pronto, lá vem este outra vez com o Godwin!".  Mesmo sabendo isso, arrisco: quanto há de semente de totalitarismo nas praxes académicas que deixamos acontecer em Portugal?
Uniformes, check. Disciplina e obediência, check. Exagerado espírito de comunidade que entorpece a ética e a consciência da própria dignidade, check. Orgulho de pertencer a essa comunidade, check. Que mais é preciso?

Tinha mesmo de acontecer a onda do Meco para percebermos o que há de "onda" na nossa sociedade?

**

Crónica do Ferreira Fernandes no DN:

"Há meses, numa rua da minha cidade, vi um jovem humilhado. Levava uma corda ao pescoço e ajoelhava-se quando lhe ordenavam que o fizesse. Não era uma representação teatral, via-se que o ajoelhado não podia ter escolhido outro papel. Era mesmo uma humilhação. E, no entanto, segui. E, no entanto, nenhuma relação humana mais me fez expor, mudar de vida e sofrer consequências do que humilhação de homem ou de mulher. Já tenho idade que me aconselharia a calar perante um daqueles cenários públicos que, não sendo comuns, acontecem, de um homem agredir uma mulher e nunca, nunca a deixei sozinha. E, no entanto, se naquele dia, na minha cidade, em vez do rapaz de baraço fosse uma rapariga de joelhos a mimar um ato sexual, eu seguiria também em frente. É, a grosseria e a violência das praxes académicas - é disso que falo - são tão tolas que nos levam a encolher os ombros, não a indignar-nos... Com isto quero dizer que para com essas praxes somos todos mais ou menos cúmplices, dos dux veteranorum aos críticos. Era bom pensarmos nisso, agora que tantos jornais dizem que a tragédia do Meco poderá ter tido como origem praxes académicas. Sugerem-se responsabilidades de um jovem, o sobrevivente, apesar de ele só ter de dar explicações, mais nada. Responsabilidade têm as universidades, as autoridades académicas, os pais, os estudantes e os transeuntes, como eu, que não disseram o que deviam ter dito perante um nojo: que, aquilo, é um nojo."


20 janeiro 2014

Claudio Abbado





Esta música, que trouxe do Valkirio, dói hoje ainda mais do que sempre.

Claudio Abbado.

Há uns meses pressenti que podia estar a assistir ao seu último concerto com os Filarmónicos de Berlim, e na semana passada fiquei toda contente ao ver que ia regressar em Maio. Afinal não regressa. Contei aqui sobre o carinho e a gratidão do público berlinense, em Maio do ano passado. Comigo ficará a sua música, e aquela última imagem: sozinho no meio do palco, com as mãos sobre o coração, sorrindo para o público que o aplaudia há vinte minutos.

(Esse último concerto pode ser visto no Digital Concert Hall, aqui - o acesso ao DCH custa 9,90 euros para uma semana, e 24,90 para um mês)

dez anos



Em Agosto do ano passado, um dos amigos que estiveram na origem deste blogue enviou a mensagem que se segue. Os outros co-fundadores também já tinham falado disto. Eu ia protelando - afinal de contas não é qualquer blogue que tem as tarefas divididas pelos seus membros: um escreve e três lêem - mas decidi que o 20 de Janeiro de 2014, dez anos depois do primeiro post, seria um bom dia para esta mudança simbólica. Os nomes desaparecem da coluna da direita, mas os amigos permanecem: estão na minha história há mais de trinta anos, sei-os nas camadas sedimentares do chão que sou. Às vezes até se mostram nas entrelinhas do que escrevo (acontece nos dias de maior inspiração).

Dez anos. Devo gostar mesmo muito de andar por aqui, porque passaram num instante.
Obrigada a todos.



Dois dedos de conversa - os nomes e a coisa

Há um ror de anos, achava que muitas das tuas prosas mereciam não ficarem confinadas às caixas de correio eletrónico de um, de dois ou de alguns poucos amigos. Então, o meu mérito foi o de ter sugerido, e nem foi necessária muita insistência, que passasses para um registo mais público, pelo menos mais partilhado. Com as artes da Céu e a adesão do Manuel António, nasceu o teu blogue.

Entendeste por bem pousar os nossos nomes no canto superior direito, como “autores”, mais na esperança da nossa participação do que no reconhecimento pelo impulso inicial, e lá têm passado os anos, muito quietinhos.

Pois acho que já é bem tempo de retirares o meu nome com carinho e de o pores na arca. O seu a sua dona.

Tu continuarás a brincar com a vida que se leva a sério, cenas do quotidiano transfigurado, eruditas críticas de música, livros de viagem generosamente ilustrados (quem esquece a foto/pintura impressionista da ponte?!), apontamentos de cinema, quase tudo o que precisa de saber sobre Kaminer, polémicas de blogues, as relações Alemanha-Portugal-Europa… até capítulos da arte de bem educar um rafeiro português de nome inglês a viver em Berlim…

Eu continuarei a fazer o que sempre fiz: tentar acompanhar o teu ritmo, o que nem sempre é fácil, sorrir, comover-me, admirar, matutar, dizer a um ou outro para darem uma espreitadela, comentar. Sempre com muito gosto.


