19 março 2012

diálogos de culturas



No sábado passado participei numa visita guiada a Neukölln - um dos bairros mais problemáticos da cidade, ao que dizem. Um dos eixos centrais deste bairro é a Karl-Marx-Straße, predominantemente turca. O outro é a Sonnenallee, mais árabe. Nós andámos sobretudo pela zona da Karl-Marx-Straße.

O Comenius Garten, um jardim filosófico perto da Richardsplatz:


Entrámos numa loja de vestidos de festa, onde a nossa guia falou das festas tradicionais turcas e da circuncisão dos rapazes como rito de entrada no mundo dos homens, e onde nos mostraram as várias maneiras de arranjar o lenço que cobre a cabeça das mulheres. Curioso como algumas dessas maneiras citam o ideal de beleza feminina do antigo Egipto:

 

A loja estava em saldos - óptimo! óptimo!
Azar, azar: não encontrei nenhum vestido de jeito para a próxima quarta-feira, e começo a ficar um bocado aflita sem saber que vestir para atravessar a passadeira vermelha da première do Russendisko. E se testasse aquela minha teoria sobre Berlim, e se fosse em chinelos e pijama? Melhor não, ainda me arrisco a aparecer na capa da Gala: "Matthias Schweighöfer foi buscar a sua avó ao lar de terceira idade).

Seguimos para um café turco, com as paredes pintadas de vermelho e decoradas com várias bandeiras de clubes de futebol. No balcão havia um cesto de maçãs para as pessoas se servirem. As bebidas não eram muito variadas: chá, ou café solúvel. O importante não são as bebidas, disse a guia, mas que as pessoas tenham um local para se encontrarem, para verem futebol juntas. E acrescentou que o letreiro sobre a porta, "reservado a sócios", mais não é que uma maneira de pagar menos impostos.


Mais à frente, passámos pelo Stadtbad. Um balneário construído no princípio do séc. XX, com piscinas entre colunas artísticas, esculturas várias, mosaicos e frescos. Um sonho, a preços normalíssimos. Já tínhamos estado lá com os miúdos, e só nos assustámos um bocadinho com o dístico junto à caixa: "É proibido trazer armas para este estabelecimento".

Ao lado, abriu recentemente um centro de educação cultural e artística para as crianças mais novas. De pequenino se enriquece o pepino, enquanto se pinta e trabalha com barro fala-se alemão: uma entre outras maneiras de dar aos filhos dos emigrantes a possibilidade de romper os círculos de pobreza.



A visita terminou numa mesquita. Era a hora da oração. A guia vestiu uma saia comprida por cima da sua minissaia, controlou que nenhum de nós tinha roupa desrespeitosa para o local, e disse às mulheres que podiam tapar a cabeça com um lenço, mas não eram obrigadas. Cubro a cabeça, ou vou assim?, pensei eu, e não cobri. Tirámos os sapatos, entrámos, sentámo-nos ao fundo da sala. Os homens sentavam-se à frente, alguns olhavam para trás e falavam connosco. O muezzin passou por nós, a caminho do seu lugar, e saudou-nos amigavelmente: bem-vindos, bem-vindos! O imam sentou-se no seu estrado, à frente de todos.
A oração começou com um canto do muezzin. Uma melodia que nos agarrava e levava para outro mundo. Agarrem-me, que eu converto-me...
À nossa frente, os homens concentravam-se cada um na sua própria oração. Por uns momentos agitavam as mãos abertas ao lado das orelhas (como crianças imitam orelhas de elefante), um gesto que significa "deixo o mundo para trás, nada disso me interessa agora, quero estar inteiramente nesta oração". Depois faziam uma profunda vénia, erguiam de novo o tronco, punham-se de joelhos e pousavam a cabeça no chão. Levantavam-se, repetiam. Como cada um o fazia segundo o seu próprio ritmo, o grupo formava ondas sempre em movimento, e na sala havia uma estranha energia. Depois o imam começou a recitar versículos do Corão, e o movimento tornou-se uníssono: os homens juntaram-se ombro com ombro, curvavam-se e ajoelhavam ao mesmo tempo.

E nós ali, na mesma sala, sem nos darmos sequer ao trabalho de mostrar um pouco de respeito pondo um lenço na cabeça. Entre os visitantes, um casal conversava numa surdina demasiado alta.
Senti vergonha: pelas nossas cabeças descobertas, pela barulheira que o casal fazia - nós, bárbaros. E admiração: pela impressionante tolerância com que éramos recebidos.


