22 março 2011

está tudo louco?

Ou é só meia dúzia?
A Helena Ferro de Gouveia conta o caso, e nota os sintomas de totalitarismo.
Eu prefiro pensar que é só um magote de malucas que resolveram invadir um igreja durante a celebração da missa para fazer figura de parvas. Que idade terão elas? Isto parece coisa de gente a sofrer de adolescentice aguda, em último grau de desespero.

Contudo, nestes momentos lembro-se sempre do poema de Brecht: "do rio que tudo arrasta, se diz que é violento..."
A que violências é que essas raparigas terão sido submetidas para precisarem de fazer tal palermice? Ou: de que demónios interiores se quererão elas libertar, que precisam de subir a um altar? Não devem ser pêra doce, esses demónios que as habitam...

Mais poderosos que os demónios que habitavam os stasi e os polícias que no Outono de 1989 atacavam cidadãos da RDA: o espaço da Igreja foi sempre respeitado. Nem sequer os demónios das nossas políticas territoriais ousam invadir as casas das Igrejas na Europa para expulsar os estrangeiros que lá encontraram abrigo contra as leis que os querem expulsar do país. Mas estas mocinhas, ah! valentes!, entram numa igreja, fazem o que querem, e não têm cultura ou consciência que as trave. Pobrezitas.

8 comentários:

A. Castanho disse...

Helena, terás alguma razão (e eu até acho que os demónios que infernizaram a vida a estas mocinhas deverão ter sido, porventura, os Pais que as "educaram" e os Padres ou Freiras que as "catequizaram", mas isso ficaria para outro momento).


Agora, o que não posso deixar passar sem a minha crítica é a boçal leviandade do escrito da Helena de Gouveia, que não se enxerga no disparate verbal inequivocamente terrorista que é comparar uma acção de jovenzinhas adolescentes e potencialmente cretinas com todas as barbaridades possíveis de conceber no mítico reino do Muçulmanistão, onde cabe toda a intolerância, estreiteza e preconceito deste Mundo.


Já alguém disse que, numa discussão política, o primeiro que se socorre de Hitler para argumentar algo perde. Eu generalizo este aforismo para Estaline, Salazar, Vasco Gonçalves e os Talibãs. Já aborrece...

Helena disse...

Eu estava mais a pensar nos pais que não as educaram...

Agora, vamos com calma: não são jovenzinhas adolescentes. São estudantes universitárias, e por isso gente adulta e imputável. Se sofrem de adolescentice aguda, isso já é coisa para o tribunal e o psiquiatra discutirem, e ver se são perigosas... ;-)

Eu compreendo a perspectiva da Helena Ferro de Gouveia: os princípios que as movem são totalitários. Em termos de atitude, profanar um espaço religioso não anda muito longe de destruir budas gigantes. E nesta acção bem se pode dizer que cabe toda a intolerância, estreiteza e preconceito deste mundo, para usar as tuas palavras.

De facto, o que mais me surpreende ao olhar para este caso, é dar-me conta que a polícia política da RDA, regime ateu e profundamente ateizante, respeitou o espaço da igreja e do centro paroquial onde os manifestantes se refugiavam. E estas malucas são tão ignorantes e cegas que entram por ali dentro como se fosse a praia do Meco.

A. Castanho disse...

Helena, vamos respeitar o "princípio da proporcionalidade" nesta conversa, pode ser?

Se tu insistes nos Budas gigantes (cuja destruição foi de facto uma monstruosa barbaridade) e até na «Stasi», da antiga R. D. A. (cujas brutalidade e discricionaridade estão mais do que comprovadas), a propósito de um episódio trivial e inconsequente protagonizado por meia dúzia de idiotas práticamente inofensivas, eu vejo-me obrigado a responder com a mesma medida desproporcionada e a afirmar, babosamente, que uma Doutrina que há meia-dúzia de dias ainda combatia o uso do preservativo em África, apesar do flagelo da SIDA, é tão ou mais criminosa e "totalitária" do que a Santa Inquisição. Este tipo de discurso leva-nos a algum lado?...