José Maria

***

Nota final: só para gozar este meu novo poder totalitário, apaguei da mensagem do José Maria uma pequena provocação que dizia respeito à Alemanha. Hehehehe. Mas para não ser tudo mau, acrescentei a fotografia que ele refere. 


17 janeiro 2014

breaking news: Sir Simon Rattle pede desculpa à autora deste blogue

(Hehehehe, ando a aprender com o Correio da Manhã a torcer os factos para escrever títulos bombásticos, hehehehe, este não me saiu nada mal. Em termos de mediocridade e desonestidade, estou em crer que é um título muito bem conseguido. Será que me arranjam um tachinho naquele pasquim?)



Na segunda-feira passada fui à Kammermusiksaal ouvir a Magdalena Kožená, que cantava árias de Haydn e Mozart, acompanhada pela orquestra canadiana Les Violons du Roy e o seu maestro Bernard Labadie. Levei um casal de estudantes portugueses, de visita por estes dias, e enchi-me de inveja ao ver que recebiam bilhetes para o bloco A a preço de jovem - oito euros! Encontrei a minha amiga A, chamemos-lhe assim, que também estava de visita a Berlim, e a minha amiga B, que é mais ou menos da casa, a quem tinham dado um bilhete de luxo. Também lá estava outra amiga portuguesa, e um outro, com o companheiro, e os meus vizinhos amorosos do segundo andar. Este mundo está cada vez mais pequeno.
Juntando aos inúmeros cabides que via vazios os bilhetes de estudantes no bloco A, decidi que a sala não ia estar esgotada. Convenci a minha amiga A a esquecer o seu bilhete que era, tal como o meu, comprado à justa medida das nossas possibilidades (bloco F, a meio quilómetro do palco), e a tentar ocupar lugares vazios no bloco A. Ela ainda me avisou: olha que talvez seja demasiado cedo para tomar estas decisões, ainda vai chegar muita gente. Mas eu, ai e tal, há sempre lugares vazios, etc., fui logo andando para o meio da sala.

Ora bem, nota mental: Heleninha, tu, quando vires um lugar muito, mas mesmo muito bom, no bloco A, tu desconfia, moça!

É que havia três lugares maravilhosos na sexta fila, nós sentamo-nos, a sala foi enchendo, enchendo, e quando o concerto estava quase a começar entrou o Simon Rattle com um dos filhinhos, e vieram na nossa direcção, tão decididos que parecia coisa do destino. Eu levantei-me à rasca (onde estão os famosos buracos onde a gente se pode enfiar, nestas situações? quando são mais precisos, eclipsam-se!), e o Simon Rattle fez aquele seu sorriso tímido e pediu-nos desculpa.

Fugimos o mais disfarçadamente que pudemos para outro lugar, e o concerto começou.

(Será que posso meter um momento Caras num post com um título Correio da Manhã? Às tantas posso, porque afinal de contas já vi um jornal sério a fazer comentários sobre o trajo de banho da presidente do Parlamento, e outro - ou seria o mesmo? - a comentar a cor das unhas da espanhola Letícia)

Portanto, momento Caras: os músicos instalaram-se, a Magdalena Kožená entrou. Estranhei os sapatos, porque eram de cunha, elegantes mas sobretudo confortáveis. Da última vez que a vira naquela sala, tinha cantado Das Lied von der Erde em cima de uns saltos vertiginosos. Também a vi a actuar na Paixão segundo São Mateus, mas era a encenação do Peter Sellars, estavam todos descalços, não contou. Foi então que comecei a apreciar o vestido, e vi: está grávida. Vai nascer mais um Rattlezinho daqui a uns meses!

No meio dos aplausos, a minha amiga A apontou-me lugares vazios na primeira fila, mesmo junto ao palco. Ufff! Eu estava um bocado atrapalhada com a cena triste em que a tinha envolvido, mas ela é ainda mais maluca que eu. Tão bom!
De modo que no intervalo desistimos da cervejinha e da Bretzel, e alapámos nos lugares da frente. Claro que os meus vizinhos queridos do segundo andar tinham de passar por nós, e tinham de contar o que se riram ao ver a cena com o Simon Rattle. Mas tudo está bem quando acaba bem: na segunda parte do concerto a Magdalena Kožená estava mesmo à nossa frente, o vestido muito elegante oferecia-se em mil detalhes, a voz também.

Um concerto muito bom. Os Violons du Roy apresentavam-se pela primeira vez na Filarmonia, e algo me diz que vão voltar. Enfim, pensando bem, não posso dizer nada, porque só vi a Pascale Giguère, primeiro violino. O Labadie que me perdoe, mas desta vez até me esqueci de olhar para o maestro. E mal reparei nos outros músicos. Só havia aquela violinista impressionante, cheia de nervo e graça. E a voz da Kožená, e o primeiro sorriso que fazia no fim de cada peça, o mais doce: para o marido e o filho, sentados na sexta fila.