No fim da oração, o muezzin e o responsável pela mesquita ficaram a conversar connosco. Explicaram o relógio electrónico ligado a um computador, que indica a hora certa de cada oração segundo a posição do sol nesse dia, exemplificaram alguns ritos do imam para orações especiais, responderam às nossas perguntas.
O muezzin ainda não falava muito bem alemão, e o outro tentava ajudá-lo, o que tornava a conversa uma divertida cena de Dupond e Dupont:
- Na mesquita qualquer pessoa pode ler o Corão, mas convém que o saiba ler bem.
- Sim, até um rapazinho pode ler, desde que leia bem.
- Mas costuma ser o homem mais velho.
- Tem é que ler bem, porque há letras que se confundem, o "ha" e o "ra", por exemplo, só se distinguem por um ponto...
- Temos o "ha" e "ra", são muito parecidas...
- E uma forma a palavra "criar", a outra "barbear"...
- "Criar" ou "barbear", conforme tenha ponto ou não...
- E então podes ler "Deus criou o mundo" ou "Deus barbeou o mundo"...
- Conforme saibas ler, dizes "Deus criou" ou "Deus barbeou", já faz alguma diferença, e é só um ponto.

Explicaram também a importância dos ombros unidos: no Islão, o "nós" é muito importante; o "eu" não existe. E disseram porque não havia mulheres naquela oração: ou ficam no fundo da sala, ou rezam noutro lugar. Mas não se devem misturar com os homens, para não os distraírem. "Nada contra as mulheres", dizia um deles. "Mas se vêm para o meio de nós, não nos conseguimos concentrar na oração".






Despedimo-nos, calçámos os sapatos e saímos para a rua. A visita terminou numa padaria turca, da cadeia Leckerback, que quase não se distingue de uma padaria alemã.

E assim se passou a nossa visita ao problemático bairro turco da cidade. Fiquei com vontade de pedir outra, desta vez para os lados da Sonnenallee: uma incursão ao lado árabe, para tentar finalmente descobrir os maus, que no sábado passado não os encontrei entre os turcos...

13 comentários:

mdsol disse...

: )))

ana disse...

quando voltarmos a berlim, oferecemo-nos para te levar lá - afinal é o nosso bairro! :)

Helena disse...

Ana, podem voltar: já há sol!
E sim: adorava passear por esse bairro convosco.

André Pereira Matos disse...

Para mim, que estou a fazer uma tese de doutoramento sobre as relações UE-Turquia, este post soube-me especialmente bem. Obrigado por partilhar connosco estas experiências e ajudar a matar um bocadinho as saudades de Berlim. Se não se importar, vou partilhar este link com os meus amigos. :) Obrigado!

Helena disse...

André, esteja à vontade!

Leonor disse...

Já estive duas vezes em Neukölln, na Karl-Marx-Strasse exactamente mas nunca fiz uma visita guiada, só em Kreuzberg :)
'Sonnenallee' faz-me lembrar o livro do Thomas Brussig. Fiquei de olho quando vi a placa a indicar a rua em Neukölln.

sem-se-ver disse...

well, helena,

fizeste mais pela aproximaçao entre pessoas com diferentes credos neste teu post que muitos livros e outros tantos discursos bem-intencionados...

beijo

Helena disse...

Sem-se-ver, quem fez mais pela aproximação entre pessoas com diferentes credos foram aqueles turcos simpáticos. Eu limitei-me a descrever.
:-)

sem-se-ver disse...

nada. foste tu, com a tua descrição.

(não teimes que eu hoje estou irritadiça! :D

Helena disse...

pois fui, sem-se-ver, pois fui! Tens toda a razão, estás cobertinha dela.

(e eu cobertinha de pó, devia limpar melhor aqui debaixo da cama, onde me meti agora mesmo...)

;-)

Mudando de assunto para algo mais interessante: adorei o teu post do Big Fish. Vou comprar o DVD. E eu a pensar que era uma palermice qualquer! (que seria de mim sem ti - a sério!)

Helena disse...

Ao anónimo que aqui deixou um comentário que começava com "Cuidado!" e me avisava sobre o islão e os muçulmanos: desculpe, mas não quero dar eco a esse tipo de discurso no espaço deste blogue.
As generalizações são muito perigosas ("os muçulmanos são todos assim" "os católicos são todos assado") e não nos ajudam a construir o essencial: um mundo onde haja espaço para todos, e respeito entre todos.

Sabemos onde o medo e a desconfiança nos levaram já (só da minha pequena rua berlinense foram 30 judeus para Theresienstadt e Auschwitz).
Parece-me que vale a pena tentar caminhos novos, em vez de repetir estes que só conduzem à desumanidade.
Não estou a sugerir que "nos deixemos mansamente enganar por eles", mas que estejamos atentos e abertos a cada pessoa concreta, em vez de lhe pormos à partida um carimbo de "perigoso". Conheço dezenas de muçulmanos, e nenhum deles me deu alguma vez motivos para desconfiar e ficar de sobreaviso.

sem-se-ver disse...

looooooooove the idea que por causa de mim vais ver aquela maravilha!! :)

espero que gostes :))

sem-se-ver disse...

(sabes uma coisa? eu acho que muita gente nem dá oportunidade ao filme por causa do título)

(qt ao mais, bela resposta tua ao anónimo)