Agora, o que pode ser uma discussão interessante é a comparação entre um acto eminentemente libertário e provocatório, como o das mocitas, e o eventual embrião de um pensamento totalitário.

Estou convencido, porém, de que se trata de um salto muito difícil de defender, em termos de pura lógica, parecendo-me muito mais uma muleta retórica fácil, mas completamente estafada, muitíssimo comum no espaço de discussão pública em Portugal, actualmente, onde se banalizaram até à náusea palavras fortes e densas como "totalitarismo", "fascismo", "ditadura", "criminoso", a propósito de coisas banais e subjectivas, sempre que escasseia a capacidade argumentativa!

É por isso que me aborreço bastante sempre que tropeço em mais um exemplo deste tipo de "facilitismo" retórico, tão arrogante quanto estéril...

Helena disse...

alto, alto!
Quem é que alguma vez disse que em África não se deve usar o preservativo?
O que a Igreja Católica diz é que o pessoal devia ter juizinho e tento na ahem, calateboca, e praticar a monogamia e a abstinência, em vez de confiar que os preservativos tudo resolvem. No entretanto já mudaram ligeiramente o discurso (eles aprendem, devagarinho mas aprendem)
Que a solução do preservativo pode sair furada, parece-me que é uma obviedade. Que a solução proposta pela Santa Madre é algo que duvido que até alguns de entre os santos conseguissem, também.
Mas daí a dizer que os preservativos são pecado, só mesmo padres a quem saiu a vocação na farinha Amparo, e pessoas que meteram a seriedade na gaveta.

Quanto ao resto, bem mais importante: eu tenho estado a olhar mais para esta fronteira que nem os gajos da stasi ultrapassaram, e elas sim senhor, problema nenhum. É de pasmar: tanto o respeito que os stasi demonstraram, como a falta de respeito destas. Caso para perguntar: para elas já não haverá nada sagrado?... ;-)

A Helena Ferro de Gouveia olhou para os tiques totalitários.
Pergunto-me se isto é um caso de reacção a uma força opressora, ou um caso de imposição totalitária. E...

Ai! Agarrem-me, que estou a ver que vou concordar contigo! ;-)

A. Castanho disse...

OK, mas olha lá a traduçãozinha...

camalees disse...

Desculpem-me intrometer-me na vossa discussao. Mas a atitude da jovens estudantes universitárias espanholas é

a) criminosa em sentido literal ( uma vez que o Código Penal espanhol criminalis a ofensa contra o sentimento religioso)

b) encerra em si elementos/tiques totalitários no caso específico o desrepeito pela liberdade individual( o direito de exercer a sua fé).

c) nas escolas alemas lê-se muito cedo Die Welle, um livro que explica a facilidade com que cada um de nós pode ser manipulado por ideologias totalitárias/faschizoídes.
Nao se trata de uma "muleta retórica" mas da desconstrucao anlítica de uma atitude.

Sao apenas breves notas porque tenho uma emissao para coordenar.

Cumprimentos

Helena

Helena disse...

Por lapso eliminei um comentário do A.Castanho, que fui repescar e aqui publico, pedindo desculpa ao seu autor:

"camalees", veja lá bem o que diz: a) como sabe, "criminosa em sentido literal" é apenas quando existe uma sentença juducial transitada em julgado, ou seja, após todos os possíveis apelos; b) não houve qualquer "desrespeito pela liberdade", muito menos individual, houve apenas uma manifestação ofensiva às crenças alheias, o que é muito diferente; c) a facilidade com que cada um de nós pode ser manipulado por sentimentos e impulsos totalitários nada tem a ver com a pecha recorrente, em Portugal, que é o uso de conceitos e expressões fortes e desproporcionados quando os argumentos escasseiam, que me parece ser também o seu caso.


Mas apareça com mais tempo, depois da emissão, porque costuma ter comentários muito certeiros e interessantes...

A. Castanho disse...

Helena, não precisas de pedir desculpa: quantas vezes não apaguei eu já os meus próprios comentários antes de os publicar, por azelhice momentânea...