No fim do concerto juntou-se um grupinho de portugueses, e aprendi a diferença entre Bola de Ouro e Bota de Ouro (para que conste que na Filarmonia se aprende sempre muito).
Depois fomos beber uma cervejinha em homenagem da Bola de Ouro (ou seria a Bota? oh, não, lá terei de voltar à Filarmonia para aprender isso bem) do Cristiano Ronaldo.

(Chegada aqui, apercebo-me do disparate: então eu mando o brio para as ruas da amargura e ponho-me a fazer títulos palermas e notícias parvas para aumentar o tráfego no blogue, mas esqueço-me de fazer um contrato prévio de publicidade com o Millennium BCP? Está visto: ainda tenho de aprender muito antes de me tornar num fenómeno de sucesso desse submundo do jornalismo português...)









Mais um momento Caras: adorei a sinfonia do Haydn, "La Reine". Já tenho uma coisa em comum com a Maria Antonieta. E isso me basta - não é preciso que alguém se lembre de me encurtar 25 cm a contar de cima (não me dava jeito).

E um momento sério, para não se perder o post todo: o arranjo instrumental que Les Violons du Roy tocaram para o Arianna a Naxos foi o de um autor desconhecido, encontrado no espólio musical da família Martorell da Biblioteca do Congresso em Washington. O programa dizia que é muito mais rico que o simples arranjo com base na partitura do piano. Gostei muito (pelo menos da parte tocada pela Pascale Giguère) mas não sei dizer se o acompanhamento nestes vídeos é o da família Martorell ou o mais commumente usado, a partir do piano.


ADENDA (pequena atenção do meu telemóvel jurássico)





1. estudantes portugueses
2. amiga B
3. vizinhos simpáticos
4. Simon Rattle
5. lugares vazios na primeira fila

16 janeiro 2014

não há cá conhaques

Hoje terminei um projecto importante, que me ocupou muitas horas nos últimos dois anos. Contas fechadas, no momento de me despedir da pessoa com quem trabalhei tão bem durante todo este tempo, lembrei-me do Mourinho.
Mas tive juízo, claro, que trabalho é trabalho, não há cá conhaques, cada macaco no seu galho, etc.
(Isto sou eu a ver se me fazem um descontinho no preço da nacionalidade alemã)




15 janeiro 2014

inventem-se novos santos



O problema do Hollande, como antes o do Clinton e tantos outros, não reside propriamente neles, mas em nós: é a nossa sociedade a fazer um auto-retrato de si própria no modo como reage às andanças amorosas dos seus políticos. É também um marco neste caminho que vamos inventando para o nosso próprio futuro.
Dá vontade de largar um, bem, calateboca.
Inventem-se novos santos para consumo próprio, e deixem os políticos em paz.






(Daqui. Quadro de Lucas Cranach, o velho - que tinha uma fantástica capacidade para estampar a estupidez e o ódio na cara dos defensores da Lei, da Ordem e da Moral. Está num museu em Weimar, juntamente com uma cena da Paixão: a do escárnio, cheia de broncos.)


14 janeiro 2014

para o almoço: Haydn e Ravel

Terça-feira, dia de Lunchkonzert na Filarmonia. Estava a trabalhar na biblioteca ao lado, fiz um intervalinho à hora do almoço - como uns 1600 berlinenses e turistas, todas as semanas.

Hoje foi a vez do Philharmonia Klaviertrio Berlin, com dois músicos da Orquestra Filarmónica (violino: Philipp Bohnen; violoncelo: Nikolaus Römisch) e Kyoko Hosono ao piano.

Tocaram um trio para piano de Joseph Haydn (G-Dur Hob. XV:25) e outro de Maurice Ravel (Klaviertrio a-Moll).

Sentada no chão, bem perto do palco, ao lado das pessoas em cadeiras de rodas, durante o primeiro andamento do Haydn deixei o pensamento vaguear: como seria ouvir esta peça naqueles palácios escuros, com cabeleiras cheias de pó, no meio de gente a cheirar mal por todos os poros e roupas? Seria possível abstrair do contexto material para ouvir apenas a maravilha da música?

O segundo andamento começou então, e eu esqueci o chão frio sob o meu vestido fino, a senhora rezingona atrás de mim, o barulho das crianças ao fundo da sala, as tosses. Aqueles três, e em especial o violino, levaram-me para um lugar perfeito muito longe dali.

Voltei à terra com o terceiro andamento. Os músicos estavam a divertir-se imenso com a música, e contagiavam o público.




1. Andante
2. Poco Adagio. Cantabile
3. Rondo all'Ongarese. Presto


O Maurice Ravel também foi muito bem interpretado, mas desta vez foi-me difícil acompanhar a passagem para outro século e estilo. Já tinha ganho o dia com o Haydn, e em especial com aquele segundo andamento.



1. Modéré
2. Pantoum. Assez vif
3. Passacaille. Tres large - (attaca:).
4. Finale. Animé.